Saudações!

Demorei um pouco mais a escrever e postar... Faltam agora seis capítulos e essa última semana foi muito difícil e corrida...

No dia 11, faleceu o @Lobo Cinza, um amigo meu. Apesar de não ter sido tão próxima dele, senti uma dor muito grande em saber de sua partida. Ele se envolveu em um acidente gravíssimo e, apesar de ter chegado a ser atendido no hospital, não resistiu. Espero que, onde quer que ele esteja, esteja em paz, bem e sem dor.

Spoiler: Respostas aos Comentários



Sem mais delongas, o Capítulo de Hoje!

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Capítulo 9 — As Sombras Se Reúnem

Quando o Corvo engole o dia…*


(Narrado por Don Maximus Meridius)



Quanta saudade eu senti daquele tablado de bétula bem serrada e envernizada.

Daquelas cortinas.

Daquele palco de arena perfeitamente elevado.

Daqueles assentos bem-costurados.

Daquele elenco bem-selecionado e que eu fazia questão de pagar muito bem.

E, é claro, dos meus aposentos no último andar daquela magnífica construção de madeira, ferro, alvenaria e tecido. O Teatro de Arena de Thais era meu novamente depois de três anos fechado. Com os pés pousados no centro daquele tablado, traguei meu charuto com gosto e soprei a fumaça densa com um sorriso triunfante.


Duas Semanas Antes.


— O que você quer, Meridius?! O que você quer de mim?!

O local era pequeno, vazio e pouco iluminado; as paredes e o chão eram de pedra. Um homem estava atado a uma cadeira de madeira; era já um senhor de quase sessenta anos, mas com o físico de quem fora guarda uma vida inteira. Estávamos eu e Harkath ali. Sozinhos.

Aquele corno sacana… Por anos, o traidor continuou no comando da Guarda de Thais sem ser questionado. A corrupção, a degeneração, os favores na surdina e o sufocamento das vozes honestas… Foram mais de vinte e cinco anos de crimes arrastados para baixo dos tapetes vermelhos da Coroa. Naquele instante, porém, chegara a hora daquela palhaçada toda acabar. Diante do líder corrupto atado a uma cadeira, com o corpo cansado e com alguns hematomas à mostra, sabia exatamente o que tinha que ser feito.

Era hora do acerto de contas.

— Uma confissão. —Falei, firme e resoluto e estranhamente calmo. — Uma renúncia.

— Tsc! — Protestou Harkath, cuspindo sangue aos meus pés, incrédulo. — Vai ter que fazer melhor que isso para me quebrar, recruta!

Em resposta, acertei sua cabeça em cheio com um Cetro de Caveira**. Atordoado, o homem balançou a cabeça e cuspiu mais sangue em meio à tosse. Eu franzi meu cenho, mantendo o semblante firme.

— Não preciso. Você já está arrebentado, fodido e mal pago. — Repliquei com o cetro em mãos. — E tem coisas piores por aí do que a morte. Bem piores.

Incineron. Esquecimento Eterno. Morgaroth. Apenas para nomear alguns mentalmente, assim como outros conceitos ou entidades. Harkath estremeceu, e eu tamborilei levemente os dedos sobre a caveira entalhada.

— Eu vou te fazer uma oferta que você não pode recusar. — Falei, com um sorriso cínico. — E nós dois sairemos ganhando com isso.


Tempo Atual.


— Sr. Meridius!

A voz jovem de uma das dançarinas trouxe-me de volta à realidade. Ela tinha cabelos ondulados, volumosos e ruivos, era sardenta dos olhos verdes e com um sorriso bem aberto, que hoje estava sendo substituído por um semblante interrogativo. Sorri levemente de volta.

— Diga, minha jovem.

— Qual vai ser a peça? — Indagou a menina, com os olhos brilhando de ansiedade. — Qual vai ser a peça de reinauguração?

Sorri de canto, em um misto de deboche, certeza e alegria.

Bastardos Inglórios**. — Falei.

A menina concordou com a cabeça e saiu correndo para os bastidores, feliz da vida, pronta para espalhar o meu comando. Puxei mais um trago de meu charuto e sentei na beirada daquele glorioso tablado, olhando para os céus com alegria. Mal sabia eu que as coisas mudariam muito em breve.


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(Narrado por Jovem Brand, o Terceiro)


— Por favor, crianças! Colaborem com o pai!

“Ser pai é padecer no Paraíso”, já dizia o meu velho. Minhas crianças não eram humanas: os três nasceram com parte dos poderes da mãe. Os três eram meios-Djinni. E estavam começando a aprender a levitar. Que inferninho.

— Osirian, solta o cabelo da sua irmã! — Protestei, segurando o meu filho mais novo, que insistia em puxar os cabelos de Ahmosamun. — Filha minha, não faz assim! Não bata no...

