Spoiler: Terceiro Lugar
Saudações!
A I Justas Tibianas chegou à Fase Final! Nesse tópico, estarão dois textos à disposição de vocês, escritos do ponto de vista dos Personagens dos dois Participantes que se enfretam aqui, a fim de que leiam e escolham o melhor por meio de voto. O vencedor passará para a próxima rodada e poderá usar os votos como pontos para a Ficha de Personagem.
O esquema é de anonimato, ou seja, cada texto aqui disposto não terá o nome do Autor em sua respectiva janela, a fim de tornar mais justa e interessante a competição. Por favor, peço que deem um feedback honesto e construtivo sempre na medida do possível. Respeito é palavra de ordem e de lei. Quaisquer dúvidas quanto às regras, favor consultar o Tópico de Inscrições.
As demais disputas estarão disponíveis no Tópico Central e aqui também (e nos demais tópicos), em uma outra janela separada, caso necessário.
BOA SORTE, JUSTADORES! A Votação começa hoje e tem prazo de 01 (uma) semana para ser encerrada. A Votação acabará às 23:59 do dia 19/05, Quinta-Feira!
Spoiler: Introdução -- Boruz, o Pardo e Edgar, o Diligente (Incluído 12/05)
Dois Tibianos são incumbidos de fazer a Rainha das Banshees sorrir novamente...
Boruz, o Pardo
Um jovem morador da cidade de Thais, vive constantemente embrigado, mas apesar disso tem um bom relacionamento com a população local. Desde criança sofre com dores de cabeça constantes. A partir de um certo sonho (ou seria visão?), Boruz começa a se questionar sobre diversos mistérios existentes ao seu redor. Seria um deles capaz de desvendar o enigma de seu sonho? As histórias que os moradores mais antigos da cidade contam passaram a fazer algum sentido após algumas pesquisas. E sua dor de cabeça aparenta ser mais do que um simples mal-estar…
Edgar, o Diligente
Exausto da frequente rapinagem pirata que assolava Liberty Bay, a reclusa figura de Edgar busca hoje viver seus dias na tranquilidade da cidade-fortaleza de Kazordoon. Ao passo em que se perde nos volumes da biblioteca do Imperador, sua outrora pele acobreada — herança das terras abrasantes do sul — se vê cada vez mais pálida, somente exposta à iluminação das tochas subterrâneas. De poucas, porém apuradas palavras, o abatido cavaleiro busca, nessa nova empreitada, restituir sua honra dentro da sociedade dos anões.
Spoiler: Texto 1
Ressurreição
Ela era uma linda e encantadora donzela. Um sublime vestido branco caía graciosamente por sobre seu corpo e eu quase pude ver o contorno de seus seios. Ela sentava-se no alto de uma colina verdejante, acolhida na sombra de um enorme carvalho, e carregava uma harpa dourada. A musicista, com tremenda maestria, fazia seus dedos passearem suavemente de lá para cá através das cordas do instrumento angelical — assim como um navio que acompanha o balançar do oceano —, ressoando notas doces e absolutas pelo ar. Raios de luz que atravessavam a copa da árvore pontilhavam-na por todo seu corpo e abrilhantavam sua pele. A brisa serena que brincava com seus longos e voláteis cabelos dourados também varria as folhas caídas do carvalho, enriquecendo sua apresentação solitária. Aquela refinada melodia que embebia meus ouvidos era, seguramente, uma obra de arte. Entretanto, quando eu quase pude ouvir seu próximo tom, a harpista congelou suas notas. Os dedos que carinhosamente dedilhavam as cordas do instrumento findaram seus movimentos quando perceberam a aproximação de um homem.
A donzela, até aquele momento protegida por sua concentração, perturbou-se com a presença do estranho. No entanto, ao perceber que aquele se tratava de alguém benquisto, suas bochechas rosaram. Vestindo modestamente uma toga marrom, o homem ofereceu-lhe sua mão e ela levantou-se com sua ajuda. Ambos eram quase parelhos na altura — poucos dedos os desigualavam, fazendo com que ela alcançasse seu queixo —, mas, ao passo que ela tinha cabelos loiros e rosto oval, ele possuía aparados cabelos negros e seu rosto era retangular. Qualquer um dos dois poderia, facilmente, se passar por príncipe ou princesa de qualquer reino distante, e até mesmo Crunor se alegraria de vê-los juntos. Sorrisos cresceram nos rostos do casal e um abraço caloroso se seguiu. A brisa macia que soprava balançou o tecido das roupas dos dois como se fossem um só, consolidando sua união, e, enquanto o homem a envolvia em seus braços, um beijo íntimo selou seu encontro.
Em um dado momento, eu pude perceber, em meio às suas carícias, que o homem propôs à donzela algum tipo de convite. O sorriso que aflorava naquele rosto oval desapareceu no mesmo instante e, com um balançar de cabeça e olhar de amargura, a donzela o recusou. Entristecido, porém consciente de que aquilo não poderia ter acontecido de outra maneira, seu companheiro desceu a colina a pontuados passos e a deixou somente com a companhia de sua harpa. Abandonada sem quaisquer palavras de seu amante, a donzela sentou-se aos pés do carvalho e pôs-se a chorar, iniciando um lamento espontâneo e doloroso. O arrependimento por haver recusado o convite de seu amado havia, sem sombra de dúvidas, batido às portas de seu coração. Naquele momento, assim como o humor dos dois amantes, o ambiente também havia mudado.
A brisa agradável que soprava transformou-se, inexplicavelmente, num vendaval incontrolável. O vento uivante, orquestrando uma dança macabra, fez com que as folhas caídas rodopiassem ao redor da donzela, e que ela, desesperada, gritasse num pedido de socorro. Eu sabia que precisaria agir, e, assim, deixando de lado meu papel de observador, eu assoviei em sua direção e acenei, esperando haver tido sucesso na minha tentativa de chamar sua atenção. Desde o início eu havia desconfiado, mesmo que ingenuamente, que existia algo de errado naquela situação, mas foi somente quando seus olhos fantasmagóricos encontraram com os meus que eu soube que aquilo era um sonho.
Apesar de eu ter acordado durante um espasmo terrível, ter conseguido abrir os olhos foi um presente. Eu suava muitíssimo quando me dei conta que estava, simplesmente, dentro de minha sala em Kazordoon. Aquele teria sido um bom descanso se eu não houvesse levado um susto dolorido ao acordar e, sobretudo, se aquele sonho não houvesse acontecido. Minha respiração estava perturbada por consequência do sonho, e quando eu consegui, com muito custo, controlá-la, eu me levantei da cama. Eu estava fraco e minhas pernas vacilavam, mas, mesmo tendo de me apoiar nas paredes por várias vezes, eu vesti minha armadura e posicionei minha espada em sua bainha. Aquela não era a primeira vez que eu presenciava o encontro dos dois amantes enquanto dormia, e, provavelmente, não seria a última. Sonhar sistematicamente com as mesmas coisas vinha me inquietando, mas, por sorte, eu conhecia alguém que poderia me ajudar. Se aquilo tivesse acontecido por, pelo menos, mais uma vez, eu estava certo que enlouqueceria; portanto, logo que me vi pronto para a viagem, eu atravessei os letárgicos corredores de Kazordoon e segui a estrada, ainda escura, que avançava para o norte. Meu destino era Ab’dendriel e o nome que eu buscava era o de Leon.
