Dias em que Ireas Keras consolidou sua fama em Rookgaard... E aprendeu a odiar.
Além de Khaftos, conheci outro rapaz chamado Shambler; diferentemente de Khaftos, ele não era muito amigável — seu olhar era extremamente ameaçador; seus olhos dourados brilhavam de um modo fantasmagórico à noite.
Ele tinha cabelos ruivos como o sangue e uma pele pouco mais morena que a minha. Ele carregava consigo uma espada longa e fina, porém mortal — a chamada katana. Ele vinha seguindo a mim e Khaftos fazia um tempo, e tinha nos levado ao local onde obtivera essa arma. Eu e meu amigo de maior data vendemos as nossas, pois não era de nosso interesse carregar mais peso conosco.
Ainda que Shambler se mostrasse muito solícito, não confiávamos muito nele — especialmente eu. Não gostava da atitude e modos daquele sujeito, pois tinha o receio de que algo ruim nos acontecesse...
Junto a Khaftos e Shambler, montamos um time para buscar um tesouro guardado por minotauros em um local não muito distante da cidade. Os outros não pareciam tão preparados como nós — na realidade, estavam bastante temerosos. Muitos já haviam encomendado suas almas a Crunor através de Cipfried, que simplesmente sorria ao ver vários jovens juntos em uma única missão.
Aquele mesmo time já havia marchado conosco até onde um antigo dragão habitava. Todos nós estávamos bem armados, e víamos naquela última missão em grupo uma oportunidade de fazermos amizades que durariam a vida toda...
Até então, eu acreditava nisso.
***
Éramos sete, se não me falha a memória... Estávamos todos animados: gritávamos, pulávamos, corríamos como bobos alegres, que não tinham nada a não ser belos sonhos e perspectivas para o futuro.
Khaftos e Shambler estavam ao meu lado, prontos para comandarem aquela tropa. Nós passamos pela ponte que separava a cidade da natureza selvagem. Um a um, fomos interpelados pelo guarda Dallhein, que não conseguia ocultar a felicidade e o orgulho em ver algo que ele acreditava ter desaparecido há tempos — trabalho em equipe.
— Aonde vai, Keras? — Ele me perguntou sorridente.
— Vou enfrentar o maior desafio que essa ilha poderá me oferecer... Antes de partir para sempre! — Respondi com a mesma animação — Deseje-nos uma boa luta!
— Sempre... — Assentiu o guarda, orgulhoso.
Depois que o time inteiro descera as escadarias, eu fiz um sinal para que parassem – eu tinha alguns comunicados a fazer.
— Por favor, escutem — Pedi, erguendo a mão esquerda a fim de que pudessem me ver — Aonde vamos agora é um local perigoso. Poucos escaparam com vida para contar a história. O que vamos fazer será o seguinte — fiz uma pausa enquanto juntava as palmas de minhas mãos à frente de meu rosto — Vamos ferir os ogros o bastante para que nos deixem em paz. Nosso foco será os minotauros e nada mais, entendido?
— E os outros animais? — perguntou-me um dos outros membros do time — Que faremos com ele?
— Deixe-os — Respondi com um discreto sorriso — Se não forem minotauros, não há porque matá-los. Afinal, todos estão alimentados e com reservas de comida suficiente para essa jornada, certo?
Todos assentiram menos Shambler, que virou o rosto em outra direção. Certamente ele não concordava com a minha visão de mundo – para ele, tudo aquilo que anda e não é humano carrega algo interessante o bastante para valer a pena matar. Quanto desperdício.
Eu então os orientei a me seguir. Enfileirados e em silêncio, todos desceram as escadas de mármore. Eu não toquei no rato que a guardava, simplesmente segui em frente, e os demais me imitaram. Shambler o matou, e eu comecei a me irritar com aquela atitude.
Os trasgos começaram a aparecer, e todos foram de encontro a eles. Eu, por outro lado, só ataquei aqueles que me atacaram diretamente; nunca fui de fazer movimentos desnecessários. Consegui algumas moedas, cordas, botas e outras armas, as quais seriam vendidas depois aos comerciantes interessados.
Então, descemos até um local que possuía um labirinto cheio de lobos. Seus uivos eram praticamente ensurdecedores. Sinalizei aos outros que se mantivessem por perto, e pedi que se locomovessem depressa.
Muitos lobos vieram até nós. Estranhamente, nenhum deles me atacou; simplesmente pararam, me cumprimentaram com um discreto aceno de cabeça, e saíram de meu caminho. A minha alegre surpresa duraria muito pouco, pois vi Shambler matar um deles tão logo que se afastaram de mim. Meu sangue começou a ferver ainda mais...
Chegamos ao fim do labirinto com nenhuma perda. Havia apenas uma menina ferida; encarreguei-me de cuidar de suas feridas com poções e curativos que aprendi a fazer com Hyacinth. Logo ela ficou pronta para continuar, e se juntou a nós. Seu nome era Annika, uma moça de cabelos negros e traços eslavos (lembrava-me uma princesa de um conto de fadas que Amber costumava ler para nós — infelizmente escapou-me o nome), armada com um arco e várias setas. Mais uma vez, pedi que o time mantivesse o posto.
— Nós estamos no final dessa jornada — Eu disse solene — E temos que ser ainda mais cuidadosos. No momento em que descermos a esse local, muitos minotauros virão sedentos por sangue. Até agora, vocês fizeram tudo o que pedi, e não me desapontaram. Sei que sairemos vivos e ricos daqui. Preciso que cada um de vocês cuide do próximo; encarreguem-se de, no mínimo, um minotauro: será o suficiente para manter a segurança do time. Se algum de vocês estiver com dificuldades, grite pelo próximo, não tenham vergonha! Somos um time: chegamos até aqui unidos, e sairemos daqui unidos!
Ouvi brados de alegria e a exaltação de meu nome. Como fui tolo em acreditar naquelas palavras. Se ao menos eu soubesse o que viria a seguir, jamais teria feito tudo o que fiz... Jamais teria feito aquela missão se eu ao menos soubesse o que iria me custar...
***
Descemos, e logo fomos cercados pelos homens-touro; tolos que meus companheiros não eram logo seguiram meu plano, e começamos a ganhar terreno. Eu fui cercado por duas dessas criaturas, que rapidamente eliminei. Eles carregavam consigo itens interessantes, porém não os peguei. O tesouro me interessaria mais.
No entanto, eu não contava com a esperteza daquela raça de criaturas; começaram a vir mais daqueles monstros do que eu esperava. Eu logo descobri a razão.
— Shambler.
Aquele traidor, com mil diabos! Eu sabia que ele estava tramando algo! Ele havia aberto uma sala cheia de minotauros — ele só havia nos seguido para obter mais lucro. Mais dinheiro tinto de sangue.
