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Tópico: Jason Walker e a Arca do Destino

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    CAPÍTULO 6 – LAWTON WALKER


    Surpreendentemente, o sentimento não era de fracasso no jantar daquela noite. Catarina tinha cuidado do feitiço de imperturbabilidade com a máxima cautela, para que surpresas como aquelas não se apresentassem no caminho da tripulação outra vez. Melany, de sua feita, olhava para Jason de maneira distinta. Quase lasciva. O garoto se sentiu ligeiramente encabulado no começo, mas, depois, aprendeu a conviver com a sensação. Até se agradou dela.

    — Chegaremos no limite entre o antigo continente e o reino de Zathroth ao final da manhã de amanhã – disse John, que parecia respeitar ainda mais as habilidades de seu capitão agora, depois do que vira. – O tempo cuidará de nos avisar, porque a queda de temperatura será brusca. Do calor sufocante atual para o frio de congelar os ossos.

    Jason assentiu, sem dizer palavra. Leonard mastigava de boca aberta, e Catarina cuidava dos ferimentos de Cotton, sem favor algum o maior prejudicado naquela batalha.

    — Capitão… - John pigarreou, um pouco desconfortável. – Talvez seja a hora de discutir com a tripulação o seu… plano.

    Os olhares convergiram para Jason, que piscou duas vezes e soltou o meio pão que estava prestes a comer. Engolindo de uma só vez, ele umidificou os lábios.

    — Foi-me noticiado que Folda, Senja e Vega são comandados por demônios de Zathroth – começou ele, com pouca convicção. – A princípio, somente Senja possui uma população local. Nada mais cresce nas ilhas, somente se vê gelo por toda parte. A terra que anteriormente teria sido usada para cultivo por Crunor, atualmente, está mais salgada do que Cartago.

    Todos assentiram, fazendo com que o cavaleiro se sentisse momentaneamente estúpido. Aparentemente, todos conheciam as histórias a respeito das ilhas geladas, menos ele.

    — Acho que podemos trabalhar no sentido de libertar as ilhas do comando de Zathroth. Se John tiver obtido êxito ao levantar informações a respeito dos demônios, tenho a intenção de matá-los, atacando-os em suas fraquezas.

    O balançar de cabeças no sentido positivo surpreendeu Jason por um instante. Pelo visto, a performance que ele desempenhara ao derrotar a grande serpente produziu bons frutos; a tripulação parecia crer cegamente em suas habilidades, e parecia disposta, inclusive, a enfrentar três dos maiores soldados da guarda de Zathroth, simplesmente porque ele dizia que seria melhor se fizessem.

    Ele relanceou um olhar para John, que tirou de dentro do sobretudo – que ele nunca tirava, diga-se de passagem – um pequeno livro, muito gasto. Jason franziu o cenho por um instante.

    — O Ritual Romano – disse, empurrando o livro nas mãos de Jason. – É a forma mais eficaz de se combater um demônio, qualquer que seja.

    Jason passou o dedo pela capa do livro, cujas inscrições ele não reconhecia. Porém, nenhuma língua da Terra seria capaz de esconder de suas vistas o nome do autor do livro: Joseph W. Prince.

    — Prince escreveu o Ritual Romano? – perguntou, surpreso.

    John fez que sim, disperso.

    — Prince era um dos maiores historiadores da Arca do Destino. Seus sucessores foram proficientes na arte de combater o manto das trevas, e, pelo visto, seu descendente mais recente, mais jovem, ainda vivo, tem a intenção de seguir pela mesma trilha.

    Jason torceu a cabeça de lado, confuso. Logo em seguida, a compreensão o inundou de maneira avassaladora, derrubando todas as barreiras que ele cuidadosamente havia construído ao longo da vida. A morte dos pais, supostamente emboscados por trasgos; a proteção excessiva de Margareth, fora do comum; o fato de que ela colocou nas mãos dele o livro de Joseph W. Prince sem pestanejar.

    — O “W” resumido no nome de Joseph Prince é de Walker – disse ele, assoberbado.
    — Precisamente, meu capitão – John sorriu, triunfante.

