Capítulo 13 – Os Ventos do Norte: Quebrando o Gelo
Dia em que Ireas Keras descobriu a verdade sobre seu pai, e um pouco mais acerca dele próprio.
Não me lembro do que aconteceu a seguir; só me lembro de tudo ter ficado escuro, de ouvir vozes indistintas, de alguns solavancos... E de acordar na casa de Wind.
— Até quando a gente vai continuar se encontrando dessa forma? — Ele me indagou com um sorriso — Está surpreso? Não sabia que eu tinha esse título também, não é? — Referia-se ao Bárbaro Honorário. Pegou um tecido umedecido e passou em minha testa — Nossa esse corte foi feio, não? A bebida realmente te faz mal... Não deveria ter deixado Liive dar-lhe hidromel...
— Não foi culpa de Liive — Respondi-lhe com uma voz rouca e sofrida — mas culpa de Sven... Maldito teste... — fechei meus olhos com força em sinal de dor: o corte em minha testa ardia bastante, e eu estava muito fraco para me curar.
— É a queda foi feia... — Constatou Wind, terminando de limpar o corte — Você não sentiu dor nenhuma?
— Não — Respondi-lhe um pouco fraco — Eu estava tão dopado pelo álcool que nem percebi... A última coisa de que me lembro... — Eu fiz um esforço para continuar falando; minha garganta doía demais — Foi de ter saído da taverna. Depois disso, há uma escuridão total e me sinto como se tivesse sido teleportado para sua casa.
O ruivo riu de meu resumo acerca dos fatos. Eu tentei me sentar, e tive que receber a ajuda dele para fazê-lo; ele pôs seu braço esquerdo em minhas costas e levantou-me devagar, para que eu não passasse mal. Em seguida, ele passou um medicamento em minha testa e cobriu o ferimento com um tecido aderente feito de papiro, que se camuflou em minha pele, e repetiu o procedimento com o ferimento em minha bochecha.
— Novo em folha — ele me disse, com um sorriso — Ireas, o que você veio fazer aqui?
— Bem... — Comecei desconcertado e um pouco fraco — Eu descobri recentemente que nasci aqui. — Ele arregalou os olhos, surpreso — Contudo, por capricho do destino, não fui criado aqui... E adicionei outra pessoa à minha lista de procurados: meu pai. Talvez ele ainda esteja vivo. E, se estiver, talvez tenha respostas acerca de minha mãe.
— Tomara que você os encontre, Ireas — Ele me disse, esperançoso. — No entanto, não faça mais nada hoje; descanse. Você está muito fraco, e não quero que você dê de cara com o Liive de novo... — Ele pronunciou essa última sentença com certo rancor.
— Por quê? — Indaguei, surpreso — Vocês não são amigos?
— Sim, somos — Ele respondeu, de costas para mim enquanto pegava algo para comermos — Mas se tem uma coisa que Liive não sabe ser é comedido. Como todo bárbaro de carteirinha, ele sabe entregar-se facilmente aos prazeres da vida, mas falha na dosagem. Temo que, se ele continuar a se aproximar de você como o tem feito... — Ele pegou a travessa que continha várias iguarias de diferentes localidades, mas algumas me eram familiares por tê-las comido em Darashia ou Ankrahmun — Ele pode te prejudicar. É só avaliar essa questão do teste dos bárbaros e da celebração de Icel.
Eu concordei com a cabeça. Liive era um cara legal, mas ele me assustava de vez em quando, aparecendo do mais absoluto nada, sempre com uma dica, com um conselho... Poderia até ser um exagero de Wind, mas todo cuidado era pouco, isso que ele me queria dizer. Peguei um dos manjares de fruta-do-dragão que havia na seleção de Wind e pus-me a comer, enquanto ele me enchia de perguntas.
