CAPÍTULO 6 – NOTA MENTAL
Acordou novamente. Abriu os olhos, com certa lentidão. O lugar que estava ainda era o mesmo. Ouvia vozes, mas não conhecia nenhuma delas sequer. Havia duas diferentes. Dois homens estavam ao seu lado, conversando num idioma indecifrável.
Realmente, eu acho que eu estou no céu. Pensou durante alguns minutos, ainda de olhos fechados. O falso Führer o matou porque era uma ameaça para a identidade do verdadeiro líder. As vozes ficaram mais altas. Cada vez crescendo. O clarão se abateu novamente sobre as vistas do homem.
Onde estaria Clark? O outro agente, que cometeu todas as atrocidades junto dele. O que acontecera com ele? Qual teria sido seu destino. Perguntas sem respostas. Deus havia sido generoso com Johnson, dando-lhe uma vaga no céu, mesmo depois de tudo. Deus sabia que a intenção de Johnson sempre foi trair o Führer, mas não esperava que fosse descoberto tão cedo. O som das vozes aumentava gradativamente. Estava supersensível. As vozes eram nítidas agora. E ele entendia. Abriu os olhos e olhou para o pé da cama, instintivamente. Os dois homens estavam de pé, olhando para ele.
- Onde é que eu estou? – a voz saiu rouca, falha, mas o som foi estrondoso. Johnson percebeu, e pensou.
Morto é o escambal, eu to bem vivo!
- Welcome to the United Kingdon, nigger!
* * *
- Inconcebível.
Dudley Clark encarava o pelotão novamente, restando apenas 45 horas para o lançamento do suposto míssil roubado da base de Budapeste. Depois da morte de Sniper, todos eles retornaram à Analítica. Green Beret trazia um olhar alucinado. O maior parceiro do pelotão estava morto, enterrado sorrateiramente no terreno hostil da floresta de Frankfurt.
- Foi uma falha militar, Commandos! Vocês deveriam ter prestado atenção nos arredores! Vocês não têm o costume de falhar desse jeito, recrutas!
- Com licença, senhor – Green Beret se manifestou. – Nós fizemos uma busca no arredor. Não havia como o atirador ter fugido naquele terreno sem ter sido pego por nós. Não vimos nada sobre as árvores, também. É como se... – Green analisou friamente o que iria dizer -, como se tivesse sido um tiro fantasma!
O tenente olhou para Green, incrédulo.
Um soldado meu não pode ter este tipo de pensamento.
Um bipe foi emitido do imenso computador. Um rosto desconhecido, negro, surgiu na tela. Um dos analistas gritou:
- Recebendo dados! Parece uma mensagem criptografada, enviada por satélite!
O homem continuou olhando friamente para dentro da sala, através do computador. Abriu a boca, em menção de dizer algo, mas não disse. O silêncio daqueles dez segundos foi sufocante. Até que ele começou a falar.
- Olá, "analíticos". Eu sou Johnson Derek, e eu sou um soldado canadense infiltrado nas tropas nazistas. Minha função é pura e simplesmente ganhar a confiança do Führer. É o seguinte, vocês têm um soldado chamado Sniper, eu acredito. Ele será assassinado, o Führer
verdadeiro está a par de seus planos. Tomem cuidado. Eu apenas...
A fala foi interrompida por um soco que surgiu no rosto de Johnson. O falso Führer o pegou com a mão na massa.
- Pena que chegou tarde - um analista brincou, mas se arrependeu ao ver o olhar fulminante de Michael.
* * *
William Charlie sentia-se gratificado. O Führer o compensaria, com certeza. Ele sabia que, com a combinação correta, subiria facilmente de escalão na pirâmide hierárquica da instituição.
- Foi tão fácil, senhor...
- Eu reconheço seu esforço, Will. Você fez tudo exatamente como planejado, e tudo deu maravilhosamente bem. Eu agradeço.
- Obrigado, senhor – Will sentia-se emocionado. – Tudo pelo nosso ideal.
O Führer já transmitia estática pelo walkie-talkie quando a palavra ideal fez com que voltasse à realidade.
Falta tão pouco. Tão pouco!
* * *
Johnson já estava num lugar totalmente diferente, quando acordou pela terceira vez. Era uma casa colonial, rústica, aparentemente. Os móveis eram de madeira de lei. O quarto era largo, diga-se de passagem. Havia a cama, onde estava deitado confortavelmente sobre um colchão, com a cabeça recostada num travesseiro de penas de avestruz. O chão era um assoalho liso também de madeira. Havia um tapete enorme, de pele de urso, marrom. Num canto da sala, estava uma pequena raque com alguns enfeites sobre ela. No centro, havia uma mesa retangular, de superfície de vidro. Muitos papéis estavam repousados sobre essa mesa. Ao lado da cama, a cerca de 2m de distância, estava acesa uma lareira. O ambiente estava calmo e aquecido. A maçaneta da porta girou, um homem entrou por ela.
- Hello, there – um homem alto, com alguns poucos cabelos brancos ao redor da cabeça, entrou na sala se comunicando com Johnson. Estava vestido com um paletó de tweed e uma camisa apertada sob uma gravata. A calça de linho preta dava seriedade ao encontro.
- Hello – Johnson estava incerto com relação às palavras. – What is going on? O que está havendo?
