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CAPÍTULO 5 – AS SERPENTES DE ZATHROTH
Surpreendentemente, pela manhã, começou a fazer um calor inexplicável. Quando Jason se levantou, depois de três rondas que fizera, achou que o tempo se parecia muito com aquele que vivenciavam os cidadãos do deserto de Darama. Abrindo mão da parca pesada e vestindo-se com roupas de linho frescas, ele embainhou sua espada e saiu para o ar quente.
Imediatamente, percebeu que algo não corria exatamente bem. De pé na amurada, Leonard e Catarina observavam aflitos o oceano no ponto em que tangenciava com o casco do navio. Aproximando-se, curioso, Jason posicionou-se ao lado do amigo arqueiro.
Uma porção de bolhas de incomum tamanho se acumulava ao longo da casca do navio. Jason franziu o cenho e olhou para Catarina.
— Serpentes marinhas – disse ela, parecendo muito culpada por algum motivo. – Eu sabia que devia ter lançado mão de um feitiço de imperturbabilidade. Elas foram atraídas pelo cheiro da comida. Pelo menos quatro delas.
Jason sentiu como se uma pedra de gelo estivesse descendo por sua faringe e se alojando em algum incômodo local do estômago. Ele olhou para Leonard, que assentiu uma vez, como se confirmasse as informações transmitidas pela cozinheira.
Naquele instante, o restante da tripulação ia se aproximando, tentando entender o que acontecia.
— Melany – disse Jason, dirigindo-se à garota –, que espécie de habilidades de druidas você ainda conserva?
— Todas elas – ela disse, enfaticamente.
— Acho que tenho uma ideia. Cotton, Gibbs, Reynold e Joshua, posicionem os canhões, dois de cada lado do convés, equidistantes. Abasteçam-nos com as lanças trazidas. Leonard, posicione-se na proa, com bom campo de visão, e esteja armado. John…
Ele olhou para o cartógrafo, que engoliu em seco.
— Fique olhando – instruiu, desconcertado, certo de que John não tinha nenhuma habilidade de combate. Ele respirou aliviado. – Catarina, seria interessante se você guardasse posição na popa. Mantenha seu cajado em riste. Melany, acompanhe-a e fique atenta aos meus comandos. As serpentes sempre estão aos pares.
Imediatamente, todos obedeceram às ordens do cavaleiro. Logo cada um dos marujos tinha posicionado os canhões, cada qual responsável pelo manuseio de um deles. Catarina tomou sua posição junto de Melany na popa, e Leonard ocupou seu espaço na proa.
— Quanto de distância é necessária para lançar um encantamento? – gritou Jason, que manteve-se em pé no centro do convés.
— Quer que eu acerte as serpentes? – ela perguntou, a voz subindo uma oitava.
Rapidamente, Jason repassou mentalmente tudo que aprendera na academia de Carlin a respeito dos monstros que habitam o continente antigo. As serpentes marinhas tinham uma fraqueza que ele conhecia muito bem e pretendia explorar.
— Congele os olhos delas – gritou ele, com convicção. – De todas elas.
Um pouco ensimesmada, ainda assim, Melany decidiu não discutir. Ela fechou os olhos e concentrou as próprias energias, de varinha em punho. Não demorou para que, mesmo no ar quente, pequenos cristais de gelo começassem a se mover nos arredores dela, espiralando de forma contínua enquanto a força da natureza era invocada e canalizada. Poucos segundos depois, os cristais passaram a divergir, apontando para cantos distintos, até que deixassem a superfície do ar e penetrassem na imensidão da massa oceânica.
Nenhum daqueles homens estava preparado para o que se seguiu.
Quatro serpentes imensas impulsionaram seus corpos para fora do mar, os olhos inconfundivelmente congelados em função da magia de Melany. Três delas eram um pouco menores que a quarta, que era decididamente mais robusta. Todas tinham corpos azuis, enroscados com pedaços de pau e algas, longas barbatanas douradas protegendo as guelras e imensos dentes amarelados dentro das bocarras.
— Acalmem-se, homens – ordenou Jason, os olhos fixos nas serpentes. – Muito bem… acalmem-se. Ao meu sinal, disparem contra a cabeça.
Leonard tencionou o arco, no qual se prendia uma flecha contundentemente afiada. Catarina apontava sua varinha para uma das serpentes menores, e Melany, agora, ia sacando seu próprio arco, estarrecida com a visão.
