Capítulo 15 — Renegados: Um Anel Para Mim

Dia em que Ireas Keras iniciou sua busca sob o ponto de vista de uma resistência... E descobriu mais sobre o amor.

Sempre que ouvia história sobre a Baía da Liberdade, sentia um aperto em meu coração; é dito que os antigos habitantes eram indígenas hábeis na arte de velejar pelos oceanos. Eram, também, protegidos de Bastesh, e seus solos davam de tudo o que neles era plantado, o que garantia o sustento e harmonia daquela comunidade.

Um dia, porém, os oficiais de Thais ancoraram naquela ilha... E a paz se foi. Os oficias construíram lindas mansões para eles, e deixaram os moradores em casebres nas favelas adjacentes. A policultura foi substituída pela monocultura de canaviais destinados à indústria alcoólica, de onde os oficias extraíam sua riqueza.

Aqueles que resistiram ou morreram ou fugiram. Os demais continuaram submetidos ao trabalho escravo e às mais variadas formas de violência que alguém seria capaz de fazer a outro ser humano. Muitos homens foram presos, enforcados ou forçados a servirem ao Exército Thaiano. Mulheres foram submetidas à prostituição, aos vícios, à violência em todas as escalas, ao abandono e à solidão.

Não havia um cuidado sequer com a cidade, que mantinha esgoto a céu aberto, portos destruídos e lojas pouco abastecidas. Agora entendia o inferno que fora a vida de Sírio antes de ir a Rookgaard e tornar-se um feiticeiro e mestre dos mares como seus pais gostariam que fosse. A pirataria não era um crime aqui, mas sim opção de vida; a única alternativa para uma vida melhor, na visão dos escravos da ilha de Vandura.

Assim que aportei, senti uma imensa tristeza. Não havia um sorriso sequer no rosto dos moradores daquele local. Sentia uma dificuldade de respirar por ali, não entendia bem ao certo...

Entrei na taverna a fim de encontrar algo que pudesse me acalmar. Pedi um suco de manga e bebi vagarosamente. Senti uma mão familiar em meus ombros. Era Wind; quando o vi, quase cuspi o suco no rosto dele, tamanha minha surpresa.

— O que houve? — Perguntou o cavaleiro, surpreso com o meu semblante triste — Posso te ajudar em alguma coisa?

— Você sempre está por perto, não? — Indaguei de forma retórica com um sorriso leve no rosto.

— Algo na minha mente e coração me fez pensar que você precisaria de mim hoje. — Ele me respondeu com um sorriso e sentou-se ao meu lado — Conseguiu descobrir mais sobre sua mãe?

Eu o olhei com os olhos levemente marejados; ele percebeu que eu não escutara boas novas, e logo me abraçou. Eu não consegui conter as lágrimas, que rolaram por meu rosto sem que eu quisesse. Chorei sem soluçar, buscando em Wind um refúgio. Eu não conseguia acreditar que minha mãe pudesse ter sido tão má, e que Hjaern teria carregado todo aquele fardo consigo...

— Tenha calma, Ireas... — Sussurrou Wind em meus ouvidos, afagando meus cabelos — Você vai encontrar as respostas para todas essas dúvidas, pode ter certeza...

Como poderia estar tão certo? Como Wind conseguia ter tanta calma, tanta paz de espírito e tanta segurança? Eu não conseguia entender essa forma de agir, tão incomum a um cavaleiro. A verdade é que todas as vocações estavam corrompidas — o dinheiro falava mais alto que seus papéis na sociedade. Cavaleiros não mais defendiam; paladinos não mais lutavam em nome de nossos deuses, e há muito druidas e feiticeiros haviam rompido relações diplomáticas. Ainda assim Wind conseguia mostrar que havia uma esperança.

— Você está sempre por perto quando preciso... — Repeti com a voz embargada pela tristeza e lágrimas.

— Sempre — Disse o ruivo, sorrindo — Considere-me seu anjo da guarda. — Ele pediu ao taverneiro que trouxesse mais bebidas para nós: rum para ele e uma limonada para mim. Em seguida, ele tirou algumas guloseimas de sua mochila — Vai um manjar? Isso te anima...

Eu peguei o docinho e pus-me a comer. Wind perguntou-me sobre minha viagem e o que faria na Baía. Disse a ele um pouco da verdade — estava lá para procurar mais pistas de minha mãe, mas não comentei sobre o fato de Hjaern ser meu irmão e nem das suspeitas que tinha de ser minha mãe uma druidisa corrompida.

— Olha, ouvi dizer que Eleonore Silverhand perdeu seu anel e está oferecendo uma recompensa — Disse Wind de forma sugestiva — Acho que você pode começar por aí...

Eu terminei de comer o docinho e pedi informações a Wind acerca da residência de Eleonore. Depois disso, pus as moedas equivalentes ao preço da limonada nas mãos de Wind, despedi-me dele e segui meu caminho.