    *

    John entrou em sua cabine, totalmente reconstruída, sentindo-se deveras satisfeito. Jason Walker havia, finalmente, conseguido criar o link necessário entre seu presente e seu passado. Se ele não fosse obtuso como o arqueiro, saberia destinar seus esforços no sentido de garantir a paz no antigo continente e, de quebra, obter a recompensa da Arca do Destino e se tornar o mais fiel seguidor de Crunor a pisar na Terra.

    Ele tirou o sobretudo, checando a trava da porta da cabine. Em seguida, posicionou-se diante do espelho e, com cuidado, removeu barba e cabelos postiços.

    A careca intransponível surgiu diante dele, o corpo seminu totalmente recoberto pelas tatuagens cinzentas que garantiam sua proteção contra agentes externos.

    Puxando para perto uma grande taça de prata, ele fechou os olhos e murmurou algumas palavras. Na sequência, um rosto de traços firmes e olhos muito azuis surgiu translúcido na água da taça. O homem tinha cabelos e barbas brancos e não tinha uma marca sequer no rosto.

    — John – cumprimentou, a voz grave ressoando como se viesse de outra dimensão. Do além. – Boas novas, espero.
    — Milorde, Jason Walker demonstra ser o guerreiro que imaginamos que fosse. O senhor acompanhou a batalha contra as serpentes?

    O homem assentiu.

    — Certamente que sim. Escolher alguém descendente do sangue de Prince foi um passo razoavelmente ambicioso, John, mas creio que você tomou uma boa decisão.

    O incandescente sorriu, sentindo-se lisonjeado.

    — Agora, milorde, acho que…

    Repentinamente, a porta da cabine de John explodiu, lançando pedaços de madeira e ferro para todos os lados. Jason ingressou de espada em punho, com Leonard o acompanhando, uma afiadíssima flecha embainhada em seu arco.

    O incandescente relanceou um olhar para a taça, de cujo âmbar o rosto havia desaparecido.

    — Solte a prata – ordenou Jason, com raiva. – Vire-se totalmente. Se fizer algum movimento brusco, arranco a sua cabeça.

    John se virou totalmente, as tatuagens cinzentas quase brilhando sob a luz fraca dos lampiões acesos. Ele olhou nos olhos de Jason e levantou os braços em sinal de rendição.

    — Cacete – praguejou Leonard, assustado. – Que diabo é esse esquisito?

    Jason arreganhou os dentes, animalesco.

    — É o incandescente que me visitou há dois dias. É o homem que designou a mim minha missão.

    Leonard abriu a boca em um “O” perfeito – e até cômico –, compreendendo. Em seguida, franziu a sobrancelha e trocou seu olhar continuamente do amigo para o outro, raciocinando – aparentemente, com muita dificuldade.

    Ele abaixou o arco e embainhou novamente a flecha. Seu rosto só apresentava curiosidade.

    — Que é que você está fazendo aqui, maluco? – perguntou, estreitando os olhos. – Quero dizer… você tem nos ajudado e tudo mais, mas qual é a do disfarce? Você é bem mais maneiro em sua forma original.

    Jason relanceou um olhar para o amigo, resistindo ao impulso de socá-lo no plexo.

    — Jason, eu sou John Rosenthal – disse ele, sem rodeios. A espada do garoto baixou por um instante, mas logo retornou à posição original. – Sou um incandescente de Crunor.
    — Por que é que você está trabalhando infiltrado? – perguntou Jason, sem baixar a espada. – Qual o benefício disso?
    — O que foi que me entregou?

    O cavaleiro levantou os olhos, impetuoso.

    — Quando abriu o sobretudo, vi as tatuagens. A princípio, achei que estivesse vendo coisas, mas, aí, boa parte do que incomodava minha cabeça se encaixou.

    John fez que sim com a cabeça, arriscando um sorriso curto.

    — É perspicaz, capitão.

    Jason avançou contra o incandescente e o imprensou contra a parede, a espada apertada contra sua garganta. Por um instante, lembrou-se de quando combateu os mercenários que ameaçaram Leonard, no que parecia ter sido há mais de trezentos anos.

    — Vou lhe dizer como as coisas vão correr. Diga-me algo que me valha a pena, ou, juro por Crunor, atiro você para fora deste navio, e, se você se salvar desta, serei o primeiro a sugerir que você dispute natação nas Olimpíadas Intercontinentais.