Eu vi meus companheiros perderem terreno, e intervi rapidamente. Não me lembro de quantos homens-touro mandei conversarem com o Divino, mas juro que foi por uma boa causa.
Meu sangue já estava fervendo, e eu senti um novo sentimento crescer dentro de mim — ódio. Jamais havia sentido algo assim, e Shambler era o responsável por tudo isso. Eu estava recoberto de sangue, e vi a morte de três de meu time. Khaftos ainda estava vivo, mas tinha dificuldades de respirar. Eu o escondi atrás de várias caixas, torcendo para que os demais minotauros não o atacassem.
Annika ainda estava de pé. Éramos eu e ela contra Shambler e os demais minotauros. Começamos a ganhar mais terreno. Eu bloqueava as criaturas para ela enquanto a garota atirava flechas envenenadas naqueles seres. Shambler começou a se irritar, e decidiu partir para a artilharia pesada — ele abriu outra porta.
Outra vez começamos a perder. Eu não tinha condições de continuar bloqueando; tive que avançar, e forcei Annika a empunhar uma arma de corpo-a-corpo. Ela abriu um dos baús de tesouro, e dele tirou uma linda e resistente espada. Matamos mais minotauros.
Aquela matança desnecessária estava me deixando nauseado; Shambler parecia estar se divertindo às minhas custas. Foi então que, juntando meu ódio, minha repulsa e o desespero que sentia que vi o pior acontecer.
Dizia a lenda que um minotauro possuidor de mágicos poderes vivia nas profundezas dessa ilha. E que ele, somente ele, teria a passagem para um lendário reino de homens-touro nas profundezas do grande continente Tibia. Eu sempre achei que, de todas as histórias que já ouvira em minha vida, essa seria a menos possível de todas. Eu estava equivocado. O Aprendiz Sheng — esse era seu nome — existia; ele estava lá, vivo e sedento de sangue.
Annika não resistiu à luta, e morreu diante de meus olhos. Eu joguei seus pertences ao moribundo Khaftos, que lentamente se recuperava, e parti para a ação — eu não deixaria Shambler me vencer tão facilmente.
Eu abri todos os baús de tesouro, e me apropriei dos pertences neles encerrados. Para minha surpresa, vi Shambler correr em minha direção como uma criança perdida e assustada — seu plano estava falhando, pois os minotauros, guiados pelo Aprendiz, vinham em sua direção.
— Salve-me, Keras! — Ele implorou desesperado.
Algo realmente havia mudado dentro de mim, pois eu teria salvado o rapaz sem pestanejar, fossem os tempos diferentes... Mas não eram. Eu havia me tornado indiferente à existência daquele sujeito. Minhas últimas palavras a ele foram as seguintes:
— Não te salvarei; que você morra nas mãos do senhor dos homens-touro dessa localidade, pois eu te odeio. Odeio tudo o que você representa. Odeio aqueles que não amam a Natureza, que fazem dela o que bem entendem sem fazer caso dela. Vocês me enojam. Vá para o Inferno, que é o seu lugar.
Quando terminei de proferir minhas palavras, Khaftos já estava de pé e tinha adquirido suas recompensas. Juntos, saímos do local, deixando Shambler morrer sem nada fazer.
Erguemos um túmulo em homenagem aos mortos em combate — em homenagem à sua bravura. Eu finquei a espada de Annika junto ao túmulo dela, e fiz as devidas preces a Crunor e aos demais deuses, para que eles guardassem bem as almas daqueles que se foram — graças às ações de Shambler.
Voltei à cidade junto a Khaftos, vendemos as armas, e não proferi uma palavra sequer.
Continua...
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Nota da Autora: Obrigada a todos que estão lendo e comentando! Obrigada pelo suporte e pelas dicas! Continuem lendo e expondo suas opiniões por favor!
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Última edição por Iridium; 22-07-2012 às 19:50.
Razão: Trocando hífens por travessões!
Essa história me lembra aquelas novelas medievais, misturado é claro com um pouquinho da nossa boa e velha linguagem coloquial. A frase de Iridium à Shamber me lembra um pouco sobre Rei Arthur(Contos originais mesmo, ou "A demanda do Santo Graal".)
Enfim, bom capítulo. Continue, começo está excelente, se continuar assim logo vai virar uma história épica por aqui.
Última edição por Senhor das Botas; 03-07-2012 às 12:18.
Não espere algo bem elaborado e feito. De resto...
Devo dizer que gostei demais da sua história. Ainda não lí tudo, lí até o final do capítulo dois, pois estou sem tempo agora, mas prometo que irei ler tudo.
Gostei demais da sua história, de verdade. Você escreve muito bem, e você pegou num ponto que amo: RookGaard.
Só não se esqueça que a Amber pode te ajudar na sua história, viu? Ela é sobrevivente dos Orcs, ela mais do que ninguém sabe a língua deles.
Só vou citar um único ponto que ví, e achei estranho. Foi aqui:
- Sempre! – Respondi, com um leve sorriso. – Se não for desse modo, que graça tem a vida?
Até esse momento, você tava levando a história sendo contada em 3ª pessoa, e no meio de tudo você mudou pra primeira. Acho que você deveria ter terminado essa frase em terceira pessoa, e depois sim iniciado em primeira. Tente ler novamente lá, ficou meio estranho.
Mas, só isso. Você escreve muito bem, de verdade. E concerteza seguirei e acompanharei sua história.
@merchan: Comecei uma aqui na seção também, e vai falar bastante de RookGaard, espero que acompanhe, me ajudando e criticando também.
Essa história me lembra aquelas novelas medievais, misturado é claro com um pouquinho da nossa boa e velha linguagem coloquial. A frase de Iridium à Shamber me lembra um pouco sobre Rei Arthur(Contos originais mesmo, ou "A demanda do Santo Graal".)
Enfim, bom capítulo. Continue, começo está excelente, se continuar assim logo vai virar uma história épica por aqui.
Obrigada *.* Prometo que farei meu melhor com a história, obrigada pelo feedback
Postado originalmente por Legendary Claus
Olá.
Devo dizer que gostei demais da sua história. Ainda não lí tudo, lí até o final do capítulo dois, pois estou sem tempo agora, mas prometo que irei ler tudo.
Gostei demais da sua história, de verdade. Você escreve muito bem, e você pegou num ponto que amo: RookGaard.
Só não se esqueça que a Amber pode te ajudar na sua história, viu? Ela é sobrevivente dos Orcs, ela mais do que ninguém sabe a língua deles.
