Havia passado quase cinco horas, já estava começando a entardecer, quando o Sol finalmente abriu. A chuva cessara, e levemente o céu se abria. E assim, a fila acabara, e um a um, os cidadãos iam para a casa. Mas ficaram a tempo de ver os reluzentes cavalos negros marcharem até o castelo. Todos sussurravam e olhavam para as pessoas em cima deles, de capas negras, a Irmandade.
Um a um eles desceram, totalizando dez pessoas. Um dos guardas veio recebe-los.
-É uma honra receber a Irmandade aqui-O guarda fez uma referência- Deixe-me leva-los até o caixão..
-Sabemos o caminho-Disse um que usava um sobretudo negro, além de um chapéu, que escondia seus olhos. Apenas sua boca era realmente visível, e não parecia estar de bom humor. O pouco cabelo que era visto, era preto, sua pele morena, mas bem clara. Ele passou pelo guarda, juntamente com os outros nove membros.
O de chapéu foi na frente, e encarou o corpo do rei com um sorriso zombeteiro. Os outros abaixaram as cabeças, juntamente com o de chapéu, mas apenas por um instante. Em seguida, se viraram para o guarda, que os seguira.
-Você é Josef, não? O conselheiro real?-Disse o de chapéu.
-Sim.. Luis-Disse Josef, fazendo outra reverência e olhando para o membro de chapéu, Luis.
-Chame os representantes, e tragam o filho do rei-Luis disse se virando para os nove.
Nesse meio tempo, duas garotas estavam escalando o telhado do castelo de Thais.
-A gente não devia estar aqui, Aiko!-Disse Roberta, olhando nervosamente para o chão.
-Pss, não se preocupe! E não faz barulho, quero ver o que eles vão dizer!-Aiko disse com os olhos brilhando.
Roberta resmungou baixinho. Aiko virou e a encarou.
-Para de reclamar! Eu tenho certeza de que irá sair algo de importante dessa reunião...-disse para Roberta.
Roberta a encarou novamente, o rosto de pele clara estava todo suado, seus olhos verdes como esmeraldas e o cabelo loiro não ajudavam a esconder as duas no entardecer, no telhado do castelo. Ela tinha uma expressão de que havia sido arrastada até ali, apesar que apontava um pouquinho de curiosidade também. As duas removeram uma das telhas do castelo bem devagar, mas não a tempo de um pedacinho cair nas pessoas lá embaixo. Ambas prenderam a respiração, quando a pedra quase bateu em Luis, o membro da Irmandade que estava mais a frente. Mas ele fez um pequeno movimento antes, para apertar as mãos da rainha.
Aiko se posicionou melhor para olhar pelo buraquinho no teto. Roberta se espremeu no seu lado e ambas olharam com curiosidade lá para baixo. Aiko tinha a pele clara, além dos olhos cinza, uma combinação incomum com o seu cabelo ruivo. Aiko era uma sorcerer, mas ela não havia dinheiro para pagar o treinamento correto e sabia pouca coisa da vocação. Ela também perdera os pais na guerra, e morava junto com Roberta, que era uma druida, além da sua mãe, que já havia sido uma sorcerer, hoje em dia, apenas uma dona de casa a espera do marido, que continuava na guerra.
-É bom revê-la novamente Eloise. Mesmo em circunstâncias tão.. tristes-Luis disse encarando Eloise nos olhos.
Eloise olhou novamente para o corpo de Tibianus e concordou. Em seguida comentou:
-Já faz muito tempo mesmo. Nosso último encontro foi a quanto tempo? Você ainda era um moleque... em Edron não foi?
Aiko notou que a sobrancelha de Luis se fechou um pouquinho, como se o comentário não tivesse sido agradável, mas ele não esboçou nenhuma reação.
Sim-Luis concordou-Aquela época passou e muito mudou.
-Eu noto isso. Assim como a Irmandade também. Reconheço poucos daquela época... Geo.. Theo..Victor..-A rainha começou, mas Luis a interrompeu.
-Lamento não termos tempo para isso. Preciso discutir esse assunto e voltar urgentemente para Venore. Preciso me encontrar com um conhecido.