Enquanto eu ainda galopava ruidosamente pelo caminho, rápidos devaneios sobre quem eram as duas figuras com quem eu havia me encontrando nos sonhos passavam pela minha cabeça. Haver guardado segredo sobre tudo aquilo havia me castigado tão duramente quanto as palavras chicoteadas por Costello castigaram o orgulho thaiano de Henricus. O inquisidor de Thais tinha a sorte de, pelo menos, ter trabalhado com casos como aquele há muitos anos — criando, portanto, uma couraça dura o bastante para que meras palavras não pudessem atravessá-la —, enquanto os sonhos que eu havia tendo com o casal apaixonado duravam apenas algumas semanas. Leon, não muito habituado às alturas, mantinha uma casa modesta próxima ao depósito da cidade, e, quando me aproximei, bati três vezes na porta de madeira como sempre costumava fazer. Os primeiros raios de luz do dia chocaram-se com o rosto do druida quando ele apareceu na porta, ainda sonolento e incomodado com a luminosidade estranha aos olhos, para me receber. Imaginei que ele me perguntaria sobre Costello, e, por isso, logo expliquei a ele que não era nada relacionado à prisão do abade. Meu companheiro, então, ofereceu-me comida e a atenção que eu tanto havia precisado.
Eu contei a Leon desde as minuciosidades do sonho — os amantes, o afeto e o dissentimento final dos dois — até o número de noites que eu passei sendo perturbado por ele. Eu havia, finalmente, encontrado conforto em sua boa vontade de me ouvir. O comprido manto verde de Leon não escondia quem ele era: um homem atencioso e disposto a escutar o que as pessoas tinham a lhe dizer. Eu tinha certeza que poderia contar com o druida para qualquer problema que me ocorresse, e naquela vez não poderia ter sido diferente. Com enorme paciência ele me escutou, e, depois de eu ter terminado, ele deu suas opiniões.
— Essa é uma situação complicada — ele disse, e hesitou em dizer meu nome. — Eu temo pelas palavras que você terá de ouvir agora, mas, por favor, seja resiliente, certo? — Leon perguntou, olhando firmemente para mim com seus arregalados olhos castanhos, e eu concordei com um balançar de cabeça. — Nós precisaremos voltar àquelas terras amaldiçoadas de Costello. Receio que a Rainha das Banshees busca por você.
— A Rainha das Banshes? Você está louco, Leon? Como você sabe que ela procura por mim? — eu perguntei, incrédulo e extasiado pelo conhecimento do druida.
— Eu já estive frente a frente com ela uma vez — o druida categorizou, colocando intensidade na voz. — Muito além de sua aparência, ela tem propósitos imensamente maiores do que somente colocar seu exército de criaturas repugnantes, cada qual com suas próprias intenções, para trabalhar. Lembra-se de quando Costello mencionou um beijo enquanto respondia Henricus? — ele me indagou, e eu respondi afirmativamente. — Pois acredito que ele sabia do que estava falando. A Rainha das Banshees busca, há muito tempo, o beijo de seu amante perdido. Não tenho muito conhecimento sobre toda a história, uma vez que minha passagem pelos seus domínios foi rápida, mas sei que até um dos porcos do chiqueiro dos McRonald está envolvido nessa bagunça — ele disse, com ar cômico, disfarçando a gravidade da situação. — Impressiona-me o fato dela ter poder dentro do reino dos sonhos, porém, melhor do que nos impressionarmos com sua engenhosidade, precisamos ir até ela e descobrir quais são seus planos com você, amigo. Acredito que ela precisa de nossa ajuda — Leon terminou.
— Ah, Costello! Veja onde você nos meteu — suspirei, impressionado com as proporções que todo esse assunto havia tomado. — Pois que assim seja — eu disse, levantando-me do apoio em que eu estava recostado. — As coisas realmente não mudam, não é mesmo? O amor complica sua vida mesmo tendo você vinte e cinco ou incontáveis anos de idade — eu brinquei, e nós dois rimos. — Você tem tudo o que precisa, Leon?
— Eu sempre tenho. Aliás — ele interrompeu a si mesmo —, permita-me pegar meu outro livro de feitiços. Eu tive certa dificuldade em colocar as mãos em um exemplar desses, então, talvez, ele nos seja útil — o druida completou, alcançando, dentro de um de seus armários, um estranho livro de arestas retalhadas, que, preso por uma cinta de couro, era impedido de revelar seus segredos.
Nós partimos, assim, para Carlin. Ao longo do caminho, o druida contou-me que, daquela vez, nós não iríamos até a Ilha dos Reis, mas sim às Terras dos Fantasmas. O domínio sobrenatural da Rainha das Banshees cobria toda aquela área, e, como dito por ele, nós poderíamos pegar o caminho pelas terras amaldiçoadas do oeste da cidade para encontrá-la. Eu não quis perguntar a ele quais eram seus motivos por tê-la visitado, já que Leon vestia uma máscara extremamente irritadiça quando se lembrava das mortes causadas pelas Banshees. Entretanto, quando estávamos no limite entre Carlin e as Terras dos Fantasmas, eu o fiz. Ao contrário do que pensei, Leon explicou-me pausadamente que, certa vez, ele, fazendo parte de um grupo de entusiastas pelo conhecimento ali guardado, já havia se esgueirado pelos corredores macabros que corriam por debaixo daquelas terras. O motivo por não haver dito nada a respeito da rainha era porque, ao contrário do que os bardos cantavam, as atrocidades que aconteciam naquele lugar partiam de seus servos, e não dela mesma. A Rainha das Banshees guardava uma história muito mais profunda, e, acima de tudo, ela era uma das poucas entidades naquele lugar que possuía a sanidade preservada. Meu companheiro de batalha relatou-me, também, que ela buscava por ajuda há muito tempo, e que seu apelo através dos meus sonhos era sua última súplica por socorro.
Após atravessarmos a cerca viva que encarcerava — ou deveria ter encarcerado — os espíritos ruins de uma das maiores cidades do continente, nós avançamos por sobre aquele terreno maldito rumo ao sul da península. Queimadas árvores tortas nos observavam e, repetidamente, ratos nos atropelavam pelo caminho. Os que fugiam dos meus pontapés, Leon os executava com mínimas sílabas de feitiço. Com a condução do druida, eu e ele adentramos numa sala de pedra e descemos por um buraco feito no chão. Continuamos por mais um, dois e três andares, todos eles apinhados de esqueletos lamuriantes e morcegos repulsivos. Através do ar pútrido eu fazia minha espada sibilar, fragmentando o que quer que seja que mantinha aqueles ossos em pé. Em um dado momento, Leon me pediu, enquanto lançava um feitiço de velocidade, para que eu o esperasse junto à uma das paredes da caverna, permitindo, assim, que ele acionasse algumas alavancas — as quais eu não fazia ideia de onde estavam. Eu percebi algo de estranho por perto e, num som seco e grave, algo se desfez atrás de mim. O que chamou minha atenção era uma parede mágica que havia perdido sua forma, deixando que o ar pestilento preenchesse instantaneamente o vão deixado. Ouvi Leon passar por mim uma segunda vez, disparando na direção contrária à anterior, e, pouco tempo depois, uma segunda parede, a qual guardava as costas da outra, se desfez.
