Capítulo 26 - Assunto para Mortos
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Postado originalmente por
Neal Caffrey
Mais um excelente capítulo, Nightcrawler complexo como sempre, personalidade magnetizante.
Deixando de lado momentaneamente as questões envolvendo o próprio enredo em si, gostaria de lhe chamar a atenção ligeiramente a respeito da gramática. Não se esqueça dos acentos e, mais do que isso, se a sentença é narrada no presente, então a mantenha no presente em sua integralidade; não mescle o manuseio da frase entre passado e presente, sob pena de comprometer seu sentido e a própria narrativa. Exemplo prático:
Outro ponto onde desejo chamar sua atenção: a questão da transitoriedade dos verbos. Quem "reclama", reclama "de" alguma coisa, e não "alguma coisa", simplesmente. Isso porque reclamar "de" significa se queixar; reclamar "algo" significa atrair para si; entenda que a flexibilização do léxico cria sentidos diferentes. Senão, veja-se:
De mais a mais, gosto de pensar no caminho que a história toma e nas guinadas que costuma dar. A cada novo capítulo, a história parece transitoriamente se desenrolar num determinado sentido; de repente, ela assume outras feições e dispara em direção oposta, o que me agrada e me agrada muito. Atenções voltadas para Aika e para sua capacidade de síntese.
Aguardo ansiosamente pelo próximo capítulo.
Forte abraço, Carlos!
Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios. E perdão pelos erros, foi uma distração rápida na minha revisão.
A história deve estar no ritmo certo agora. Não consegui manter um clima depressivo, que era a minha intenção inicial, mas acredito que não será necessário por enquanto. Por hora, fazer com que os leitores entendam tudo é minha intenção primária.
Obrigado pela sua presença e conto contigo nos próximos capítulos. :)
Continuo essa caminhada para o final da história. E conforme ela vai se aproximando, coisas novas serão reveladas. Eu espero que tudo que está acontecendo até o momento esteja empolgando vocês.
Espero que gostem.
No capítulo anterior:
Dartaul relembra seu passado, ou o último dia em que esteve com seus pais. Aika está acordada e viva, e agora gera dúvidas e receio no grupo. Enquanto isso, eles planejam ir até Carlin para deixar Eloise em segurança.
Capítulo 26 – Assunto para Mortos
O porto de Carlin parece um cemitério.
Apesar de ser dia e do sol estar iluminando a cidade, ela não parece tão animada quanto a luz que a ilumina. O cais vazio, a falta de um guia e o movimento rápido das pessoas nas ruas indicam que a situação na cidade não parece ter melhorado muito. Nightcrawler e Trevor veem isso enquanto próximos do contramestre e do capitão do navio, já que estavam passando um bom tempo conversando ali até chegarem à cidade.
— Achei que a cidade estaria melhor, agora que há uma nova líder. Não parece ter mudado muito... — Comenta Trevor, inquieto.
— Carlin está melhor, mas os seus cidadãos não. — Responde o contramestre, um homem moreno com um visual comum de marinheiro e um chapéu triangular. — Ela tem reformado todo o norte da cidade mais rápido do que chuva de verão, e pelo que é dito, já está terminado. Logo os mercantes voltam pra essa cidade e as coisas voltam a andar.
— Você realmente pensa que tudo voltará a andar assim, como se elas tivessem sido atacadas por orcs? — Questiona Nightcrawler, com os braços cruzados — Eram membros da Irmandade. Eu andei olhando mais alguns relatórios que reuni e me lembrei de algo importante que devo ter deixado passar: Massacres promovidos pela Irmandade nunca são feitos por eles mesmo, mas sim pelas vítimas, conduzidas a matar umas as outras. Há os mesmos rastros em todas as que olhei. Então, só imagine como o psicológico de quem sobreviveu aquilo está agora, some com rumores espalhados pela cidade, e então...
O contramestre fica em silêncio, bem como o restante.
— Bem, você tinha me dito que está próximo de acabar com eles, não é? — Disse Harlow, sem se distrair com o mar ou com o assunto. — Se estiver, faça isso o quanto antes. Os tibianos não merecem sofrer por tanto tempo dessa maneira.
— Ou talvez sim. O destino sempre tem seus motivos para atuar.
O navio atraca no cais sem pressa. A primeira vista, não parecem saber muito bem o que fazer. A luz que Carlin sempre teve parece ter se dissipado, e a própria cidade parece inquieta com alguma coisa. Do convés, sobem Dartaul, Aika e Alayen, além de quatro marujos com um caixão. Nele, está Eloise, que já não é mais a rainha.
— Nosso trajeto será pelos esgotos. Não importa se a cidade está depressiva ou não.
Ninguém discorda. O detetive se despede de Harlow e diz que voltará em algumas horas. Feito isso, eles partem até um armazém próximo e encontram uma entrada para os esgotos. Vendo que ninguém está nas redondezas, eles descem, sendo Alayen o primeiro para guiar os marujos e assegurar a segurança do local, depois o caixão, e então o resto do grupo.
A jornada pelos fétidos corredores do subterrâneo da cidade mostra-se sombrio. O cheiro ruim de água suja e lixo distrai os sentidos de alguns membros do grupo, mas como estão sendo seguidos por Nightcrawler, sentem que conseguirão passar por ali sem muitos problemas. E conforme seguem em direção ao norte, sentem um cheiro estranho além do lixo entrar por suas narinas e confundi-los pelo caminho que estão seguindo.
Após alguns minutos, eles descobrem a fonte do cheiro. As águas dos esgotos do norte de Carlin foram convertidas em sangue. Nightcrawler respira fundo e o restante desvia o olhar.
O detetive acha uma saída ao lado do castelo de Carlin e, novamente, Alayen sobe primeiro, checa o perímetro e manda o caixão subir. Dessa vez, usam uma corda para puxá-lo, com um marujo atrás empurrando. Feito isso, o resto do grupo sobe para dar uma olhada na região. E como imaginaram, as casas estão limpas, com janelas trocadas e portas com novas maçanetas, indicando novas fechaduras. Não há mais nenhum rastro de sangue na região, apesar dela estar estranhamente vazia.
Eles caminham atentos até a entrada do castelo. Reparam que a Guilda dos Cavaleiros, o prédio que fica do outro lado do castelo, próximo da muralha, está desativado. O provável é que não encontraram ainda um substituto para Trisha, a antiga líder da guilda. E na entrada do castelo, o que encontram é uma guarda composta por doze guardas, dois na entrada, o resto andando pelo jardim destruído do castelo, que agora está convertido em terra.
Nightcrawler olha para Aika e faz sinal para que ela siga-o. Os marujos vem logo atrás. Após doze passos, as dez guardas ao redor surgem num instante ao redor do caixão, apontando suas espadas. As outras duas apontam as suas para o pescoço de Nightcrawler, que segue com as mãos no bolso, indiferente ao perigo. Aika parece assustada, mas mantém a calma.
— Homem. — Disse com desprezo a guarda na sua direita, uma mulher desconhecida, mas com voz firme. Usa um visual de cavaleiro completo, com capacete, armadura, ombreiras, caneleiras, luvas e capa — Acho melhor que tenha uma boa desculpa para ousar pisar mais do que dez vezes neste recinto nobre e feminino.
— Ô se tenho, recruta. É só olhar o caixão.
As guardas irritam-se com o comentário e Aika percebe que é o momento de agir.
— Perdoe a falta de educação de meu guarda-costas. Meu nome é Aika Danguian, e trago algo que recuperei em nome de Vossa Majestade.
As atenções são voltadas para a feiticeira, que não se sente a vontade. Dartaul, ao fundo, parece nervoso.
— O que seria?
— A falecida Rainha Eloise.
As mulheres parecem bem surpresas. As guardas que cercam o caixão abaixam suas espadas, mas as outras duas não. Parecem ter dúvidas. Isso é visível pela forma de como seus braços tremem.
— Eu preciso verificar o caixão.
— Só na presença da rainha atual. Nenhuma guarda deste reino pode profanar o descanso de uma antiga líder sem permissão, é uma completa blasfêmia.
A guarda à direita cerra os dentes, mas abaixa a espada, entendendo o pedido.
— Acompanhem-me, então.
— Gostaria de pedir que os outros membros do meu grupo me acompanhassem.
— Por?
— Questão de segurança. E todos eles tem a ver com o resgate do corpo.
A mulher fica pensativa.
— Bem, de qualquer maneira, tudo depende de Sua Majestade, que está em seus aposentos. Ficarão do lado de fora até que ela tome uma decisão a respeito disso.
Aika assente e faz sinal para o restante vir com eles. Enquanto passam pelo caminho no meio do jardim, eles recebem encaradas intensas das mulheres ao redor, forçando-os a caminharem mais rápido até o castelo.
O que encontram no caminho até o quarto da rainha é um chão que um dia já foi impecável, mas agora parece menos cuidado. Ele não brilha em reflexo das luzes dos dois lustres pendurados no teto, e não é mais tão branco que parece vidro. Agora, ele contrasta com as cortinas vermelhas nas janelas, com as paredes de mármore branco e com o tapete vermelho que leva até o trono, mas não mais da mesma maneira grandiosa de outrora.
As escadarias que levam aos andares superiores são feitas de mármore e serpenteiam até o andar seguinte. Eles passam por um corredor com vários quartos, mas, aparentemente, nenhum deles é o da rainha. Há portas feitas também de um mármore branco e fino, mas faltam polimento, portanto, estão escurecidas. E no andar onde está o aposento em questão, encontram algumas mulheres perambulando pelo corredor – Empregadas da rainha. Há duas guardas no final do corredor, onde está o quarto.
Por incrível que pareça, os homens presentes ali atraem mais a atenção do que o caixão. Cada mulher que os encara parece tirar mais de suas seguranças particulares, como se, no fundo, quisessem tirar suas masculinidades com as mãos. Dartaul não entende o ódio que elas sentem, mas não se importa com isso, apenas continua andando.
E ao chegarem no quarto, a guarda que os acompanha pede que fiquem do lado de fora, esperando, enquanto as guardas de fora e algumas serviçais desarmam eles por questões de segurança. Após alguma inquietação e diálogos, ela aparece de novo, mandando, surpreendentemente, todos entrarem.
O quarto da rainha é menor do que o que Eloise possuía, portanto, não é tão grande. Possui uma cama de solteiro rica e ornamentada no canto esquerdo à porta, uma janela relativamente pequena, um armário branco comum à direita, um criado-mudo de mesma cor ao lado da cama e uma cômoda marrom ao lado da porta. Há uma mesa de montar feita de madeira bem polida no centro do quarto, onde a rainha se encontra, com um vestido simples e vermelho com um cinto de couro. A mesma coroa que antes Eloise usava agora está em sua cabeça, em seus cabelos presos numa grande trança que passa pelo seu ombro e um pouco além de seu peito.
A mulher é bela e jovem, alguém que não viu tantos invernos. Possui um cabelo cor avelã, um corpo magro e comum para as mulheres carlinídeas, olhos verdes, nariz e lábios finos. Seu olhar é firme, porém, encantador. Ela está de pé frente a essa mesa, onde há alguns pergaminhos reunidos, além de um pote branco de tinta com uma pena sobre ao lado. Suas mãos estão juntas frente a sua barriga, que parece bem reta e sem destaque algum.
O grupo faz uma reverência para a rainha. Exceto Nightcrawler, que permanece parado.
— Não é necessário. Levantem suas posturas, por favor. — Disse a líder, com um pequeno sorriso no rosto. Sua voz é doce e calma, porém, possui autoridade.
— O oferecimento do nosso respeito à Vossa Majestade é necessária, principalmente nesta situação. Agradeço por aceitar nossa presença aqui, senhorita. — Disse Aika, preocupada com o que diz.
— Eu entendo, mas não é necessário. Vocês dizem ter algo de uma importância realmente surreal, que nem mesmo Vania, a mulher que lhes trouxe até aqui, teve coragem de dizer. Este caixão... Pode deixá-lo no chão e abri-lo, por favor.
Os homens do grupo vão para os cantos do quarto e deixam Aika tomar a frente. Nightcrawler fica próximo da garota, enquanto os marujos abrem o caixão e deixam-no ao alcance da visão da mulher, para depois saírem do quarto. E ao ver o rosto pálido da sua antiga líder, sua expressão muda.
— Não devo ter me apresentado ainda. Sou Elisângela, sobrinha de Eloise. A rainha teve um filho, mas este foi banido do reino por uma relação proibida. Como ela não conseguiu gerar uma criança mulher, eu, filha de sua irmã, Êdora, assumi o trono e o governo do reino de Carlin. Minha mãe faleceu há alguns anos, e desde então, estive vivendo em Ab’Dendriel. E vocês, os que resgataram minha falecida tia, quem são?
Tanto Nightcrawler quanto Dartaul parecem incomodados com o fato dela não se incomodar tanto com a presença do corpo de Eloise a sua frente.
— Sou Aika Danguian, venho de Porto Esperança.
— Entendo... Há muitas pessoas de olhos puxados por lá. E vocês?
— Dispense apresentações dos membros, rainha Elisângela. — Corta Nightcrawler, direto e sério. Estranhamente, a mulher não se importa com isso. É como se ela estivesse esperando que algum deles fizesse isso.
— Se é o seu desejo, visitante...
— Eu sou o atual líder desta companhia. Estivemos em Yalahar para recuperar o corpo de sua parente.
— Entendo... Você é Nightcrawler, não é? Sei do seu título... O Conde Mascarado de Yalahar. Você é aquele homem corajoso que persegue a irmandade responsável pela morte de Eloise.
— É por aí. Passamos por bastante sufoco para recuperar o corpo dela. O motivo foi descoberto por nós recentemente. Peço para que preste atenção.
A rainha não diz nada, apenas concorda com a cabeça.
— Nenhuma vítima da Irmandade do Caminho de Sangue está morta. Elas estão num estado de coma induzido, muito semelhante com a morte. Estão lidando com pesadelos, um atrás do outro. Só sairão desse estado quando toda a Irmandade for exterminada. E é o que eu busco, no momento.
Elisângela mostra uma expressão de surpresa pela primeira vez, mas seu semblante continua indiferente, tornando todo o resto falso.
— Então... Eloise continua viva?
— Exato. Mesmo agora ela pode possivelmente nos ouvir, mas não sairá do estado de coma.
— Entendo. É uma grande descoberta, detetive.
— De fato, é. Por isso resgatamos Eloise. Ela precisa de cuidados e proteção.
— Pois bem. Eu compreendo.
Um silêncio surge de repente no quarto. Algo parece se divergir entre os pensamentos da rainha e do grupo.
— Bem... Pela quietude, parece que vocês desejam que meus druidas sejam quem dará a ela cuidado e proteção, estou certa?
— É o que esperamos encontrar aqui, Majestade. — Disse Aika, juntando as mãos, ainda preocupada e inquieta.
Dartaul fecha a cara. Ele parece já ter entendido tudo antes de todos. Por um breve instante, Elisângela olha para ele e sorri levemente de canto, e volta a olhar para Nightcrawler e Aika.
— Não. Eloise não é problema meu.
Silêncio dentro da sala. Caos dentro das cabeças dos presentes.
— Como é? — Pergunta Nightcrawler, tirando as mãos do bolso.
— É como eu disse. Ela será problema ou dos druidas, ou de vocês. Eu reneguei sua linhagem falha e iniciei a minha própria, inspirada na minha mãe. Tive autorização das ministras e tudo corre bem. Isso foi necessário para que toda a cidade ficasse limpa como está agora e para que eu não me preocupasse com nada além da situação de Carlin.
— Essa atitude é uma blasfêmia contra a cidade e o seu povo, Majestade. Não faz sentido nem em sua base.
— Claro que faz... Caso fosse revelado ao povo que a família de Eloise usurpou o trono.
O caos em suas mentes parece cobrir tudo que ouvem. Ele aumenta mais a cada palavra dita por Elisângela, que permanece calma como a brisa de uma manhã, e voraz como um lobo há semanas sem comer.
— Talvez não tenham reparado, mas... — Disse a rainha, retirando algumas mechas de cabelo que cobriam suas orelhas, revelando um formato pontiagudo — Sou uma elfa. Apesar de eu me parecer muito com uma humana, isso não passa de uma maldição imposta pela família de minha tia, a mesma família nobre de Thais que roubou o que deveria ser dos druidas e dos elfos, mandando-nos para Ab’Dendriel contra nossa vontade. Esperamos por dois séculos, indiferentes a longevidade élfica. Mas deu certo, no final. O ataque da Irmandade do Caminho de Sangue foi uma mão na roda. Carlin pode voltar a pertencer a quem sempre pertenceu, matando de uma vez a influência thaiana que existe no norte deste continente e dando-o para as raças que realmente seguem os deuses. E isso é tudo.
O grupo fica em silêncio. Havia algum barulho do lado de fora do quarto, mas este também cessou há algum tempo. Aparentemente, quem está do lado de fora também está ouvindo a conversa.
— No fim, você acabou dando um golpe de estado surpresa, não é? — Disse Dartaul. Não está nervoso nem sente medo, apenas está irritado.
— Ora. Golpe de estado? Aonde, aqui? — Questiona Elisângela, olhando para o rapaz de forma desafiadora — Não aconteceu nenhum tipo de golpe aqui, meu rapaz. Fui coroada legitimamente. Sou a única sucessora restante.
— Não. Você roubou o trono. Não tem sangue real, provavelmente foi adotada.
— Minha avó foi. Ela era uma elfa em segredo que foi assassinada por um viajante de Venore. O mesmo foi julgado há muitos anos. Mas não há necessidade para que eu tenha sangue real, afinal, o trono sempre foi dos elfos!
— Quem determina isso são os líderes élficos! Se fosse mesmo o caso, os arcanistas já teriam vindo aqui te visitar, não acha? Os elfos estariam entrando na cidade, estariam colaborando com os druidas para assegurar as redondezas, retirariam o sangue nos esgotos. Mas isso não está acontecendo pois você não é a líder legítima. Os elfos não te apoiam.
— Os elfos ainda não sabem quem eu sou. Mas logo saberão e virão para me auxiliar, e espalhar a palavra dos verdadeiros governantes desta parcela do continente.
— É aí que você está errada. — Disse agora Alayen, com os braços cruzados, encostado na cômoda de madeira — Os arcanistas não virão te ajudar, pois eu nunca os ouvi desejando o trono de Carlin. Preferem deixar na mão das ex-amazonas. Eu próprio os questionei, como parte do meu treinamento particular.
Elisângela parece estar perdendo sua resistente calma.
— De qualquer maneira, o corpo não é problema meu. Resolvam esse problema da forma que acharem melhor. Estão dispensados.
— Nunca vi alguém fazer pouco caso de uma parente dessa maneira. — Disse Nightcrawler, resignado.
Alguém parece ter aberto a porta, mas apenas alguns membros do grupo repararam. A rainha ainda rouba-lhes a atenção, principalmente pela sua visível mudança de humor.
— A RAINHA ELOISE NÃO ERA MINHA PARENTE! Essa linhagem morreu! E se vocês também não quiserem o mesmo destino, sumam daqui junto desse caixão. Essa audiência está terminada.
— Carlin também encontrou seu fim com você, rainha Elisângela.
— Como é? — Questiona a mulher, com uma das mãos sobre a mesa. Sua calma já se fora há algum tempo.
— Exatamente o que ouviu. Acha que Carlin se sustentou todos esses anos por causa que essa família era rica? Melhor dar uma revisada no seu conhecimento lendo alguns livros a respeito da história deste reino, pois o motivo de você ter esse castelo luxuoso e essas serviçais e guardas a sua disposição é apenas por causa da competência de cada líder que governou esse lugar depois de Xenom. Não seja estúpida. Carlin nunca foi governada por thaianos disfarçados e os elfos nunca desejaram esse reino. Você está sendo uma criança birrenta, achando que roubaram seu brinquedo, e agora está jogando tudo que acha no caminho no chão e nas paredes pra ver se te notam e te ajudam a recuperar o brinquedo que você nunca teve.
Elisângela arregala os olhos. Mal acredita no que está ouvindo naquele momento.
— Ama o povo de Carlin? Faça um favor para eles: Deixe esse trono. Pois eu próprio farei Eloise voltar a governar essa merda de reino, não importa se eu tiver que tirar um exército do meu cu e botar na porta dessa cidade. Pois se as mulheres daqui dependerem de você, elas vão estar mais fodidas do que caso fossem governadas por um homem.
Nightcrawler dá as costas para a rainha e vai em direção da porta. E ao abri-la, dá de cara com três guardas, várias serviçais e com a líder da Guilda dos Feiticeiros, Lea, totalmente surpresa. Entretanto, ele passa direto por ela, e vai até os marujos.
— Tirem o caixão daquele quarto. Estamos partindo de Carlin hoje mesmo.
Sem contrariar, eles concordam e correm até o quarto. Os restantes no quarto saem, liberando o caminho para os marujos trabalharem. A passos largos o detetive se vai, e a passos rápidos e desesperados alguém o segue. Próximo de descer para o próximo andar, ele decide parar e virar para trás, mas é surpreendido pelo abraço de alguém querido.
Lea abraça-o forte, mas Nightcrawler afasta a mulher. Ela insiste, deixando-o sem muitas opções.
— Achei que não tínhamos nenhuma relação forte.
Ela sente um aperto no coração.
— Claro que tínhamos, seu imbecil! Eu... Eu mal pude me perdoar por isso. Por não deixar você saber o quão inquieta e depressiva eu fiquei por todo esse tempo que você me deixou, visitando-me tão raramente... E sabendo que você iria para Yalahar, para atrair a Irmandade toda de uma vez e tentar destruí-la... Merda, Crawler! Eu realmente senti medo. Um medo tão forte que meu peito chegava a doer. Me dava até falta de ar imaginar uma faca entrando no seu coração...
— Melhor do que sentir dor nas costas o tempo inteiro.
Lea soca o braço do detetive. Ele sorri.
— Você sabe que eu nunca vou morrer pra esses desgraçados. Eu nunca fui pego por eles, e assim vai continuar até que eu os extermine.
— E agora... Você está indo até eles pra destruí-los?
— Precisamente. E eu não sei se irei voltar.
— Não... Nightcrawler. Ou melhor, Suzio. Me prometa...
As mãos de Lea chegam atrás de sua cabeça num instante para retirar o barbante transparente que prendia a máscara do homem. Ela retira devagar, revelando para ela olhos mais sombrios que da última vez que ela pôde ver esse rosto. Com as duas mãos na nuca do homem, ela beija-o apaixonadamente, e se afasta alguns instantes depois.
—...Que irá voltar.
Suzio dá um sorriso triste e toma a máscara das mãos de Lea para colocá-la novamente. O grupo está vindo ao longe, junto do caixão. Ele volta a pousar seu olhar no rosto esperançoso de Lea.
— Desculpe, Lea. Eu não posso.
Ele toma os braços da moça de si e abaixa-os, e vira-se para descer a escadaria até o próximo andar, sem se despedir. Lea fica ali, cabisbaixa, sem saber como reagir. Sua echarpe cai no chão, e o grupo, junto do caixão, passa direto por ela. E conforme ela nota isso, ela percebe que ninguém voltará por ela. E ninguém pode ajudá-la a matar essa solidão que a ronda por tantos anos.
E então, Dartaul pega a echarpe da mulher e deixa em seus braços, sem dizer nada. Ela fita-o, e por um momento, pensa ter visto Suzio, porém, muito mais jovem.
Ele vai embora. A hora de investir contra a Irmandade está chegando, e ela sabe que eles não possuem tempo para ajudar ninguém senão eles mesmos.
Próximo: Capítulo 27 – Divergentes
Capítulo 27 - Divergentes
Citação:
Postado originalmente por
Edge Fencer
E aí!
Bom, acabei deixando acumular dois capítulos novamente... Comentarei as minhas impressões sobre ambos.
No capítulo 25, achei certeira sua escolha de iniciar a narração com esse flashback do Dartaul. Além da qualidade excelente que teve, ele também deu uma carga emocional e até um certo suspense que enriqueceram bastante o capítulo. Sobre a Aika, muito mais dúvidas do que constatações, mas isso é o normal vindo de mim kkkk. Sei que o Dartaul provavelmente vai crescer bastante como personagem nesse final, mas devo admitir que ele já era um dos personagens que eu mais gostava na história; fico contente de ver que ele está tendo um desenvolvimento muito bem feito :)
Sobre esse último capítulo, rapaz, que treta você foi introduzir na história, hein? Bloodtrip já se mostrou bem imprevisível até aqui, mas envolver elfos e uma disputa pela coroa de Carlin foi outro nível. A expectativa pra isso tá altíssima, já que essa rainha usurpadora parece ser uma personagem muito interessante. Falando sobre essa rainha, eu gostei bastante das descrições que você forneceu sobre as atitudes e expressões dela, fez com que eu me sentisse realmente dentro daquela cena. Destaque pra essa passagem, achei muito massa:
Falando no geral agora, Carlos, esses dois capítulos mostraram uma versatilidade bem interessante da sua escrita. Já comentei aqui (mais de uma vez kkkk) que esse estilo de batalhas ninjas naruteiras, como diz o Skirt, e todo o sangue e violência que você traz aqui não é exatamente a minha leitura preferida. Por isso, ver esses capítulos nos quais você trouxe suspense, batalhas psicológicas, disputas políticas... É legal demais cara, de verdade. Não que o resto da história não tenha esses fatores, mas esses capítulos trouxeram isso em um nível excelente. Você tem muito talento, Carlos, nunca pare de escrever xD
Fico esperando a sequência, bem curioso pra descobrir as próximas ações do Crawler.
Abraço!
Diga aí Edge, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Dartaul já estava perturbado com muitas coisas desde o começo da história, ter esse sonho no começo daquele capítulo foi a melhor coisa que pude fazer para continuar seguindo com esse foco nele. Eu também queria contar mais a respeito dele e do porque ele ter mudado como personagem ao longo da história. Ainda continuarei fazendo isso, afinal, já dei muito foco no detetive mascarado, acho que agora ele também tá precisando. Os outros, bem... Quem sabe um dia. :smile:
A parte que inclui na história a respeito de Carlin é parte das tretas dessa versão de Tibia que eu criei, então acredito que não haja espaço para introduzir isso aqui, por hora. Mas, claro, não vai terminar assim.
Por fim, creio que os últimos capítulos terão esse foco mais psicológico para então voltar a porradaria. Eu venho planejando tudo há um bom tempo, então escreverei cada coisa com o melhor que tenho em escrita. Eu espero que goste!
Espero que goste desse capítulo também. Escrevi ele pensando em cada pessoa aqui que curte o Dartaul e o Nightcrawler.
Esse capítulo, originalmente, não existe. Decidi escrevê-lo pois achei necessário uma introdução para o próximo arco. Não quero que nada pareça seco demais agora, tudo passará a ter seus motivos e seu sentimento por trás, seja drama, suspense, ou até terror. E, claro, espero passar todos esses sentimentos para vocês sem problemas.
Espero que gostem do capítulo!
No capítulo anterior:
O grupo leva o corpo da Rainha Eloise para a nova rainha de Carlin, Elisângela, apenas para descobrir que ela abomina Eloise e sua linhagem, e deseja deixar Carlin para o povo élfico com ela no comando. Mas Dartaul lhe dá um senso de realidade, juntamente de Nightcrawler. E enquanto saem dali, o mascarado reencontra Lea, mas a deixa para trás, não prometendo voltar.
Capítulo 27 – Divergentes
O navio segue numa viagem quieta pelo golfo dos reis. Não demorará mais do que um dia para chegarem ao seu destino.
Dartaul está quieto em sua cabine. O olhar de Lea direcionado a ele, como se o próprio fosse sua última esperança, parece ter martelado fortemente dentro da sua cabeça, uma vez que, por mais que ele tente, o rapaz não consegue esquecer o que viu. Enquanto deitado, ele tenta organizar seus pensamentos, ao mesmo tempo que lida com os roncos baixos de Aika, que dorme abraçada a ele, com a cabeça em seu peito. Ele não chegou nem perto de pensar o suficiente sobre ela, principalmente sobre o seu retorno misterioso.
E agora, o maior mistério naquela história toda é sobre o próximo passo de Nightcrawler. Afinal, o detetive é totalmente imprevisível.
Dartaul vira o rosto para o lado, ainda pensativo, enquanto o navio balança calmamente. E ao olhar para a porta, nota ela entreaberta e com um rosto sorridente por trás dela.
— Feliz natal. — Disse Nightcrawler.
A respiração de Dartaul volta devagar.
— Filho da puta. Quase morro de susto. — Murmura Dartaul, tentando não acordar a feiticeira com a sua voz.
— Preciso que venha comigo. Vamos conversar.
— Conversar sobre o quê?
— Sobre a economia dos dworcs. É algo realmente interessante, pra não dizer complexo.
O investigador bufa.
— Vamos só conversar. Não há mal algum nisso. Anda, sai daí.
O rapaz decide se levantar, tomando cuidado com Aika. Ele puxa o travesseiro e coloca-o debaixo da cabeça da garota, na tentativa de enganar sua mente e dizer que ele ainda está ali.
Dartaul segue o detetive até a sua cabine. E ao entrar, mal repara em diferenças para a sua. Apenas há mais prateleiras com vários livros em ao menos três paredes do quarto. O rapaz fecha a porta e Nightcrawler dirige-se para uma mesa próxima, tomando para si dois copos cheios de uísque.
— Aceita? — Disse o mascarado, oferecendo um dos copos para o rapaz.
— Uísque? Num navio desses?
— O quê? Não estamos num navio pirata para bebermos rum. E eu não gosto de rum, também.
O rapaz aceita, e Nightcrawler se senta na outra ponta da mesa. Dartaul senta na cadeira mais próxima, ficando frente a frente com o mascarado.
Surpreendentemente, ele retira sua máscara e deixa-a sobre a mesa. Seu rosto quase coberto por queimaduras, além da estranha cicatriz no olho esquerdo, parecem ser o destaque central da sala. Afinal, não é todo dia que se vê algo assim.
— E então, rapaz, me diga: O que tem achado dessa missão toda?
O investigador se surpreende. Não havia pensado em algo assim até o momento.
— Bom... Não sei. Pra falar a verdade, não passou pela minha cabeça pensar sobre algo assim.
— Imagino. Tanta merda acontecendo ao mesmo tempo não nos dá o luxo de refletir sobre nossas vidas.
— Talvez eu possa dizer que foi uma experiência e tanto. Mas está longe de ser positiva.
O detetive parece intrigado. Entretanto, ele finge não estar, afinal, sem a máscara, outros podem ver suas expressões e se divertir com isso. E talvez seja um dos motivos do mesmo utilizar aquela máscara.
— E por que diz isso?
— Preciso explicar ainda, Suzio?
Dezenas de cenas onde Dartaul passara por problemas na missão chegam a sua mente, mas ele continua indiferente enquanto fita o rapaz.
— Bem, acho que não. Mas é sempre bom botar as coisas pra fora, não é?
— Justamente pra quem causou todas elas? Acho que ainda não é o momento.
— Ora, rapaz. Não me olhe como se eu fosse o diabo em pessoa. Sei que não sou nenhum santo e nem fui a melhor coisa para essa companhia, mas provavelmente você tem em mente que eu nem esperava que metade das coisas que aconteceram virassem realidade. Estou errado?
— Então você é um péssimo líder.
Suzio dá um riso abafado e triste.
— É, talvez eu seja. Mas, sabe, há uma razão. Não sou nenhum gênio, sou apenas um detetive com uma mente aberta. E antes disso, eu não era um gênio também. Quando eu estudei para ser um alquimista ao lado de um velho amigo, eu reparei que eu tinha a tendência de ser deixado para trás. Como durante o período que vivi com meus pais, que sempre me deixavam sozinho em casa para ir trabalhar e pouco se fodiam pras minhas condições. Deixavam que um vizinho ficasse de olho em mim e cuidasse de mim quando eu ficasse doente. Acho que, no fim, essa impressão nunca foi deixada para trás.
Dartaul fita-o seriamente, sem responder.
— Mesmo liderando essa companhia, eu não sentia que estava totalmente apto a guiá-la. Sentia sempre que estava faltando alguma coisa na minha conduta, que eu estava cometendo erros atrás de erros. Então, mesmo quando eu calava a minha boca frente as merdas que aconteciam com a gente, eu estava pensando... Porra, eu sou um retardado mesmo, um animal. Garanto que se fosse ele, algo diferente ocorreria. Algo melhor.
Suzio dá uma golada rápida em seu uísque.
— Então você sempre esteve se culpando pelo que fez?
— É por aí. É bem estúpido ao olhar dessa forma. Eu estou aqui, pensando que não sou capaz de liderar ninguém, ansiando por alguém para carregar por mim meu fardo. Mas veja por um lado: Todos alguma vez já pensaram assim, frente a alguma dificuldade.
— Eu nunca pensei.
Suzio engole em seco frente a Dartaul pela primeira vez desde que tudo aquilo começou.
— Certo, Dartaul. Então, de fato, você é forte, e eu, fraco e mesquinho. Mas é como eu te disse quando estávamos no hakugai: Eu nunca pedi por isso. Nós um dia desejamos crescer, e quando crescemos, queremos voltar de onde começamos. Afinal, um joelho ralado dói muito menos que um coração partido. Perder o dia de brincadeiras com os amigos por causa da chuva é menos doloroso do que ver suas expectativas para o futuro destruídas diante dos seus olhos. A inocência e ignorância da infância é mais confortável do que o conhecimento adulto sobre o mundo.
Dartaul permanece indiferente, mas Suzio não se incomoda com isso.
— Até hoje não sei o destino dos meus pais, nem do vizinho que cuidava de mim, nem dos meus amigos. Não sei o que aconteceu com meu velho amigo Senzo, nem com os amigos que consegui enquanto trabalhei em Yalahar. Acho que nem saberei. Me resta continuar trabalhando e cumprindo meu papel enquanto ainda estou vivo. Meu papel de detetive.
Finalmente o investigador parece entendê-lo melhor, e então, toma um golpe do uísque, em resposta.
— Você é bem emotivo pra alguém tão frio e babaca.
— Talvez.
— Além disso, você expressa coisas que eu mal cheguei a sentir. Afinal, eu não quero voltar pro meu início. Mal tinha amigos, tampouco tive tempo para ser inocente. Agora, eu não sinto que estou cumprindo algum papel. Na verdade, pareço mais um zumbi procurando cérebros. Esses cérebros talvez sejam o fim dessa missão, onde depois disso, continuarei andando por aí, sem rumo. Afinal, você fodeu comigo.
— Pensei em algo para ajudá-lo, nesse caso.
Suzio se levanta e pega uma pasta, cuja capa é feita de madeira e é bem escura. Ele coloca na mesa e deixa ela a disposição do rapaz, que abre com curiosidade. Vê relatórios que tinham sua letra, mas ele sabia que não tinha sido ele quem escreveu aquilo.
— Uma das minhas habilidades é copiar caligrafias. Fiz para você esse relato que você poderá entregar para a sua guarnição daqui um mês.
— E o que tem aqui para me ajudar? — Questiona Dartaul, alheio ao fato dele nunca ter mostrado sua caligrafia para Nightcrawler.
— Provas de que você me matou após a Arapuca de Yalahar. Que você tinha começado uma investigação independente para me capturar. Sei que Harkath mandou Trevor para cá justamente pra me capturar caso eu fizesse merda e botasse autoridades em risco. Deve lembrar que, para a chefe dos inquisidores thaianos, eu te capturei junto de Trevor. O relatório estava sendo escrito desde aquilo, e eu decidi ir até lá justamente para o fato de você ter me matado fazer sentido.
— Sempre sendo um detetive sem noção, não é?
— É o meu trabalho.
Dartaul sorri e bebe um pouco mais do uísque, e fecha a pasta. Suzio senta-se na cadeira próxima, e fita o rapaz.
— Ainda podemos conversar mais um pouco.
— O navio deve estar chegando ao nosso destino. Ilha Calcanea, não é?
— Isso. Depois iremos para Fibula e por fim chegaremos no continente para entrar em Thais pelo sul.
Ambos tomam um pouco mais da bebida em suas mãos e praticamente finalizam seus copos.
— Bem, vou voltar pro meu quarto. Quero descansar antes dessa jornada.
— Ah, tudo bem. Depois continuaremos nossa conversa de detetive maluco e investigador recruta.
Dartaul se levanta e pega a pasta que Suzio lhe entregou. E então, olha para o homem.
— Que bom que você consegue enxergar diferenças entre nós, Suzio. Pois você deve se lembrar que eu nunca serei como você.
— Perfeitamente.
Dartaul dá meia volta e sai do quarto, rumando até o seu, sem dizer uma palavra. Ainda há um resto de bebida no copo do detetive, do qual ele termina de beber. Ao deixar o copo na mesa, ele começa a fitar o nada.
— De preferência, não seja. Odeio imitadores. — Murmura para si mesmo, enquanto afunda-se em sua própria cadeira, cansado.
Próximo: Capítulo 28 – O Antigo Lar
Capítulo 28 - O Antigo Lar
Citação:
Postado originalmente por
Edge Fencer
E aí!
Bem legal o capítulo, Carlos. Como você disse, foi uma espécie de introdução, bem curtinho e tranquilo de se ler. Apesar disso, o diálogo entre Dartaul e o Nightcrawler foi mais profundo do que parece, ao meu ver; é bem raro o Crawler ter uma conversa, digamos, de igual pra igual com alguém (com o Dartaul, então...), ainda mais sem sua máscara. Foi mais um ponto positivo na construção do personagem, e isso é excelente. Personagens como o Nightcrawler tem um risco considerável de se tornarem robóticos demais, até meio previsíveis; você, trazendo esse lado humano do detetive a tona de vez em quando, consegue evitar muito bem que isso aconteça.
É isso aí, fica a expectativa pra sequência desse arco novo, que deve trazer bastante coisa interessante pra história :)
Abraço!
Opa Edge, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Trabalhar esse capítulo e fazê-lo chegar numa boa conclusão foi um pouquinho difícil. No fim, eu consegui fazê-lo de uma forma peculiar: Foi como se eu estivesse conversando comigo mesmo. Além disso, era realmente necessário um capítulo assim, pois eu não só quero que compreendam as mudanças que Dartaul está sofrendo, como também quero que o Nightcrawler não pareça um simples detetive genial inalcançável que irá sempre resolver os problemas. Também posso dizer que você adivinhou bem minha intenção.
Esse arco pode ser um tanto curto, mas o farei o melhor possível. Espero que goste!
Eu demorei duas semanas pra fazer esse capítulo pois estive não só ocupado com um projeto, como também não estava conseguindo escrever muito bem. Foi um tanto difícil escrevê-lo e deixá-lo fluir. Acho que ainda lidarei com esse problema mais vezes, pois é o final da história. Já faz quase um ano que estou escrevendo ela, e preciso terminá-la. Não estava nos meus planos alongá-la tanto.
Bem, espero que tudo esteja correndo bem e que a história finalize deixando a sensação de que vocês leram uma bela obra tibiana. :)
No capítulo anterior:
Nightcrawler tem uma conversa franca com Dartaul, expondo quem realmente é. Entretanto, isso não parece significar muito para o jovem investigador, que não gosta muito do detetive. E ele continua não gostando.
Capítulo 28 – O Antigo Lar
Suzio se despede uma última vez de Harlow, o capitão do navio. Chegaram na ilha Calcanea há pouco, durante uma madrugada nevoenta. O homem, junto dos marujos, não fez questão de tardar muito naquele lugar; nada de bom era dito sobre a ilha.
Apesar dos mitos a respeito do lugar, não havia nada de grande destaque ali senão uma casa abandonada e várias árvores espalhadas pelo lugar. A ilha é inacessível, mas existe um acesso até Fibula. Nightcrawler guia o grupo até a casa, enquanto o navio do seu amigo se distancia. Tudo em um perfeito silêncio.
A casa, feita de madeira pintada de bege, com vigas já um tanto enfraquecidas sustentando o teto cheio de folhas, não possui aspecto chamativo. Tanto que as janelas estão fechadas por algo irreconhecível e manchadas por fora. Com cuidado, eles entram naquele lugar. Dentro dali, encontram um local escuro, onde há pelo menos dois cômodos.
— O acesso está por aqui. Alguém faça luz pra eu procurar. — Disse Nightcrawler, sem conseguir ver o que tem ali dentro.
— Utevo Gran Lux — Pronuncia Alayen, iluminando toda a casa.
O mascarado sente um breve arrependimento.
No cômodo correspondente a sala, há um grande corpo de uma aranha gigante. Ela não exala cheiro, mas também não parece ter sido morta há pouco tempo. Ela possui olhos vivos, mas seu corpo não demonstra vida. O chão tem vários corpos decompostos de aranhas e as janelas estão cobertas por seu sangue já escurecido pelo tempo, bem como as paredes. Sua presença assusta todo o grupo, que fica hesitante de dar algum passo.
— Necromancia. — Disse Aika, um pouco sombria — Quem fez isso sabia bem o que estava fazendo.
— Sim. Caso tenha notado, a aranha é o acesso a Fibula. Não há como entrar nessa ilha, mas esse é o único modo de sair. — Disse Nightcrawler.
— E o que temos que fazer? — Questiona Trevor, intrigado.
— Nada demais.
Nightcrawler se ajoelha em frente ao rosto da aranha. Ele pega uma faca dentro de seu sobretudo e, com ela, faz um corte numa de suas presas. Isso deixa o resto do grupo curioso, afinal, a próxima parte é puro mistério.
O detetive retira sua máscara e coloca uma mão abaixo da presa cortada, enchendo-a de veneno. Depois, leva-o a boca, assustando mais uma vez seus companheiros.
— Imbecil! O que você tá fazendo? — Grita Alayen, irritado.
Mas antes que os outros pudessem protestar, eles já estão em Fibula, ao norte.
— Nos tirando daquele cubículo. Exana Pox. — Disse o detetive, indiferente.
Ele coloca sua máscara de volta e se levanta. Não demonstra sinais de que o veneno agia em seu corpo. Ou melhor: O veneno realmente parecia não ser nada para ele.
— Ok, se alguém gritar agora, eu mato. Precisamos sair de Fibula com cuidado, evitando patrulhas ou qualquer outra coisa. A ilha pode estar sendo vigiada.
Mais seguros, o grupo decide acatar o que o homem disse. Talvez não houvesse problemas para ele beber aquele veneno. Entretanto, naquele momento, a máscara está sendo conveniente para Nightcrawler, que está com uma expressão de dor e com lágrimas saindo dos olhos. A magia não foi o suficiente.
Eles seguem ao sul pela estrada de terra, alheios às árvores sombrias nos arredores. Ao longe, veem o grande vilarejo de Fibula, parte das vastas terras thaianas. Conforme se aproximam, notam a ausência de luzes, sendo vistas apenas de alguns guardas, que portam tochas. Os muros do vilarejo foram reforçados nos últimos dias, e há guardas em cima deles também, além do portão estar fechado. Entrar lá será impossível.
