Senhores, um milagre!

Um ano e quase dois (ou três) meses depois do último capítulo postado aqui, eis que volto com mais Capítulos de A Voz do Vento!

Quero pedir desculpas a todos pela demora - andei muito desanimada e ocupada com muitas coisas dentro e fora do Tibia, motivos os quais não me permitiram sequer escrever a continuação dessa história. Agora, não tem mais problema.

Estou de volta. E pra terminar o que comecei.

Sem mais delongas, o Capítulo de hoje!


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Capítulo 21 – Os Renegados: REVOLUÇÃO VANDURANA! (Parte 4)

E não importa quem, ou o quê...

(10 Dias antes de Ireas chegar a Ab' Dendriel)
(Narrado por Liive, o Bárbaro)


— Levanta! — Urrei para Icel.

Detonei o cara. Detonei mesmo. Uma lição de vida para o Paladino – nunca brigue com alguém maior, mais forte e mais bárbaro que você. Foi um combate digno, durou até mais do que imaginei que fosse durar – foram horas de troca de socos e pontapés. Sven adoraria ver isso aqui! E eu certamente adoraria repetir essa cena para todo e qualquer bárbaro que quisesse ver.
Caminhei até Icel; ele estava de joelhos, tentando encontrar forças para ao menos seguir respirando. Já havia perdido a graça tudo aquilo. Eu estava estalando meus punhos, esperando uma resposta vinda do franzino Paladino.

— Levanta, cara! — Urrei de novo, sério — Você não queria um combate?! Levanta!

Em resposta, ele simplesmente cuspiu sangue; muito sangue. Ele cambaleava de forma extrema, sequer conseguindo se manter de pé. Aquele adversário já era. E outros também, pois podia ouvir de meu barco os gritos de Thaianos caídos. Já era, galera – a liberdade era nossa. Estávamos ganhando aquela briga, e ganhando por muito.

— Filho da... — Resmungou Icel, cuspindo sangue.

— Não adianta me xingar agora. — Zombei um pouco, oferecendo minha mão — Você luta bem no mano-a-mano para um paladino, Icel. Mas não o suficiente pra me derrubar.

Assim que ajudei-o a se reerguer, senti um solavanco forte abalar a embarcação e arremessar a mim e Icel longe; senti meu corpo bater contra um local rochoso e, depois disso, não senti mais nada.

Apaguei.


***


(Narrado por Sirio Snow)

De repente, ouvi um barulho alto de algo se chocando contra as pedras que protegem a ilha. Senti um frio tomar conta de minha espinha e meu corpo. Assim como eu, Morzan também ouviu o som – e começou a despertar.

— Mais um trouxa! — Ouvi um conjunto de vozes gritar ao longe, mas dentro da caverna.

— Dessa vez, são dois! — Um conjunto falou em coro.

— São quatro, bando de otários! — A discussão começou a ficar acirrada — Os pertences são meus!

Ouvi um conjunto de risadas esganiçadas e comandadas pelo rum, junto a uma salva de tiros e revirar de mesas e cadeiras. Piratas – mas não os que nos ajudaram a se rebelar. Esses de fato não ligavam se os seus compatriotas sofriam ou não nos canaviais da Baía da Liberdade. Esse piratas eram criminosos e renegados – até mesmo para nós.

Tentei examinar o local onde eu e meu irmão estávamos presos – uma cavidade em meio à rocha fria e sólida, com nada além de mim, Morzan e nossas amarras. Nossos equipamentos não estavam mais conosco, e o frio daquele local somado à umidade de nossas roupas casuais já começava a dar os seus primeiros sinais de castigo.

O gemido de desconforto e despertar de meu irmão atraiu meu olhar; suas feridas, diferentemente das minhas, já estavam mais cicatrizadas, porém mostravam claros sinais de infecção. Para nosso infortúnio, não tornei-me versado na arte de curar – contudo, poderia estar em posse de alguma runa que o fizesse. Bastava apenas achar minha mochila.

— Aguenta firme, irmão. —Sussurrei para Morzan — Passamos por coisas piores que essas. Vamos sair dessa inteiros e juntos novamente, como uma família.

Dito isso, tentei me levantar; graças à umidade e péssima conservação das cordas, as fibras que mantinham meus pés presos se rasgaram assim que fiz um esforço maior para separar meus tornozelos; senti um misto de dor e calafrios quando o fiz. As cordas estavam muito apertadas, esfolando com prazer meus tornozelos, os quais estavam em carne viva quando os libertei.