Esperei até que meu amigo voltasse para que nós violássemos a gruta recém-aberta. Aguardavam-nos ali um campo de força mágico e um buraco aberto no chão. Leon disse-me que, após descermos, estaríamos na entrada dos domínios da Rainha das Banshees. Parei por um momento e ponderei sobre nossa decisão e, acima de tudo, por que estaríamos indo tão longe assim. No entanto, era difícil pensar quando a felicidade de uma rainha estava nas mãos de, somente, dois homens. Sem mais protelações, o druida pediu-me que eu descesse primeiro e que fosse cauteloso. Infelizmente, num movimento descuidado, desci através da fenda e caí ruidosamente sobre o chão, sentindo terra fazer seu caminho por entre minhas botas. Dei meu sinal e, rapidamente, Leon escorregou pelo rasgo entre os andares, dilatando a escuridão com seu recém lançado feitiço de luz. Enquanto eu tomava a dianteira, um barulho afiado encheu o ambiente quando eu pisei, com minhas botas de aço, em um piso de mármore negro. Aquilo fez eu perceber que estávamos, realmente, penetrando em uma parte importante daquele lugar.
A postura de Leon enrijeceu-se e eu o senti preparar-se para a batalha. Uma enchente de gritos estridentes soprou da direção que estávamos olhando e, de dentro da escuridão, uma horda de seres abomináveis avançou sobre nós. Posicionei-me à frente do druida e ofereci a lâmina da minha espada à toda sorte de entidades sujas — fantasmas, mortos-vivos, múmias e esqueletos demoníacos — que apareciam aos montes. Leon, como um especialista em feitiços de gelo, fez o ar assoviar em nossa volta, lançando ondas de ar congelante. Quando eram atingidos, aqueles seres estalavam e retorciam-se, abrindo espaço para que eu os terminasse com rápidos cortes de espada. Após constatarmos não haver mais criaturas, avançamos sobre os corpos deixados no chão e entramos num salão excentricamente desenhado. Um longo carpete vermelho desdobrava-se ao longo daquele aposento e terminava aos pés de um par de pedras de sacrifício, as quais, por sua vez, eram encimadas por pontuais campos de fogo. Em ambos os lados éramos esbarrados por extensas mesas de madeira envelhecida e, logo que distinguimos um trono na parte superior da sala, um corpo nos chamou a atenção. Aquele não aparentava ser nenhum morto-vivo ou correspondente: era um homem como qualquer outro. Seu corpo, acinzentado e quintessencialmente morto, repousava em frente à cadeira elevada, como se houvesse sido subjugado pelas forças malignas que ali existiam.
Leon aproximava-se de um dos cantos do aposento quando eu o ordenei que parasse. Certamente ele não havia notado o pobre homem que jazia aos nossos pés — assim como tantos outros corpos que ali se reuniam. Entretanto, quando eu me acerquei do homem e pude olhar seu rosto, meu sangue congelou por um longo e doloroso instante. Aquele era, indubitavelmente, o homem de toga marrom que havia me visitado nos sonhos. Suas feições não poderiam mentir: aquele rosto retangular que sorria para a donzela dos meus sonhos era o mesmíssimo que dormia no chão à minha frente, branco e sem vida. Narrei novamente a Leon sobre aquele homem e pedi para que ele me ajudasse a levantá-lo. Eu haveria de carregá-lo, mesmo que fosse às minhas costas, e apresentá-lo à rainha. Aquele era, e precisava ser, seu amante perdido. Portanto, assim que o druida ouviu minhas palavras, ele o levantou, e ao descansar o cadáver sobre mim, um livro caiu de um de seus bolsos. Pedi a que Leon o lesse para termos a mínima ideia do nome quem eu carregava nas costas e, quando ele findou sua leitura frequentemente atrapalhada por borrões e trechos sem sentido, concluímos que aquele tratava-se de Fugio.
O irmão desaparecido de Costello era certamente o amante da Rainha das Banshees, mas, o que realmente pungia meu inconsciente era o salto temporal que a situação havia dado. Como era possível a Rainha das Banshees, ao lado de seu homem, mostrar-se uma bela jovem nos meus sonhos mesmo tendo incontáveis anos de existência? Fugio era pouco mais velho do que nós, somente, e a coexistência dos fatos não poderia acontecer de forma alguma. Leon, mesmo vendo meu semblante de dúvida, pediu para eu descesse algumas escadas, cujo mecanismo ele havia acabado de acionar. Pé por pé eu desci pela madeira rangente, e assim fez o druida, logo atrás. Então, quando o último de meus pés alcançou o chão de terra, uma pequena câmara nos recebeu e apresentou a nós a tímida luz de um campo de força mágico. Parei à frente do globo pulsante, fazendo com que Leon também parasse atrás de mim, e me indaguei sobre o ponto que ainda me angustiava. O druida, improvisadamente, lançou-me algumas palavras de conforto, mas, o que eu realmente pude sentir em sua sentença, era a sensação de que não poderíamos mais voltar atrás.
— Tudo o que precisamos fazer agora é passar pelos domínios da rainha e provar a ela que somos capazes de receber sua palavra. Nosso caminho, na verdade, começa aqui. Você pode ir primeiro — Leon articulou, esperando meu movimento pioneiro. Ajeitei o corpo de Fugio às minhas costas e avancei sobre o globo piscante, com os olhos fechados. Senti meu corpo transportar-se pelo espaço e somente voltei a abrir meus olhos quando ouvi novamente a voz de Leon. — O que está acontecendo?
O feitiço de iluminação havia se desfeito e nós estávamos imersos na escuridão. A julgar pelo espanto de Leon, algo não havia corrido bem. Quase instintivamente, aproximei-me de onde sua voz veio, mas, apesar daquilo, eu não era capaz de identificar se estávamos sozinhos ou não. Constatei, no entanto, quando nossos pés se tocaram lateralmente, que nós estávamos olhando para a mesma direção, e, ao mesmo tempo que nos esforçávamos para enxergar algo, nada refletia aos nossos olhos. Diante daquilo, eu murmurejei quase inaudivelmente as palavras que, a princípio, trariam luz ao ambiente, mas que, por resultado, nada iluminaram. Eu me senti impotente, assim como eu estava certo de que Leon também se sentia daquela maneira. Por fim eu percebi que, inconscientemente, eu havia aberto os portões da minha alma e deixado que o medo se escondesse dentro dos meus ossos.
— Vocês precisam de luz? — disse uma voz trêmula. — Pois que haja luz.