Ao longe, conforme descem a pequena colina do norte, notam a Universidade de Fibula. O local é um edifício grande, porém, simples, com um teto triangular e portando uma estátua de mármore no topo, representando Banor, o primeiro humano, significado de conhecimento para a humanidade. A construção é feita de muitos tijolos marrons e possui colunas de ferro visíveis ao longe. É uma estrutura forte. Por fim, seu campus, que pega parte do vilarejo e parte do sul, traz lembranças.
Dartaul e Nightcrawler estudaram ali. Sentem-se nostálgicos, mas não sentem arrependimento por terem se metido naquela situação. Afinal, eles estudaram e se formaram para estar naquela situação.
Eles conseguem passar despercebidos pelos guardas e seguem pelo caminho comum até o buraco ao leste. Deram a volta nas árvores, pois, aparentemente, havia guardas dentro dela para surpreendê-los. Há luzes fracas ali e elas são o suficiente para fazer seus capacetes reluzirem no meio da noite.
Um a um, o grupo desce o buraco e vai embora da ilha. Os investigadores não se sentiam confortáveis em continuar ali.
~*~
A saída sudeste de Thais está sendo vigiada. Para tirar os guardas dali, Alayen faz uma pequena explosão ocorrer no porto, mas com um barulho forte o suficiente para chamar a atenção dos homens. Eles correm até lá e deixam apenas quatro guardas pra trás. Esses são nocauteados por Trevor. Após isso, todos eles correm para a área residencial da cidade, sem olhar pra trás.
O local, que fica no sul da cidade, é iluminado por vários postes. Naquela hora da madrugada, ninguém mais decide andar por ali.
— E então, o que faremos? — Questiona Alayen, de braços cruzados, porém, atento.
— Agora é hora de sumirmos das ruas. Minha casa não fica longe, podemos ficar por lá. — Disse Trevor, mais atento ainda, olhando pros lados.
— Na sua casa? Sinceramente, isso não parece nem um pouco seguro.
— Ninguém está mais vigiando minha casa por ordens minhas. Há quatro quartos lá, vocês podem escolher entre três.
— Uma casa com quatro quartos é um belo de um privilégio, Trevor. — Disse Nightcrawler, brincalhão — O que você fez para consegui-la? Arrombou a porta dela e botou os riquinhos que moravam nela pra rua ou os matou e queimou os corpos?
— Não. Era o puteiro onde a sua mãe trabalhava, tomei para mim e mandei todas as mulheres e os donos pra fora. Sua mãe deve estar trabalhando pros venorianos agora. — Disse Trevor, com um meio sorriso.
— Heh, mas que filho da puta. — Disse o detetive, rindo baixo. — Leve-nos pro seu puteiro então, cafetão.
Trevor riu e tomou o caminho para a sua casa, seguido dos restantes. Dartaul e Aika estão logo atrás deles, e não parecem estar a vontade o suficiente para se meter nas gracinhas deles. Ao invés disso, Aika está usando seus olhos especiais para tentar ver perturbações nos arredores, mas tudo está tranquilo. Até demais.
A casa de Trevor realmente não era longe, entretanto, está um tanto perto da saída leste de Thais, o que talvez signifique perigo. Como imaginado, sua casa não está sendo vigiada, então Trevor consegue achar uma chave oculta debaixo da janela à direita da casa para abri-la. O grupo entra rápido e o guarda fecha a porta. Alayen ilumina o lugar e ajuda a cobrir as janelas com panos simples.
Trevor acende duas lamparinas, uma dentro da cozinha e outra na sala. A cozinha está dentro de um cômodo pequeno que, ao invés de ser cercado por paredes, é cercado por dois balcões, por onde ele pode colocar os pratos que prepara, como num restaurante. Entretanto, vendo do ponto de vista da entrada do local, há balcões à esquerda, e paredes cinzentas à direita. A sala possui dois sofás verdes, cada um de um lado, e uma mesinha de madeira em cima de um tapete verde. A casa possui dois quartos no andar térreo e um banheiro, e outros dois acima.
— É uma bela casa, Sr. Trevor. Mostrando o que tem pra oferecer, realmente. — Disse Nightcrawler, de braços cruzados.
— É, foi me dado quando virei tenente. Alguns outros moravam aqui, mas foram deixando a casa conforme iam sendo promovidos.
Trevor vai até a cozinha e começa a organizar as coisas dali.
— Está tarde pra comer, mas farei alguma coisinha pra quem quiser. Podem ir pegar seus quartos. O do final do corredor de cima é o meu.
— Calma aí, guardinha. Tem três quartos pra nós, e somos quatro sem contar você. — Disse Alayen, com as mãos na cintura e um olhar inquisitivo.
— É só uma dupla dormir no mesmo quarto. Pode ser no meu, que tem uma cama de casal. — Disse Trevor, olhando para todos reunidos em frente a cozinha. Ele, então, põe o olho no casal logo atrás. — Já tem uma dupla logo atrás de vocês.
Os olhares se voltam para Dartaul e Aika. A garota fica envergonhada com a situação.
— Hah. Sério? Tem certeza de que é bom deixar os dois no mesmo quarto?
— Algo me diz que eles precisam de um tempo maior. — Disse Trevor, com um sorriso de canto.
— Ah, caguei. Vou pro meu quarto.
— É... Acho que vou pro meu também. Preciso preparar meu santuário particular antes que alguém venha perturbar meu espírito. — Disse Nightcrawler, seguindo Alayen.
— Não sabia que você era dessas, tio.
— Estou sendo irônico, animal.
O detetive sobe as escadas e Alayen vai pro primeiro quarto do corredor. Um silêncio curto se estabelece.
— Pode ir, vocês dois. Eu me viro aqui.
— Eu te ajudo. — Disse Dartaul, sério como de costume.
— Posso ajudar também... — Balbucia Aika, ainda envergonhada com a situação que foi colocada.
— Não, Aika. Melhor ir pro quarto, você deve estar cansada de tudo isso. Na verdade, você anda cansada desde que voltou.
— Não exatamente, mas... Tudo bem.
Aika dirige-se até a escada e sobe-a devagar. Trevor volta as suas tarefas ali e Dartaul ajuda como pode. No fim, eles fizeram alguns pedaços de carne de galinha e pães com presunto dentro, e pegaram café para ambos. Há uma mesa com cadeiras no lado esquerdo da cozinha, onde se sentam.
Dartaul não deixa de ter suas dúvidas em sua mente, enquanto Trevor parece estranhamente tranquilo.
— Ei, Trevor. Não é totalmente arriscado pra você nos deixar aqui?
— Bem... Sim. — Disse Trevor, com uma voz baixa — Mas veja só. Estamos no olho do tornado. Ninguém pensará em procurar o que perdeu dentro do tornado, mas sim fora. É o senso comum.
Trevor toma um gole de café e reflete um pouco.
— Na cabeça dos inimigos, estamos bem longe de Thais e das cidades aliadas. Estamos bem escondidos, tentando não se manter expostos o tempo todo. Ainda assim, eles não baixaram a guarda totalmente. A prova é a vigia que encontramos em Fibula e aqui no sul da capital. Essa tática do tornado é bem conhecida, então talvez algum aliado do Harkath esteja pensando assim. Talvez o Harsky. Ele é bem inteligente.
— Pensei que todos os cães do rei eram imbecis.
— Não todos. Mas olha só, Dartaul. Tenho certeza que, quando terminarmos essa palhaçada toda, você receberá seu cargo de volta. Talvez será até promovido. Eu mesmo posso te recomendar para o cargo de investigador de primeira classe.
— Por que tudo isso?
— Pois você evoluiu bastante nessa missão. Está mais sério e focado. Sua mente está afiada e preparada. Eu diria que foi pouco tempo para isso acontecer, mas você deve ter seus segredos a respeito disso.
— Eu me forcei a ser. Só isso.
— Borges teve alguma contribuição com isso, não é?
Um flash tenta destruir as estruturas da mente já frágil de Dartaul. Ele relembra os últimos momentos de Borges. E o terror que passou nos esgotos de Yalahar.
— Talvez. — Disse Dartaul, voltando a comer em silêncio.
Passam-se pelo menos dez minutos com eles comendo em silêncio. Ao terminar, Trevor recolhe os pratos e copos e leva-os a cozinha. Alguém desce as escadas enquanto isso, e aparece logo ao lado de Trevor, assustando-o.
— Seu retardado. Pare de fazer isso.
— Não resisto. — Disse Nightcrawler, ainda usando sua máscara. Está sem seu chapéu e seu sobretudo, estando apenas com um casaco e calças negras, além de sapatos marrons.
— Bem, eu estou indo pro meu quarto. Recomendo irem dormir logo.
— Boa noite, Trevor. — Disse Dartaul, com um pequeno sorriso.
Trevor segue em silêncio, enquanto Dartaul volta a pensar consigo mesmo. Num instante, o detetive surge ao seu lado e senta na cadeira onde Trevor estava. Em seguida, coloca seus braços sobre a mesa, com olhos fixos no investigador.
— Você é sempre muito caladinho, mas ultimamente você anda bastante calado. Qual é a sua?
— Você sempre me ignora, mas ultimamente tem dado um foco esquisito em mim. Está planejando me violar?
O detetive não deixa de rir.
— Eu não. Mas sei que você planeja fazer isso com a mocinha ali em cima.
Dartaul permanece indiferente.
— Por falar nela, ainda não acha suspeito a forma de como ela apareceu para nós? Matei Adumo e ela apareceu do lado do buraco. É como se aquela que estava conosco nunca tivesse sido real.
— É, mas não me importo. Ela está aqui, é o que importa.
— Ela estar aqui não significa muito pra mim. Mas se você gosta dela, tudo bem.
— Então por que ainda duvida dela? Ainda quer jogá-la numa cela?
— Não posso negar esse desejo. — Disse Nightcrawler, colocando sua cabeça sobre uma das mãos. Ele finalmente consegue fazer Dartaul fitá-lo, mesmo com ódio nos olhos. — Olhe. Sua garota foi usada pela Irmandade para nos espionar. A irmã gêmea dela a usou. Ela tentou me matar por ter matado ela, e eu entendo, foi um ato precipitado. Mas ainda agora, nem mesmo eu acredito que o que eu fiz com Miraya foi o suficiente. Aika não tem mais uma energia suspeita, mas o fato dela ter retornado como era antes, com as mesmas memórias, os mesmos sentimentos... Acho que nenhum perito em espíritos ou coisa do tipo saberia explicar o que aconteceu.
— É, mas ela está aqui. Não sinto nada através dela ou dentro dela.
— Nem Varmuda.
Dartaul esboça uma rápida surpresa através dos seus olhos, mas desfaz totalmente essa expressão. Nightcrawler tira a mão da cabeça, intrigado.
— Você sabia disso, não é? Que quem sente energias desconhecidas nos outros é Varmuda. E se você sente, significa que tem uma conexão com ela.
— Não. Eu não sabia.
— Ué. Acha que eu acreditarei que toda a sua mudança súbita de personalidade e até mesmo aquela coisa que você fez na cabine do Harlow foi pura coincidência? Acha que eu não sei que você tem algo aí contigo?
— Estou agindo por minha conta, mascarado. Fique na sua.
O clima muda subitamente. As luzes quase se apagam quando Nightcrawler surge ao seu lado de repente, com o poder etéreo e alaranjado cobrindo sua mão esquerda, cuja está sobre a mesa que os separava. Ele olha com ódio para o rapaz sentado.
— Não, não está. — Vocifera Nightcrawler, irritado. — Você firmou algo com Varmuda e não quer me dizer o que é. Eu vou arrancar essa informação de você agora.
Dartaul permanece indiferente. Nem mesmo olha em seus olhos.
— É, faça isso, amigo do demônio. Assim, você destruirá todos os nossos esforços de passar despercebidos pelos thaianos e de nos reorganizar para ir contra a Irmandade novamente. Destrua tudo isso tentando tirar informações de mim, seu covarde de merda. Aja como o detetive escroto que você é, mais uma vez.
Nightcrawler parece ter sido pego de surpresa, mas não desfaz sua postura.
— Tudo bem, garoto. Mas lembre-se de uma coisa: O poder dessa vadia é uma maldição, e não um privilégio. É carregado de tudo que há de pior nesse mundo e em qualquer outro. É o poder de um demônio. Não ache que será capaz de passar por tudo porque tem uma fração desse poder no seu sangue. Pois, quando você menos esperar, ele irá te consumir, e você não será mais capaz de se reconhecer.
O poder cessa e as luzes voltam ao normal. O detetive vai embora dali, subindo as escadas com pressa. Dartaul fica no mesmo lugar, ainda refletindo sobre algum assunto aleatório.
Muito bem, muito bem. Tire-o do nosso caminho, por enquanto. Ainda temos coisas a discutir, Dartaul Aurecino.
O rosto de Dartaul se fecha mais ainda. Ele compreende que tem uma maldição o atormentando.
Próximo: Capítulo 29 – Desejo
Capítulo 29 - Junketsu II
Citação:
Postado originalmente por
Edge Fencer
E aí!
Cara, que capítulo complexo. Não me surpreendo por você ter tido dificuldade em escrevê-lo, pq foi tenso do começo ao fim. Mas gostei do resultado, pode se orgulhar do que escreveu aqui!
Mais uma vez o foco esteve sobre o Dartaul, e agora deu pra entender melhor a razão da mudança de comportamento dele. Muito complicada essa história da Varmuda, Aika e ainda essa mulher dos delírios dele. Você narrou isso muito bem, conseguindo passar pro leitor o sentimento de confusão e agonia que o rapaz sentia a todo momento.
Sobre a cena da relação dele com Aika, ficou muito bem escrito, de vdd. Talvez esse tipo de coisa seja a maior barreira pra muitos escritores (amadores ou não), porque é difícil conseguir captar tudo que você pretende demonstrar em apenas algumas linhas. Acabou me lembrando um pouco (de novo e.e) o George R. R. Martin, que usa muito bem as cenas de sexo para enriquecer a trama e desenvolver seus personagens. Considere isso um grande elogio, pq sou fã da escrita do véio :D
Isso aí, Carlos. Tá interessante demais a história, e tô bastante curioso pra descobrir quem é esse membro misterioso da irmandade e o que raios tá acontecendo com o Nightcrawler. Aguardo pelo próximo capítulo.
Abraço!
Diga aí Edge, obrigado pelo comentário que está sempre salvando o tópico e pelos grandes elogios.
Realmente, o capítulo foi bem arrastado pra escrever e talvez pra ler. Foi difícil fazer esse capítulo focando na narração, ainda mais pra fazer essa cena de sexo, considerando que eu nunca tive essa experiência... :okay: mentira, na verdade minha primeiríssima não passou nem perto disso aí, quis dizer que nunca descabacei ninguém
A confusão entre Dartaul e essas duas serviu para adequar melhor ao leitor a mente do jovem investigador, assim como a cena principal. Fico feliz que eu não tenha feito merda, ainda mais em ser comparado com Martin. Agora que entendo um pouco mais a obra dele, percebo que estou me tornando um escritor próximo dele, alguém que provavelmente não sente nada em tirar personagens da jogada ou fazê-los sofrer. Até Trevor já passou sufoco no passado, quero retratar isso aqui em breve.
O capítulo vai responder suas dúvidas finais, mas... Vai trazer mais dúvidas ainda. Pois é o que eu gosto de fazer. :biggrin:
Yo galero, foi meio difícil ganhar a disposição pra escrever esse capítulo, mas terminei ele em dois dias. Espero que esteja do agrado. Apontem erros se encontrarem, como de costume. Minha revisão não é lá tão eficiente.
Espero que gostem!
No capítulo anterior:
Dartaul está sendo assombrado por Varmuda e por uma mulher misteriosa que habita o vácuo. Aika tenta aliviar sua agonia dando-lhe a sua virgindade, mas parece que isso atraiu problemas, como o responsável pela Irmandade.
Capítulo 29 – Junketsu
Parte 2
Dartaul encara aquela mulher no meio do vazio sem entender como foi parar ali. Ela podia realmente ser a responsável pela Irmandade? O investigador não duvida muito, considerando a situação em que está. Ele também nota seu poder e sua presença forte e diferente de qualquer outra.
A mulher parece fitá-lo. O rapaz percebe que sua voz voltou e agora pode tirar suas dúvidas.
— Você! Você é quem comanda os Sangues? Me diga agora!
Ela não responde. Dartaul começa a se irritar.
— Me diga! Você não é normal. Esse vazio ao redor de mim não é normal. Todo esse escuro ao redor de mim, meu corpo inerte, é tudo coisa sua! Diga, você é Sarutevo?
Dessa vez, a mulher coloca o indicador esquerdo no queixo, como se estivesse em dúvida.
— Sarutevo não era quem estávamos caçando?
O peito de Dartaul dói.
O rapaz agora é invadido por múltiplos pensamentos. Ele conhece aquela voz, aquele jeito, provavelmente sabe quem está na sua frente. Mas como? Como ela está ali, como ela tem todo esse poder? Isso pode ser possível?
— Não está me reconhecendo, Dartaul? É... Acho que estou muito brilhante ainda. Vou tentar melhorar.
Ela coloca seus braços a frente de seu busto e encolhe mais seu corpo, fazendo a luz diminuir. É possível ver melhor seus traços e curvas, bem como seu rosto. E mesmo ainda muito brilhante, Dartaul consegue reconhecê-lo.
Zoe Nubila está na sua frente.
— Impossível.
— Impossível era a chance de você me escutar, e veja só, você não me escutou!
— Porra... O que você quer dizer? Eu juro que não estou entendendo mais nada.
— Eu sei. Mas antes de tudo, preciso explicar o erro que você cometeu ao ficar junto de Aika. E de ter tirado o junketsu dela.
Dartaul não responde. Zoe é a última pessoa que ele pensaria que ficaria contra Aika.
— Junketsu é um selo poderoso de rastreamento. Foi colocado nela usando a virgindade dela como base. Isso foi feito por Miraya, num processo que durou dois anos. Em suma, desde que ela deixou Svargrond. Foi uma precaução da irmã dela para que ela pudesse chegar até Aika caso ela estivesse em perigo, e acabou sendo usado pela Irmandade como ponto de viagem. Foi assim que eles chegaram até nós em Yalahar. E agora, você quebrou o selo, e todos os membros da Irmandade sabem onde vocês estão.
O rapaz engole em seco.
— Eu ouvi Varmuda, a demônio asquerosa que deu poderes a Nightcrawler e planeja fazer o mesmo com você. Ela disse que eu poderia ser o cérebro por trás da Irmandade pois a energia deles inteira está virada para cá e se misturando com outras, como a minha. Mas, pra falar a verdade, ninguém sabe o verdadeiro cérebro por trás deles. Entretanto, não é humano.
— Então logo todos eles virão pra cá... Por causa do que eu fiz?
— Não, Dartaul. Apenas poucos virão, pois eles tem medo de sacrificar contingente importante no mesmo lugar onde Nightcrawler está.
— De qualquer maneira, a culpa é minha.
Zoe parece fazer uma expressão de pena.
— Não, não é. Você não sabia. Nenhum de nós sabia. Mas agora não é hora de chorar pelo leite derramado, vocês precisam combater o que está por vir. Além de mim, há duas figuras. Derrube-as.
— Espera... E você? O que aconteceu com você?
— Simplesmente diga a eles que eu me tornei parte do vazio do universo.
Toda a escuridão ao redor de Dartaul desapareceu. Ele está de volta ao quarto dele, em sua cama, de onde ele se levanta abruptamente. Ao pousar os olhos no chão, ouve um barulho.
Um machado levemente familiar. Tão familiar como a cena onde Zoe aparentemente havia morrido no Arsenal de Ratos.
Dartaul dispara para o quarto de Nightcrawler e bate na porta, inutilmente. Avança para as escadas, mas percebe uma quantidade ridícula de sangue no chão do andar abaixo.
— Não pode ser.
Temer o pior já é totalmente possível. Ele volta para o seu quarto, onde vê Aika acordada e confusa. Ele não está pensando muito bem e está mais confuso ainda, e vai direto até ela, assustando-a.
— O q-que foi?
— Aika. O que sua irmã fez contigo nos últimos dois anos?
A garota arregala seus olhos e cria uma crescente expressão de horror. Como se tudo que ela esqueceu um dia estivesse voltando tudo de uma vez. Dartaul nota que nada bom foi feito.
— Não... Eu não quero lembrar daquelas coisas de novo. Aquelas coisas odiosas... E vergonhosas... Não... — Disse Aika, colocando suas mãos na cabeça.
— Calma, tá tudo bem, não fique assim. — Disse Dartaul, trazendo a cabeça dela até seu peito — Sei que foi horrível, mas algo estranho está acontecendo agora. A Irmandade está atrás de nós.
Dartaul sente uma presença atrás dele. Mas ao virar para trás, não vê nada. Subitamente, essa mesma presença parece se dividir e se espalhar por vários lugares ao redor da casa onde estão. Ele ouve múltiplos passos lentos, escuta barulhos de líquido sendo derramado ou simplesmente se mexendo fora da casa e um cheiro insuportável de sangue.
Mais uma vez, o rapaz vai até a janela, mas não vê nada. Olha para o céu, mas não vê nada incomum. Não está preso em uma dimensão como antes. Ao voltar a olhar para o quarto, continua sem ver nada incomum, nem sombras grandes, fantasmas, nada. Aquilo está torturando-o. Ele não vê nada, mas sente que tudo está atrás dele. É como se ele sentisse que a qualquer momento uma faca atravessará suas costas.
Aika fita-o confusa. Também não consegue entender, mas sente como se eles fossem os únicos vivos dentro daquela casa. Assim como Dartaul.
— Varmuda. — Pensa Dartaul. Falar dentro da sua mente pode talvez chamar a atenção da demônio.
— Ora. Achei que não precisasse de mim. Agora está até me chamando. Huhu...
— Onde estão os outros dentro dessa casa?
— Você me desculpe, mas eu não sinto a presença de nenhum deles. Nem de Nightcrawler.
Dartaul engole em seco. Seus olhos estão bem abertos e fixos na porta, e seu corpo involuntariamente se move até próximo da porta.
— Bom, não sei o que está acontecendo. Mas vou te dar a chance única de reverter essa situação. Você vai lutar contra o que estiver por aí, salvar a si mesmo e Aika. Eu perdi minha rainha, e agora você é o meu rei no meio de um tabuleiro onde minhas peças já foram perdidas. Estou quebrando as regras, Dartaul. Estou pra te dar o poder da rainha.
— O que quer dizer?
— É só se lembrar daqueles olhos, Dartaul. Aqueles olhos sombrios de Suzio.
Dartaul lembra-se das inúmeras vezes em que fitou os olhos sombrios e mortos de Suzio. Ele não sabe o que fez aquele homem se tornar alguém assim, mas não quer o mesmo. Por mais que não estivesse num caminho tão distante do detetive.
— Não. Eu não quero!
— Você não tem querer, moleque. Precisa parar a Irmandade, agora que ela parece ter descoberto vocês. Aquela coisa divina está por aí, e eu te darei todo o meu poder se for preciso pra parar ela.
— Aquela coisa divina é Zoe! Ela não é nossa inimiga!
Varmuda aquieta-se por um instante.
— Ok... Não estou entendendo mais nada. Mas vamos, te darei o que precisa. Só precisa me aceitar, Dartaul. Aceite meu poder.
— Prefiro morrer.
No instante em que ele diz isso, o mesmo fantasma de antes surge no canto direito do seu quarto. Ele sorri alegremente para ele com um rosto totalmente distorcido, de olhos e boca desproporcionais e negros. O mesmo fantasma se multiplica em vários em menos de um segundo.
Dartaul finalmente entende quem está segurando a Irmandade.
— Vamos, filho da puta. Basta apenas dizer para que eu te dê poder, e eu te darei. Pense na garota do seu lado. Eu sei que você ama ela. Não entendo sentimentos mundanos, mas sei que ela é importante para você, não é? Prefere que ela morra também? Pois é o que vai acontecer se você não me aceitar.
O rapaz recua até a janela vendo os fantasmas e Aika está tentando segurar o grito, também recuando. A sensação de estar no mesmo quarto que aquelas assombrações é parecida com a de estar com uma faca colocada no pescoço. Como se a própria morte estivesse sussurrando coisas em seu ouvido.
— Demônia desgraçada. Essa é a situação perfeita pra você se apoderar de quem você quer, não é? Você colocou Suzio na mesma situação, estou enganado?
— Suzio se colocou nessa situação antes que percebesse. E você também.
Ele se irrita mais, fechando as mãos e cerrando os olhos. Sabe que a culpa é dele, mas não consegue aceitar o fato de se tornar um morto-vivo assombrado por um demônio. Mesmo que fosse por Aika.
E agora, os fantasmas se juntam. Eles estão dando forma para alguma coisa. Algo escuro, coberto por névoa. Não sabe o que é, não sabe o que está acontecendo, mas sabe o que tem que fazer. É uma situação horrível.
Um machado surge nas mãos daquela coisa e ela toma a forma de um membro da Irmandade, com uma coroa de prata com asas na cabeça. Ele avança em alta velocidade em direção de Dartaul, mas para por um breve instante pra rebater uma magia de Aika, que pensou mais rápido que o rapaz. No mesmo instante, ele gira o corpo e a arma para tentar acertar o investigador, mas outra magia é lançada por Aika, dessa vez acertando-o e fazendo-o recuar.
Mesmo com a máscara de manequim, é possível perceber que ela, Bryca, está encarando com ódio o investigador. Então, ela encara Aika, e decide avançar até ela.
— É a sua última chance, investigador de araque!
Aika chuta seu rosto e lança uma magia de fogo em resposta. Ela avança novamente e golpeia o tornozelo da garota. Está chegando ao fim.
— Tudo bem! Eu...
— Cala a boca, Dartaul. Não vai aceitar ninguém.
Inesperadamente, a porta é arrombada e Bryca é jogada para a parede da esquerda, próxima de Dartaul. Nightcrawler surge na sua roupagem padrão, com sua máscara de teatro sorridente e uma nenhuma porcentagem do poder de Varmuda acompanhando-o. Sua mão está estendida pra frente, e conforme mais ele se aproxima da membro, mais ela se sente pressionada contra a parede.
— Nightcrawler? — Murmura Aika, com a mão no tornozelo.
Um círculo surge na parede atrás de Bryca, junto de um pentagrama e um hexagrama combinados. Eles possuem coloração laranja, acompanhados de símbolos numa idioma que talvez Aika conhecesse. Todos eles significam a mesma coisa.
— Expurgo... — Murmura mais uma vez Aika, lendo os símbolos na parede. Ao ouvir isso, Dartaul finalmente entende o que está acontecendo.
Palavras da mesma língua são pronunciadas por Nightcrawler para punir a membro. De alguma forma, o homem está conseguindo exorcizá-la.
— Watashi wa anata ga daredearu ka o handan shimasu. Watashi wa anata no kako no jinsei o omoiukabemasu. Anata wa hiretsudearu tame ni! — As únicas palavras que Aika e Dartaul conseguiram compreender foram essas. A maga arregala os olhos ao reconhecer aquilo.
— Isso é... Hanrajiinês*... Como é possível... — Disse a garota, recuando ainda mais para trás da cama. Parece ter mais medo ainda de Nightcrawler.
Conforme as palavras são ditas, Bryca se contorce. Sempre mais e mais. Seu machado cai da sua mão e desaparece, e uma aura de energia cobre pouco a pouco a mulher, eletrocutando-a e dando-a uma experiência cada vez mais dolorosa. O quarto começa a tremer. O rapaz mais uma vez teme o pior.
— Sonogo, iku. Tochu. Kono jinsei wa mohaya anata no monode wa arimasen!
Bryca parece estar chorando enquanto seu corpo treme.
— A culpa não é minha... — Disse ela, uma voz assustadoramente doce e triste — Eu nunca pedi por isso...
— Fakku. — Disse Nightcrawler, abaixando a mão e virando-se, com as mãos no bolso. — Dare mo kinishinai.
Bryca urra. Um espírito com cores semelhantes a água de esgoto sai dela e escorrega pela parede, derramando como líquido, e some. A garota perde todo o uniforme, bem como a roupagem de manequim, e desaba de cara no chão, nua. Seus cabelos loiros e pele branca parecem confundir quem uma vez pensara que ela era algo pior do que o diabo.
O homem fita Dartaul próximo da cama, e Aika, cuja perna sangra e mancha o lençol da cama de Trevor. Ele respira fundo.
— Vá olhar a porra do machucado da sua garota, Dartaul. Já está terminado.
Ele parece despertar de um devaneio. Corre para olhar o machucado da garota, e pede para que ela tire a mão para olhá-lo. Felizmente, não é profundo.
— Você pode se curar, não? E sua mana?
— N-Não sei. Acho que não consigo usar ela.
— Por causa do meu ritual. Perdão, Aika, mas vai precisar usar bandagens como uma boa pessoa normal sem poderes mágicos.
Pessoas surgem na porta. São Trevor e Alayen, e ambos estão bem, sem machucados.
— Crawler? O que aconteceu aqui? — Disse Trevor, confuso.
— Membros da Irmandade. Não sei como nos encontraram, mas dei um jeito em um deles.
— Tinha outro? — Questiona ele novamente.
— É. A sala estava cheia de sangue, mas parece que ele sumiu, né?
— Sei lá! Eu acordei com um grito vindo daqui.
— Ah, então tudo funcionou nos conformes. O outro membro era Anni’al, irmão de Stanni’al, um dos oito grandes. Bryca também é um deles, mas agora ela foi sentar no colo do capeta.
— Algo me diz que o capeta se deu bem com isso. — Disse Alayen, avaliando as curvas do corpo de Bryca.
Nightcrawler se esforça para que seus olhos voltem ao normal. Ambos estão negros, com pupilas laranjas em forma de losango. Além de sentir uma dor esquisita no corpo todo. Mas, se os olhos dele não voltam ao normal, significa que ainda há uma ameaça grande próxima dele. Grande até demais.
— Q-Que c-comentário indecente, Alayen...
Todos do quarto se assustam. Nightcrawler parece se assustar mais ainda ao perceber que isso veio do corpo no chão, e que ele está vivo.
— E-Ei... Alguém pode me arranjar uma roupa, por favor? Eu não estou em condições de levantar desse jeito...
A voz tímida é impossível de não ser reconhecida. É Zoe quem está falando.
Próximo: Capítulo 29 – Junketsu III
Notas:
*: Eu juntei as palavras japonesas Hanran e Jiin, cujas significam, respectivamente, rebeldes e templos, no plural. Aika quis dizer que Nightcrawler está falando japonês. O motivo da palavra ser assim é que ele surgiu entre os rebeldes de North Zao para se comunicarem entre si, sem ser o chinês, conhecido como idioma dos High Lizards. Ele foi para Chor e virou o idioma dos lizards bandidos e contrários a sua raça, um idioma que incita revolução, cujo Aika aprendeu sem querer e que gerou a ela medo de quem o conhece. Eu fiz isso pois o japonês é um idioma com várias semelhanças com o chinês, além de usar o kanji, algo padrão do chinês. Mas essa parada do idioma ser algo dos lizards rebeldes é uma criação minha, não existe isso no Tibia.
Eu também podia dizer o que Nightcrawler está dizendo, mas não vou, afinal eu não sou um autor de ficar falando tudo que rola no plot. Descubram sozinhos. :fckthat:
E fiquem a vontade para me chamar de otaco tambem por enfiar essas coisas na minha historia.
Capítulo 29 - Junketsu III
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Grande Carlão. O Carlão da Regulagem. Aquele que tem uma jiboia do tamanho de um recém nascido.
Irmão, sua narrativa é só ladeira acima, contrariando as suas próprias expectativas iniciais. Aliás, destaco:
Sensacional, puta que o pariu. Você deve perceber que alguns excertos específicos me empolgam, e sua história tem muito disso. Esse pedaço (peço a permissão de chamar de "pedaço") é de uma riqueza literária, orgulha-me ver o quanto seus capítulos evoluem e o quanto a sua narrativa evolui também.
Peço perdão pela ausência, você deve ter percebido que a história de Jason Walker também não está caminhando na mesma velocidade das demais. Vou seguir teu conselho lá e farei os 5 contos; já existe um engatilhado na minha cabeça pra depois do fim da saga, e escreverei um conto somente, justamente pra não vincular todo mundo ao andamento da série como um todo.
No mais, fico no aguardo do próximo capítulo. Parabéns, mais uma vez. Só vejo você caminhando pra frente.
Um abraço!
Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos muitos elogios. É sempre ótimo ler elogios seus, sinto-me cada vez mais determinado a continuar escrevendo e confio mais no que estou escrevendo.
Não sei se você reparou, mas desde que sua história apareceu na sua seção e desde que comecei a ler ela, eu comecei a tentar melhorar minha escrita. Eu não sou nenhum outcaster de literatura, você se impressionaria em saber que não leio muitos livros, mas ainda assim, minhas melhoras partiram de mim mesmo e da ajuda das pessoas da seção. É por isso que eu aprecio todos os comentários que me ajudam e que dão críticas construtivas.
E cara, você escreve bem pra caralho, acho que muitos dos antigos principais da seção, de anós atrás, elogiam a sua escrita e te comparam a escritores brasileiros incríveis. Já te chamaram de Paulo Coelho da seção de Roleplaying, parceiro. E vendo isso, é impossível eu me comparar a você, não tenho a mesma habilidade e talvez eu nunca tenha. Mas isso não significa que pararei de escrever um dia. Estou sempre buscando evoluir e chegar no nível de escritores consagrados. Eu ficaria feliz pra um caralho se aparecesse numa crítica na internet ou num jornal que minha escrita se compara a, sei lá, J.K. Rowling. Que minha criatividade se equipara ao meu mestre, J.R.R. Tolkien. É meu sonho. E Bloodtrip é parte dessa minha jornada, uma vez que ela mudou totalmente meu modo de escrever e criar.
No mais, Neal, faça os outros dois contos restantes e não deixe essa seção por nada. Juntos podemos inspirar mais escritores e alimentar mais a literatura brasileira, mesmo que por simples fanfics. O começo de grandes criadores sempre vem de coisas pequenas.
ta comparando minha jiboia àquele recém-nascido que veio bem dotado? pois é verdade
Citação:
Postado originalmente por
Skirt Underdome
Hum, tivemos fan service nos últimos capítulos :lenny:
Dartaul afogou o ganso, molhou o biscoito:lenny:
Charles, suas tretas continuam imbatíveis. Eu sei que vc vai negar até o Juízo Final que são tretas ninjas e naruteiras, mas independentemente disso elas são a cereja do bolo de sua fic. Muito boas. Não se consegue enxergar o que vai acontecer a seguir em cada combate. Continue assim.
Sobre as revelações finais a respeito da Irmandade eu tenho uma teoria mas não vou revelar para que o suspense continue alto.
Então siga em frente, comboio sem freio. E brinde-nos com mais tretas naruteiras e ninjas porque são muito boas:lenny:
Opa Skirt, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Cara, eu não faço fanservice, juro pra você :lol: tudo aqui é parte do que eu desenvolvi pra essa história. Então, se tem uma cena de sexo na história, acredite, é pela história. Dartaul é um jovem de sorte mesmo btw
E eu continuo negando que há algo naruteiro aqui, não temos mechas de chakra nem nego soltando cobras pela boca, então deixa disso :fckthat:
A teoria pode acabar deixando o suspense ainda mais alto, então, se quiser, pode soltá-la. Adoro essas coisas.
Citação:
Postado originalmente por
Senhor das Botas
Não dá, tenho que comentar; se o mestre já deu seu perecer, devo prosseguir.
Primeiramente, minhas desculpas por não comentar. Nem sei mais o porquê de logar no forum, acho que se eu fosse um mero visitante não iria fazer muita diferença :aeho:
Btw, antes de falar dos capítulos recentes, gostaria de falar da organização estrutural da sua história. Sério, nunca antes eu invejei de tal forma o quão bem preparada a sua história foi. Cada capítulo trazendo esclarecimentos, novas dúvidas, novos ganchos, e assim vai; em momento sequer, ao final da leitura de um capítulo seu, eu parei e pensei "capítulo filler esse". Sério, se o Kishimoto tivesse lhe colocado pra dar uma ajudinha no roteiro do mangá, coisas teriam saido mais suaves ( e loucas. Guerra Ninja não seria nada perto de você)
Quantos aos capítulos recentes... Caceti! Tive que refazer umas leituras pra pegar a imagem da coisa, e acho que vou reler os capítulos anteriores pra já ter uma ideia de desde quando Vermuda vem falando Dartaul. No mais, piadas à parte, o Dartaul é tão virjão que até uma virgem tinha mais experiência que ele :aliens:
E ao menos, obtivemos informações do que realmente aconteceu em Yalahar, com o retorno de Zoe... QUE TROUXE MAIS DÚVIDAS!
Enfim, no aguardo dos próximos capítulos. Você me motiva pra caralh* a voltar a escrever Carlão, e acho que vou começar a deixar a rotina mecânica de estudo/jogo :fckthat:
PS: Mas o age ainda tá aberto. Deu sdds
Meu amigo Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios. E poxa, logue ao menos pra comentar aqui, pô. Já disse que adoro comentários.
Cara, agradeço mesmo em saber que a história não está confusa. Eu tinha esse medo e acabei fazendo diversas mudanças na história pra que ela não fique estranha nem complicada demais. E sinceramente, se dependesse de mim, nem Guerra Ninja aconteceria. Ela teria outro nome: Reunião dos Cinco Kages. Dali, a história estaria dando seus passos pro final. Eu mudaria tanta coisa que Naruto ia ficar bem menor.
E rapaz, você comentou sobre Varmuda na cabeça do rapaz, e eu achei por um instante que esqueci de mencionar quando ela começou a falar com ele, mas já lembrei onde fiz isso. Capítulo 21, parte 3. Dartaul acorda novamente falando que Varmuda esclareceu tudo sobre Nightcrawler. Caso não tenha entendido direito, já expliquei aí. Agradeça-me, não costumo fazer isso. :soclose:
E volte a escrever, Botas. A seção não é a mesma sem você.
E não feche esse Age nunca. Não deixe o melhor RTS de todos morrer.
Yo galero, venho fazer a história caminhar mais com um capítulo que farão vocês começarem a duvidar mais do que eu posso colocar aqui. Também dedico essa parte a minha namorada que disse estar lendo minha história. Acho que logo ela chega nesse capítulo. Eu espero que esteja gostando de tudo da história e que não me mate pelas decisões que tomei até aqui :lol: e não esqueça que eu te amo, fofinha.
No capítulo anterior:
Zoe aborda Dartaul no meio do vazio e diz que ele quebrou um selo importante feito em Aika, e que a Irmandade está vindo. Com isso, dois deles surgem, um prendendo Trevor e Alayen, o outro atacando Dartaul e Aika. Mas Nightcrawler surge nos instantes finais para exorcizar Bryca. Mas, após isso ser feito, o corpo da Sangue é possuído por Zoe.
Capítulo 29 – Junketsu
Parte 3
O quarto parece tão silencioso que dói. Todos olham, ao mesmo tempo, para o corpo de Bryca, onde aparentemente está Zoe. Mas ninguém consegue dizer uma só palavra, tampouco mexer os braços ou pernas. Enquanto isso, Zoe vira a cabeça para a janela, aparentemente, sem jeito.
— Por favor... — Suplica Zoe, tentando esconder a vergonha de estar nua na frente de todos.
— Ah... AH! Porra, vocês tão olhando o quê? Saiam fora, vão! — Disse Alayen, se aproximando de Zoe e dando sua camiseta para ela. Também está sem jeito.
Numa cena cômica, Alayen está levemente corado e de costas para Zoe, que sentou-se de frente para a janela, sem que ninguém veja algo de seu corpo. Ali, ela colocou a camiseta laranja do rapaz, e uma calça azul que Trevor disse estar dentro do guarda-roupa do quarto. Ao sentir-se mais confortável e vestida, ela vira-se, mostrando não ser ela de verdade. Bryca tem olhos azuis, nariz fino, mas lábios carnudos. Possui uma estranha, porém, visível cicatriz começando do lado direito do nariz e indo até acima do olho direito.
Zoe levanta-se. Repara no montante de dúvidas a frente dela. Mas essa era a recepção que ela estava esperando.
— Muito bem, comece quando quiser, garota. — Disse Nightcrawler, com as mãos nos bolsos do sobretudo.
— B-Bem... É meio difícil explicar o que aconteceu comigo, pois nem eu entendi muito bem.
— Como não? Um dia atrás você morre e agora está em outro corpo? Isso seria alguma habilidade sua que você não revelou para nós?
— Não... Acho que, antes de tudo, preciso explicar o que seria a sociedade de onde eu vim.
O detetive apoia-se na parede. Quem sobrou de pé se sentou na cama, como se esperassem uma história interessante. Zoe coça o queixo, encabulada.
— A Sociedade dos Espíritos Claros é uma grande corrente formada nas ilhas geladas, originalmente em Senja. Ela se espalhou para outros locais das ilhas, como em Svargrond. Nós não somos como os xamãs, somos mais dotados de uma influência continental, a cultura de Thais ou Carlin. Temos uma base lá feita de tijolos que parece um pequeno castelo, no alto da montanha que circunda a cidade dos xamãs. Vivemos em paz com eles e cultivamos nossa religião principalmente no subsolo.
“Sempre fomos dedicados à meditação para encontrar o poder de nossas almas, ou para comunicarmo-nos com as almas que ainda desejam ficar neste mundo. Existem muitos de nós que já entraram em contato com um espírito ou com a nossa própria alma, algo bastante excitante, por assim dizer. Experiência própria, eu diria...”
“Mas, bem, nós desenvolvemos habilidades baseadas no poder de nossas almas. Nossos antepassados cultivaram essas habilidades e herdamos elas de berço. Não é algo difícil as desenvolver e usar quando você já é da Sociedade, o problema é se você vier de fora. Tínhamos muitas leis, regras, ordens e raramente ficávamos sem algo para fazer. Sonhar e nos conectar com o deus Nornur é algo básico na nossa rotina. Assim como com Crunor, Bastesh ou até mesmo Banor. Sabemos de muitos segredos desse mundo, por isso somos um grupo seleto e bem reservado.”
“Há muitas formas de desenvolver poderes. É dito que, quanto mais branco você for de pele ou de outra característica, como os cabelos, os olhos, os lábios ou qualquer outra parte do seu corpo, mais você tem poderes de alma. Caso tenha notado, somos conectados com espíritos brilhantes, ou seja, estamos sempre buscando a luz e evitando a escuridão.”