-Então vamos para o assunto-Disse uma voz enérgica atrás de Luis. Este se virou e viu Blásio se aproximando. Seu corpo era de aparência forte, e ele não trajava vestes negras, mas sim um veludo vermelho, sua espada prendida no seu cinto, juntamente com botas de couro. Ele estava com um sorriso no rosto, sua pele clara, seu cabelo já loiro prateado, além dos olhos negros, um Tibianus mais jovem, tinha no máximo, dezessete anos.
-O filho do rei!!-Roberta disse meio excitada.
-Fala baixo!-Aiko a beliscou enquanto falava. Roberta choramingou, mas não disse mais nada.
-Blásio-Eloise o cumprimentou secamente, e ele apenas moveu a cabeça.
-Reúna os outros, vamos conversar-Luís disse para Josef.
E em menos de cinco minutos, a sala cheia de pessoas importantes. Todos os dez membros da Irmandade, Eloise, Josef, Daniel, Hugo, Kruzark, além de Blásio, todos sentados nas cadeiras de ouro, alguns em outras que foram trazidas rapidamente.
-Vocês foram trazidos até aqui...-Luis começou, mas Blásio o interrompeu.
-Achei que seria Matheus, aquele que iria falar isso. Mas eu não o vejo aqui.
-Matheus não pôde comparecer ao velório devido sua partic...
-Então irei falar com ele depois-Blásio disse cortando Luis de novo-O que seria mais importante do que minha coroação..
As duas garotas lá em cima olharam surpresas uma para a outra.
-Coroação!-Eloise disse zombando-O garoto não tem idade para comandar Thais e tudo que Tibianus comandava!
-Somente sua palavra não mudaria em nada... senhora Eloise-Blásio disse sorrindo, ainda mais quando disse a palavra senhora. Eloise mudou o tom da cor do rosto rapidamente, mas nada disse. Em seguida Blásio virou para os outros representantes-Vocês estão aqui apenas para saber que tudo o que era do meu pai agora é meu. Não serei seu Tibianus quatro, mas terei um novo nome. Vocês continuarão no posto de vocês, se assim concordarem na minha coroação.
Ele olhou rapidamente para as pessoas ali sentadas, que olharam surpresas em como a conversa chegaram até ali tão rápido.
-Você não quer discutir os termos antes como..-Kruzark começou, mas Hugo o interrompeu.
-Eu acho que Blásio deve sim ser o novo rei de Thais. O legado de Tibianus permanece com o filho, se assim for a vontade dele.
Blásio sorriu, Kruzark franziu as sobrancelhas, mas nada disse. Daniel o olhou e apenas disse-Irei fazer como bem entenderem.
-Mas eu não!-Eloise protestou-Muito jovem para esse tipo de coisa! Como suas ideias ajudariam o continente? O que você tem em mente?
-Muita coisa-Blásio sorriu para ela-Mas creio que essa reunião acabou. Terminem de enterrar o meu pai, e ficarei uma semana de luto. Após isso, quero minha coroa, em uma cerimônia espetacular.
Ele se levantou, cumprimentando levemente todos na sala menos Eloise, virou e saiu.
Todos se entreolharam.
-Acha mesmo que foi prudente isso?-Um dos membros da Irmandade sussurrou para Luis, que nada disse.
-Mal consegue limpar as próprias calças, e o querem como rei! Francamente, como puderam concordar com isso?!-Eloise disse virando para os outros.
-Não podemos fazer nada. Ele é o herdeiro legítimo.-Luis disse secamente, se levantando também-Nós não vamos ficar para o enterro de Tibianus. Sairemos de manhã-ele disse virando para os outros membros que se levantaram também-Temos que encontrar Matheus em Venore. Senhores, senhora-Acrescentou para Eloise-Uma boa estadia em Thais.
E assim eles saíram do castelo um por um. As outras pessoas ficaram na sala em um silêncio constrangedor, pensando em como a situação havia alterado rapidamente, mas também levantaram e saíram.
Aiko e Roberta suspiraram.
-O sangue de Tibianus nem esfriou direito e já existe um novo rei-Aiko disse.
-Ao menos é o gato do Blásio, quem mais seria?-Roberta disse enquanto elas desciam pelo lugar que subiram: algumas raízes que cresceram até o topo do castelo.
Ao chegarem no chão entretanto, as duas foram atacadas, e a visão das duas escureceram quando sacos foram postos em suas cabeças.