    O incandescente acenou positivamente, mas seus olhos azuis da cor do céu não expressavam o mesmo medo que os mercenários tiveram um dia antes. Pareciam deliberativos, quase curiosos.

    — Cada religião tem sua crença – disse, depois de pensar muito. – Os cristãos acreditam em Deus e no diabo, em anjos e em demônios; os crunorianos creem em Crunor e Zathroth, incandescentes e magos negros. Joseph Walker Prince foi um dos predecessores das crenças do mundo novo, qualquer bíblia de Crunor tem seu nome inscrito ao final. Chequem por vocês e, se eu estiver mentindo, vou requerer minha decapitação por mim mesmo.
    “Prince enfrentou a primeira horda de Zathroth, a que fracassou, na Primeira Grande Guerra. Desde então, os missionários de Crunor têm sido divididos em missões de campo ou de compostura, atuando nos bastidores ou como protagonistas, mas sempre em atuação. Como os cristãos oram a Deus para que intervenha, nós, incandescentes, trabalhamos para satisfazer as vontades de Crunor.
    “Lawton Walker, Jason, seu pai, foi um dos maiores combatentes das artes das trevas que conheci. Os ensinamentos de Joseph Prince chegaram até ele, e ele abraçou seu destino, mas, quando Lawton teve contato com a arte do contragolpe, suas variações já eram tantas que ele foi capaz de criar uma modalidade totalmente nova de magia branca. Lawton Walker criou a incandescência, e expôs nossa existência para o mundo”.
    — Incandescência – Jason repetiu. – Você é realmente muito corajoso. Meu pai era um comerciante.
    — Seu pai era um exorcista de primeira classe e um dos maiores feiticeiros da guarda de Crunor que o antigo continente conheceu – John respondeu automaticamente, mal fazendo conta de que estava sendo ameaçado por um homem armado. – Você pode conviver com isso, e saber que Lawton foi um grande homem, cumprir a missão que lhe designei e retornar a Carlin como o filho do feiticeiro bem-sucedido, ou pode me atirar às quaras e falhar miseravelmente.

    Jason virou de lado e cuspiu no chão, enojado.

    — Entendo muito bem a relação incandescente-designado que é criada pelas aparições fantasmagóricas e cheias de pirotecnia que vocês costumam promover, mas isso não nos torna amigos, Rosenthal.
    — Pois deveria torná-los, filho – disse uma quarta voz na sala.

    O cavaleiro se virou completamente, quase se esquecendo de que tinha a intenção de cortar a garganta de John. Leonard puxou seu arco e atirou por instinto, mas o homem recém-surgido segurou a flecha como se estivesse recebendo um lançamento em um campo de futebol, e a partiu no meio. Ele tinha olhos castanhos como os de Jason, cabelos desajeitados como os de Jason, era magro como Jason e alto como Jason. Era Jason, numa versão mais velha – e de bigode.

    A imagem dele era trêmula, translúcida, como se não pertencesse ao local onde se encontrava. Contudo, o sorriso bondoso, que revelou uma bonita dentição, como a de Jason, era muito palpável. Podia ser sentida no ar, e expressava um só sentimento: amor.

    — Você se tornou um grande homem, meu filho – disse o fantasma de Lawton Walker, lágrimas peroladas escorrendo-lhe pelo rosto. – Estou orgulhoso de você.

    Jason arriscou um passo na direção do pai e tentou tocá-lo. O que quer que fosse aquilo, era muito real – o calor, a sensibilidade do toque, a textura das roupas pesadas de feiticeiro, tudo.

    — Pai? – Jason soltou a espada e abraçou o pai, sem conseguir se conter.

    Lawton correspondeu ao abraço do filho, trocando um sorriso com John, que, de braços cruzados, assistia à cena, feliz.

    — Podemos voltar a nos falar futuramente, filho – disse Lawton, soltando-o e olhando para ele com alegria. – Puxa vida. Se deixares um bigode, rapaz, passar-te-ás por mim.

    Jason riu, imerso naquele universo totalmente novo e rejuvenescedor.