A mansão do governador era uma obra-prima da arquitetura thaiana. Era um casarão – castelo feito em mármore, calcário e arenito. Havia vários entalhes ao longo da elaborada fachada, bem como fontes de mármore branco e um jardim indescritível. Procurei não ser visto pelo governador rapidamente subi as escadarias do andar térreo da casa.

Eleonore era uma moça de cabelos negros, pele alva e olho do mais belo azul. Era olhos mais claros que os meus, e eram um pouco grandes. Tinha cílios longos e trajava um vestido preto e branco com uma ampla saia, usava luvas, um largo chapéu branco e tinha um semblante triste.

— Posso ajudar? — Disse-lhe do modo mais cordial que podia.

— Eu perdi meu anel! — Ela me disse com tristeza — Uma arara entrou aqui e voou sobre minha caixa de joias, levando meu anel para além das montanhas da fortaleza...

— Trarei o anel de volta sem demora! — Disse-lhe com um sorriso.

Ela retribuiu o sorriso rapidamente, e logo voltou a estar triste. Eu me apressei para subir pela fortaleza localizada no coração do maior acidente geográfico de Vandura. Fiquei impressionado com toda a estrutura que havia lá — campos de treinamento, saídas de emergência e esconderijos acessíveis no caso de invasão pirata.

O que mais me entristeceu, contudo, foi ver o montante de escravos e outros nativos forçados ao alistamento e treinamento regular. Eu segui em frente até achar uma estrutura na montanha por onde pudesse subir.

“Exani Hur; Up!” — Conjurei um feitiço de levitação que me conduziu ao andar seguinte da montanha. Em meu caminho, encontrei alguns centípedes que preferi deixar vivos; eles pertenciam àquele lugar e não havia sentido em matá-los. Subi uma escadaria e deparei-me com uma tarântula.

Era uma aranha relativamente grande, peluda e rápida, cuja picada causou-me bolhas e muita dor. Não tive escolha senão congelá-la, a fim de refrear seus ataques. Após um tempo, consegui transformar aquele ser em uma estátua de gelo, e segui meu caminho até o local onde estaria a arara.

A ferida doía, e eu começava a cambalear — nunca veneno algum me havia feito mal; isso era estranho. Eu encontrei a bela ave de penas vermelhas no topo de um salgueiro, com o anel em seu ninho. Peguei meu rastelo e fiz o possível para não ferir a ave. Quando ergui o equipamento de madeira, a ave saiu de seu ninho e voou até meu ombro, deixando o anel em meu bolso usando uma de suas patas. Em seguida, saiu voando para algum outro local.

Com um sorriso, soltei meu rastelo e voltei à mansão dos Silverhand.

***

— Meu anel! — Exclamou a garota, exultante — Muito obrigada! Puxa, você é um rapaz muito corajoso... — Seu semblante tornou-se melancólico outra vez — Recorda-me de Ray...

Ray? — Indaguei com estranheza. Ela apertou fortemente minhas mãos entre as dela.

— Por favor, me ajude! — Ela pediu com lágrimas nos olhos — Eu não suporto mais essa vida, como se eu fosse um passarinho ornamental, condenado a cantar em uma jaula sem poder voar! — As lágrimas rolaram pelas faces bem cuidadas da moça — Há um homem que amo mais que tudo nessa vida, mas meu pai jamais o aceitaria... Preciso que você me ajude a fugir... Para que eu possa estar com esse homem... Raymond Striker. Por favor, por favor, eu te imploro, me ajude! Você deve ter alguém que ama, não é? Alguém por quem você sacrificaria tudo, e iria até os confins do mundo só para proteger ou ver feliz, não é? Não importa a raça — seja elfo, anão ou yalahari, é a pessoa por quem vale a pena lutar... E ter um local para voltar. Você tem um amor, não tem Keras?

Eu fiquei estático; eu não sabia responder àquela pergunta. Eu não sabia ao certo o que era o amor, eu nunca havia experimentado aquilo... Bom, se pensar por um lado, talvez tivesse alguém por quem valesse à pena lutar...

— Eu te ajudarei, Eleonore — Respondi, disfarçando o rubor de minhas faces — O que você precisa que eu faça?

Primeiramente, a filha do governador pediu-me para entregar certa quantia de dinheiro à druidisa local Charlotte, dizendo a ela uma senha secreta. Tendo feito isso, eu poderia falar com o capitão Waverider da resistência de Sabrehaven, onde estava o homem que Eleonore dizia amar.

— Você será recompensado por isso, Keras — Disse-me a moça —; não se trata apenas do dinheiro... Mas do amor. Lembre-se disso: o amor move montanhas e dá forças nos momentos mais difíceis. Em uma batalha, sempre se lembre da pessoa que ama... E do quanto que você gostaria de estar perto dela.

Ela me deu um beijo em minhas faces e pediu que eu desse lembranças a Raymond, de quem sentia tanta falta quanto afeição. Agradeci os bons votos e fui falar com Waverider...

Continua...