Capítulo 16 – Os Renegados: O Amor de um Libertário
Dia em que Ireas Keras agiu como um cupido pela primeira vez em sua vida.
Waverider cobrou-me algumas moedas de ouro para me levar à Sabrehaven, o reduto rebelde de nativos indignados de Vandura, que não mais queriam ver suas terras colonizadas por estrangeiros metidos a civilizados.
Era uma ilha protegida por uma enorme cadeia de montanhas, que parecia impedir que os navios ali atracados fossem vistos pelas patrulhas thaianas. Eu ri um pouco daquela situação — certamente deveria ser constrangedor para o Rei Tibianus estar diante de uma situação como essa, crendo que tudo está sob controle em sua colônia nas proximidades de Tiquanda.
O belicoso capitão rapidamente retornou à Baía da Liberdade, e eu segui para o acampamento na selva tropical. Havia sapos de várias cores e formas saltando pela macia relva, bem como algumas borboletas multicolores. A vegetação era abundante e bem tratada — sinal de que os habitantes sabiam retribuir à Mãe Natureza aquilo que ela lhes dava sem nada cobrar.
O capitão da resistência Raymond Striker não foi difícil de encontrar; ele estava em uma sala cheia de equipamentos de marinheiros — mapas, bússolas, coordenadas, cartas... Mas nenhum registro sequer de Eleonore; nem um desenho, nem uma carta. Nada. E lá vieram meus maus pressentimentos...
Tentei de todas as maneiras o lembrar de Eleonore e do amor que a garota nutria por ele; tudo em vão. No entanto, ele falou-me de uma sereia pela qual estava morrendo de amores não correspondidos — Marina. Talvez ele estivesse sob o efeito de algum feitiço; caso eu o libertasse, ele recordar-se-ia de Eleonore e juntos poderiam planejar sua vida...
Eu me sentei um uma pedra nas proximidades da casa de Raymond, pensando no que faria a seguir. Dissipar um feitiço não seria tarefa fácil, e eu precisaria barganhar com a sereia se quisesse libertar o pobrezinho. Agora entendo porque não amo — é um sentimento tolo e manipulável. Um revolucionário impedido de continuar graças aos poderes de uma criatura do mar... Tolices, tolices.
Continuei a pensar enquanto aplicava a resina em minhas mãos. O primeiro frasco estava quase no fim e logo teria que abrir outro. Após terminar essa tarefa, fui procurar pela sereia. Os membros da resistência local me haviam dito que Marina habitava algum local da costa norte de Sabrehaven, e que bastaria apenas que eu seguisse em frente até encontrar enormes tartarugas marinhas.
Marina era estonteante; cabelos loiros como o trigo, com largos anéis que cobriam seus seios desnudos. Seus olhos eram azuis como safiras e atraentes como a espuma do mar, como se fossem dragar os mais incautos às profundezas do mar. Seus dentes eram brancos como pérolas imaculadas e sua cauda era verde como as escamas de dragões, porém eram perfeitas, delicadas e exibiam um lindo brilho de arco-íris quando a luz batia de uma determinada forma no corpo da sereia. Depois de vê-la, não me surpreendi pelo fato de Raymond ter caído de amores por ela.
Aproximei-me dela da forma mais sutil a fim de não assustá-la. Ao ver-me, ela arregalou os olhos em sinal de surpresa, e eu guardei minhas armas, mostrando que não estava ali para machucá-la.
— Que milagre! — Disse a moça, fazendo um sinal com a mão esquerda para que me aproximasse mais — Enfim, um homem que eu possa dizer que é belo! O que te traz aqui, meu lindo e galante...
— Druida — Respondi-lhe tentando não ficar muito encabulado.
— Ah, um amante da Natureza, das belas criaturas que Crunor criou; as únicas coisas que chegam aos meus pés... — Ela disse com uma risadinha de contento ao final de sua fala.
— Vim falar acerca de Raymond Striker — Eu disse sério — Peço-lhe que tire o feitiço que nele pôs... Há uma moça que o espera em Vandura... E vim até essa terra em nome dela, como um mensageiro.
Ela soltou uma risada de escárnio e sarcasmo que gelou minha alma de uma forma que jamais pensei que seria possível.
