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Tópico: O Retorno

Visão do Encadeamento

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  1. #9
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    E cá estamos com mais um nem-tão excitante capítulo desta sofridíssima história! Como verão, este capítulo é um pouco mais parado e menos tenso que o anterior, mas trata-se de uma construção para o próximo, que será deveras importante em muitos, muitos aspectos. Espero postá-lo no sábado ou domingo; quero acelerar a postagem dos capítulos, uma vez que essa história é apenas um tie-in para alguns eventos ocorridos ingame, além de ser, de certa forma, um background expandido do Bestáquio. Conto com a compreensão e paciência (rs) de vocês x)!

    Spoiler: Música do capítulo


    Sem mais delongas:

    II

    O grandioso e belíssimo farol-árvore de Ab’Dendriel era considerado, mesmo entre os mais diferentes autores, sem favor algum, uma das mais arrebatadoras maravilhas existentes no Continente. Escavado no interior de uma muito antiga e alta sequóia plantada ainda antes da fundação da cidade, o farol encantava a todos com sua beleza rústica e sua imponência, sendo conhecido como um dos mais fundamentais e extraordinários cartões-postais da cidade. Sendo uma das árvores mais altas das redondezas, o farol-árvore destaca-se junto à costa leste da península, onde a floresta abruptamente encontra seu fim e a vegetação é mais baixa e menos expressiva, configurando-se assim como o elemento de mais notável destaque na paisagem. Em seu ápice, onde outrora estendiam-se os ramos verdejantes da majestosa árvore, jaz atualmente uma pira de bronze onde queima um fogo encantado produzido pelos próprios Cenath, o qual, em condições normais, arde intensamente e projeta sua luz dourada para o oceano, orientando os marinheiros perdidos nas noites de tormenta.

    Naquela noite, o farol parecia brilhar com ainda maior intensidade. A luminosidade dourada produzida pelo dançar das chamas banhava a torre em sua totalidade e dava-lhe um belíssimo efeito trepidante, dando a impressão de que o farol inteiro fora consumido pelo fogo. Ao observar a grandiosa torre incandescente, o homem de verde não podia deixar de sentir um profundo incômodo em suas entranhas. É quase como da última vez que eu estive aqui... Acontece que ao menos dessa vez ele não está literalmente em chamas, pensou o forasteiro enquanto aproximava-se vagarosamente da entrada do farol, perfeitamente escavada junto à base da sequóia, e sentia seu estômago revirar-se repetidas vezes. Eles fizeram um ótimo trabalho reconstruindo este lugar, afinal.

    Ele não planejara vagar até aquele local, mas também não se surpreendera quando, ao sair para um passeio noturno, acabara sentindo-se carregado até a presença daquele que nada mais era senão outro personagem na conturbada história da sua vida naquele lado do Continente. É como se o farol estivesse me chamado, pensou ele enquanto gentilmente tocava a casca da árvore com a mão descoberta e sentia a aspereza da casca correr pela sua pele. Entretanto, ele retirara sua mão da árvore tão logo a pousara ali, como se tivesse sentido-a queimar ao simples toque; ele então virou as costas para a torre e soltou um longo suspiro que se perdeu no silêncio da noite. Isso é tolice. Faróis não chamam as pessoas, e mesmo que chamassem, por que este aqui iria querer me ver de novo? A menos, é claro, que ele quisesse prestar contas...

    Um zurro baixinho ao seu lado chamou a sua atenção, obrigando-o a afastar o farol dos seus pensamentos e voltá-los para seu companheiro de viagem, que parecia encará-lo com um leve quê de impaciência.

    - Ah, perdoe-me, Eliseu. Acabei me distraindo... – Disse Batráquio enquanto caminhava até o animal e abria a mochila que deixara presa em seu lombo. Após alguns segundos, o homem tirou lá de dentro um maço de cenouras e começou a oferecer uma por uma ao burrinho, que as aceitava de muito bom grado. Enquanto o animal deleitava-se com as raízes, seu mestre gentilmente deslizava a mão pela lateral do seu pescoço, afagando-lhe o pelo. – Eu não devia ter vindo até aqui, entende... Este lugar não faz muito bem para a minha cabeça. É como se ele drenasse o que me resta de sanidade...