    — John é um guarda de Crunor, Jason, e somente se manteve oculto porque essa é sua natureza. Os incandescentes não gostam do protagonismo, não querem ser o rei, preferem ser seu conselheiro. Confie nele e conclua sua missão, filho.

    A imagem de Lawton tremeu por um instante, e ele olhou por sobre o ombro.

    — Hora de ir. Arrebente, Jason. E, John, dê a ele o que solicitei. É a hora.

    Lawton tremeluziu novamente e, um instante depois, já se havia ido.

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    Jason Walker e o Retorno do Príncipe
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  2. #2
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    Muito bom!
    E você está passando a imagem do Leonard como deseja mesmo! Leio os trechos aqui imaginando e rindo junto kkkkk

    Fiquei intrigado com o presente do pai de Jason... Aguardo o proximo!

  3. #3
    Avatar de Neal Caffrey
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    CAPÍTULO 7 – BELLATRIX, A SENHORA DA AGONIA

    — Jason, sinto muito por ter-me omitido até agora, criança – o arrependimento de John parecia sincero. – Não quis lhe causar qualquer prejuízo. Somente ajudar. Conto com sua confiança?

    O garoto, que estivera de costas, tentando absorver de uma só vez a aparição e a desaparição repentinas, na velocidade da luz, de seu genitor, se virou, enxugando as lágrimas dos olhos.

    — Capitão – repetiu John, e Leonard sacou a charada; chamá-lo de capitão o devolveria à sua posição de dominância, instigando a prática do respeito. – Sou digno de sua confiança?

    Jason assentiu uma vez, quieto.

    John atravessou o quarto até próximo da porta destruída e fez um movimento curto, quase despropositado. A porta se regenerou por completo, como estivesse pronta para outra. Os outros dois nem mesmo guardaram seus “uau” para este momento. Nada mais poderia surpreendê-los.

    Atrás, havia um baú comprido, mas fino. Todo feito de madeira, e aparentemente esculpido à mão. O topo da caixa continha a inscrição “Jason S. Walker”. O incandescente, de maneira solene, entregou a caixa a Jason e aguardou, os braços cruzados.

    Jason puxou com cuidado o tampo da caixa, revelando, ali, uma das espadas mais magníficas que já vira na vida. Punho de couro e filamentos de ouro, cruz de carbono reforçado, lâmina com duas faces. Suas iniciais entalhadas nelas. Uma obra prima.

    — Há muitos anos, Lawton, em uma das expedições a Jakundaff, dirigiu-se ao Outlaw Camp e encheu-se de vinho e uísque com Snake Eye – disse John, sem conseguir esconder o sorriso. – Clarice, também bêbada, foi direto para o quarto da estalagem de Rottin Wood. O que Lawton faria não seria sequer de seu interesse. Tão logo se deitou, dormiu. Foi épico. Você era muito jovem, ainda estava com Margareth no dia.
    “Neste interregno, Lawton se levantou de cajado em punho e bradou ‘há ou não há uma espada brilhante lendária nesta joça de acampamento?’, e H. L. lhe disse ‘sim, senhor Walker, mas ninguém nunca solucionou seus desígnios’, e Lawton respondeu ‘dê-me cá esta porcaria para verdes se não saio daqui com essa espada na mão’, foi muito engraçado.
    “Ele se levantou, de madrugada, de varinha e planos em mãos, e saiu saindo. Ninguém se aventurou. Os minotauros arqueiros e os caçadores montavam guarda e representavam muitas dificuldades, especialmente em um terreno desfavorável e que eles conheciam muito bem.
    “Pela manhã, saímos para procurar o corpo de Lawton. Era certo que ele tinha morrido. Mas não. A Espada Brilhante lendária de Outlaw Camp fora encontrada por ele, sob pena do abate tresloucado de dezenas de minotauros e caçadores, o que, certamente, afetou o equilíbrio do ambiente. Os demais animais selvagens chegaram depois disso.
    “Mecanicamente, Lawton ajustou o cabo e a cruz da espada e esculpiu as iniciais de Jason para presenteá-lo oportunamente. A espada foi testada pela primeira vez pelo Rei Arthur, de Thais, em uma luta de especialistas na arte em uma das arenas de Svargrond. É certo que Arthur venceu o combate, mas não foram poucas, após, as tentativas que foram feitas de se comprar uma espada que aparentemente era simples, mas que, verdadeiramente, continha o poder do amor de Lawton por seu primogênito – e único – filho”.