“Eu nasci albina. Meu corpo sempre foi claro. A probabilidade de eu aprender tudo que me ensinassem e que fosse algo da Sociedade era sempre muito alta. E, de fato, eu aprendi inúmeras coisas, além de segredos do mundo e dos deuses. E, por incrível que pareça, eu tinha uma irmã igualmente albina. Erámos os prodígios do grupo, o sinal de prosperidade da nossa Sociedade.”
“Mas eu e minha irmã fugimos, pois a pressão sobre nós era grande demais. Demais! E aquela não foi a primeira vez que tentamos isso. Tínhamos sempre que nos submeter a lições e tarefas difíceis e mal tínhamos amigos. Diziam que não podiam andar com seres poderosos como nós. Queríamos ser consideradas pessoas normais, como os outros membros da Sociedade! Lembro que fizeram minha irmã engravidar com pouco mais de 16 anos. Anos depois, foi minha vez, com 22. Eu peguei minha filha recém-nascida e fugi com minha irmã e a filha dela. Suportamos uma infância e uma adolescência inteira na mão deles, não largaríamos a vida adulta por nada.”
“Eu fugi pra Yalahar, e ela, pra Edron. Tornei-me jornalista. Conheci vocês recentemente. Mas acabei morrendo. Eu não sei como voltei a vida, apenas posso lhes dizer que os espíritos vão para o vácuo, o limbo, antes de irem para o paraíso ou para o inferno. Eu me uni com o vácuo, e me tornei ele próprio. Posso manipulá-lo a vontade, criar luz ou escuridão, enviar coisas para o vácuo ou tirá-las de sua realidade e levá-las para o meu domínio... São muitas coisas. Eu não sei de tudo. Mas sei que meu poder é extremo, como o de um deus. E isso tudo por eu ser albina. Eu me pergunto se o mesmo ocorrerá com minha irmã ou com minha filha, ou com a sobrinha dela. Elas também são albinas e, bem... Tenho medo que elas ganhem essa existência triste que eu tenho.”
Mais uma vez, o cômodo é invadido pelo silêncio. É difícil dizer qualquer coisa frente ao que lhes foi dito. Zoe, uma deusa. Se é difícil acreditar? Talvez. Mas Nightcrawler, aquele que sempre observa, aquele que sempre está alheio a tudo, mostra indiferença a tudo que lhe foi dito, parecendo estar lidando com as paranoias literárias de um escritor de fantasia frustrado.
— Você, Zoe Nubila, é uma deusa? — Questiona ele, trazendo os outros a realidade.
— É... Acho que sim.
Nightcrawler dá uma longa e assustadora gargalhada. Parece desacreditado, ou simplesmente está achando graça. Um detetive cínico e realista jamais acreditaria em um deus se ele aparecesse na sua frente e lhe devolvesse tudo que ele perdeu um dia. Ele é do tipo que cuspiria na cara desse deus se as vidas que ele perdeu fossem trazidas de volta, e os itens que perdeu fossem recuperados por esse ser divino. Ele diria que está dando de volta o cuspe que o deus mandou nele. Que todas aquelas bondades foram como um cuspe daqueles bem carregados diretamente na sua vida e no seu sofrimento. Afinal, tudo que ele passou jamais teria feito sentido.
E agora, ele pensa que terá essa chance. A chance de cuspir na cara de um deus por ele estar tentando trazer de volta o que ele perdeu. Mas um simples olhar em Zoe já prova que ela não é esse tipo de deus, nem que ela pode trazer o que foi perdido de volta. Esse não é o papel dela. Frente a isso, só resta uma coisa para ele dizer.
— Prove.
As pessoas do cômodo ficam tensas. Se Zoe for realmente quem diz, o que ela poderia fazer em seguida?
— Er... Como?
— Não sei. Dá seu jeito.
— Bem... Eu morri e voltei em outro corpo... Isso pode ser alguma coisa, não?
— Não, não pode. Você pode facilmente ser a vadia que acabamos de matar tentando se passar pela pessoa que ela matou.
— Eu pensei na mesma coisa quando entrei no corpo dela... Mas vocês acreditam em mim, não é?
— Eu acredito, Zoe! — Disse Alayen, temendo o que pode vir a seguir naquela discussão e se metendo — Provavelmente você não sabe usar suas habilidades novas, então iremos te ajudar. Pode ser?
— Bem, eu...
— Não. Tenho uma ideia de como você pode provar pra todos nós que você é, de fato, uma deusa.
Zoe tem um mau pressentimento.
— Bom... O que é?
— Me mate.
A mulher se assusta com a proposta, assim como os outros. Trevor chega a dar uma risadinha.
— Boa piada, Crawler. — Disse Trevor, cruzando os braços.
— Vai se fuder, animal. Eu estou falando sério.
— Você só pode ter endoidado de vez ficando naquele quarto, seu retardado! — Vocifera Alayen, levantando-se e colocando-se entre ele e Zoe. — Ela não vai matar ninguém!
— É ela que decide, e não você, moleque. Agora sai da frente.
— Vai ter que me matar pra fazer isso.
— Ok.
Os poderes de Nightcrawler se manifestam, e seu braço é coberto pela aura quase transparente e alaranjada manifestada a partir de seu olho. Ele usa-o para jogar Alayen pra parede do lado direito do quarto, sem precisar tocá-lo. Em questão de segundos, um círculo aprisionador se manifesta na parede, correntes prendem seus braços e pernas e uma lâmina gigante e pontuda surge próxima dele e do detetive, esperando um único soco de Suzio para acertar seu alvo. Todas as coisas invocadas por ele possuem cores laranja e parecem um pouco transparentes. Aika se afasta para a cabeceira da cama, Trevor sai da cama e vai para trás e Dartaul também se afasta. Alayen está assustado, mas também bastante irritado.
— Manda ver, FILHO DA PUTA!
O detetive cobre ambos braços com esse poder, reforça-os, deixando a aura mais grossa, prepara seu soco e manda sem hesitar, sem algum receio, como se fosse algo natural. A lâmina vai em alta velocidade, e iria acertá-lo em menos de um segundo. Todos fecharam os olhos, menos o agressor. E Zoe.
Numa fração de segundos, ele vê. As pupilas de Zoe ganham uma combinação de azul e vermelho, parecendo estrelas num céu distante. Seus olhos estão escuros, e essa combinação de duas cores manifesta-se em suas mãos também. Ela levanta uma delas e parece abrir um feixe de luz em toda a área do corpo de Alayen que ia ser atingida. E então, a lâmina some. Em seguida, o círculo e as correntes. E assim, o feiticeiro cai na cama.
— É o suficiente.
O detetive está de volta ao normal, assim como Zoe. Ela ainda olha assustada para suas mãos e para o homem, que fora tão brutal dessa forma. O restante abre os olhos, vendo que Alayen está bem e que nada foi feito contra ele.
Ainda assim, Dartaul se levanta da cama, vai até o detetive e soca o seu rosto. Sua máscara cai.
— Volte pro quarto onde você estava entocado, seu psicopata. Ninguém precisa mais de você aqui.
Suzio sorri. Mesmo sabendo que Varmuda está mexendo com a mente do rapaz, ele entende que, de certa forma, isso está ajudando-o consideravelmente.
— Só não deixe essa... Deusa fazer alguma merda com vocês.
Suzio pega sua máscara do chão, vira-se e sai do quarto. Ele volta para o seu e fecha a porta. Tudo isso sem fazer barulho algum. É como se fosse uma breve miragem, ou uma imagem se movendo. Isso é normal vindo do detetive, que sempre atrai presenças estranhas.
As atenções caem sobre Dartaul. Zoe olha triste para a situação, pois não esperava que algo assim acontecesse caso voltasse.
— Bem... — Zoe não sabia nem onde colocar o rosto. Sentia ele queimar e uma frustração enorme forrar-lhe o estômago.
Dartaul vira-se e fita-a. Dá um pequeno sorriso de canto, como se entendesse como ela se sente.
— Olhando assim, você ainda parece bem humana, Zoe.
Ela levanta seu rosto e olha para Dartaul. Pouquíssimas foram as vezes em que alguém disse para ela que ela é humana, que ela é uma pessoa como qualquer outra, apesar de suas feições peculiares. Ela sabe que, daquele grupo, Alayen é o único que realmente não estranha ela e que gosta dela como ela é, que enxergava o mesmo em Borges por ele se preocupar com sua filha e com ela mesma, e que agora vê o mesmo em Dartaul.
Seus olhos brilham. Ela sorri e sente-se mais aliviada.
— Queria acreditar nisso — Disse Zoe, levemente cabisbaixa — Mas eu ainda me impressiono muito com o que sou capaz de fazer. No momento, penso que é melhor manter distância de vocês.
— Não! — Disse Alayen, saindo da cama e indo até Zoe — Você é parte desse grupo, por que diabos iria querer deixá-lo?
— Pois eu sou uma presença divina que pode atrair qualquer membro da Irmandade até do outro lado do continente. — Disse ela, triste — Eles possuem forte aptidão em reconhecer coisas divinas... É uma das coisas que aprendi durante minha ausência.
— Pensando bem, isso é uma boa dica sobre o que está por trás deles... — Disse Dartaul, cruzando os braços.
— Por isso irei atrai-los para longe. Veja, essa garota já foi uma garota normal, uma filha de um poderoso guerreiro de Svargrond, que também era muito habilidosa. Ela morreu, pois se tornou uma valquíria carlinídea e os xamãs a amaldiçoaram por isso. Eu irei levá-la de volta para Svargrond e tentar dar a ela sua vida de volta. Ela está morta, mas não significa que eu não possa ressuscitá-la. Afinal, ela morreu há pouco tempo e ainda está no limbo.
— Então por que “tentar”?
— Existe a chance de não dar certo... Ela pode querer não voltar a viver, ou os xamãs não autorizarão seu retorno, nem seu pai. E aí não haverá nada que eu possa fazer. Mesmo assim, isso vai atrair a Irmandade até mim, e eles pensarão que vocês estão me acompanhando. E desistirão daqui.
Dartaul e Alayen parecem pensativos a respeito. Isso pode dar certo, mas os Sangues não parecem tão burros. Ainda assim, é algo bom para se tentar.
— Tente então, Zoe. Ainda vamos precisar pensar no que faramos contra eles. — Disse Dartaul.
Zoe concorda com a cabeça. Ela pensa que Nightcrawler é o melhor para pensar nessas coisas, mas lembra-se que eles não estão a fim de conversar sobre nada relacionado a ele.
— Então eu já vou indo. Usem o restante da noite para descansarem.
— Acho difícil fazer algo assim depois de tudo que aconteceu aqui. — Disse Trevor, que se manteve quieto desde o que Dartaul fez — Mas tentaremos. Boa sorte, Zoe.
— Obrigada. Boa noite pra todos vocês, e lembrem-se que estarei sempre desejando o melhor pra vocês.
Zoe sai pela porta, rumando pelo corredor. Ela desce as escadas rapidamente, sem olhar pra trás. Com isso, parece que o clima mudou relativamente.
— Isso é demais. — Murmura Alayen, perplexo.
O mago espadachim vai até o corredor e desce as escadas. Nenhuma das pessoas do quarto pensa em pará-lo.
— Gritem se precisarem de algo. — Disse Trevor, também saindo do quarto e fechando a porta.
Dartaul respira fundo. Aika também, apesar de ter sido praticamente ignorada o tempo todo.
Zoe está saindo pela porta. Entretanto, Alayen para ela, agarrando seu braço.
— Espere.
A garota vira-se rapidamente. Não é o rosto dela, mas sua expressão é muito parecida com as que a jornalista costuma fazer.
— A-Alayen? O que foi?
— Me deixe ir contigo. Estou cansado de seguir aquele cara.
— Por quê? Você sempre dizia que gostava dele e que queria ser como ele...
— Antes de conhecê-lo de verdade, sim, eu queria. Agora eu sinto que ele é um verdadeiro lixo humano. Não hesitou em tentar me matar ali. Nunca hesitou em arriscar nossas vidas. Ele é maluco, e eu sinto que vou morrer se continuar acompanhando ele.
Ela fica cabisbaixa. Sabe que o que precisa dizer irá deixá-lo irritado e não irá convencê-lo.
— Mas ainda assim é melhor do que me seguir. Os membros da Irmandade não irão atrás de você.
— Foda-se os Sangues, eu quero ir contigo! Não posso deixar você se arriscar sozinha! Mesmo que você seja uma deusa ou sei lá o que mais... Eu não vou deixar você sozinha.
A mulher sorri. Há anos Alayen nunca deixou a moça sozinha, sempre indo atrás de novos furos noticiários para colocá-la na frente dos jornalistas de Yalahar. Algumas vezes isso até a colocou em risco de morte, mas ele sempre aparecia antes para defendê-la, apesar dela ser naturalmente mais poderosa do que ele. Mesmo que ele apanhasse, mesmo que fosse humilhado, ele ajudava ela. E nunca deixou de dizer a frase que ela sonhava em ouvir desde sua adolescência.
— Você ainda é uma humana pra mim. É humanamente impossível passar por todos esses tormentos só.
Ele nunca deixou de dizer que ela é humana. Diferente de outras pessoas, que a comparavam a um monstro ou a um fantasma.
Por causa disso, ela dá dois passos até o rapaz e beija-o. Durou um minuto. Mas pareceu uma eternidade. Uma feliz e confortável eternidade.
— Eu te amo, Alayen. Você sempre fez muito mais do que o suficiente pra mim. Ainda assim, eu estou disposta a sofrer todos os tormentos desse mundo se for pelo bem dos outros. Pois você fez o mesmo por mim quando eu nem abri minha boca para pedir.
Raras eram as ocasiões em que aquele mago ficava sem saber o que fazer. Essa é uma delas.
— Não se preocupe. Eu estarei sempre próxima de você, mesmo que eu não pertença mais a esse mundo.
Zoe dá meia volta e segue pela rua de pedra, sem olhar para trás. Quanto mais ela se distancia, mais doloroso parece o clima daquele lugar. E mais dolorosa é a sensação de impotência que Alayen está sentindo, quando finalmente a ficha cai sobre a inferioridade dele frente ao poder que a ex-jornalista tem agora.
Pela primeira vez em anos, ele entende o que Lea sente. Ela é uma mulher tão importante quanto a sua mãe, e a frustração dela é a dele também. E por isso, um ódio por Nightcrawler começa a nascer dentro dele. É pequeno, mas suficiente para causar problemas.
Próximo: Capítulo 30 – Além do Limite
eu nunca fui tão romantico em historias assim, meu deus do céu
Capítulo 31 - Resmonogatari I
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Carlão,
Não se esqueça da nossa referência, Aveyard. Não a negligencie. Você se enxergará nela, eu garanto.
Em tempo:
Gente matando demônio? Gosto! Essa é uma das melhores abordagens que um thriller pode ter e, ainda que não seja exatamente um conto de terror, é muito envolvente como se suspense fosse, em muitas ocasiões. Desenvolva isso. Pode se tornar uma razoável tábula rasa.
Saudoso, poderoso e imperial Nightcrawler. Estaríamos nós diante de uma faca ancestral, como a que Ruby deu a Sam Winchester em Supernatural?
Todos os personagens de Bloodtrip são deveras insinuantes, Carlos, mas vou deixar meu destaque novamente para Nightcrawler. Gosto também do personagem de Dartaul, que tem lá seus pontos altos e seus pontos baixos. Neste capítulo, especialmente, a forma de abordagem dele e as informações que somente ele poderia passar enriqueceram o enredo de forma bastante elucidativa. Obviamente, quem nasceu pra ser Dartaul nunca será Nightcrawler, mas, né? Existe chão pela frente.
Aguardo pelo próximo capítulo, Carlos. Desculpe pela demora; havia criado dentro de mim o propósito de te incentivar no contínuo ato em que seu capítulo fosse postado, mas, realmente, não houve tempo até agora. Espero não o ter decepcionado.
Um abraço!
Opa Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Não esqueci de Aveyard, como eu tinha dito, tô sem capital pra comprar o livro dela que você me indicou, então terei que usar da internet para ver como ela escreve.
Sinto em dizer que essa parte dos demônios não será tão desenvolvida em Bloodtrip. Eles são bem mais desenvolvidos na minha outra história, O Mundo Perdido, com um personagem que sabe derrotá-los perfeitamente. Aqui, os demônios são nada mais do que anti-heróis observando o que tá rolando e vez ou outra intervindo.
Achei que tinha disfarçado o fato de que essa arma será bem importante pro Dartaul :lol: não vai chegar a ser algo como a faca ancestral ou a Colt de Supernatural, mas vai ter uma utilidade tão grande quanto. Mas a parte do rapaz já acabou por aqui, então terá que esperar pra ver como ela será útil e como ela será usada. E Dartaul talvez ganhe mais do seu respeito futuramente, como apontou. Ele tem potencial grande.
No mais, agradeço pela presença constante e espero que goste deste capítulo!
Fiquei um tempo sem publicar devido a alguns problemas pessoais, mas finalmente darei início ao arco final. Preparem-se e vamos lá!
No capítulo anterior:
Nightcrawler livra-se de sua conexão com Varmuda e abandona o time. Mas antes de ir para Chaur cumprir sua última missão, Dartaul aborda-o para conversar e tentar entender porque ele está agindo daquela maneira. Agora, ele é o único que entende perfeitamente quem é Suzio.
Capítulo 31 – Resmonogatari
Parte 1
Yalahar sempre foi bela. Jamais perdeu sua beleza encantadora e seu poder invejoso.
De lá, apenas os melhores saiam para desbravar o mundo e mostrar seus conhecimentos. Após muito estudo, noites de sono perdidas, certificados e diplomas conseguidos, para um estudioso ou profissional yalahari, é o mesmo que dizer “O mundo é meu”.
Este é o sonho daquele rapaz de quinze anos a frente de um prédio no norte de Yalahar, próximo de uma das universidades da grandiosa cidade. Seu objetivo lá dentro é tornar-se o melhor alquimista que o mundo já viu. E o Centro das Almas de Ferro é o melhor para tal. Supera até mesmo a Academia Noodles de Magia de Edron em seus estudos da alquimia e assuntos relacionados. Um alquimista saído de lá sempre tem mais confiança que os outros e tem uma carreira mais duradoura, pois pensa-se que, não importa o que aquele alquimista está fazendo, ele sabe o que está fazendo.
Ele entra no prédio, passando pelos portões de ferro abertos e belas colunas escuras que sustentam sua entrada; hoje é dia de palestras, então o local estará aberto para o público. Sua entrevista foi marcada para aquele dia, mas ele duvida que o entrevistador esteja em sua sala.
O grandioso interior difere-se das estruturas comuns de Yalahar. Suas paredes são cinzentas e possuem vários parafusos expostos, contrastando com painéis de alumínio de vários tons espalhados pelas paredes, dando um aspecto diferente e incomum para o lugar. Há corredores indo para ambos os lados, e escadarias em forma de arco rumando para o topo. Tanto em cima quanto abaixo delas há portas escuras com guardas.
O rapaz se aproxima deles e, curiosamente, eles o deixam passar. Ao entrar, ele está de frente para um grande auditório, com centenas de cadeiras vermelhas organizadas com escadarias para cada doze cadeiras para chegar até as fileiras. Naquele dia em especifico, há um público realmente grande assistindo outro rapaz discursando com um quadro verde próximo dele. Ele senta-se na última fileira e presta atenção na palestra.
Sente-se maravilhado, com uma sensação incrível arrepiando-o. Um calafrio corre pelo seu corpo, assistindo aquele rapaz discursar com tamanha naturalidade e conhecimento. Tudo isso porque havia escutado há pouco que ele tem apenas 14 anos, mas está abordando sobre os temas mais complexos da alquimia. Um gênio está a sua frente, enquanto o sentimento de superá-lo está consumindo-o por dentro.
Não demorou muito para a palestra terminar, já estava no fim. Ele sai junto dos restantes e ruma até a sala onde deve ocorrer a entrevista, onde encontra mais dois rapazes. Assim como ele, estão em trajes sociais, usando casacos brancos de botões e calças negras de couro, além de sapatos marrons bem encerados. Ele está com uma pasta debaixo do braço direito, aguardando ansiosamente para ser chamado.
“Sua carta deve vir em breve. Até lá, pode considerar-se parte deste colégio.”
É uma das frases mais marcantes que o rapaz já ouviu na sua vida. Ele pensa sobre enquanto está sentado nas escadas que levam até o prédio, no meio de uma tarde ensolarada e bonita. Mas ela não o impressiona, uma vez que ele já viu muitas vezes aquelas tardes lindas de Yalahar.
Alguém senta do seu lado. Está com um pirulito de limão na boca, retirando-o para dizer alguma coisa peculiar.
— Você está tentando entrar na gaiola dos sábios?
Ele olha para o lado e vê o mesmo rapaz da palestra. Ele possui uma pele um pouco morena, além de cabelos que vão até os seus ombros, cujos são negros e sedosos, parecendo ser bem cuidados. Seus olhos são vivos e cheios de energia, com uma coloração estranhamente azul. Está com o uniforme do colégio: Um casaco que vai até sua cintura, de cor branca e com bordas negras e amarelas próximas dos botões que o fecham, e calças e sapatos de cor preta.
— Não sei o que quer dizer...
— Se não sabe o que quero dizer, é melhor não entrar aí!
O rapaz não parece gostar muito do comentário. O outro percebe rapidamente.
— Não que eu não queira rivais, pois não passa de um conselho. Esse colégio não é a maravilha que todos dizem. Alguém como eu não tem a liberdade de ir além do que foi estabelecido para estudarmos.
— Alguém como... Um sábio?
— Talvez. — Disse, rindo um pouco em seguida — Eu não gosto muito desse colégio, mas eu gosto de descobrir as coisas novas que podemos estudar lá. Acredita que nosso mundo como conhecemos surgiu há só três séculos e ainda assim conhecemos tanta coisa? Pra falar a verdade, o conhecimento de Yalahar deve ser algo restrito de Yalahar, então pode ser o conhecimento reunido de milênios de vida dos yalahari.
— O quanto você sabe sobre esse mundo?
— Sei lá! Que pergunta besta. — Disse, novamente rindo — Nunca há como sabermos o suficiente desse mundo com o pouco tempo de vida que cada ser humano tem. Mas seria legal conseguirmos passar por essa barreira e aprendermos o quanto quisermos, né?
— Seria... Nem precisaríamos ser imortais.
— Uns 500 anos pra mim já tá bom.
Ambos riem, descontraídos. A presença daquele jovem gênio realmente o alegra. Era fabuloso falar com alguém num nível superior e que sabe ser humilde ao mesmo tempo.
— Meu nome é Nuito. E o seu? — Disse o rapaz de cabelos longos, sorrindo.
— Ah... Senzo é o meu nome.
— É um nome raro por aqui! Significa que você é legal e diferente.
— Não... Só estranho.
Senzo provavelmente diz isso por ser pálido, magro e esguio, apesar dos seus cabelos negros e rosto comum.
— Ah, qual é! Você não é estranho. Na verdade, você parece ser bem legal. Deve ser famoso com as garotas.
— Está brincando comigo... Você deve ter beijado garotas que eu nem consigo imaginar. Tampouco em pensar nelas notando a minha existência.
— Pior que não. Minha amiga Ember costuma se meter na frente e assustá-las o tempo todo pra ficarem longe de mim. É um saco! Ela diz que é para eu não me distrair e que elas são falsas, só querem ficar perto de mim por eu ser inteligente e importante. Ela vê coisas onde não existe, sinceramente.
— Ela quer te ver bem... Eu acho.
— Eu duvido!
Nuito levanta-se e olha para os lados.
— Senzo, né? Preciso voltar pra casa, então te vejo por aí!
— Tudo bem... — Disse o rapaz, apesar de sua voz não ter saído alto como deveria. Agora, parece que ele nem mesmo foi ouvido.
Senzo levanta-se também. Ele sorri disfarçadamente, sentindo-se feliz por ter conseguido a atenção de alguém importante. Apesar de ter sempre toda a ajuda de seus familiares, ele nunca sentiu que eles eram realmente superiores a ele. Nuito é apenas um ano mais novo do que ele, mas inspira conhecimento para todos.
Em sua cabeça, tudo que resta é que ele deve superá-lo. E irá lutar muito para que isso aconteça.
Foi naquele dia que conheci o demônio.
Senzo voltou para a sua casa naquele dia, e no dia seguinte, recebera a carta. Começa semana que vem. Foi bem na entrevista, orgulhou seus pais. Sua irmã agiu com indiferença, como de costume. Seus amigos próximos ficaram bem felizes, mas tristes por não poderem mais vê-lo com frequência. Estar lá significa estudar muito e ocupar seu tempo apenas com as matérias e lições passadas. Apesar de tudo, Senzo está preparado para o que está por vir. É o seu sonho, afinal de contas.
Sua frequência no colégio era impecável. Notas boas, mas não máximas como as de seu companheiro Nuito. Sua pesquisa sobre armamentos novos e armaduras parecia ir bem. Seu amigo entendia sua fixação em armamentos e em como pareciam combinar com os animais certos. Dessa forma, ele sentiu-se incentivado a criar algo grande.
Após um ano no colégio, ele iniciou seu projeto do qual nomeou de Yoru.
— Hm... Yoru? — Disse Nuito, observando os vários papéis com desenhos complexos na parede do quarto de seu amigo. Eles dormem em dormitórios próximos.
— É hanrajiinês. Mas eu não consegui descobrir com exatidão o que significa essa palavra.
— Ué... Vai dar um nome pro seu primeiro grande projeto que nem sabe o que significa?
— Quero deixar os outros adivinharem. — Disse Senzo, confiante.
Os desenhos implicam em um tipo de armadura para animais especial. Que se move sozinha.
— Olha, Senzo... Não quero te desmotivar nem nada, mas ninguém garante que isso vá dar certo. É um inseto gigante que vai andar e agir sozinho, tô certo?
— Sim, mas ele será mais limitado em sua primeira versão. Não será para combate. Ele vai no máximo saber alguns truques ou simplesmente andar para que o pessoal se interesse mais, daí posso fazer uma nova versão com mais coisas, e...
— Calma lá, cara! Foque no primeiro. Você quer que ele faça truques?
— Algo pra impressionar o pessoal da próxima feira. Sabe? Pular pra trás, bater palmas, dançar ou algo assim...
— Bom, isso poderia mostrar que ele funciona.
— E será um louva-a-deus. Ele é bonito e suficiente para esse projeto.
Nuito não consegue deixar de notar a empolgação do amigo. É realmente um bom projeto para alguém que chegou há pouco tempo. Mas ele teme que não vá dar muito certo. Tanto o projeto quanto a apresentação.
Ele causou tudo aquilo pra mim.
A tal feira mencionada por ele, conhecida como Feira Internacional das Maravilhas, é um evento anual de Yalahar, que costuma acontecer dentro do próprio Centro das Almas de Ferro. Naquele ano, mais pessoas estão prometidas para aparecer nesse evento, com isso, os projetos serão mais acirrados e disputados. Apesar de tudo, dificilmente alguém previu que algo como o que Senzo planejava fazer ia aparecer.
Nuito o acompanhou com curiosidade e dúvida. Sabe que Senzo só é respeitado e não sofre perseguição de ninguém, pois vive do lado dele. Além disso, ele é um rapaz de renome, um gênio de Yalahar, prodígio reconhecido pelos alquimistas. Se o jovem pálido consegue chamar a atenção desse gênio, significa que ele é realmente inteligente e importante. Mas a verdade é que Senzo não o vê apenas como um gênio, mas como um bom amigo, dando prioridade ao seu lado sentimental e entendendo suas dificuldades. Mas naquele momento, ele não sentia que o seu amigo seria capaz de se virar sozinho num evento desses.
Foram seis árduos meses de trabalho. Criar um autômato já foi a ousadia de muitos alquimistas, antes considerados geniais, mas Senzo não era nem de perto considerado assim. Isso porque seus projetos não eram mostrados a ninguém. Ele é restrito, e seu projeto não estava nem mesmo sendo construído no colégio, e sim no largo quintal de sua casa, com a ajuda de três amigos, que são Nuito, Ember e Norbron, um mago mais velho e experiente que há muito aconselha o jovem pálido. Este tem cabelos negros, de corte social, e usa um longo robe vermelho com um cinto branco contendo um grimório* e várias runas de tamanho pequeno dentro de bolsinhas.
— As baterias devem estar bem conectadas ao resto do autômato, sabe bem disso, não é?
— Óbvio, Norbron. O esqueleto das fiações foi feito com essa prioridade. — Responde Nuito, mexendo em alguns fios de uma das patas do autômato.
Senzo está com sua cintura segurada por fortes cabos. Há quatro postes de aço ao redor do inseto de ferro, que já tem forma. Dali de cima ele trabalha nas baterias e na fiação, juntamente com Nuito logo abaixo e Norbron. Ember está sendo algo como uma vigia, já que foi ela que ergueu os postes, colocou os cabos e levantou os muros improvisados de estanho ao redor do quintal para que o projeto não fosse visto por ninguém.
— Tá quase pronto, hein, Senzo! — Disse Nuito, com empolgação, fechando os painéis que protegem os fios de uma das patas. — Você foi rápido fazendo tanto em poucos meses. O evento é mês que vem.
— Vai dar certo. Eu acredito nisso. — Disse Senzo, concentrado, sem tirar os olhos.
Ember desce dos muros e vai até Nuito. A garota é uma elfa legitima, com orelhas pontudas, nariz fino, olhos grandes, sardas e cabelos ruivos e trançados. Ela é magra e esguia, alguns até a confundiram com um garoto se estivesse bem coberta. Ela está com um capuz verde, usa um casaco élfico de cores verdes e amarelas, possui uma pequena capa amarrada na cintura que cobre o cinto e vai até alguns dedos do joelho, e usa uma calça marrom. Usa sapatos vermelhos e um pouco puídos, mas úteis. E também conta com seu arco e aljava nas costas.
— Ora, Nuito. Tá pronto ou não? — Questiona ela, um pouco incomodada.
— Não, poxa. Falta várias coisas ainda.
— Mas ele já tá pronto, não é? Olha, ele já está de pé e posicionado.
— É por isso que você não está no mesmo colégio que eu. — Comenta ele, rindo. Ember se irrita, fazendo-o parar.
Ela olha pra cima. Mesmo sendo dia, com um sol forte batendo no robô e principalmente em Senzo, ele não parece perder a concentração de jeito algum.
— Senzo sempre foi sozinho?
— Ele é um rapaz isolado, mas é uma boa pessoa.
— Eu sei, mas ele vive nisso... Enfiado nos livros, apenas pesquisando, lendo, fazendo essas coisas. Parece que não vive. Sinto pena dele.
— Não sinta. Ele se sente bem fazendo essas coisas. Senzo não maquia sua personalidade se forçando a fazer parte do que é comum na sociedade, como ficar com garotas, andar bem arrumado e ir para festas. E é uma das coisas que mais gosto nele! Essa sinceridade escancarada, essa falta de medo de mostrar que é um estudioso aficionado, mais fixado em livros do que em bocas femininas. Isso que é algo legal!
Por algum motivo, Ember parece ficar um pouco sem jeito com a menção a “bocas femininas”. Lembra a ela de quando Nuito costumava dizer que ela não tinha nada de feminino em seu rosto e que era muito bruta para isso. Ela ficou magoada, mas Nuito correu atrás de seu perdão elogiando seu corpo ao invés disso. A elfa ficou envergonhada, e mesmo o perdoando, literalmente o chutou da sua casa.
Mas desde então, ela nunca deixou de pensar que o rapaz havia notado muitas coisas a seu respeito. Então, ela começou a se sentir mais a vontade sem o corpo coberto. Mesmo que naquele dia ele ainda estivesse totalmente coberto.
— Acho que o entendo melhor agora...
— Senzo é um bom rapaz. Ainda arrumarei pra ele uma boa boizinha.
— Não use esses termos de fazendeiro!
— Por quê? É bão demais, sô!
Ember soca a lateral do peito de Nuito com raiva, principalmente por ele estar rindo. É como se ele não tivesse sentido nada, fazendo ela o socar mais vezes, mesmo com Norbron pedindo pra que ela pare.
Esses dias pacíficos de trabalho foram a rotina dos três últimos meses antes da feira. Senzo esteve feliz em todos eles, pois estava acompanhado de seus melhores amigos e trabalhando ao lado deles com seus pais o apoiando. Tudo estava perfeito para o rapaz.
~*~
É chegado o dia da feira.
Senzo está atrás de cortinas espessas com o inseto autômato chamado de Yoru. A exposição já está acontecendo, várias maravilhas e genialidades yalahari estão expostas ao longo de um largo pátio no fundo do colégio. Ali é possível encontrar muitas barracas com criações diferentes, como páginas transparentes, um pó que revela qualquer digital com total exatidão, pequenos robôs para diversas utilidades aqui e ali, armas mais resistentes que o normal, até mesmo um projeto de algo semelhante a uma cabine sustentada por hélices acima dela e nas laterais, dentro de discos sem fundo, capaz de voar e se manter no ar.
Mas logo as exposições maiores começariam através de exibições para o público. Falta apenas dez minutos para elas começarem, e o primeiro a ir é uma estudante de pele escura e um cabelo negro tão longo que ia até o fim de suas costas, mesmo preso num rabo de cavalo, enquanto usa uma regata branca. Ela vai apresentar algo semelhante a um elixir que pode fazer coisas destruídas por ácido serem reconstruídas instantaneamente.
Segundo os anfitriões do colégio, aquele era o ano com mais genialidades naquela feira. Nuito, como sempre, não apresentaria nada, apenas irá ajudar o amigo. Ember e Norbron estão na exposição conferindo as novidades.
— Ele já é capaz de correr, não é? Já testamos ele no seu quintal. — Questiona Nuito, observando Yoru.
— Sim, ele é. E é capaz de muito mais. Yoru se mostrou muito mais flexível e compatível com outras coisas do que o normal.
— Então surpreenda-os, amigo. Assim como me surpreendeu ao mostrar que ele estava com a carcaça pronta depois de apenas um mês. Bateu recordes.
Senzo sorri e aperta a mão do amigo num cumprimento. Ele está agradecido pela ajuda prestada pelo seu amigo e gênio do colégio, e agora é só questão de tempo até ele ficar na história do Centro das Almas de Ferro.
Ela começa. Primeiro a garota com o elixir, depois um rapaz com uma espécie de tartaruga que fala, cuja ganhou o público, e pra finalizar, um rapaz que criou uma pílula capaz de guardar objetos pequenos maiores do que ela. Agora, é a vez de Senzo e sua criação, Yoru.
Ele chega no palco, de frente para um mar de pessoas. Os holofotes, cuja iluminação é mágica, está direcionada para o rapaz. Ele fica algum tempo olhando para a plateia, e finalmente ganha coragem suficiente para falar.
— Boa tarde a todos vocês. Irei apresentar um projeto meu de longa data. Dei a ele o nome de Yoru e espero que todos gostem.
Com uma espécie de controle remoto, ele traz Yoru sem sair do lugar. O grande autômato anda sem dificuldades até o palco, já arrancando a surpresa do público, que assiste empolgado a cada movimento do robô.
— Ele é um louva-a-deus. Esses insetos são originários de Porto Esperança e também podem ser encontrados na Baía da Liberdade. Eu o construí usando várias peças de alumínio e reforçando com placas de ferro. Seu interior possui uma fiação completa ligando todos os pontos a um local só.
Yoru anda aleatoriamente pelo palco enquanto Senzo fala para a plateia. Ele então para, e o rapaz começa a mostrar algumas das coisas que ele é capaz de fazer.
Ele começa fazendo ele levantar as patas dianteiras como em sinal de prece. De forma abrupta, Yoru começa a dançar, dando passos rápidos para trás e para os lados enquanto bate palmas. A plateia vai a loucura, e Nuito, que olha próximo das cortinas, observa-o com orgulho. A dedicação de Senzo mostra frutos inesperados.
Agora, ele faz o autômato trotar. Depois, pular. Cada movimento faz todos ficarem mais impressionados. Parece que já estava óbvio quem ia ganhar o prêmio de melhor trabalho da feira. Afinal, os movimentos de Yoru eram perfeitos demais para um autômato. Cada movimento dele gera mais palmas, mais entusiasmo, e mais empolgação de Senzo, que não consegue tirar o sorriso do rosto. Nuito também está aplaudindo ali perto do palco.
Então, chega o clímax. Yoru chuta o ar com uma das patas e volta sem fazer um barulho sequer. Engenharia perfeita. Aquilo ultrapassou o que um alquimista pode fazer. Tudo está ganho para Senzo. O que restar pra ele falar ou fazer será lucro.
Ele vê Norbron na plateia aplaudindo ele com orgulho bem visível em sua face. Empolgado, ele aumenta a força dos movimentos de Yoru para que ele pareça mais bruto, e manda ele dar um soco no ar.
É tudo culpa dele.
Deu errado.
A mão de Yoru sai do lugar junto com vários fios e cai exatamente em cima de Norbron. Ele sente dificuldade para se levantar, mas tudo se complica mais quando uma das baterias se vê forçada e dá um curto-circuito poderoso, que acerta o mago antes que ele possa ser ajudado pelo público.
Um grito estridente ecoa pelo pátio. 60 segundos.
Nos primeiros 10, os alquimistas começaram a agir para parar a descarga junto de Senzo, que mesmo em choque, corre para salvá-lo.
Em 20 segundos, os fios ainda não foram cortados, a energia das baterias está se desviando para a mão que está esmagando Norbron. Nuito sai de trás das cortinas com peças de ferro de um metro para atrair a energia para outro ponto.
Em 40 segundos, a plateia está correndo para fora, soldados correm para tentar tirar com seus piques a mão de cima de Norbron, mas já não conseguem mais distinguir um rosto humano ali. Os olhos do rapaz estouraram, a pele está derretendo, sangue demais já saiu de seus orifícios.
Em 50 segundos, Norbron ainda está vivo, seu corpo está ardendo em chamas e os fios estão sendo cortados conforme a energia é desviada de volta. O pátio está sendo esvaziado. Os alquimistas conseguem aos poucos empurrar a mão pesada do autômato. As baterias estão sendo desativadas.
Um minuto. Norbron morre. O corpo está carbonizado. Os fios cortados. As baterias desativadas. O autômato parado como o tempo para os presentes ali. E só quando toda aquela eternidade passara que o tempo volta a andar para Senzo, que está sentado no chão, com o controle entre as pernas, arrasado.
Ele foi suspenso pelo resto do ano do colégio. O prêmio de melhor item da feira foi para a garota por trás do elixir. Depois de Yoru, a alquimista quebrou relações com a engenharia. Senzo marcou a história do colégio matando o próprio amigo na frente de todos enquanto trinta pessoas tentam parar o curto sem serem eletrocutados juntos. Aquelas baterias foram construídas usando discos condutores com soluções feitas em água dentro. Quando aquele tipo de bateria foi criado uma década antes, era a prova de que alquimia e engenharia podiam coexistir.
Senzo provou que todos estavam errados.
Ainda assim, ele voltou para o colégio no ano seguinte, mesmo ganhando todo tipo de olhar por onde passava. Protegido por Nuito e Ember, que o visitaram o tempo todo enquanto ele esteve em sua casa, lamentando-se pela morte que causou, ele conseguiu continuar seguindo em frente. Principalmente por causa da dona de um projeto de elixir semelhante ao da vencedora, que visitou-o no meio da suspensão sem ser convidada.
Uma garota magra e relativamente alta, que possui um torso bem definido, com braços levemente musculosos. Seus cabelos são negros como a noite, sua pele branca e livre de impurezas, seus olhos azuis como o céu. Quando Senzo fita-a na entrada de sua casa, ele não entende nada. Ele simplesmente abre a porta do muro da casa e não diz nada, apenas a espera falar.
— Você é Senzo Saisho Damasukas, o criador de Yoru? Tenho certeza que é. Eu queria conversar contigo a respeito dele, pois soube que você está realmente triste com tudo o que aconteceu.
— E você se importa?
— Sim... Pois você me encantou a partir do momento em que apareceu naquele palco, mesmo com toda a pressão sobre as suas costas e o nervosismo o consumindo.
Senzo arregala os olhos e cora. Seu coração bate mais rápido.
— Q-Qual é o seu nome? — Questiona o rapaz, ignorando a frase da garota e tentando se manter firme.
— Eu me chamo Miraya. Estou feliz em conhecê-lo. — Disse ela, abrindo um dos sorrisos mais lindos que Senzo já viu em sua vida.
É por isso que ele está ali, no colégio, naquele instante, esperando para se encontrar com aquela garota de novo. Ele está apaixonado por ela.
E quando ele a vê no corredor, vindo em sua direção com um sorriso parecido com aquele, ele entende. É o começo de uma longa história.
Próximo: Capítulo 31 – Res II
Notas:
*Um grimório é um livro que contém vários feitiços, rituais e encantamentos mágicos medievais. Eles realmente existem, sendo coleções interessantes de serem lidas.
Capítulo 31 - Resmonogatari II
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Caralho, sim. Senzo. Bati na trave no nome do personagem, mas apenas confundi um com o outro. Os personagens em si são inconfundíveis. Quis dizer que Senzo é um personagem com potencial. Suzio não é um personagem com potencial, Suzio é um personagem perfeito por si só.
Espero que esse hiato não dure muito tempo, Carlinhos. Esteja certo de que, quando Bloodtrip voltar, estarei aqui novamente.
>carlinhos
Neal, Neal. Obrigado pela constante presença no tópico.
Acredito que Senzo possa ser do seu agrado. Há muito guardado pra ele nesses próximos capítulos. Mas certamente não será como Nightcrawler.
Voltei, e espero não partir de novo dessa forma. Só é uma pena que eu não consiga terminar a história esse ano. Tá durando mais do que planejei originalmente.
Caras, depois de um tempo sumido, estou de volta. Meu computador não foi consertado, então estou usando um notebook que entrou aqui em casa recentemente e serve para o propósito de escrever.
Perdi um pouco da mão nesse tempo que fiquei fora, então é possível que eu dê uns deslizes nesses próximos capítulos. Mas não demorará muito pra retomar o ritmo. A propósito, decidi mudar o nome do capítulo 31 pois achei que se encaixaria melhor ao propósito dele.
Espero que gostem!
No capítulo anterior:
O jovem Senzo conhece Nuito. Ele entra no Centro das Almas de Ferro, uma poderosa academia para aqueles que desejam ser alquimistas. Ela também ajuda a formar engenheiros e outros tipos de formação. Lá, ele constrói Yoru, um automato com o formato de um louva-a-deus, e o apresenta na Feira Internacional de Maravilhas, mas um acidente grave ocorre durante a apresentação.
Capitulo 31 – Resmonogatari
Parte 2
O ano é 327. Passou-se três anos desde o caso Yoru.
Embora o caso tivesse chocado Yalahar e se espalhado pelo mundo, Senzo não se deixou abalar. Isso porque seus amigos não permitiram que isso acontecesse. Ele ainda está estudando no Centro das Almas de Ferro, e este será seu último ano.
