Capítulo 2 – Aranhas, Cartas e Salmões
O dia em que Ireas Keras começou a construir sua fama em Rookgaard
Anos mais tarde...
Por muito tempo, o monge Cipfried observou o crescimento de Ireas. Um garotinho de pele bem branca, um pouco magro, de cabelos azuis, lisos e até os ombros, sobrancelhas bem desenhadas e um rosto estranhamente feminino.
Interessante mesmo era a atenção que ele dava à natureza... Diferentemente das outras crianças, que jogavam nas ruas seus itens mais obsoletos, Ireas tinha um senso ecológico extraordinário – o garoto juntava as roupas em várias sacolas e jogava-as no lixo ou, se o couro das roupas ainda poderia ser aproveitado de algum modo, vendia-as aos comerciantes locais interessados em tais mercadorias.
Contudo, essa atitude não era a única que dava fama à Ireas. O monge se recorda bem das aventuras do moleque pelas terras de Rookgaard. Enquanto ele observava duas crianças praticando com suas espadas de madeira, um sorriso vem ao rosto do ancião – Ireas passara por ali, com suas armas em punho e mais recompensas.
— Dia cheio? — Perguntou Cipfried ao menino.
— Sempre! — Respondi, com um leve sorriso. — Se não for desse modo, que graça tem a vida?
***
(Narrado por Ireas Keras)
Meu nome é Ireas Keras. As circunstâncias de meu nascimento eu desconheço; o monge Cipfried disse-me que apareci em Rookgaard junto às demais crianças, e que minhas características fizeram-me diferente dos demais.
Sempre pensei diferente; nunca houve um único momento em que não pensasse em zelar pela Natureza. Cipfried muitas vezes zomba de mim, dizendo ser a Natureza minha mãe. Hoje, eu respondo a ele o seguinte: a Natureza é a minha mãe e a de todos nós. Eu zelo por ela como ela zela por mim.
Quando eu fiquei forte o bastante para pegar em armas, comecei a escutar as lendas de Rookgaard. Sempre que havia alguém mais ferido no centro da cidade ou nos alojamentos de Amber, e que parecesse mais forte que nós, as histórias começavam a vir.
Lendas sobre armaduras guardadas nas profundezas da ilha, uma espada cercada por fogo... Decidi não mais viver do que meus ouvidos captavam. Era a minha vez de tentar minha sorte e obter algum daqueles itens para mim e melhorar minha vida em Rookgaard antes de sair de lá.
Minha primeira aventura foi por um acaso. Depois de ter me cansado de matar tantos ratos, retornei os cadáveres deles ao Tom, que usaria dos couros deles para fabricar seus produtos.
—... Três, quatro, cinco ratos! — Disse Tom, contente — Ah, Keras, somente você para manter meus negócios! Hoje em dia, não há mais jovens interessados em carregar essas carcaças até mim... Bem, como posso retribuir?
— Apenas esclareça-me uma coisa — Disse ao curtidor, com um sorriso malicioso – Eu ouvi de um habitante uma lenda sobre um local nessas terras que teria uma espécie de “livro de frases” da linguagem dos ogros...
— Ah! — Exclamou Tom, exultante — Refere-se ao Tesouro do Capitão Iglues? Pois bem, Keras, você anda com os ouvidos bem atentos, como sempre! Essa história não é lenda, mas sim realidade! Só um instante – ele se interrompeu ao ver um novo cliente chegando. Atendeu-o rapidamente e logo se voltou para Keras – Onde estávamos?
— Conte-me o que sabe... — Pedi, entrelaçando minhas mãos à frente de meu rosto.
— Certamente – Respondeu-me o curtidor — Iglues veio há muitos séculos atrás. Era um marinheiro cheio de sonhos e ambições, que queria fazer um enorme porto aqui nessa amável ilhota. O único problema eram os ogros que aqui habitavam... — Ele fez uma pausa enquanto costurava um par de botas perto de mim — Sabe, não havia muralhas aqui antes, e isso fazia com que os ogros pudessem transitar livremente pelas cidades. Aquela porção separada de nós pela ponte outrora foi domínio dessas repugnantes criaturas...