    Não era de seu feitio apegar-se a outros seres viventes; além de ser este um pressuposto básico da sua raça, aquela era uma lição que ele duramente aprendera mais de uma vez ao longo de sua vida. Não faz sentido apegar-se aos vivos, uma vez que são os mortos que permanecem conosco para sempre, dissera-lhe 1593 há muito, muito tempo, muito antes do farol pegar fogo, muito antes do seu exílio, muito antes dele ter perdido tudo que tinha. Entretanto, Batráquio descobrira-se estranhamente apegado àquele burrinho, ao menos tanto quanto ainda conseguia apegar-se a alguma coisa que não fosse um saco de biscoitos ou um livro de feitiços. Talvez fosse porque ambos, de certa forma, dividiam o mesmo fardo e a mesma algoz.

    Poucas semanas atrás, durante uma ocasional caminhada pelas planícies a sudoeste de Thais, Batráquio acabara, inesperadamente, cruzando caminhos com uma conhecidíssima inimiga do passado. Ele ainda lembrava-se perfeitamente do cheiro pútrido que emanava daquela feiticeira velha, tão velha que parecia que há muito já havia morrido e ninguém havia se dado ao trabalho de enterrá-la. Seus olhos miúdos e quase leitosos tingiram-se com desprezo ao cravarem-se sobre ele, e suas gargalhadas funestas mescladas a ataques de tosse seca ainda percorriam o interior da sua mente. Você acha mesmo que eu vou transformá-lo de volta? Com essa sua atitude, nunca! Tossira-lhe a feiticeira na cara depois que ele, muito educadamente, exigira que fosse revertido à sua forma original. Você vai ter que encontrar outra forma de quebrar a minha maldição, seu atrevido! E, após tais palavras, a feiticeira transformara-se em um abatidíssimo morcego grisalho, sobrevoara as árvores que ali cresciam e sumira no horizonte, deixando para trás um furioso Bonelord em forma humana e uma ampla gama de animais confusos, transformados em um amplo rol de outras criaturas, dentre os quais se destacava Eliseu: uma serpente transmutada em burro.

    - Ainda podemos encontrá-la e forçá-la a transformar a nós dois de volta, se você quiser. – Ele agora dizia ao seu companheiro de viagem enquanto observava-o dar um fim às cenouras. – Mas, sinceramente... Não estou certo se isso daria algum resultado promissor. Aquela vaca parece determinada a infernizar não apenas a minha vida, mas a sua também. Teremos de apelar a outros meios para reverter o feitiço. O que nos traz de volta a...

    Relutantemente, Batráquio voltou a encarar o farol às suas costas. A única razão existente para eu retornar a Ab’Dendriel é para descer até a Necrópole e encontrar um jeito de quebrar o feitiço daquela bruxa, ele repetiu para si mesmo pela enésima vez desde que partira de Thais. Apenas para isso. Não voltei para mais nada. E é bom que eu me lembre disso. Ele já há muito perdera as contas – o que, diga-se de passagem, é muito pouco usual para um Bonelord – de quantos meses haviam se passado desde seu primeiro encontro com aquela velhíssima feiticeira no pântano ao norte de Venore. Um terrível, infeliz encontro que lhe rendera uma nova inimiga mortal para adicionar à sua coleção e uma nova maldição para atormentar-lhe a sua já desgraçada vida.

    - É assustador o quanto essa vida pode ser irônica, Eliseu. – Disse Batráquio enquanto passava os olhos do farol para seus braços e seus dedos, os quais começou a mover repetidas vezes, como se experimentasse até onde conseguiria dobrá-los. – No passado, eu me transformei voluntariamente em humano e acabei arruinando a minha vida de uma forma que eu jamais poderia ter previsto. Hoje, fui transformado novamente em humano, desta vez a contra-gosto e tive, mais uma vez, a vida arruinada. E, pela segunda vez, esta transformação culmina com minha presença aqui, nesta cidade, diante deste farol...

    Eu só espero que, desta vez, eu não precise tacar fogo na porcaria da árvore. Ele não precisava se esforçar muito para visualizar a madeira em chamas, para farejar o aroma fétido do enxofre, para sentir o calor roubando-lhe cada gota de suor da carne e para ouvir o teto estralando ameaçadoramente. Ele não precisava se perder muito em suas piores lembranças para voltar a ouvir a debochada risada venenosa de sua maior e mais aintga inimiga, para voltar a vê-la dançar entre as chamas como se fosse parte delas, para voltar a testemunhá-la ceifando o único resquício tolo de paz e alegria que ele tivera naqueles dias tumultuados.