Palmas secas foram batidas na escuridão à nossa frente e, gradativamente, a iluminação tomou seu espaço. Em poucos instantes um salão tomou forma ao nosso redor e um carpete vermelho aconchegou nossos pés. Os mesmos pisos de mármore negro que cobriam a sala em que havíamos achado o corpo de Fugio revestiam quase totalmente nossa nova acomodação, elevando seu prestígio assombroso. Não muito demorei para que eu levantasse meu olhar aterrorizado e encontrasse a peça central daquele tabuleiro negro: cercada por sua corte, estava a Rainha das Banshees, que se debulhava em lágrimas desesperadas quando nosso primeiro encontro se concretizou. Suas vestes e aparência eram incrivelmente similares às de suas de suas súditas, mas, o que me assegurou de que aquela era mesmo a rainha havia sido sua postura: seus olhos fantasmagóricos, idênticos aos olhos da donzela dos meus sonhos, desfizeram-se em choro quando encontraram os meus. Havia autenticidade em seu pranto.
— Eu sabia que você viria — a rainha disse com sua voz cavernosa, consolando-se. — Eu sabia! Você o trouxe de volta para mim, como eu havia lhe dito nos sonhos! Entretanto, eu peço a você, meu guerreiro, e a seu druida, um último favor — ela completou, secando as lágrimas em sua túnica podre. O sentimento de culpa correu-me por toda a extensão do meu corpo por haver sentido, mesmo que por um momento, medo de uma entidade tão pura e verdadeira quanto a Rainha das Banshees, ignorando a personagem que Leon tentou me construir dela. Um imediato balançar de cabeça marcou minha concordância, e assim também seguiu Leon — Eu estava certa de que vocês concordariam! Agora, por favor, eu preciso que o druida pegue seu livro de feitiços e traga de volta à vida este que o guerreiro traz às costas. Leon é seu nome, certo? — ela direcionou a pergunta ao druida, que assustou-se com a constatação de que ele era capaz de trazer alguém de volta à vida. — Pegue seu livro de feitiços e eu lhe ensinarei os passos. Eu antevi que vocês não se esqueceriam dele!
Aos calafrios, Leon abriu sua mochila e retirou seu livro de feitiços. A Rainha das Banshees aproximou-se dele e agarrou, entusiasmada, o livro com seus dedos magros. Enquanto ela comentava o quão bem cuidado aquele exemplar era, ela virou o volume de cabeça para baixo e marcou quatro páginas entre seus dedos. Ao entregar o livro de feitiços a Leon, ela criou quatro orbes de luz e as conduziu para as lacunas que havia deixado no volume, fazendo com que uma dúzia de palavras do nosso idioma comum se destacassem ante seu brilho. Voltando sua atenção a mim, a rainha pediu-me para que eu colocasse o corpo de Fugio no chão e ordenou que Leon prosseguisse com o ritual lendo as palavras de trás para frente na ordem que apareciam. Para isso, ela nos explicou que, antes de começarmos, o livro que meu amigo carregava era especial. Ao contrário dos livros comum de feitiços, o volume que Leon trazia consigo era um exemplar do Livro de Feitiços das Almas Perdidas, o qual, se manipulado da maneira correta, conduzia de volta do vazio, por um determinado período de tempo, as almas que haviam deixado esse mundo.
O druida, impaciente, leu as palavras como a rainha havia pedido, primeiro lentamente e depois apressadamente, mas o corpo de Fugio permanecia imóvel e sem cor. Eu temia pelo sucesso do ritual porque nós não poderíamos falhar com os sentimentos de nossa majestade. Tudo o que eu poderia fazer, naquele momento, já havia sido feito, e nosso êxito dependia das habilidades de Leon. Diante daquela situação, ele novamente enunciou as palavras — as quais brilhavam tanto que eu pensei, por um momento, que elas estivessem fora das páginas do livro — aos rugidos. A corte da Rainha das Banshees manteve-se taciturna por todo o ritual, e foi com a ajuda daquele silêncio fúnebre que pudemos ouvir a primeira batida descompassada que se rompeu no peito de Fugio. Seguida por mais uma e, novamente, outra batida, a vida havia voltado a pulsar dentro daquele homem. Leon, por sua vez, exausto e consumido pela força que nem ele sabia que possuía, caiu de joelhos, ofegante. A rainha prometeu-me que ele ficaria bem e pediu que eu fosse rápido ao ajudá-la naquele momento. Eu ofereci a Fugio meus ombros e o ajudei a levantar-se. O monge, ainda vulnerável pelo sopro sobrenatural que havia o trazido de volta à existência, mantinha uma respiração desregrada e apresentava ânsia pela vida. Passando velozmente os olhos trêmulos pelo salão, Fugio fixou-os em sua rainha, abrindo-se em um genuíno sorriso. Suas mãos fracas buscaram as dela e os dois se viram juntos novamente.
Recuei alguns passos para dar apoio a Leon enquanto os dois reconheciam-se, após quase uma vida separados. Seu incomumente desenhado livro de feitiços dançava energicamente pelo piso de mármore à sua frente como se nada pudesse pará-lo. Olhei para os dois amantes e não mais vi aquela figura fraca e sacolejante de Fugio, tampouco vi a envelhecida Rainha das Banshees em sua mortalha, mas vi a mesma cena que aparecia nos meus sonhos. Aquele dia ensolarado encheu o salão onde estávamos e a estonteante donzela, com sua harpa, beijava o homem de poucos dedos mais alto que ela em sua toga marrom. A expressão de vislumbre no rosto de Leon era espantosa — uma vez que foi ele o precursor do ritual — e a imagem que tínhamos era quase como uma miragem dos desertos de Darama. No entanto, inesperadamente, nossa atenção voltou-se para o livro que piruetava no chão: ele havia encerrado sua manifestação iluminada até o ponto de fechar-se por si mesmo e amarrar-se com sua cinta de couro. O ritual havia acabado e o aperto que Leon sentia encontrou seu fim.
— Acredito que devemos explicações a vocês, não é mesmo? — disse a Rainha das Banshees, ainda assumindo a forma que eu a via nos sonhos, bela e incólume — O homem que vocês chamam de Fugio não é o mesmo que eu apresentei a você em seus sonhos, guerreiro — ela revelou, olhando brilhantemente para mim —, e sim sua reencarnação. A morte de meu amante por mãos de alguns de meus servos — ela rosnou, fazendo referência à sua corte de Banshees — havia quebrado esse ciclo, e eu temi não mais poder ver, pelo resto da eternidade, o único elo que me ligava à vida mortal que eu tive. Leon já havia provado, há tempos atrás, que era digno de minha palavra por meio de sua passagem através cada um dos selos que se espalham pela minha morada. Entretanto, meu guerreiro, quando eu senti sua presença em meus domínios, decidi desarranjar toda essa sucessão de testes fúteis, os quais tomariam seu tempo, e trazê-lo diretamente até mim.
— Isso é... — eu disse, com as palavras abandonando espontaneamente meus lábios — incrível. Fico feliz em ter ajudado vossa majestade na busca de seu... rei. Eu e Leon nos sentimos extremamente gratificados por isso. Entretanto, minha rainha, posso perguntar-lhe por que nos escolheu? O que havia de especial em nós? — eu perguntei, enquanto ela aninhava-se nos braços de seu amante.
