Capítulo 20 - Os Renegados: REVOLUÇÃO VANDURANA! (Parte 3)
A guerra continua...
(11 Dias antes de Ireas chegar a Ab' Dendriel)
(Narrado por Liive, O Bárbaro do Inferno)
Minha cabeça girava em meio a tanto sangue — perdi a conta de quantos da Guarda Thaiana pereceram graças ao meu machado, mas tinha certeza de uma coisa: Icel seria o próximo. Vi o Paladino Real lutar ao longe, ceifando a vida de vários dos meus. Mas ele estava em desvantagem, pois aquele era o meu navio.
— Melhor voltar ao seu navio, garoto! — Bradei em alto som, fazendo os homens que me restavam ir ao navio de Icel e me abrir caminho — Você não precisa me combater, sabe disso. Vai acabar perecendo ao fio de meu machado!
Icel respondeu-me com um sorriso debochado e três virotes atirados de uma só vez. Sem escudo, tive que usar meu machado para me desvencilhar. Dois virotes me acertaram, e eu comecei a sangrar; contudo, nada disso me iria parar. Nada.
— Que tal uma luta sem frescuras, como homens de verdade? — Propus a ele, com um sorriso selvagem.
— O que quer dizer? — Ele indagou, surpreso.
Em resposta, coloquei meu machado em minhas costas, embainhando seu cabo, e cerrei meus punhos.
— Falo de um mano-a-mano, garoto. — Repliquei — Desse modo, amacio meus punhos em seu rosto, te faço perder uns dentes e você pode viver. Sem falar que é um combate bem mais divertido. O que acha?
Icel sorriu para mim de forma debochada, e guardou sua besta em suas costas, fazendo o mesmo que eu. Ele arregaçou as mangas de seu largo sobretudo, pronto para o combate.
— Vamos ver quem vai apanhar de quem aqui, Liive. — Replicou o Paladino com um sorriso maroto.
Antes que ele pudesse dizer algo mais, corri até ele e desferi um poderoso soco em se abdome; o rapaz recuou, com dor, e eu aproveitei para acertar uma cotovelada fortíssima em suas costas, que o fez dobrar ainda mais seus joelhos, mas não foi o suficiente para fazê-lo cair.
Em represália, ele começou a desferir uma série de ágeis socos, muitos dos quais desviei. Os poucos que me acertaram não me feriram muito, mas eram fortes, tive que reconhecer isso. Aquele combate seria muito, muito interessante.
***
(Narrado por Sírio Snow)
Estou atordoado. Estou em choque. Fui atingido em minha coxa.
Meus amigos parecem estar ganhando a briga, pois vejo navios Thaianos afundarem facilmente. Vejo a madeira cara e branca voar alto em meio a tiros de canhões, e marinheiros parecem chover nos mares, caindo pesadamente em meio às negras águas da costa. Levei uma cotovelada em meu abdome.
Minha vista está embaçada — um soco causou isso.
Quem me soca, quem me fere, quem tenta me matar quase sem resistência de minha parte... é uma pessoa de que gosto muito. É uma pessoa que tomei por morta há tempos, e que jamais pensei ver novamente.
— U... Utamo... Vita! — Gritei. Era tudo o que pude fazer.
Evitei levar o pior corte de espada com aquele feitiço. Minha mana me salvou, mas os ataques continuaram. Era um homem um pouco mais alto que eu, mas tão moreno quanto. Seus cabelos eram mais compridos e com mais dreadlocks que os meus. Seus olhos, por outro lado, eram muito, muito verdes, e ele trajava uma armadura muito forte.
— Lute! — Ele urrava — Lute contra mim!
— Não posso... — Sussurrava, exausto — Não posso... Morzan.
Snow. Morzan Snow. Mais conhecido como... Morzan Rider. Meu irmão mais velho.
— Muito bem. Então, não terei piedade de você! — Rugiu Morzan, com sua Espada Relíquia em mãos.
Ele estava pronto para desferir-me mais golpes. Mas eu não estava pronto para morrer. Não ainda. Não agora. Meus olhos, que outrora estavam fechados, abriram-se bruscamente
— Exevo Gran Mas Flam! — Urrei.