— E como esse capitão contornou esse contratempo? — Indaguei com um sorriso discreto.
— Bem, Iglues não era tonto — Tom continuou, finalizando seu trabalho e iniciando um par de calças —, e logo encontrou uma saída. Ele decidiu então anotar as conversas que os ogros tinham entre si. Como sair do navio não era possível, ele passou a viver da pesca e das anotações que conseguia fazer. Ele conseguiu juntar material o bastante para conversar — e negociar — com os ogros a sua estada na ilha. Infelizmente, quando ele estava para iniciar a construção do porto, ele foi emboscado e morto, e suas anotações foram escondidas em algum local dessa ilha, para que nenhum outro humano pudesse falar com os ogros novamente.
— Interessante... — eu disse, tamborilando os dedos no balcão — Então, há realmente um ‘livro de frases’ para a língua deles...
— Carta de frases — O curtidor me corrigiu com um sorriso.
— Que será item meu agora. — Respondi, saindo da loja — Até mais tarde.
***
Não foi muito difícil achar o local – uma enorme torre decrépita decorada com finas teias. Ouvi um grito rouco abaixo de meus pés, vindo da entrada do subsolo da torre. Com minha maça de ferro em mãos, esmaguei as aranhas próximas a mim, e pulei no buraco, em direção à escuridão.
Acendi uma tocha, e o grito se repetiu. Desta vez, mais alto. Meu coração acelerou, e respirar tornou-se mais difícil – havia algo venenoso no ar. Para piorar, mais aranhas surgiram para me atacar.
Esmaguei uma a uma na medida em que conseguia avançar pela caverna. O ar tornava-se mais denso e difícil de respirar. De fato havia veneno no ar. Desci mais um andar, e encontrei o autor do grito, desfalecido, mas vivo.
Era um pouco mais baixo que eu, com cabelos louros como o ouro, tez morena e braços ligeiramente mais fortes que os meus. Ele carregava algumas lanças consigo e um escudo reforçado. Dei a ele uma de minhas poções de cura, e foi o suficiente para que ele viesse a reagir.
— Seu nome? — Indaguei, ajudando-o a se levantar.
— Khaftos — Respondeu o rapaz, fraco – E o seu?
— Ireas Keras — Respondi, com um leve sorriso — Que sorte que te achei a tempo, não? Acha que consegue aguentar a viagem até onde o tesouro poderia estar?
— Veio pelo tesouro também? — Indagou Khaftos, surpreso — Achei que ninguém mais havia prestado atenção no que disse aquele cidadão...
— Pelo visto, você não está sozinho. — Respondi com uma leve malícia — Vamos fazer o seguinte... — Eu mostrei a ele uma lista em branco — Eu sei que há somente uma Carta de Frases no tesouro, e que somos dois. Um de nós fica com o original e o outro fica com a cópia, certo? Temos um acordo?
— Sim. — Khaftos respondeu animado — Vamos à luta então.
Assim, nos embrenhamos na escuridão, em meios aos gases venenosos, às aranhas e aos mortos vivos, e conseguimos chegar à sala do tesouro, onde obtemos salmões d um dos baús e a Carta de Frases do outro.
— Fique com a Carta — declarou Khaftos, solene — Você merece.
— Não. — Retruquei calmamente — Eu posso ficar com a cópia. Você estava aqui antes, é justo que você fique com a original. Vamos voltar.
Khaftos repousou um pouco na sala de tesouros, visando recuperar sua energia. Subimos juntos e combatemos de igual para igual; retornando à cidade, deitamo-nos, cada qual em uma cama, no alojamento de Amber, e mais uma vez ouvimos outra história — desta vez, sobre tesouros guardados por minotauros e ursos...
Continua...
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Nota da Autora: Nossa! Esse ficou bem maior que o capítulo anterior... Bem, espero que vocês estejam gostando dessa história tanto quanto eu estou adorando escrevê-la... Khaftos não é um personagem real, pois pouco me lembro de minha época de Rookgaard (só lembro-me das quests porque anotei em uma listinha)...
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