Só vou citar um único ponto que ví, e achei estranho. Foi aqui:
"- Sempre! - Respondi, com um leve sorriso. - Se não for desse modo, que graça tem a vida?"
Até esse momento, você tava levando a história sendo contada em 3ª pessoa, e no meio de tudo você mudou pra primeira. Acho que você deveria ter terminado essa frase em terceira pessoa, e depois sim iniciado em primeira. Tente ler novamente lá, ficou meio estranho.
Mas, só isso. Você escreve muito bem, de verdade. E concerteza seguirei e acompanharei sua história.
@merchan: Comecei uma aqui na seção também, e vai falar bastante de RookGaard, espero que acompanhe, me ajudando e criticando também.
Até.
Te confesso que também não soube como faria a mudança adequadamente... Na nossa cabeça, tudo fica corretinho, sabe? Eu deveria ter escrito algo como (Narrado por Fulano)... Vou editar já já! Obrigada!
Ah, e com toda a certeza que darei um apoio à sua história, e considerarei o que a Amber tem a dizer sobre os Orcs E também lerei sua seção,pode apostar xD
O dia em que Ireas Keras desenvolveu hábitos peculiares... E salvou a vida de muitos.
Após ter retornado à cidade, fui afligido por uma estranha doença, como meu amigo Khaftos também foi. Nossos corpos foram atacados por um tipo de fungo que deixava cicatrizes profundas e dolorosas por onde se alastravam, as quais eram difíceis de serem tratadas.
Como Khaftos retornara à cidade muito ferido do combate com os homens-touro, ele não durou muito — a doença o levou dessa existência em menos de 3 noites, deixando-me solitário em Rookgaard. Outra vez.
Eu sobrevivi àqueles dias de dor e sofrimento de uma forma que nem sei explicar. Lily e Hyacinth tiveram muito trabalho, pois os remédios que faziam não conseguiam eliminar completamente as colônias de fungos em meu corpo. Felizmente, no quarto dia de luta, vi-me curado. Ou perto da cura completa...
Eu fiquei com sequelas; alguns fungos alojaram-se por baixo de minhas unhas, e a consequência disso foram rachaduras e, em seguida, queda de cada unha que tinha em minhas mãos.
— Como me livrarei disso? — Indaguei furioso e receoso acerca de meu futuro.
— Paciência, Keras — Disse Lily, sentando-se ao meu lado. — Felizmente, há cura... Mas o tratamento será demorado...
— O que terei que fazer? — Indaguei impaciente e claramente agoniado.
Notei que ela havia sorrido de um modo forçado, como se estivesse impedindo um riso de sair. Comecei a me intrigar... E a me irritar.
— Diga, por favor! — Implorei frustrado — Eu não quero perder minhas mãos!
— Bem... — Ela começou, retirando da manga direita de seu vestido um pequeno frasco com um líquido azul — Isso é Resina de Mirtilo; esse é o remédio que você deverá passar em suas unhas, todos os dias, com esse pincel aqui — ela abriu a tampinha do recipiente, revelando um fino pincel embebido na resina — eu te ensinarei a fabricá-la, pois ninguém sabe fazê-la além de mim e Hyacinth, e você não pode ficar refém de enormes estoques, pode?
Ela tinha razão. Eu não poderia simplesmente gastar todo o meu dinheiro naquele composto; eu teria que aprender a fabricá-lo, ou poderia correr o risco de perder minhas mãos. Ela anotou as instruções em uma lista de forma detalhada, a fim de que eu não me esquecesse de nada.
— Guarde essa lista com a sua vida — Ela me disse, solene, ao me entregar o papel — Um frasco desse tamanho tem resina o suficiente para um mês, se você não exagerar na aplicação. Como você sempre teve o costume de coletar mirtilos, não terá dificuldades em fazer essa resina...
— Obrigado — Eu disse, pegando o frasco — Como faço para aplicar?
— Deixe-me mostrar... — disse a farmacêutica, abrindo o frasco e retirando o pequeno pincel — Empreste-me sua mão esquerda — Obedeci, e observei a dama pintar minhas unhas como se fosse uma artista — Agora, a direita. Não se preocupe seca rápido... — Ela fez um trabalho tão primoroso nessa mão quanto fizera na outra. — Pronto — Ela disse, tampando o frasco e guardando-o em minha mochila. — Você está livre para ir... Há mais alguma missão para fazer antes de partir?
— Na verdade... — Comecei pensativo — Vascalir pediu-me para cuidar de certo ogro xamã... Bem, depois de ter arriscado meu pescoço para derrubar o túnel criado pelos trasgos, pegar um livro de linguagem ogra da biblioteca, encontrar veneno de vespa, pegar um osso com carne de uma cripta, recolher a teia de uma aranha para lá de asquerosa... Acho que devo fazer valer meu esforço. Estou de saída, e obrigado pelo medicamento... — Na saída, murmurei para mim mesmo — Ainda que seja um tanto humilhante...
As atividades a que me referi haviam sido feitas de forma solitária, pouco antes de ir ao Inferno dos Homens-Touro. Segundo Vascalir, o tal ogro escondia-se nas profundezas de uma fortificação ogra não muito distante do local onde encontrei as vespas.
Antes de chegar à ponte de Dallhein, verifiquei se em minha mochila havia tudo o que precisava.
— Comida, corda, pá... Os itens que Vascalir me deu — Disse a mim mesmo — Estão aqui. Seguindo viagem...
Subi as escadarias e cumprimentei Dallhein como de costume. Segui viagem rapidamente — quis evitar distrações, pois queria sair de Rookgaard o quanto antes. Eu tinha muito a fazer... Muitas perguntas para responder.
***
Cheguei sem dificuldades à fortificação. Entrar é que foi um pouco mais complicado, pois tive que procurar por algo que pudesse facilitar minha entrada. Felizmente, um ogro distraído foi minha saída, e usei suas roupas e couro para me disfarçar.
Fui-me valendo dos itens dados por Vascalir na medida em que avancei pela fortificação; o osso foi perfeito para atrair uma multidão de cães famintos para perto do guarda da escadaria; o veneno foi colocado na sopa do ogro xamã, o outro guarda foi imobilizado pela teia da aranha rainha... Tudo estava certo. Não haveria erro algum. Desta vez, seria apenas eu contra esse ogro, e seria perfeito.
Comecei a mexer nas alavancas. Uma a uma, fui trilhando o caminho em direção à sala daquele nefasto ser. Até então, eu nunca havia sido ameaçado por ele; contudo, ouvi histórias sobre seus atos e como os sobreviventes conseguiam chegar a Rookgaard — a maioria chegava com enormes ferimentos, fossem eles cortes ou queimaduras, arrastando-se pelo chão e implorando a Asralius que salvasse suas vidas. Os tempos em Rookgaard mudaram; essa ilha não é mais pacífica como costumava ser, e tudo graças a esse ogro...
