Spoiler: Respostas
CAPÍTULO 6 – LAWTON WALKER
Surpreendentemente, o sentimento não era de fracasso no jantar daquela noite. Catarina tinha cuidado do feitiço de imperturbabilidade com a máxima cautela, para que surpresas como aquelas não se apresentassem no caminho da tripulação outra vez. Melany, de sua feita, olhava para Jason de maneira distinta. Quase lasciva. O garoto se sentiu ligeiramente encabulado no começo, mas, depois, aprendeu a conviver com a sensação. Até se agradou dela.
— Chegaremos no limite entre o antigo continente e o reino de Zathroth ao final da manhã de amanhã – disse John, que parecia respeitar ainda mais as habilidades de seu capitão agora, depois do que vira. – O tempo cuidará de nos avisar, porque a queda de temperatura será brusca. Do calor sufocante atual para o frio de congelar os ossos.
Jason assentiu, sem dizer palavra. Leonard mastigava de boca aberta, e Catarina cuidava dos ferimentos de Cotton, sem favor algum o maior prejudicado naquela batalha.
— Capitão… - John pigarreou, um pouco desconfortável. – Talvez seja a hora de discutir com a tripulação o seu… plano.
Os olhares convergiram para Jason, que piscou duas vezes e soltou o meio pão que estava prestes a comer. Engolindo de uma só vez, ele umidificou os lábios.
— Foi-me noticiado que Folda, Senja e Vega são comandados por demônios de Zathroth – começou ele, com pouca convicção. – A princípio, somente Senja possui uma população local. Nada mais cresce nas ilhas, somente se vê gelo por toda parte. A terra que anteriormente teria sido usada para cultivo por Crunor, atualmente, está mais salgada do que Cartago.
Todos assentiram, fazendo com que o cavaleiro se sentisse momentaneamente estúpido. Aparentemente, todos conheciam as histórias a respeito das ilhas geladas, menos ele.
— Acho que podemos trabalhar no sentido de libertar as ilhas do comando de Zathroth. Se John tiver obtido êxito ao levantar informações a respeito dos demônios, tenho a intenção de matá-los, atacando-os em suas fraquezas.
O balançar de cabeças no sentido positivo surpreendeu Jason por um instante. Pelo visto, a performance que ele desempenhara ao derrotar a grande serpente produziu bons frutos; a tripulação parecia crer cegamente em suas habilidades, e parecia disposta, inclusive, a enfrentar três dos maiores soldados da guarda de Zathroth, simplesmente porque ele dizia que seria melhor se fizessem.
Ele relanceou um olhar para John, que tirou de dentro do sobretudo – que ele nunca tirava, diga-se de passagem – um pequeno livro, muito gasto. Jason franziu o cenho por um instante.
— O Ritual Romano – disse, empurrando o livro nas mãos de Jason. – É a forma mais eficaz de se combater um demônio, qualquer que seja.
Jason passou o dedo pela capa do livro, cujas inscrições ele não reconhecia. Porém, nenhuma língua da Terra seria capaz de esconder de suas vistas o nome do autor do livro: Joseph W. Prince.
— Prince escreveu o Ritual Romano? – perguntou, surpreso.
John fez que sim, disperso.
— Prince era um dos maiores historiadores da Arca do Destino. Seus sucessores foram proficientes na arte de combater o manto das trevas, e, pelo visto, seu descendente mais recente, mais jovem, ainda vivo, tem a intenção de seguir pela mesma trilha.
Jason torceu a cabeça de lado, confuso. Logo em seguida, a compreensão o inundou de maneira avassaladora, derrubando todas as barreiras que ele cuidadosamente havia construído ao longo da vida. A morte dos pais, supostamente emboscados por trasgos; a proteção excessiva de Margareth, fora do comum; o fato de que ela colocou nas mãos dele o livro de Joseph W. Prince sem pestanejar.
— O “W” resumido no nome de Joseph Prince é de Walker – disse ele, assoberbado.
— Precisamente, meu capitão – John sorriu, triunfante.
*
John entrou em sua cabine, totalmente reconstruída, sentindo-se deveras satisfeito. Jason Walker havia, finalmente, conseguido criar o link necessário entre seu presente e seu passado. Se ele não fosse obtuso como o arqueiro, saberia destinar seus esforços no sentido de garantir a paz no antigo continente e, de quebra, obter a recompensa da Arca do Destino e se tornar o mais fiel seguidor de Crunor a pisar na Terra.