    - Mas eu venci. – Ele disse para si mesmo em alto e bom som, como que para se certificar de que ele prestaria atenção em suas palavras. – Não naquele dia, não aqui, mas eu a venci. Desdêmona está morta e só não está enterrada porque não sobrou muito do seu corpo imundo para enterrar. Eu me certifiquei disso.

    A gélida brisa da noite, que ainda há pouco desaparecera junto com a chuva, voltou repentinamente, passando de raspão pela pele descoberta do seu pescoço e rasgando-lhe uma série de arrepios profundos na espinha, como se quisesse lembrá-lo de quem realmente detinha o poder ali. Enquanto seu corpo tremia, a luz do farol pareceu ficar ainda mais reluzente, e ele mais uma vez teve a nítida e desagradável sensação de que era observado. Ela já morreu, ele repetiu para si mesmo, dessa vez em pensamento. Ela já morreu e nada do que aconteceu daquela vez acontecerá de novo. Desta vez as coisas serão diferentes. O passado não pode mais me afugentar daqui.

    Ele sentiu então um leve puxão na manga da camisa, obrigando-o a sair do seu transe. Eliseu puxava gentilmente seu mestre para longe do farol, como se quisesse levá-lo a um lugar mais seguro, ou, pelo menos, um lugar com uma disponibilidade maior de cenouras para degustar.

    - Sim, sim, você está certo... Eu não deveria ter vindo até aqui. Eu não devo nada para esse farol e tenho mais coisas para me preocupar. – Ele disse enquanto livrava as vestes dos dentes do burrinho, que parecia encará-lo sem confiar realmente no que ele estava dizendo. Soltando um longo suspiro e esforçando-se ao máximo para que suas agonias e dúvidas fossem embora com ele, Batráquio deu uma última olhada para o farol-árvore, tão semelhante mas tão diferente do que ele se lembrava, e tateou às cegas em busca das rédeas de Eliseu. – Vamos embora daqui, Eliseu. É preciso descansar muito antes de partirmos amanhã cedo. Amanhã será um dia longo... Talvez o mais longo de todos.

    Você descobrirá que o passado sempre encontra uma forma de nos reconduzir a ele, ecoava a voz melodiosa de Eroth no fundo da sua mente enquanto ele se distanciava da costa e sentia como se algo o chamasse. Vá se foder, Eroth, ele pensou, decidido, enquanto ignorava os chamados do passado e evitava deixar que seus pensamentos vagassem para um certo túmulo não muito longe dali, o qual certamente, àquela altura, era vivamente iluminado pelo fogo que ardia no topo do farol. Se o passado quiser mesmo que reencontrar, ele terá que descer comigo até o Inferno.

    ***

    Apesar de ser conhecida como a “Cidade dos Elfos”, Ab’Dendriel também concentrava uma generosa população de humanos, em geral druidas que buscavam um maior contato com a natureza ou paladinos que ansiavam por aprender as técnicas milenares da arqueria dos elfos. Um grande número das construções escavadas ou edificadas sobre as árvores que compunham a floresta local era usado como morada pelos humanos, e, como a maioria dos elfos apresentava uma natureza mais reclusa e mantinha o hábito de permanecer recolhida em partes mais ocultas da cidade, a visão de seres humanos transitando entre as árvores não provocava estranhezas a ninguém. Excetuando-se, é claro, no caso daquele homem em particular.

    O sujeito caminhava desengonçadamente, alternando passadas curtas com muito longas, frequentemente quase desequilibrando-se e caindo ao chão. Enquanto caminhava, o homem girava e articulava debilmente seus braços, quase como se quisesse alçar vôo, e dobrava as palmas das mãos em todas as direções como se tivesse perdido o controle do movimento das mesmas. Ao constatar que o pequeno número de transeuntes que encontrava insistia em lançar-lhe demorados olhares de susto e desconfiança, o homem logo optou por conter seus movimentos estapafúrdios e adquirir uma postura mais regular, embora ainda caminhasse com certa dificuldade.