Depois de encontrar o Aprendiz Sheng, aprendi a não subestimar um adversário. Não sabia se os métodos de Vascalir conduzir-me-iam à vitória, mas dei uma chance a eles. Respirei bem fundo e observei a chama violeta à minha frente. Era chegada a hora... Hora de combater meu último adversário em Rookgaard. Por mim, por Khaftos e por todos os habitantes dessa amável ilha que sofreram nas mãos dessa criatura hedionda.
— Vamos lá... — Respirei bem fundo, e fui de encontro às chamas.
Assim que cheguei ao recinto, empunhei minha maça e preparei-me para o combate. Aquele ogro — Kraknaknork era seu nome — me encarou com escárnio e desprezo. Ele empunhou seu cajado e veio de encontro a mim.
Procurei quebrar suas costelas; estava com tanta raiva que nem sentia o que fazia; cada golpe, cada movimento... Não me lembro de quase nada daquela luta, apenas de imagens soltas — o rosto de Kraknarknok sendo esmagado, demônios enfraquecidos caindo pelas mãos do próprio mestre, minhas feridas reabrindo... Sangue por toda a parte e uma náusea infernal.
Quando o ogro dera seu último suspiro, corri para sua sala de tesouros, e deparei-me com alguns outros habitantes daquela ilha que, como eu, haviam tentado combater o ogro — mas falharam, e foram feitos prisioneiros.
Falei muito pouco com eles — procurei não me apegar para que as mortes deles não viessem a partir meu coração como as de Annika e Khaftos. Eram cinco no total, que resgatei após ter pegado minhas recompensas. Eles começaram a se recuperar aos poucos, e foi o bastante para que chegássemos à cidade — inteiros e ouvindo o clamor de uma multidão de rookgaardianos exultantes e agradecidos.
Muitos me chamaram de ‘salvador’, ‘senhor conquistador’, ‘grande guerreiro’, e assim se sucederam os apelidos. Cada um dos habitantes de Rookgaard que fizera parte do processo de meu crescimento me cumprimentou. Vascalir não conseguiu ocultar sua alegria diante da situação. Achei até engraçado — ele, que sempre prezou por ser tão frio e calculista... Talvez eu jamais entenda aquele sujeito.
Após ter entregado a Amber os feridos, fui até o templo a pedido de Asralius e Cipfried – ao que parecia, eles tinham algo para mim.
— Venha, meu jovem — Pediu Cipfried — É chegada a hora do adeus.
— Nem me fale — Respondi, tentando conter as lágrimas que teimavam em descer pelo meu rosto – O que quer me dizer?
— Há muitas coisas que ocultei de você, jovem Ireas... — Ele começou misterioso – As circunstâncias de seu nascimento... As suas origens... Antes que você saia para conhecer o mundo, é necessário que você saiba de algo...
Antes que eu pudesse fazer mais perguntas, o velho monge entregou-me uma rosa azul e uma carta selada, destinada a mim. Minhas mãos tremiam visivelmente quando peguei os objetos. Finalmente eu teria respostas...
— Agora vá, meu filho — Disse Cipfried tristemente — Vá viver sua vida; só te peço uma coisa: nunca me esqueça... E nunca se esqueça de todos os que fizeram parte dessa fase de sua vida.
Assenti afirmativamente e segui meu caminho em direção ao prédio da Academia. Primeiro, vendi meus itens, depois fui conversar com a Oráculo...
(Encerrada a narrativa de Keras)
O monge observou o rapaz até a chegada dele à velha estátua da Academia. Asralius não pode deixar de notar a apreensão de seu superior.
— O que te aflige? — Quis Asralius saber, apreensivo.
— Ah, meu amigo... — Disse o monge, suspirando — Se você soubesse... Se você ao menos tivesse visto a mãe desse rapaz... Você entenderia.
— Refere-se àquela tempestade? — Indagou o jovem cultista.
— Não... — Respondeu o monge sério — Aquele ato não reflete nem um centésimo da capacidade daquela mulher... O que me assusta mais, contudo, não é o que ela é hoje, mas o que ela outrora foi... E o que temo que Ireas venha a ser...
— Como assim? — Indagou Asralius, fascinado.
— Sabe essa devoção toda que Ireas tem com a natureza? — Indagou o monge de forma retórica — A mãe desse menino tinha essa mesma paixão... Essa devoção... Que chegava a ser tão furiosa que a fazia cometer atos hediondos e impensados...
— Pela natureza? — Asralius continuou seu jogo de perguntas, buscando mais informação.
— Não... — Respondeu o monge com um sorriso triste, para a surpresa do jovem cultista — E acho que essa será uma das maiores decepções da vida desse rapaz se ele conseguir encontrá-la. Dizem as lendas que ela se tornou uma feiticeira formidável, inigualável em seu poder... Uma verdadeira força da natureza destrutiva dos humanos... Um dia, Keras a encontrará... E por Crunor espero que esse garoto não termine como ela...
Continua...
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Nota da Autora: hoje eu coloquei uma imagem do Ireas no tópico do concurso PVP... Bem, como estou sem o link agora, basta procurarem por lá. Farei uma versão dele com o Terra Set completo para ficar bem druídico – a versão que está lá é a do Glacier Set (incompleto, pois não desenhei a Glacier Mask...)
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Última edição por Iridium; 22-07-2012 às 19:58.
Razão: Trocando hífens inadequados por travessões =D
2- Nefasto? Nunca tinha ouvido essa palavra antes, depois eu pesquiso o significado.
3- Pelo o que eu percebi, você estava desde as 18:30 "respondendo o tópico"... Quer uma dica? Escreva no World em partes(como eu e uns 90% da seção fazem).
Enfim, de qualquer modo, ótimo capítulo. Caso esteja "entediada" da história, pode procurar o Torneio Roleplay(em busca de um desafio, o próximo Torneio só daqui um ou dois meses.)
É isso. Até mais.
EDIT:
Navegando pelo tópico do concurso PvP que a Iridium mencionou, e...
Antes de tudo, começo ressaltando que tudo que digo é obviamente a minha opinião e por isso mesmo pode diferir muito do que outros leitores pensam.
Olha, depois que terminei de ler sua história por completo, eu fiquei matutando uns tempos aqui comigo mesmo. Como eu já havia dito em outro comentário, os primeiros me pareceram meio "genéricos". Mas ao ver a obra como um todo eu percebi a beleza da sua história.
Sim, porque se tem uma palavra pra descrever essa história, pra mim essa palavra é "bonita".