Ouvi uma risada infantil e olhei para cima. Seti estava indo para perto de uma tocha; arregalei meus olhos e pulei para agarrar o menino que, contrariado, começou a se debater.

— Me solta pai! Me solta pai! — Seti começou a espernear, totalmente contrariado.

— Você não me desacata, moleque! — Protestei, segurando o menino a fim de diminuir seus movimentos. — Sua mãe já falou para vocês não voarem pela casa! — Engoli em seco, estranhando a naturalidade daquela frase naquele contexto em especial.

— Mas ficar com o pé no chão é chato! — Protestou meu menino, contrariado, cruzando os braços. — Mamãe é Djinn, ela devia deixar a gente voar…

Seti emburrou e começou a ficar choroso. Ahmosamun, àquela altura, estava segurando a mão de Osirian, que finalmente estava se equilibrando sobre os próprios pezinhos. Ambos me olhavam com um semblante interrogativo, mas triste.

— Pai, a gente tem defeito? — Minha menina perguntou, triste.

Eu olhei para Seti e senti que ele queria fazer a mesma pergunta, tanto que já havia parado de se debate e começou a descruzar os braços. Meu coração ficou pesado, e eu o coloquei no chão e agachei para ficar à altura dos meus pequenos.

— Como assim? — Perguntei de volta. — Quem disse isso para vocês?

— Mamãe não deixa a gente fazer um monte de coisa… — Falou Ahmosamun. — E você também fica preocupado. A gente tem defeito?

— Claro que não! — Repliquei, chocado. — Claro que não, meus filhos! — Estendi minhas mãos para que eles se aproximassem de meu abraço. — Não há nada de errado com vocês. Ser diferente não é defeito.

Os três vieram e eu os envolvi em um abraço. Suspirei ruidosamente, sabendo que esse dia chegaria cedo ou tarde. Eles já tinham noção perfeita de suas diferenças óbvias em comparação às outras crianças. Meu maior medo, no entanto, era quanto às suas expectativas de vida. Será que eles viveriam menos que Yumi? Mais que eu? Menos que nós dois?

Ouvi o trinco da porta se mexer e logo Yumi reapareceu com algumas sacolas de pano em mãos: certamente, as provisões da quinzena. Ela deixou as sacolas no canto e veio até mim e às crianças; quando os ânimos se acalmaram, pude perceber, enfim, que tínhamos visitas.

Emulov, Solstícia e o filho pequeno deles, que não teria muito mais que três meses.


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(Narrado por Kinahked)


Emergir daquelas águas turbulentas foi muito mais difícil do que deveria ser; o Caçador de Almas estava intacto como deveria, e eu agora singrava as águas do Reino dos Sonhos atrás de uma pessoa em particular.

A Amante Pirata.

Minha sempre fiel esposa Unna estava sentada na beirada do deque de comando, em direção à popa e olhando para frente, com um semblante contemplativo; suas pernas já estavam convertidas em uma linda cauda de peixe com escamas azuis-claras, que brilhavam em vários tons quando a fraca luz aparente da lua batia sobre elas. Olhei de canto para minha bela sereia, tentando descobrir o que seus olhos viam que eu não poderia ver.

— Você acha que a Deusa vai tentar intervir aqui? — Indaguei.

— Bastesh sabe das intenções de Lisette. — Replicou minha esposa, vigilante. — Ela sabe que a Amante está tentando de tudo para manter-se em terra firme.

— Você acha que ela não deveria? — Indaguei novamente, voltando meu olhar para o horizonte. — Digo, ela e Ireas… Você não acha válido?

— Ireas tem uma afinidade com a Deusa, isso não posso negar, mas… A Deusa não vê isso com bons olhos, Ked… — Continuou Unna, com pesar em sua voz. — Lisette não é como eu e algumas das outras… Ela era uma boa mulher, mas não chegou viva à deusa.

— Como assim? — Indaguei, intrigado, olhando-a de soslaio.

— Lisette morreu no navio antes de ser atirada ao mar. — Falou minha esposa, com tristeza. — A bem da verdade, ela estava naquele estado estranho entre a vida e a morte, e a Deusa viu que a alma dela queria permanecer… Entretanto, por ser uma Sereia não-viva, mesmo com um corpo quente, sangue pulsante e respiração constante, Lisette não pode ter o que as demais de nós tem: a possibilidade de viver em terra firme com uma família. A não ser que, estando com Ireas, ela encontre uma forma de reverter a condição dela.

— E como seria isso? — Continuei, interessado.

— Sendo capaz de gerar uma criança. — Replicou minha esposa, com um sorriso triste. — Estranhamente, a condição de não-viva permite que ela engravide, mas não sei se ela seria capaz de dar à luz a criança.

— Bom, eles estão a anos juntos… — Matutei, olhando para frente. — E ele ainda não falou em nada desse tipo… E por acaso existe algum prazo para isso? Para Lisette poder ter uma criança e, assim, não estar tão presa ao mar?