    Jason a desembainhou com uma devoção que beirava a arrebatação.

    — Obrigado, John.
    — Agradeça a seu pai – ele piscou. – Dez horas para alcançarmos o limite. Sugiro que as rondas sejam mais longas e que se permita o descanso prolongado.
    — Falou e disse.

    *

    — Prince diz que a oração em latim é expulsória, porém, somente se o demônio estiver apropriado de algum corpo que não lhe pertença. Mas eles são muito fortes, e existem alguns símbolos rúnicos que podem mantê-los estáticos, momentaneamente. Fáceis de castar. Podemos usar. Se eu conseguisse identificar a runa…
    Leonard se aproximou, olhando por cima do ombro do amigo para o livro antigo escrito por Prince.
    — É uma estrela de seis pontas – disse, sem nem mesmo checar novamente. – O que precisamos fazer com elas?

    Jason levantou a cabeça, sorrindo.

    — Acabei de ter uma grande ideia.

    *

    Uma mulher de cabelos encaracolados e ruivos, olhos negros como o escuro da noite sem estrelas, corpo espetacular e toda vestida com armaduras da cor do ouro, mas surpreendentemente descalça, analisava, de pé, acariciando bisonhamente um imenso urso polar, a derradeira descida de seu palacete particular no topo da estrela de Folda, comandada na Terra por Zathroth.

    A distância, além do que os olhos comuns eram capazes de ver, ela os via, sem dúvidas. Na iminência de cruzar o limiar entre o mundo sensível e o mundo sensível e inteligível, a trupe de Jason Walker, que continha um arqueiro mal-educado, uma tripulação estúpida e um incandescente já nas últimas, pretendia passar ao largo de Folda para alcançar Senja.

    Ela não permitiria. A embarcação de Jason Walker, contendo aquele incandescente imundo, naufragaria.

    *

    Às onze da manhã, a temperatura caiu bruscamente, como John havia prometido. Todos se surpreenderam ao receber um careca todo tatuado no lugar do cartógrafo, mas pareceram assimilar rapidamente o fato de que John de repente desaparecera.

    Enquanto a população se protegia do frio da maneira que fosse possível, o navio começava a cortar aqui e ali pequenas e frágeis formações de gelo no oceano. Adiante, a menos de um quilômetro de distância, a imensa montanha de Folda surgiu, parcialmente oculta pela névoa espessa.

    — Já começou – sentenciou John, os olhos fixos na ilha gelada. – Bellatrix sabe que estamos chegando. Sugiro que nos apressemos.
    — A todo pano na direção de Folda – ordenou Jason, os dentes batendo com o frio excessivo. – Vamos atracar na porção sul da ilha. Quero Leonard, Melany e John comigo; o restante fica no navio e garante a manutenção da estrutura da embarcação – ele se virou para John. – Onde fica Bellatrix?

    Ele respirou fundo, de olhos na montanha enorme adiante.

    — No topo da montanha. Existe uma trilha que nos levará até lá. Não há animais selvagens, mas as chances de uma ventania nos tirar de curso são grandes. Precisamos subir com cuidado.
    — Acha que nossa estratégia vai funcionar?
    — Eu diria que a melhor chance que as ilhas geladas têm em anos.

    Instantes depois – cedo demais – o barco atracou suavemente na costa de Folda. O vento cortante era avassalador, mas, bem equipados, os guerreiros designados começaram a descer a rampa de acesso ao continente um a um. O restante ficou – Cotton responsável pelo timão; Joshua no topo do cesto; Catarina na amurada; o restante patrulhando o perímetro.

    Jason, Melany, John e Leonard caminharam devagar, lutando contra o vento. A entrada da base da montanha ficava a cerca de cem metros da posição do navio, e eles caminharam em linha reta, a passos pesados, tentando vencer tanto o vento quanto a neve espessa que se acumulava sob seus pés.

