Capítulo 19 – A Voz do Vento
Dia em que Ireas Keras encontrou o amor.
Um ronco tenebroso no fundo da caverna era o sinal de que o tempo estava acabando. A caverna tremia, e os Cultistas debandaram a área. Wind e os demais sabiam o que eles haviam conseguido fazer — ressuscitar o temido demônio Morgaroth do Triângulo do Terror.
— Morgaroth... — Disse Mandarinn tomado pelo pavor — Temos que sair daqui!
— Temos que tirar Ireas daqui! — gritou Liive, desesperado — Wind, precisa de ajuda?
— Sou perfeitamente capaz de levar esse rapaz sozinho! — Disse Wind claramente ofendido.
O bárbaro deu de ombros; Brand e Jack guiaram o grupo para fora da caverna. Eu balançava bastante; decerto estaria sob as costas de Wind. Eu não sabia o que eles estavam fazendo, se estavam enfrentando algum adversário ou não, se estavam em Goroma ou Meriana... Eu não conseguia acordar...
Algumas imagens me vinham na mente... Eu me via pequeno, em Rookgaard, talvez... Eu brincava perto da abadia de Cipfried, e Khaftos e Annika estavam lá. Eu estava com uma rosa azul nas mãos, que usava como uma espada contra a rosa vermelha de Khaftos e a rosa branca de Annika...
Era tudo tão belo... O campo, a abadia, a cidade... De repente, contudo, o ambiente todo muda: Khaftos e Annika desaparecem, as flores murcham e morrem, o campo se torna cinzento, o céu se fecha... E ela aparece.
Um manto negro como a noite. Alta como um carvalho, e bela como uma rosa. Seus olhos e cabelos são rosados, porém exibem um brilho tinto de sangue.
— Mãe? — Sussurrei para mim mesmo inconsciente.
Ela não tem nada de humano. Parecia mais um demônio; o céu se torna negro, e uma tempestade começa. Eu ouço um choro de um bebê. Era eu mesmo. Vejo Cipfried se recolher com um manto ensanguentado nos braços...
— Socorro! — Gritei desesperado.
— Calma Ireas! Calma, meu amigo! — Era a voz de Wind em meus ouvidos — Você está a salvo: conseguimos te tirar daquele antro infernal!
Eu abri meus olhos lentamente; estava em Porto Esperança, na casa de Mandarinn. Uma noite mais fresca, até que enfim. Havia uns panos em minha testa e várias ataduras em meu corpo. Eu estava bem parecido com Tothdral e, se eu olhasse no espelho, certamente tomaria o maior susto de minha vida.
— Bem-vindo ao mundo dos vivos, Keras! — Disse-me Jack, sorridente, dando um tapa amistoso em meu peito — Ficamos muito preocupados com você...
— Só se mete em enrascada quando estamos distantes... — Resmungou Brand com um sorriso no rosto. O primeiro que vira em minha vida — Brincadeira. Estou feliz que esteja bem.
Eu mapeei a casa com os olhos, sem mover muito minha cabeça. Não havia sinal de Wind ou Liive em lugar algum...
— Liive voltou para Svargrond — Disse-me Jack de costas para mim, com um livro nas mãos — Ele disse que procuraria por Hjaern. Você havia mandando uma carta a ele, não foi? — Ele se virou para mim com um sorriso no rosto — E Wind... Foi comprar algo para você.
Levantei-me subitamente e com as faces muito avermelhadas.
— Não vou falar: é se-gre-do. — Disse-me o paladino com o dedo indicador esquerdo pousado sobre os lábios. Brand deu uma risadinha sarcástica. — Mandarinn foi a Thais e Edron reportar as ações dos Cultistas...
— Vou puxar um ronco... — Disse o paladino dos cabelos prateados — Até amanhã. E vê se não arranca as ataduras, Keras. Você vai ter que ficar disfarçado de múmia por um tempo.
Brand entrou no quarto ao lado e trancou a porta. Ficamos apenas eu e Rei Jack no recinto. Ele guardou o livro na estante, puxou uma cadeira, posicionou-a com as costas para mim e sentou-se à minha frente, observando-me com seus curiosos olhos de olivas.
— Você é uma figura ímpar — Ele me disse com um sorriso — É só falar em Wind que seu ânimo se converte em outro...
Encolhi-me. Não sabia o que responder.
— Seus olhos revelam mais que suas poucas palavras, não precisa ser um gênio para saber... Que você sente algo a mais pelo Wind, né?
Abracei minhas pernas e senti meu rosto em chamas novamente. Através de meus joelhos, direcionei meu olhar ao paladino.
— Não precisa responder se não quiser... Vou te deixar em paz. — Disse Jack, afastando-se de mim — Estou com sono também; vou dormir. Boa noite!
Ele se retirou para o outro quarto livre e não trancou a porta. Com um suspiro de alívio por ter-me livrado do interrogatório, deitei minha cabeça no travesseiro, e permaneci com os olhos abertos, sério.
E então, ouvi a porta se abrir; e meu coração disparou.
— Um passarinho me contou que manjar de fruta-do-dragão é sua comida favorita... — Era Wind quem havia chegado à casa de Mandarinn. Ele se sentou na cadeira que Jack deixara para trás, com os doces à mão.
— Que bom que você está a salvo... — Ele disse um pouco tímido — Eu não me perdoaria se... — Ele me entregou um dos docinhos — Coma, ainda que não esteja com fome. Você perdeu bastante sangue, deve estar uma fraqueza só... — Ele se aproximou — Odiaria te ver mal...
Meu rosto se avermelhou de novo. Sentado na cama, comi o docinho. Ele se sentou perto de meus pés e começou a fitar o teto, como se escondesse algo.
— Bom, não conseguimos achar nada de sua mãe lá embaixo... — Ele disse, fitando-me com o canto do olho — Não sei se há alguma relação entre eles e ela quem você tanto procura...
— Eu... — Comecei timidamente — Eu... Sonhei com ela, eu acho. — Ele me ofereceu outro doce, e inclinei-me para perto dele... E meu coração disparou. A sacola de doces estava perto de seu peito, e rapidamente peguei mais uma manjar — Eu estava de volta a Rookgaard... —Eu estava perigosamente perto dele — Meus amigos estavam... Vivos... — Não havia reparado, mas meu rosto estava muito próximo ao dele.
— Prossiga — Sussurrou o cavaleiro em meu ouvido de um modo que me fez arrepiar.
— Bem... — Continuei ainda mais nervoso — Tudo se modificou... Os campos morreram e o céu se fechou... Tudo ações dela... — E então, aconteceu.
Ele puxou meu rosto de encontro ao dele, colando seus lábios contra os meus; minha primeira reação foi arregalar meus olhos em sinal de surpresa; depois, meus olhos se fecharam involuntariamente e acostumei-me àquilo. Logo estava respondendo aos beijos dele.
Então, ele encerrou os beijos e, ainda com a mão sobre meu queixo, passou o dedo polegar sobre meus lábios e sussurrou:
— E como era ela?
— Tinha olhos e cabelos rosados... Branca, provavelmente... E tinha as mãos tintas de sangue...
Ele me deu outro rápido beijo.
— Então, já temos pistas dela, não é? Assim fica bem mais fácil...
Continua...
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Nota da Autora: Bem, precisava escrever esse capítulo pra descontrair... O que me fez lembrar da minha disputa pendente com o Gold; tenho q começar a trabalhar...
Bom, pra quem leu, obrigada por ter lido e continue a acompanhar e comentar =D
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