Tudo, as descrições, as palavras usadas durante a narrativa, os sentimentos dos personagens (aliás, um ponto fortíssimo da história, comentarei mais abaixo), tudo se junta para formar um belo conto. Os últimos capítulos apresentam um nível de escrita difícil de se encontrar por aqui. Não que não hajam alguns errinhos aqui e ali, ou algumas passagens que soaram estranhas pra mim, mas no geral o nível é muito bom.
Sabe, eu nunca procurei descrições épicas de ações e guerras durante essa história, ou narrativas de aventuras que duram capítulos inteiros (não que elas não existam ou não possam existir!). Pra mim não é aí que está o ponto forte dela. Esse ponto forte é justamente os personagens e suas interações entre si. Isso pra mim é o que distingue de fato essa história de outras atualmente ativas na seção.
Não sei se tem a ver com o fato de você ser mulher, mas você tem facilidade em incluir e trabalhar coisas como romance e amor. Normalmente, não são elementos facilmente encontráveis por aqui em história escritas por "autores".
Eu mesmo, na maioria das vezes, passo longe desses temas em minhas histórias, justamente por medo de criar situações e personagens artificiais (isso sempre foi um problema meu, hoje menor, mas ainda existente por vezes). Todos temos muito a evoluir nesse campo, mas sua história, na minha opinião obviamente, é a que melhor explorou temas assim desde que voltei a frequentar a sessão. O fato da história abordar homossexualismo é apenas a cereja do bolo.
No entanto, talvez por você ser uma autora e não um autor, eu senti que algumas passagens, que deveriam soar mais impactantes e chocantes, acabam por não terem bem o efeito esperado, por apresentarem descrições muito brandas, suaves, "femininas". Entende? Sua história não tem muitos casos assim, felizmente, mas é um problema comum para algumas autoras do gênero. Vide J. K. Rowling e Harry Potter, por exemplo. Tem várias passagens que exemplificam o que eu estou tentando falar.
Fora isso, não tenho mais muitas críticas a fazer por enquanto. Sua história é uma das melhores da sessão atualmente. Espero que a conclua algum dia, demore o tempo que for preciso.
Até!
“The big questions are really the only ones worth considering, and colossal nerve has always been a prerequisite for such consideration”. - Alfred W. Crosby
Uma história bombou enquanto a minha estava de férias!!!
Logo que eu terminei o Livro I essa história começou a já tem mais de 20 capítulos!!!
Tem gente aí falando que é melhor que a minha :'(
Já sei que você é uma ótima escritora, então vou começar a ler, mas não sei quando vou terminar...
Boa Sorte e não desanime!
Só para dar algum palpite, eu achava melhor chamar os habitantes de Port Hope de "Portenhos"! Porto-esperanto ficou um pouco estranho Poderia também ser Porto-esperantano (pra terminar em "no"), mas aí ficaria um pouco grande.... Acho que o "Portenho" ficaria dez... ou talvez "Esperantano"... de qqr forma, valeu pelos gentílicos, vou usar eles na minha história! Só vou mudar o Portenho msm!
Gosta de Roleplay?
Então pegue uma xicará de chá, sente-se e leia a história de Dan da Cidade de Carlin.
Oba, comentários! Mais uma vez, peço desculpas pela demora... To com uma penca de deveres para terminar, um Blog para atualizar e um vestibular para fazer hahahahahaha
Bem, hora de responder às pessoas (tenho q parar com essa mania de citar... Os posts ficam gigantes...):
@EDIT: Rá, agora que sei usar a spoiler tag, ficou tudo mais fácil!
Spoiler: Comentários Anteriores...
Postado originalmente por CarlosLendario
E mais um excelente capitulo!
Muito bom Iridium! Como sempre um capitulo excelente e ainda mais com uma novidade, como essa magia. Na hora que vi as descrições das nuvens achei que Ireas tinha mesmo parte do poder do mal da mãe dele, mas não parece mesmo. Gostei dessa magia...
Agora que essa mestra está dominando mesmo... Liive contra Wind! Vai ser muito bom! Vai acontecer isso mesmo? Diz que sim...:'(
E o feiticeiro pirata, até me esqueci dele... Acho que em algum momento ele vai ser muito util para o Ireas, também se o Wind quiser treta com o Ireas por causa das "cartas falsas". Espero que esse momento chegue logo!
To esperando o proximo capitulo, vamos que vamos! E também não deixe de visitar minha historia ^^
Obrigada!
O feiticeiro aparece lá pela parte "Os Dizeres de Tothdral" da história (caps. 9 e 10), bem no comecinho =D
Hm... Liive vs. Wind? Veremos, veremos... Ireas está passando por muitas coisas, bem como o nosso amado mundo tibiano...
Mais uma vez, obrigada por ler e acompanhar =D
Postado originalmente por Senhor das Botas
Agora ferrou ;X
Btw, agora eu sei o que você planeja. Ireas em vez de usar a energia vital como muitos magos e druidas fazem, vai reuni-lá do ambiente ao seu redor, ficar fodão temporariamente e vencer a todos, parecido com um Modo-Sennin.Desculpa pela narutagem, não encontrei explicação melhor.
No aguardo do próximo.
Hahahahaha! Tudo bem, às vezes é bom valer-se de algum anime para explicar algumas situações... Eu adoro usar a "lógica" dos Cavaleiros do Zodíaco para explicar determinadas coisas x)
Será que Ireas fará isso mesmo? É o que descobriremos... mais tarde! Obrigada por ler e acompanhar xD
Postado originalmente por Secret Facts
não se preocupe, passei pra falar também que estou lendo e gostando da estória!! Cap. 10!
Tranquilo! Postei um off-assunto em sua disputa só de vingança hehehehehehehe
Brincadeirinha... É bom saber q vc está gostando e acompanhando. Aperte seu cinto e prepare seu coração para o que vem a seguir.Garanto q vc vai gostar =D Obrigada por ler, comentar e acompanhar
Postado originalmente por Gabriellk~
Demorei, mas vim. =D
Por que é que não existem magias de água no Tibia mas existem de gelo? Até alguns bichos tem magias aquáticas e os players não. :/ Sentido cade?
Sobre o capítulo em si, não tenho nenhuma crítica a fazer. Você consegue dar vida e sentimentos a um mundo feito de um amontoado de pixels. Raríssimas vezes o mundo de Tibia me pareceu tão real.
Enfim, esse capítulo foi melhor que o anterior, e espero que pior que o próximo também, rs.
No mais, nada mais. Estou esperando o próximo.
Até!
É,também não vejo lá muito sentido hehehehehe Vai ver pq não habitamos Calassa...