— O prazo dela acaba esse ano. — Minha esposa anunciou pesada e solenemente. — Se ela não conseguir, ela não terá mais outra chance e poderá perder até mesmo o próprio corpo físico e virar um espírito das águas, sem chance alguma de viver em outro local senão o mar.

Engoli em seco; quando terminamos a conversa, já estávamos atracados ao porto etéreo da porção norte da Sociedade das Almas, onde Ireas provavelmente me esperava. Assim como Lisette.

Em nome de Bastesh, precisava falar com ela. Urgentemente.


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(Narrado por Ireas Keras)


A visão de Roshamuul ainda estava fresca em minha memória, o suficiente para levantar questões demais para minha mente lidar. Tameran e os pais de Jack já estavam mais recuperados; a fim de não pressionar Marcus e Elena, já cansados de seus anos de serviço aos Sonhos, voltei minhas atenções ao Teshial.

Estávamos eu, Yami, Jack, Morzan e Sírio em meus aposentos; assim que começamos a falar, surgiram Kinahked e Unna no recinto, e eu podia sentir uma energia diferente neles.

— Ked! — Falei, surpreso. — Achei que você demoraria mais a vir!

— Pensei em fazer logo uma visita para você ficar menos preocupado. — Disse Kinahked, dando-me um abraço e se afastando para beber um gole de sua garrafa de rum.

— Fala capitão! — Sírio e Morzan disseram a Kinahked, cumprimentando seu superior.

— Bom, vamos voltar ao assunto em pauta. — Yami tornou a falar, sério. — Roshamuul. Bichos-Papões. Pesadelos.

Engoli em seco. Yami tinha razão. Precisávamos nos ater àquele problema.

— Eu nasci nesse Reino — Começou Tameran —, e nunca antes vi os Pesadelos com um domînio tão amplo e tão fortemente guardado. Quando os Cavaleiros do Pesadelo caíram, os Demônios que serviam os Sete Implacáveis voltaram suas atenções para nós uma vez mais. A fim de nos tornarem escravos, eles começaram a pensar em uma maneira mais cruel e eficiente de usar o Caminhar dos Sonhos contra nós.

— E a partir dessa ideia, nasceu Roshamuul? — Indaguei, cruzando os braços.

— Quase isso. — Tameran falou. — Roshamuul foi feita pelos próprios Bichos-Papões, depois que os Demônios os conceberam. Eles viraram uma ameaça maior e mais forte que eles previram e, na medida em que ficaram mais consciente de quem eram, passaram a agir por conta própria. Mesmo assim, a missão primordial que tinham não ficou para trás, e continuaram a nos caçar. Roshamuul nada mais é que escombros da última cidade Teshial.

O sentimento de luto foi de todos os presentes. Engolimos em seco, tentando imaginar os horrores que o povo de Tameran vivera até ali; pequenas lágrimas iridescentes desceram dos olhos do elfo, que respirou fundo para tentar manter o foco no relato.

— O que precisamos, Ventos do Norte e Sul, é de uma saída. — Falou Tameran. — Somos poucos os sobreviventes, mas, por vocês terem me salvado aquele dia, consegui mandar uma mensagem aos demais refugiados: e eles estão chegando. Precisamos sair do Reino dos Sonhos e regressar a Ab’dendriel. Só assim estaremos seguros.

— E como podemos ajudar de fato? — Falou Jack. — Será que vocês não vão deixar de existir ou ter algum problema com a existência de vocês caso deixem esse Reino?

— Não sei ao certo… — Falou Tameran, hesitante. — Digo, nesse Reino, os sonhos são matéria e são a realidade… Mas, no Reino de vocês, não.

— Hm… Podemos tentar “cristalizar” sonhos para vocês usarem como fonte de nutrição. — Falei, pensativo. — Ou criar algum mecanismo que funcione dessa forma. É algo a se pensar. Quanto ao transporte, teremos que criar uma Ponte para Ab’dendriel. Para isso… Você terá que vir comigo, Tameran, para que Eroth e os outros saibam que os Teshial estão de volta e que vieram para ficar e sobreviver. Todos concordam?

Não houve protestos; todos assentiram, unânimes. Quando dispensei a reunião, Kinahked veio até mim.

— Ireas, precisamos conversar. — Falou o pirata, sério, mesmo depois de sua sexta garrafa de rum. — É sobre a Lisette.


Continua...

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Glossário:

(*): Essa frase é tradução livre da canção de ninar dos Arakkoa (povo-pássaro) de World of Warcraft na expansão Warlords of Draenor. O texto original (o fragmento) é: "Shadows gather/ When the raven swallows the day".

(**): Nome da guilda de @Don Maximus Meridius, a Inglorious Basterds.

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E é isso, galera: mais um mini-arco prestes a ser fechado! O final tá chegando :'(

Aguardo os comentários de vocês e até o próximo!



Abraço,
Iridium.