As pessoas, bem como o colégio, se esforçaram para esquecer o episódio. Ver alguém sendo eletrocutado até a morte certamente não é uma boa programação para uma tarde, mas os humanos tem uma grande habilidade que até mesmo os elfos invejam: Esquecer. Dito isso, é normal ver mais jovens entrando no colégio todos os anos, e o movimento não diminuiu tanto. Agora mesmo, durante uma nova tarde ensolarada de Yalahar, dois rapazes de 14 anos andam tranquilamente até as escadarias que levam ao colégio. Mas no caminho delas, encostado, está uma figura de cabelos lisos e negros, pálida, encarando-os com cara de poucos amigos.
Senzo desce e se dirige a passos lentos até a dupla. Receosos, decidem começar a falar.
— Boa tarde... — Começa o primeiro rapaz, com tanto vergonha quanto medo — Somos novos alunos do colégio, disseram que um guia nos aguardaria no colégio para explicar o que precisamos saber. Você é o guia?
— Eu tenho cara de guia?
O segundo rapaz engole em seco. Ambos estão vestidos com o mesmo uniforme, um casaco de botões branco, calças negras e sapatos marrons. Os jovens parecem intimidados – certamente uma má recepção para ambos.
— B-Bem... Você parece ser um aluno veterano daqui, achamos que poderia nos ajudar...
— Não. Estou incumbido de proteger esse lugar de qualquer coisa que signifique ignorância. É um lugar para poucos. E não inclui vocês.
— Com licença, mas fomos aceitos na nossa entrevista, com certeza podemos entrar nesse colégio. — Disse o segundo, da maneira mais educada e comportada possível para evitar problemas.
— Não é porque foram aceitos que podem necessariamente entrar aqui dentro. Vocês não fazem ideia do que é estar nesse colégio nem do que é necessário. Posso dizer isso apenas olhando para as suas faces.
— Me desculpe, mas você é apenas um aluno, não pode nos dizer que não podemos estudar aqui!
Senzo levanta uma sobrancelha. Em seguida, seu braço, que é envolvido em segundos por uma peça de metal amarelada. Algo semelhante a um tentáculo saindo de suas costas, e envolvendo seu braço como um segundo braço mecânico, contendo uma lâmina de 30 centímetros na ponta.
— O que você disse? — Dispara Senzo, notavelmente irritado.
Mas ao invés das crianças se sentirem assustadas, elas se impressionam. Aparentemente, já viram aquilo de algum lugar. Logo acabam abrindo sorrisos de admiração.
— Ei, ei! — Disse o primeiro rapaz, encarando com surpresa a peça — Isso é a Célula de Ferro! Você é Senzo?
Agora quem está incomodado é Senzo. Pois ele já sabia que os rumores de sua criação se espalharam por Yalahar.
— E se eu for?
— Você é incrível! Criou não só isso como Yoru, o autômato mais bonito já criado! Mesmo que tenha acontecido aquele acidente, você fez um grande trabalho!
— Entramos nesse colégio apenas por sua causa! Queremos ser grandes engenheiros como você! — Disse o segundo, acompanhando a agitação do primeiro.
O jogo virou. Agora é Senzo quem está acuado, sem saber o que responder. Aquela admiração é realmente irritante para ele, alguém que está acostumado a ser, no mínimo, um figurante. Antes que pensasse em sair andando, uma boa alma surge para salvá-lo daquela situação.
— Ora, ora, Senzo. Está assustando jovens a essa hora do dia? Ou seria o contrário? — Disse Nuito, brincando com o fato do amigo já estar numa péssima situação para ele mesmo.
— Hein? Não estou fazendo nada!
— E por que está mostrando a Célula de Ferro, então?
Senzo fica um pouco cabisbaixo e irritado, e acaba se afastando. Nuito decide resolver o caso.
— Não se preocupem, ele é assim mesmo. Gosta de testar todos os novos alunos. Ele está no último ano, afinal de contas.
— Ah, você é Nuito?! Criador da Teoria da Criação por Alquimia e da Solução Lacrixca? — Questiona o primeiro rapaz, com um grande sorriso no rosto.
— Sim, e sou o guia de vocês. Nuito Resgakr, tutor iniciante do Centro das Almas de Ferro. Devem conhecer meu amigo.
O jovem desativa a Célula de Ferro, fazendo ela voltar para suas costas. Ou para um pequeno dispositivo que tem um formato semelhante a um ovo numa frigideira, que está no lado esquerdo de suas costas. Continua afastado, apesar de ainda atrair o olhar dos novatos.
— Conhecemos sim!
— Bem, ainda darão de cara com ele aqui algumas vezes. Não me verão com muita frequência, no entanto.
— Que grosseria a nossa! Meu nome é Bertolomey e o meu amigo se chama Lucio! Prazer em conhecê-lo! — Disse o segundo garoto, estendendo sua mão para Nuito.
— Igualmente. Logo alcanço vocês.
Os jovens assentiram e foram rapidamente para a entrada do colégio. Senzo os fita ao longe, insatisfeito e ofendido. Nuito coloca seu braço em seu ombro, também observando os novatos.
— Então você não sabe lidar com a fama? Deveria já ter se acostumado.
— Me acostumei com o lado ruim dela.
Nuito fica em silêncio por um instante.
— Para, vai. Como eu já disse inúmeras vezes, você é inteligente. Muito inteligente. E merece o respeito que tem ganhado aqui dentro.
— Que seja. Não gosto disso e ponto final.
— Ah, que gênio chato.
Por que acreditei nele?
É a terceira vez que Nuito o chama dessa maneira. Ele continua incomodado com o elogio.
— Não tem mais o que fazer?
— Você também tem, não?
— Pro inferno. Eu tô indo, te vejo depois.
Senzo afasta-se e sai andando. Nuito ri e vai até o colégio para ajudar os novatos, como lhe foi pedido.
Faz um bom tempo desde que Nuito se formou. Ele entrou no colégio com apenas 11 anos, e no ano seguinte ao que Senzo entrou, ele já se formou. Quatro anos de curso foram mais que suficiente para ele, mas ainda assim ele decidiu continuar lá tanto para ajudar seu amigo quanto para aprimorar seu currículo. Ele pode ser muito conhecido em Yalahar, mas não eram todos que ouviram seu nome fora da cidade-estado.
Em direção ao leste, Senzo caminha pelas ruas brancas de Yalahar, seguindo pela calçada para não ser atropelado por algum maluco com um cavalo descontrolado, ou por uma carruagem em alta velocidade. Essas ruas sempre lhe eram interessantes, pois os cavalos não eram as únicas montarias que as pessoas usam por lá. Sempre há criaturas interessantes levando seus mestres aqui e ali. Talvez o caso mais engraçado que ele já viu até então foi um homem relativamente grande montando uma ovelha negra. Parecia que eu estava no circo por um momento, pensa Senzo.
Ele atravessa a rua e para na fachada de uma casa relativamente grande, de dois andares, onde por uma extensa vitrine era possível ver um professor e alguém tocando um piano marrom. Ao entrar no lugar, ele encanta-se com a suave e ao mesmo tempo firme melodia que a pessoa toca para o professor, que contempla a execução dessa obra prima com orgulho. Aparentemente ela já está no fim, então Senzo fica ao lado da porta em absoluto silêncio.
O jovem observa a sala onde se encontra. O chão é de madeira, e há apenas uma vitrine do lado de fora, e ao redor há apenas paredes brancas. Há diversos quadros pendurados nela, e há mais de um piano ali. Próximo de onde ele está, encontra-se uma mesa grossa também de madeira com muitos papéis em cima, bem como um pote de tinta com uma pena dentro dele.
A música acaba. Quando o professor nota Senzo na porta, ele decide dar apenas alguns elogios para a pianista e se retira para o corredor próximo daquele piano, que está perto de uma parede cheia de quadros estranhos representando criaturas da noite. Um gosto um tanto exótico, ou diferente.
Esta pianista fita Senzo ao longe e caminha rapidamente até ele. Indo em sua direção, com um belo sorriso no rosto, está Miraya, a garota de olhos levemente puxados e cabelo curto e escuro como o breu. Ao parar de frente para ele, ela pega suas mãos, e antes que o rapaz possa reagir, ela beija-o. Um beijo que dura quase 10 segundos.
Logo que ela o solta, ele parece um pouco surpreso e também agitado. Ela dá uma risadinha entre os dentes.
— Esse foi meu boa tarde. Como você está hoje, mocinho? — Indaga Miraya, sorrindo.
— B-Bem... Ah, sei lá. Não consigo pensar em mais nada depois disso. — Responde Senzo, esforçando-se para não gaguejar ou parecer ridículo.
— Então você está bem. Assim como eu.
Miraya dá alguns passos para trás para vê-lo melhor. Senzo lhe manda um olhar curioso.
— Você está realmente bonito hoje.
Senzo está mais apresentável do que de costume. Seu cabelo está bem arrumado num pequeno rabo de cavalo. Seu paletó branco, bem como a camisa preta que está usando por baixo, contrasta bem com sua calça azul escura e seus sapatos sociais marrons. Ele não tem o costume de se arrumar, mas quando o faz, dá bons resultados.
— Nem tanto. — Balbucia o garoto, coçando a cabeça — Só tentei parecer menos feio.
— Isso é papo de gente triste! Vamos, você está sempre bonito. E hoje está bem mais que o normal. Sinto como se fosse arrancar a cabeça de qualquer garota que ousasse olhar pra você com interesse.
Ela é boa demais pra mim, pensa, enquanto sorri sem jeito. Miraya, que está com uma blusa de mangas longas de um laranja bem claro, bem como calças escuras e sapatilhas brancas, parece roubar bem mais a atenção do público do que ele. Ela não está tão arrumada, mas ela não precisa de muito pra parecer atraente.
— Bem, vamos indo? — Disse Miraya, pegando a mão de Senzo e levando-o para fora antes que ele pudesse protestar. Se é que ele deseja mesmo fazer isso.
O casal cria seu próprio dia conforme passeiam pela cidade. Passam numa sorveteria, conversando e brincando sobre várias coisas. Passam num dos Centros de Xadrez e ficam um bom tempo disputando, sem se importar com o fato de serem o único casal dali; por fim, acabam num restaurante, onde Senzo se esforçou um pouco para pagar a conta. Um encontro comum entre um casal que parece se dar muito bem.
Eles começaram a namorar há pouco menos de dois anos. Ambos se davam muito bem, e aparentemente Miraya lidava bem com o fato dele preferir estudar do que sair. Ela própria é assim, embora não estude tanto quanto Senzo. Ela também não se importa com o comportamento as vezes tóxico dele, com comentários um tanto ofensivos, chegando até a rir ao ouvi-los. Certa vez, ele acabou assustando sem querer uma criança, e ela se acabou de rir vendo aquilo ao invés de consolar o pequeno. Uma garota perfeita para ele.
Embora não passem tanto tempo juntos, seus encontros eram mais que satisfatórios para os dois, que mais conversavam do que faziam outras coisas de casal. Por isso, Senzo não se sente culpado por deixá-la em casa para voltar ao Centro das Almas de Ferro para continuar trabalhando, ao invés de prosseguir com o encontro; e Miraya não se sente incomodada por ele preferir continuar seu trabalho. Afinal, ele está trabalhando em algo muito maior do que a Célula de Ferro, e precisa de tempo. E assim ele o faz no final do encontro, despedindo-se de sua garota com apenas um beijo rápido.
Após vinte minutos, ele volta para o colégio, e dirige-se para os dormitórios, que ficam atrás da grande construção. Logo, ele chega nos laboratórios abaixo deles. Hora de trabalhar.
Em seu dormitório, algumas semanas depois, Nuito testa a Célula de Ferro. Do mesmo jeito que antes, mas agora com um cilindro com seis buracos na ponta que lançam dardos. Com alguma dificuldade ele acerta todos os dardos num alvo do outro lado do quarto. Enquanto isso, Senzo observa um pequeno pote de vidro com uma tampa escura, com um liquido branco e viscoso dentro. Nuito repara e decide recolher a invenção que estava usando, vencido pela curiosidade.
— Ei, Senzo. O que é isso aí?
— Ah, isso? É muito mais complexo do que você imagina.
— Ah, vamos lá, nada é complexo demais pra mim, sabe disso.
Senzo gira um pouco a própria cadeira e contempla o potinho.
— A Teoria da Criação por Alquimia diz que tudo que é físico nesse mundo possui não só uma assinatura própria em nível microscópico como também uma leitura própria. Algo semelhante a DNA e coisas assim. O que eu fiz foi estudar todas essas leituras a fundo e portar todas elas para uma coisa só. Elas assumiram essa forma líquida e branca que chamo de Nancore. E precisei apenas de alguns materiais que possuíam as leituras que eu precisava.
Nuito parece perplexo.
— Em suma, você criou uma coisa que cria outras coisas?
— Exatamente. Não é incrível?
Seu amigo não sabe como reagir.
Senzo nem chegou a terminar o curso ainda, mas sempre se mostrou genial. Ele sabia que o amigo tinha potencial para ultrapassá-lo e criar coisas muito mais grandiosas que seus próprios estudos e teorias, algo grande até para um biólogo, coisa que ele planeja ser. Mas agora ele está vendo o rapaz criar algo baseado no que ele mesmo desenvolveu. Um estudo incompleto, uma teoria. Trazida para a realidade com forma física.
Ele já pode se declarar superado.
— Mas, no entanto, existem certas complicações na criação do Nancore, e ainda não consegui um material muito importante de Porto Esperança. Então acho que o Nancore não é capaz de criar nada ainda.
Ou por enquanto não.
— Ah, que pena. Seria incrível ver isso em ação. Conte comigo se precisar de ajuda.
— Acho que vou precisar sim, afinal, foi você quem criou o estudo que me baseei.
— E eu me baseei em outro estudo yalahari. Então não há nada demais no que estamos fazendo.
— Claro que há! Estamos melhorando o que foi criado no passado! Não é assim que a humanidade sempre funcionou?
Senzo sempre se empolgava na hora de falar sobre assuntos do tipo e até esquecia-se de certas coisas. Até mesmo sobre ética. Mas, no momento, ele não está prejudicando ninguém, o contrário: Está criando algo que pode ajudar muitas pessoas e mudar o mundo ao mesmo tempo. Mal dá pra imaginar o quanto de coisas que podem ser feitas a partir do Nancore.
— De qualquer forma, você vai apresentar isso na feira desse ano? Seria um forte candidato a vencer.
— Não. Ele não está pronto.
— Ah é, verdade. Falta o material de Porto Esperança, não é? E qual é?
Senzo guarda o potinho numa gaveta antes de falar alguma coisa.
— Um coração de um lagarto templário de Chor.
Nuito engole em seco.
~*~
A Feira Internacional de Maravilhas retorna após três anos. O caso Yoru realmente foi fatal para a reputação do colégio e por muito pouco Senzo não foi expulso, e isso porque Nuito ajudou a aliviar a pena.
Com o retorno, os projetos de alquimia já não tinham mais a mesma mistura complexa com a engenharia, apenas em raros casos. Peças de robôs não eram mais vistas, tampouco as pequenas maravilhas que se moviam sozinhas e eram feitas de muitas pecinhas. No ponto de vista do público, é como se a tecnologia tivesse atrasado seu progresso em alguns anos.
Senzo veio com muita insistência por parte de Nuito para a feira. Acompanhado dele, bem como de Miraya e Ember, o grupo segue tranquilamente pelas barracas, evitando muita conversa com as outras pessoas. Elas ainda colocam os olhos em Senzo, e ele acaba ficando mais pálido do que de costume. Em inúmeras mesas, é possível ver machucados se recuperando instantaneamente, animais diminuindo de tamanho, pequenas mutações como uma cauda a mais, e até um hamster com supervelocidade, que atraiu bastante gente. Talvez o maior destaque daquela feira foi um remédio que fez um homem cego voltar a enxergar, mas o grupo não conseguiu chegar lá no momento em que aconteceu.
Eles param em frente de uma barraca onde há vários alunos demonstrando soluções simples para problemas do cotidiano. Um deles era um garoto de 16 anos mostrando um anel que gerava açúcar infinito a partir do oxigênio, sendo usado para adoçar líquidos. Senzo está distraído e avoado, então não reparou quando o próprio criador do anel o chamou.
Miraya o cutuca e ele percebe o jovem o encarando. Novamente fica incomodado.
— Você é Senzo, não é? Senzo Damasukas! Eu queria muito que você me dissesse o que acha da minha invenção!
— O... Quê? — Balbucia em resposta, não prestando muita atenção no que ele diz.
— Meu nome é Udel, eu criei esse anel que pode gerar açúcar infinito! Veja, veja! — Disse, usando a ponta do anel, uma espécie de bola com formato octógono tridimensional, mergulhando-a num copo cheio de leite. Depois, ele o oferece.
Todas essas coisas me dão ódio.
Senzo encara o copo enquanto o tempo parece correr devagar. É muito estranho para alguém como ele receber esse tipo de atenção, como se alguém o admirasse. Ele sente ao mesmo tempo que a pessoa parece se rebaixar e se inferiorizar frente a ele, como se ele fosse a figura mais importante do mundo, quando nem passa pela sua cabeça algo assim. É um sentimento estranho, que o dá náuseas e faz sua cabeça formigar.
Ser admirado parece lhe dar nojo.
— Posso? — Pergunta Miraya para o garoto, tomando o copo de sua mão sem que ele pudesse reagir a tempo. Ela toma um gole um pouco longo e dá de volta para ele.
Senzo e Nuito a encaram de forma estranha, mas ela parece ter gostado da invenção.
— Eu gostei! Uma invenção simples, mas muito útil. Dá o açúcar na dosagem certa. É ótimo pra quem não tem tempo nem de ir pegar o pote de açúcar no armário e ainda é bonito.
Apesar da resposta positiva de Miraya, o garoto não parece satisfeito.
— Me desculpe, mas eu pedi apenas a opinião do Senzo e de mais ninguém.
— Ah sim... Tudo bem. Só fiquei curiosa.
— Espere que logo chamo vocês, pode ser?
Pois me lembram dele.
Senzo ouve aquilo e logo em seguida olha para Miraya, que assente para a resposta do estudante com um sorriso triste. E para Senzo, aquilo é um rosto muito mais triste do que aparenta. Que esconde muito mais sentimentos do que alguém pode imaginar. Pois Miraya é assim: Alguém pouco sentimental por fora, mas incrivelmente dramática por dentro.
Isso é o suficiente para irritá-lo de verdade.
— Sabe o que eu acho da sua invenção, Udel? — Disse Senzo, encarando o garoto, que não responde.
O rapaz pega o copo e atira ele no chão, com muita raiva. Isso atrai vários olhares diretamente para o grupo.
— Horrível. — Disse, com uma voz alta, porém rasteira e odiosa. De nojo.
— O... O quê? P-Por quê? — Gagueja o pobre garoto, assustado com o ato de Senzo.
— Um anel pra adoçar coisas? O que você tem na cabeça? Quer que os outros enfiem o dedo no meio da própria bebida só pra adoçar ela? Por que você acha que elas usam colheres ao invés da porra de um anel?
— M-Mas ele p-pode criar pequenos c-cubos que-
— Não importa o jeito que você explique, nem de como pode ser útil, é horrível. Uma merda. Jogue no lixo. Terá mais utilidade lá do que no dedo de uma pessoa, até porque ele é mais feio do que a sua mãe.
— Senzo! — Grita Nuito, assustado com a forma que o amigo está atacando o jovem.
Muitas pessoas estão encarando Senzo, que humilhou o jovem sem nem precisar gritar. Como se fosse algo desnecessário para alguém como ele. Isso assusta até Miraya, que até então não se importava com a forma que Senzo se comportava de vez em quando.
Sem falar muito mais, ele sai andando entre o público, com um olhar sério e duro. Parece outra pessoa, ao menos para quem o conhece. E sem parar nem olhar para alguém, ele sai da feira, acreditando que foi um grande erro entrar lá dentro.
Fora do Centro das Almas de Ferro, ele encara o céu, com algumas nuvens quase a cobrir o sol. Provavelmente choverá mais tarde.
É o clima perfeito para o começo da formação de um homem.
Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari III
Capítulo 31 - Resmonogatari III
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
OOOOOOOOOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH YYYYYYYYYYYYYYYYYEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEAAAAAAAAAAAA AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH
Caraca, bicho. Prioridades primeiro.
Este capítulo foi uma obra prima. Já havíamos comentado sobre Senzo antes, e o fato do seu mau humor aparente poder ser facilmente dissolvido com algumas palavras gentis diz algo sobre ele, sinceramente. Lembro-me, certa feita, de ter criado um personagem semelhante, que pretendia ser mau, mas que, no fundo, era um verdadeiro gentleman. Severo Snape feelings.
E, cá entre nós: engenheiros sendo engenheiros. Qual é o problema com a droga de um anel que faz açúcar? Particularmente, como um cafeinólogo inveterado, bastaria que Udel criasse uma máquina de café que funcionasse sem café e voilà: teríamos chegado ao auge do desenvolvimento humano. Pobre Udel. Talvez a mãe dele nem seja tão feia assim.
Cara, é inenarrável o prazer de tê-lo de volta. Tão logo acessei o fórum e vi a atualização do tópico, corri até aqui, torcendo pra que fosse um capítulo novo, e não uma postagem postergando o seu retorno. E, oportunamente: Carlos, Carlinhos, Carlão, bah, tanto faz. Todos os três, que na verdade são a mesma pessoa, são excelentes escritores e são exímios criadores de personagens e narrativas. Já disse antes e repetir não mata: Bloodtrip é uma das obras-primas da seção.
Welcome back, old friend! Espero que, tão provisória quanto foi a retirada, seu retorno seja definitivo.
Conte comigo. Gratidão eterna por ti e pelo seu trabalho.
Olha esse Neal :lol: obrigado pelo comentário e pelos muitos elogios. Não que eu os mereça.
É bom saber que o capítulo foi tudo isso pra você, mostra que não estou escrevendo tão mal. Eu dei um certo esforço pra tudo sair ok, do começo ao fim. Notei que ainda tenho certa dificuldade com cenas de casal. Isso provavelmente porque não sou tão experiente no assunto (leia-se não tive vários casos de amor tampouco li trabalhos românticos o suficiente) e penso que estou cometendo algum erro. As melhores cenas mesmo são as que eu posso colocar ação seja através de palavras, seja através de porrada.
Senzo ser comparado ao Severo Snape até que faz sentido. Agora que você falou, notei certa semelhança entre os dois. Btw, mal tomavam café nessa época ainda, pois se você notar, a história está se passando muitos anos antes do caso atual com Nightcrawler. (Inclusive vocês já deveriam ter notado isso, tô jogando na cara já :lol:) A propósito, também adoro café e preferia que ele tivesse criado algo do tipo também, mas aí seria demais pra um estudante de 16 anos.
Obrigado mesmo por todos os elogios Neal, mas acho que você exagera um pouco. Ainda assim, se pensa dessa maneira, não irei te parar. Isso me incentiva a continuar com a história, e trazer pra cá o que planejei até então, que não se restringe a Bloodtrip. Basicamente estou confirmando uma sequência. E ela pode acabar sendo mais longa que a história atual.
Agradeço por tudo e espero que goste desse capítulo!
Citação:
Postado originalmente por
Senhor das Botas
HE IS BACK!
Enfim, assim como o Neal, fico feliz que tenha retornado xD. Agora, sobre o capítulo, conseguiu atiçar minha curiosidade mais uma vez, e isso sem um cliff hanger. Sério, essa p*ta personalidade do Nightcrawler, o seu jeito bem ácido de ser, que escreveu esse capítulo e acabou por encarnar na personalidade do Nightcrawler...
Continue Carlão. A história está por chegar em seu fim, e tenho certeza de que um fim glorioso ela terá, baseado em seus últimos capítulos, e mais importante, na história como um todo.
Salve Botas, agradeço pelo comentário e pelos elogios.
Agora, calma lá porra, chegou aqui mais perdido que cachorro que cai de caminhão de mudança. Esse capítulo em questão e suas partes não falam em nenhum momento de Nightcrawler. Aqui temos o personagem Senzo (que já revelei que é Soulslayer, um dos principais da Irmandade) e seus amigos e conhecidos. Estou contando uma história do passado e como ela se conecta com o presente. Eventualmente os pontos se ligarão.
Mas obrigado pela presença Botas, espero que continue comigo até o final da história. E depois dela também. Falta leitores aqui.
Pessoal, como disse na resposta acima, estou confirmando que Bloodtrip terá uma sequência. Em 2018 farei o possível para continuar escrevendo e não planejo parar. Estou aqui há cinco anos e planejo ficar mais tempo ainda!
Agora, vamos seguindo com a história de Senzo.
Espero que gostem!
No capítulo anterior:
Senzo está em seu último ano no colégio Centro das Almas de Ferro e está próximo de receber seu certificado de alquimista. Nuito se tornou um tutor para acompanhar os últimos anos dele. Senzo também conseguiu uma namorada chamada de Miraya, e ela tem apoiado ele em todas as suas criações. E no retorno da Feira Internacional de Maravilhas, o futuro alquimista humilha um dos inventores por ele ter entristecido Miraya, e por estar irritado com a admiração que tem ganhado dos alunos mais novos.
Capitulo 31 – Resmonogatari
Parte 3
Faz horas desde que a feira terminou, mas Senzo não saiu de sua casa. Sentado no banheiro embaixo do chuveiro*, ele nota seu medo por si próprio, bem como um leve desespero. Está confuso e nervoso. Viu seus únicos amigos o olharem como todos pareciam olhar para ele quando criança, em momentos onde parecia outra pessoa. Como se um alterego se levantasse das sombras para fazer o que ele não tem coragem.
Está escuro no banheiro. Isso ajuda ele a se lembrar dos rostos de todos. Até mesmo de sua amada, que estava assustada com ele. Eu sou assim?, pensa. Eu sou realmente assim?
Sim. Eu sou assim. Esse monstro sempre foi Senzo. Esse corpo magro e pálido, esse olhar perturbado, nervoso e louco. Isso tudo sou eu.
Mas eu raramente sabia disso.
Ele me fazia esquecer disso. Aquele maldito Nuito.
Ele me fazia pensar que eu sou alguém bom.
Eu nunca fui bom.
Duas vozes. Tons diferentes, tempos diferentes, mas o mesmo pensamento.
Senzo percebe que não pode ficar assim, recuado, sentado em posição fetal embaixo da água, pensando que seus problemas irão embora com o tempo. Isso é impossível.
Ele não é uma boa pessoa.
Com isso, ele se levanta, fecha os olhos por um momento, e abre-os de novo. Gira o registro do chuveiro e sai do box, com um olhar sério. Ele precisa lembrar-se daquela sensação de quando saiu do colégio, olhando para o céu. Não foi há anos, nem há meses, tampouco semanas. Foi há poucas horas. Não há dificuldade alguma nisso.
— Senzo! O amor da sua vida tá na porta! Se arruma direitinho pra receber ela! — Grita sua mãe, do lado de fora do banheiro.
Normalmente, Senzo sente uma mistura de vergonha com nervoso ao ouvir sua mãe mandar uma frase dessas. Mas hoje é diferente.
Hoje ele começou a mudar.
Passam-se alguns minutos e Senzo vai em direção da sala, arrumado, com uma camiseta branca e calças verdes. Lá, ele encontra Miraya e apenas ela, sentada num sofá laranja, usando a mesma blusa levemente roxa do encontro de meses atrás e uma saia roxa que vai até além de seus joelhos. Seu olhar parece preocupado, mas ela ainda assim dá um pequeno e gentil sorriso ao vê-lo. Por pouco Senzo não se derrete todo mais uma vez.
— Vem cá. Não vou te morder.
Um tanto ofendido, Senzo senta ao lado dela. Ele fita a mesinha de mármore em frente deles, com um tapete marrom embaixo. Em seguida, para as diversas lamparinas que iluminam bem o cômodo. A janela que dá para o corredor que vai para o quintal, no lado direito da casa, mostra as luzes fortes do lado de fora de casa, que se encontra envolvido por uma noite mais fria que o normal. É até possível que neve, considerando o período do ano.
Senzo quer ser mais firme, mas, como esperado, a garota não deixa. Ela repousa sua cabeça em seu ombro e o abraça. Nos segundos seguintes, era difícil prever o que iria acontecer.
— Miraya, eu...
— “Não sou bom”, é o que queria dizer?
As vezes o rapaz se assusta com a forma de como a garota o entende antes mesmo dele explicar alguma coisa.
— Bobagem. Você apenas se descontrolou. Não gostou de como o garoto agiu comigo. Normal.
— Aquilo não foi normal, Miraya...
A garota, no entanto, não responde. Isso dá um certo desconforto em Senzo.
— Não... Foi normal, sim. Aquilo era eu de verdade. Um homem cruel e sem coração, cujas falas são mais afiadas que o aço e machucam mais que mil espadas. Eu queria falar isso pra aquele garoto. Eu quis humilhá-lo. Eu quis vê-lo gaguejar. Ver seu ídolo fazer da sua primeira feira ser a última.
Miraya permanece sem responder, olhando para o chão. Senzo não vê opção senão continuar.
— Eu vou continuar sendo assim, e tanto faz o que falarão de mim. Ignorarei professores criticando minha atitude, minha personalidade. Os mandarei pro inferno e continuarei a ser o mesmo de sempre, sem amigos, sem ninguém. Vou terminar esse ano e sumir de Yalahar. Aqui não é mais o meu lugar.
Ele respira fundo, ao mesmo tempo que Miraya. Ela se afasta e deixa as mãos juntas as pernas. O jovem já sabia bem o que escolheu.
— Me desculpe, Miraya. Se não quiser continuar comigo, tudo bem. Eu entendo. Não sou dos melhores homens mesmo. Na verdade, sou só um garoto.
De forma abrupta, Miraya se levanta, e Senzo já imagina que ela irá embora sem falar nada. Ao invés disso, ela se espreguiça, vira-se para o rapaz e senta em seu colo, de frente para ele. Beija-o sem cerimônias, sem se importar que os pais dele estão por ali, dentro da casa. Sua irmã já deixou o lugar há tempos.
Ao deixá-lo, ela o encara com um olhar sério com um misto de desejo.
— Fique quieto. Não deixe essa aura viril que nasceu em você agora desaparecer.
— Hã? — Indaga o rapaz, totalmente confuso com o que Miraya estava fazendo.
— Estou dizendo que você foi muito sexy agora. Só isso.
Eles se encaram por alguns segundos, sem resposta.
— O quê? Será que você pensava que eu não era capaz de fazer ou dizer algo assim? Que eu sou muito comportada ou CDF pra tal?
— Eu... Nunca duvidei. Eu acho.
Miraya sorri e lhe dá um segundo beijo. E antes que pudessem perceber, já estavam no quarto, em cima de uma cama, com a porta trancada. Miraya está em cima dele, os dois se encaram sem fazer nada. Nem beijos, nem toques, nem uma peça de roupa retirada. Senzo está em total dúvida do que fazer em seguida, até mesmo do que perguntar. Mas tem uma ideia de última hora.
— Você... Já fez isso? — Pergunta o rapaz, curioso e confuso.
— Por que você não descobre? — Responde ela, com um sorriso zombeteiro.
E, felizmente, ninguém escutou nada do que veio a acontecer depois.
~*~
O ano é 330.
Por algum tempo, Senzo pensou que acabaria tendo um filho quando esse ano chegasse, mas nada aconteceu. Sua estadia em Carlin estava tranquila com Miraya, sem a necessidade de novos membros em casa.
Sentado na mesa do pequeno laboratório que construiu no primeiro andar da sua casa, ele olha para a carta de Nuito que acabou de ler. Deixou Yalahar um ano atrás. No mesmo período em que criou aquilo que está em pelo menos sete potes cheios, guardados num armário com portas de vidro. Aquilo que ele chama de Nancore.
Tanto a mesa quanto a cadeira onde está sentado foram criados a partir do material. Até mesmo a camisa social azul escura que está usando. Ele lembra-se de como começou a desenvolver tal mágica, e lembra-se do que estava faltando na sua explicação do Nancore, que se encaixava perfeitamente com o conceito da alquimia: A Lei da Troca Equivalente.
Dentro da história da alquimia, Senzo lembra-se do poderoso mago que um dia foi um grande cientista, conhecido pelo nome de Ferumbras. Seu nome é proibido e sua ilha extremamente temida. Senzo baseou-se nele, pois ele foi o criador da chamada Pedra Filosofal, que era usada para criar qualquer outra coisa por ser equivalente a qualquer coisa. O conceito do Nancore é igual: Ele é equivalente a tudo, ele cria tudo.
Ainda assim, ele não ousou chamar-se de Deus até agora.
Esteve vendendo as cadeiras, mesas e outros objetos que fez de forma disfarçada. Vendia para os principais vendedores de móveis de Carlin apenas para que eles revendessem, como se fossem os criadores. No fim, ele não se importa se tomarem o título da criação dos itens que fez, pois o que criou até então não se compara com o Nancore. Além disso, a venda desses itens dá dinheiro suficiente para ele e sua amada noiva viverem sem problemas. Mesmo que Carlin não goste muito de homens.
Alguém bate na porta. O pequeno laboratório tinha apenas uma mesa larga e duas mesas logo adiante vazias, além dos quatro armários de madeira nas paredes da esquerda e da direita. Nada a esconder. Com isso, ele pede para que entrem.
— Boa tarde. Estaria eu incomodando o futuro segundo senhor de Kharos?
Quem está ali é responsável pela Guilda dos Feiticeiros de Carlin. Alguém anterior a Lea. Bem anterior.
— Se não é Aria Ahrabaal. Entre.
A moça alta e magra entra no recinto e fecha a porta. Usa um vestido negro, uma capa verde-escura com vários ornamentos e sandálias brancas, além de vários braceletes de várias cores e um colar com um símbolo de uma fênix, por cima de outro, com uma moeda roxa. De cabelos negros e longos, um pouco mal arrumados, olhar sério e firme, essa mulher não passa um ar de elegância, mas sim de tensão. É como se ela fosse explodir tudo num instante, com um estalar de dedos. Mesmo que ela atraia um pouco de atenção com suas coxas e bumbum maiores que a média.
Embora Senzo não sinta medo dela, ele prefere manter-se reservado e de poucas palavras, em respeito a ela. Carlin dificilmente manteria a feitiçaria se não fosse por alguém com pulso firme e aura de poder. Puro poder. Até porque sempre correu rumores pela cidade que ela não podia ser derrotada, que sua força mágica era infinita. Entretanto, Aria sempre desmente esses rumores, alegando que seus poderes tem um limite. Embora ninguém tenha conseguido forçar ela ao limite até hoje.
— Diga, o que deseja hoje?
— Quis visitá-lo. E relatar algo importante, já que você é uma das poucas pessoas que confio.
— Certeza que não deseja nada? Sabe que posso lhe dar qualquer coisa. — Disse, tomando um pote pequeno com o mesmo líquido branco. Ele derrama um pouco do conteúdo na mesa, e em dez segundos, ele toma a forma de um sapato com asas. Botas de Velocidade. — Qualquer coisa.
Ela observa o calçado. Não pode negar que o poder daquilo era realmente tentador, e que deseja ao menos um pouco para fazer algo do seu agrado. Mas esteve resistindo a todas as ofertas do alquimista até então. Seu orgulho é mais forte.
— Não, obrigado. Certeza que já criou tudo que podia em Yalahar? Seus negócios em Carlin continuarão até quando?
— Aí que você se engana. Eles não acabarão. Permanecerei aqui com minha noiva o quanto for possível.
— Acredito que faria muito mais fora daqui.
— Por causa da rainha? Ah, não se preocupe. Se eu realmente tiver interesse em criar coisas melhores, posso ir para outro lugar. No momento, ainda estou testando o Nancore devagar e aos poucos. E como eu disse inúmeras vezes pra você, não sou um segundo Ferumbras ou seja lá o que você pensa.
— Ainda espero pela criação de um segundo Orbe da Natureza. E que você seja o cérebro por trás dele.
Senzo pigarreia e olha para o nada, ignorando o último comentário.
— Estive investigando alguém da casa dos Alarstake que foi para o tal mundo por trás do Orbe. Eu soube que essa mesma pessoa esteve observando você.
O homem levanta uma sobrancelha.
— Quem seria?
— Teros Jarili Alarstake. Ele é um espião e um bruxo formidável, também, sendo o sétimo na linha de sucessão da liderança da casa. Ele sabe que você é o alquimista renomado de Yalahar que trabalhou ao lado de Nuito, hoje um biólogo estudando espécies em Tiquanda. Caminhos totalmente opostos, devo dizer. Mas como as propriedades deles não ficam tão distantes de Carlin, é natural que coloquem os olhos em alguém como você.
— Por isso perguntou quando eu irei embora?
— Exatamente.
— Quem diria que em apenas um ano, você, a impermeável Aria, se preocuparia com o meu bem-estar ao ponto de pedir para que eu fuja. Estou realmente sem palavras.
— Não abuse do sarcasmo, Senzo. Sou uma mulher reservada demais para engolir palavras sem sentido.
— Perdão, não resisti. — Disse, com um pequeno sorriso. Está tentando não mudar a atmosfera da conversa — Além de Teros, há mais alguém atrás de mim?
— O detetive Cawlo Oraille, de Venore.
Conhecia esse nome. O próprio Nuito conhece o individuo, dizendo que ele é um dos melhores detetives que já viu, e corre por alguns lugares rumores de que ninguém jamais escapou dele. Ele engole em seco, batendo o dedo na mesa com agitação.
— Pois bem. Sairei de Carlin em dois meses.
~*~
Alguns meses após a audiência, Senzo habita agora Ankrahmun, lar das inúmeras pirâmides e casas de arenito, quente e inconquistável, protegido por antigos faraós e potência no sul. Além da Baía da Liberdade, é um ótimo local para comércio de tecidos e tapeçarias, bem como joias e diversos artefatos, riquezas como os vasos mais finos e os utensílios mais bem trabalhados para o lar.
Mas tudo isso é irrelevante para Senzo. Miraya sempre expressou um desejo por viver nessa cidade. Não poderia estar mais feliz decorando a casa onde vivem agora: Uma das pequenas pirâmides habitáveis, próxima do centro da grandiosa cidade desértica. O dinheiro pra consegui-la só foi possível após o alquimista conseguir, com sucesso, gerar uma falsa joia rara, de coloração púrpura, garantindo que foi um grande achado de um distrito abandonado de Yalahar. Vendida a preço milionário em Carlin, ele desapareceu em dois dias de lá junto com sua amada, desmanchando seu laboratório e sumindo com seus documentos no processo.
Agora, ele vende mais que mobília: Vende também pequenas joias, como se fossem achados de Yalahar. O mesmo relata para seus poucos – mas riquíssimos – compradores que trouxe-as da cidade dourada, local que quase ninguém dali visitou alguma vez na vida. Seu negócio atraiu até mesmo os olhares do grão-vizir, que convidou-o para um jantar, com o objetivo de discutir sobre assuntos e relatos da sua terra natal. Mesmo que o grão-vizir seja apenas uma múmia que não come nada.
A mudança foi positiva para Senzo, pois Nuito está vivendo em Porto Esperança. Cruzar Tiquanda não é uma opção, até porque ainda não há uma trilha definida que conecte ambas cidades em segurança, mesmo que já se saiba que elas ficam no mesmo continente. Dessa forma, essas cidades usam navios para chegar de um lugar até o outro.
Naquele dia em especifico, ainda no ano de 330, Senzo está recebendo Nuito, após ambos ficarem sem se falar por um bom tempo. Miraya está em uma casa de banho das redondezas. Tudo parece perfeito para eles.
— O Nancore realmente te gerou belos frutos! — Disse Nuito, sentado num sofá amarelo, na sala principal da casa — Essa casa é incrível. Na verdade, Ankrahmun é incrível. Mesmo que as vezes esse lugar pareça cheirar a morte.
— Normal para uma cidade que faz múmias atrás de múmias. E ainda é protegida por outras múmias. Já viu o Grão-Vizir? — Disse Senzo, sentado numa poltrona branca, próxima do sofá.
— Inclusive já vi o Faraó. Ele é bastante cultuado e respeitado aqui. Como se fosse um Deus.
Maldição. Ele atiçava desejos de poder que nunca tive.
— Deve ser bom a beça ser um Deus.
Senzo sente-se incomodado com algo no que acabara de falar. Talvez com o quão ganancioso pareceu.
— É, e existem vários deuses por aí. Por exemplo, Fafnar, o sol. Ela feriu gravemente a deusa do mar, Bastset, o que enfureceu seu irmão apaixonado pelo mar, Suon, fazendo ele a perseguir por toda a eternidade para se vingar. Por isso que temos ciclos de dia e noite. É minha lenda preferida.
— Não passa de lenda. Nunca acreditei nessas coisas.
— Você é ateu ou coisa assim?
— Pode-se dizer que sim, pode-se dizer que não. Nunca vi motivo para orar ou pedir benção dos deuses. Não tenho nada mais a reclamar de minha vida, Nuito. Eu inclusive não estou mais pensando em fazer alguma coisa depois do Nancore.
— Mas você poderia desenvolvê-lo mais ainda! E se você conseguisse moldar coisas ainda maiores que os simples itens que você faz? E se você conseguisse fazer até dragões surgirem do Nancore?
E se eu sou assim hoje, é TUDO culpa dele.
— Nuito, isso é loucura. Se esse poder cair em mãos erradas, o que você acha que vai acontecer com Tibia?
— Bem... — Balbucia Nuito, coçando atrás da cabeça — Eu admito que exagerei um pouco agora, mas o que eu quero dizer é que alquimistas sempre buscam melhorar, e nunca se acomodar porque já fizeram demais. Já te compararam com o Lorde de Kharos?
Por alguma razão, o ar pareceu mais pesado e até mesmo o chão parecia estranho. Como se vários corpos estivessem se movendo embaixo dele. Os faraós não gostam desses comentários, pensa Senzo.
— Já. E não planejo ser como aquele infeliz.
— Você poderia ser melhor do que ele. E eu estou disposto a te ajudar.
Senzo fica algum tempo calado. Depois, ele levanta e se dirige a janela, com os braços cruzados, pensando. Nuito estava com um pequeno pote de cerâmica no colo com alguns biscoitos, dos quais ele ia comendo sem se importar se alguém iria querer também.
O jovem alquimista está pensando sobre o Nancore, e que, de certa forma, Nuito está certo. Aquilo ainda não está completo. Falta mais pesquisa, mais testes, mais aprimoramentos. Sua invenção ainda está fraca, e ele está só começando. Afinal, enquanto ele esteve parado, Nuito esteve avançando como nunca antes, desenvolvendo curas e remédios para as mais variadas doenças que podiam ser pegas em Tiquanda ou em outro lugar, apoiando a medicina mundial e mapeando cada ser vivo que encontra por lá. Nuito esteve sempre avançando, mas Senzo se acomodou por ter conseguido uma mulher que o ama incondicionalmente e pela criação daquela invenção que cria tudo do zero.