Fico feliz que eu consiga transmitir essa sensação de realidade para vc... É uma das melhores sensações para mim ^^
Continue a ler e comentar por favor =D
Postado originalmente por Danboy
Nãããão!
Uma história bombou enquanto a minha estava de férias!!!
Logo que eu terminei o Livro I essa história começou a já tem mais de 20 capítulos!!!
Tem gente aí falando que é melhor que a minha :'(
Já sei que você é uma ótima escritora, então vou começar a ler, mas não sei quando vou terminar...
Boa Sorte e não desanime!
Só para dar algum palpite, eu achava melhor chamar os habitantes de Port Hope de "Portenhos"! Porto-esperanto ficou um pouco estranho Poderia também ser Porto-esperantano (pra terminar em "no"), mas aí ficaria um pouco grande.... Acho que o "Portenho" ficaria dez... ou talvez "Esperantano"... de qqr forma, valeu pelos gentílicos, vou usar eles na minha história! Só vou mudar o Portenho msm!
Poxa, obrigada por comentar =D
Bem, quanto a ser melhor ou não... Não sei se posso dizer algo. Cada escritor tem seu estilo,não? Bom,só de colocarem minha história em patamar semelhante,ou superior, à sua já me faz feliz por ter uma história de alto escalão =D
Em relação aos gentílicos, apoio muito q vc mude o de Port Hope, mas manterei o meu. A explicação? É simples: variantes em gentílicos enriquecem o roleplay. Considerarei adicionar "Esperanto" invés de "Esperantano" por questões de sonoridade mesmo. Agradeço muito a sugestão, sério mesmo =D
No mais, obrigada por dar o ar de sua graça aqui. Espero que a leitura seja bem prazerosa para você. Se eu conseguir tempo, começarei a ler as histórias de Dan desde o princípio, pois há muito não a leio. Obrigada por ler e comentar =D
@OFF: Você poderia me dizer como fazer para criar a janelinha que oculta os capítulos como você faz em sua história, a fim de economizar espaço? Estou precisando de uma dessas no índice...
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Sem mais delongas, ao capítulo de hoje.
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Capítulo 25 – Atos de Guerra (Parte 5) – Fogo
A guerra contra Morgaroth continua...
(Narrado por Andarilho do Vento)
É hoje o dia D! Graças aos reforços trazidos por Solaria, a esposa de Mandarinn, estamos prontos para enfrentá-lo. Brand acordou com um humor alegremente sombrio: estava pronto para mandar demônios para o abismo, e tratou de organizar as tropas. Como eu era um dos poucos Cavaleiros de Elite restantes, ele fez questão de me dar equipamentos melhores oriundos do Continente de Zao, que me dariam mais velocidade, força e defesa. Perfeito.
Nossos bravos Feiticeiros e Paladinos estavam prontos, e os Druidas, fossem humanos ou elfos, viriam logo atrás. O cheiro de carne queimada, de pó e decomposição assaltou nosso olfato e quase nos fez recuar. Mas não hoje.
Ouvimos rugidos vindos do final do ducto vulcânico; eram demônios e, a julgar pelos ecos, cerca de dez. Eu sorri maleficamente e ordenei aos Cavaleiros que me seguisse a fim de bloquear o avanço dos seres vermelhos e imponentes.
— Vamos, senhoras! — Zombou Brand enquanto usava seu Arco-de-Chifre Composto para atirar com precisão nos monstros — Não viemos tão longe para tricotar! Temos um mundo para salvar!
“Exevo Gran Mas San!” — Gritaram os Paladinos em coro, fazendo chover luzes santificadas naquele ambiente escuro e corrupto. Os demônios começaram a queimar e agonizar,mas mantinham-se fortes e tentavam esmagar-nos com suas enormes caudas e queimar-nos com os incêndios que conjuravam.
Os feiticeiros recuaram para dar lugar aos Druidas e sua Ira da Natureza.
“Exevo Gran Mas Tera!” — Proferiram 3 Druidas Veteranos em coro, chamando cipós,vigas, raízes e afiadas folhas em seu auxílio, prendendo as crias do inferno que, incapazes de cortar-lhes as amarras, eram enforcados pela ira da Mãe Natureza.
Três demônios caíram nessa empreitada. Restavam sete. Vi-me bloqueando dois deles, pois meu parceiro havia caído sem que me houvesse dado conta. Comecei a enfrentar dificuldades, pois não havia um Druida Veterano sequer perto de mim, e minhas poções reforçadas de cura estavam chegando ao fim. Apesar de minhas investidas, a dupla demoníaca não queria recuar por nada nesse mundo.
Um deles conseguiu dar-me um pontapé que me perfurou o abdome, quase ceifando minha vida ali mesmo.
Contorci-me de dor e ingeri uma poção rapidamente; contudo, seu efeito estava demorando mais que de costume para se manifestar, e os demônios logo perceberam minha fraqueza e preparavam-se para investir.
Fechei meus olhos e a imagem de Ireas veio à minha mente. Ele estava em minha casa, em Svargrond, com um daqueles manjares de que tanto gostava em sua mão esquerda e um bloquinho de papéis em suas mãos. Diziam-me que ele adorava desenhar, e que o fazia muito bem. Ele me observava com seus lindos olhos da cor das safiras, pedrarias tão comuns de Ankrahmun... E sorria para mim.
Eu estava deitado em minha cama coberto de ataduras. Ele se acercou de mim e acariciou lentamente meus cabelos.
— Hora de descansar — Ele me dizia, beijando minha testa — Você já se esforçou demais... — Ele descansava seu rosto sob sua mão esquerda, fitando-me com um sorriso e um olhar bem terno.
Sentia a morte chegando cada vez mais perto. Logo aquela visão agradável começava a embaçar e sumir, e o silêncio logo chegaria. O silêncio do descanso eterno.
— Acorda, preguiçoso! Desaprendeu a lutar?!
Eis que sou novamente trazido,bruscamente,ao mundo dos vivos. Meus olhos se abriram rapidamente em um espasmo, e vi os demônios caírem ante o machado de um bárbaro que conhecia bem: Liive do Inferno.
À medida em que apoiava minhas mãos no chão buscando forças para me levantar, alguns questionamentos passaram a assaltar minha mente. Eu não o esperava ali; antes da força Expedicionária Norsir ter saído de Hrodmir, ele havia deixado bem claro que não participaria do curso dos eventos. O que o teria forçado a sair de Svargrond? E por quê agora?
Consegui ficar de joelhos, e meu abdome já apresentava uma cicatriz bem marcada, típico queloide de guerra. Minha espessa franja ruiva caiu sobre meu olho esquerdo, cuja pálpebra estava tinta de sangue. Eu estava ofegante; não de cansaço, mas de uma raiva que começava a crescer em mim.