— Vocês guardam potencial, e, sobretudo, um coração bom. Ambos, sem exceção — ela respondeu, ajeitando seu vestido branco. — Muitos vêm até mim, derramando sangue das almas infelizes que tiveram o mesmo destino que o meu, com o intuito de somente minerarem riquezas à custa de uma alma infeliz. Vocês, no entanto, entregaram-se à uma jornada que não lhes traziam benefícios. Corrigir um erro que eu cometi enquanto eu ainda vivia não era um trabalho de mais ninguém, senão meu, mas vocês se dispuseram a ajudar-me. O fato de Leon ter trazido um Livro de Feitiços das Almas Perdidas facilitou ainda mais nosso encontro. Os magos de hoje somente carregam livros de feitiços porque se esquecem das palavras em combate; poucos deles sabem que cada volume desses carrega porções de conhecimento que valem uma existência inteira — a rainha disse, e olhou para seu amante em seguida. — Agora que você conhece essa técnica, Leon, use-a com sabedoria. Os vínculos entre o seu livro e o homem que vocês chamam de Fugio foram dissociados. A vida dele estará sob meus cuidados daqui em diante, assim como a minha esteve sendo cuidada por ele durante todo esse tempo. Obrigada, garotos, por tudo o que vocês fizeram e pelo que eu fui incapaz de fazer.
Terminada sua fala, a rainha aproximou-se de nós e, levantando graciosamente seu vestido, acocorou-se à frente de Leon, que continuava de joelhos. Eu pude sentir, naquele momento, o que não me foi permitido ter sentido nos sonhos: seu perfume, espantosamente doce e deleitante. Com um gesto espirituoso, ela beijou sua testa em agradecimento, e instantes depois ele desapareceu, deixando somente seu livro para trás. Cuidadosamente, ela o pegou e dirigiu-se a mim. Suas mãos delicadas tocaram as minhas e as abriram, entregando o pertence de Leon. Ela sussurrou em meus ouvidos que seria eternamente grata a nós pelos feitos e, acidentalmente, derramou uma de suas lágrimas jubilosas em meus braços. Não pude fazer nada senão desmoronar aos seus pés, como qualquer súdito faria diante de sua rainha. A princesa que havia me visitado nos sonhos era, na verdade, uma bela rainha, cujo rei havia acabado de ascender ao trono. Antes de beijar-me a testa, como fez com Leon, a rainha verdadeiramente sorriu para mim, espelhando a felicidade de sua alma completa pelo amor.
Spoiler: Texto 2
Era realmente incrível a sensação de paz e tranquilidade que este lugar me proporcionava. Claro, eu não havia toda a liberdade de sair por aí da mesma forma que em Thais, mas conquistei o respeito da população de Carlin. Após minha chegada para o Festival das Flores, diversos eventos ocorreram por aqui. Há quem diga que sou o responsável direto por tudo que aconteceu. E de certa forma, em certas ocasiões concordo com essa afirmação. Por mais que são pouquíssimas pessoas que mantém esse tipo de postura rude, mas não deixo de imaginar que está tudo relacionado, de uma forma ou de outra.
Apesar de já estar acordado, permaneci deitado. Jeska estava ao meu lado, dormindo tranquilamente. Passei a mão por entre seus cabelos, tentando afastar a ideia de que aquele poderia ser o último momento ao seu lado. Após uma longa espera, chegou o dia em que selaríamos Audrey de uma vez por todas. Por mais que estivesse focado na missão, havia algo em minha mente que desviava minha atenção quase sempre. Poderia ser o fato de ter iniciado um relacionamento com Jeska, mas havia algo, além disso. Certas coisas aconteceram de uma forma relativamente rápida e fácil.
Em nossa busca pela rara flor, que seria a chava para o selamento da banshee, julguei que encontraríamos maiores desafios. Após as instruções de Padreia e as recomendações de Eloise, Jeska e eu, juntamente com algumas das melhores soldadas de Carlin, havíamos partido em direção à Ab’Dendriel, a velha e mística fortaleza dos elfos. A viagem em si foi mais rápida do que imaginava, e ao contrário de minhas suspeitas, fomos recebidos de forma cordial e carinhosa, por parte dos elfos. Após explicarmos a situação, não houve demais burocracias e logo estávamos com a orquídea santa em mãos. Aparentemente, era algo que os elfos acreditavam possuir propriedades mágicas, capaz de realizar qualquer tipo de magia.
De volta a Carlin, Padreia optou por estudar a orquídea, antes de decidir qualquer coisa. Ficou isolada em seus aposentos, raramente aparecendo para buscar a ajuda de Paulette, que resolveu permanecer na cidade. Jeska também ficava por lá por algum tempo, envolvida na pesquisa da orquídea, além de algo que padreia havia lhe dado. Era um antigo livro de magias, com uma aparência rústica e frágil, mas que possuía diversos tipos de feitiços e encatamentos. Não sei ao certo como Padreia o obteve, mas estava ajudando Jeska a controlar melhor seus poderes. Quando conseguíamos algum tempo livre, ficávamos em algum canto da cidade, geralmente em algum jardim ou na orla da floresta ao norte. A cada dia que passava, ficávamos cada vez mais juntos. Em diversas ocasiões, me perdia ao olhá-la enquanto ela praticava magias. Também foi graças à Jeska que consegui controlar meu conhecido sonho. Por incrível que pareça até mesmo minha dor de cabeça havia me dado uma trégua.
E mesmo com todos os pensamentos rodando em minha cabeça, por algum motivo eu estava calmo. Até mesmo de forma inconsciente, a presença de Jeska me tranquilizava. De início, o pedido de Tibianus para que viéssemos participar do Festival das Flores me pareceu algo irrelevante e chato. Mas agora, a primeira coisa que faria quando retornasse à Thais seria agradecê-lo pela oportunidade.
Resolvi levantar, e neste momento Jeska despertou de seu sono, abrindo um largo sorriso ao me ver.
– Bom dia... Tá mais calmo? – perguntou Jeska.
– Defina “estar calmo” – respondi.
– Bom, quero dizer em relação a não tentar nenhuma bobagem hoje. Garanto que tudo dará certo.
Mais uma vez, o poder mental que Jeska tinha sobre mim funcionou. Concordei, e dei um beijo em sua testa, antes de me levantar. Em pouco tempo, estava preparado para partir. Desci e encontrei Padreia no aposento comum da casa, lendo um longo pergaminho com escritas rúnicas.
– Olá, meu jovem – ela começou a falar – Estou vendo que já está pronto. Onde está Jeska?
– Terminando de se arrumar.
– Muito bem. Está tudo bem com você?
– Sim – respondi – Só estou tentando focar nos objetivos.
– Entendo... Se me permite dizer algo, acredito que já temos quase todas as respostas para nosso futuro. A missão de vocês será difícil, não irei negar, mas não se esqueca de sua essência, de quem você realmente é. Às vezes, até mesmo a melhor das pessoas pode precisar de ajuda. E certamente você não estará sozinho.