— Muito bem – aprovou Jason, enquanto as serpentes sacudiam as cabeças, extremamente incomodadas com a falta de visão. – Muito bem. Ao meu sinal…
Jason sacou a própria espada e firmou os olhos na serpente maior.
— Fogo.
Os quatro canhões dispararam quase que simultaneamente. Três das quatro lanças se alojaram nas cabeças enormes das serpentes menores, cujo grito enregelante, de derreter os ossos, fez tremer as estruturas do navio. As serpentes atingidas sacudiram-se no mesmo lugar, os rabos chocando-se violentamente contra o casco, sangue esverdeado esguichando por todos os lados e tingindo de verde o convés.
Simultaneamente à morte das três serpentes, que agora já iam sendo carregadas pela corrente, onde o mar criaria, em seu fundo, as suas sepulturas, a quarta lança não acertou a serpente maior em cheio. Gibbs vacilou por um instante e acabou tremendo ao manusear a posição do canhão, sendo que seu projétil se alojou em uma das barbatanas do bicho, o que só fez com que ele se tornasse ainda mais feroz.
— Puta que o pariu – praguejou Leonard, abaixando ligeiramente o arco. – Depois eu é que sou o cabeça-oca.
O feitiço lançado por Melany se desfez, e a serpente, irritada, não esperou por um segundo aviso. Ela projetou o corpo para trás e se atirou repentinamente para a frente, atingindo o chão do convés onde Cotton estivera um segundo antes.
A estrutura do navio se sacudiu. O segundo bote da serpente atingiu o mastro em cheio e danificou seriamente uma das velas. Ato contínuo, ao sabor do vento, a vela acabou por influenciar o manejo do timão, que se torceu totalmente para a esquerda, fazendo o navio desviar-se totalmente da rota anteriormente traçada.
O terceiro golpe da serpente mirou a popa, onde estavam Melany e Catarina. A cozinheira disparou um feitiço breve que queimou uma das escamas do monstro, que urrou, indignado, e atacou novamente, ainda mais depressa. Corajosamente, Melany deu um salto para o lado e puxou a flecha, mirando-a de qualquer jeito, e a disparou.
O projétil chiou no ar e alojou-se com firmeza no olho esquerdo da serpente.
Novamente, o bicho gritou muito alto, seu rabo atingindo o casco do navio com firmeza. Em algum lugar, o som de água corrente pode ser ouvido, e, aos poucos, a estrutura da embarcação começaria a ceder.
Jason precisava tomar uma decisão.
— Leonard – gritou, saltando para lá e para cá para fugir das abocanhadas quase certeiras do monstro. – Comande a guarnição. Se eu não voltar, conclua a missão.
— Se você não o quê? – gritou o arqueiro de volta, puxando mais uma flecha da sua aljava.
Jason não esperou. Ele saltou de trás da vela quebrada e desviou uma das investidas da serpente com a espada, arrancando um de seus imensos dentes. Repentinamente, com um quê de diversão, ele se lembrou da aparição do incandescente, dois dias antes. Estava prestes a repetir a mesma loucura.
Surdo aos gritos de protesto de Leonard e Melany, Jason correu até a amurada do navio e, segurando a espada com firmeza, se atirou no mar.
De certa forma, a água gelada acabou por representar um alívio naquele calor de enlouquecer. Porém, nos domínios da serpente, agora, Jason encontrava-se na situação mais crítica de sua vida. E a visão era igualmente assustadora.
Mais de dez metros de serpente ainda estavam ocultos dentro da água. O rabo agitado dela passou perigosamente perto do cavaleiro, não o atingindo por pouco. Conservando o fôlego que lhe restava, Jason deu suas braçadas na direção do monstro.
Lá em cima, a situação não era melhor. Os ataques da serpente já haviam destruído parte da popa, deixando os aposentos de John em ruínas. Cotton jazia desacordado próximo à escada que levava ao subsolo, e Gibbs, Reynold e Joshua, de lanças na mão, somente faziam se proteger enquanto a serpente avançava cada vez mais e mais.
A destruição total do navio era iminente.
Embaixo d’água, Jason finalmente alcançou o monstro. Agora, ele tomaria para si a vantagem de enfrentar aquele bicho imenso, porque suas escamas ofereciam um excelente apoio para que ele se içasse para cima, como era seu plano.