— Olha, sei que você não costuma falar sobre sua vida — Começou Wind, sentado na beirada da cama em que me colocara — Mas eu gostaria de saber mais sobre você... Essa questão de sua mãe, de sua infância... Poderia contar-me mais? Prometo que não conto a mais ninguém.
Eu já havia terminado de comer o pequeno doce, e fitava Wind no fundo de seus olhos, com certa seriedade. Será que deveria dizer a ele a verdade sobre mim? Sobre meu passado? Deveria trazer à tona todas aquelas memórias? Era verdade que Wind cuidara de mim quando lera uma das cartas de minha mãe, mas não sabia se deveria fazê-lo.
Peguei mais um manjar e, antes de levá-lo à boca, comecei a falar:
— Você me deu hospedagem e cuidados, e já não é a primeira vez que você faz isso. É justo que eu fale. — Fiz uma pausa, com o docinho em mãos — Minha mãe eu desconheço; tudo o que sei sobre ela vem de cartas que recebi de pessoas que a conheceram, junto com rosas azuis. O que sei é que ela deu-me à luz aqui em Svargrond, e que me deixou em Rookgaard poucos momentos após meu nascimento...
Eu fiz uma pausa e comi o docinho que estava em minhas mãos e comecei a sorrir sarcasticamente. Wind estava se corroendo de curiosidade, e eu estava gostando de me aproveitar dessa sensação dele. Peguei algo salgado para comer e, antes de novamente me alimentar, tornei a falar.
— Minha infância... Não foi tão tranquila... — Respondi com um ar melancólico — Eu conheci poucas pessoas em Rookgaard, e passei por muitas dificuldades. Apesar de ter ficado bem famoso por lá... Essa fama me custou caro.
— Esses teus amigos de Rook — Disse Wind, querendo interagir com as informações — Você ainda mantém contato com eles?
— Não — Respondi com um semblante sombrio —, pois estão todos mortos. Alguns morreram no Inferno dos Minotauros... E o outro — Disse com tristeza, lembrando-me de Khaftos e Annika, principalmente de Khaftos — Sucumbiu à doença que hoje aflige minhas unhas. — Pus a comida ao meu lado e peguei o pote de resina — Essa doença que eu tenho hoje sob controle quase me matou; trata-se de um fungo que se alastra com rapidez e subjuga a vítima, causando-lhe feridas profundas e em todo o corpo. Era uma forma bem sofrida de morrer, e vi meu melhor amigo ser levado por essa doença.
Eu ergui minha mão esquerda e apliquei a resina com a mão direita, unha a unha.
— Vim a Ankrahmun atrás de respostas — Eu disse, sem desviar minha atenção do que fazia —, pois minha mãe habitara a cidade antes. Ao que parece, ela já teve relações amigáveis com Muhad... E Rahkem e Tothdral pareciam saber algo acerca de seu passado, mas recusaram-se a falar — Troquei as mãos — Eu quero descobrir, primeiramente, por que ela não me criou; depois, descobrir como conhecera meu pai e o que foi feito dele, já que não há nada sobre ele nas cartas que tenho em minha posse... Ainda assim, acredito que seja algum desses bárbaros por aqui...
Eu parei de súbito. Memech havia me pedido um favor! Virei-me para observar Wind, e vi que ele continuava esperando mais informações.
— Você conhece um homem chamado Eirik e que habita essa cidade? — Indaguei sério, fechando o pote de resina e pegando a comida que deixara ao meu lado.
— Conheço... — Ele perguntar-me-ia o porquê quando me impediu de levantar da cama — Opa, opa, opa! Alto lá! Do jeito que você está você não sai, fui claro?
O tom calmo, porém imperativo do cavaleiro ruivo fez-me recuar e ficar sentado na cama.
— Se eu melhorar, me mostra onde ele está? — Pedi, retraído.
— Claro! — Respondeu Wind, sorridente. — Quero te ajudar nessa busca! Somos amigos, não somos?
— Claro... — Respondi gaguejando. Eu me senti sonolento, e logo me pus a dormir. Wind ficou acordado por mais tempo, me observando...