— Só por cima de meu belo cadáver! — Disse a garota em disfarçada fúria — Se você conseguir me provar que há homem melhor que Raymond por essas bandas... — Ela se aproximou de meu rosto, e senti meu coração disparar — Talvez eu reconsidere...
Afastei-me dela antes que pudesse me beijar; não queria ficar sob o mesmo transe e esquecer-me de minha missão. Voltei a Sabrehaven, pensativo. Como eu faria para encontrar alguém mais atraente para Marina, se eu claramente a rejeitei? Nunca me considerei muito bonito, eis a razão de ter estranhado a atitude da moça. No entanto, precisarei fazer algo que nunca fiz em minha vida: ser Cupido.
Como nunca tive muitos amigos em Rookgaard, não cheguei a ser “casamenteiro” de nenhuma sorte. E, sendo que não sei absolutamente nada sobre o amor, creio que estou com problemas. Muitos problemas.
Eis então que um lamento vindo da cadeia montanhosa a sudoeste do acampamento me chama a atenção. Era um som grave e imponente ao mesmo tempo em que era suave como o vento que soprava em meu rosto. Intrigado, decidi subir a cadeia e ver o que havia lá.
***
Subida interminável, cheia de partes íngremes e infestadas de aranhas, tigres e outros animais de várias sortes. O lamento ficava mais ruidoso na medida em que subia. Por fim, cheguei a um local na cadeia montanhosa que mais se parecia com a casa de algum servente de alta estima de um sultão. Quando entrei na estrutura de marfim e mármore branco, descobri que havia um enorme Gênio Azul lá. Suas feições tristes me comoviam, e faziam o sentimento de medo desaparecer. Seu nome era Ocelus.
— Eu observo aquela linda criatura há mais tempo que consigo me lembrar... — Ele disse, com a voz melancólica — Sempre quis ter uma chance, mas sou muito introvertido... Minha estatura e minha cor sempre foram meus maiores receios... Poderia tentar conseguir-me um encontro? — Implorou o melancólico gênio, fitando-me com seus olhos negros com um brilho de esperança.
— Farei meu melhor — Repliquei, com um sorriso discreto de satisfação. Tinha a solução; o que eu precisava era tornar aquele gênio atraente para aquela sereia arrogante...
Saí da casa de Ocelus e logo me deparei com uma figura conhecida, que fez minhas faces enrubescerem e meu coração disparar: Wind.
— O que faz aqui? — Disse surpreso e sem conseguir ocultar o sorriso.
— Você vai precisar — Ele me entregou um pergaminho fechado com algumas inscrições élficas — Boa sorte com sua missão, Cupido.
Antes que eu pudesse dizer algo, ele simplesmente pulou do pilar rochoso de onde aparecera, chegara ao chão sem ferimento algum e seguiu seu caminho. Ele desapareceu das minhas vistas tão rapidamente quanto surgira. Com o pergaminho em mãos, desci rapidamente das montanhas e voltei até Marina.
***
— O quê?! — Ela me perguntou, enfurecida — Jamais eu sairia com aquele pele-azul! Ele não chega nem aos pés de Raymond... Tem certeza que você não quer? — Ela se aproximou de mim novamente, disposta a me beijar — Só um beijo...
Eu comecei a suar frio, e não conseguia me mexer. E a sereia continuava a se aproximar. Então, eu olhei para o pergaminho que Wind me trouxera e, antes que a sereia pudesse colar seus lábios de encontro aos meus, eu recitei o poema. Certamente, só foi possível fazer tal ação falando a língua dos Djinns graças a Wind, que deve ter falado com Ocelus antes de sair da montanha.
A sereia ficou estática por uns segundos. Depois, veio a histeria: ela queria ver Ocelus mais que tudo, e retirou a maldição de Raymond Striker. Eu passei na residência de Ocelus para dar-lhe as boas novas, e ele me agradeceu vigorosamente. Eu o deixei se preparando para a noite que vinha, e procurei um refúgio para mim. Amor... Amor... Que loucura!
Esse sentimento faz até um Gênio virar um rato, faz uma sereia entrar em histeria e traz alguns felizes infortúnios a um casal de jovens. Acho que é um sentimento que te faz passar por provações. Eu não sei, ainda parece muito tolo para mim...
Continua...
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Nota da Autora: Hoje eu mandei a sinopse da minha história pro Zath. Vamos ver se ele curte...