— Verdade, Nuito. Eu posso ser melhor. Afinal, o Nancore não passa de uma invenção incompleta. Um criador de cópias.
— Nunca me passou pela cabeça que ela estava incompleta ainda, cacete. O que falta?
Senzo vira-se para ele com um sorriso. Um bem ganancioso.
— Exatamente o que você disse. O poder de criar dragões do zero.
Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari IV
Nota:
* Eu decidi que Yalahar teria uma tecnologia superior a todo o resto de Tibia, desde ter sistemas de encanamento e eletricidade até a criação de robôs e autômatos. Eu acredito que, caso eu acabe criando uma sequência, eu possa explicar melhor como os tibianos evoluíram, assim dando pano pra manga pra eu colocar algumas criações minhas em ação.
Capítulo 31 - Resmonogatari IV
Citação:
Postado originalmente por
Senhor das Botas
Salve Carlão.
Enfim, primeiro quero agradecer pela confusão. Confesso que tive de puxar da memória e reler algumas partes, mais especificamente as do "Hakugai" e do "Nightcrawler". Alguns trechos interessantes:
E AGORA:
Acho que deve ter sido aí a minha confusão. Não me lembrava de Nightcrawler, SUPOSTAMENTE, ter sido Nuito (um biólogo famoso, que acabou por virar um mago... Ou é o resultado de uma memória falsa, rs). Mas mesmo assim, após reler estou meio desconfiado do possível rumo que tudo isso pode tomar, e te conhecendo, não vai ser algo ordinário.
Enfim, embora a Irmandade seja composta de fanáticos que supostamente assassinam/matam tudo em prol de um ideal, e o fazem por quaisquer meios necessários, após dar uma relida nesses capítulos que mencionei, e nesses capítulos do passado de Senzo... Sei não, ainda acho que você vai brincar mais com o conceito de "bom" e "mau" e "os fins justificam os meios" mais a fundo, e creio que Varmuda ainda vai ter uma participação maior na história. Se não for maior do que já tem nessa, com certeza na continuação que você anunciou.
Enfim, espero que você não me engane na sua resposta, de que esses capítulos recentes não falem em NENHUM :stare: momento do Nightcrawler... E é isso. Estou incerto de minhas próprias interpretações do que está para ocorrer, e aguardo o desfecho de tudo :)
Diga aí Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
De fato eu te confundi por causa da Miraya se referir ao Suzio como Nuito, mas isso é pra criar um mistério e uma confusão na mente do leitor mesmo, principalmente por causa da Redchain e da esposa do Senzo serem a mesma pessoa, apesar de ter um século de diferença entre os tempos de cada história. Vou explicar isso detalhadamente nos próximos capítulos, e acredito que esse arco do Senzo ainda irá durar mais um pouco. Isso porque ele é um personagem extremamente importante pra história, embora eu não tenha deixado isso claro ainda.
Varmuda vai ter mais destaque só na próxima sequência mesmo, como você disse.
E não vou enganar não, relaxa. :batera:
Galera, feliz ano novo atrasado! Obrigado pela presença e pela contribuição que fizeram durante todo o tempo em que Bloodtrip esteve de pé. Fiquem com o primeiro capítulo de 2018!
No capítulo anterior:
Senzo aceita seu lado ruim e foca em desenvolver o Nancore. Vai para Carlin após se formar, mas Aria, líder da Guilda dos Feiticeiros de Carlin, sugere que ele vá embora pois ele está na mira de um detetive veterano. Ele leva Miraya para Ankrahmun pra viverem lá, e Nuito o visita. Ele sugere que Senzo comece a melhorar ainda mais sua invenção.
Capítulo 31 – Resmonogatari
Parte 4
Senzo deita em sua cama, frustrado.
O ano é 331. Nos últimos meses, o alquimista se dedicou a melhorar o Nancore, usando das mais variadas fórmulas e soluções para testar qualquer reação, mas o problema é que o líquido simplesmente aumentava de tamanho ao invés de mudar ou ganhar mais força ou poder. Apesar de ter leituras ou assinaturas diferentes em sua textura, mesmo que fosse totalmente diferente do Nancore em si, ele nunca mudava. Continuava o mesmo.
Pra piorar, o Nancore não gera criaturas vivas; apenas objetos inanimados. Senzo já tentou até mesmo ressuscitar uma múmia que conseguiu de um comerciante misterioso, dando-lhe o poder de sua criação, mas não funcionou. Tampouco zumbis ou qualquer morto-vivo ganhavam vida, apesar de estarem na terra dos mortos-vivos.
Sua criação também tinha tempo limite em sua criação. Ao analisar uma joia que ele criou há quase dois anos com magia, ele concluiu que o objeto não duraria mais do que doze ou treze meses sem virar pó.
Senzo está totalmente frustrado. Irritado. Desanimado. Sua criação é perfeita – Embora ela desapareça em pouco tempo, ela é perfeita em sua forma, sem precisar de mudanças. Não há como evoluir o que já é perfeito. Dessa forma, ele não sabe mais o que usar.
No meio de suas indagações, ele escuta um barulho no andar de baixo. O quarto onde ele está fica no andar superior, bem como banheiro e seu laboratório. O barulho pareceu ter sido feito exatamente abaixo de onde ele está – como uma espécie de biscoito esquecido abaixo do sofá. Mas, para esse som ser feito, é preciso primeiro tirar o móvel de cima.
Ou seja: Sua casa está sendo roubada.
Senzo levanta rápido, mas silenciosamente, e se dirige ao guarda-roupa de madeira à esquerda da sua cama. De uma das oito gavetas, ele retira um objeto do tamanho da palma da sua mão e prende na lateral esquerda de suas costas, protegida apenas por sua camiseta branca. Ele ativa o objeto movendo o braço. Célula de Ferro com uma lâmina afiada na ponta, pronta para ser usada.
Ele olha para Miraya. Ela está num sono profundo, como se estivesse livre de pensamentos. Apesar deles não terem tido um filho ainda, mesmo estando casados atualmente, e mesmo que ele próprio não dê muita atenção pra ela, ainda nutrem um amor de jovens difícil de ser derrubado. Um compreende bem o outro. E é por isso que Senzo sente muito medo de perdê-la, dessa forma, aumentando seu medo e preocupação quando nota que sua propriedade está sendo invadida por alguém.
Ainda preocupado, ele também toma um frasco de vidro com Nancore dentro para alguma eventual situação, e sai do quarto ainda em passos bem silenciosos. Está descalço e atento a sons. Sabe que o gatuno tomará mais cuidado agora que fez barulho, dessa forma, ele próprio precisa de cuidado redobrado para não ser notado.
Ele desce devagar a rampa de arenito para o andar inferior. Mal pode acreditar quando localizou o larápio fuçando um dos armários da sala. Um sujeito de turbante cinza escuro, calças brancas largas e cheias de estilo desértico, usando um gibão marrom de mangas longas. Está descalço, e na cintura, leva uma cimitarra. Tem uma mochila nas costas, provavelmente com algo roubado da casa.
Senzo mantém uma aproximação cautelosa, mas ao notar vidro no chão, juntamente de sua invenção, o Nancore, em pequenas quantidades – provavelmente algo que ele escondeu na cozinha para casos assim – ele irrita-se profundamente. Na sua visão, sua criação parece inútil pro ladrão, que simplesmente dispensou aquilo. Então, ele percebe que aquilo foi a origem do som. Um habilidoso ladrão que parece ter ignorado o valor daquela coisa branca.
Mas algo não parece estar certo. Por que diabos um ladrão jogaria vidro no chão de uma casa onde há pessoas vivendo, justamente enquanto está roubando, e nem mesmo pensa em ir embora?
Existem poucas coisas que se pode pensar nessa situação.
A primeira seria de que o gatuno não passa de um ladrão de galinhas, um pé de chinelo, que está tentando melhorar suas próprias habilidades passando de roubos simples como bater carteiras diretamente pra roubos domiciliares. Mas isso não parece fazer sentido, afinal, ele normalmente faria mais barulho que aquilo, e como Senzo ainda estava acordado quando ele entrou, provavelmente escutaria mais que um vidro se quebrando, mesmo se perdendo em pensamentos e achando que o barulho foi um biscoito sendo esmagado ao invés de vidro caindo. Praticamente impossível de ser o caso.
A segunda seria de que ele é um ladrão experiente contando com a sorte. Como Senzo fica boa parte do tempo no laboratório do andar de cima, um local com uma única janela que fica escuro boa parte do tempo, recebendo pouca iluminação, geralmente provinda de lamparinas e esferas luminosas, e Miraya dorme cedo, o ladrão aproveitou para ter menos cuidado, pensando que o casal está dormindo há horas e não acordará no momento em que ele agir. Isso fez ele ser mais descuidado. Muito difícil de ser o caso.
A terceira seria de que o ladrão não está se importando com o barulho que fizer. Que o ladrão não é um ladrão, e sim um bandido sem honra que sabe que está armado e sabe que o casal não conseguirá fazer nada contra ele. Mas um bandido não entraria sozinho numa casa daquele tamanho, afinal, ele não tem as mesmas habilidades de um ladrão renomado. Estaria acompanhado de mais gente. Pode moderadamente ser o caso.
A quarta seria de que o ladrão não está sozinho, e fez aquilo para atrair Senzo e emboscá-lo junto do companheiro. Entretanto, sabe-se que em Ankrahmun, os ladrões sempre agem sozinhos, justamente pra evitar serem pegos pelas autoridades por estarem acompanhados, assim dificultando as chances dele ser localizado. Nesse caso, deveria ser um assassino no lugar de um ladrão. Entretanto, um assassino não rouba casas, não faz barulho de propósito, não atrai ninguém até ele, tampouco usa uma mochila nas costas. Se o alvo está dormindo, ele não vai querer criar situações para matá-lo de outras formas, simplesmente irá ceifá-lo em seu sono de uma vez. Impossível de ser o caso.
A que sobra é a mais complicada e estranha possível. Um ladrão acompanhado de outro que atraiu Senzo de propósito para a sala, para capturá-lo, e ele está esperando em algum canto do cômodo para emboscá-lo, prendê-lo e então fazer o mesmo com Miraya para conseguirem saquear a casa e irem embora sem interrupções. É estranha, pois o alquimista não se destaca em Ankrahmun o suficiente para ser alvo de tal emboscada, e se caso ambos sejam ladrões e tenham essa inteligência e habilidade toda, é mais possível que sejam assassinos e ladrões ao mesmo tempo.
Parece que é o caso.
Senzo vira para trás em uma incrível velocidade e golpeia o escuro. Seu golpe é aparado por uma cimitarra, e feito isso, ele salta para trás, evitando pisar no Nancore. Sua visão periférica o faz se abaixar por reflexo ao notar que um dardo estava para ser lançado em sua direção, e ele percebe que está certo ao ouvir o barulho do objeto se chocando contra a parede. Com a Célula de Ferro, ele assume uma posição defensiva, conforme vê a aproximação dos dois indivíduos de turbante armados.
Ele está irritado, mas também com medo. Mal tem experiência de combate, apesar de Ember no passado já ter lhe ensinado algumas coisas sobre manusear espadas, arcos e defesa contra armas do tipo. Apesar de ter acertado em seu pensamento, é chocante notar que ambos estão armados e parecem querer matá-lo. Ele pode estar certo e errado no que pensou.
Felizmente, ele aprimorou algumas vezes sua criação, e adicionou algumas novas funções. Dessa forma, ele ativa uma pequena alavanca próximo da ponta do objeto, e a arma se abre nos lados e libera algumas peças de aço douradas que podem auxiliar na proteção de seu braço enquanto executa seus golpes. Logo, seu braço está envolvido por diversas peças de aço de formato retangular, e cada uma possui pequenos compartimentos para guardar dardos.
Os dois indivíduos se afastam. Em poucos instantes, ele começa a atirar vários dardos bem pequenos na direção deles, provavelmente contendo veneno. Ambos não conseguem evitar todos e acabam sendo pegos por alguns. Um deles se irrita e avança contra Senzo, aos grunhidos. Mas antes que ele pudesse realmente fazer algo com sua cimitarra, ele escorrega no líquido branco no chão, e o alquimista aproveita para golpeá-lo com a Célula de Ferro. Comicamente, o ladrão recuperou o equilíbrio ao ser golpeado.
A lâmina dá um tranco para trás e Senzo afasta seu braço, ao mesmo tempo em que o homem se afasta a passos dolorosos. Sangue sai de sua ferida, e ele se choca contra um sofá próximo, sentando no chão e deixando a cimitarra cair. O outro, ao ver a cena e o perigo da arma que o residente daquela pirâmide usa, decide desistir e tentar correr. Mas Senzo leva seu braço pra trás, como para pegar impulso, enquanto as proteções no seu braço se enrijecem e se afastam, e soca o ar, ao mesmo tempo em que sua incrível invenção se lança em direção do ladrão. A peça de ferro que lembra um tentáculo parece criar sua extensão sozinha, conforme se aproxima do alvo.
Ao acertá-lo na lateral das costas, a alça da sua mochila é cortada, fazendo ela cair no chão ao mesmo tempo que o larápio tropeça devido ao poderoso golpe da arma. Ele acaba caindo e batendo a cabeça na quina da janela por onde planejava sair, ficando inconsciente. Dois imbecis, pensa Senzo, enquanto sente-se mais aliviado que tudo acabou sem ele se machucar. As lições de Ember foram úteis, no fim.
Antes dele começar a ir em direção da mochila vermelha do homem, ele olha para o chão e vê algo estranho. Bem estranho.
O individuo ainda está vivo, apesar de estar sangrando consideravelmente. O sangue vai em direção do Nancore que ainda não foi espalhado pelo seu pé, e converte ele para uma cor vermelha. A forma dele parece ter mudado um pouco, ficando levemente mais macio e menos grosso. Não parece mais tão viscoso como outrora, e parece exibir pequenas veias escuras, parecidas com as humanas.
Boquiaberto, ele percebe o que aconteceu. O Nancore mudou de forma. O homem sorri ao notar que o sangue humano é o que falta para que o que era perfeito ficasse ainda mais perfeito. Mas sente-se horrível por dentro ao pensar que teria que lidar com sangue humano pra conseguir o que queria. Ele pode até lidar com doações dele mesmo, de sua esposa e de hospitais próximos com o fim de pesquisa; mas e se ele precisar de mais e não tiver de onde tirar? Se o sangue dele não for o suficiente, se sua esposa se recusar a dar seu sangue, se os hospitais se negarem a dar sangue para ele e ainda levantarem a suspeita dele ser um ghoul*?
Não há dúvidas. Ele vai começar a matar.
Então, não lhe resta opção. Pensara em chamar a guarnição da cidade para cuidar dos ladrões, mas teve uma ideia melhor.
— Muito bem... Mudança de planos. — Disse ele, com um sorriso sombrio no rosto.
~*~
A vida certamente não é uma maravilha.
Faz duas semanas desde a invasão a sua casa. Ele avisara Miraya sobre o caso, mas ao invés de falar o verdadeiro destino deles, ele simplesmente disse que chamou alguns guardas da Guarnição Ankrahmunita para tratar deles, uma vez que eles não foram mortos por sua arma. Diferente de Yalahar, Ankrahmun não tem leis que proíbam ferir invasões de propriedades, decisão tomada após o próprio faraó ter uma de suas relíquias roubadas de dentro de sua pirâmide por um ladrão lendário.
Mas a Guarnição nem mesmo saiu de suas delegacias para vigiar os distritos ou resolver casos de invasão. Pois Senzo manteve ambos ladrões cativos num depósito do sótão, acessível por seu laboratório. Ninguém podia ouvi-los gritar ou fazer grunhidos de dor, quando há tantos blocos de arenito grosso bloqueando os sons dos quartos. Os manteve alimentados por algum tempo, e também tirou o veneno de seus corpos, uma das razões para ele ter vencido o combate. Eles se preocuparam tanto com os dardos e o veneno que nem levaram em conta o quão bem armado Senzo estava. Queriam simplesmente acabar com aquilo logo.
O resultado é que ambos estão presos com cordas grossas envolvendo seus braços e pernas, pendurados por uma suspensão de madeira no teto bem resistente. Suas bocas estão tapadas por precaução. Existe muitos potes e vasilhas fechados sobre um balcão do lado direito do cômodo, todos contendo não só sangue, como Nancore.
Mas mexer com aquilo tem sido uma grande complicação para Senzo, pois o mesmo está agora deitado em sua cama, com uma febre intensa. Começou os experimentos há uma semana, mas o cheiro horrível que o novo Nancore exalava pareceu ter efeitos negativos sobre o alquimista, que está de cama desde então. Mas antes dos experimentos começarem, ele mandou uma carta para Nuito, dizendo que finalmente conseguiu aprimorar o Nancore, achando o que faltava. O biólogo agora está voltando o mais rápido que pode, acompanhado de Ember e dois novos amigos que fizera em Porto Esperança.
Esse grupo se reúne a frente da porta da pirâmide onde Senzo vive. Nuito bate com um pouco de força na porta, e é recebido por Miraya.
É um tanto surpreendente para ambos os lados se verem. Miraya está claramente mais bonita do que costuma ser, usando um belo vestido de alças roxo-escuro que vai até os seus joelhos, com um cinto negro na cintura. Usa vários anéis e braceletes de ametista em ambas as mãos, um costume de todas as mulheres bem abastadas de Ankrahmun. Sua pele está um pouco mais escura que antes, e seus cabelos estão mais longos, passando dos ombros, escuros como sempre.
Enquanto isso, Nuito está com o cabelo preso num penteado que cai em seu ombro direito e vai até próximo da lateral do tórax, e sua pele permanece tão parda como de costume, parecendo mais bela com seus incomuns olhos azuis. Usa um casaco branco, e por trás usa uma camisa negra. Veste bermudas de uma cor semelhante a âmbar, um laranja rústico, e sandálias. Ember parece mais diferente, pois seus cabelos ruivos estão curtos, e está usando uma camisa regata laranja junto de calças azuis de estilo desértico, bem como sandálias também. Leva seu inseparável arco e sua aljava nas costas, bem como duas facas e três punhais na cintura, dentro de bainhas feitas por ela mesma. Miraya olha pra aquilo e pensa se é realmente necessário vir para a casa de alguém armada desse jeito.
Os outros dois atrás de Nuito são dois homens, um de pelo menos vinte anos e o outro parece já estar dentro da casa dos cinquenta. Ambos tem cabelos loiros, enquanto o mais velho tem um porte grande e um grande físico. Usa uma armadura de prata e tem um Machado Nobre** na cintura. O outro, de porte mais comum, não está armado e usa somente calças comuns e uma camisa verde.
Nuito toma a frente de todos demonstrando animação.
— Boa tarde, Miraya! Como você está? Vejo que os anos tem te feito muito bem.
— Senzo não fez nenhum experimento estranho em você, né, Miraya? Tem vivido bem com ele? — Pergunta Ember, um tanto preocupada.
Apesar da animação por parte dos velhos amigos, Miraya não parece demonstrar nenhuma positividade.
— Senzo bem que podia parar com esses experimentos... Mas ele nunca me escutaria.
— Por quê? O que aconteceu? — Questiona Nuito, já desfazendo seu sorriso.
— Ele te chamou por causa da evolução da invenção dele, né? Mas ela não correu tão bem quanto você pensa. Entrem, por favor.
Nuito e Ember sentem a atmosfera de preocupação ao entrarem na residência, bem como os dois homens que os acompanham. Miraya fecha a porta e vai de encontro a eles, e Nuito aproveita para apresentá-los.
— Hoje ia aproveitar para apresentar pra vocês dois esses caras que conhecemos lá em Porto Esperança. Esse é Stevan — Disse apontando para o mais jovem, que cumprimenta Miraya apertando sua mão — Ele também é um biólogo como eu e esteve conhecendo muito sobre Tiquanda comigo. Conseguimos uma rota mais segura para evitar Chor graças a ele.
— Coloca muito mérito em mim sem tanto motivo, Nuito. Bom, não sou só um biólogo, sou também um arqueólogo e estudando para ser um cartografo. Espero colocar no papel toda Tiquanda algum dia.
— Deixe de modéstia, homem! Bom, esse grandão aqui é-
— Não é necessário! Não dependerei de suas palavras para me apresentar pra esta bela dama. Chamo-me de Agalberan Orrailo, mas pode me chamar apenas de Agal, se preferir. Meus amigos mais próximos me chamam desta maneira, e como é a esposa do genial Senzo, devo levar em conta sua importância, madame. É um grande prazer conhecê-la. — Disse orgulhoso e imponente Agalberan, estendendo sua mão para Miraya. Ela dá um sorriso um pouco vazio ao vê-lo dizendo essas coisas, e ao dar a mão para ele, ele beija a mesma com respeito e delicadeza, um cavalheirismo um tanto exagerado para um homem do seu tipo.
Ember cruza os braços e sorri de canto, enquanto fita Agalberan. Sabe muito bem que ele não costuma ser assim o tempo todo. Nuito ri, mas fica um pouco triste com a reação desanimada da moça.
— Ele é quase como nosso guarda-costas. É um explorador e experiente ferreiro, já foi alquimista no passado, e hoje em dia se dedica ao trabalho de arqueólogo. Ele estuda tanto lagartos quanto dworcs.
— E eu também ensino esse moreninho a lutar. Ele só se dedica a ficar pesquisando e pesquisando, quando a merda feder pra ele é capaz que ele corra com o rabo entre as pernas e ainda tropece e caia no meio da fuga. Quero evitar que isso aconteça.
Miraya assente com a cabeça e mantêm com esforço seu sorriso.
— Enfim, Miraya... O que aconteceu com o Senzo? — Pergunta Nuito, sério.
— Bom... Depois que ele começou os experimentos com a nova forma do Nancore, ele começou a sentir enxaqueca e enjoos frequentes, e agora está de cama, com uma febre alta. Ele já tentou manipular aquilo usando proteções no nariz e na boca, além de óculos especiais, mas mesmo que tenha resolvido, ele acabou desenvolvendo essa febre. Ele está muito fraco, mal consegue comer.
Nuito cruza os braços e fita o nada por alguns instantes, pensando. O ar fica um tanto tenso.
— Ele falou pra você como ele conseguiu evoluir o Nancore?
— Não. Disse que seria um segredo absoluto, e acabei concordando.
Nuito assente com a cabeça, ainda com uma expressão pensativa. Os outros três sentaram-se no sofá da sala, prestando atenção no assunto.
— Na verdade, agora que penso... Tenho concordado com tantas coisas a respeito dele que me sinto um pouco culpada. Ele sempre teve seu jeito, e desde que fiquei junto com ele, percebi que precisava respeitar isso pra deixar a relação confortável entre nós dois. Mas sabe, isso já está indo longe demais. Sabe... Eu tenho muito medo de perder Senzo para esses experimentos. Muito mesmo. — Disse Miraya, com uma voz pesada e de cabeça baixa.
Nuito põe sua mão em seu ombro. Está mostrando um semblante determinado, tentando passar coragem para a amiga.
— Fica tranquila, Miraya. Sério! Ele é assim mesmo, descuidado como uma criança, mas genial a níveis incalculáveis. Eu sinceramente tenho inveja dele por ter uma esposa tão boa e ainda conseguir criar algo que cria outras coisas. Mal me desce ainda que ele criou aquilo, hah.
Miraya sorri um pouco, grata por Nuito estar tentando animá-la. Ember fecha as mãos e as junta acima de suas pernas, incomodada com algo que Nuito disse. Mas mantém a seriedade.
— Vamos ficar na cidade por um tempo para ajudá-la. Mas também não iremos embora tão cedo hoje. Se importa?
— De maneira alguma. — Disse Miraya, com um sorriso um pouco mais animado.
— Agora, podemos vê-lo?
Miraya assente e leva todos para o quarto onde Senzo está. Ao encontrá-lo, notam como ele parece derrubado pela febre. Está deitado, mais pálido que o normal, com um pano sobre a testa e até um pouco mais magro. Nuito sente mais o impacto de vê-lo assim do que os outros. É quase como se estivesse vendo um cadáver.
Ele se aproxima do amigo, que parece estar acordado, encarando o teto. Ao notar Nuito, parece se animar um pouco mais.
— Ora ora, seu maluco. Será que vamos precisar te colocar numa coleira pra você não sair fazendo burrice? — Disse Nuito, com um sorriso.
Senzo sorri, mas não responde. Sua visão está embaçada e ele não consegue ver seu amigo direito. Ember aparece ao lado dele, mas Senzo não consegue ouvir o que ela está dizendo.
Miraya está na porta do quarto, junto com Stevan e Agalberan. Vê que Nuito está tentando o possível para animá-lo, esperando ver ele falando e dando suas respostas um pouco atravessadas de costume, mas isso não acontece. Senzo só concorda com a cabeça, com um esforço notável. Não faz ideia de como o marido acabou daquele jeito, só espera que ele melhore.
Ela se pergunta no que Senzo está pensando enquanto tenta interagir com Nuito.
A culpa é dele.
A culpa é dele.
A culpa é dele.
A culpa é dele.
A culpa é dele.
A culpa é dele.
A CULPA É TODA DELE.
Mas ela sabe que nunca vai saber. É muito difícil dizer o que Senzo está pensando.
~*~
Algumas horas depois, Senzo ainda está encarando o teto, sem melhoras. O pano em sua cabeça foi trocado, tomou alguns remédios e comeu uma sopa. Mas nada parece fazer efeito.
Ao se lembrar do Nancore novo que esteve manipulando, lembrou-se bem dos muitos gritos e expressões aterrorizadas dos homens que capturou. Ele não deveria estar sentindo pena dos ladrões que capturou, que inclusive tentaram matá-lo, mas está. Está porque está fazendo algo covarde com eles. Simplesmente pensou como algum estudioso yalahari já disse alguma vez: Tudo pela ciência.
Mas se a ciência é tão cruel assim, ele deveria rever seus preceitos sobre ser um alquimista.
Agora mesmo, ele sente que está sofrendo uma punição divina. Mal teve tempo de notar que seu experimento podia ser tóxico a outras pessoas. Esteve tão animado com os resultados recentes que nem pensou nos riscos ou problemas que sua invenção podia ter. Que, inclusive, renomeou para Akonancore, por quaisquer motivos. Não ia pensar nisso agora.
Mas se o potencial do Akonancore é infinito, ele ainda deveria testar tudo que aquilo é capaz de fazer. Mesmo naquele estado, ainda há uma coisa que ele é capaz de fazer.
Ele ouve um barulho no banheiro, não tão distante de seu quarto, e então o fechar de sua porta. Logo repara em Stevan passando pelo corredor, e tem uma ideia.
— V-Você! — Grita Senzo. Stevan olha pra trás assustado ao perceber quem o chamou.
Stevan vai correndo até o quarto. Ao chegar lá, Senzo tira forças do nada para começar a falar.
— E-Ei. Preciso q-que você me faça u-uma coisa. P-Por favor.
— Pode falar. É algum remédio que você precisa?
Senzo tem uma bela ideia.
— I-Isso. E-Está no m-meu... Laboratório, segunda porta à d-direita do corredor. É um p-pote com um líquido... V-vermelho. Estará na... Bancada... A direita d-da porta.
Senzo se cansa após falar tanto após tanto tempo em silêncio. Ele respira fundo.
— Espere um pouco, logo volto! Aguenta firme! — Disse Stevan, bem preocupado com o estado em que Senzo se encontra. Ele segue rápido até o laboratório.
Na cabeça de Stevan, ele está ajudando Senzo, indo atrás de um remédio para ele. Mas, na verdade, ele pode estar sendo cúmplice de um crime grave.
Ele entra no laboratório, um lugar cheio de armários com materiais diversos e muitos potes, bem como utensílios. Procura à direita algo que se encaixe na descrição que ele deu, e logo encontra um pote com uma tampa púrpura, sem nada escrito. O líquido é vermelho, mas seu centro é um pouco escuro. Ao pegar aquilo, ele escuta um grito.
Acaba pensando que é Senzo, por ser um grito masculino. Mas Senzo não tinha capacidade pra gritar.
Logo, ele sai do laboratório, fecha a porta e vai rapidamente até o quarto dele, preferindo ser rápido ao invés de ficar se perguntando sobre bobagem. Ao entrar lá, ele vai até o lado de Senzo, coloca o pote no criado-mudo e se prepara para ajudar Senzo a sentar. Mas, para a sua surpresa, ele está conseguindo fazer isso sozinho, mesmo que devagar.
Stevan pega o pote, mas Senzo toma de sua mão rapidamente, sem olhar em seu rosto.
— Obrigado pela contribuição.
Senzo abre o pote onde está guardado uma boa quantidade de Akonancore e vira-o garganta abaixo. Para a sua surpresa, aquilo não tem gosto. Ao terminar, joga o pote na cama e deita, fechando os olhos.
— Precisa de mais alguma coisa? — Questiona Stevan, agindo como se aquilo fosse normal e nada demais tenha acontecido, embora a atitude de Senzo tenha sido estranha.
O homem apenas mexe a cabeça positivamente, e Stevan decide ir embora para deixá-lo descansar, ignorando a estranheza de toda aquela situação. Odiava questionar o que tinha muito potencial pra ser bobagem. Mas talvez, só daquela vez, não haveria problema em questionar Senzo.
Ainda assim, ele vai embora do quarto e deixa Senzo sozinho.
Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari V
Notas:
*: Eu decidi que os ghouls serão como os vampiros de Ankrahmun. Agem praticamente da mesma maneira, apesar de vampiros não poderem andar a luz do sol. Aqui, os ghouls serão mais inteligentes.
**: Tradução livre para Noble Axe.
Capítulo 31 - Resmonogatari V
Citação:
Postado originalmente por
Senhor das Botas
Li e inclusive deu like no capítulo... Mas não deixei o mais importante, que é o capítulo. Enfim, vamos lá.
Meio que já comentamos de fora isso, mas... Sinto um cheirinho de briga feia, e creio que será Senzo x Nuito. Eu já meio que aguardo o resultado, já que se Soulslayer e Redchain aparecem no futuro (vulgo período presente em que a história ocorre), logo concluí-se que Senzo ganhou a possível batalha... E já que não é o líder, possivelmente obterá a maior das perfeições através do líder da Irmandade.
Enfim, creio que você está trabalhando o passado de Senzo por ele ser MUITO importante na história (e aparentemente é, pela invenção que somada ao sangue deve criar coisas... Cabulosas, rs). No aguardo do próximo capítulo, e minhas desculpas por não comentar imediatamente, Carlos senpai.
Diga aí Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Certamente virá uma briga daquelas por aí, a história está caminhando a passos lentos (eu diria rápidos, mas tanto faz) pra isso e também para o presente. Eu já tenho sentindo a necessidade de avançar logo as coisas, pois acabei fazendo o capítulo mais longo da história meio que sem querer. Mas acredito que no final tudo estará devidamente explicado e assim poderei avançar para o final de Bloodtrip.
E sim, ele é muito importante pra história, mais do que você imagina. Por isso parei para descrever direitinho a origem de tudo.
Obrigado pelo comentário mais uma vez, tava pensando que ia fazer double post. Agradeço a presença constante e espero que minha história continue te ajudando a continuar escrevendo!
Muito bem, vamos continuando com o passado de Senzo. No próximo capítulo já chegaremos no ponto crítico da história. Fiquem ligados!
No capítulo anterior:
Senzo descobre como evoluir o Nancore e começa a produzir algo diferente: O Akonancore. Mas isso acaba o deixando com uma forte febre, e para se curar, ele se aproveita da visita de Nuito para que um de seus amigos que não o conhecia direito lhe trazer o que ele acredita ser a cura: O próprio Akonancore.
Capítulo 31 – Resmonogatari
Parte 5
Dor.
Que dor.
Que dor lancinante.
Sinto centenas de facadas no meu estômago. Tenho a sensação que algo deseja sair. Um pequeno monstro. Ele irá rasgar minha barriga e sair triunfante coberto pelo meu sangue e tripas, e gritará o canto dos livres.
Mas não irei deixar que isso aconteça. Pois tem alguém assistindo. Alguém com olhos prateados e linhas com bolas vermelhas na ponta, de formato perfeito, todas onde acredito ser o seu rosto. Não sei o que é. Talvez seja um demônio. Talvez seja um deus.
Ele duvida de mim. Acha que irei morrer, vítima da minha própria criação, como um alquimista estúpido e irresponsável. Pois eu tenho uma mensagem para você.
Me assista.
~*~
O ano é 341. Já fazem dez anos desde o fatídico dia onde foi criado o Akonancore.
Senzo está recluso num vilarejo ao nordeste de Darashia. Ele se destaca devido a uma torre que serve de farol. O local é um porto que recebe gente de fora, mas frequentemente sofre ataques de minotauros piratas. Parece até piada. Touros marinheiros.
O local é levemente gramíneo e recebe estações generosas de chuvas e belas safras das mais variadas frutas e legumes que se desenvolvem em ambientes complicados como esse. É possível criar cabras e galinhas, e desenvolver certo foco pecuário. Tudo é vendido para comerciantes de navios vindos do continente principal, de Ankrahmun e também vai para caravanas com destino a Darashia. Enquanto aquele lugar desenvolve coisas básicas como essas, Darashia cria os mais variados tapetes e joias, e seu foco em tapeçaria o destaca, mesmo com o poderoso oponente ao sul.
Essa indústria funciona normalmente todos os anos, e mesmo quando o alquimista louco veio para aquelas bandas, nada mudou.
Isso porque ele está sendo caçado por crimes hediondos.
Senzo está recluso em uma casa que ele mesmo criou, nos ermos daquela região, próximo do mar. Sua esposa vive normalmente na casa, embora sinta saudades da pirâmide que possuíam em Ankrahmun. Apesar dela ter descoberto como ele criou aquela evolução do Nancore, ela simplesmente olhou no fundo dos seus olhos e disse a frase mais sincera que Senzo ouvira em sua vida.
— Tudo bem. Não vou te abandonar, pois meus votos de casamento foram os mais sinceros desse mundo. E me envergonharia em trai-los.
Senzo, enquanto está no pequeno laboratório que construiu embaixo da casa, salvo do calor por um dispositivo reprodutor de frio que criou, pensa nessa frase pela milésima vez após ter escutado ela oito anos atrás.
Ela é realmente muito boa pra mim. Nem parece que existe.
Ele se lembra dos muitos eventos desse período em que fugiu de Ankrahmun e ficou um tempo em Yalahar de novo. Nuito foi atrás dele há seis anos atrás, pois descobriu também sobre como o Akonancore é feito. Rapidamente o assunto virou rumor dentro de Yalahar, e era questão de tempo até ir para toda a sociedade mágica e inventora de Tibia. Ainda assim, o que causa mais choque é o fato de Senzo ter criado um item que cria outros itens, e não dele estar usando sangue humano para enriquecê-lo e desenvolver vida.
Os rumores sobre o Akonancore eram exagerados, como de costume. Diziam que ele criava inúmeros dragões para segui-lo e os destruía sempre que quisesse. Que ele criava os melhores equipamentos que existem em Tibia para enfrentar quem ousasse ameaçá-lo. Que ele podia criar asteroides e jogá-los em cima de exércitos para poder escapar.
Mas, de fato, Senzo já criou um dragão com o Akonancore. Assim como ressuscitou os dois ladrões que acabou matando depois que Miraya o descobriu. E os transformou em seus lacaios para conseguir os itens para a criação do Nancore em massa.
Senzo planejou muitas coisas. Queria mostrar sua criação para o mundo. Desenvolver o Akonancore de forma que não precisasse roubar sangue inocente. Naquela altura, ele já ganhou a fama de ghoul. E não falava mais com seus amigos há um bom tempo. Vive apenas com Miraya, sério e concentrado em seus objetivos, tentando fazer o Akonancore não depender de sangue e criar uma evolução útil pro Nancore.
Mas depois de tantas falhas, ele só pôde olhar para o caixote feito de porcelana combinado com alumínio na parede, com várias entradas finas na frente, por onde um ar frio sai, gerado a partir de um bloco de gelo que sempre se recria de novo. Um gelo com uma alma real presa dentro dele, gerada a partir do Akonancore. Pensa que foi uma invenção criativa e útil.
— Será que eu posso vender isso? — Sussurra para si mesmo, pensando. Nem mesmo deu um nome para aquilo. Só usa para resistir ao calor infernal do subterrâneo de Darashia.
Em meio a devaneios, nem mesmo notou que Miraya desceu para seu laboratório com uma bandeja de chá gelado. E que ela está agora na sua frente, servindo em copos para ele e para ela.
— Miraya... Nem reparei em você.
— Está no mundo da lua mesmo. Como esperado de um alquimista.
Senzo sente-se culpado, quase sentindo dores na barriga.
— Me desculpe por te arrastar por aí. Não te dei a vida que lhe prometi e ainda te dei o status de procurada. Sou um péssimo homem, um covarde. Correndo, fugindo, fazendo coisas erradas aqui e ali. Sinto-me muito mal por isso, de verdade. Comparado ao tanto que você me apoia e me ajuda, eu deveria ser capaz de fazer algo melhor por você, mas nem mesmo isso eu consigo fazer. Sou uma falha.
Miraya escuta-o enquanto bebe o chá. Deixa-o entre suas mãos e fita Senzo, despreocupada.
— Ah, Senzo. Por isso eu me casei com você. É uma pessoa que não importa quanto tempo passe, continua sempre a mesma.
O homem a encara com surpresa no olhar.
— Eu nunca busquei vantagens ao me casar contigo, seu palmito ambulante. Tudo que eu sempre quis é viver ao seu lado, não importa aonde ou como. Tampouco importa os fardos que eu tiver que segurar, nem os altos e baixos. Desde que eu esteja contigo, até o inferno será um paraíso.
Miraya aproxima-se de Senzo, passando por sua mesa. Ela põe seu copo nela, bem como o de Senzo, e senta em seu colo, abraçando-o.
— Tudo isso pois eu me apaixonei pela pessoa que está aí, dentro de você. Sua alma, sua personalidade, seu caráter. Não importa se você estiver matando ou salvando, você sempre será o mesmo esquisitão da academia que inventou o autômato mais lindo que eu já vi.
Senzo quase sente lágrimas chegarem aos seus olhos. Nem mesmo sua mãe fora tão amorosa.
Na verdade, ele nem se lembra mais do rosto de seus pais, tampouco de sua irmã. Nem dos amigos que tinha antes de entrar no Centro das Almas de Ferro. Para ele, tudo que restou foi Miraya.
Apenas Miraya.
Mas então, ele lembra-se do homem que o inspirou a ser como ele é. Ele se chama Nuito, e ele ainda está em Porto Esperança, lançando as mais variadas pesquisas e artigos sobre Tiquanda, estudando sobre Chor, Banuta e até sobre os misteriosos dworcs. Dizem que ele já até montou um Terror Bird.
Enquanto isso, Senzo criou a ferramenta que provavelmente Uman possui em seu trono, junto de Fardos, mas ela foi exposta ao mundo da forma mais incorreta possível, tornando Senzo como numa espécie de Ferumbras. Ele pode até pensar que ultrapassou seu amigo, mas ele está vivendo melhor do que ele.
Ou não. Afinal, ele não tinha alguém como Miraya ao seu lado. No entanto, isso realmente supera receber todos os prestígios de pesquisadores, exploradores e até governantes do mundo todo?
Miraya solta-o e fica encarando por algum tempo, com um sorriso no rosto, segurando seus ombros. Seus olhos esverdeados pareciam vidrados e apaixonados pelo rosto do alquimista, e seu corpo manifesta uma respiração forte, de alguém que está de frente com a coisa que mais ama.
Parece que a sua pergunta está respondida.
~*~
342 anos depois da vitória de Uman. Noite de primavera.
Miraya está deitada em sua cama, soando, respirando forte, contorcendo-se. Senzo está sentado ao seu lado, parecendo se arrepender de sua decisão. Dentes cerrados, olhos focados no pote que está em suas mãos. No fundo, há uma pequena quantidade de um líquido avermelhado, escurecido no centro. É possível ver desenhos de veias humanas nele.
Senzo está profundamente arrependido. E com razão.
~*~
Ainda em 342, Senzo concentra-se com a energia emanada do Akonancore, transformando-o aos poucos em dardos finos e afiados. Ele os dispara contra um alvo vinte metros a frente.
Miraya faz o mesmo. Ambos acertam quase toda a área próxima do centro do alvo. Eles sorriem um para o outro.
Agora, eles geram mais desse Akonancore a partir do nada e dão a ele a forma de lanças afiadas. Há runas inscritas nelas. Ao acertar o alvo, ela explode, liberando espaço para continuar o treino. Entretanto, isso suja o chão de sangue.
Isso porque os alvos são minotauros que eles capturaram no solstício de verão.
~*~
Nuito está reunido com Ember e um grande grupo de exploradores de Tiquanda na taverna na região norte de Porto Esperança. É noite, todos estão bebendo, mas com certa tensão devido ao assunto da vez.
— É possível que Edron decida agir sobre Darashia. E se for o caso...
— Com certeza haverá guerra. — Disse Stevan, seguindo o raciocínio da maioria dos exploradores. — Se Venore decidir apoiar Edron, Thais vai acabar botando os olhos nessa guerra. Vai envolver Porto Esperança, também.
— Isso é exagero! Por que Thais se envolveria nesse assunto? — Pergunta um dos exploradores, tenso.
— Tem coisa envolvida que é de interesse dos thaianos, Braghen. O que Senzo criou pode mudar Tibia radicalmente. — Disse outro explorador.
— E os thaianos vão realmente guerrear com Venore pra por as mãos no Akonancore?
— E você acha que não?
— Pois eu acho que Carlin vai se envolver nessa merda e aí que vai explodir tudo. Uma guerra mundial! Já pensou?
— Só terão a perder! Como se Carlin e Thais tivessem navios rápidos e fortes como os de Venore! Vai ficar entre Venore e Edron pela hegemonia do mar local e das relações com Darashia! Eles fabricam as melhores riquezas de Tibia!
Todos os exploradores discutem acalorados a situação atual. Mas parece que Nuito está bem distante dessa atmosfera.
Ele está no balcão da taverna, onde apenas Ember e um caçador estão sentados com ele. Nuito não consegue entrar na conversa simplesmente por estarem discutindo sobre o seu melhor amigo. Ele mal pode dizer se Senzo de fato é seu amigo ou não, já que faz anos desde uma péssima discussão que tiveram – e foi a última, também. Eles não se falaram mais, e Senzo parece ter se escondido em algum lugar de Darashia, embora os habitantes da cidade digam que não viram ninguém parecido com ele por lá. Então, não há como contatá-lo.