    Acalme-se, 4669, ele pensava enquanto fazia o possível para controlar seus braços. Haverá bastante tempo para testar os movimentos deste corpo. Agora você precisa se focar na sua missão! Ele sabia que, quanto mais rápido obtivesse a informação que precisava, mais rápido ele seria perdoado pelo Conselho pelo fracasso de sua missão no Elvenbane e enfim se livraria dos olhares desdenhosos que lhe eram desferidos pelos demais enquanto ele flutuava pela Necrópole. Como se eu precisasse do perdão deles, pensou 4669 com amargura enquanto tentava se situar em meio às árvores. Eu já paguei um preço terrível pelo meu último fracasso... Ele suspirou longamente enquanto tentava afastar aqueles pensamentos da sua cabeça. Pensar em 1208 e em como ele pusera tudo a perder na última missão que recebera ainda doía demais, mesmo tantos anos tendo se passado.

    Subitamente, 4669 parou de caminhar. Logo à sua frente jazia o grandioso depósito de Ab’Dendriel, cujas janelas enchiam-se com a luz e o som das conversas de seus ocupantes, os quais provavelmente haviam acabado de retornar de excitantes viagens e caçadas e buscavam companheiros para celebrar, conversar ou fazer negócios. Resistindo à tentação de ir se juntar a eles, para assim melhor conhecer os hábitos daquela espécie tão curiosa, ele ergueu os olhos, deparando-se com um vasto entremeado de passarelas de madeiras construídas nos galhos mais longos de várias árvores. Diretamente acima da sua cabeça existia um grandioso teto de madeira delicadamente construído, o qual, dada a escuridão daquela noite em especial, era pouco discernível do infinito ébano que a tudo contaminava. Longos ramalhetes de trepadeiras e mais trepadeiras folhosas serpenteavam por uma série de suportes de madeira distribuídos ao seu redor, os quais erguiam-se muitos metros até encontrar o grande teto de madeira, e uma esguia escadinha de madeira posicionada alguns metros às suas costas dava acesso ao andar superior. A guilda dos Cenath, ele reconheceu. De acordo com as suas fontes, o alto escalão da casta reunia-se perto da guilda nas noites de lua nova para discutir segredos de magia antiga. Deve ser este o lugar.

    Valendo-se da crença de que todos os habitantes teriam se recolhido às suas moradas ou seguido para o depósito, 4669 aproveitou-se do sossego daquela fresca noite de verão e esgueirou-se entre os pilares de madeira até alcançar a escada. Algumas poucas lâmpadas entalhadas em madeira haviam sido distribuídas aqui e ali em alguns suportes no andar superior, mas a escuridão da noite ainda devorava a maior porção do seu campo visual. O único jeito de saber o que está havendo lá em cima é subir, ponderou o Bonelord enquanto lançava um olhar desconfiado à escadinha ali perto. Mas e se eles não estiverem aqui? Ou pior: e se eles tiverem erguido alguma forma de proteção mágica para repelir invasores? Suas fontes haviam sido bem claras quanto ao local de reunião dos Cenath, mas agora que ele jazia diretamente embaixo da guilda, parecia-lhe deveras imprudente – e, por que não, improvável – que os mais sábios e poderosos membros da casta fossem organizar seus encontros mais secretos em um local aberto e de fácil acesso como aquele. Preciso parar de confiar nas informações que o Ezekiel encontra. Aquele esqueleto já era inútil em vida, depois que morreu então... De qualquer jeito, não custa nada dar uma olhada.

    4669 agarrou as laterais da escada com suas novíssimas mãos e já se preparava para pousar o pé direito no primeiro degrau quando lembrou-se de um detalhe crucial para o sucesso daquela operação.

    - Utana vid. – Ele murmurou. Um leve arrepio na sua espinha e a estranha sensação de ter todo o ar sugado dos seus pulmões lhe indicou que ele conseguira executar corretamente o Feitiço de Invisibilidade. E, realmente, em questão de uma fração de segundo ele presenciou suas mãos rapidamente desaparecerem de sua vista, apesar de ele ainda poder senti-las no exato local em que as deixara. Não parece um feitiço tão inferior agora, não é, 486?, ele pensou enquanto abria um largo sorriso.

    Enquanto vagarosamente subia pela escada de madeira, o Bonelord disfarçado apurava seus ouvidos a qualquer som estranho, e frequentemente virava o rosto para os lados, para se certificar de que não estava sendo observado. Degrau após degrau, o Bonelord não podia evitar deixar de imaginar se não teria sido mais fácil transformar-se em um elfo e simplesmente infiltrar-se no encontro do Cenath, apesar de saber muito bem a resposta para aquela indagação. Esses elfos conhecem magia demais para se deixarem enganar por um simples feitiço ilusório. Ainda mais os Cenath. E, além disso... É muito mais divertido pensar como humano, ele ria-se enquanto escalava. Ele jamais poderia admitir para qualquer um, talvez nem mesmo para ele mesmo, o quanto a raça dos humanos atiçava sua imaginação. Desde que ele tivera seu primeiro contato com um humano vivo, na primeira missão que recebera de seu mestre na superfície, quando ainda era uma criança, 4669 não podia deixar de sentir uma certa atração por aquelas criaturas tão interessantes.

