Capítulo 10 – Os Dizeres de Tothdral (Parte 2 de 2)

Dia em que Ireas Keras adquiriu mais poder, elevou-se em sua classe e compreendeu a visão de mundo de Tothdral.

Acordei no dia seguinte com um grande ânimo. Certamente observar a lua fora uma excelente decisão que tive. Aquela luz suave serve muito bem como um calmante...

Assim que despertei, renovei a aplicação da resina em minhas unhas e pus-me a procurar por algum vendedor do novo Cajado de que necessitava. Encontrei uma moça que rapidamente me vendera o objeto por duas mil e quinhentas peças de ouro, bem como outro cajado de gelo, no caso de enfrentar um morto-vivo: o Cajado do Vento do Norte. Guardei meu Cajado da Luz da Lua em meu depósito e fui à banqueira Tesha retirar a quantia que necessitava para receber a promoção de que Tothdral me falara.

Apesar de tudo, dos mistérios de Tothdral e de sua atitude, não pude deixar de perceber que tinha uma admiração por ele. Ele devia estar vivendo há séculos, e ter acumulado tamanho conhecimento era fascinante. Com meus novos armamentos, cumprindo o que me pedira a múmia, segui meu caminho para a torre Serpentina.

Enquanto caminhava, observava os arredores com uma leve distração. Mais uma vez, meu desajeito natural impediu-me de perceber que havia uma pessoa andando em minha direção, e esbarrei nela com tudo, caindo de costas. E novamente envergonhado.

— Ei, olhe por onde anda! — Exclamou o rapaz de vestes piratas e armas de Feiticeiro.

Ainda que fosse um feiticeiro, eu sabia que tinha sido falta de educação e atenção minhas; portanto, tentei retratar-me da maneira mais cordial possível.

— Desculpe, não quis derrubá-lo... — Comecei nervoso e um pouco tímido — Deixe-me ajudá-lo a levantar... — Ofereci minha mão direita ao rapaz, que a segurou com vigor e levantou em um pulo — É novo por aqui também? Meu nome é Sírio Snow e cheguei há pouco em Ankrahmun... Poderia dizer-me onde fica a Guilda dos Feiticeiros?

— Claro! — Gaguejei levemente alterado — Eu estava indo para lá...

— Mas você não é um druida? — Indagou-me Sírio, com estranheza, ao ver meu Cajado Necrótico — Que vai fazer lá?

— Trata-se de uma Promoção de Vocação — Respondi com um ar de orgulho —Tothdral é o irmão de Ishebad, o Grão-Vizir dessas bandas, e também é o responsável por esse tipo de ação. É para isso que estou indo lá...

— Interessante — Respondeu Sírio com um sorriso — Assim que eu tiver os meios, também farei isso...

Nós dois seguimos rumo à Torre Serpentina. Sírio era um rapaz de pele bronzeada, olhos castanho-esverdeados, cabelos castanho-claros, cacheados e amarrados em um alinhado rabo-de-cavalo, trajando um chapéu cinza de pirata, uma blusa branca mais folgada, calças e botas de couro negro. Trazia sua Varinha de Draconia em sua cinta de couro bege, eu Livro de Feitiços normal em seu braço esquerdo. Sua família nascera no mar, assim como ele. Seus pais fugiram do trabalho escravo da Baía da Liberdade e conquistaram sua alforria como piratas, mas Sírio não tinha tanto interesse em seguir esse mesmo destino – ele queria tornar-se o mais conhecido e respeitado Feiticeiro que o mundo já teria visto. Era o primeiro feiticeiro que não citara uma busca desenfreada por poder e destruição. Talvez essa vocação não estivesse tão perdida quanto pensava...

Ele me contou que o sonho dele era poder manipular o fogo e a energia, elementos pouco comuns em sua vida, por ter vivido no mar roubando o que conseguia para sobreviver.

— Sei que muitos detestam piratas — Ele me disse com um sorriso triste —, mas o fazem por não saberem o quão difícil é nossa vida; tivemos que fugir de nosso lar graças aos figurões de Thais, e não tivemos outra opção senão roubar. Se a Baía fosse livre, contudo, meus pais não teriam virado piratas... E não teriam terminado enforcados pelos oficiais thaianos.