Ele tirou o sobretudo, checando a trava da porta da cabine. Em seguida, posicionou-se diante do espelho e, com cuidado, removeu barba e cabelos postiços.
A careca intransponível surgiu diante dele, o corpo seminu totalmente recoberto pelas tatuagens cinzentas que garantiam sua proteção contra agentes externos.
Puxando para perto uma grande taça de prata, ele fechou os olhos e murmurou algumas palavras. Na sequência, um rosto de traços firmes e olhos muito azuis surgiu translúcido na água da taça. O homem tinha cabelos e barbas brancos e não tinha uma marca sequer no rosto.
— John – cumprimentou, a voz grave ressoando como se viesse de outra dimensão. Do além. – Boas novas, espero.
— Milorde, Jason Walker demonstra ser o guerreiro que imaginamos que fosse. O senhor acompanhou a batalha contra as serpentes?
O homem assentiu.
— Certamente que sim. Escolher alguém descendente do sangue de Prince foi um passo razoavelmente ambicioso, John, mas creio que você tomou uma boa decisão.
O incandescente sorriu, sentindo-se lisonjeado.
— Agora, milorde, acho que…
Repentinamente, a porta da cabine de John explodiu, lançando pedaços de madeira e ferro para todos os lados. Jason ingressou de espada em punho, com Leonard o acompanhando, uma afiadíssima flecha embainhada em seu arco.
O incandescente relanceou um olhar para a taça, de cujo âmbar o rosto havia desaparecido.
— Solte a prata – ordenou Jason, com raiva. – Vire-se totalmente. Se fizer algum movimento brusco, arranco a sua cabeça.
John se virou totalmente, as tatuagens cinzentas quase brilhando sob a luz fraca dos lampiões acesos. Ele olhou nos olhos de Jason e levantou os braços em sinal de rendição.
— Cacete – praguejou Leonard, assustado. – Que diabo é esse esquisito?
Jason arreganhou os dentes, animalesco.
— É o incandescente que me visitou há dois dias. É o homem que designou a mim minha missão.
Leonard abriu a boca em um “O” perfeito – e até cômico –, compreendendo. Em seguida, franziu a sobrancelha e trocou seu olhar continuamente do amigo para o outro, raciocinando – aparentemente, com muita dificuldade.
Ele abaixou o arco e embainhou novamente a flecha. Seu rosto só apresentava curiosidade.
— Que é que você está fazendo aqui, maluco? – perguntou, estreitando os olhos. – Quero dizer… você tem nos ajudado e tudo mais, mas qual é a do disfarce? Você é bem mais maneiro em sua forma original.
Jason relanceou um olhar para o amigo, resistindo ao impulso de socá-lo no plexo.
— Jason, eu sou John Rosenthal – disse ele, sem rodeios. A espada do garoto baixou por um instante, mas logo retornou à posição original. – Sou um incandescente de Crunor.
— Por que é que você está trabalhando infiltrado? – perguntou Jason, sem baixar a espada. – Qual o benefício disso?
— O que foi que me entregou?
O cavaleiro levantou os olhos, impetuoso.
— Quando abriu o sobretudo, vi as tatuagens. A princípio, achei que estivesse vendo coisas, mas, aí, boa parte do que incomodava minha cabeça se encaixou.
John fez que sim com a cabeça, arriscando um sorriso curto.
— É perspicaz, capitão.
Jason avançou contra o incandescente e o imprensou contra a parede, a espada apertada contra sua garganta. Por um instante, lembrou-se de quando combateu os mercenários que ameaçaram Leonard, no que parecia ter sido há mais de trezentos anos.
— Vou lhe dizer como as coisas vão correr. Diga-me algo que me valha a pena, ou, juro por Crunor, atiro você para fora deste navio, e, se você se salvar desta, serei o primeiro a sugerir que você dispute natação nas Olimpíadas Intercontinentais.
O incandescente acenou positivamente, mas seus olhos azuis da cor do céu não expressavam o mesmo medo que os mercenários tiveram um dia antes. Pareciam deliberativos, quase curiosos.