Faz cinco anos desde que o Akonancore foi revelado para o mundo. Senzo já era chamado de “O Neto de Ferumbras” em Yalahar e em Edron, principais núcleos de magia de Tibia. No continente principal, Thais e Venore expressam um interesse disfarçado no que Senzo criou. Embora ele use sangue humano, poucos comentam a respeito disso.
É quase como se todos pensassem como Senzo.
— Nuito.
Ember acorda-o de seus devaneios. Ele vira-se para trás e nota na elfa fitando-o.
Olhar para ela não parecia mais a mesma coisa que antes.
Ela está sempre usando regatas e blusas finas quando não está na selva. Seu cabelo cresceu de novo, está preso numa caprichada trança, e ela não usa mais a trança para tirar a atenção dos eventuais decotes que ela usa. Ela também está usando uma tiara florida, feita de algum material leve que lembra porcelana. Entretanto, aquilo não parece ser o maior destaque.
Ember está usando saia. Uma saia florida.
Por mais que elas não sejam pequenas, é realmente estranho alguém como ela usar esse tipo de peça de roupa. Mais que isso, ela sempre usa roupas finas e soltas quando está próxima de Nuito, e sempre o olha fundo nos olhos, não escondendo nada de seu corpo com os braços. É quase como se ela estivesse gritando por dentro “Ande, rasgue tudo isso de uma vez, estou cansada de dar sinais!” ou algo assim. Obviamente é um pensamento indecente, mas não há como não pensar nisso. Além disso, ela praticamente não mudou nada desde quando ele tinha 15 anos. Elfos demoram muito a envelhecer.
Nuito tem dado muita atenção as suas pesquisas, mas talvez ele devesse dar uma chance para coisas assim, como Senzo fez há mais de dez anos. Mas, como previu, não é sobre isso que Ember quer falar.
— Sim?
— Esse papo todo sobre o Senzo te aborrece bastante, não é? Pode falar.
— Bem...
Nuito olha para os dezessete exploradores reunidos em duas mesas de madeira, conversando ativamente sobre Senzo e sua criação.
— Incomoda mesmo, mas o que posso fazer? A culpa é dele, afinal de contas.
— A culpa provavelmente não é dele.
— E de quem seria?
— Sua.
Nuito sente um calafrio correr pelo seu corpo.
— Nuito, você sempre incentivou o Senzo a ir longe e eu sempre achei isso errado. Ele tem potencial para fazer maravilhas, assim como tem o potencial de fazer catástrofes. É a balança da vida, como diria os arcanistas de Ab’Dendriel. Se ele está escondido em Darashia, fazendo sabe-se lá o quê com o Akonancore, e ainda por cima envolvendo Miraya nesses experimentos, a culpa não é só dele.
— Isso não tem nada a ver, Ember. Senzo sempre teve essas ideias, o que eu fiz foi encorajá-lo, como um bom amigo faria. Mesmo sem saber o que ele realmente queria fazer.
— E não acha isso um erro terrível? Se sabia que Senzo podia causar essas coisas, por que nunca reconsiderou sobre apoiá-lo?
— Quem faz as escolhas é ele, não eu!
— Acorde, Nuito! Senzo era um rapaz solitário que mesmo tendo amigos, nenhum deles o compreendeu, apenas você! Pois ele sempre te admirou! E nunca foi difícil notar isso, mesmo com Miraya me dizendo!
Miraya e Ember eram amigas próximas. Talvez por isso que Ember está dando essa bronca nele.
— Eu não entendo. Ele me pedia opiniões, eu as dava. Ele queria fazer algo bom, um projeto interessante, e eu o ajudava, pois eu era o melhor amigo dele! O que fiz de errado?
— E se ele tivesse a ideia de engolir o Nancore, mesmo correndo o risco de morrer, mas falando que as probabilidades disso acontecer eram nulas, você o apoiaria mesmo assim?
— Mas o que é isso que você tá me dizendo, Ember?
— Eu estou seguindo a porra do seu raciocínio!
Nuito já está notavelmente irritado.
— Vai pra casa, Ember. Já estou farto desse assunto.
Ember pensa em responder, mas vê que aquilo não iria mudar nada. Já estava feito. E se tinha algo que a longevidade élfica lhe deu, é não criticar alguém por erros do passado. Afinal, é o passado.
— Que seja. Mas se um dia você decidir ir atrás dele, não irei te ajudar. Sabe bem do que fez.
A elfa sai do banco e vai a passos largos para fora do estabelecimento. Nuito respira fundo e vai até os exploradores pra tentar mudar o assunto.
— Eu conheci o cara, mas ele não era muito gentil, era meio estranho, na verdade. — Disse Stevan, lembrando-se de quando interagia com Senzo, dez anos atrás. Nuito lembra-se bem disso.
— Ele já quis seu sangue ou algo assim? Tinha a aparência de um ghoul, ou de um vampiro? — Questiona um dos exploradores, curioso.
— Tinha mais a aparência de um vampiro. Mas tinha uma esposa linda. O problema é que quando eu o conheci, ele já era envolvido com o Akonancore.
— É? Viu ele fazendo algo estranho?
— Vi. Uma vez ele me mandou pegar um pote com um negócio vermelho esquisito no laboratório dele. Ele disse que era remédio, mas tinha mais cara de... Akonancore.
— Espera. — Disse Nuito, chamando a atenção de todos. — Você deu Akonancore pra ele beber?
— Ele me pediu, ué. Virou tudo de uma vez, mas isso o salvou de uma febre. Não se lembra que quando o conheci, ele estava de cama?
Nuito sente seu coração bater mais rápido e o sangue ferver com força, avançando pelas suas veias como cavalos furiosos na chuva. Senzo já o disse no passado que beber aquilo era ficar a um fio da morte. Mas que o fez se tornar justamente o que ele era agora. Ele tinha o poder da criação na palma das mãos, e essa foi a principal razão deles terem brigado. Agora, ele sabe quem começou tudo, e quem foi o responsável por afastá-los.
Não foi ele, tampouco Senzo. Foi seu próprio amigo.
Nuito pula em cima da mesa e salta pro outro lado apenas pra pegar Stevan pela gola da camisa e levantá-lo.
— E VOCÊ ACEITOU?
— Ei, Nuito! — Protesta um dos exploradores. Mas ele não dá ouvidos. Stevan parece bem assustado, como os outros.
— Espera aí, cara! Eu não sabia que o Akonancore era aquilo! Nem você sabia da existência daquela merda, não é?
Nuito solta-o, mas soca seu rosto logo em seguida. Os exploradores se levantam rápido e o afastam de Stevan, mas ele não resiste. Ele simplesmente dá as costas para todos e vai até a saída, sobre o silêncio e olhar dos seus amigos e parceiros de exploração.
Antes de sair, ele olha para Stevan, que se levantou e agora passa a mão pela boca, onde levou o soco.
— Espero que esteja feliz. Você condenou o meu amigo.
Ele fecha a porta de madeira com um estrondo. Sem opções, se dirige até a sua casa.
Sabe que a hora de abrir aquele quarto chegou.
Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari VI
Capítulo 31 - Resmonogatari VI
Não irei esperar comentários dessa vez. Como disse, estou me esforçando para terminar logo essa história, então assim o farei.
No capítulo anterior:
Senzo passou os últimos anos fugindo de pessoas que o queriam vivo devido a revelação do Akonancore. Seu único apoio é Miraya. Já foi revelado ao mundo que a criação dele existe, e Nuito busca solucionar isso para dar paz ao seu amigo.
Capítulo 31 – Resmonogatari
Parte 6
Nuito surpreendeu a todos em Porto Esperança quando disse que iria se aposentar da sua vida de biólogo e explorador. Mas é mais fácil dizer que ele chocou muito mais pessoas do que as daquela colônia.
Embora um de seus melhores amigos, Stevan, tenha ido tentar se desculpar com ele, isso não surtiu efeito, tampouco mudou seus planos. Senzo era mais importante no momento. Nesses momentos, certamente Agalberan derrubaria todas as árvores de Tiquanda se fosse possível apenas para que os dois se reconciliassem e tudo voltasse a ser como antes.
O problema é que mortos não podem fazer nada senão continuarem mortos.
Agalberan morreu há quatro anos, vítima do veneno de um inseto da selva, e desde então, a vida de explorador não tem sido mais a mesma para aquele grupo. E agora que Nuito está indo, é possível que a maioria deles deserte e volte para as suas casas. Embora eles já tenham feito um mapa enorme de Tiquanda e conseguido definir uma rota entre Porto Esperança e Ankrahmun, ainda há muito naquela selva que não foi descoberto ainda. Mas Nuito não está mais interessado nisso.
A partir do navio que zarpará para Edron, ele fita todos os seus companheiros e alguns habitantes da cidade despedindo-se dele. Vê que o tempo que passou lá foi ótimo, e que lhe deu muitas amizades valiosas, além de muito conhecimento. E de canto, ele percebe Ember fitando-o com um rosto triste. Seus olhos pareciam mostrar que ela queria dizer muita coisa. Muita coisa mesmo.
Mas ela não queria partir de Porto Esperança e provavelmente comandaria os exploradores até que todos eles desertassem. Além disso, também sente que não conseguirá ajudar Nuito, até porque ele não explicou direito o que queria fazer em Edron e o que faria com Senzo após tantas notícias negativas a seu respeito. Dessa forma, ela simplesmente o vê partir, acreditando que não o verá mais.
Ember sente que se Senzo não existisse, tudo seria melhor. Mas não há nada que ela possa fazer a respeito, já que ela não é uma assassina.
~*~
Nuito chegou em Edron depois de semanas de viagem, durante uma manhã. O local é realmente distante, mas chegar lá acabou valendo a pena. Vestido de um Parka* verde escuro com uma única camisa vermelha por trás e com calças largas, além de possuir uma mochila verde com uma bolsa laranja logo acima, sua bagagem é leve, mas importante.
Ele atravessou a cidade interna e externa e se dirigiu rapidamente para o norte da ilha. Não conhecia ninguém lá, embora já tenha visitado o local, assim, sabendo aonde ir e aonde não ir. Ele passa pelo monte de wyverns, evita o bosque à direita para não ser atacado por bandidos e segue um caminho reto e direto até uma grande clareira exatamente no norte da ilha. Está entardecendo, e percebe que perdeu o dia todo somente para encontrar aquela região.
Ali, podia-se encontrar um lago sagrado, cujo acredita-se purificar a região e permite que os animais cresçam mais rápido e não fiquem doentes com facilidade. Humanos que tomam dela também ficam imunes a doenças por um tempo.
Infelizmente, aquele lago é o seu alvo.
Nuito pega uma pá pequena da sua mochila e também coloca ao seu lado um machado de lenhador e uma bolsa laranja. Ele cria um buraco relativamente fundo, onde ele acredita que possa estar correndo a água do lago para o subterrâneo. Em seguida, o biólogo pega um frasco, com um conteúdo que ele guardou no tal quarto por anos, com uma restrita magia de selamento. Ele tinha medo do que aquilo podia fazer, por isso tomou várias medidas para guardá-lo. Mas parece que chegou a hora de dar uso para aquilo.
Ele derrama o líquido vermelho no buraco e enche-o daquilo. Fecha o frasco e coloca-o na bolsa.
— Espero que dê certo. — Murmura para si mesmo Nuito, enquanto bastante tenso.
O Akonancore tem inúmeros efeitos, e pode ser usado para criar qualquer coisa. Qualquer coisa, pois nem mesmo Senzo sabe os limites daquilo. E para usá-lo e dar utilidade ao líquido, basta tocá-lo e dar a ele o seu desejo. Mas no momento, Nuito não quer nem se imaginar tocando naquilo, e deixará ele ali para cumprir um simples experimento.
Após isso, ele vira-se para as árvores próximas dali, e em seguida, olha para a clareira.
— Ao trabalho.
~*~
Nuito está ali há pouco mais de cinco meses. Construiu uma cabana próximo da floresta mais ao norte, mas que ainda está bem distante do oceano, no extremo norte. Não está tão longe do lago, e sabe que aquilo pode ser perigoso. Por precaução, ele iniciou, há um mês, a construção dum pequeno posto avançado acima de um monte não tão longe dali.
Há tempos ele escuta rumores sobre lobisomens, mas sempre saiu de noite sem dar de cara com nada. Alguns diriam que ele está brincando com a sorte, mas ele simplesmente está sendo lógico, como todos os cientistas são. Mesmo que ele esteja num mundo de fantasia.
Ele regularmente vai a Stonehome, ao leste, para comprar comida. Por ser um vilarejo simples, há várias pessoas que o conhecem. O inverno já começou e a região está coberta de neve, mas ele não se deixa intimidar. Está bem protegido do frio e seus pensamentos técnicos evitam que ele se preocupe com coisas banais como a temperatura.
Quando ele observa o buraco, ele nota que a temperatura não faz diferença para o Akonancore também. Ele sumiu do buraco, mas parece estar, de alguma forma, impregnando-o. Recentemente, ele começou a fazer alguns buracos próximos do primeiro, e acabou de notar que a terra está ficando viscosa e avermelhada. Nota também a estranha presença de pequenos vermes avermelhados correndo por debaixo da terra.
Mais meses se passam, e ele nota, a partir do seu diário, em sua cabana de madeira não tão bem protegida de criaturas da noite, que ele está há um ano e três meses ali. Na sua última ida para Edron, conseguiu a notícia de que Senzo fora visto fora de Darashia, em algum lugar de Venore. Nenhuma guerra se iniciou entre as nações. Aparentemente, ele fez isso para evitar conflitos inúteis, mas em compensação, ele e Miraya estão sendo caçados como demônios por todas as autoridades do continente. Nuito não consegue deixar de ficar triste, mas não pode sair dali para ajudá-los. Afinal, o que está fazendo ali é justamente para ajudá-los.
Ao olhar o lago, nota que ele já perdeu sua coloração. Está cinzento e não há como ver o fundo dele. A região em volta dele está com uma grama avermelhada. Vermes estão andando sobre a terra. Há pouco, viu algo parecido com um fantasma dentre as árvores.
— Parece que está tudo indo bem.
É esquisito dizer isso para si mesmo após destruir um lago considerado sagrado, mas ele não teve escolha. “Tudo pela ciência” é o que ele normalmente vem pensando ao ver o que está fazendo.
Mais tempo se passa, e agora ele está no segundo ano de pesquisa, em 344. Ele terminou a pequena torre emergencial acima do monte próximo de sua casa. Em sua cabana, ele possui aljavas cheias de flechas com pontas explosivas, bem como uma Lança de Dragão, que ele comprou recentemente em sua ida para a cidade. A situação a sua volta começou a ficar complicada.
O Akonancore, de fato, é destrutivo e corrosivo quando não é usado e tampouco selado corretamente. Agora, toda a área ao redor daquele lago está com uma grama vermelha crescendo; As pedras e rochas ao redor mais lembram um cérebro cortado ao meio, com centenas de aberturas no formato de uma bola. Mesmo com esse visual, não passam de minérios duros e sem vida. Ao menos é o que Nuito espera que seja.
As árvores também foram vitimas. O tronco perdeu as cores e as folhas ficaram vermelhas. Os passarinhos que sempre ficam nessas arvores agora tinham um ou outro olho crescendo na barriga. Cipós que as vezes podiam ser encontrados naquelas árvores por elas serem muito antigas, agora mais lembram um intestino jogado em cima delas. A quantidade de vermes abaixo de pedras e dentro dos buracos quadruplicou, e agora eles estão bem maiores. Eventualmente ele sente a terra tremer, como se algo estivesse correndo logo abaixo.
A água está avermelhada e lembra sangue. Agora, é possível encontrar peixes esquisitos com placas avermelhadas pelo corpo, com presas enormes na boca. Há outros peixes maiores que eram inofensivos, mas a textura de seu corpo lembrava a de um coração.
Nuito olha para o céu acima dele. Ele está cinzento, mas as nuvens pareciam levemente avermelhadas.
Ele está ainda um pouco chocado.
O efeito corrosivo daquilo era surreal. Agora mesmo ele está criando um bioma próprio, com sua própria flora e fauna. Aparentemente, aquilo era só o começo, e o bioma ainda não se desenvolveu totalmente. Além disso, ele ainda não conseguiu o que queria ali, mas sente que em breve conseguirá.
Com lança em mãos e arco e aljava nas costas, ele continua observando os arredores. Está frequentemente vendo fantasmas com formas nem um pouco humanas próximo das árvores. Sente que não demorará mais do que alguns meses para eles começarem a atacá-lo, bem como os peixes do lago.
Como não encontrou grandes perigos na região, ele decide voltar para sua cabana, principalmente porque já estava anoitecendo. Ele deixa o arco e a aljava ao lado da porta e se dirige a sala. Nota uma presença nela assim que põe o pé nela. Felizmente, ele ainda não guardou sua lança, da qual coloca em suas mãos.
Algo que mais lembra um fantasma está parado próximo da porta que leva ao pequeno depósito que construiu para pesquisar o bioma. Não consegue ver direito a figura, que está encapuzada. Ele aponta a lança, sem dizer nada. Pensa que é um dos larápios que vivem atacando aventureiros nos bosques do leste, mas a figura é sombria demais para ser um simples bandido de floresta.
Ela vira-se para Nuito e seus olhos são visíveis, apesar da escuridão na cabana. Cor de âmbar, vorazes e furiosos, eles despem Nuito de sua firmeza e coragem, e o banha com o medo e o terror. Algo assim não pertence a aquele lugar.
— Cure a terra antes que seja tarde demais.
Num piscar de olhos, a figura desaparece. A lança de Nuito cai no chão e ele não consegue tirar de seu rosto a expressão de horror que formou quando seus olhos encontraram os daquela figura. E o aviso que lhe foi dado parece ainda pior.
Ele não tinha pensado em como curaria aquele lago antes. E isso foi um grave erro.
Em seu diário, ele já está marcando quatro anos. Mesmo que o tédio tenha quase lhe tirado a determinação no início, desde que a grama começou a ficar vermelha e desde que os habitantes de Edron começaram a criar suspeitas em cima dele, as coisas deixaram de ficar tediosas, e cada dia tinha a cara de ser um novo dia de vida.
Ele criou uma ponte entre o teto de sua casa e a pequena torre acima do monte e fez estacas longas de quase dois metros para segurar a ponte de um lado a outro, além de ter conseguido criar calhas para as chuvas, colocando espinhos ao lado delas por questões de segurança. Boa parte do seu tempo na cabana é ficando no teto, que ele planificou, com o objetivo de ficar ali sem cair e sem ser pego pelas criaturas que o bioma do Akonancore criou.
Agora mesmo, ele está acima do teto, e sua aljava leva flechas flamejantes mágicas. Está fitando o comportamento de uma das criaturas que surgiram no local do lago, cuja está há noventa metros de sua casa.
Ela tem uma aparência humanoide. Embora tenha um corpo normal de um homem, seu rosto é bem maior. Ele parece ter cabelo, mas este é feito de carne. E ele não possui rosto.
Onde deveria estar o seu rosto, está apenas a forma vaga de um. Há uma cor carmesim muito clara sobre o que deveria ser seu rosto. O resto de seu corpo leva uma cor avermelhada e estranha, e ele se move devagar. É inofensivo, embora Nuito tenha seus motivos para acreditar que aquela criatura logo surgirá em bandos e começará a atacar sua cabana.
Mais adiante, próximo de uma colina que existe ao lado do lago, está algumas criaturas diferentes, que lembram fantasmas. Elas flutuam, não possuem pernas e o formato de seu corpo mais lembra um cogumelo. A parte inferior é redonda, o meio possui um tronco levemente humano com braços e a superior lembra a da criatura sem rosto, com uma parte de sua cabeça sendo feita de carne fresca.
Nuito deu nomes para as criaturas, como normalmente fazia em Tiquanda. A primeira se chama de Inexpressivo ou de Homem Sem Rosto, e a segunda de Ordinário. Não conseguiu tirar informações dos vermes porque eles são estranhamente agressivos e Nuito não faz ideia de como capturá-los. Conseguiu apenas coletar um que lembra uma lesma com um olho vagamente humano saltando por um fino tentáculo da parte superior de seu corpo. Ele apelidou a criatura de Olheiro.
A grama está com uma cor mais intensa de sangue. Todas as formações rochosas lembram carne fresca e órgãos cortados ao meio, embora estejam fortemente endurecidas. As folhas nas árvores lembram plantas carnívoras, com bocas cheias de dentes de cor semelhante ao carmesim. As árvores parecem ter rostos. As plantas e flores conseguem andar sozinhas, possuem presas e espalham poros no ar de cor quase alaranjada. O lago é praticamente sangue fresco. Os peixes estão conseguindo saltar pra fora do lago e criar pernas e braços, eventualmente virando os Inexpressivos que ele viu antes ou algo pior que Nuito ainda não encontrou na superfície.
De cima do telhado, ele lê um dos sete livros que ele usou para escrever durante o tempo que esteve ali. Três deles servem para ele escrever suas memórias e conhecimento, caso ele morra lá e alguém tenha curiosidade de saber quem foi o biólogo que se arriscou naquele lugar – E isso também para caso ele não consiga curar aquela terra. Um deles destaca memórias sobre sua temporada de exploração e pesquisa em Tiquanda. Fala sobre Agalberan.
“Já faz anos desde que ouvi a trágica história que marcou a adolescência de Agal. Ele possuía dois irmãos, e o mais velho tinha ido morar com sua esposa em Venore, enquanto ele, seus pais e seu irmão continuaram vivendo em Thais. É num período antes dele decidir pegar suas coisas e abandonar seus pais para ir para Rookgaard e de lá partir pra Porto Esperança. Mais exatamente, o caso que o levou a Rookgaard.
Seu irmão era estranho. Seu pai, seus tios e até sua avó diziam que ele era afeminado, e provavelmente gostava de outros homens. Ele sempre achou aquilo uma completa bobagem e achava que apenas faltava umas boas seções de treino pro rapaz. Ele só tirou a prova disso quando entrou no quarto do irmão um dia e encontrou uma cena que ele mal conseguiu descrever direito pra mim. Ele estava com roupas femininas, mas parecia estar fazendo alguma coisa que o chocou. Tanto que ele espancou o próprio irmão por cinco minutos, arrastou ele pra fora de casa inconsciente e o jogou perto do rio ao sul da cidade. Ele ficou irritado não só porque seu irmão era, segundo ele, um garoto problemático que gostava de outros homens, como também porque ele iria atrair mais problemas pros seus pais, que já estavam cheios de problemas para resolver. Ele quis apenas tornar a vida de seus pais mais fácil.
Ele disse pros pais mais tarde que ele foi sequestrado e o próprio não sabia quem o fez. Mas com o tempo, ele se sentiu culpado e correu pra Rookgaard. Nunca mais olhou pros pais. Ele não sente muita coisa contando isso, mas eu mesmo não fazia ideia de como respondê-lo. Acho que essa questão de homens que gostam de outros homens ainda é algo que não consigo formular uma opinião concreta. Talvez seja bom aproveitar meus dias de pesquisa em Edron pra tentar concluir alguma coisa.”
No fim, Nuito decidiu que não se importa com essa questão, apesar das opiniões que já recolheu de habitantes de Edron e Stonehome. A maioria contra, pois eles queriam que filhos fossem gerados, mas ao mesmo tempo, que compromissos não fossem quebrados em prol do prazer masculino. Certamente algo complicado demais pra se pensar enquanto a terra próxima dele parece um humano tirando suas tripas pra fora.
Ele fecha o livro, pega sua lança, seu arco e sua aljava e pula do telhado direto para o chão. Mesmo dentro da cabana boa parte do tempo, ele tem se exercitado bastante indo e vindo com pedaços de madeira aqui e ali. Isso o ajuda a continuar se aventurando naquele lugar. Mesmo que não esteja se cuidando como deveria – Sua barba cresceu e já enche seu rosto de fios escuros.
Ao entrar, ele engole em seco. Vários vermes enormes correm pelo chão, há besouros enormes vermelhos voando, Inexpressivos perambulando, Ordinários vigiando. Há também criaturas que mais lembram bolas de carne com olhos no centro flutuando próximas do lago.
Conforme ele se aproxima do lago, as criaturas parecem mais vigilantes a seu respeito. Isso tem acontecido com certa frequência, embora ele não tenha sido atacado ainda. Ele reforça seu arsenal por conta própria, pois está começando a ficar assustado com a forma ágil que aquele bioma tem se desenvolvido. Sabe que uma hora será atacado.
Ele ajoelha-se em frente ao lago e começa a analisar as criaturas dentro dele. Os peixes cresceram, mas ficaram mais estranhos. Eles parecem estar desenvolvendo mais olhos, mais nadadeiras, cristas, até mesmo asas, o que os fazem pular pra fora da água e planar em volta dela de vez em quando. Mas, no meio de tantas coisas estranhas, algo lhe chama a atenção.
É um peixe negro, com dois olhos totalmente brancos, que possui um tamanho semelhante ao de um bagre. Sua textura visualmente lembra metal.
— Encontrei.
Nuito veio esperando aquilo desde o inicio, o que o faz se encher de satisfação e abrir um largo sorriso. Ele pega seu arco e uma flecha comum do meio das encantadas, e a amarra sua ponta inferior num pedaço de corda. Coloca no arco e puxa o fio.
Subitamente, ele é puxado para trás, deixando o arco cair por acidente.
Ele tenta pegar sua lança com uma mão, e com a outra, tenta manter longe um Inexpressivo inesperadamente agressivo. Acaba de notar que ele tem uma boca cheia de dentes, embora não tenha nariz ou olhos. Aparentemente, ele está agindo por instinto, bem como os outros Inexpressivos ao redor dele.
Sem conseguir força o suficiente para superar a criatura de dois metros, ele cede aos poucos. Mas antes que ele tentasse mordê-lo, algo explode contra suas costas, lançando-o para frente e permitindo que Nuito levantasse de novo. Ele se senta, pega sua lança e levanta rapidamente, tentando saber de onde aquilo veio.
Adiante, os Inexpressivos começam a correr de várias flechas explosivas. As criaturas começam a ficar assustadas e correm sem parar de um lado para o outro, berrando e grunhindo. O responsável por salvar sua vida é ninguém mais que Ember.
— Deuses... Finalmente te encontrei.
Próximo: Capítulo 31 – Resmonogatari VII
Nota:
*: É um tipo de casaco que é muito utilizado pelos povos Inuítes. São uma população indígena do norte do Canadá, parte das tribos esquimós.
Capítulo 31 - Resmonogatari VII
Citação:
Postado originalmente por
Senhor das Botas
Bom, lá vamos nós comentar os próximos capítulos.
Ler sua história por si só é uma grande inspiração. Mas não uma "inspiração" geral, mas uma deveras "melancólica". Desespero, medo, melancolia, tristeza... Sério, o tanto de depressão que você consegue colocar nas personagens, mesmo em "partes filler", pra desenvolver a personalidade de algumas personagens, como Nuito, quando descreveu a história de Agal. É legal que não só com o Borges e o Richard, que presenciaram incesto/estupro/abusos, mas esse tema voltou, mesmo que sucintamente. E pelo visto isso é o suficiente pra causar muita, mas muita m*rda ;x
No mais, que capítulo. O poder do Akanancore, p*ta merda HUEHUEUE. Criou um bioma digno de Roshamul, e o que mais me surpreende... O FUCKIN NUITO FICOU TODO ESSE TEMPO LÁ. Sério, o cara viu o que parecia ser um vampiro, e mesmo assim prosseguiu. Se Redchain chamou o Nightcrawler de Nuito, com toda certeza é porquê o Nightcrawler no mínimo tem toda essa determinação do Nuito, embora seja mais poderoso e tenha o demonho do lado.
De resto, que desenvolvimento. Estou curioso para saber da forma que o Akanancore criou... E o que está para ocorrer. Ainda acho que Ember se envolverá de um jeito, e te conhecendo, todos terão uma morte terrível...
E por fim, encerro dizendo o seguinte: não desista! Por mais desanimador que seja ter poucos comentários, o número de visitantes no tópico não mente, e se há uma brava alma que conseguirá ler e acompanhar tudo até o final, como eu, com toda certeza esta alma sentir-se-há lisonjeada por ler algo tão delicioso, e por conhecer um pouco desse íntimo mal humorado, mas com uma vontade ferrenha, desse Carlos... Lendário.
Deveras Lendário.
Ok, desativei o meu modo gay.
Fala Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios e PARA DE CHAMAR O DARTAUL DE RICHARD PORRA
Cara, já ouviu falar que, as vezes, o clima de uma história depende do ponto de vista que um autor tem sobre a vida? É mais ou menos assim que lido com Bloodtrip. O Mundo Perdido é bem diferente, é um clima mais épico e heroico, não há tantas reproduções de dificuldades que as pessoas tenham que lidar, mas essa história foi ótima pra eu me arriscar a fazer isso. De certa forma, Bloodtrip foi uma saída da minha zona de conforto, e acabou dando certo (Pois essa virou minha nova zona de conforto :lol: ). É legal que você veja tudo isso e capte como uma inspiração, só não vá ter a mesma visão da vida que a minha. Ser pessimista não é saudável.
Devo dizer, o poder do Akonancore não tá 100% demonstrado ainda, mas isso porque não estamos no tempo atual da história ainda. Logo você entenderá. E Nuito é bem corajoso mesmo, mas se levar em conta que ele ficou matutando Tiquanda por 10-11 anos sem cansar, e levando em conta o quão chato é andar por lá mesmo no Tibia (Caralho, eu tenho um ódio COLOSSAL pelas Carniphilas, bicho chato da porra), ficar perto desse bioma nem é algo tão grande. E isso que ele tá crescendo ainda hein, não tá 100% também não. Btw, nem só de mortes terríveis eu vivo, então fica tranquilo.
Obrigado pelas suas palavras encorajadoras cara, eu passei a ver que nem todo mundo tem paciência pra ler todos os dias (Eu tinha começado a ler de novo O Hobbit já tem mais de um ano e não terminei até hoje, pra você ter uma noção) e isso é compreensível levando em conta o que precisam lidar diariamente. As pessoas que leem minha história são adultas e tem responsabilidades. Mas Bloodtrip é uma responsabilidade minha. Então, não posso mais esperar alguém comentar pra postar um capítulo. Eu preciso terminar essa história, sério. Eu já planejei tanta coisa pra esse universo novo tibiano que criei, mas ainda não tive a chance de botar tudo no papel. E pra tal, eu preciso terminar Bloodtrip.
Já não sou mais lendário, então me chame de Cavaleiro Carlos.
seu viadinho
Citação:
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Sombra de Izan
Bom lá venho eu para um comentário gigantesco: Tá ótima a história. Pensou que era só isso???????
kkkkkkkkk
Lá vai um trolar a história, poxa a história é muito interessante, no geral assim, especificar um ponto ou outro fica complicado que seria mais fácil comentar capítulo a capítulo como nosso amigos botas ali, mas cada capítulo vale como se fosse uma história roleplaying das competições de tão grande e tão complexa, Vamos ao princípio; guerras e mortes, tem coisa mais misteriosa que um assassino desconhecido? Claro que tem, a forma com que encontram ele, a morte de uma rainha, como pode, será verdade?
Vou indo devagar até atualizar na história, mas só uma questão, joguei a muitos séculos atrás um jogo chamado Brigantine de PS1, nele uma das evoluções do ghoul é vampire e depois lord vampire pelo que me recordo, bom jogo pra quem gosta de rpg por turno e pode encaixar na citação dele em seu capítulo. Sucesso e acompanho na medida do possível.
Caralho, olha só quem veio ler minha história, bicho. :hng:
Grande Sombra de Izan, muito grato pela sua presença aqui. Não imaginei que Bloodtrip estivesse sendo tão complicado pra você, eu mesmo imagino que não seja lá tão fácil ler cada capítulo, visto que eles cresceram muito desde a época em que você estava na seção. Tornar as coisas mais complexas, mais misteriosas e estranhas é uma tendência que tenho tido, e essa história tem muito disso, como pode ver.
Btw, é boa sua referência a esse jogo, mas a questão de ghouls e vampiros vai mais de área e cultura dentro de Tibia, como não é comum encontrar clãs de vampiros no deserto, também não é fácil achar famílias de ghouls em Edron, por exemplo. Basicamente, nenhum é evolução do outro.
Espero que a história continue sendo do seu agrado, Izan. Grande consideração por ti, mano.
Teve um dia que eu falei "O capitulo 20 de Bloodtrip foi feito para ser o maior capítulo da história".
Jokes on you, Carlinhos do passado. Sabe de nada.
O capítulo 31 acabou ultrapassando minhas expectativas, e a história das origens de Senzo acabou sendo a maior da história. Encerro esse capítulo com sete partes e parto para outro. Com isso, acredito que o fim será alcançado no capítulo 35.
Enfim, vamos continuando!
No capítulo anterior:
Nuito se aposenta da vida de biólogo e explorador e viaja para Edron para testar o que o Akonancore pode fazer na terra. No fim, ele gerou um bioma extremamente perigoso e desconhecido do qual ele tenta desbravar. Mas uma de suas tentativas dá errado e ele é salvo por Ember.
Capítulo 31 – Resmonogatari
Parte 7
— Ember!
Nuito está feliz em vê-la. Ela está usando uma armadura, calças e capa élficas e esverdeadas, além de um cachecol púrpuro no pescoço, que antes protegia sua boca e seu nariz, mas ela o abaixou para ser reconhecida. Embora faça um tempo que eles não se veem, ela não sorri. Sua seriedade dá um banho de água fria em Nuito.
— Há muito que preciso te perguntar, mas é melhor sairmos daqui primeiro.
— Concordo plenamente. Mas antes...
Nuito pega seu arco, a flecha e a corda e dispara em pouquíssimo tempo contra a água. Ele puxa a flecha de volta e revela o peixe de antes, debatendo-se, mas parando de se mover seis segundos após ser retirado da água. Mais ou menos o tempo que levou para ele conseguir pegá-lo em suas mãos. Ember impressiona-se com o quanto ele melhorou com o arco, mas não comenta nada.
Os dois saem da área e correm para a cabana de madeira. Nuito fecha a porta e coloca vários reforços de madeira nela. Ele entra na sala com a moça, e põe o arco e a aljava ao lado do único sofá do recinto, levando o peixe agora com as duas mãos. Ele aproxima-se do pequeno quarto onde guarda várias coisas que recolheu na área do Akonancore para guardá-lo, enquanto Ember observa um pouco a casa.
Não há realmente nada demais ali. Nuito a construiu sozinho, e ela é pequena, acomodando um pequeno quarto onde há apenas uma cama de solteiro e uma cômoda pequena para algumas roupas. No quarto ao lado, ele mantém um pouco de comida em potes no lado direito e tudo relacionado a área infectada fica bem trancada e selada com magia no lado esquerdo. Provavelmente ele cozinha tudo no lado de trás e traz para a casa para comer no sofá. Os móveis obviamente foram conseguidos em Stonehome e trazidos para lá com a ajuda de alguém.
Ember normalmente ficaria tímida sozinha numa casa com Nuito, mas dadas as circunstancias, não sente mais nada. Somente mantém-se preocupada com o estado que aquela terra encontrava-se. Elfos são muito conectados a terra, então ver algo daquele nível acontecendo com parte do corpo de Tibiasula toma-lhe mais a preocupação do que um amor a confessar.
— Comece a me explicar. Do começo. — Cobra Ember, de braços cruzados.
Ao invés de Nuito abrir o jogo, ele simplesmente chama-a para o local onde guarda amostras da área infectada. Ele põe a mão sobre um dos armários por algum tempo, até que ele trema levemente. Em seguida, abre-o, recolhe um dos potes de vidro e mostra para ela um dos vermes que recolheu. Ele ainda está vivo, mesmo sem comer, sem beber, sem ver a luz do dia. Ele parece uma lagarta na parte inferior, mas a superior lembra mais um olho enorme. Ele tem uma coloração de tons de amarelo para o laranja, parecendo um dos destaques daquela área. Além disso, ele tem inúmeros olhos pequenos na região inferior.
— Isso é uma das coisas que surgiram ali?
— Exatamente. Batizei ele de Oliphila. Encontrei um monte de outras coisas esquisitas lá, mas isso tudo é parte do motivo do qual vim aqui.
Ele encosta a porta do armário e abre o do lado, recolhendo um outro pote com água normal. Seria a água purificada do lago quando ele não foi alterado.
— Vim aqui há quatro anos pois recebi uma carta de um pesquisador que a área estava sendo alterada por algo artificial. Quando cheguei aqui, só notei a diferença escavando a terra, e ainda conseguia recolher água do lago onde estava há pouco. A terra estava viscosa, demorava pra sair das mãos, diferente do barro. Com o tempo, as alterações foram surgindo, e comecei a minha pesquisa. Mas logo percebi que esse lugar estava ficando hostil e precisei me armar. Foi estranhamente rápido. Um dia, eu estava começando a pegar grama vermelha no meio da verde, no outro eu já via aqueles humanoides andando sobre a terra.
— Isso é horrível.
— Recolhi essa água antes de tudo acontecer. Ela não foi alterada, porém. Parece que foi algo realmente plantado lá.
— Uma planta?
— Não faço ideia. Talvez uma poção que deu errado.
Nuito não queria dizer a verdade. Seria problemático demais se o fizesse. Como Ember o olharia depois de saber que foi ele quem destruiu aquela área ao redor do lago? Se ela realmente gostasse dele tanto quanto ele pensava, esse amor todo desapareceria e seus instintos élficos agiriam em alta velocidade. Ela começaria xingando-o, e logo estaria enterrando uma adaga em seu peito. Por isso, não quer arriscar.
— Eu aproveitei e tomei a liberdade de dar um nome para o bioma: Muzonsentouki. Retirado do hanrajiinês.
— O idioma dos lagartos de Chor?
— Exatamente. Mas nas últimas semanas, simplifiquei a palavra para Musenki. A tradução literal é Carmesim Lutador. Não sei se preciso explicar melhor isso, mas...
— Tudo bem, entendi sua intenção. O nome não ficou ruim. — Disse Ember, descruzando os braços — Então... Musenki é algo artificial. Bom, é o que eu esperava, após ouvir os rumores.
— Rumores?
— Nuito, você está começando a se tornar suspeito em Edron. O povo já notou essa coisa vermelha crescendo, a terra mudando. Você deve estar afastando todos e contando o que tem visto, mas é mais que natural que o que você conte acabe se espalhando, não acha?
— Bem... Isso é inevitável. É melhor um rumor bobo do que uma pessoa morta.
— Ainda assim Nuito, as pessoas suspeitam que você tenha algo a ver com o que está acontecendo naquela região. As mais inteligentes sabem que você é um biólogo e está pesquisando e tentando descobrir o que tem causado aquela mutação, mas sabe que inteligência não é um primor de todo humano comum, não é?
— Até concordo, mas não vou me intimidar com isso.
— Pois deveria. O povo é uma arma poderosa. De greve a guerra, o governo perceberá em breve que a hora de intervir nessa região chegou, graças a população. Quando isso acontecer, você terá de ir embora. Ou melhor, seria melhor se você já fosse, pois não demorará mais que um ano para aventureiros e exploradores chegarem aqui para ver com os próprios olhos o que está acontecendo com esta terra. E esse é o pior cenário possível.
— Sim. Se houver doenças lá...
— Se espalharão para outras partes de Tibia e ninguém saberá como curá-las. Fora as pessoas que morrerão para aqueles monstros.
Nuito sente-se horrível. Apesar de ter conseguido o que queria, sua atitude não fora louvável. Ele destruiu aquela região e aquilo pode muito bem se espalhar para o resto de Edron em algumas décadas. Tudo por causa dele. Mas se o peixe que ele conseguiu lhe der o que precisa, a cura para aquele lugar virá em breve.
— Bem, de qualquer maneira, aquela região me deu algo que eu realmente estava precisando. E isso ajudará a parar Senzo.
— Como?
— Olhe. — Nuito coloca o peixe negro que pegou sobre um balcão. Ele pega uma das lamparinas do quarto e a coloca perto do peixe, mostrando a camada dura que possui sobre o corpo, bem como as placas visivelmente duras próximas da cabeça — Não dei um nome para isso ainda, mas o fenômeno se chama Alterorganis. Trata-se da teoria que todo bioma possui um organismo vivo totalmente diferente do clima onde ele se encontra. Em Tiquanda, no passado, encontramos a Pantera da Meia-Noite, mas mesmo que rapidamente, notamos que ela possuía uma pelagem muito semelhante a de animais que vivem em locais frios, contrariando o clima tropical daquele lugar. Ela é um Alterorganis. E esse peixe é o Alterorganis daquele lugar.
— A Teoria do Organismo Alternativo que você criou, não é?
— É, mas eu simplifiquei o nome.
— Ficou uma bosta.
— Enfim... — Nuito pigarreia e volta a falar — Essa Alterorganis pode, de alguma maneira, parar o Akonancore que Senzo desenvolveu. Recolhi outro material semelhante à natureza do Alterorganis a partir de uma lula que cresceu naquele lago, então acredito que posso desenvolver o que chamo de Aço Negro.
— Aço? Bem, esse peixe parece bem duro olhando de perto... — Disse Ember, enquanto toca o peixe. Mas ao sentir sua textura, acaba tirando o dedo rapidamente — Credo! L-Lembra mais a textura do cérebro de algum animal!
— As aparências confundem — Ri Nuito, mais uma vez achando graça de certas bobagens pouco inteligentes que Ember faz, irritando-a no processo. Ember fica um tanto envergonhada, não só por isso lembrar as aventuras dos dois em Tiquanda como por também lembrar o tempo que tiveram na academia.
Isso ajuda Ember a se lembrar de algo importante. E, abruptamente, as peças se encaixam.
— Disse que servirá para parar o Akonancore de Senzo, não é? Mas como isso funcionará?
— Irei desenvolver algum corpo resistente que leve o Aço Negro de forma que me permita despejar sobre a criação dele, ou lutar contra. Pode ser uma espada mesmo. Embora eu acredite que esse aço não será melhor que o que já conhecemos, será extremamente eficiente contra o Akonancore.
— E como você tem certeza disso?
— Pois o Aço Negro é o Alterorganis do Ak-
Nuito para de falar, e no exato momento em que ele se interrompe, Ember muda sua expressão. Não era necessário falar mais nada.
Com isso, Ember sai andando rapidamente do quarto, levando Nuito a perceber que deixou seu segredo escapar graças a lábia quase invisível da elfa, algo natural de um elfo tibiano. Ele mal percebeu que estava contando, pouco a pouco, que ele foi o responsável por destruir aquela terra.
Ele vai atrás da elfa apenas para perceber que ela parou a sete passos da porta. Adiante, uma figura encapuzada está no caminho para a porta.
— É, concordo contigo, Ember. Como alguém como Nuito, tão apaixonado pela natureza, teria coragem de destruí-la?
É a voz de Senzo.
