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Antes de mais nada, uma imagem que vale mais do que qualquer palavra:


CAPÍTULO 2 – O RETORNO DOS GATUNOS DA MEIA-NOITE


De volta ao presente, Jason levou certo tempo para notar que Leonard conversava com ele. Desconexamente, o arqueiro falava algo sobre ir até a cidade dos elfos para saber como estava a situação por lá e retornar antes do pôr-do-sol. O cavaleiro somente assentiu, sem saber muito bem o que dizer.

Cerca de meia hora depois, Leonard alugou um cavalo e partiu. Ligeiramente distraído, Jason se vestiu com suas armaduras de ouro novas e embainhou a Espada de Crunor, saindo para o ar morno da manhã.

Carlin estava bastante movimentada, apesar do horário. Os comerciantes já haviam armado suas barracas nas ruas perpendiculares centrais, que se encontravam defronte ao depósito. Aqui e ali, feiticeiros vendiam quinquilharias e itens consideravelmente raros, enquanto outros mercadores pareciam querer negociar colares e anéis que se queria fazer crer que poderiam proteger o usuário contra influências externas.

Jason foi cumprimentado mais vezes do que gostaria. Na maior parte do tempo, gostava de passar desapercebido na multidão. A fama recente, em razão da Espada, lhe causava um certo incômodo.

O cavaleiro rumou diretamente para o castelo, onde encontrou Svan reunido com Bambi Bonecrusher.

— Bom dia – saudou, incerto sobre se Svan iria querer falar com ele.
— Sabe das boas novas? – disse o capitão. – As pessoas têm conseguido domar algumas criaturas selvagens com a seleção correta de certos itens.

Jason franziu o cenho.

— Como é?
— Um ermitão de Port Hope arrancou algumas folhas de bambu e atraiu uma panda até sua caverna – explicou Bambi, aparentando certo interesse. – O bicho cresceu e, agora, o cara anda para cima e para baixo montado nele.

O cavaleiro arqueou as sobrancelhas, surpreso. Um homem excêntrico de sobretudo vermelho passou por eles às pressas.

— Algumas pessoas juram que viram um cara montado em um pássaro gigante em Liberty Bay – disse Svan, sorrindo. – A comunidade está se aperfeiçoando. Alguns comerciantes até estão vendendo certos itens que podem atrair alguns desses animais.
— Talvez eu dê uma olhada nisso depois – disse Jason, interessado.

Uma movimentação incomum se iniciou duas quadras abaixo, em frente ao depósito. Jason e Svan trocaram um olhar e Bambi não precisou de segundo aviso; ela assumiu sua posição na saída norte e capitão e cavaleiro desceram depressa até a área central da cidade, onde uma multidão se aglomerava em torno de alguma coisa.

Svan ia abrindo espaço às cotoveladas; as pessoas pareciam se aglutinar ainda mais ao perceberem que Jason estava ali. Um pouco irritado, o garoto as empurrava para lá e para cá, tentando chegar ao cerne da confusão.

Foi como se uma cachoeira de gelo descesse pelo seu estômago.

Uma moça de vinte e tantos anos, muito bonita, estava caída no chão, usando apenas roupas de baixo. Seu abdômen sangrava profusamente. Um druida recitava encantamentos para tentar curá-la, aparentemente sem sucesso.

— Por Crunor, o que é que houve aqui? – Svan gritou, aproximando-se.
— Sobretudo vermelho – disse o druida, entre encantamentos. – Capuz. Estatura mediana. Forte. A esfaqueou e disparou na direção do castelo.

Jason e Svan trocaram um olhar e o capitão fez menção de correr, mas Jason segurou seu braço.

— Eu vou – disse ele, e o capitão assentiu. – Tente salvá-la.

Jason abriu caminho entre a multidão, dessa vez aos socos e tapas, e mal notou que muitos dos cidadãos reclamavam de sua abordagem. Quando alcançou o ponto em que a multidão se dispersava, ele correu na medida de sua condição no sentido norte. Um homem vinha se aproximando montado em um cavalo.

O garoto sacou a espada e apontou para ele.

— Desça – ordenou, e o homem não pensou duas vezes.

O cavaleiro montou e girou totalmente, partindo a toda velocidade e passando por uma perplexa Bambi Bonecrusher, que tentava compreender o que acontecia.

Não demorou para que Jason deixasse a estrada e se embrenhasse nos campos, onde formações rochosas se levantavam do chão como leviatãs em todos os lugares. Adiante, Jason identificou o homem de sobretudo, que disparava na direção contrária à da cidade em meio a magias.

Se ele se distanciasse o suficiente, poderia desaparecer. O garoto cravou as botas nos quartos do cavalo, que imprimiu mais velocidade, disparando pela campina irregular.

Jason remexeu nas vestes e encontrou uma pedra ancestral que fora encantada por Heloise para que ele pudesse utilizar. A runa tinha uma estrela de cinco pontas gravada.

Ele apontou para o homem que corria e murmurou um encantamento simples.

Um segundo depois, as pernas do homem se trançaram e ele caiu de cara no chão, deslizando pela campina. Jason o alcançou e saltou do cavalo de uma só vez, sacando a Espada.

O homem se virou, de costas para o chão, mas o capuz lhe protegia a identidade. Jason apontou a espada para o peito dele, seu próprio peito ardendo pelo esforço.

— Tire o capuz – ordenou, entre os dentes. – Agora.

Ele fez menção de levar as mãos à cabeça e Jason apertou a espada contra seu estômago.

— Sem movimentos bruscos.

Muito devagar, o outro continuou a levar as mãos à cabeça, puxando o capuz com cuidado.

