Capítulo 28 – Atos de Guerra (Final): Pó Sobre Pó
O epílogo da guerra contra Morgaroth.
(Narrado por Andarilho do Vento)
Não sei ao certo o que me levou a acreditar nas palavras do bárbaro. Talvez tenha sido o seu olhar sinistro, ou então o ar levemente tóxico e funesto de Goroma. Ou, mais provavelmente, meu desejo de rever Ireas. A terceira opção seria sim, a mais viável, pois sequer notei o quão macabro era o barqueiro que me tirara de lá nem mesmo o fato de Liive ter sumido sem deixar rastros.
A macabra barcaça guiou-me para fora da ilha que fora como o Inferno para mim. Pedi-lhe que me levasse a Svargrond, seguindo o duvidoso palpite de Liive. O barqueiro meneou a cabeça e, sem virar o rosto para mim, remou lenta, porém constantemente, para longe de Goroma, rumo a Svargrond. Sem notícias de Ireas, teria que dar algum crédito ao bárbaro...
***
(Narrado por Ireas Keras)
Ufa! Esses três meses passaram voando! Enfim ,minha obra-prima está completa. A Ankrahmun de hoje em nada se parece com a cidade quase desaparecida sob o manto sangrento, obscuro e nebuloso da Irmandade dos Ossos. Graças a Sírio, pude trabalhar tranquilo nos projetos de reconstrução e renovação da cidade que me acolhera tanto. Devo tudo ao sotero-libertino e a Tothdral, a múmia que todos conhecemos muito bem.
Substituí quase todo o arenito das estradas por calcário e mármore ora azulado ou alvo como a neve das ilhas do Norte. As pirâmides também ganharam a coloração branca, fruto da união de uma massa de calcário e arenito, que conferiu uma variação de tons de cinza aos enormes construtos artificiais. Dei aos ankramanos a sensação algo que eles jamais viram: neve.
Transformei embalsamatórios em ambientes mais amigáveis de se entrar, e renovei estoques de fluidos embalsamatórios e outros artigos que fossem necessário a esse ofício. As lojas também foram refeitas, bem como as casa de banho: junto aos poucos druidas da região, desenvolvi uma espécie de “cristal do gelo eterno”, que manteria as águas de algumas das piscinas levemente geladas, muito agradáveis para tal atividade.
Com meus recentes descobrimentos sobre meus poderes com as águas, consegui criar um eficiente sistema de aquedutos na cidade, que manteria uma fonte constante de água potável, bem como estações de dessalinização para converter água do mar em água potável para um povo sempre à mercê dos oásis.
Aproveitei a oportunidade para fazer um apaziguamento entre ankramanos e nômades. Visto que Muhad me devia alguns favores pelos serviços que lhe prestei outrora, fiz uma proposta a ele e ao Faráo, em que seria permitida a entrada deles em Ankrahmun algumas vezes ao ano, onde as caravanas nômades trariam produtos de várias localidades. Aqueles ciganos me fascinavam, e o Faraó pareceu concordar prontamente em deixá-los fazer parte da nova era de seu reinado.
Um hospital foi feito; as lojas de armas e equipamentos foram reformuladas e Tothdral ganhou uma torre Serpentina completamente recauchutada, em que a rampa de acesso à pirâmide realmente teria o desenho de uma naja enrolada sob o próprio corpo, com a cabeça dando o acesso aos aposentos da majestosa múmia. O Templo, em homenagem ao ancião Rahkem, ganhou uma decoração que unia os elementos tradicionais de Ankrahmun com vinhas, folhas e flores, tradição druídica.
Nesse meio-tempo, fiz algumas visitas ao campo de rebeldes de Svargrond, e voltei de lá adquirindo o péssimo hábito de caçar lebres, visto que seu pelo sedoso e leve me dera uma excelente ideia: criações desse tipo de animal para a indústria têxtil de Ankrahmun, criando roupas leves para o dia e quentes para a noite, como o clima de deserto pedia. Além disso, criei estábulos para camelos e um eficiente sistema de correios internos: escaravelho-correio, em que escolhi os mais dóceis e isentos de veneno para treiná-los no exercício de entrega de cartas, bilhetes e, em conjunto, de pacotes e encomendas.
Ah,mas não pensem vocês que fiquei apenas com a parte “fácil”, criando e supervisionando a construção. Não! Junto a Dario e os demais homens da cidade, estive na linha de frente da construção, guiando e erguendo cada edificação, pedra a pedra.