Em instantes, as lamparinas posicionadas em alguns locais da casa acendem sozinhas. Algumas nem mesmo tinham óleo, mas ainda assim estão acesas naquele momento, e com óleo. Nuito deixou sua lança e seu arco e flechas próximo da porta. Só Ember tem armas em mãos. Sente-se azarado por isso, afinal, Senzo aparecer na sua casa daquele jeito é a última coisa da qual ele esperava.
— Como você veio parar aqui, Senzo?
— Sou o papai noel. Estava de férias e voltando para Vega.
— Esses tipos de piada não caem bem em você.
— Mas estou falando a verdade. Quem disse que vocês terão natal esse ano?
Senzo está realmente de vermelho. Ele está usando um gibão um pouco grosso de mangas longas de cor vermelha, calças vermelhas e botas vermelho-escuras. Está com uma ombreira de aço no ombro esquerdo. Ember recua para perto da porta do quarto, com arco em mãos.
— Brincadeira. Vim apenas parabenizá-lo, Nuito. Você fez algo genial, como sempre. Nem eu havia pensado nisso ainda.
— Do que está falando?
— Lançar Akonancore sobre a terra sem nenhum desejo. Cara, sério? Nem eu sei direito do que o Akonancore é feito, afinal, sempre uso muitos materiais diferentes para alcançar a forma original do primeiro Nancore, então nem sempre sei no que aquilo pode terminar, mas você... Você simplesmente ignorou tudo isso e jogou sobre a terra para ver o que aquilo ia fazer por conta própria. E veja só, você criou algo novo. Um lugar novo, um bioma novo! E então, como é a sensação de ser um deus?
Nuito engole em seco e não responde. Sabia que, um dia ou outro, Senzo acabaria referindo-se ao uso do Akonancore como algo divino.
— No mais, eu tenho focado demais em quaisquer outras coisas além do Akonancore. Vamos lá, eu já atingi a perfeição. Quero que as outras coisas que possuo tenham a mesma perfeição. Por exemplo...
A manga direita de seu gibão, mesmo sendo grossa, desaparece em instantes, virando pó. No lugar, surge um braço mecânico, com uma textura lembrando prata. Há uma corrente ao redor dele, e no seu pulso, logo abaixo da palma de sua mão, está uma ponta de lança, igual as que ele usava na Célula de Ferro.
— Incrível, não é? E nem precisei perder o braço para cobri-lo com isso!
— Senzo... — Murmura Ember, um pouco irritada.
— Cala a boca, Ember.
— Cale você a sua boca! — Disse Ember, colocando uma flecha em seu arco em menos de um segundo. Ela dispara rapidamente, mas ao invés dele desviar, ele simplesmente estala os dedos. A flecha para em alguma coisa criada na sua frente.
Era a cabeça de um Ordinário. Ela cai no chão logo atrás de Senzo.
— Há mais um motivo para eu querer parabenizá-lo, Nuito. Você criou o ambiente perfeito pra mim! Ora, para eu conseguir criar coisas simples, tive que literalmente engolir minha criação. Mas agora você jogou minha criação sobre a terra, justamente quando eu lhe dei buscando ajudá-lo. E no fim, você foi quem acabou me ajudando! Sempre pensando nos outros no fim, não é mesmo, Nuito?
— O que, por todos os deuses, você está falando? Eu não consigo mais te entender, Senzo. Você nem parece mais... Você. O que aconteceu?
— Eu finalmente encontrei o caminho. Agora, eu tenho uma razão para viver. E eu quero que você me ajude, Nuito. Você também pode, Ember. Como nos velhos tempos! Talvez eu até consiga trazer Norbron de volta, e faremos tudo como antigamente. Experimentos são divertidos, não é?
— Inferno! Senzo, cala a boca! Você é inacreditavelmente irritante agora, céus! Não consigo sentir nada senão ódio de você! Por mim, você poderia morrer! — Vocifera Ember, apertando bastante seu arco.
— Ah, nesse caso, vamos exclui-la. Ela não é tão importante assim, não é? Qual é, Nuito. Vamos! Me ajude, como sempre me ajudou. Você sempre me apoiou! E eu fui muito, muito longe, graças a você. Se eu não tivesse um amigo como você, eu estaria em apuros.
Nuito entende bem agora o que Ember quis dizer, no passado. Mas não entende porque Senzo o admirava tanto, considerando que ambos são inteligentes ao mesmo nível. Ao menos no seu ponto de vista.
— Eu não te entendo... O que você quer?
— Quero mudar o mundo com o Akonancore. Posso criar coisas melhores que aquilo que você fez, mudar Tibia. Desafiar os deuses e mostrar que os humanos também são capazes de milagres. Que tal? Preciso de seu altíssimo conhecimento sobre geografia e biologia. Você é um gênio sobre a natureza tibiana. Você me seria útil de tal maneira que-
— Senzo, pelo amor dos deuses, cala a boca.
O alquimista está chocado.
Nunca antes Nuito mandou ele se calar de forma séria. E ele parecia bem sério, além de perplexo.
— Eu disse antes, você não parece com você mesmo. O que está dizendo? Desafiar os deuses? Está doente? Darashia queimou seus miolos?
— Como eu disse... Eu encontrei meu caminho. E tudo bem se não quiser me ajudar. Você já me foi de grande ajuda.
Senzo bate palmas duas vezes e no instante seguinte, vários Ordinários preenchem a sala. As mesmas criaturas que lembram cogumelos, mas dessa vez, eles pareciam ter vários olhos na parte inferior, além de tentáculos curtos nos braços. Evoluíram mais uma vez.
— Eu sou o deus dessa terra, e dela tomo posse. Desapareçam.
— Corre, Nuito! — Grita Ember, enquanto coloca duas flechas explosivas sobre seu arco e as dispara contra os seres fantasmagóricos, criando uma forte área de efeito sobre eles e dando tempo para escapar.
Nuito pega o peixe negro e arromba uma porta do armário a direita. Ele pega dois potes com um liquido laranja-claro e coloca sobre os braços. Em seguida, ele pula e soca o teto, fazendo uma portinhola se abrir e uma escada cair. Ele começa a subi-la, enquanto Ember lhe dá cobertura. Ela o leva até o teto, e lá em cima, no telhado, ele acha uma bolsa laranja no chão e coloca os frascos e o peixe lá dentro. Acha outro arco, outra aljava com flechas explosivas, pega-as e corre para a ponte. Ember aparece logo depois ali, disparando uma flecha explosiva contra a escada, fazendo-a cair. Ambos correm até o monte.
Após descerem o monte, ambos passaram horas correndo pelo bosque até chegarem na montanha dos wyverns, e só param de noite no outro lado, em Stonehome. Cansados e frustrados, eles caminham vila adentro, buscando abrigo.
Mal perceberam que ela está sem um resquício de luz sequer.
Nuito acaba parando antes de Ember, e ela sem querer tropeça em alguma coisa e cai no chão. Seria motivo para ele dar risada se não fosse a situação em que se encontram.
— Merda! O que foi isso?
— Não sei, não vejo nada, esse lugar está um breu. Consegue iluminar o lugar?
— Sim... Utevo Gran Lux.
Com a iluminação, Ember assusta-se com o que tropeçou, principalmente com os arredores. Pois, na sua frente, está um corpo de um habitante do vilarejo. E há vários outros corpos ao redor. Feridos por lanças e facas, todas de cor carmesim, geradas do Akonancore.
Nuito ajoelha-se e soca o chão. Criou uma conexão com os habitantes dali, pois eles sempre o ajudaram. Na visão deles, ele estava evitando que uma praga se espalhasse. No fim, acabou dando a eles sua ruína. Por isso, ele está quase chorando, enquanto continua socando o chão. Ember senta-se e olha para o horizonte, evitando olhar para os cadáveres. E especialmente para Nuito.
— Nuito, não importa o que você diga. Não é culpa sua. É daquele miserável do Senzo. Ele nos traiu. E acabaremos com ele.
— Você não entende... Fui eu quem começou essa ideia. Se essas pessoas estão aqui, mortas, a culpa é minha. Você sabe disso. Além disso, eu maculei um lago e a região ao redor dele... Eu sou horrível.
— Chega, Nuito... — Ember pede, mas não consegue nem mesmo manter sua firmeza e seriedade frente a um Nuito tão desabado. — Por favor, pare. Eu entendo o que você fez agora. Você queria evitar que Senzo destruísse Tibia do jeito do que aconteceu no lago. Seu plano foi muito bem pensado, e agora temos uma chance de pará-lo. Por que está assim?
— Isso não os trará de volta, Ember. Eu trai o povo de Stonehome. Os edronianos estavam certos. Eu traria ruína para eles.
Ember respira fundo. Ela levanta-se e vai até Nuito, ajoelha-se na sua frente e levanta seu rosto. Ao encará-lo tão de perto pela primeira vez, sente uma enorme vontade de recuar, mas ao invés disso, ela lhe dá o mais honesto dos beijos. Um que durou pouco mais de dez segundos.
Ao deixá-lo, Nuito parece melhor, mas bem surpreso.
— Mesmo que eles tenham morrido por causa daquele lugar infectado e da obsessão de Senzo, você pode vingá-los e fazer com que a morte deles não tenha sido em vão! Você tem o necessário para anular os poderes do Akonancore, não é? Então pare de choramingar e comece a trabalhar! — Disse Ember, puxando-o para mais perto ainda de seu rosto. Ela pousa sua testa sobre a dele, enquanto uma solitária lágrima cai do olho de um Nuito incrédulo. — Salve Tibia, Nuito. Lute. Por mim. Por Tibiasula. Por todos os deuses. Pelos mortais que caminham por esse mundo.
O homem respira fundo e tenta se acalmar.
— Tudo bem. Irei lutar.
Ember sorri e o abraça. Mesmo cercada pela morte e pelo horror, ela ainda conseguiu a chance que tanto esperou de poder mostrar ao menos um pouco do que sentia pelo rapaz. Depois de vinte e dois anos.
Ainda assim, a espera valeu a pena.
Próximo: Capítulo 32 – Re:Bloodtrip
Capítulo 32 - Re:Bloodtrip
Citação:
Postado originalmente por
Senhor das Botas
Bom, vamos ao capítulo.
Não há muito o que acrescentar. Ok, p*tas revelações, Senzo aparecendo maluco querendo o Nuito( provavelmente foi a figura sombria que brincou com o nosso biólogo). Ember firme e forte com o Nuito, e incrivelmente, você não matou nenhum dos dois, lol. Matou uma vila inteira no lugar, mas o que é uma vila perto desse casal que daria inveja até no Ratinho :fckthat:
No mais, estou MUITO ansioso pelo que vai ocorrer. Provavelmente os dois morrerão, mas deixarão um p*ta legado que permitirá certas pessoas, no futuro, combater o Akanancore... E a Irmandade.
E na boa, mal vejo a hora de voltar pro presente. Não que esteja ruim o passado do Senzo, muito longe disso( foi a personagem na qual você mais trabalhou e encaixou o passado e background). Mas simplesmente eu quero ver a mente por trás de tudo, que aproveitou-se do Akanancore...
Sério, te conhecendo, vou tomar um verdadeiro Mindblast em breve.
EDIT
O próximo capítulo tem o nome da história. Naun faz içu comigo não, nem JoJo nem One Punch Man conseguem criar tanto hype assim.
Opa Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Cara, não matei a Ember pois não vi necessidade, juro mesmo. Todas as mortes até então tiveram um motivo e elas influenciaram diretamente na história e nos personagens. Por exemplo, a morte de Borges tornou Dartaul mais maduro e sério, a da Zoe (Que nem chegou a ser uma morte mesmo, futuramente vou explicar o que aconteceu com ela) também chocou o time todo e os desanimou mais, já que né, é a Zoe. Eu queria poder ilustrá-la, ela foi criada pra ser aquele tipo de pessoa que você olha quando tá frustrado e toda a sua frustração vai embora, só de ver ela sendo ela mesma. Enfim, todas as mortes tiveram algum sentido nessa história, logo, nem só de mortes vive sr. carlos.
Há diversas coisas a se explicar sobre como esse poder caiu nas mãos da Irmandade, mas já estamos chegando lá; Logo as explicações serão postas na mesa. Acredito que depois do 32 já chegaremos no presente de novo, para dar resumo a história. E provavelmente te dar um mindblast, mesmo. Ao menos, é o que eu espero.
Agradeço a presença frequente, Botas.
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Missão dada é missão cumprida, parceiro.
Concordo em partes com a opinião do @
Senhor das Botas. Com um quê de apreensão, estava aguardando pela morte de Ember no decorrer do capítulo, e acho engraçado que tenha não somente poupado o personagem, como tenha decidido criar tanta destruição neste capítulo. Esses
flashbacks são interessantes pra qualquer história, também. Já disse isso em outras oportunidades, mas não custa reforçar: o personagem de Senzo é peculiar, e até agradável, mesmo que seja meio mal educado. Me lembra um pouco de Leonard, se quer saber.
Pegando o gancho no comentário do colega: causa-me certa apreensão o fato de que o próximo capítulo tenha o nome da história. Espero que você não seja um vacilão de encerrá-la agora, sob pena de ter seu rosto desfigurado. Não me importa onde você mora. Eu farei esse deslocamento.
No mais, Carlos, peço perdão pela ausência constante. Se pá que você percebeu os problemas recentes que enfrentei aqui, mas isso fica no passado. Aproveitei a oportunidade pra colocar em dia a leitura de Bloodtrip e não me arrependi; os últimos episódios foram cintilantes, e gosto muito dessa viagem para trás e para frente na história. Não deixa de ser um primor, como sempre foi.
Um abraço!
Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Mas e aí, vocês pensam que eu só mato meus personagens a toa? :lol: Como eu disse pro Botas, todas as mortes tem sentido, e mesmo que eu ache interessante me comportar como um Martin da vida de vez em quando, não posso ser assim o tempo todo, até porque não escrevo nada semelhante a um Game of Thrones. Mas, como eu disse, é interessante me comportar como ele, então se não matei nenhum deles agora, não significa que eles não vão se fuder gostoso no futuro, né? :kappa:
Sobre o título desse capítulo, não é nada tão grandioso assim. Conforme o capítulo avança, vocês vão entender a escolha desse título.
E sim, percebi os problemas e já comentei sobre lá na sua história. Novamente, cuidado na próxima.
E agradeço a presença, Neal!
Esse capítulo servirá para finalmente entendermos melhor a Irmandade. Esse primeiro aqui é meio grande, mas o próximo será bem maior, com o objetivo de conseguir chegar logo no presente. Estive planejando a sequência de Bloodtrip há tempos e estou ansioso para começar a escrevê-la logo. Planejei inúmeras coisas boas que espero que vocês gostem! Por enquanto, vamos continuar desvendando o passado de Senzo.
No capítulo anterior:
Nuito encontra Ember e explica o que o levou para Edron e o que estava acontecendo com aquele lugar infectado, mas sem querer acaba revelando que foi ele que infectou aquele lugar com o Akonancore que Senzo lhe deu no passado. Ember ia se preparar para deixá-lo para sempre, quando Senzo surge e tenta atrair ambos para seu plano insano. Sem sucesso, ele tenta matá-los, mas ambos fogem para Stonehome, onde encontram todos os aldeões mortos.
Capítulo 32 – Re: Bloodtrip
Parte 1
Não há lugar em Edron para alguém que cometeu crimes contra a segurança da ilha. Por isso, Nuito e Ember foram para Cormaya.
Uma ilha pequena, mas nem um pouco pacata; Assim era o lar dos anões, que possivelmente vieram do continente principal, sendo descendentes de uma das famílias da época de Durin. Trabalhando ativamente nas minas do sul, a aldeia na ponta do norte serve mais como um local para os anões dormirem e se alimentarem, já que eles não possuíam tantas noções de higiene, e consideravam as minas os seus lares. Dessa forma, as tardes naquele lugar eram tranquilas o suficiente para Nuito se concentrar.
Os dois conseguiram uma casa razoável, no oeste da aldeia, onde não há tantos anões. Ainda assim, Ember ocupa suas tardes vigiando acima do telhado qualquer atividade suspeita. Isso porque ela não consegue ficar muito tempo dentro de uma habitação, devido aos seus instintos élficos que buscam liberdade a todo custo; e aos seus instintos femininos, que sentem constrangimento quando ela pensa em ficar sobre o mesmo teto que Nuito.
Bobagens a parte, Nuito concentrou-se na sua pesquisa sobre o peixe Alterorganis que encontrou no lago do terreno Musenki. O peixe negro possui também um sangue negro, e de forma chocante, ele notou que o peixe possuía escamas feitas do próprio sangue, e que o resto do corpo era formado pelo seu próprio sangue endurecido de alguma forma pelo lago. O peixe parece estar lá há menos de um ano, alimentando-se de larvas, afastado dos outros e da luz. Ele não parecia ser rápido, mas não havia necessidade para ser, já que ele vivia em um lago. Além disso, mesmo que ele tenha sido criado dentro do Musenki em pouquíssimo tempo, seus órgãos são bem desenvolvidos. Ele parece ter nascido de outro peixe, porém, algum que por algum milagre não foi atingido pela maldição do Akonancore.
Nuito passou seis meses fazendo testes com seus órgãos ou ao menos tentando reproduzir o que o peixe fez para transformar seu sangue em sua pele e escamas. Seu objetivo era criar uma mistura que tivesse uma leitura semelhante a um Alteroganis artificial, algo totalmente oposto a um Akonancore. E que conseguisse espalhar suas células pelo elemento oposto, com o objetivo de destruí-lo. Ele só conseguiu um resultado satisfatório após esses exatos seis meses.
No fim, lá estava, na sua frente, uma caixa contendo vários blocos diferentes com um líquido misturado a um líquido que ele recolheu de uma lula mutante do Musenki, que mais parecia um polvo. O líquido é absolutamente escuro. Nada que ele tentou misturar, sendo água ou tinta, conseguiu mudar a cor. Simplesmente o fazia aumentar sua massa.
É quase como o Nancore, mas a única coisa que aquilo faz é destruir o Nancore.
Ember está ao seu lado, impressionada. A caixa de madeira pintada de azul e branco parece ter um objetivo claro.
— Eu irei levar isso para um lugar bem frio. E sei de alguém que pode me ajudar com isso.
— Planeja congelar o que criou?
— É. Deixarei ela lá por um ano. É minha melhor previsão para que todos os blocos com o líquido Alterorganis sejam congelados com sucesso.
— E se não congelar?
A expressão de Nuito muda um pouco por um tempo.
— Vai congelar, não se preocupe. O lugar que levarei é bem frio.
— Certo... E quem irá levar?
— Uma amiga minha que está em Edron.
As palavras “Edron” e “amiga” incomodam Ember, quase trazendo calafrios para ela.
— Eu irei com você. E não adianta protestar.
— Tudo bem. Estava esperando te chamar, de qualquer maneira.
A elfa fica mais tranquila ao ouvir isso.
~*~
Nuito e Ember entram disfarçados em Edron. Nuito mais parece um mercante gordo e moribundo e Ember parece exatamente o que deve parecer: Um guarda-costas. Está usando uma armadura para paladinos e um capacete de aço, bem como um arco diferente nas costas, e lutando tanto para se acostumar tanto com aquela armadura quanto com o fato de que ela precisa parecer um homem. Um mudo, por sinal.
O disfarce recebeu ajuda de alguns anões de Cormaya para ser realizado, inclusive a barriga parece perfeitamente real, bem como a aparência gorda dele.
A dupla entra na Academia Noodles de Magia de Edron, já que é o ponto de encontro deles. Ember leva a caixa com os blocos – só para piorar sua situação. E enquanto avançam pelas pontes das torres de mármore brancas, esforçando-se em seus papéis, observam diversos magos diferentes andando aqui e ali, eventualmente pousando seus olhares nos dois. Mas Ember não responde a nenhum dos olhares, e Nuito parece perfeitamente normal, eventualmente cumprimentando as pessoas que passam por ele, tentando ser mais simpático do que costuma ser.
Ao chegarem ao seu destino, a torre central, notam um mago iniciante, um possível aspirante a bibliotecário, conversando com uma mulher mais velha, que já parece estar na casa dos quarenta anos. O rapaz de cabelos negros tem três livros debaixo do braço e usa um longo robe azul claro com losangos cinza próximo do pescoço e nos braços. A mulher está com um vestido branco, com um grosso cinto vermelho. Usa um chapéu pontudo de mago de cor roxa, com alguns rubis presos nele, e seus cabelos são negros como os do rapaz.
Ao notar Nuito aproximando-se com o desconhecido guarda-costas logo atrás, ela cessa a conversa e coloca sua atenção nos dois.
— Bem vindos. Precisam de alguma coisa?
Nuito prepara-se para a voz mais ridícula que usará na sua vida.
— Negócios com a Academia, madame. Gostaria de conversar a sós, já que é a mestra desta associação, presumo? — Responde Nuito, com uma voz mais parecida com a de alguém inchado, com um forte sotaque darashiano.
— Ora, entendo. Imagino que trouxe algo do nosso interesse. — Disse a moça, virando-se para o rapaz ao seu lado e pondo a mão em seu ombro — Wyrdin, poderia vir mais tarde? Isso me manterá ocupada por algum tempo.
— Se assim quiser, senhora. Tenham uma boa tarde!
— Igualmente.
O jovem Wyrdin sai de cena alegremente, indo para a ponte branca à direita. Aquela parece ter sido uma das únicas vezes que a mulher o tocou, o que o deixou bem feliz.
De volta aos assuntos principais, a mulher fita Nuito sabendo perfeitamente de quem se trata. Mas não consegue identificar o guarda-costas.
— Sigam-me.
Os três se dirigem até a escada de mármore que leva ao andar superior, onde se localiza a biblioteca do mestre da Academia. Ember demora um pouco para subir devido ao peso da armadura e da caixa. Ao chegar lá, ela deixa a caixa sobre a mesa do centro da sala e fica próxima dela, fitando com olhos ativos Nuito e a tal mestra da Academia.
— Você realmente merece meus parabéns por vir com um disfarce mágico de baixo nível para a Academia e ainda conseguir enganar todos que passaram por você.
— E como anda, Morgana? — Pergunta Nuito, com um sorriso.
— Com os pés. Mas se pergunta se estou bem, sim, estou.
Morgana aproxima-se da caixa que fora trazida por Nuito, na tentativa de tentar identificar a figura que está com ele, mas sem sucesso.
— Então era isso que você queria que eu cuidasse?
— Sim. Ou melhor, é o que eu quero que você leve para Svargrond. Pro lugar mais frio que você souber de lá.
— Eu?
— É uma das poucas pessoas que confio agora, Morgana. Sei que tem as habilidades para isso.
— De fato, tenho. Exceto a paciência de enfrentar o frio daquele lugar.
— Pense, Morgana. Isso lhe livrará dos problemas e denuncias a respeito do-
— Eu sei, eu sei. Se quer que eu leve pessoalmente, eu levarei. Mas tem certeza que conseguirá o que precisa a tempo?
— O que quer dizer?
— Como você ficou um bom tempo afastado da civilização, irei te informar das novidades: Edron esteve movendo tropas para um acampamento ao lado do que você nomeou como “Musenki”. Há generais e capitães do regimento Steelsoul e aventureiros nesse acampamento, tibianos de todos os níveis, interessados nas centenas de criaturas que estão andando por aquela região. Aparentemente, desde que Senzo chegou lá, quase todo o noroeste de Edron foi consumido pela maldição do Akonancore. Ouso dizer que há milhares de criaturas naquele lugar, não só na superfície, como também nas cavernas ao redor, e dentro das colinas e montes da região.
Nuito põe a mão no rosto, incrédulo.
— Será questão de tempo até eles começarem a invadir aquele lugar e irem atrás de Senzo, não importa quantas criaturas estiverem na frente deles. Mas, claro, Senzo também está movendo suas peças. Há urros sendo ouvidos do subterrâneo o tempo inteiro e a terra parece se mover todas as noites. O formato da terra ficou tão agressivo que até as árvores estão saindo do lugar e começando a andar sobre a terra maculada, com bocas gigantes nos troncos e milhares de insetos e vermes entre o que eram as suas folhas, provavelmente com doenças. Já tem inúmeros soldados sendo trazidos para Edron com doenças que nunca vimos antes.
— Então a situação atual é essa?
— É, meu caro Nuito. O que fará? Esperará um ano ou fará o possível para congelar em pouco tempo essa mistura que criou?
— É impossível congelar ela com magia! O processo precisa ser natural!
— Aria Ahrabaal virá para cá em dois meses.
Nuito engole em seco.
— Eu... Não tenho opções... — Balbucia Nuito, lutando contra a pressão e a ansiedade — Só eu posso salvar meu amigo. Eu tenho o necessário para pará-lo. Precisam deixar isso para mim!
— Acontece que ninguém irá esperar a boa vontade da sua coisa congelar, Nuito Resgakr. É isso que precisa entender.
— Morgana, se for preciso, eu mesmo paro Aria. Ela irá entender.
Morgana respira fundo.
— Tudo bem, não irei mais argumentar contigo a respeito. Levarei o Alterorganis do Akonancore para Helheim, a ilha mais gelada de Svargrond. Em um ano, recolherei eu mesma e deixarei na sua casa em Cormaya. Enquanto isso, mexa suas peças para evitar que Senzo seja morto.
— Muito obrigado, Morgana. De verdade.
— Irá me agradecer quando eu mesmo convencer Aria a deixar a minha ilha. Pode ser que os magos pensem que o apocalipse começou quando nós duas começarmos a discutir, mas não será nada parecido. — Disse, sorrindo e dando alguns leves tapas no braço direito de Nuito.
— Então estou indo. Até a próxima, Morgana.
— Fique bem, Nuito Resgakr. A Academia pode não estar de braços abertos para você, mas eu estou. Mas sem segundas intenções.
Nuito ri e vai embora do andar. O guarda-costas segue ele, ainda sem falar uma palavra sequer. Apenas quando ele vira de costas para seguir o falso mercante que ela finalmente reconhece quem está seguindo ele.
Guarda nenhum teria um bumbum tão redondo e feminino.
~*~
A terra maculada pelo Akonancore recebe seu quarto contingente de soldados edronianos em um mês. Senzo e seus Inexpressivos e Ordinários derrotam eles em pouco tempo. Os inúmeros besouros e mariposas enormes que caçam carne humana também ajudaram bastante, mesmo que Senzo fosse capaz de cuidar sozinho com seus poderes de criação e sua Célula de Ferro que agora reforça inteiramente seu braço esquerdo.
Há vinte Inexpressivos próximos dele e cinquenta Ordinários cercando os arredores. De cima de um monte, acompanhada de inúmeras mariposas, e usando correntes feitas de carne que ajudam a proteger seus braços e pernas, Miraya observa os movimentos das fronteiras. Desde que absorveu o Akonancore, ela focou em melhorar sua visão, com o objetivo de dar suporte ao seu marido. Suas habilidades físicas melhoraram, mas ela não é tão experiente com combates ainda.
Ela salta de cima do monte e pousa com o auxilio das mariposas gigantes, com corpos carmesins, mas asas brancas e extremamente pálidas. Para ao lado de Senzo, que observa os inúmeros corpos ao seu redor. Mas antes que ele começasse a se incomodar, bocas monstruosas surgem do chão e tragam os corpos para dentro de sua imensidão, limpando a terra para seu mestre e deus. Ele sorri, satisfeito.
— É uma pena que vidas que viveram tantas histórias, tiveram tantos sentimentos e ideias, que tanto lutaram e se esforçaram, tenham esse fim deplorável. — Disse Miraya, melancólica.
— Elas automaticamente se tornam vazias quando obedecem a comandantes covardes. — Responde Senzo, sem alterar sua expressão. — Além disso, eu lhes dei o mesmo fim que teriam em circunstâncias comuns. Enterrados debaixo da terra, devorados por ela a cada ano, até não sobrar mais nada de sua carne e dos seus ossos.
— Isso foi profundo.
Senzo não tem tempo para elogios. Um Ordinário começou a lutar com alguém próximo de um amontoado de pedras que lembram apenas órgãos atualmente. Ele lança sua Célula de Ferro adiante, na direção da luta, e acerta aquele que tentou atacar sua criação. Ele o traz até a sua frente sem esforço, levando nada mais do que alguns segundos.
Na sua frente, está um jovem, de talvez vinte anos. Um Cavaleiro, usando uma cota de malha escura com bordas laranja, assim como a calça. Usa um Machado Nobre como arma, e está sem capacete, o que revela seu rosto aterrorizado. Seus cabelos são ruivos e não há nada que se destaque no seu rosto, que parece normal para um edroniano.
— Por favor, não me mate! E-Eu não tinha a intenção de vir matar você ou qualquer uma de suas criações! Me escute, por favor!
Senzo parecia estar mais ouvindo grunhidos de dor de um porco que não foi abatido corretamente. Entretanto, para a sorte do rapaz, Miraya parece ter tido sua atenção atraída. Seu marido cria uma lança com uma ponta bem afiada para matá-lo e a joga direto para o peito do cavaleiro, mas uma mariposa gigante surge na frente e leva o golpe no lugar dele.
— Ora ora, Senzo. Parece que você matou uma das minhas queridas. Isso certamente terá volta.
— ...Mas o que diabo você está fazendo?
— Pense. Com mais jovens como esse do nosso lado, contendo Akonancore em seus corpos, formaremos nosso próprio reino. Teremos gente mais que o suficiente para tomar essa ilha inteira. Nosso sonho será concluído com mais rapidez. Poucos serão os que conseguirão fazer frente contra nós.
Por um momento, parece realmente uma boa ideia. O Akonancore que ele possui é exagerado. Há muito escondido nas profundezas de Edron, e bastante no norte de Darashia, embora a terra não tenha sido maculada ainda, e estes reservas podem ser usados. Isso inclusive traz de volta a memória de ver vários navios lotados de minotauros atacando o vilarejo no norte de Darashia, o que obrigou ambos a correrem, pois, na condição em que estavam, jamais montariam defesas rápido o suficiente para conter as criaturas, que já se apossaram do lugar, e transformaram-no em ruínas.
Isso lembra perfeitamente de como seres vivos são. A sobrevivência sempre será seu maior objetivo, sua diretriz. Frente a perigos que consigam lhes dirigir ao fim de suas vidas, eles lutam para continuarem vivos, não importa em quem tenham que pisar para tal. Mas Senzo não era assim. Ao invés de sua diretriz ser sua sobrevivência, ela era cumprir seu objetivo. Não importava em quem tivesse que pisar para tal.
E vendo que aquele jovem não era daquele jeito, e que eventualmente poderia desertar, trair, ou até mesmo revelar aos inimigos a sua fraqueza, apenas para continuar vivo e não ser morto pelos inimigos por algo que ele praticamente não entende, Senzo percebe que a ideia é boa apenas por um momento.
O chão se abre, acompanhado dos numerosos dentes afiados, que devoram o pobre jovem cavaleiro. Este, que se vai berrando aos prantos, mostra a Miraya que Senzo não tinha a intenção de ter amigos ao seu lado. Afinal, os únicos que ele tinha o traíram. Quem mais entenderia seus planos senão ele mesmo e sua esposa, aquela que o entendia desde o começo? Eles estavam sozinhos. Mas, ainda assim, isso não deixa de ser atraente.
O céu está escurecendo a cada dia que se passa. Os desafios para que seu sonho se realize estão apenas começando.
No porto de Edron, Aria Ahrabaal acaba de chegar num navio especial, cuja madeira fora pintada com cores semelhantes ao azul e as velas com algo parecido com verde. Junto a ela, cinquenta magos thaianos e venorianos a seguem.
Não tão longe do portão principal para dentro da cidade, Morgana, junto de cento e vinte magos edronianos, aguarda para dar as boas vindas. E, com alguma sorte, firmar um acordo.
Próximo: Capítulo 32 – Re:Bloodtrip II
Capítulo 32 - Re:Bloodtrip II
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Nightcrawler <3
Referências a parte, gostaria de destacar esse trecho:
Rapaz, isso me lembrou alguma coisa interessante lá no fundo da minha mente, mas não consigo me recordar exatamente do quê. Li um conto aqui certa feita chamado "Como Anões e Elfos", algo do gênero, e esse foi um trecho que me fez me lembrar de algo que li nele, embora não consiga reconstruir exatamente o quê.
O capítulo foi interessante para um capítulo de transição, e não se parece nada com um capítulo finalizador, para a sua sorte. Sua integridade física agradece.
Sobre Ember, comecei a dar certo valor para o personagem só agora, se me permite. Gosto da forma como ela vem assumindo as rédeas de determinadas situações, ainda que pareçam maiores do que ela. Não é uma coisa que se diga "nossa, Nightcrawler", ou "nossa, Dartaul", mas o espaço dela está muito bem reservado. Provavelmente já devo ter dito isso antes.
Aliás, excelente a sacada da Academia de Magia. Lembro-me de você ter comentado que ela assumiria um certo papel em Bloodtrip, e acho que há mais o que se extrair dela, além do que você já conseguiu fazer até agora.
Embora seja um personagem que eu ame, devo advertir a Senzo que sua ambição pode acabar se tornando sua ruína. Espero que não seja simplesmente o caso, mas estou de olho nele (como sempre).
No mais, excelente trabalho, como de regra, Carlos. Ansioso pela segunda parte do capítulo.
Abraços!
Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Eu tinha dito que não ia terminar nesse capítulo :lol: o nome foi pra mostrar que é não seria o fim, mas o começo. A parte fatídica que mostra como tudo começou. "Re" geralmente quer dizer reinicio, e é usado em vários animes com temas semelhantes: Em Re:Zero, o protagonista é um rapaz de 16 anos, japonês, comum, que do nada aparece num mundo de fantasia sem saber nada sobre ele, e é obrigado a recomeçar sua vida do zero naquele mundo que ele não conhece. Em Re:Life, o protagonista é um cara de uns 26 anos que faz parte de um experimento de um remédio rejuvenescedor, que faz ele voltar a ter 16 anos e voltar a frequentar a escola. Tokyo Ghoul:re é também um recomeço para a história depois de muitos eventos da história anterior, uma sequência perfeita, onde tudo começa do zero pro protagonista e para os seus amigos. É por isso que dei esse nome pra esse capítulo. Não tinha nada a ver com o fim :lol:
Ember fará mais coisas futuramente, algumas podem prejudicar Senzo e até pesar no presente da história. É também uma personagem importante, como um todo. Já Senzo, bom, espere coisas surpreendentes dele. Acho que você ainda vai gostar mais ainda dele, mas não do mesmo jeito que Nightcrawler (Que logo tá voltando)
Obrigado pela presença constante, Neal. Espero de verdade que esse capítulo aqui seja do seu agrado, apesar de ser gigante.
Citação:
Postado originalmente por
Senhor das Botas
Novo capítulo, e boatos de um GIGANTESCO de 16 páginas... Enfim, vamos ao comentário.
Btw, estou apreciando o desenvolvimento dos dois, Nuito e Ember. Os pequenos detalhes aqui e ali, aquele ciumezinho, e trechos como o abaixo mostram o quão bem você vem desenvolvendo as personagens.
Embora talvez haja, sim, espaço para melhora (você desenvolveu as outras personagens da história "melhor", eu diria), com o espaço que você está trabalhando, que seria alguns capítulos, você criou... Bem, meu "afeto" por Nuito e Ember. Mesmo já sabendo do que irá ocorrer, quero ver COMO você vai conduzir o desfecho e a morte d...
Não pera, não te conheço direito. Tudo o que posso fazer é aguardar este próximo capítulo GIGANTESCO do qual você me falou sobre. Sério, o hype ta grande aqui.
Diga aí Botas, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Esse trecho aí parece me dar a impressão de que o desenvolvimento que eu dei foi na bunda da Ember :lol:
Eu devo dizer que o desenvolvimento dos personagens atuais não é algo que eu conseguiria fazer parecer algo do mesmo nível que os do presente, afinal, eles tiveram muitos capítulos para serem trabalhados, e esses tiveram uns 8 ou 9. Fiz o possível para não desviar o rumo da história do passado e ficar chato demais. Já tava até me incomodando o quanto que eu estava estendendo essa história.
Não aguarde mortes, Botas. Você sabe que, em Bloodtrip, tudo pode acontecer. Não há clichê de história de herói. Há um ceifador escolhendo aleatoriamente quem deve morrer. eu mesmo, evaristo costa
Espero que goste do capítulo gigantesco!
E sim, esse capítulo é gigante mesmo. Não quis dividir em partes, pois tudo aí é importante pra um capítulo só. O desenvolvimento construído ao longo de 8 capítulos deve chegar a um fim digno. E estou dando ele para vocês.
Antes de irmos para o "primeiro" fim, vamos para algumas coisas:
Devem ter percebido que Nuito criará uma arma. Essa é a arma em questão: https://i.imgur.com/h8Bgmt7.gif
Sim, a criação da Blacksteel Sword é atribuída a Nuito nesse mundo. De certa forma, ela é fraca no geral, mas pode ser usada para acabar com qualquer coisa do Akonancore. É é a base usada para criar as armas que podem ser encantadas. Já quis explicar isso de forma prévia pro capítulo ficar ainda mais interessante.
E eu escrevi esse capítulo escutando esses dois mixes. Sei que não é um tipo de música que agrada todo mundo, mas se quiserem dar uma imergida na coisa do mesmo jeito que eu fiz, tá aí a recomendação. Na batalha final de fato, também deixarei outras recomendações parecidas. O tipo de música é eletrônica, "Chill Trap", um mais específico porém popular. Não é como "Dubstep" no entanto.
Enfim, espero que gostem! O capítulo é realmente grande, mas tem a vantagem de você ler até uma parte antes do início da batalha, dar uma pausa e depois retomar. Ou ler tudo de uma vez mesmo. Aí é com vocês.
No capítulo anterior:
Nuito cria o Aço Negro, capaz de contra-atacar o Akonancore e o Musenki. Ele pede a ajuda da líder da Academia Noodles de Magia de Edron, Morgana, para ajudar com o plano, levando o que criou para Helheim. Enquanto isso, Senzo se recusa a trabalhar em equipe e decide agir apenas com Miraya no Musenki.
Capítulo 32 – Re:Bloodtrip
Parte 2
347 é o ano fatídico.
Inúmeras discussões, reuniões e assembleias foram feitas ao longo do período de um ano, isso desde que Nuito entregou a primeira forma do Aço Negro para Morgana, que tem feito o possível para segurar as forças continentais de atacar Senzo no norte. Toda a área de Edron ao noroeste está vermelha, e essa doença sobre o solo tem avançado devagar, obrigando os acampamentos próximos a se afastarem mais e mais, algo que tem sido usado como um argumento poderoso para atacar logo o local.
Mas o argumento de Morgana tem sido melhor: Como pararão o Akonancore de continuar infectando o chão após matar Senzo?
Sem encontrar soluções, a situação se arrasta e piora a cada dia. Nuito, que tem ficado mais ansioso a cada mês em Cormaya, recebe vez ou outra uma visita de Morgana. Ember no começo não confiava na feiticeira, mas rapidamente ela percebeu a falta de interesse amoroso de qualquer tipo da mulher, e notou os motivos técnicos dos quais motivava ela a aparecer na casa. Ainda assim, não parece ser uma boa ideia a líder dos magos edronianos abandonar a Academia em Edron para ir para Cormaya sem motivos claros.
Nuito também pediu para ela manter segredo, mas ela já esclareceu que não há mais como manter as coisas assim. Dessa forma, ofensivas tem acontecido vez ou outra contra o Musenki.
Há um mês, Nuito recebeu a última visita de Morgana. Ela trouxe a caixa num espaço mágico dentro de uma bolsa, para não atrair suspeitas. A caixa, bem congelada, precisou ser aberta com um pé-de-cabra recentemente feito e com materiais decentes, para não quebrar nada lá dentro, inclusive a ferramenta. Estava verdadeiramente congelado. Helheim não decepciona.
Feito o processo, Nuito começou a usar o Aço Negro na forja. Derretendo-o com esforço na fornalha, mais do que com ferro ou outro minério, não demorou tanto para ele finalmente conseguir forjar uma espada negra que, no dia seguinte, ficou clara de novo.
Nuito engoliu em seco. Para saber se iria funcionar ou não, ele precisa visitar o Musenki. Mas se ele fizer a grama desaparecer, Senzo perceberá, pois ele está diretamente conectado com tudo no Musenki. Dessa forma, ele novamente pede a ajuda de Morgana para obter algum material do local, pois o medo de sua invenção não dar certo está começando a engoli-lo.
Mas, ao invés dela aparecer, outra pessoa apareceu. Um homem velho, de vestimentas de mago, com cabelo e barba longos, um chapéu vermelho na cabeça e um robe branco. Usa um cachecol vermelho, e leva uma bolsa verde consigo, bem como um longo cajado de carvalho negro. Embora pareça totalmente com um mago, não é um.
É apenas o inventor maluco, Spectulus.
Nuito, que tem sempre andado com uma camisa verde e calças negras, não parece muito feliz com a escolha de Morgana em confiar em alguém notavelmente estranho, mas decide dar um voto de confiança. Ela não o trairia nessa altura do campeonato.
Ele recebe o velho em sua casa, deixando-o no sofá com um chá de camomila. No fundo, próximo da escada para o andar acima, Ember interroga Nuito.
— Tá bom, Ember. Se um dia minha confiança nas pessoas acabar me matando, pode você mesma atirar uma flecha na minha cabeça. É melhor você me matando do que qualquer outra pessoa.
— O-O que diabos está dizendo? Prefere morrer pela mão da pessoa que ama?
— Não vejo problema nisso.
Ember acaba de perceber que Nuito falou indiretamente que a ama. Isso ainda a deixa muito sem jeito, apesar do longo ano que compartilharam juntos. Por isso, ela acaba ficando quieta.
— Olha, veja bem — Disse Nuito, pegando as mãos da elfa — Spectulus não é lá um cara muito normal, mas ele é um dos inventores mais geniais que passaram por Edron. Se Morgana confia nele, eu confio também. E ele já se aposentou da vida de mago tem anos, eu não acredito que ele consiga matar a nós dois dentro da nossa casa.
— Mas... Se ele já foi um mago...
— Ele sempre será um? Não duvido, mas também não acredito que ele vai convocar um tornado de fogo sobre as nossas cabeças. Vamos ver o que ele tem a dizer, e então tiraremos as nossas conclusões.
Ember respira fundo e concorda. Dito isso, ambos aproximam-se da sala novamente e sentam-se no sofá do outro lado, com apenas uma mesinha os separando. Spectulus, com as mãos levemente trêmulas, põe a xícara de chá junto do pires sobre a mesa.
— Nuito Resgakr, não é? — Pergunta Spectulus, pacientemente, mas um pouco devagar. Nuito faz que sim com a cabeça — Morgana Val Gerturias me pediu para vir e trazer o que requisitava para sua invenção dar certo. E para ser honesto, estou bem curioso a respeito dela.