Meu próximo passo foi me desfazer das amarras de meus punhos; dessa vez, eu escolhi recorrer a um meio alternativo – e mais rápido.

Exori Flam. — Sussurrei.

Senti o calor do fogo mágico percorrer meus dedos e atingir a corda, que começou a crepitar tímida, mas constantemente; ela queimou o suficiente para tornar minha libertação possível. Assim como meus tornozelos, a carne de meus pulsos estava exposta, e isso era um perigo.

Exura Gran. — Sussurrei novamente.

Minhas feridas se fecharam em um instante, deixando nada senão a lembrança. Agora, poderia continuar minha missão. Respirei fundo, e caminhei, pé ante pé, em direção à porta. Era um portão de madeira velha, podre e que fedia à umidade, pólvora e bolor, com o trinco e maçaneta completamente cobertos por ferrugem. Sem nada que pudesse emular uma chave, tentei a coisa mais óbvia – virar a maçaneta e torcer para que a porta abrisse. Ao fazê-lo encontrei pouca resistência por parte dela e, por fim, abri um pouco a porta, a fim de observar o que havia à seguir.

Estávamos no centro de Nargor, a capital da pirataria. As paredes de rocha sólida estavam decoradas com caveiras, ossos, espadas, escudos e trapos – "troféus" dos bandidos sobre os vencidos e saqueados; o ar estava impregnado com o cheiro de sangue, suor, pólvora, cerveja e restos de alimentos. Havia relances de armas no chão, e nenhuma alma viva no salão.

E e era tudo de que eu precisava.

Da porta, corri até meu irmão, o qual estava febril e muito fraco, piscando os olhos lenta e dolorosamente.

— Onde estamos? — Balbuciou Morzan.

Nargor. — Respondi, colocando seu braço em volta de meus ombros — Fomos capturados pelos outros. E parece que mais navios se chocaram contra a baía...

— Os navios de Thais... — Meu irmão sussurrou, bem debilitado. — Os navios... Dos rebeldes...

— Que?! — Exclamei — Espera, se todos estavam nessa rota...

E foi aí que me toquei; meu rosto empalideceu, e todos os fatos ocorridos até então voltaram à minha mente em uma profusão de imagens e sons. Os novos prisioneiros não eram pessoas quaisquer.

Eram os amigos de Ireas Keras. E meus amigos também.

E eu tinha que tirá-los dali.

Balancei minha cabeça, e voltei àquele local.

— Morzan, temos que sair daqui. E depressa. — Falei, determinado — Aguenta um pouco mais; eu vou achar algo para te ajudar.

Com o braço de meu irmão em volta de meus ombros, e um de meus braços livres em volta de sua cintura, usei de toda a força em meu fraco corpo para manter meu irmão erguido e desperto. Voltei-me à porta semi-aberta e passei por ela, ciente que daquele passo em diante não haveria mais volta. Agora, rezava para que minha intuição estivesse errada, para que os navios dos demais não houvessem chegado à costa mortal. Estava cansado daquela luta toda.

Queria apenas a liberdade. Era pedir muito dos habitantes desse mundo?


***


(Narrado por Rei Jack Spider)

Minha cabeça dói. E muito.

Acordei aos solavancos, sendo sacolejado constantemente; meus olhos aos poucos foram se abrindo, e vi que não estávamos mais em uma embarcação; consegui ver Brand desacordado, com uma ferida aberta e sangrando em seu rosto, e suas mãos e pés estavam atados. Ao meu lado, vi o que parecia ser Icel. Então, era isso.

Havíamos sido todos capturados pelo lado que traiu ambas facções. Fechei meus olhos, tomado pela frustração; tal cena era a mais simples prova de que trair seu povo e romper com seus contratos estava certo e que traria a vitória e sobrevivência, e isso era completamente errado! E continua sendo errado!

Ainda com meus olhos cerrados, comecei a sentir algo diferente ali; não estava no cheiro do local ou nos piratas em si, mas havia algo no ar... Algo no vento.

Eu conseguia sentir. Eu podia ouvir. Um lamento; um pedido de ajuda. Uma voz muito familiar. Ireas? Não, não podia ser...

Ele estava longe demais dali para poder ajudar. Para poder ao menos pensar em fazer algo.

"Mas você pode, criança."