    Ele já estava quase chegando ao segundo andar quando, por reflexo, acabou por virar o rosto para encarar o chão logo abaixo. Ou quase. A escuridão da noite era tamanha, que o gramado de onde ele há pouco partira parecia o mais profundo e obscuro dos abismos, sensação esta fortemente realçada pela altura da escadaria. A fria brisa da noite agitava seus cabelos e cortava suas mãos nuas com certa severidade. Esta porcaria deve ter uns três metros de altura! Qual a necessidade de se construir uma escada tão longa? Entretanto, o repentino som de vozes abafadas chamou sua atenção de volta à realidade, forçando-o a içar o corpo mais alguns centímetros acima, permitindo que ele finalmente ultrapassasse o chão de madeira da guilda dos Cenath com o topo da cabeça.

    Uma dezena de elfos estava reunida quase ao centro do local, todos sentados no que parecia ser um círculo de cadeiras, todos de cabelos brancos perolados e aparência extremamente sisuda. Uma série de castiçais de bronze havia sido posicionada ao redor dos mesmos para melhor iluminar o seu encontro, e, naquele instante, apenas um dele falava, sua voz tão baixa que, quase sempre, ela não passava de um quase inaudível ruído na silenciosa noite das alturas de Ab’Dendriel.

    - ...Os necromantes de Drefia... Darashia... Estrela... Muito antiga... Alma... Registros de sangue... – Ocasionalmente, 4669 conseguia pescar algumas palavras soltas do que era dito pelo feiticeiro, que, apesar de falar em um tom quase inacessível para ele, mostrava-se extremamente animado em seu monólogo, frequentemente gesticulando em excesso com as mãos, como se tentasse cativar seus colegas para o problema que discutiam.

    - ...Pirâmide... A Irmandade dos Ossos... Rookgaard... – Continuou o animado Cenath. 4669 sentiu um rebuliço no estômago ao constatar que, finalmente, ele conseguira encontrar o ponto de encontro dos Cenath. Eu preciso chegar mais perto! Não dá para ouvir nada assim. Embora hesitante, ele logo decidiu que não podia desperdiçar aquela chance. Ezekiel finalmente conseguira uma informação que lhe fora útil, e ele sabia que em poucos dias a lua nova sumiria dos céus e ele perderia sua chance. É agora ou nunca! O Bonelord puxou o corpo para cima o mais lentamente que pode, tentando ao máximo evitar a produção de qualquer ruído. Quando seus dois braços já estavam no mesmo patamar que o piso, ele buscou o flexuoso caule de alguma trepadeira qualquer que vegetava ali perto para melhor içar o corpo para cima, mas, ao fazê-lo, teve a terrível sensação de algo dera errado.

    O elfo havia parado de falar.
    O elfo, na realidade, estava olhando fixamente para o ponto de onde ele surgia do nada, quase como se pudesse vê-lo parado ali.

    Merda, ele pensou enquanto esperava o que viria a seguir.

    - Estamos sendo espionados. – Disse o elfo em alto e bom som, sem cerimônia. Repentinamente, os demais ergueram-se de sobressalto, todos soltando exclamações de fúria e surpresa, e logo postaram-se todos a procurar por suas armas e pelo invasor. Na confusão resultante, 4669 sentiu o caule da planta que ele agarrara arrebentar graças à desmedida força que ele empregara para manter-se em equilíbrio, e, na tentativa pífia de descer rapidamente a escada antes que algum feitiço o atingisse, o descoordenado Bonelord sentiu os pés resvalando e errando os degraus.

    A última coisa que ele viu antes de despencar foi um par de olhos cinzentos e tempestuosos fuzilando-o à distância. Depois disso, houve apenas o crescente frio na sua barriga e o penoso abraço da escuridão.


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    Batráquio e Eliseu visitam o farol-árvore de Ab'Dendriel, e o Bonelord quase deixa-se consumir por fantasmas do passado
    Última edição por Manteiga; 19-05-2018 às 22:37.
    Dezesseis anos depois, estamos em paz.



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