Lentamente, ele emergiu, os olhos ardendo por causa do sal da água. De espada em punho, Jason subiu pacientemente, respirando profusamente, os pés escorregando aqui e ali, vez ou outra o corpo balançando perigosamente quando a serpente dava suas investidas e se sacudia inteira.
No navio, Leonard estava boquiaberto. Embasbacado.
— Puta que o pariu – repetiu o arqueiro, sacudindo a cabeça de leve. – Depois eu é que sou o cabeça-oca.
Finalmente, Jason alcançou a barbatana onde a lança se fixara. O projétil estava totalmente danificado, não poderia ser reutilizado. Subindo devagar até a cabeça, iniciou seu trabalho.
O cavaleiro posicionou firmemente os pés e, segurando a espada entre as mãos, cravou-a na cabeça do bicho.
A serpente urrou novamente e se sacudiu de repente, atirando Jason para cima. Com um movimento ágil, abriu a bocarra e engoliu o cavaleiro. Imediatamente, preparou-se para dar mais um bote, como se nada tivesse acontecido, o sangue verde escorrendo-lhe pelos olhos.
— Maria Mãe de Deus – disse Joshua, fazendo o sinal da cruz. – Se eu sobreviver, terei história para contar.
A serpente investiu novamente, mas parou a meio bote. Sua cabeça girou de um lado para o outro, como se ela estivesse ouvindo um som ligeiramente familiar. Em seguida, ela ameaçou um segundo ataque, novamente interrompido pela metade.
Ninguém esperava pelo que veio a seguir.
A cabeça da serpente foi aberta de fora a fora. De dentro para fora, como se algo a estivesse cortando a partir do céu da boca. Um pedaço de lâmina serrilhada surgiu onde os olhos podiam enxergar, lâmina que traçou um caminho reto do topo da cabeça do monstro até a base do seu lábio superior.
Quando a cabeça do monstro se abriu ao meio e o corpo sem vida da serpente ia sendo deixado para trás, um intocável – exceto pela gosma verde que o recobria – Jason esperou pelo momento certo e saltou de volta para o navio, rolando pelo convés.
Catarina, Melany e Leonard correram para acudir o capitão, que levantou as mãos rapidamente, sinalizando que estava bem.
— Catarina… e Melany – ele respirou fundo, os músculos queimando pelo esforço que fizera. – Por favor… digam-me que podem consertar o navio.
Catarina assentiu enfaticamente.
— Podemos providenciar os reparos urgentes, capitão – disse a cozinheira, que parecia se sentir muito culpada. – Vamos nos concentrar lá embaixo primeiro, depois subimos para restaurar o restante. Vamos soltar a âncora e começar.
— Não se demorem – ele se limitou a dizer, e elas correram escada abaixo.
Leonard logo trouxe alguns baldes de água com sabão para o cavaleiro se lavar. Os outros componentes da tripulação desceram para auxiliar as feiticeiras.
— Por Crunor, Jason – disse Leonard, ao mesmo tempo abismado e espantado. – Que maluquice foi essa?
— Estamos vivos, não estamos? – respondeu Jason, agora de roupas limpas e cheirosas.
— Sim, mas… eu já vi você atuar em situações críticas no passado, mas nunca desse jeito. Você é um guerreiro completo, cara.
Jason assentiu, ligeiramente encabulado.
— Juro que quando você – o arqueiro fez um movimento, como se estivesse enfiando uma espada na cabeça de uma serpente –, caramba, cara, eu me borrei todo. Se você duvidasse, escorreria cocô pelas minhas pernas abaixo.
— Prefiro não me deparar com situação semelhante – disse Jason depressa.
O arqueiro passou os dez minutos seguintes explicando ao cavaleiro todas as sumárias e importantes diferenças entre o cocô regular e o cocô de nervoso, e como o cocô de nervoso podia ser muito mais líquido do que o cocô regular. Naquela altura, Jason já estava deveras acostumado com a obtusidade do amigo para interrompê-lo, então simplesmente ouviu toda aquela baboseira até o final.
— Casco consertado – disse Catarina, finalmente.
— Ótimo – aprovou Jason. – Vamos trabalhar aqui em cima.
Na altura em que o sol vinha se pondo no horizonte, trazendo consigo a noite, o mastro já estava quase totalmente reconstruído, faltando a vela. O primeiro desafio fora vencido.
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