Abri meus olhos, espantado; eu estava ouvindo coisas? Senti algo se mexer em meu ombro, e voltei meus olhares discretamente para ele. Havia uma pequena aranha prateada, quase transparente, cujo corpo parecia se mover de forma fluida, junto com o vento.

"Sshh... Não diga nada, criança." A voz da aranhazinha ecoava em minha cabeça, similar à voz de um rei bondoso e afável. "A outra está longe... E não poderá chegar. Mas você pode fazer algo por você e seus amigos. Lembre-se: o vento separa, o vento reorganiza e o vento une. Tudo o que é soprado um dia volta."

Antes que eu pudesse indagar qualquer coisa àquela aranhazinha, ela se desfêz no vento, como se sua existência nunca ocorrera. Ainda que estivesse intrigado com aquele bichinho, sabia o que tinha que fazer. A luta não acabara ali.
Ela estava apenas começando.

Não pensei muito, e cabeceei o pirata que me carregava o mais rápido e forte que consegui, e foi o suficiente para ele urrar de dor e me soltar no chão. Os outros, estarrecidos, procuraram por suas garruchas, e fiz um grande esforço para arrebentar as cordas que atavam minhas mãos.

Exori San! — Gritei.

De minhas mãos, saiu o feixe divino, que acertou o pirata em cheio; os demais ficaram atônitos, parados por um tempo, o suficiente para que eu conseguisse enxergar o pirata que havia surrupiado minhas lanças, escudo e mochila.

Exori San! — Gritei novamente, apontando minha mão esquerda para o ladrão.

O tiro foi certeiro – outro pirata já era; ouvi um tiro de garrucha, e senti a bala passar raspando por meu ombro; prendi minha respiração e corri o mais rápido que pude em direção às minhas coisas.

Exori!

A voz de Liive soou alta e forte como um trovão; com minha lança em punho e escudo no outro braço, pude ver o bárbaro ruivo lidando com os outros piratas simultaneamente; naquele momento, Brand e Icel começaram a recobrar a consciência, e corri para ajudá-los.

Exori Gran Con! — Gritei, com os olhos fixos nos piratas.

O tiro etéreo por mim criado simplesmente serviu para finalizar o serviço de Liive, que havia trucidado todos os demais piratas sem nenhum esforço. Assim que terminou seu trabalho, cortou as amarras que prendiam tanto Brand quanto Icel. Corri até o trio, ainda pasmo com tudo o que acontecera.

— Eles pegaram vocês também, né?! — Rosnou Liive a contento — Pelo jeito esses gordões aí nunca lutaram com alguém realmente do tamanho deles! Enfim... Vamos ajudar o pessoal aqui.

Concordei com Liive e ajudei Brand a se levantar, enquanto o Norsir amparou Icel. Ambos estavam muito machucados, com farpas e pedaços grandes de madeira fincados em suas feridas abertas e sujas de sangue. Ouvi Brand murmurrar um punhado de coisas sem sentido na medida em que seus olhos vermelhos se abriam com dificuldade e suas forças retornavam ao seu corpo.

— Onde... Onde estamos? —Murmurrou Brand, com a dor tomando conta de sua voz.

— Não sei... — Repliquei, inspecionando as redondezas com meus olhos — Realmente não sei...

— Caras, isso não importa agora! — Liive interveio, solavancando Icel — O importante é sairmos vivos daqui, e rápido!

Comecei a ouvir passos em grande número, vindos de todas as direções; antes que pudéssemos nos locomover, vimos o salão cheio de piratas – e Sírio junto a um outro cara sendo escoltados para baixo também.

A multidão de rufiões maltrapilha e sedenta por sangue tinha suas garruchas e sabres à mão, prontos para o combate.

— O que estão esperando?! — Urrou Liive em tom de provocação — Não querem tentar a sorte?!

Estranhamente, tudo o que os piratas fizeram, em resposta, foi rir; rir um riso de escárnio e desprezo, mesmo que já tivéssemos mostrado ser mais fortes que eles.

— Crianças abusadas! — Um bucaneiro gritou do alto de um dos corredores à nossa frente — Tem sorte de estar aqui, e não no baú de Davy Jones*! O "Mortalheiro" se apiedou de vocês e, em troca, ficam de graça! Muito bonito! — Finalizou o discurso com uma cusparada no chão e a risada similar a de uma hiena.