Tudo o que estava ao meu redor explodiu, e eu ouvi os gritos graves de meu irmão em meio às chamas. Elas diminuiram rapidamente, e pude ver que, a despeito de toda a proteção de meu irmão, partes de seu corpo haviam se queimado, ainda que levemente.
— Utura. — Rugiu meu irmão, apoiando-se em sua espada.
Ele rapidamente recuperou seus ferimentos, mas não se levantara por completo.
— Exori... HUR! — Ele berrou por fim, levantando de uma só vez.
No que ele se levantou, arremessou sua espada em minha direção, e o impacto fora tão forte que, ainda que estivesse com o escudo para me defender, acabei recuando, quase perdendo o equilíbrio.
— Utani Tempo Hur! — Ele gritou, aproximando-se rapidamente de mim, como um touro furioso — Exori Ico!
Assim que ele se acelerou, Morzan estocou meu escudo com sua espada, trincando-o. Eu não tive muito tempo para poder reagir, e meu irmão aproveitou-se disso.
— Exori Mas! — Urrou meu irmão, fincando sua espada no chão e fazendo a embarcação tremer tão forte que vi muitos de meus compatriotas caírem no mar.
O chão do convés cedeu em alguns pontos, fazendo outros sucumbirem aos escombros. Eu caí, ferido, tentando me levantar, com a raiva me corroendo por dentro.
— Por quê, irmão? — indaguei, rugindo — Por que? A troco de quê nos trai dessa forma?! Por que traiu seu povo?!
— Esse homens nada fizeram por mim! — Replicou Morzan, furioso — Lembra-se dos primeiros Assaltos* contra o regime Thaiano?! Lembra-se que eu caí em desgraça, graças à denúncia feita por um de meus homens?! Por um Vandurano como nós?! Lembra-se que o filho de Charlotte me traiu?! Por que eu confiaria nessa gente?!
— Por que confiaria em Thais?! — Explodi de raiva — Por que confiaria nessa gente?! Eles sim matam, roubam, estupram e queimam sem piedade?! Qual será sua recompensa depois, irmão?! Voltar aos canaviais e cortar cana e destilar rum indefinidademente?!
— Eles me deram um lar. Um treinamento apropriado. Um motivo para lutar. — Replicou Morzan, para o meu horror. — Eu os apoiarei até o fim.
— Então... Você escolheu a morte! Traidor! — Rugi, furioso, em meio às lágrimas — Meu maior ídolo, o único familiar que tenho, escolheu a morte! Exevo Gran Mas Flam!
Novamente, fiz arder em chamas o convés já avariado; aproveitei para me reerguer, mas vi meu irmão sair das chamas como uma besta selvagem, pronto para partir-me ao meio com sua espada muito afiada.
— Exori Vis! — Gritei, eletrocutando-o.
Ele recuou, berrando de dor. Vi-o beber três Poções Fortes de Cura, e aproveitei para fazer o mesmo com minhas Poções Fortes de Mana. Jogamos os potes vazios para longe e voltamos ao combate.
— Utito Tempo! — Ele gritou — Utori Kor!
Foram duas ações muito rápidas: na primeira, senti seu poder militar aumentar e, na segunda, ele me acertou tão forte com a lâmina de sua espada que vi-me sangrando sem parar.
— Exura Gran! — Berrei, desesperado — Exevo Vis Hur!
Assim que me curei, criei um cone poderoso de energia, que foi com tudo em direção ao meu irmão traidor. Vi a eletricidade percorrer sua carne e marcar sua pele com rigor, deixando-o muito atordoado. Ele chacoalhou a cabeça e pôs-se a se curar de novo. Eu, contudo, não dar-lhe-ia chances de me ferir novamente. Meu corpo ainda sangrava, mas não tinha tempo de me recuperar por completo.
— Utani Gran Hur! — Gritei, aumentando minha velocidade.
Desloquei-me rapidamente para trás dele.
— Exevo Gran Vis Lux! — Urrei novamente, acertando-lhe com um feixe poderosíssimo de energia, fazendo-o gritar de dor.