Durante esse tempo, acabei por fazer jus ao meu sangue Norsir, e ganhei musculatura graças ao trabalho pesado e de longa jornada. Ainda que meus trajes buscassem disfarçar meu corpo dos olhares das pessoas, não pude deixar de notar os olhares das ankrahmanas mais jovens, cujos olhos da cor das amêndoas me faziam corar em constrangimento. Não conseguia entender como poderiam elas me desejar, sendo que eu era tão diferente...
Nesse meio período, não achei cartas de minha mãe; não havia sinal algum dela, e passei a questionar a veracidade daquelas cartas. Contudo, para não me esquecer de tudo o que vinha me guiando ao longo desses dias, fiz brotarem cactos cujas flores eram azuladas nos jardins de Ankrahmun.
Cartas de minha mãe não vieram, mas recebi uma carta. Minto, não foi apenas uma carta mas também uma pintura: Silfind havia completado o primeiro trimestre de gravidez e já havia sido liberada do hospital, voltando ao seu trabalho em Nibelor. A pintura exibia a mulher de meu falecido irmão orgulhosa com os sinais cada vez mais aparentes da futura maternidade.
Dizia ela na carta que queria que seu rebento fosse menina. Eu concordei plenamente, pois nada seria melhor para a xamã que a companhia de uma garotinha, uma futura xamã Norsir como ela. E eu, já levemente emocionado, prometi a mim mesmo que seria o melhor tio do mundo para a criança que logo viria.
Entretanto, apesar das excelentes notícias, de ser amigo do faraó e de ter dado a volta por cima da minha primeira grande decepção, encontrava-me triste. Sírio passava a maior parte do tempo nos mares, e me mandava poucas cartas, por dificilmente achar um local em que pudesse escrever.
Além disso, eu tinha outros problemas para resolver ainda em Ankrahmun: faltava um Grão-Vizir para o Faraó, e eu não poderia manter-me naquele cargo para sempre. Além disso, precisava de um novo capitão para o porto de Ankrahmun,e eu não gostaria de perturbar Sírio ainda mais do que eu já fizera; eu devia muito ao sotero-libertino, e eu retribuiria algum dia.
Quando a obra fora completada, ouvi a notícia de que os sobreviventes da empreitada contra Morgaroth estavam retornando às suas casas, e que foram convidados pelo Faraó a passar uns tempos na nova cidade, e ele fazia questão da minha presença, pois queria apresentar meus talentos aos grandes figurões das cidades de todo Tibia. Eu concordei, não pela fama de arquiteto,mas pelo fato de poder rever meus amigos: Brand, Mandarinn, Jack e Liive saíram inteiros; talvez Wind ainda estivesse vivo, mas não me interessava. Não depois das injúrias que ele me escrevera...
Fui até à Torre serpentina meditar um pouco. Tothdral estava tão triste quanto eu; apesar do tempo, ele ainda não havia deixado o luto a seu irmão Ishebad, e eu não tinha ideia de como substituí-lo. O líder da guilda dos Feiticeiros me dizia que eu tinha bela caligrafia e que sabia administrar bem toda a papelada do Faraó; logo, ele me tinha como substituto ideal para seu falecido irmão, e eu vinha constantemente recusando esse dever, visto que eu já tinha prometido sob o túmulo de Hjaern que eu o substituiria como Xamã de Nibelor. Hoje, eu procurava o Contemplador de Estrelas para tratar de outro tópico.
A ideia de esculpir a serpente sob a pirâmide fora perfeita; a subida era bem mais agradável do que outrora fora; eu estava orgulhoso de meu projeto, como não? Salvei uma cidade, salvei meu lar. Me senti útil pela primeira vez em muito tempo, e nada poderia tirar de mim essa maravilhosa sensação... Exceto o tópico que iria tratar com a múmia de voz majestosa e gutural.
Desci pela mandíbula da naja, abrindo vagarosamente a porta de arenito ricamente decorada. Descendo as escadarias, dei de cara com Tothdral, que fitou-me com surpresa: decerto ele não me esperava.
—Keras? O que te traz aqui? — Indagou-me a múmia com espanto.
—Precisava conversar com alguém... - Falei com timidez — Há algo que vem me inquietando...
—É sobre o cavaleiro? — A múmia falava de Wind.