Neste momento, Jeska entrou na sala, praticamente pronta para nossa partida. Foi até Padreia e a abraçou fortemente. Fiquei olhando as duas, pensando se teria outra oportunidade de presenciar tal situação. Ao cruzar nossos olharas, Padreia entendeu o que eu estava sentido naquele momento.
– Jeska, minha querida. Cuide-se bem, e ceritifique-se de que ambos voltem para casa. Esperem, há algo aqui para vocês.
Padreia foi até o canto da sala e buscou um pequeno embrulho. Ao revelar seu conteúdo, percebi que se tratava da orquídea santa. Era uma flor magnífica e exuberante.
– Tomem cuidado com isto – disse Padreia – Como vocês sabem, trata-se de um artefato poderoso e desconhecido. Saberão o que fazer com a orquídea, certo? Costello irá instruí-los aos chegarem à ilha. Tome cuidado, e até mais.
Em poucas horas, estávamos na cabana de Dalbrect, e algum tempo depois, desembarcamos na ilha.
– Escutem, vocês dois – começou Dalbrect – Não sei bem exatamente o que está acontecendo por aqui, mas certamente há um motivo especial para fazer com que vocês retornassem aqui. Desejo boa sorte, e tomem cuidado.
Caminhamos até o centro da ilha, e Costello estava a nossa espera, acompanhado de mais alguns monges. Todos apresentavam uma aprência tranquila, como se não houvessem problemas a serem resolvidos.
– Ah sim, vocês finalmente chegaram – começou Costello – Devo dizer que estava esperando por este momento com certa apreenção. Houve alguma dificuldade na reunião em Ab’Dendriel?
– Não – respondi – Pelo contrário, foi mais fácil do que imaginávamos.
– Entendo... No cenário atual, a cooperação entre os povos é de grande importâcia, mesmo existindo diferenças entre cada um de nós.
– Senhor Costello, como efetuaremos o último selo? – perguntou Jeska.
– Bom, dois dias atrás um pequeno grupo se encarregou de checar alguns dos selos, os quais ficam próximos do território selado em Carlin. Entretanto, vocês deverão acessar o local aonde Audrey está selada através de passagens nesta ilha.
– Existem rotas nesta ilha que levam até Audrey?
– Sim. Quando cheguei a esta ilha, elas já existiam, mas foram seladas por segurança. Considerando o contexto, não teremos alternativa a não ser usá-las. Mas não se preocupem. Alguns de nossos irmãos os acompanharão até lá. São habilidosos em vários tipos de combate, além de conhecerem o caminho. Venham comigo, por favor.
Seguimos Costello e seus homens até uma pequena construção ali perto. Aparentava estar abandonada a algum tempo. Um dos homens abriu a pesada porta de madeira e entramos. Era um local velho e inacabado. Diversos ossos de pequenos animais ornamentavam o local, dando um aspecto sombrio e tenebroso. No centro, havia um alçapão, o qual foi aberto por Costello.
– Minha jornada acaba aqui. Vocês encontrarão alguns andares subterrâneos até chegarem a uma passagem. Logo após isso, sigam em direção noroeste – neste momento, Costello fez uma breve pausa, como se estivesse tentando encontrar palavras para descrever o que viria a seguir – Tenho certeza que vocês saberão como prosseguir deste ponto em diante.
Os homens de Costello começaram a descer pelo alçapão. Peguei duas tochas que estavam por perto e passei uma delas para Jeska. Com uma cordial reverência, preparávamos para adentar na passagem quando Costello nos chamou:
– Que a sabedoria guie seus caminhos. Nosso selamento garante apenas a proteção do andar abaixo de vocês. Após isso, poderão sofre qualquer tipo de ataque. Boa sorte.
Entrei no alçapão, com Jeska ao meu lado. Havia uma longa escadaria de pedra, que parecia nos levar cada vez mais para o subsolo. Era um local frio, o qual seria aterrorizante para alguém que não estava costumado com aquilo. Harkath certamente apreciaria tal aventura. Alguns minutos depois, chegamos ao fim da passagem. Os monges estavam à nossa espera, e seguiram caminho, enquanto Jeska olhava o ambiente ao seu redor. Estava um pouco assustada, mas com razão. Era um local sombrio. Havia várias celas ao longo do estreito corredor, cada uma com diversos caixões dentro. Imaginei quem ou o que repousava ali.
Continuamos, e chegamos até a escada que levaria ao próximo andar. Conforme Costello nos avisou, a partir daqui as coisas poderia se complicar. Neste momento, Jeska abandonou sua tocha e realizou um feitiço para iluminar o local. Também aproveitou e pegou uma runa de sua mochila, com propriedades flamejantes. Também abandonei minha fonte de luminosidade, e me preparei para o pior. Assim como Jeska, iluminei o espaço à minha volta.
– O que poderemos encontrar daqui em diante? – perguntei.
– Provavelmente, os servos de Audrey e suas banshees – respondeu o monge que estava mais próximo – Agiremos com cautela a partir de agora. Descerei primeiro, tomem cuidado.
O monge desceu as escadas, e rapidamente foi engolido pela escuridão. Alguns segundos se passaram e os demais integrantes do grupo também desceram. Fechei a fila, com Jeska logo à minha frente. O segundo cenário não estava muito diferente do primeiro; mais uma vez, havia caixões e túmulos nas celas ao longo do corredor. A princípio não notado, mas percebi um tom de preocupação na vozes dos monges.
“Mas não pode ser, ele acabou de descer” – disse um deles.
“Há algo de errado aqui, irmãos. Protejam-se” – disse outro.
O monge que tomou a iniciativa da descida havia desaparecido. Não consegui entender, uma vez que não havia mais ningúem ali, e a escadaria para o outro andar estava a uma distância relativamente grande. Mesmo que ele corresse até lá, não seria o suficente para desaparecer antes de nossa chegada. Segui um pouco adiante do grupo, observando os detalhes ao meu redor. Não havia qualquer indício de uma passagem secreta no local, ou até mesmo algum portal oculto; não percebi nenhuma mágica estranha ali. Aparentemente, Jeska também não notou nada de anormal, pois não esboçou nenhuma reação. Este lugar guardava mais mistérios do que aparentava.
Esperei os monges, próximo às escadas de acesso ao próximo andar. Assim como a viagem até Ab’Dendriel, agora estava relativamente fácil. Claro, havia o mistério do monge desaparecido, entretanto, o ambiente estava calmo até demais. Estava prestes a descer, quando um dos monges segurou meu braço.
– Espere. As construções acabam aqui. A passagem se inicia logo após o término dessa escada. Fiquem atentos a qualquer detalhe.