De certo modo, eu me identificava com Sírio, pois a vida não fora doce ou boa para nenhum de nós. Ficamos em silêncio ao mesmo tempo em que chegamos à sala de Tothdral.

— Quem de vocês virá falar comigo primeiro? — Perguntou a múmia com sua voz gutural e majestosa.

— Sírio irá — Declarei de modo cavalheiro — Eu posso esperar.

— Que seja — Respondeu cordialmente a múmia — Aproxime-se, jovem Sírio. Que deseja aprender?

Tothdral levou Sírio a um local cheio de pergaminhos de feitiços direcionados à experiência que o rapaz tinha. Apesar das dificuldades da vida de pirata, Sírio tinha uma situação financeira estável, e até invejável para sua vocação. Era tão confortável que permitiu a ele adquirir vários feitiços em um só dia, enchendo Tothdral de trabalho. Não havia nada que aquela múmia não amasse mais que seu trabalho...

Quando encerrou seus negócios com o líder de sua guilda, Sírio acenou para mim, despedindo-se. Eu sorri e acenei de volta. Era minha vez de falar com Tothdral.

— Espero que sua mente não tenha sido consumida pelo ócio — Disse-me Tothdral no tom mais humorístico que conseguira — Vamos tratar dos negócios?

— Sim — Respondi com um melindroso sorriso — Vamos...
A múmia aproximou-se de mim com a mão esquerda próxima ao queixo, com o polegar, indicado e dedo médio acariciando-o em uma postura reflexiva. Ele examinou meu cajado, o meu escudo e as moedas.

— Pois bem, você cumpriu sua parte — Ele declarou solene — Minha vez de cumprir meu trato... — Ele pegou as moedas de cristal e transformou-as em estranhos artefatos — A Promoção de Vocação consiste em um aumento em seu poder como Druida. Basicamente, você vai continuar a adquirir resistência e força mágica como seus companheiros não promovidos. Contudo, os melhores aprimoramentos estão nos menores detalhes — Ele se aproximou, e então eu percebi como ele era assustadoramente alto — Sua recuperação será aprimorada. Seu domínio em seus elementos primordiais (gelo e terra) será aprimorado, bem como você terá acesso a runas que nem mesmo seus conterrâneos de guilda sonham em poder fazer. Outros feitiços de ataque singular e de área estarão disponíveis, dando-lhe forças para combater até uma horda inteira de dragões: e sair vivo e ileso para contar a história...

Ele ergueu os dois artefatos até a altura de meus ombros, entre meu pescoço e o músculo que une meu ombro direito ao meu tronco: um era uma agulha e o outro, um pequeno martelo. Senti meu coração disparar e suei frio. A múmia riu com leveza, e o grave de sua voz fez um frio percorrer minha espinha.

— Tenha calma — Disse ele, examinando a musculatura em busca do ponto perfeito — Eu disse que os melhores aprimoramentos estão nos menores detalhes. Preciso que você remova essa parte superior de sua capa da Concentração, por favor.

Eu obedeci. Minhas mãos tremiam muito. Puxa como aquela múmia me assustava! Ele pôs a agulhinha sobre minha pele, e eu só desejava que aquele ritual acabasse rapidamente. E lá se pôs a múmia a explicar novamente...

— Além de mim, há outras pessoas que tem a habilidade de promover a vocação de cada aventureiro, e cada um marcará o indivíduo de modo diferente: meu irmão Ishebad de Ankrahmun, que faz a mesma marcação que farei em você, Eloise, a Rainha de Carlin, Tibianus Terceiro, Rei de Thais, Emperador Kruzak dos anões da cidade de Kazordoon e Imperador Rehal da cidade de Beregar. Ah, você ainda não conheceu Rehal? — Ele indagou ao ver minha reação ao último nome — Ah, pouco importa aqui. Você o verá mais tarde. Agora, vamos a esse serviço...

A múmia usou o martelinho para romper minha pele, não consegui conter um grito de dor: sentia como se aquela agulhinha estivesse queimando-me ao mesmo tempo em que me perfurava. Tothdral estava fazendo um desenho em minha pele, gravando meu corpo como se fosse propriedade de Arkhotep. Ardia demais...

— Quieto! — Ordenava Tothdral com sua voz grave e imperativa — Já vou acabar...