O bárbaro usou Estacas Abençoadas para converter os corpos daqueles demônios em pó. Quando ele havia terminado sua ação, eu ouvi o rugido de outros dois demônios morrendo também. Restavam, portanto, três. E o bárbaro acercou-se de mim com um sorriso zombeteiro e um olhar maligno, incomum à sua pessoa.
— E pensar que você já conseguiu dar-me um cacete federal em uma das Arenas de Svargrond... — Disse-me com reprovação em sua voz — Você está ficando fraco, caro Andarilho. — Ele me ofereceu a mão esquerda a fim de que pudesse me levantar. Aceitei de mau grado.
— Você está atrasado — Respodi-lhe em um tom não muito amistoso — Por que não veio junto com as demais tropas Norsires?
— Não gosto de multidões... — Respondeu-me com zombaria evasiva, com um irritante sorriso em seus lábios. Ele se virou para fitar o grandioso incêndio que forçava os Druidas a usarem mais energia em combate — Quanto tempo acha que falta para chegarem à Morgaroth?
— Não muito. Algumas horas mais, talvez — Respondi-lhe desafiador — Veja só, o trio de demônios sobreviventes recusa-se a cair...
Não precisei dizer mais nada,pois o bárbaro correu até eles com uma sede de sangue feroz. A fim de fazer valer minhas vitórias na Arena e desmentir os dizeres do ruivo, fui de encontro aos seres vermelhos, as crias do Inferno, os coisas-ruins.
“Exevo Gran Mas Frigo!” Gritaram os Druidas em conjunto; havia chegado bem em tempo para ver o vendaval gelado abater o trio de demônios que se mostrava completamente desfigurado pelos ataques de Paladinos e Cavaleiros. Havia muitos furos e cortes em seus corpos, e me fascinava a resistência dessas criaturas.
Um urro de alegria dado por um dos anões ali presentes iniciou o coro de celebração. Quando estava prestes a celebrar, recebo uma bofetada na cara que me faz ir ao chão.
— Seu irresponsável! — Era Brand quem urrava comigo e que me dera o soco — Não disse que era para você aguardar o ataque dos Paladinos antes de dar o sinal para os Cavaleiros avançarem?!? Por acaso você não percebeu que estamos quase sem Bloqueio?!
Eu já me preparava para protestar, mas Liive interveio, para minha surpresa.
— Tenha calma, Brand... — Disse o bárbaro com uma pacificidade anormal — Em uma guerra, as coisas costumam fugir ao controle dos generais... — Ele me lançou um olhar zombeteiro — Andarilho deve estar arrependido de ter-lhe desobedecido... Duvido que ele venha a repetir esse feito.
Senti meus punhos se fecharem fortemente, e juro que quase avancei no bárbaro desejando estrangular-lhe. Contive-me,contudo, e recebi o sermão de Brand a contragosto.
Ao menos estávamos onde queríamos chegar: os Portões da Câmara de Morgaroth. Um local que,segundo a lenda, seria habitado pelo demônio e estaria cheio de lava, bem nas entranhas do vulcão de Goroma. Brand nos instruiu a revestir nossos equipamentos com uma resina a base de fruta-do-dragão que, em teoria, servia para proteger-nos do fogo e calor intensos da residência do arqui-demônio.
— Agora é hora da festa... — Disse Rei Jack com um tom alegre, tentando romper com as tensões entre eu, Brand e Liive — Vamos separar homens de guris agora!
Ouvimos as portas baterem sob a ação de uma força interna. Um rugido rouco,majestoso e aterrador tomou conta do ar, e Brand sorriu.
— De fato... — Ele piscou seus olhos vermelhos lentamente enquanto se virava em direção aos portões. — ARQUEIROS!
Paladinos, fossem humanos, elfos ou, ainda que raros, anões, todos atenderam ao comando de Brand, deixando seus arcos e bestas tensionados. Os lanceiros já estavam com suas lanças Etéreas em riste, prontos para disparar se Brand assim quisesse.
— FEITICEIROS!
Os mestres dos raios, do fogo e das maldições deram um passo à frente munidos de poções e suas runas mais poderosas e adequadas para a ocasião, as de Morte Súbita,Bomba Energética e Tempestade de Raios. Alguns já preparavam até runas típicas de Druidas — Avalanches — para lançarem em conjunto.
— DRUIDAS!
É claro, os Senhores da Natureza não podiam faltar. Eram, em sua maioria, elfos Continentais, armados até os dentes com magias de gelo e terra, com suas runas de Avalanche e Banho de Pedras prontas para serem lançadas. Por fim, o comandante-em-chefe das forças tibianas olhou para mim, Liive e um grupo formado por poucos humanos e muitos anões, que ficava mais numeroso à medida em que as tropas Kazordanis chegavam até o local em que nos encontrávamos.
— CAVALEIROS!
Era a nossa hora. Posicionei-me ao lado de dois anões: um, o da minha direita, ruivo como eu; o outro, à minha esquerda, era já um senhor de cabeleira grisalha e sede de sangue. Os portões estavam quase cedendo, e já podíamos ver a cara horrenda de Morgaroth do outro lado. Suas mãos enormes já posicionavam-se externas às portas que o mantinham cativo. Malditos Cultistas.
— O PORTÃO VAI CEDER! — Rugiu Brand com um sinal que nos obrigava a manter a posição. A madeira quebrava e voava longe, forçando a todos os presentes usarem seus escudo a fim de evitar uma morte dolorosa pelas farpas da porta, que mais pareciam estacas.
Um estrondo foi o que ouvimos e, quando nossos escudos voltaram às posições normais, Morgaroth já estava diante de nós. E Brand soltou o comando:
— ATACAR!!!
O que houve em seguida foi uma chuva de flechas, pedras, estacas de gelo, raios, trovões e nuvens de peste, todas desferidas contra o demônio. Os paladinos não tiveram tempo de entoar o coro da Caldeira Divina, pois o demônio fora mais rápido, e já invocava demônios para auxiliá-lo em sua conquista.
— Morram,vermes! — Rugia Morgaroth em zombaria — Seus poderes serão usados para alimentar Zathroth!
— Jamais! — Rugi em resposta, jogando minha espada contra o demônio, acertando seu músculo trapezoidal, causando-lhe dor momentânea. Ele riu e continuou a tentar incendiar tudo a sua volta.
Ele arremessou minha Espada Esmeralda para longe, e um sorriso de escárnio brotou em seu semblante indescritivelmente horrendo. Seus demônios nos forçaram a recuar alguns metros, e tivemos que nos apressar para não perecermos ali mesmo.