Olhei para Jeska, parecia assustada, mas retribuiu meu olhar com um sorriso encorajador. Segui o monge, e entramos na passagem. O chão era de terra; havia poças d’água em alguns cantos, e a vegetação era inexistente. Alguns animais espreitavam ao longe. Pequenas aranhas e insetos cobriam quase toda a extensão do teto irregular. A luz oriunda dos feitiços em combinação com a claridade emitida pelas tochas nos monges dava um aspecto surreal ao lugar. Retomamos nossa caminhada em direção noroeste. À medida que adentrávamos na escuridão, o ar ficava mais rarefeito. Por duas ou três vezes, algum monge ficava para trás, com dificuldades para respirar. De alguma forma, este lugar os afetava mais do que a mim ou Jeska. Também havíamos perdido a noção de tempo; não saberia dizer se estávamos ali à minutos ou dias.
O monge que estava à frente do grupo fez um sinal para que parássemos por alguns minutos. Alguns deles andavam pelo local, à procura de algum vestígio incomum, ou algo que levasse ao paradeiro do irmão desaparecido.
– Você está bem? – perguntei, enquanto me aproximava de Jeska.
– Sim, obrigada – ela respondeu, enquanto tentava abandonar a expressão de medo de seu rosto – Confesso que estou um pouco assustada. Apesar de nenhum perigo eminente, este lugar é sombrio demais.
– Também estou com uma sensação estranha – respondi, enquanto segurava sua mão – Mas foi você que me disse para ficar calmo, lembra?
Neste momento, Jeska me abraçou e começou a chorar. Era a primeira vez que a via frágil igual agora.
– Fique calma – comecei a dizer, enquanto a encarava – Tudo vai dar certo. Lembre-se da promessa que...
Neste momento, um grito aterrorizante ecoou por toda a caverna. Os monges que estavam por perto seguiram em direção ao grito.
– Tenho certeza de que era a voz dele – disse um dos monges.
– Não podemos descer aí, é arriscado demais – respondeu outro.
Os monges estavam ao redor de uma estreita passagem, com uma irregular escadaria de terra batida se iniciando poucos metros depois. Por todo o lugar, não havia sinais de outro caminho a seguir.
– Irei descer – comecei a falar – Esperem alguns instantes, e podem ir logo em seguida.
Olhei para Jeska e entrei pela passagem. O ambiente era mais frio aqui, e a cada passo o terreno ficava cada vez mais acidentado. Pouco tempo depois, pude escutar os monges caminhando em minha direção. Havia claridade no final do túnel, e aumentava a cada passo que eu dava. Ao terminar a descida, estava diante de uma grande sala. Assim como os locais anteriores, possuía uma aparência velha e abandonada. Teias de aranha decoravam o local, deixando uma melancolia no ar. Haviam poucos objetos na sala; apenas uma velha mesa de madeira juntamente com vários candelabros quebrados. Havia algo no chão, envolvido em um material branco, quase transparente. Tinha o formato de um corpo humano. Não me agradava pensar nisso, mas o pior estava por vir. Aos poucos, os monges entraram na sala, juntamente com Jeska. Com isso, a sala ficou mais iluminada, revelando o perigo que se escondia ali.
Uma gigantesca aranha estava pendurada no teto, bem acima do corpo que jazia no chão. Aos poucos, ela foi descendo em direção ao monge abatido, e ao tocar o solo, cravou uma de suas patas nele. Já não havia nada que pudéssemos fazer para salvá-lo. Um dos monges berrou em fúria e avançou até a aranha, agitando sua arma com extrema agilidade e maestria. Com uma manobra arriscada, deu um salto ao se aproximar do aracnídeo, se posicionando atrás dele e começando a atacar. Os demais monges também se preparavam para atacar, quando o improvável aconteceu. Uma segunda aranha, semelhante àquela que enfrentávamos apareceu no lado oposto da sala, e em poucos segundos estava do lado do monge que iniciou o ataque. Sem qualquer esforço, ela golpeou o monge, atravessando seu peito com uma de suas garras. Imediatamente, o monge ficou paralisado, deixando sua arma cair. Seu olhar estava vazio quando tombou para o lado, sem vida.
Furiosos, os demais monges se organizaram ao redor do casal de aranhas, preparando uma investida. Jeska foi para o canto da sala, preparando-se para auxiliar na batalha. Ao lado dos monges, estava preparado para dar início ao combate quando uma melodia se iniciou. Era semelhante ao som que tomou conta de Carlin no dia da invasão de banshees, mas havia algo diferente desta vez. Por algum motivo, as aranhas gigantes permaneceram imóveis; como se estivessem controladas por alguém. Aproveitando o momento, os monges investiram contra as criaturas, mas algo os impediu. Não conseguiam prosseguir até o local da batalha, independente do esforço empregado nisso. Alguns instantes depois estavam todos paralisados.
– Afastem-se – uma voz desconhecida ecoou por toda a sala – Qualquer tentativa será inútil.
Um vulto entrou pela sala, pelo mesmo local que a segunda aranha entrou. Em vida, aparentava ser uma mulher bonita e vaidosa, mas tudo que restava agora eram morte e sofrimento. Seus cabelos eram prateados e seu rosto coberto por cicatrizes. Usava longas e finas vestes escuras. Caminhava de forma suave, como se pudesse deslizar pelo chão. Passou por entre as aranhas e olhou para os dois corpos dos monges ali perto.
– Lamento pelos seus homens – disse Audrey, fixando seu olhar em minha direção.
– Você é a Audrey? – perguntei.
– Audrey... Lembro-me vagamente deste nome... Gostaria de não ouvi-lo novamente...
– O que aconteceu aqui? Porque os demais não podem se mover?
– São perguntas interessantes. Acredito que são habilidades oriundas dos meus poderes. O que você pensa disto, Jeska?
Ao ouvir seu nome, Jeska assustou-se. Caminhou em minha direção, mantendo seu olhar fixado em Audrey, com runas preparadas para o uso.
– Como sabe quem sou?
– O mundo esconde diversos mistérios, garota – começou Audrey – A cada dia que passa, aprendemos mais coisas. E claro, esquecemos outras. Mas por agora, peço que venham comigo.
Olhei para Jeska, enquanto analisava a situação. Não havia nada a ser feito para ajudar os monges. Audrey não aparentava estar com más intenções, apesar de tudo que ocorreu até agora. Jeska concordou, e seguimos Audrey até uma sala próxima de onde estávamos. Também era um ambiente grande, iluminado por archotes em todas as paredes. Um longo tapete vermelho cobria o chão de pedra e pilastras ornamentadas com caveiras e esqueletos estavam por toda a sala.
– Novamente, peço desculpas pelos seus homens. Minhas aranhas não causarão mal algum aos demais. E não seu preocupem, eles voltarão ao estado normal em breve, foi apenas um feitiço de paralização.
– Você tem ideia da dor e destruição que causou em Carlin? – perguntou Jeska, furiosa – Tem ideia de quantas pessoas morreram?
– Sei que estão furiosos comigo, mas acredito ter uma resposta para isso. Deixem-me explicar minha história, e poderão interpretar da maneira que quiserem. De qualquer forma, sim, eu ataquei Carlin.
– Por qual motivo? –perguntei.
– Você.
– Como assim, por causa dele? O que quer dizer com isso? – exclamou Jeska.