A múmia fizera o desenho de um Ankh cercado de plantas, com a inscrição Druida Veterano no interior do objeto sagrado, bem como alguns arabescos abaixo do Ankh. Havia o desenho de uma rosa no canto superior direito, uma safira no canto superior esquerdo e uma esmeralda no centro do Ankh. Quando o astrólogo terminou seu trabalho, eu não conseguia mais sentir aquela área, visto que meus nervos haviam sido sobrecarregados pela sensação da dor. Tothdral vestiu minha capa, e eu senti minhas pernas falharem. Eu mal conseguia manter-me de pé.

— Não se preocupe, logo passa — Disse-me a múmia, compadecida de minha dor — Suponho que essa tenha sido a maior dor que sentiu até agora. Bom, se quer saber, não será a pior de todas. Acredite, há coisas piores que a marcação de Promoção, mas o sacrifício valerá a pena, Keras. Pode ter certeza.

Eu assenti vagarosamente, com meus olhos cerrados e a mão esquerda posicionada em minha capa no local onde me fora feito o desenho. Minha mão direita estava apoiada na parede, tentando me manter firme sobre minhas pernas.

Tudo girava. A múmia tentava me ajudar a andar. Ele pôs um de meus braços em torno de seu pescoço e sentou-me em uma poltrona.

— Realmente, você é a essência de um autêntico druida... — Comentou Tothdral, sentando-se na poltrona a minha frente, cruzando as pernas, entrelaçando os dedos das mãos e apoiando os cotovelos nas braçadeiras, além de fitar-me assustadoramente com seu olho dourado. — É fisicamente frágil como a grama sobre a qual caminhamos. No entanto, possui uma integridade mental semelhante à do carvalho que tanto veneram... Sua categoria é fascinante, devo dizer.

Eu sorri lisonjeado. Ser assim elogiado por Tothdral me dava um ânimo renovado.

— Com o tempo, Keras... — Disse o astrólogo — Você terá a verdade, encontrará sua mãe, esteja ela viva ou morta... E tudo se encaixará. O que pude fazer por você eu já fiz. Agora, vá renovar seu arsenal de feitiços com Rahkem. Ele deve estar ansioso para te ver. E, se vir meu irmão, diga que lhe mandei um olá.

Eu assenti afirmativamente e sentia-me um pouco mais forte. Tothdral observou-me sair, seguindo meus passos com seu olho dourado. Eu saí da Torre Serpentina um pouco mais sereno ainda que estivesse sentindo um pouco de dor...

Estava prestes a subir a pirâmide que me levaria ao comerciante de poções Mehkesh quando, novamente, esbarrei em um transeunte, e somente eu fui ao chão. Quando olhei para cima a fim de encarar o dito-cujo, era ninguém menos que o Andarilho do Vento, ou Wind, se preferirem.

— Ireas! — Exclamou o cavaleiro ruivo, tirando-me do chão — Estava procurando por você; mas que coincidência, não?

— Pois é... — Repliquei com as faces um pouco coradas — Que quer comigo?

— Olha, sei que começamos com o pé esquerdo, e que você deve ter-se chateado com minhas brincadeiras — ele começou sem-graça —, mas gostaria de poder considerar-me seu amigo. Você é um magricelinha bacana, e não me sinto bem te vendo sozinho por aqui... — Ele sorriu, procurando quebrar o gelo — Um amigo meu está fazendo uma celebração na ilha de Folda, e eu ficaria imensamente feliz se você desse as caras por lá! Que me diz?

— Verei se posso — Respondi um pouco tímido.

O cavaleiro seguiu seu caminho e deixou-me na ruela de arenito de Ankrahmun. Folda trazia-me lembranças de Edron, quando iniciei minha jornada... Acho que amadureci de lá para cá, e sei que tenho um longo caminho a percorrer. Bem, eu era conhecedor do caminho àquela ilha. Decidi, portanto, ir até lá e prestigiar o convite de Wind...

Continua...

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Nota da Autora: Décimo capítulo \o/ Que venham mais dez!!! Quero saber a opinião de vcs – está bom? Ruim? O que falta? O que está em excesso?

Além disso, Sírio Snow é um tibiano real:

Name: Sirio Snow
Sex: Male
Vocation: Master Sorcerer
Level: 79
Achievement Points: 24
World: Unitera
Residence: Edron
House: Castle, 3rd Floor, Flat 01 (Edron) is paid until Jul 17 2012