- Ah, fala inglês. Muito bom, a nossa comunicação será importante. Eu sou James Trevorian. Sou analista de sistemas.
- Prazer, senhor Trevorian. Eu sou Johnson, eu não...
- Eu já sei o que aconteceu, Johnson. Não se preocupe. Você está em Portsmouth, no sul da Inglaterra. Aceita um café?
Johnson olhou com desconfiança para o homem.
O falso Führer tentou me eliminar. Algo está errado. Pensou, forçou a mente para lembrar-se de poucas coisas que tivesse feito. Lembrou-se da mensagem criptografada que enviou pelo
notebook, quando estava no campo de concentração, para a Analítica, avisando sobre a morte de Sniper. Aquilo foi visto como uma traição. A morte de Sniper era para ser de surpresa. Mas ele não queria mais participar daquela loucura. Quis seguir o exemplo de Clark, que fugiu. Mas não conseguiu, fora capturado antes.
O tilintar de duas peças de porcelana trouxe de volta os pensamentos de Johnson. Era James, com uma xícara e um pires. O cheiro do café era agradável, e lembrou a Johnson o quanto tinha fome.
- Obrigado, senhor.
- Por favor, me chame de James. Quer me contar o que aconteceu? Você traz boas marcas de lesões pelo corpo, amigo. Há uma coisa muito estranha em seu abdômen.
Johnson franziu o cenho, enquanto bebericava o café. Estava sem camisa, quando olhou para o abdômen, torceu o nariz. Havia a marca NFC, provavelmente marcada pelo forte chute que recebeu do falso Führer quando estava no jatinho.
- O que significa? – Trevorian pressionou-o.
- Não sei, verdadeiramente – mentiu Johnson. – Eu estava num jato, e fui chutado na barriga. Provavelmente, a marca é proveniente da ponta do calçado daquele maldito nazista filho de...
- Nazista?
Johnson percebera o tamanho do erro. O homem o olhava assustadamente.
Meu Deus do céu, como eu sou bizarro, foi o pensamento de Johnson na hora. Trevorian o encarou com seriedade, mas em seguida desfez o olhar.
- Tudo bem. Deve estar balbuciando – sua expressão foi de quem afastava os pensamentos. – Preciso dar um telefonema, amigo. Fique à vontade. Dentro daquela raque, você pode encontrar algumas roupas novas para vestir. Quando sentir que melhorou, pode vir falar comigo. Estou na sala ao lado – deu-lhe um sorriso gentil.
- Obrigado, senhor. Obrigado por tudo.
- Não por isso, Johnson – mais um sorriso gentil, manteve o agente satisfeito pela companhia.
Trevorian deixou a sala. Em seguida, Johnson caminhou pelo domo. As pernas doíam um pouco. Um grito ressoou da outra sala.
- APENAS NA PRIMEIRA GAVETA, JOHNSON.
- OBRIGADO, SENHOR.
Johnson abriu a gaveta. Os trajes eram formais, normais, ocasionais, de tudo quanto é tipo. Por curiosidade, verificou a segunda gaveta. Sentiu-se enojado. Havia outro uniforme, como o que usara alguns dias atrás, com o símbolo da suástica cintilando. Sentiu uma enorme repulsa e uma reviravolta no estômago quando viu algumas letras marcadas sob o símbolo, com um nome. Caminhou para trás, nauseado.
Estou na rede do inimigo, INFERNO!
Johnson vestiu-se com as roupas da primeira gaveta, e colocou o ouvido à porta. Pôde escutar, com pouca nitidez, as palavras de Trevorian.
-... Sim, senhor. Ele está aqui. E sinto muito, ainda respira e está bem vivo...
Johnson apertou ainda mais o ouvido contra a porta. Certamente, o aparelho telefônico deveria estar muito longe da porta.
-... Não sei, não senhor. Mande alguém até aqui. Se quiser, eu mesmo posso executá-lo.
Houve um silêncio, e alguns passos seguiram-se em direção à porta. Johnson afastou-se vagarosamente, e tomou um pedaço de madeira. Parecia ser uma das pernas de uma cadeira, que estava encostada fracamente na parede rústica. Armou-se e preparou-se para o combate. A porta rangeu. Trevorian entrou, com uma pistola em punho.
- Afaste-se, Johnson. Você não tem o direito de abrir essa maldita boca, negro traidor dos infernos.
- Eu sobrevivi a muita coisa, Trevorian. Ou deveria dizer, Clark?
Trevorian o encarou.
Maldição! Nauseou. Deu um passo atrás, incerto. A arma pendeu na mão direita e, rapidamente, Johnson voou para cima dele. Num soco, um pedaço do rosto de Trevorian foi arrancado e jogado no chão. Socando-o freneticamente, Johnson só encontrou o que já imaginava: seu ex-parceiro, Clark, estava sob uma plástica tão vagabunda quanto fosse possível.
Johnson debruçou-se sobre o outro agente, que claramente estava abatido pelos socos que levou. Tornou a golpeá-lo, até que percebeu sua desistência do combate. Em seguida, alcançou a pistola no chão. Seu instinto assassino veio novamente à tona. E não pensou duas vezes. Cravou-lhe uma bala na cabeça e, em seguida, tomou suas roupas e escondeu o corpo no armário. Limpou-se rapidamente com o uniforme nazista, e em seguida caminhou tranquilamente pela saída da casa.