– Já havia um bom tempo que eu estava selada aqui. Apesar do sofrimento inicial, o exílio me trouxe paz. Permaneci consciente durante um bom tempo, até que senti sua presença em Carlin, algumas semanas atrás.
– Desculpe-me, mas não estou entendendo –perguntei – Qual o real motivo de sua revolta com minha presença?
– Não é exatamente sua presença que despertou minha fúria. Você lembra alguém que amei no passado... Alguém que confiei minha vida, e fui traída.
– Physys.
– Ah sim, Physys... Vocês são parecidos... Venha aqui, por favor.
Fui até Audrey, que estava com sua mão estendida. Fez um sinal para que eu a segurasse e assim o fiz. Por um breve momento, a banshee ficou em silêncio, olhando fixamente para nossas mãos entrelaçadas, julgando algo que eu não conseguia entender. Então, soltou minha mão e andou calmamente pela sala, como se estivesse tentando encontrar o jeito certo de se expressar.
– Entendo... Vocês e Physys são da mesma linhagem. Curioso, muito curioso...
Não sabia como reagir. A primeira e única vez que havia escutado sobre Physys foi quando Costello nos contou a história de Audrey.
– Também observei que vocês possuem uma ligação incomum – continuou Audrey – Confesso que é a primeira vez que vejo algo desse tipo. Ao contrário do que pensei, você e Physys tem mais diferenças que semelhanças. Mas o que está me deixando realmente curiosa é o raro artefato que vocês carregam. Trata-se de uma orquídea santa, não é mesmo?
Jeska afirmou, e retirou a flor de sua mochila. No mesmo instante, Audrey soltou um grito, mesclado de admiração e raiva.
– Sua história não me convenceu – disse Jeska – A cidade sofreu diversos danos por conta de sua vingança estúpida. Não podemos arriscar de lhe deixar livre novamente.
– Compreendo sua dor, garota. Não há nada mais gratificante do que finalmente receber o descanso, uma paz para minha alma. Desde que saí do barco de Capitão Jones venho procurando por isso, mas a raiva me consumia, causando terror por onde eu passava. Vocês possuem tudo para o encantamento?
– Sim – respondi.
– Perfeito. Antes de começarmos, gostaria de entregar-lhe uma coisa. De forma alguma conseguirei reparar todo o dano que causei ao longo de todo este tempo, mas quero lhe recompensar com algo.
Audrey seguiu em direção a uma das paredes da sala e começou um encantamento. Aos poucos, a parede se abriu, revelando uma porta. Não precisei pensar muito para perceber que era a porta que aparecia em meus sonhos.
– Não pode ser... – disse Jeska, assustada– Essa é a porta das nossas visões. Como pode ser real?
– Devo dizer que não esperava que isso fosse acontecer algum dia. Por muito tempo, este local foi minha moradia, e descobri diversos mistérios escondidos aqui. Além desta porta, vocês encontrarão alguns artefatos únicos deste mundo. Em outras ocasiões, teriam problemas com o exército que coloquei para proteger o local, mas com minha partida, o caminho estará livre. Por favor, vamos começar com o selamento.
Audrey se posicionou no centro do tapete vermelho. Seu semblante era de alguém que havia descoberto a fórmula para a felicidade. Estava calma, e até mesmo sua sombria cabeleira prata apresentava um toque de sutilidade à sua aparência. Jeska estava consultando seu livro arcano de magias e feitiços, com a orquídea santa próxima a ela. Ficou por um tempo até encontrar o feitiço certo, e então demos início ao selamento de Audrey.
– Precisarei de você para executar este feitiço – Jeska começou a me dizer – Não sei se possuo energia suficiente para suportar a evocação dos selos, então irei canalizar parte de seu poder.
Ajoelhei-me perto de Jeska, e olhei para Audrey. Seu olhar estava carregado de mágoas e arrependimentos, resolvi não dizer nada. À medida que Jeska executava o feitiço, conseguia sentir parte de minha energia sendo drenada. Ao redor da banshee, uma áurea azul se aproximava cada vez mais de seu corpo, até se tornar uma só entidade. Com um último olhar e um sorriso no rosto, Audrey desapareceu.
– É isso? – perguntei.
– A-acredito que sim... Não sinto a presença dela em lugar nenhum – Jeska virou-se para a porta revelada por Audrey – O que faremos agora? Aquela porta...
– Tentarei abri-la. Acredito que conseguirá retornar para o local onde deixamos os monges. Avise-os sobre o que aconteceu aqui e retorne para a ilha.
– Não. Seu destino será o mesmo que o meu. Vamos.
Jeska me olhava com uma expressão séria. Já a conhecia bem para saber que ela não mudaria de opinião tão fácil. Ajudou-me a levantar e segurou minha mão. Então, partimos juntos em direção à porta misteriosa, que por anos ilustrava meus sonhos.
– Tem certeza de que quer seguir em frente? – tentei uma última vez.
– Não há com o que se preocupar – respondeu Jeska – Você está pronto para isso.
Segurei a maçaneta da porta e a empurrei. Uma forte luz cegou-nos momentaneamente. Ao abrir os olhos, estava diante de outra sala. No centro, um baú era o único objeto que existia ali. Caminhamos em direção ao baú. Ao fundo da sala, uma luz mais intensa tremia com vivacidade. Certamente era um portal, mas qual seria seu destino?
Paramos ao lado do baú. Estava fechado, mas ao levar a mão até uma de suas abas, ele se abriu. Em seu interior havia um par de botas, aparentemente já usadas. Tinham uma coloração marrom, e ao tirá-las de dentro do baú, percebi que eram leves e macias, mas relativamente pequenas. Resolvi arriscar, e experimentei as novas botas. Por algum motivo, pareciam feitas sob medida. Ao caminhar pela sala, pude perceber qual era o real segredo por trás deste artefato. Apesar de não me esforçar, consegui contornar todo o perímetro da sala em poucos segundos. Era uma velocidade fantástica, que facilmente superava o feitiço que Harkath usava para correr. Aos poucos, consegui dominar a técnica utilizada pelo novo item. Jeska estava parada próxima ao baú, se divertindo com a situação.
– Já é hora de irmos, não? – ela perguntou.
– Sim, mas o que faremos agora? Tem um portal logo adiante, mas não sabemos onde e como estão os monges.
– Não se preocupe. Eles já estão retornando para a ilha. Não temos outra opção, a não ser passar pelo portal, ou temos?
– Não... Acredito que não. Mas não podemos ficar aqui para sempre. Vamos.
De mãos dadas, mais uma vez, caminhamos em direção ao portal aberto. Não tinha a mínima ideia de qual seria nosso próximo destino, mas estava confiante. O problema com Audrey foi resolvido, e pelo menos por enquanto, teríamos um pouco de paz.
– Assim que sairmos daqui, o que faremos? – perguntou Jeska.
– Sendo sincero, não sei. Mas poderíamos começar visitando meus pais em Thais – respondi, enquanto entrávamos no portal.
@Lacerdinha
@Kamahl doido
Quaisquer dúvidas, entrem em contato comigo.
Abraço,
Iridium.
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