— Agradeço muito, Spectulus. Você é um inventor admirável. Eu gostaria de mostrar o que criei, mas infelizmente, o tempo urge. Garanto que farei isso quando tiver o tempo necessário.
— Oh, tudo bem, tudo bem. Inventar e criar toma muito tempo, não é? Eu entendo perfeitamente. Há alguns dias, tenho traçado planos para uma invenção minha, algo parecido com um meio de transporte eficiente. Ela tem um formato ambicioso, e pode correr por debaixo da terra ou acima do chão. É algo para deixar os yalahari babando! Há mais algumas coisas...
Por alguns minutos, Spectulus ficou contando sobre diversas coisas que tem trabalhado, com sua voz lenta e envelhecida. Ember pensa que está sendo punida pelos deuses, mas Nuito pensa que está sendo um pouco interessante ouvir o velho. Talvez ele fosse um pouco solitário demais e não conseguisse compartilhar o que cria com alguém, mesmo que tivesse assistentes, e que aquela era uma oportunidade rara.
Finalmente, Spectulus abre a bolsa e mostra para Nuito. Numa vista superficial, pareceriam órgãos, mas eram apenas as pedras estranhamente parecidas com carne que compõem o Musenki.
— Teste sobre elas. Tenho certeza que você está criando algo pra parar aquela doença. Pois bem, desejo-lhe sorte.
— Muito obrigado, Spectulus.
— Bem, estou indo. Aproveite a chance que tem, jovem Nuito. — Disse Spectulus, levantando-se — Revolucione o mundo. Salve-o.
Nuito assente e acompanha o inventor até a saída. Após o homem finalmente partir, Nuito olha com mais esperança para Ember. A hora está chegando.
Após algum tempo, Nuito levou a bolsa para o quarto onde ele esteve trabalhando. Colocou as pedras sobre um balcão e pegou a espada feita de Aço Negro. Ao colocar ela sobre as pedras, não demorou mais do que dez segundos para elas voltarem a ser pedras comuns.
Ember, que estava ao seu lado, pula em sua direção e o abraça. A cura foi finalizada.
~*~
— O que diabos você quer fazer?! — Pergunta Morgana, praticamente gritando.
— É isso. Eu preciso entrar no Musenki sozinho. Tem que convencer os Steelsoul a deixarem aquele lugar.
— Mas nem morta! Tá pensando o quê? Você não é nenhum Astronis*pra superar tudo que tem lá sozinho!
— Não dificulte pra mim, Morgana. Ember já concordou, então por que você concorda?
— A sua namorada concordar em jogar você no meio do inferno não muda em nada a minha opinião, Nuito!
A discussão acalorada frente a decisão arriscada de Nuito de entrar no Musenki ocorre no topo da torre principal da Academia Noodles de Magia, ao lado do Globo de Detecção de Magias Destrutivas**, um dos objetos mágicos de maior orgulho da academia. Há treze meses, Nuito conseguiu desenvolver o Aço Negro, e durante esse tempo, todo tipo de disputa e discussão ocorreu em Edron para atacar o Musenki. A verdade é que ninguém tinha coragem suficiente de entrar lá dentro, e Aria Ahrabaal, uma das poucas pessoas capazes de subjugar o poder de Senzo, está constantemente sendo impedida pelos edronianos.
Nessa situação de impasse, Nuito teve uma sorte colossal pelo fato da existência do Aço Negro não ter sido revelada ainda. Apenas Morgana e Spectulus conheciam aquilo, além de Ember. Mas apenas Ember sabe como aquilo foi criado. E ainda assim, houve formas de parar tanto Morgana quanto os thaianos, ansiosos para atacar o território de Senzo, deixando até mesmo 20 navios ancorados próximo da baía que leva a região contaminada.
O termo “Musenki”, tão equivalente a “Selva” ou “Deserto” já é popular e oficial para se referir ao bioma que Senzo supostamente criou. O assunto ainda não é popular em Tibia, mas quem vive em Edron apenas discute a respeito disso e teme que Senzo comece seu contra-ataque.
Em meio a essa situação, Nuito quer se arriscar sozinho pelo bem de todos. É claro, ele não pensa que é um herói, ele apenas pensa em salvar o seu melhor amigo de sua própria ilusão. Mesmo que morra no processo. Além disso, de alguma forma, Ember concordou com a decisão do ex-biólogo, embora ela não acredite que vá conseguir se segurar por muito tempo.
Nuito respira fundo. Ele está diferente naquele dia. Usa uma Armadura Cristalina, que é uma grande proteção para o peito que, mesmo um pouco pesada, o protege muito bem. Usa um capuz laranja, carrega um escudo alto com uma imagem de um dragão nele nas costas e veste calças azuladas, compradas de um mercador de Darashia, além de Botas de Velocidade. A espada que elimina Akonancore está embainhada na sua cintura. Está totalmente preparado para lutar.
Morgana sabe que ele tem treinado muito no ano que se seguiu para combater com a voracidade, força e equilíbrio de um cavaleiro, mas ainda não confia nele. Pois, até então, ele não passava de um biólogo. Mas é simplesmente muito difícil convencê-lo.
— Pense bem, Nuito. Não posso simplesmente chamar todos de volta e dizer que um homem sozinho vai destruir tudo de ruim que há naquele lugar. Por mais que eu seja a líder da maior organização de Edron, eles não irão se convencer.
— Então eu tenho uma ideia melhor.
Morgana cerra o cenho.
~*~
Lá está Morgana, junto de alguns magos que trouxe da Academia, no principal acampamento formado para impedir o avanço de Senzo. Ela atraiu todos os guerreiros, magos, feiticeiros e druidas da região, bem como Aria Ahrabaal e o general de Edron, David Steelsoul.
Ao lado de Morgana, está Nuito. Sua espada está desembainhada. A líder dos magos está visivelmente nervosa. Ela não para de pensar que aquilo é uma má ideia. Ember está observando ao longe, vestida até a cabeça de equipamentos e proteções élficas, com medo das mariposas gigantes que estão voando perto dos limites do Musenki. O acampamento originalmente foi construído a 300 metros de distância, mas agora a grama vermelha está a apenas 100 metros, junto das criaturas características da região.
Nuito avança. Seu caminhar determinado entre as inúmeras pessoas do acampamento as deixa impressionadas. Nunca viram um guerreiro com tamanha determinação antes. Ele simplesmente não demonstrava medo. Até porque ele não tem medo do seu amigo. Na sua mão, está algo que vai acabar com todo aquele terror, e na sua mente, a maior parte da personalidade de Senzo, que conhecia muito bem.
Quando começou a pisar na grama vermelha, os protestos começaram. Aria parecia já se preparar para ir atrás dele e impedi-lo, mas Morgana se mete na sua frente. Ambas se encaram. A tensão aumenta a níveis astronômicos.
— Observe. — Disse Morgana, com um sorriso.
Aria vê Nuito parado, em frente a várias mariposas e besouros enormes, com aparência esquisita. Há alguns Ordinários se aproximando. Ele levanta sua espada.
— Exori: Buster! — Grita Nuito, fazendo a espada começar a agir, com choques totalmente brancos e sombrios começando a surgir em volta da arma.
Em pouco tempo, um estrondoso som de um estouro surge. Uma longa onda de força se inicia a partir de Nuito e se espalha para o resto do Musenki, atingindo as criaturas também. Em instantes, elas acabam voltando ao normal, e os Ordinários se transformam em simples cogumelos pequenos, caindo no chão. A grama ao redor fica verde, mas menor. As pedras também voltam ao normal.
Mesmo o Aço Negro tem sua energia própria, que pode ser desbloqueado através de pronúncias, como as magias e habilidades comuns de um cavaleiro. Do mesmo jeito que Nuito fez.
Todos do acampamento testemunharam aquele milagre, inclusive Aria, que há anos não esboça surpresa. Morgana e Ember sorriem, orgulhosas.
Nuito vira-se para o acampamento, seu semblante jamais tão valente e corajoso em sua vida. As pessoas o olham com surpresa e, como esperado, esperança.
— Daqui em diante, eu sigo sozinho! — Grita Nuito para a multidão no acampamento — Senzo é meu melhor amigo, e se ele fez isso a essa terra, se ele matou tantas pessoas, a culpa é minha, eu mereço ser punido pelo o que eu fiz! Resolverei isso por conta própria, e ninguém deve me seguir! E se pensarem em ir e se virem em problemas... — Nuito pensa um pouco melhor antes de falar isso, mas se vê sem opções — Eu os deixarei morrer!
Protestos são audíveis ao longe. Mas muitas das pessoas no acampamento entendem o que ele quer dizer, mesmo que a ideia seja uma loucura sem tamanho. Morgana também se convence, embora não queira deixar o homem ir sozinho. Ainda assim, ele se vira e vai, sem hesitar.
No meio de todas essas pessoas, quem mais sofre é Ember. Ela está no limite do acampamento à direita, observando ao longe Nuito partir. Sente uma dor horrível cobrindo seu peito, e uma culpa imensa em deixa-lo sozinho.
— Você não tem culpa de nada, imbecil... — Sussurra Ember, sozinha e triste.
Ember se lembra de algo que aconteceu há quase um ano.
Era uma manhã. Nuito fita seu próprio rosto no espelho, com um semblante melancólico, no quarto onde dormia. Ember aparece de repente, apoiando sua cabeça sobre o ombro esquerdo dele e deixando seu braço direito sobre o ombro livre dele. Ela fita-o também, com um sorriso. Ele está usando uma regata cinza cheia de pequenos furos, e seu longo cabelo castanho-escuro está bagunçado. Acordou há pouco tempo, mas Ember já está acordada há um bom tempo.
— Eu pareço mais acabado do que o normal. — Disse Nuito, um pouco desanimado.
— Pra mim, você parece o mesmo de sempre.
— Impossível. Tenho 35 anos agora. Estou envelhecendo um pouco mais rápido do que o normal, tanto que não ficaria surpreso em achar fios brancos no meu cabelo. — Disse, coçando o queixo. Está barbeado desde que chegou em Cormaya.
— Há! 35 anos para mim não é nada.
Ember solta-o e anda aleatoriamente pelo quarto, com as mãos nas costas. Nuito observa-a.
— Acho que nunca te perguntei, mas quantos anos você tem?
— 76 anos. Estou na adolescência élfica ainda.
— Por Nornur...
Ember abre um sorriso bem animado ao ver a reação dele, mas logo fica uma expressão triste. Parece estar lembrando-se de algo importante. Nuito acaba reparando nisso.
— O que foi?
— Todo esse tempo, eu queria te contar algo muito importante a respeito de eu ser uma elfa. Mas nunca tive coragem.
— Elfos não aceitam relações com humanos?
— Não, isso é outro assunto... — Balbucia Ember, de forma triste. Ela passa a mão sobre os longos cabelos ruivos, que estão soltos, cobrindo suas orelhas pontudas. Contrasta de forma excelente com sua túnica verde que vai até a cintura, junto de calças de mesma cor, mas bem mais escuras.
Do ponto de vista de Nuito, mesmo que ela estivesse um pouco mal cuidada, ela está linda.
— O que é, então?
— Nuito... Elfos vivem muito mais do que humanos. Meu desejo mais forte é me casar com você, ter um ou dois filhos, ensiná-los milhares de coisas e brincar o quanto pudéssemos com eles... Mas eu não os assistirei enquanto envelheço contigo. Eu simplesmente assistirei você envelhecer, enquanto eu continuarei jovem. Eu verei você morrer nos meus braços. Eu... Verei meus filhos envelhecerem também... E morrerem nos meus braços também... E talvez até mesmo os netos... — Ember fraqueja a cada frase. No final, ela já está chorando, se sustentando em suas pernas por um fio. — E finalmente morrerei, pois eu sou de uma maldita família élfica de Ab’Dendriel capaz de viver até 5 séculos! Eu assistirei tantas pessoas morrendo que eu sinto vontade de tirar meu coração com as minhas próprias mãos, Nuito... Só pra não ver isso... Só para não t-testemunhar...
Nuito respira fundo. Ele sabia que, uma hora ou outra, ela diria isso. Não conhece a família que ela pertence, mas sabe que ela teria que vê-lo morrer velho e moribundo. De certa forma, foi por isso que ele demorou tanto para corresponder aos sentimentos dela.
Ele vai até ela e segura seu rosto com ambas as mãos. Olhar seu rosto choroso de tão perto é pior que olhar para pilhas de cadáveres. Para tentar solucionar isso, ele a beija. De forma bem diferente de quando o mesmo ocorreu em Stonehome.
O homem finalmente para depois de quase dois minutos e afasta seu rosto. Ember está com uma expressão diferente. Suas mãos segurando forte a sua camisa pelas costas expressam bem o que ela está sentindo agora.
— Pare de pensar no futuro. Não lembre do passado. Fique apenas no presente, pois ele é uma dádiva.
As mãos de Nuito vão até a sua cintura e avançam delicadamente para dentro da túnica.
— E vou te ajudar agora a se lembrar disso.
~*~
Ember lembra de tudo isso com as mãos sobre a barriga e reflete sobre. Chegou muito perto de dar errado.
Mas bem que podia ter dado errado mesmo.
Nuito continua caminhando Musenki adentro, enquanto o dia parece ficar mais escuro conforme ele vai mais fundo. Tudo que entrou em seu caminho, ou foi destruído, ou foi curado. Ele vai em direção do lago onde tudo começou, ignorando principalmente a visão persistente de Miraya à distância.
Ele lembra de uma doença esquisita que a própria Miraya criou: A Maldição da Mariposa é o nome dado para ela. Aparentemente, ela cria uma mutação que deixa os humanos com uma aparência próxima de uma mariposa, e nos estágios finais, patas nascem do tronco e ambas as pernas e braços caem para dar uma semelhança maior a uma mariposa, que seria o processo onde todos morrem. Ninguém sobreviveu a isso ainda. Nuito tem tomado cuidado redobrado com as mariposas por causa disso, pois elas são obviamente os transmissores.
Levou pouco mais de vinte minutos para chegar até lá caminhando. Ele não pode correr, ou o chão se abrirá para devorá-lo, ou então os insetos e vermes ficarão mais agressivos. Cauteloso, ele para em frente ao lago, onde ele nota pouco a pouco que está sendo cercado por inúmeras criaturas do Akonancore.
Eventualmente, Senzo aparece também. Ele caminha no meio das criaturas e para a uma boa distância. Nuito afasta-se do lago, por notar a presença de criaturas agressivas lá também.
Eles se encaram por um longo tempo.
— Isso acaba hoje.
— Não, Nuito. Isso nunca vai acabar. Pois, veja bem, até então, você nunca se importou com o quão longe os alquimistas vão para cumprir seus objetivos. Pois era tudo em nome do progresso, não é? Você também concordava! Nós, alquimistas, somos movidos por nós mesmos, e não só pelo progresso, nem pela ciência. Não há nada de errado nisso, pois tudo que vier não passa de consequência.
— Vai pro inferno. Eu nunca concordei em matar gente inocente pra cumprir objetivos.
— Mas você admirava até mesmo aqueles que foram acusados de acabar com a vidas inocentes, não? Tipo Ferumbras.
— Eu o admiro pelo o que ele fez enquanto não estava louco!
— Mas ainda assim, você o admirava. É o suficiente.
— É, Senzo. É o suficiente pra mim, também. Até porque eu não vim aqui pra negociar ou papear.
— Última chance de se unir a mim! Nós vamos mudar o mundo juntos ou não?
— Não.
Senzo, que ainda conta com o mesmo visual de um ano atrás, na cabana, se entristece. Mas não o suficiente pra impedi-lo de fazer alguma coisa.
— Que seja.
Senzo salta em sua direção com inúmeras correntes com lâminas pontudas cercando seu corpo. Seu impulso é sustentado pela força imensa que o Akonancore lhe deu. Junto ao seu salto, ele cria um número assustador de lanças para acertar Nuito.
Sem sair do lugar, Nuito contra-ataca.
— Exori: Buster!
A mesma onda de choque faz as lanças desaparecerem e se choca com mais força que o normal contra Senzo, jogando-o longe. Quando ele cai no chão, ele levanta sua mão direita, criando dezenas de Inexpressivos ao redor de Nuito. Mas eles aparecem fracos e menores, devido ao chão estar gramíneo novamente e sem influência do Akonancore.
— Exori: Burst!
Nuito carrega de eletricidade branca sua lâmina e atira ela contra um grupo de Inexpressivos a sua direita. Ela estoura, joga uma onda de choque e volta novamente para a mão de Nuito, fazendo as criaturas sumirem logo depois. Ele repete o processo várias vezes, matando em pouco tempo as criaturas ao seu redor.
Mais mariposas gigantes e besouros vem na sua direção, mas ele mata-as com golpes de espada comuns. As bolas de carne flutuantes com olhos que voam perto do lago também avançam com velocidade estrondosa contra Nuito, mas ele simplesmente faz o mesmo que fez contra o avanço de Senzo.
Atualmente, parece impossível atacar Nuito de frente. Ele é rápido e sua espada também, mesmo que ela leve alguns segundos para criar a onda de choque. Senzo não é tão rápido.
O dia já é noite, embora seja pouco mais de 5 horas da tarde. Ainda assim, há muitas luzes vindo de todas as pedras e rochas ao redor. Nuito continua lutando da mesma maneira, até Senzo notar que nada que seja feito do Akonancore funciona contra ele. Isso depois de quase vinte minutos.
Dessa forma, o alquimista avança sozinho, sem criar nada.
— Finalmente!
Nuito avança também, a armadura dificultando levemente seu andar. Ele não corre pelo mesmo motivo, mas precisa agir com velocidade se quiser vencer.
— Exori Gran: Buster!
Uma onda de choque ainda maior que as de antes cobre dezenas de metros ao seu redor. A grama atingida volta a ficar verde de novo, dando espaço para ele correr. Senzo se enfurece, e avança de novo, jogando a Célula de Ferro adiante. Nuito a defende duas vezes antes de Senzo aparecer na sua frente e ambos começarem a digladiar como heróis de lendas num confronto final, ignorando qualquer relação entre si.
Senzo eventualmente pula para trás e cria paredes de arenito aqui e ali, defendendo-se dos golpes mortais de Nuito. Senzo aproveita para criar mais e mais paredes e confundir o oponente, como se estivesse criando um labirinto. Mas ele não pode ser enganado dessa maneira.
— Buster!
Uma gigantesca e poderosa onda de choque faz todas elas desaparecerem. Antes que Senzo pudesse recuar um pouco e ganhar espaço, ele é atingido no braço direito. Felizmente, a proteção de prata apara o golpe, e seu dono responde lançando a corrente dela em linha reta, por pouco não acertando a cabeça do guerreiro.
Nuito agora está usando seu escudo. Com técnicas de defesa e ataque seguidas, ele torna a Célula de Ferro inútil para combater. Dessa forma, Senzo cria uma maça de prata para tentar destruir tanto o escudo quanto a armadura, mas ela desaparece ao entrar em contato com a espada de Aço Negro. Nuito chuta-o na barriga em resposta e abre um corte grotesco à direita do queixo do homem pálido.
— Seu merda! — Vocifera Senzo, afastando-se e colocando vários Ordinários para lutar em seu lugar, mas eles são eliminados em pouco tempo — Você me apoiava! Queria que eu fosse como Ferumbras! Por que quer que eu pare agora?
— EU NUNCA QUIS ISSO! Eu não apoio nenhuma loucura sua! — Berra com uma fúria incontrolável em resposta a Senzo, avançando novamente — Exori: Burst!
Nuito atira sua espada contra Senzo, mas ele desvia. Ele aparece num instante em frente dele e soca seu rosto com muita força, bem onde está o corte. O guerreiro continua socando-o, acertando sua barriga, seu peito, seus olhos, suas têmporas e por fim chutando seu calcanhar. Ele atira a espada de novo como antes, mas, de alguma forma, Senzo se desfaz em Akonancore e aparece logo atrás dele. Porém, Nuito se abaixa e a espada volta, atingindo o lado direito do tórax do alquimista.
Nuito puxa a espada num frenesi e soca seu rosto novamente. Em seguida, ele levanta ela em direção do céu.
— Unlimited Burst!
Trovões sacodem os céus e um relâmpago atormenta até quem está a quilômetros dali. Em seguida, um raio branco como a lua desce em direção de Nuito, que dá um giro rápido e rebate o raio com a espada na direção de Senzo, bem a tempo. O golpe atinge o inimigo em cheio.
Ele fica algum tempo sendo vítima daquele poderoso raio, até que, por algum milagre, ele consegue pegá-lo com sua mão de prata, afastá-lo e jogar sua energia contra o chão. O chão literalmente sacode, indo para cima e atirando ambos para o alto. Nuito percebe buracos surgindo do chão e dezenas de criaturas saindo de dentro dele, e do meio da onda de choque debaixo do chão, uma criatura nova surge: É literalmente um cérebro gigante, com dois olhos, um de cada lado, totalmente humanos. Há tentáculos perto da região do cerebelo, conduzindo os mesmos raios que Nuito criou. Ela lança aos céus o mesmo berro que todos tem escutado há meses naquele lugar.
— Impossível... — Sussurra Nuito, assustado. Ele está voltando para o chão, junto com o próprio chão, e nota que será vítima daquela coisa esquisita e gigante.
Buscando correr do destino, ele junta a espada próxima a seu corpo, e fecha os olhos. Tem mais uma habilidade criada junto com a espada para usar.
— Millenium Buster!
Uma onda de choque ainda mais poderosa que as outras e extremamente maior começa a partir da espada de Nuito, que treme bastante. Senzo será atirado contra o chão, pressionado e provavelmente esmagado e morto se aquilo o atingir. Precisa agir a altura.
Nuito cria sua própria onda de choque, mas essa é feita de algo igual a sangue. Ela corre em direção da onda criada pelo seu oponente, e ambas se chocam. Não demora muito para elas explodirem pelo atrito extremamente poderoso, gerando uma explosão tão poderosa que faz todo o norte de Edron tremer.
Tremores são sentidos na cidade de Edron. A população se desespera. Todos os acampamentos se desesperam. Eles pensam que o plano não deu certo, ou que estão tendo a batalha do século logo adiante. Morgana está bastante apreensiva, e volta a pensar se deixá-lo ir sozinho foi uma boa ideia.
Quando o pó começa a deixar a terra e é possível enxergar de novo, Nuito se vê de pé, e vê Senzo igualmente confuso. Abaixo deles, há areia. Muita areia. E existem ruínas por todos os lados.
Eles estão no norte de Darashia, no vilarejo saqueado, de alguma forma.
Os antigos amigos se encaram com ódio. Nuito não sabe como aquilo aconteceu, mas Senzo sabe. Ele pensou naquele lugar antes de usar quase todo o seu poder para criar uma onda de choque à altura. Nuito também usou. A espada já mostra inúmeras marcas, algumas regiões rachadas e até manchadas.
— Não vamos conseguir lutar mais, Nuito. No próximo golpe, nossas armas se quebrarão. Sabe bem disso.
— Eu não me importo. Continuarei até o fim.
— Pra você, o que é o mundo correto? Pois eu estava querendo criar algo parecido, Nuito. Eu queria dar o poder de criar tudo para os humanos, para eles não sofrerem mais necessidades. Se eles precisarem comer, eles criarão sua própria comida. Se eles precisarem se entreter, eles criarão alguma coisa do tipo, seja um tabuleiro de xadrez, um baralho de cartas, até um cavalo. Se precisarem se defender, criarão armas. O que há de errado nisso, Nuito? O que há de errado em querer facilitar a vida do nosso mundo?
— Os humanos não tem maturidade para ter poderes assim, Senzo. Esse poder é dos deuses, e eles sabem o que fazer com ele. Nós não.
— Então... Não há trégua para nós, não é?
— Sinto em dizer que não, amigo.
Nuito e Senzo dão sorrisos tristes.
Em seguida, levantam cada um as suas armas. Senzo levanta sua Célula de Ferro, e Nuito levanta sua Espada de Aço Negro. Em instantes, eles cercam-se do poder de cada um. Há muito Akonancore correndo ao redor de Senzo, e faíscas claras ao redor de Nuito. É o último choque deles.
— Acabou! — Senzo grita, enquanto salta em alta velocidade contra ele.
— Unlimited Ico! — Nuito também salta em sua direção, coberto por raios extremamente claros.
Ambos se chocam. O chão treme novamente. E uma explosão enorme acompanha o choque.
Quando a poeira baixa, já é possível notar o vencedor.
O céu de Darashia estava claro antes de chegarem ali. Quando trouxeram a explosão de Edron junto, o céu estava escuro. Já é de manhã, as horas passaram rápido, principalmente porque ambos estiveram no chão o tempo todo.
Entretanto, Nuito consegue se levantar para encarar o que era seu amigo. Ele está de costas para o chão, sem o braço de prata, sem uma das pernas e sem um dos olhos. Há uma pequena bola de luz girando em volta do guerreiro, que perdeu o capuz, a parte direita da armadura e as asas das suas botas. Sua espada está em pedaços.
Mas ele venceu.
Nuito sai andando, em direção de Darashia, abandonando seu amigo. O céu ainda está escuro, mas logo ele irá se iluminar de novo. Pois é impossível que Senzo levante de novo e use seus poderes. Todo o Akonancore do seu corpo sumiu, e ele não passa de um humano normal que em breve irá morrer.
E no fim...
Eu nunca o superei.
Próximo: Capítulo 32.5 – Falso Epilogo
Notas:
*: Astronis é uma das lendas do Tibia. Ele, em 2006, numa época em que nem havia hotkeys, solou a Annihilator e sobreviveu. Ele é um mito pra quem joga em Astera, como eu, então decidi fazer ao menos uma menção à ele.
**: É aquele globo estranho no topo da torre central da Academia Noodles de Magia em Edron. Não sei qual é a utilidade dele, então decidi dar uma a ele.
Capítulo 32.5 - Falso Epílogo
Citação:
Postado originalmente por
Neal Caffrey
Para tudo.
Nuito e Senzo, num combate violento. Quem diria que Nuito o venceria. Agora, fica o questionamento: Senzo morreu? Depois de tudo que foi capaz de fazer, depois de um vilarejo ser levado abaixo pra mantê-lo vivo, Nuito, sozinho, o teria vencido e matado? E mais: amigos brigando entre si, arrancando pedaços uns dos outros, bah. Goku vs Vegeta feelings. Nada pode ser melhor.
O final do capítulo ficou sensacional, e criou um gatilho interessante pro próximo. Se o que você me disse pelo whats é verdade, então os próximos episódios de Blood Trip têm uma tendência de serem melhores do que nunca. Especialmente, não esperava que Senzo morresse agora; afinal, como Nigthcrawler, é um personagem presente há tanto tempo... espero que você seja capaz de mitigar isso, ou nos dar algo semelhante em troca.
Aliás, tiradinha de sarro do dia:
Rapaz, acho difícil alguém "solar" sem que seja "sozinho", certo, Carlos?
Tô brincando. Astronis e Arieswar são os jogadores antigos mais inspiradores, sem dúvidas.
Valeu, Carlão! Excelente capítulo, como de praxe. Aguardo pelo próximo.
[]'s
Grande Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Cara, eu achei que essa batalha entre amigos foi mais parecida com Hashirama x Madara :lol:
Suas dúvidas serão respondidas aqui neste capítulos. Deixei bastante mistério mesmo, até porque tem mais coisas a serem explicadas antes do gran finale, algumas podem ajudar a colocar os primeiros trilhos para a sequência, que eu infelizmente não sei quando darei início. E sim, os próximos serão excelentes, que espero que seja não só do seu agrado como de todos que estão lendo ou irão ler.
Btw, quando escrevi isso aí eu tava tão empolgado que nem percebi :lol: já corrigi, agradeço.
Agradeço a presença constante e que goste do capítulo! :sana-approves:
Atenção: Esse aqui é o epílogo da história do Senzo, mas não de Bloodtrip. Calmem aí que teremos mais alguns capítulos antes do fim, revelando tudo a respeito da Irmandade. Também irá revelar mais coisas sobre a história do Senzo.
Espero que gostem!
No capítulo anterior:
Nuito forja uma espada a partir do Aço Negro, entregue em sua forma plena por Morgana. Ela funciona perfeitamente, e ele a usa para combater Senzo no Musenki, alheio aos avisos de que é loucura entrar lá sozinho. Após uma luta ferrenha contra seu amigo, ele o abandona no deserto e volta para Edron, vitorioso.
Capítulo 32.5 – Falso Epílogo
Nuito chegou em Edron do mesmo jeito que saiu do combate, usando o tapete mágico de Darashia. Ele caminhou no meio da cidade com a espada quebrada em mãos, atraindo todo tipo de olhar. Ele andou até o acampamento principal, passou por todos, que o encaravam com expressões ainda piores, e chegou até o Musenki. Sem olhar pros lados, nem para trás.
Desde a noite passada que os edronianos estão procurando por Nuito e Senzo. Após a explosão, tudo que se ouviu foi silêncio. Morgana e Aria, junto do general David Steelsoul, avançaram na direção daquele lugar contaminado, e para a surpresa deles, uma grande área daquele lugar estava curada. Pouco do bioma esquisito sobrou.
Quando Nuito apareceu, Ember, que estava junto das patrulhas, foi a primeira a notá-lo. Ela correu na sua direção e o abraçou, mas logo em seguida, ele caiu no chão junto com ela, desmaiado. Só voltou a consciência quando estava na cidade, onde na entrada, junto da maior parte do acampamento, fora consagrado o herói que destruiu Senzo e seu maligno Akonancore. A partir daí, ele foi consagrado como um herói, e as pessoas comemoraram e gritaram seu nome, aliviados e muito animados.
Internaram o rapaz no melhor hospital da cidade para recuperá-lo o quanto antes. Ele ficou sob a vigia atenta de Ember, e passou cinco dias lá. Quando finalmente se recuperou, recebeu até mesmo sua armadura, devidamente recuperada, junto da sua espada, mas ela ficou mais como um espólio de guerra ou algo parecido, uma vez que o tipo de material que ele usou não podia ser encontrado em qualquer lugar de Tibia para recuperá-la. Afinal, é a criação de Nuito.
Sua fama correu por Edron, atraindo a atenção até mesmo do governador, que veio até o seu quarto para conversar com ele quando este recebeu alta. Mas as questões dele foram rápidas e simples. Ele, Charles Steelsoul, e a nobreza de Thais, que assume grande influência sobre a ilha, precisa saber sobre onde Senzo está e o que aconteceu. Nuito hesitou em dizer, mas acabou explicando que Senzo usou alguma espécie de teletransporte que o levou até Darashia, onde Nuito conseguiu derrotá-lo. Fazia sentido, afinal, no dia anterior, o governador fora informado de rumores a respeito de explosões ocorrendo ao norte de Darashia graças ao mestre de tapete no topo do Centro Comercial Edroniano.
Mas Nuito não falou se ele matou o criador do Akonancore ou não. Simplesmente falou que o derrotou. Embora todos tivessem acreditado no que Nuito disse, o governador não.
Charles Steelsoul não era nem um pouco parecido com os governadores poderosos que já assumiram Edron no passado. Ele era medroso. Temia espíritos e coisas do tipo. E temia que Senzo retornasse para se vingar da cidade e terminar o que começou. Por isso, ele queria que Nuito fosse franco e dissesse ao menos onde ele o viu pela última vez. Nuito acabou se irritando, não contando. Era óbvio que o último lugar que o viu foi em Darashia.
O governador irritou-se. Iniciou uma discussão com Nuito, cujo não aceitava que Charles falasse o que bem pensasse daquele que um dia foi seu amigo. As palavras daquele homem foram tão ofensivas e danosas quanto aço. E ainda estressado com tudo que lidou, ele socou o rosto de Charles, num acesso de fúria que não durou mais que dez segundos. Bastou ele olhar para Ember, logo ao lado dele, para entender o que fez.
Nuito foi preso pelo seu ato estúpido e ofensivo. Do trono, Charles Steelsoul ordenava sua execução imediata. Mas um herói recém-criado não podia ser morto assim sem mais nem menos. Todos falavam do quão heroico Nuito fora. Então, seria mais difícil do que parece.
No fim, Nuito acabou caindo num julgamento dentro do próprio palácio, numa grande sala reservada para discussões sobre o futuro da nação – reformada para parecer uma casa da lei. Ember assistia com muita apreensão as perguntas direcionadas ao réu, mas este simplesmente não contribuía como deveria. Ele não sabia como Senzo estava, então não há resposta clara. O julgamento se arrastava entre acusações e provas vazias. Nem as autoridades que foram para Darashia encontraram algo. Mas o governador apenas gritava “matem-no!” “executem esse infeliz!”, o que levou o julgamento a ser direcionado apenas ao ato de agressão contra seu líder e monarca.
O resultado foi a vida na prisão. Nuito não achava tão ruim, mas sabia o que aconteceria. Ember viria salvá-lo, eles fugiriam, provavelmente a elfa mataria alguém no processo. Seriam caçados em Edron, então fugiriam para o continente ou para Yalahar. Mesmo que conseguissem viver em paz, formando uma família, eventualmente descobririam quem Nuito era, e enviariam mercenários ou caçadores de recompensa para complicar suas vidas e os obrigarem a continuar fugindo. Nuito não queria isso, pois sabe que uma hora ou outra veria Ember ou ele sendo mortos, ou até mesmo seus filhos. Seria o pior cenário possível.
E ele não conseguiria viver por muito tempo com o pecado que cometeu. A criação do Musenki é coisa dele. Ele sabia bem disso. Então não podia manter aquilo como segredo para sempre. Dessa forma, ele inverteu totalmente o julgamento, assumindo o que fez. O resultado mudou. Todos ficaram em choque.
A condenação de Nuito foi revogada e a decisão final foi adiada para mais algum tempo, pois o lugar virou um verdadeiro dilúvio de xingamentos, ofensas, acusações e toda e qualquer coisa que ajudasse o clima a virar um verdadeiro caos. Dois lados foram criados: Aqueles que entendiam o que Nuito fizera, que foi necessário para derrotar Senzo, e os outros que queriam que ele fosse punido por ter maculado a terra de forma que um alto número de pessoas morreram só de pisar nela, e que o que fez para curá-la não foi o suficiente.
Ember apareceu um dia para tentar tirá-lo da prisão antes que o julgamento fosse resumido, mas Nuito foi previsível: Ele a mandou embora. Pediu para que ela fosse embora para Yalahar para criar o filho que teriam, e que vendesse o aço que criou para levantar fundos. Desejava que a gravidez desse certo para que então um gracioso meio-elfo nascesse e levasse seu legado adiante. Levou um tempo até Ember concordar com aquele absurdo, e dar adeus ao seu amado, de forma muito dolorosa.
Após uma semana, Nuito foi condenado a morte por causa das 552 mortes causadas pelo Musenki, o bioma que ele criou, o que inspirou a criação de leis de proteção ambiental mais tarde. Apesar dele ter ajudado a curar a terra, era necessária uma punição. E Nuito a aceitou de bom grado, sendo executado dias mais tarde em praça pública, com um sorriso. Não tinha certeza se seu amigo estava salvo, mas ao menos evitou que mais mortes ocorressem. Ele se foi sabendo que salvou o mundo, mesmo que ao custo da família que formaria com Ember, e da amizade com a pessoa mais peculiar que conheceu.
Senzo assistiu a distância com Miraya, e logo os dois sumiram tão abruptamente quanto apareceram. O alquimista, que recebeu os membros perdidos de volta graças a sua parceira, passou a viver em Darashia, nas ruínas daquele vilarejo, na sua antiga casa. Ele tentava, a todo custo, melhorar o Akonancore, mas não havia mais nada a ser feito. Um dia, entretanto, ele conseguiu algo diferente: Ele uniu a forma original do Nancore com o Akonancore, e criou algo novo. Um líquido verde, bem mais gosmento do que de costume, mas que não criava nada. Senzo nem sabia para o quê aquilo servia, então pegou tudo que criou e atirou no mar dentro de potes, irritado e frustrado.
As coisas pioraram com o tempo. Havia sempre a necessidade de ir para a cidade pra buscar suprimentos, o que Miraya fazia, mas isso deixava Senzo paranoico, chegando perto de uma crise de pânico. Ele chegava a abraçar Miraya e se ajoelhar em frente dela quando ela voltava, tamanho o desespero que sentia. Ele não conseguia progresso. Estava estagnado, sem opções.
Um dia, entretanto, Miraya foi para a cidade, mas não voltou. Senzo desesperou-se de tal forma que bebeu o Akonancore novamente, quase morrendo no processo, e correu para o deserto, vagando por quase um dia. Encontrou Miraya estirada no chão, numa noite, sem os braços e as pernas, pois estes se transformaram em mariposas para perseguir alguém. O mesmo alguém que enterrou uma flecha de forma certeira na cabeça dela.
Era óbvio quem atirou a flecha.
Senzo, irritado, até então esteve vivendo com a perna, o braço e o olho recuperados pelo poder de criação que ainda sobrou em Miraya, mas após ela morrer, estas coisas que foram criadas por ela estavam começando a perder sua força e rigidez, virando asas de mariposa pouco a pouco. Por isso, ele não tinha tempo para perder. Ele avançou até Darashia, e simplesmente começou a fazer um estardalhaço neurótico logo quando chegou no centro da cidade. Quando ele viu guardas edronianos e darashitas indo até a sua direção para calá-lo, ele criou algo que nunca criou até então: Agulhas. Ele criou mil delas, a partir do céu, e jogou sobre todos que estavam por perto.
Ninguém sabe até hoje quantas pessoas morreram em Darashia naquele dia. Sabe-se apenas que um mago de batalha estranho, com um colar com um losango verde, surgiu da entrada sul, defendeu todas as agulhas e decapitou Senzo quando este não estava vendo. Um fim miserável para alguém que terminou miserável. Depois de ter feito algo tão revolucionário como o Nancore, aquele fim parecia totalmente deplorável para alguém como ele.
O grupo peculiar formado no Centro das Almas de Ferro agora se resumia apenas a Ember. Ela de fato foi para Yalahar, mas não conseguiu se manter lá. Resolveu alguns assuntos após sair da cidade e sumiu. Dizem que ela pegou um barco de vela e rumou em direção ao leste, para nunca mais voltar. O destino de sua gravidez é desconhecido.
— É... Repassando toda essa história agora que eu a falei, ela parece completamente miserável e estúpida. Uma história recheada de drama desnecessário. Horrível até o âmago. Que, por sinal, é a sua história, não é?
“Que ridículo... E pensar que, um dia, você realmente queria me desafiar. ‘Me assista’, não é? Eu estive assistindo. E como você pode ver, você não venceu. Agora, está caído na minha frente, esperando que o seu fim não seja como acabamos de ver, não é mesmo? “
“Você é um imbecil, um monte de lixo respirando e andando. Desde o começo, teimava em superar seu amigo, enquanto seu amigo só queria que você fosse você mesmo. Mas o que esperar de um miserável que só viveu do amor dos pais e jamais teve alguém pra chamar de melhor amigo até Nuito aparecer? O pior é você ter se relado apenas nele e em Miraya, acreditando que eles e o Nancore era tudo que precisava para ser um gênio que mudaria o mundo.”
“Acontece que gênios não morrem decapitados. Gênios morrem de alguma doença ou algo do tipo, mas seus nomes ficam gravados na história. E o seu? Será proibida a menção pelo resto da dinastia Steelsoul, que eu duvido que acabe tão rápido. Mas isso não é o pior. É que, enquanto você se manteve com sua massinha de brincar, Nuito explorou e mapeou a maior parte de Tiquanda, encontrou inúmeras criaturas, flora e fauna inexploradas, estabeleceu um contato mais avançado com os macacos de Banuta e os lagartos de Chor, e encontrou uma via de Porto Esperança para Ankrahmun totalmente segura. Isso foi extremamente útil e conveniente para os humanos daquele continente.
“Ele entrou pra história. Principalmente porque o mapeamento da fauna que ele fez ajudou a encontrar plantas que ajudaram a criar as poções mais avançadas até então da história de Tibia. A recentemente criada Poção do Espírito Grande* é diretamente atribuída a exploração do sul de Tiquanda, feita por ele. E pra terminar, ele ainda conseguiu criar algo pra destruir suas criações, sendo que ele nem mesmo é um alquimista. HAHAHAH! Em tantos milênios de existência, eu nunca vi alguém tão fracassado igual a você. Tanto que você nem mesmo conseguiu lutar contra Nuito direito quando viu ele destruindo cada uma das coisas criadas pelo Akonancore. Estava em choque, eu vi.”
“Mas, contudo... Será que eu seria cruel o suficiente para não lhe dar o que você precisa, depois de tudo que passou? Ah, mas eu acho que sim. Não lhe devo nada, Senzo Saisho Damasukas. Mas você deve a mim. Parte do Nancore foi criada usando algo que me pertence. Então, você tem o dever de continuar esse legado, para a sua alegria. Ou tristeza.”
“É isso mesmo. Eu estou lhe dando uma nova chance, Senzo. Você vai abraçar essa chance e se jogar no abismo de futilidade e desgraça que Tibia é, mais uma vez, pois é o que gente do seu tipo merece. Esse é o meu desejo, e se você falhar mais uma vez, farei questão de limpar você da própria existência, e seu espírito jamais será encontrado de novo para que você veja a luz mais uma vez. Pois não existe paraíso ou inferno para vermes como você. Você, uma cria ínfera como é, tem apenas o dever de me obedecer, se quiser ver seu sonho de domínio tibiano virando realidade.”
“Isso. Eu lhe darei o que tanto buscava conseguir com o Akonancore. E então, você finalmente conseguirá o que quer. Mas lembre-se bem, Senzo. Sozinho, não conseguirá nada. Mas criando seguidores, você conseguirá tudo.”
“Faça o desejo de Machina ser real. Eu sou a única coisa que você precisa, por agora.”
— Eu não temo você. Mas farei o que quer. Pelo bem de Tibia.
— Pelo bem de mim mesmo, então. E dessa vez, você será conhecido como Senzo Niban, e apenas isso. Trace seu caminho até o momento fatídico. Depois, eu tomarei as rédeas.
— Posso ao menos trazer alguém de volta comigo para me ajudar? Tenho certeza que ele servirá bem para o seu... Caso.
— Se espera trazer Nuito de volta, isso não irá acontecer.
— É outra pessoa. Que sofreu um fim injusto.
— Entendo...
No meio daquele imenso vazio, aquele campo claro, branco e colossal, o miserável homem pálido, sentado no chão com dificuldade, sem uma perna e um braço, busca tirar algo do vazio. E, aparentemente, ele está conseguindo.
— Pois bem. Vamos começar nosso plano, Senzo Niban.
Próximo: Capítulo 32.5.5 – Monólogo
Notas:
*: Tradução livre para Great Spirit Potion.
O próximo sai essa semana mesmo, fiquem ligados.