Jason recuou meio passo, a Espada pendendo molemente nas mãos. O rosto de John se materializou sob o capuz, e o incandescente levantou as mãos em sinal de rendição, sentando-se devagar.

— Bom dia, Jason – disse, ainda meio grogue.
— Diabo, John – Jason sentia a pulsação nos ouvidos, atordoado. – O que foi que você fez?

John coçou os olhos.

— Acha que ataquei aquela garota?
— Uma testemunha atesta que sim – Jason segurou a Espada com mais firmeza, um pouco fora de si. – O que aconteceu?

O incandescente se levantou, e Jason viu algo relancear sob o sobretudo em seu braço esquerdo. Antes que John começasse a falar, Jason franziu o cenho, olhando para ele.

— Levante a manga – ordenou, a Espada apontada para o seu braço.
— Jason…
— Agora!

A contragosto, John afastou a manga do lado esquerdo. Ali, tatuado, aparentemente recentemente, havia uma espada e uma rosa cruzados. Se Jason estivera fora de si antes, nada se comparava com o que sentia neste momento.

— Por Crunor, John – gritou ele, irritado. – Você se juntou aos Gatunos da Meia-Noite?
— Para tudo existe uma explicação lógica que pode…
— Ah, cale-se!

Jason sentia-se frustrado como nunca havia se sentido na vida. Os Gatunos da Meia-Noite, poucos meses antes, haviam criado as maiores complicações que Jason e os outros haviam enfrentado no mar. Na ocasião, Jason estava abatido em razão do confronto com o demônio Sirius, e Leonard e os outros tiveram que lançar mão de um audacioso plano para se livrar dos atacantes de Lancaster.

Na oportunidade, Alistair e Howard, dois Gatunos conhecidos, haviam sido abatidos. Jason cuidara do primeiro; Leonard finalizara o segundo. A missão empreendida pelos dois paspalhos quase levara a tripulação de Jason ao naufrágio, antes que chegassem a Senja.

— Terei que arrestá-lo, John – Jason não parecia nem um pouco arrependido da decisão. – Afaste as mangas e vire-se.
— Mas…
— Não lhe darei um segundo aviso.

*

A tarde se fora e a noite caía suave sobre a cidade de Carlin. A garota sobrevivera, mas, internada no Hospital dos Druidas de Carlin, não tinha a menor condição de falar, por ora. Leonard já retornara de Ab’Dendriel e parecia, como Jason, surpreso com o fato de que John havia se afiliado à comunidade dos Gatunos.

Os dois ainda não haviam tido a possibilidade de conversar com o incandescente, mas ele estava preso em Carlin. Svan e Bambi tentaram extrair informações dele, mas ele não aceitara conversar com ninguém. Dizia sequencialmente que só conversaria com Jason e Leonard, e, ao cair da noite, os dois amigos deixaram a casa no sentido da prisão, que ficava na porção leste da cidade, quase nos portões.

A prisão, no fim das contas, era composta por somente cinco ou seis celas com barras de ferro, magicamente encantadas. Percybald, o ator aposentado, e Emma, a líder da Brigada das Mulheres, eram os responsáveis pela cadeia.

Emma era uma garota consideravelmente jovem para o posto que ocupava. Seu corpo estava sempre coberto por pesadas armaduras, mas suas curvas eram deveras visíveis. Ela tinha longos cabelos louros e olhos verdes como o mar, mas muito pouca tolerância. Ainda assim, Jason se surpreendeu ao perceber que John não recebera qualquer cuidado enquanto estivera ali.

— O que houve? – perguntou o garoto, vendo o incandescente encostado nas paredes e de olhos fechados. – Ele não recebeu água ou comida?
— Não – Emma fechou a cara. – E não receberá. Assassinos não devem ser bem tratados.
— Você o está condenando antes do juiz – disse Leonard, aborrecido. – Não é sua função, Emma. Sugiro que permaneça adstrita às suas obrigações.
— Vocês são donos da cidade? – ela arqueou as sobrancelhas, sarcástica.
— Ainda que não sejamos, garanto que fizemos mais por ela do que você – Jason respondeu, com maus modos. – Saia da minha frente. Quero interrogar o prisioneiro.

A garota mordeu a língua e a mastigou, aparentemente sem saber o que responder. Jason passou por ela, e Leonard sacudiu a cabeça, discordante. Eles pegaram as chaves sobre a mesa e ingressaram na cela de John, que abriu os olhos, finalmente.

— Não briguem com a carcerária.
— Fale somente sobre o que é da sua alçada – Jason se sentou defronte dele, inquieto. – Comece.

John respirou fundo.

— Meu pedido de saída foi deferido. Não sou mais um incandescente. Tenho uma vida mortal, como a de vocês, agora.
— E o que motivou sua entrada nessa guilda nojenta? E por que atacou aquela garota?

O outro respirou fundo de novo, ligeiramente impaciente.

— Entrei na guilda dos Gatunos para rastrear antigas relíquias. Não tenho qualquer intenção de perpetuar suas práticas. E não ataquei aquela moça. Estava de passagem quando ela foi atacada, sequer me aproximei dela.
— E por que o druida disse que você…
— O druida não a estava curando, Jason – John inclinou-se para a frente, olhando nos olhos do cavaleiro. – Se quisesse curá-la, teria feito isso em menos de dois minutos. Existe uma organização atuante em Carlin que quer fazer crer que certas coisas são o que não são. Você está no caminho certo, mas interrogando o homem errado.
— E que organização é essa?

John recostou-se novamente, ponderando.

— Os Gatunos da Meia-Noite.