—Você soube? Os sobreviventes de Goroma estão vindo... São meus amigos... Eu deveria estar feliz, mas... — Pus a mão esquerda sobre meu peito, próximo de meu irriquieto coração.
—Sente-se, Keras. — Tothdral ofereceu-me uma poltrona — Vejo que há algo que te incomoda mais que tudo. Fale comigo...
A múmia sentou-se na poltrona à frente em sua posição padrão: pernas cruzadas, dedos entrelaçados e cotovelos sobre os apoios de braço, fitando-me com seus olhos dourados.
Olhei para meus dedos; eu brincava nervosamente com eles, entrelaçando-os e separando-os a todo instante.
—E se eu o vir, Tothdral? — Indaguei — E se ele estiver bem? E se ele vier procurando por mim, com ferimentos de guerra e tudo o mais? Que devo fazer? Como reagirei?
—Tudo a seu tempo, caro Keras — Respondeu-me a múmia — Você ainda está ferido, por mais que tente enganar sua mente. Sua índole é boa demais, e sua inocência é admirável. Te dou um conselho, se me permite, e se é que servem para algo hoje em dia: concentre-se apenas no evento de hoje. Procure não pensar nesse assunto agora. Caso ele se encontre entre os presentes, busque privacidade. Discrição deverá ser sua palavra de ordem.
—Mas... — Balbuciei tristemente.
—Sshh... — A múmia fez o sinal de silêncio — Hoje é seu dia, Keras. Seu e dos vencedores, do bem; cumpra os desígnios do Faraó. Seja simpático e escute o que eles têm a dizer. Pode ser que isso abra muitas portas para você...
Sorri com leve pesar. Eu ainda estava me sentindo triste e só, e creio que a múmia sabia disso. O astrólogo ofereceu-me chá e meus manjares favoritos, e limitou-se a aconselhar-me sobre a etiqueta que a situação requeria: mostrar sempre algum interesse, por mais frívolo que fosse o assunto, não falar mais que o absolutamente necessário, responder às perguntas de forma mais profissional possível, entre outras coisas.
Olhei para as paredes da sala, e veio até minha mente a pergunta que não podia calar.
—E Ishebad? — Indaguei à múmia — Como você está lidando?
A majestosa múmia demorou a me responder. Por fim, seu penetrante olhar dourado pareceu atingir o fundo de minha alma, e um calafrio percorreu minha espinha.
—Ainda é cedo... — Respondeu-me queixoso — E tenho muito a fazer. O luto é um luxo o qual não me pertence, e meu irmão me levaria até o além-mundo se soubesse que decidi lamuriar sua perda. Enfim, estou lidando da melhor forma que posso... Mesmo sabendo que jamais deixarei de sentir essa dor. Creio que estamos quites... — Ele se levantou e pôs-se a organizar os registros e feitiços de sua biblioteca, e eu sabia que era hora de me retirar.
Eu assenti com igual tristeza. Ainda que Ishebad não falasse muito comigo, Tothdral me era bem quisto, e doía-me sua tristeza. Queria muito poder achar alguém que pudesse aliviar a dor do astrólogo, e queria achar de pronto, pois não poderia ficar lá por muito tempo. Eu tinha, no máximo, seis meses para achar minha mãe, um novo Grão-Vizir e voltar à Svargrond antes do nascimento de meu sobrinho ou sobrinha. Como sempre, estava contra o tempo.
***
Na casa de banho, fui tratado como rei; as moças que lá trabalhavam aliviaram as dores de meu corpo com óleos perfumados e cristais quentes. Acredito que até hematomas que deveriam ser lancetados para desaparecer foram curados pelas mãos mágicas das damas do deserto.
Com o corpo imerso nas águas refrescantes do estabelecimento, pus-me a meditar. Seria esse um... recomeço para mim? O que teria acontecido com meus amigos? Terá a guerra os modificado? Que seria de nosso futuro? Só Crunor deteria as respostas...
Continua...
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Notas da Autora: Em breve, mais desenhos dos personagens e, se eu tiver paciência, postarei o design da cidade aqui x3
"...E Pó Sobre Pó" é outra referência ao refrão da música Asche zu Asche, da banda de metal industrial Rammstein:
Asche zu Asche (2x)
und stomb zu stomb
([De] Cinzas para Cinzas (2x)
e Pó sobre Pó)