Quando Aiko recuperou a consciência, ela estava ouvindo garotas rindo. Ela estava presa com cordas nas mãos e não conseguia soltar. O som parecia distante, mas quando ela mexeu, o saco foi tirado de sua cabeça.
-Espionando? Você?!-Aiko ouviu um som que detestava. Era Gabriela, sua inimiga desde que saíram de Rookgaard. Gabriela vivia rodeada de ‘amiguinhas’, e fazia de tudo para humilhar Aiko e Roberta para a diversão dela e de suas companheiras. Ela tinha a pele morena, os cabelos castanhos e os olhos verdes, fazia qualquer homem derreter diante sua presença e voz meiga, o que encantava a todos. Ela era uma druida, mas não tão competente assim, pois ligava mais para garotos e beleza, ao invés da relação com a natureza e a cura.
-O que você quer dessa vez?!-Aiko disse olhando para ela com raiva.
-Ora.. e o que mais? Ver vocês assim.. mexendo onde não devem.. olhando para os membros da Irmandade, todos aqueles gatos.. e se intrometendo nos assuntos deles... apenas para ver Blásio ser coroado rei!-Gabriela disse sorrindo maldosamente.
As amigas dela riram.
-Mas então você estava vendo também. Como sabe a respeito?-Aiko disse a encarando nos olhos e sorrindo com selvageria. Gabriela parou de sorrir. Em seguida olhou feio para Aiko. Chegou bem próximo ao ouvido dela, agarrou seu cabelo e sussurrou:
-Se alguém souber que estávamos lá.. você e eu teremos uma conversa.
E em seguida a empurrou, e Aiko percebeu onde elas estavam: na fazenda de Donald McRonald, junto aos porcos, e Aiko caiu de cara no chiqueiro, sujando o rosto, e o corpo de lama e excrementos.
As garotas riam, e quando Aiko tentou levantar, Gabriela a empurrou e ela caiu novamente.
-O que pensam que estão fazendo?!-As garotas ouviram um grito atrás delas, e, olhando assustadas, viram que quem a estavam encarando era um dos membros da Irmandade, Luis, que passava de cavalo por aquela parte da cidade. Seu chapéu bloqueava que as garotas vissem seus olhos, mas mesmo assim, todas correram quando o viram.
Luis se aproximou de Aiko.
-Está bem? Elas te feriram?
Aiko tentou levantar e cuspiu um pouco de lama que havia entrado em sua boca.
-Não.. elas vivem fazendo isso..-ela disse baixinho erguendo a mão para Luis ajudar ela a levantar.
Luis a encarou. Em seguida sorriu, e Aiko conseguiu ver seus olhos, que eram negros como a morte. Seu corpo tremeu, mas ela não expressou reação de medo.
-Acho que confundiu meu ato como algo nobre. Eu não te conheço, e não sou seu amigo. Se elas fazem isso com você e você não sabe se defender, é porque é fraca demais para isso. E o mundo já está cheio de pessoas fracas.
Ele parou de falar por um instante. Os olhos de Aiko se encheram de água. Luis a encarou de novo, em seguida pegou na mão dela e a puxou para cima.
Ela levantou devagar.
-O..brigada-balbuciou devagar tentando secar os olhos com uma parte limpa da roupa.
Luis se virou para ir embora. Mas antes de subir no cavalo, olhou para trás.
-Se nos encontrarmos uma outra vez, que não esteja coberta de lama-Completou sorrindo ao subir no cavalo, e depois disso, cavalgou para longe rapidamente.
Aiko apenas ficou ali, observando como tudo aquilo aconteceu tão rápido, que até se esqueceu que estava acompanhada de sua amiga...
-Foi prudente se declarar rei agora?-Josef perguntou para Blásio, quando já estava de noite, e todos haviam deixado o castelo.
-Meu pai foi muitas coisas, mas nunca um rei decente. A cidade precisa de um comando forte, para sobrevier a guerra que está vindo.
-Essa guerra dura anos, e sempre há percas para ambos os lados. Como você conseguirá fazer o que seu pai nunca fez?-Josef disse encarando Blásio.
Já Blásio, apenas encarou o corpo de seu pai, ele estava com uma rosa na mão, mas a deixou cair, ao invés de depositar junto ao corpo do pai.
-Muita coisa-Ele sussurrou com os olhos enormes e cheios de ambição.