***
Quando acordei, Wind já não estava mais lá. Ele tinha ido para Yalahar a negócios, ma deixou as coordenadas de onde poderia encontrar Eirik. De certo modo, ele cumpriu sua palavra. Peguei minhas coisas e saí em busca do habitante da cidade dos bárbaros.
Alguns passos para o sul foram o bastante para dar de cara com o guarda da cidade. Ele exercia a mesma função que as irmãs Bonecrusher de Carlin. Ele trajava roupas de pele grossa, que aumentavam a área de seu corpo, bem como um capuz de pelo de lobo para proteger-lhe contra o frio. Carregava uma lança tridente em uma das mãos. Eu me aproximei dele, e saudei-o.
— Saudações, rapaz. Louvado seja o jarl Sven! — Ele bradou em um tom altivo — Posso ajudar-lhe em algo?
— Sim, — Eu disse amistoso — Conhece um homem chamado Memech?
O bárbaro ficou estático, fitando-me com surpresa.
— Eu não acredito! — ele disse surpreso — É o filho de Kaisto! Eu achei que você tivesse morrido ao nascer!
— Quê? — Indaguei com surpresa. Jamais passaria por minha cabeça que Memech sabia de algo sobre mim... Tampouco esse tal Eirik. Quanta sorte.
— Seja bem-vindo ao local onde você nasceu! — Eirik deu-me um forte abraço com os olhos marejados — Quisera teu pai pudesse te ver agora... Ele ficaria tão feliz de saber que o filho está são e salvo...
Eu olhei àquele homem com um misto de espanto e decepção. Espanto por ele conhecer meu pai, e me revelar que ele era um bárbaro, o que fazia de minha cidadania validada não só por um teste, mas pelo sangue também. A decepção já me era esperada, mas ainda assim trouxe-me uma grande tristeza: meu pai já havia morrido, e minha mãe não contara a ninguém sobre meu nascimento, fazendo com que acreditassem que eu havia morrido ao chegar a esse mundo.
Convidei Eirik a fazer uma pequena pausa em seu turno, levando-o à taverna de Dankwart. Apesar de odiar álcool com minha vida, eu sabia que esse seria o consolo para o homem, já que trouxe a ele más lembranças. Ademais, o álcool faria com que ele me desse mais informações. E eu precisava de um ambiente que pudesse disfarçar as lágrimas que saíam de meu rosto.
Pedi a Dankwart alguns copos de seu melhor hidromel para Eirik, e leite para mim. A última coisa que queria era ficar embriagado e esquecer o que Eirik viria a me dizer. Sentamos em uma das mesas mais isoladas da taverna, onde nenhum outro bárbaro pudesse ouvir nossa conversa.
— Kaisto era um xamã de Nibelor — Começou Eirik, muito comovido —, e nunca havia conhecido o amor. Sua mãe foi a primeira mulher que o agradou de cara, sabe? Amor à primeira vista... Ela também pertencia àqueles que possuem o dom da magia, e ela se interessou muito no trabalho de seu pai... — Ele bebeu um grande gole de hidromel, e percebi que sua voz começava a vacilar — Era uma mulher sedutora e cheia de artimanhas, que rapidamente conquistou seu pai. Por um tempo, foram muito felizes juntos, e nós de Svargrond não implicávamos com a forasteira. Nem mesmo o pai de Sven, que era o jarl na época.
Eu arregalei meus olhos. Minha mãe tinha alguma espécie de imunidade diplomática por aqui, e meu pai era um xamã?! Então, foi dele que herdei meu amor pela Natureza?
Continua...
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Nota da Autora: Não vou para de escrever, não, minha gente! A todos que leem, obrigada pelo apoio e continuem lendo.
Gente, eu to participando do Concurso PvP de Arte, e vou fazer o desenho pra mandar lá pro jurado! Desejem-me sorte!