Morzan ajoelhou-se, mas não se dava por vencido.
— Irmão, pare! — Gritei, desesperado — Não quero matá-lo! Pare!
Ele consumiu quatro Poções Fortes, e fincou sua espada no chão.
— Eu... Também não... — Replicou-me, ofegante — Mas tenho... Uma dívida... Com Thais.
— Não! — Protestei, com lágrimas nos olhos. — Não, irmão, não! Não vê que está tudo errado?! Queremos ser livres, irmão! Livres para liderarmos nosso povo, sob as nossas regras, como sempre deveria ter sido!
Morzan levantou seu rosto em minha direção, com a espada ainda fincada no assoalho de madeira chamuscada.
— Não vê, querido irmãozinho, que esse radicalismo todo só trará mortes, e não liberdade? — Replicou meu irmão, estranhamente calmo — Não vê que essa destruição, essa guerra, não liberta ninguém? Vocês estão combatendo violência com violência. Isso não libertará vocês.
Arregalei meus olhos e vacilei, surpreso. Por mais absurdas que fossem as afirmações de Morzan, havia nelas um fundo de verdade. Senti meu coração mais pesado do que já estava,pois não queria, em momento algum, concordar com a "sabedoria" de meu irmão mais velho.
— O que libertará, então?! — Indaguei, furioso — O que poderemos fazer?! Não vê que não nos restou nenhuma outra opção?! Irmão... Junte-se a nós nessa briga, por favor.
Morzan sorria melindrosamente para mim; eu ofegava, sentindo meu coração bater forte devido à adrenalina, mas pesado, apertado, por ferir meu irmão daquele modo.
— Bom, se você quiser vencer essa batalha, irmãozinho... — Começou Morzan em tom malandro — Vai precisar do melhor mercenário de que poderá dispor. Para sua sorte... Ele está na sua frente.
Comecei a sorrir como uma criança diante de seu brinquedo favorito, ou diante de uma guloseima a ela oferecida após ter-se comportado tão bem. Ajudei meu irmão a se reerguer e, juntos, fomos enfrentar a guarda Thaiana, que estava em choque por ver Morzan virando a casaca (novamente).
— Não se preocupe, irmãozinho... — Disse-me Morzan — Vamos vencer esse embate e fazer de Vandura uma terra livre!
Dito isso, ele foi à frente, bloqueando vários guardas a fim de que os derrotasse à distância. Morzan seria meu escudo, enquanto eu seria sua garantia de sobrevivência — seu suporte e seu melhor atirador.
Havia ainda alguns piratas em meu barco, e eles se juntaram a nós em nossa empreitada contra os guardas. A pólvora e o sangue banhavam meu corpo e molhavam meus cabelos, deixando-me impregnado com a essência da guerra.
Meu irmão lutava como um bárbaro desenfreado, e eu fazia de tudo para mantê-lo de pé. O dia estava quase no fim, e as tropas de Thais haviam sido massacradas — grande parte da frota havia sido arrasada, e vimos muitos navios darem meia volta. Os poucos soldados que escaparam de nossas armas recuaram com os rabos entre as pernas.
Eu ouvia as vozes dos rufiões compatriotas comemorando de alegria. Eu sentia o sangue e suor meus escorrerem e pingarem a granel sobre o piso de madeira de lei. Senti minha vista se embaçar; meus calcanhares giraram.
Eu vi o rosto de meu irmão antes de tudo se apagar. Senti a madeira acertando meu rosto.
Depois, não senti mais nada. Não ouvi mais nada. Tudo ficou escuro.
***
Horas depois, acordo em uma das cavernas de Nargor, deitado em um catre improvisado. Meu corpo está completamente enfaixado. Quando abro meus olhos e viro meu rosto para a direita, vejo meu irmão Morzan adormecido em uma cadeira, com várias ataduras em seu corpo.
Olho ao redor, e não vejo mais ninguém - nem Liive, tampouco Jack. Nem sinal de Raymond e os outros piratas.
Onde estavam todos?
Continua...
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(*) Assaltos: Referência às Raids de Piratas que ocorrem em Liberty Bay.
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