— "Mortalheiro"? — Indaguei em voz alta — Quem é "Mortalheiro"?

Quando encerrei minha fala, vi uma figura alta e encapuzada vir em nossa direção; imediatamente, os piratas que nos cercavam se curvaram perante a figura, e dois deles vieram até ela. O da esquerda entregou-lhe um sabre com uma lâmina diferente, incomum para o tipo da arma, e o da direita lhe estende um livro velho e pesado, cujos escritos estavam em uma língua tão estranha que sequer compreendia o do que se tratava.

— Sou aquele que você procura, criança. — Falou a figura com uma voz velha e sinistra — Eu já fui pirata; já fui vivo. Hoje sou sombra de meu passado de infame glória – sou aquele que chamam de "Mortalheiro", o guia para este e outros Reinos, não podendo viver tampouco morrer.

O Mortalheiro tirou o capuz, revelando uma face divida – o lado esquerdo tinha traços de um Vandurano em idade avançada, com a pele morena empalidecida e exibindo os sinais da morte; o lado direito era apenas uma caveira com pequenas fendas e manchas de sangue ao longo do crânio. O lado esquerdo continha uma dentição deformada, com a ausência de três ou mais dentes na arcada, enquanto que o lado direito possuia uma dentição perfeita e completa, com alguns dentes manchados com o sangue há muito coagulado de inimigos já caídos. Sua cabeça era recoberta por uma densa cabeleira negra em pavios grossos e adornados com ossadas humanas.

— Essas águas estão amaldiçoadas. — Falou Mortalheiro, solene — Os navios do opressor se chocariam com nossa murada de toda forma... Mas não o dos nativos. Essa frota era para ter sido poupada, e não foi minha vontade que dobrou os mares dessa vez...

— Como assim?! — A voz de Sírio fez-se presente no recinto, confusa e irritada.

O Mortalheiro virou sua cabeça lentamente em direção ao Vandurano; seu olhar frio percorreu tanto Sírio quanto o rapaz que ele segurava.

— Eu sou um dos avatares da Morte, criado por Bastesh para carregar as almas dos que padecem no mar para o outro reino. — A criatura fixou seu olhar no outro sujeito — Contudo, meu trabalho vem sido perturbado e, mesmo com todo meu poder, não tenho encontrado solução para isso... As feridas no corpo desse jovem tem a ver com isso. Até eu encontrar a fonte desse mal... Vocês terão que ficar aqui. Ninguém aqui em Nargor poderá lhes fazer mal, mas vocês não poderão matar mais ninguém. Do contrário, mostrarei suas entranhas ao mar...

O Mortalheiro então sinalizou para um grupo de piratas, que se encarregou de escoltar Sírio e o outro sujeito para outro aposento. Um outro grupo foi designado para fazer o mesmo com Liive, Icel e Brand – e apenas eu permaneci no recinto de origem.

—Você... É diferente daqueles outros... — O Mortalheiro se dirigiu a mim, olhando-me nos olhos — Há algo em você que me intriga... É como se você também fosse movido pela vontade de um outro deus, que não o meu...

— Sou apenas um indivíduo comum... Um Paladino como muitos outros. — Repliquei, tímido.

—Humpf... — O Mortalheiro sorriu para mim — Seja como for... Ficarei de olho em você... E em seus amigos... A corrupção está tomando conta de tudo... A corrupção lançada por ela...

— Quem? — Indaguei.

— A mulher que atende pelo nome de Esquecimento Eterno... — Replicou o Mortalheiro — Ela está causando tudo isso... Está abusando dos poderes que lhe foram concedidos... E está dando passos maiores do que poderia ou deveria... Ela precisa ser detida... Precisa ser... Destruída.

Esquecimento Eterno. A mãe de Ireas. Quisera eu que a resposta fosse diferente, mas nunca seria. Não teria como ser. Que dor de cabeça... Espero que tudo o que aquela aranhazinha me tenha dito sirva para algo de fato... Realmente, qualquer conselho é bem-vindo... Bem como toda ajuda...


Continua...

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(*): Em contos comuns de piratas e marinheiros, a expressão "ir para (o baú de) Davy Jones" ("All the way down to Davy Jones'(chest)) nada mais é que uma referência às profundezas do mar. Ir ao Davy Jones é o mesmo que ir ao fundo do oceano. Davy Jones seria um ser lendário responsável pelo tráfego das almas que fa