    Na base da montanha, John tomou a dianteira e passou a conduzir o grupo. Ali, não havia mais vento – longas e altas formações rochosas recobertas de gelo protegiam os flancos, criando um caminho único. Porém, as escorregadas aqui e ali não faltaram, e várias foram as vezes em que os guerreiros tiveram que reduzir o passo para poder continuar a caminhada.

    Logo, chegaram a uma ampla clareira, perfeitamente circular, aberta no topo, no coração da montanha. Paredões de gelo erguiam-se de ambos os lados; um deles continha um platô elevado, mas também não ofereceria uma rota de fuga, se fosse necessário. Adiante, um chalé avultava-se no fundo, com somente uma janela e uma porta, todo feito de madeira e recoberto de neve. Uma espessa fumaça era cuspida pela chaminé junto ao teto.

    De repente, a porta da cabana se abriu. Dali, uma mulher de aproximadamente trinta anos, de longos cabelos vermelhos e encaracolados e olhos muito negros surgiu. Trajava uma armadura dourada completa, e era linda – tão linda quanto se podia imaginar. Seus olhos não se demoraram por mais de cinco segundos em cada um dos membros da expedição, todos armados.

    — Meus digníssimos amigos, muito bom dia – disse ela, com sua voz muito fina e quase infantil. – Devo dizer que não estou acostumada a receber visitas por aqui, mas é um prazer tê-los diante dos meus olhos.
    — Bellatrix – disse John, com nojo. – Muito tempo.
    — Se não é o maior dos cães de caça de Crunor – ela deu dois pulinhos no mesmo lugar, batendo palminhas. – Que momento, meus caros. Que momento.

    Jason desembainhou sua magnífica espada, não de maneira agressiva, mas calculada. Bellatrix relanceou um olhar para ele e após, para a espada, um assomo de compreensão perpassando sua expressão divertida.

    — O primogênito de Lawton Walker – disse ela, sorrindo. – Como está seu pai, garoto?

    Jason cuspiu de lado.

    — Provavelmente mais feliz agora que será vingado.
    — Você parece ter mais informações do que o necessário – ela aprovou. – O sangue de Lawton Walker está em minhas mãos, jovem Jason. Ele perseguiu, sim, o caminho dos peregrinadores, e fiz questão de fazê-lo sofrer ao máximo possível. Foi inebriante, juro. Segurar a vida ou a morte de seu genitor na palma das minhas mãos. Mas não se preocupe. Asseguro-lhe que o fiz sofrer. A sensação foi arrebatadora.

    Jason ameaçou saltar sobre ela, mas John o impediu. O demônio de Zathroth sequer piscou. Seus olhos traziam uma diversão aterradora, sinistra.

    — Estratégia, Jason – orientou John, preocupado com o fato de que as emoções do cavaleiro começaram a influenciar na decisão de matar Bellatrix cedo demais.
    — Escute o cachorro de Crunor, garoto – ela riu, bisonhamente. – Olhe só, vou explicar como isso vai funcionar. Vou permitir que vocês cheguem até Senja, se derem a volta e entrarem naquela embarcação fedorenta e alugada. Pretendia naufragá-los em breve, como fiz com Oblivion, mas gostaria de ver o que Samuel poderia fazer com vocês.
    — Escute aqui, sou eu quem vai dizer como isso vai transcorrer – Jason arreganhou os dentes, mais feroz do que nunca. – Antes que estejamos suficientemente famintos para almoçar, esta lâmina terá perpassado sua garganta e Folda estará liberta dos desmandos de Zathroth. Eu asseguro, Bellatrix, você não enfrentou um guerreiro como eu antes.

    Ela riu, ironicamente. Jogando os cabelos para trás, colocou as mãos na cintura, parecendo-se quase com uma popstar teen que fazia shows musicais para as crianças. A beleza aterradora da soldada de Zathroth influenciou as emoções dos homens do grupo por um instante, mas, brevemente, eles retornaram ao seu estado atual.

    — O bebezinho Walker tem o coração cheio de rancor – ela disse, fazendo beicinho, mangando. – Não pode me vencer, Jason Walker. Existe uma razão para que Crunor não tenha, em momento algum, tentado resgatar o comando das três ilhas nas quais mandamos neste momento. Nem mesmo seu deus, com todo o seu poder, tem condições o suficiente de nos enfrentar juntos.
    — Então vamos destruí-los separadamente.