— Cada religião tem sua crença – disse, depois de pensar muito. – Os cristãos acreditam em Deus e no diabo, em anjos e em demônios; os crunorianos creem em Crunor e Zathroth, incandescentes e magos negros. Joseph Walker Prince foi um dos predecessores das crenças do mundo novo, qualquer bíblia de Crunor tem seu nome inscrito ao final. Chequem por vocês e, se eu estiver mentindo, vou requerer minha decapitação por mim mesmo.
“Prince enfrentou a primeira horda de Zathroth, a que fracassou, na Primeira Grande Guerra. Desde então, os missionários de Crunor têm sido divididos em missões de campo ou de compostura, atuando nos bastidores ou como protagonistas, mas sempre em atuação. Como os cristãos oram a Deus para que intervenha, nós, incandescentes, trabalhamos para satisfazer as vontades de Crunor.
“Lawton Walker, Jason, seu pai, foi um dos maiores combatentes das artes das trevas que conheci. Os ensinamentos de Joseph Prince chegaram até ele, e ele abraçou seu destino, mas, quando Lawton teve contato com a arte do contragolpe, suas variações já eram tantas que ele foi capaz de criar uma modalidade totalmente nova de magia branca. Lawton Walker criou a incandescência, e expôs nossa existência para o mundo”.
— Incandescência – Jason repetiu. – Você é realmente muito corajoso. Meu pai era um comerciante.
— Seu pai era um exorcista de primeira classe e um dos maiores feiticeiros da guarda de Crunor que o antigo continente conheceu – John respondeu automaticamente, mal fazendo conta de que estava sendo ameaçado por um homem armado. – Você pode conviver com isso, e saber que Lawton foi um grande homem, cumprir a missão que lhe designei e retornar a Carlin como o filho do feiticeiro bem-sucedido, ou pode me atirar às quaras e falhar miseravelmente.
Jason virou de lado e cuspiu no chão, enojado.
— Entendo muito bem a relação incandescente-designado que é criada pelas aparições fantasmagóricas e cheias de pirotecnia que vocês costumam promover, mas isso não nos torna amigos, Rosenthal.
— Pois deveria torná-los, filho – disse uma quarta voz na sala.
O cavaleiro se virou completamente, quase se esquecendo de que tinha a intenção de cortar a garganta de John. Leonard puxou seu arco e atirou por instinto, mas o homem recém-surgido segurou a flecha como se estivesse recebendo um lançamento em um campo de futebol, e a partiu no meio. Ele tinha olhos castanhos como os de Jason, cabelos desajeitados como os de Jason, era magro como Jason e alto como Jason. Era Jason, numa versão mais velha – e de bigode.
A imagem dele era trêmula, translúcida, como se não pertencesse ao local onde se encontrava. Contudo, o sorriso bondoso, que revelou uma bonita dentição, como a de Jason, era muito palpável. Podia ser sentida no ar, e expressava um só sentimento: amor.
— Você se tornou um grande homem, meu filho – disse o fantasma de Lawton Walker, lágrimas peroladas escorrendo-lhe pelo rosto. – Estou orgulhoso de você.
Jason arriscou um passo na direção do pai e tentou tocá-lo. O que quer que fosse aquilo, era muito real – o calor, a sensibilidade do toque, a textura das roupas pesadas de feiticeiro, tudo.
— Pai? – Jason soltou a espada e abraçou o pai, sem conseguir se conter.
Lawton correspondeu ao abraço do filho, trocando um sorriso com John, que, de braços cruzados, assistia à cena, feliz.
— Podemos voltar a nos falar futuramente, filho – disse Lawton, soltando-o e olhando para ele com alegria. – Puxa vida. Se deixares um bigode, rapaz, passar-te-ás por mim.
Jason riu, imerso naquele universo totalmente novo e rejuvenescedor.
— John é um guarda de Crunor, Jason, e somente se manteve oculto porque essa é sua natureza. Os incandescentes não gostam do protagonismo, não querem ser o rei, preferem ser seu conselheiro. Confie nele e conclua sua missão, filho.
A imagem de Lawton tremeu por um instante, e ele olhou por sobre o ombro.
— Hora de ir. Arrebente, Jason. E, John, dê a ele o que solicitei. É a hora.
Lawton tremeluziu novamente e, um instante depois, já se havia ido.
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Responder com Citação

morreu mesmo ou não, juro que fiquei de cara nessa parte
Tadinha kkkkk