Sinalizei para que os anões me seguissem e bloqueassem os seres vermelhos antes que pudessem causar mais dano. Os Paladinos estavam buscando posições mais afastadas do conflito corpo-a-corpo. Em princípio, acreditei que fosse uma estratégia deles para evitar ferimentos graves, e não era.
Suas munições estavam quase no fim, e precisavam conseguir mais. Eu vi Brand e Jack passarem rapidamente por mim, como que pedindo para que lhes comprasse mais tempo, e eu atenderia as preces de ambos.
— Ei, vermelhão! — Urrei para o demônio que seguira os dois paladinos e perdera o rastro de ambos. Ele estava a vinte metros de mim, mais ou menos — É você mesmo! Quer um desafio?! Que tal me enfrentar?!
Ele urrou em resposta, atracando-se a mi com violência tal que abri uma cratera de profundidade razoável ao ir de encontro ao chão de pedra ígnea. Empunhei minha espada e preparei-me para investir contra a criatura das trevas.
— Morra em nome de Zathroth! — Urrou a fera conjurando uma esfera de eletricidade, a qual jogou contra mim.
Tal como um raio, levantei e desviei da bola mortal. Eu sorria como uma criança fascinada com a perspectiva de fazer algo perigoso e sair bem-sucedida de sua ação, com uma nova história para contar aos demais de sua idade.
Corri em direção à fera, que me recepcionou com um belo par de garras afiadas e mortais; por muito pouco ele não as fincou em meu peito, visto que eu havia escorregado pouco antes, e agarrei-me ao braço do ser vermelho.
— Trapaceiro! — Urrou a fera ao ver-me lá. Em resposta, zombeteiramente ofereci-lhe minha língua e finquei minha espada em seu musculoso antebraço, rompendo-lhe tendões e quebrando-lhe os dois ossos. Em represália, ele me arremessou de encontro à parede da caverna.
Minha cabeça girava; ainda que meus olhos se recusassem a abrir, eu sabia da presença do demônio. Seus passos faziam a terra tremer levemente, e, a julgar pelos intervalos das passadas, ele vinha devagar, certamente para apreciar minha morte.
Um urro da criatura faz-me abrir os olhos bruscamente.
— Aí, grandão! — Era Jack quem exclamava, com a besta carregada em mãos — Venha brincar!
A criatura espumava de ódio à medida em que Rei Jack continuava a disparar mais e mais virotes em seu musculoso e rubro corpo. O sangue espirrava aos borbotões, e o demônio não parava de esbravejar toda a sorte de injúrias que pudera até seu último suspiro. Nem mesmo nossas mães escaparam da fúria do ser das trevas.
— Obrigado por conseguir mais tempo para nós,mas eu ainda te considero o cavaleiro mais tresloucado e irresponsável que já vi em minha vida.
Era Brand quem falava a sorrir; ele me ofereceu o braço esquerdo para me ajudar a levantar. A essa altura, Rei Jack encontrava-se banhado em sangue demoníaco, e procurava nas entranhas do demônio qualquer coisa que fosse de valor.
Liive, em contrapartida, refestelava-se em uma orgia de combate, atirando suas armas de encontro ao peitoral infame e herege da prole mágica de Morgaroth que, àquela altura do combate, era bloqueado por cinco bravos anões.
O Norsir havia acabado de cortar fora a cabeça de uma das crias do Inferno quando me pus firme sobre meus pés. Assim que meu olhar se cruzou com o dele, não pude evitar uma onda de ódio que se apossou de mim. Contrário às recomendações de Brand, afastei-me do Paladino Real e fui de encontro aos demônios que ainda estavam em nosso caminho.
A primeira vítima fora um demônio que cercara Solaria e Mandarinn, que novamente via-se acuado e no limite de sua resistência física e mental, com seu estoque de poções quase chegando ao fim. Empunhei minha espada como se fosse uma lança,dobrando meu braço direito a fim de deixar a lâminha em riste, e finquei-a com força sob as costelas daquela massa vermelha e carnuda. Em seguida, ouvi Mandarinn e Solaria conjurarem:
— “Exevo Gran Mas Vis”! — Disse o homem ao invocar a fúria dos céus, fazendo relâmpagos chicotearem o animal sem piedade.
— “Exevo Gran Mas Frigo”! — Conjurou a elfa,mergulhando o demônio em um caixão de gelo e neve. Em seguida, ela correu para reerguer o marido e lançou um olhar de agradecimento para mim — “Exevo Gran Mas Res” — Ela conjurou seu encantamento de cura massiva, que limpou-me as feridas e tranquilizou minha mente, afastando,temporariamente, a vontade estranha que tinha de estrangular Liive.
Um urro gutural e estranhamente majestoso fez com que eu me virasse abruptamente em direção ao som; vi um Pingagua e outros três anões voarem em minha direção,mais rápidos que as bestas disparadas por Rei Jack. Os quatro projéteis vivos foram ao meu encontro, e o impacto gerou outra cratera... E quebrou-me três costelas.
A dor era lacinante,terrível. Tão ruim a ponto de me impedir de levantar. Havia um gosto metálico em minha boca, e era sangue, não havia dúvidas disso.
— Valeu, Pinga! — Tive forças para gritar com sarcasmo, antes de doer-me a respiração, fazendo com que eu cuspisse muito sangue.
— Foi sem querer, cara — Disse-me o druida, ajudando os anões a se levantarem.
— Ah, que beleza... — Disse Mandarinn com sarcasmo e preocupação após examinar-me as feridas — Ele quebrou algumas costelas. Não se mexa, ou vai abrir uma ferida em seus pulmões e nadará em seu próprio sangue. — Em seguida, virou-se para sua esposa — Tome conta dele, meu bem. Tentarei manter Morgaroth e seus comparsas longe de vocês.
Eu jamais havia sentido temor por minha vida até aquele momento. Temia por mim, por meus amigos, e temia por Ireas. Temia não mais poder vê-lo; me doía mais o fato de não ter-me despedido do belo Norsir de forma adequada antes de partir para esse antro infernal. Temia perder minha vida aqui sem que ele se desse conta da verdade, e eu sabia que demoraria demais até que ele pudesse ter experiência o bastante para vir até essa ilha condenada resgatar meu cadáver e velá-lo adequadamente.
Temia sair dessa vida sem ter-lhe dito que amava e que queria bem; se eu me fosse dessa vida, quem cuidaria dele? Quem o ajudaria a encontrar a mãe?
Continua…
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Nota: Editado para modificar o curso dos eventos... E dar a Morgaroth uma batalha justa =D
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Última edição por Iridium; 11-09-2012 às 15:48.
Razão: Alteração no curso dos eventos... E uso da "janelinha"!!! (spoiler tag)