    Imperceptivelmente, os quatro se espaçaram devagar pela clareira, preenchendo quase que totalmente o espaço entre Bellatrix e a saída. John, de cajado em punho; Melany, segurando seu arco, a exemplo de Leonard; e Jason, mais adiantado, de espada em riste.

    — Antes de mais nada, para que você não morra com a péssima sensação do desconhecimento, vou alertá-lo sobre algo, Jason – Bellatrix falava sério pela primeira vez. – A Arca do Destino, que você busca, sob a batuta do nosso querido incandescente, traz dentro de si uma das relíquias históricas mais procuradas do antigo continente. Os ciclopes, nos tempos áureos de Crunor, forjaram uma arma de poder inigualável, que só pode ser obtida por aqueles que tiveram coragem o suficiente para abrir a Arca, e sobriedade o suficiente para não enlouquecer com o poder que ela encerrava. Não acho que você possui o poder necessário

    Jason sorriu de canto, mal se surpreendendo com a informação que enfim recebera, depois de tantos dias.

    — Sobreviverei para tentar.
    Jason Walker e o Retorno do Príncipe
    Sexta história da série de Jason Walker e contando. Quem sabe não serão dez?

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  4. #4
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    Mais um capitulo matinal essa seção está movimentada gracas aos novos escritores

    Uma coisa que noto na sua historia voce mistura a terra , vc citou cartago e os cristaos com o mundo de tibia entao para voce o tibia é situado no nosso mundo?

  5. #5
    Avatar de Edge Fencer
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    E aí, cara!
    Mais um ótimo capítulo, como de costume.
    Esse John e o Lawton não me convenceram, acho que vai dar ruim pro Jason isso aí!
    Como o amigo disse acima, gostei muito das referências "terrestres" que você usou, deixa a narrativa muito mais rica, bacana mesmo.
    Continue assim, e que venha o próximo!




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    Estou gostando de ver vcs os novos escritores da seção com um apetite pra escrever

    Quem le é que sai lucrando

    Boa sorte nas proximas cenas ,porque acho que descrever tretas lutas e congeneres nao deve ser facil ,e parece que vem por ai uma treta arretada pq essa ruiva ai parece ser tranca rua so com muito sal grosso e galho de arruda pra encarar

  7. #7
    desespero full Avatar de Iridium
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    Saudações!

    Mil perdões pela ausência desse últimas dias! Perdi os capítulos de 06 ao mais recente, por conta da correria... Bem, agora que estou aqui, devo dizer que ainda estou atordoada, no bom sentido, com os eventos mais recentes: a Bellatrix, gente... Que adversária! Que vilã temporária! Mesmo com uma presença efêmera, ela se mostrou um ótimo desafio para o Jason e todos os envolvidos! Incrível!

    Vamos ver como ele se sai contra o Sirius e até onde que esse buraco todo vai... E eu achei muito interessante sua mescla de universos, colocando elementos do nosso mundo (vide cristianismo) dentro do Tibia. Achei bem bacana; havia outro usuário aqui, o @Wk~, que havia começado algo similar, mas em vias da Literatura, em sua própria história (procure por "Senhores Bíblicos" na Biblioteca Roleplay, caso se interesse). No mais... Aguardo o próximo, e espero não me atrasar xD


    Abraço,
    Iridium.

  8. #8
    Avatar de Glauco
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    O jason e a galera dele vao ser processados na Maria da Penha

    Ô loco desceram a mão na ruiva mas que cramuião encardido esse ai

  9. #9
    Avatar de Fellps Paladyn
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    Nossa cara, muito bom. Parabéns.
    "Você não pode mudar tudo, mas pode contribuir para a mudança!" (AUSTRALOPTOMEUS ECLESIÁSTICO, 2000).

  10. #10
    Avatar de Skunky
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    Orra, que luta cara!

    Só acho que devia ter dito se a Mellany morreu mesmo ou não, juro que fiquei de cara nessa parte Tadinha kkkkk


    Aguardo o desfecho!

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