CAPÍTULO 6
Aquele era o sexto dia de treinamento da Guilda dos Mercenários, o segundo que o Senhor Comandante ministrava. O dia estava quente e abafado, a respiração era seca e dificultada, o suor escorria pela testa e era ainda pior nas mãos, encharcava o punho da espada. Naquela seção de treinamento todos os alunos estavam presentes, inclusive Ossos Grandes, que havia sido liberado dos cuidados de Gaar na noite anterior.
O Senhor Comandante travava uma batalha amistosa com espadas de madeira com Hammill enquanto os outros rapazes batalhavam entre si. — Mantenham os malditos escudos erguidos, vocês não estão querendo proteger seus joelhos, e sim seu corpo e seu rosto. E quantas vezes devo dizer para manterem o maldito sol às suas costas? Isso é o básico, e já disse na última aula, vocês são burros ou anseiam a morte mesmo? — Dizia o Senhor Comandante enquanto investia com estocadas rápidas e repetitivas, o que desequilibrou o adversário, fazendo com que este caísse recorresse à rendição.
Removeu o excesso de suor que se acumulava na testa, ordenou que os rapazes se reunissem em silêncio e indicou a próxima tarefa: arrastar grandes blocos de pedra por todo o terreno até que suas forças se esgotassem, o Comandante dizia que aquilo iria deixá-los magros comparados aos guardas comuns, porém mais musculosos. Era a primeira vez que fariam aquele tipo de treinamento, por isso alguns recrutas ficaram espantados com a ideia.
Cada recruta deveria arrastar cinco pedras, uma amarrada à cada braço e perna e outra, maior, amarrada ao abdome, somando, as pedras ultrapassavam os cento e dez quilos, o que dificultou para que os primeiros deslocamentos fossem dados.
Isso vai mantê-los ocupados por um tempo, espero.
O Senhor Comandante viu que Gaar do outro lado do campo de treinamento vindo em sua direção com uma carta, ponderou sobre esperar que o velho druida viesse até ele ou se encontrassem no meio do caminho, decidiu esperar. O velho druida se arrastava a passos lentos, não era de se espantar, a idade do homem era muito avançada, era de se espantar que ainda apresentasse alguns poucos sinais de cabelo e conseguisse andar. Depois de dois minutos de espera — que mais pareciam quinze — o druida pôs se ao lado do Senhor Comandante, não falou nada durante um curto espaço de tempo, estava observando os rapazes treinarem, por fim disse:
— Péssimas notícias de Carlin, Senhor. — Entregou a carta, com as mãos trêmulas, não se podia especificar se era pela idade ou por pavor.
A carta apresentava uma letra trêmula e mal desenhada, com palavras erradas e com falta de concordância, porém o contexto era bem definido e os fatos eram descritos de uma forma clara, sem embromação.
— Quando isto chegou? E quem foi que enviou?
— Chegou agora a pouco, meu Senhor, aparentemente é de uma mulher chamada Alani Bonecrusher.
— Eu sei ler o que está escrito aqui, velho, quem diabos é Alani Bonecrusher? Nunca ouvi falar dessa mulher, porém esse sobrenome não me é estranho. — A testa do Senhor Comandante enrugou-se, cinco ondas disformes surgiram acima de suas sobrancelhas Cinco indicava dúvida.
— As Bonecrushers foram, em tempos passados, as melhores guardas da cidade de Carlin, meu Senhor, esse sobrenome não era ouvido há anos, desde Bliza Bonecrusher.
— Claro! Bliza, eu me lembro dela, nos conhecemos há vinte anos, creio eu, até chegamos a...
— Essa deve ser a filha de Bliza, meu Senhor, deve estar com dezessete ou dezoito anos agora. — Disse o velho druida, interrompendo o Comandante da Guilda dos Mercenários.
Agora quatro ondas pairavam sobre as sobrancelhas do Senhor Comandante. Quatro indicava medo.
— Vo...você disse filha?
— Sim, meu Senhor, filha... e por falar nisso, acho que devemos avisar o jovem Gareth do que aconteceu à sua... — Gaar deixou a frase incompleta, mas o Senhor Comandante entendeu onde ele queria chegar. Manteve a mesma expressão e chamou o garoto.
— Gagagareth! Venha já aqui! — O garoto passou a ser chamado assim desde o dia das apresentações, era visível pela sua expressão que ele não gostava daquilo, porém aceitava sem proferir palavra nenhuma.
— Mmmme chammmmou, seseseeenhor? — Disse o garoto, ofegante e fazendo força para que as palavras saíssem.
Por um momento duas ondas estavam sobre as sobrancelhas do Senhor Comandante. Duas indicavam pena. Porém logo se tornaram novamente em quatro.
— Más noticias, rapaz, más notícias. — Os olhos de Gareth se arregalaram e seu cenho franziu. — É com muito pesar que devo lhe informar que seu irmão, Robert, assim como a população inteira da cidade de Carlin está morta, e isso inclui o Embaixador de Thais e outras pessoas influentes que não vem ao caso no momento. Sua mãe e seu irmão caçula encontram-se desaparecidos, assim como o Embaixador da cidade de Venore.
O rapaz voltou à sua expressão anterior, parecia que a noticia não havia tido nenhuma importância para o rapaz, ou talvez soubesse esconder muito bem seus sentimentos, coisa que o Senhor Comandante não conseguiu identificar naquele momento.
— Então o trono é meu, devo ir para Carlin agora e governá-la. — Disse Gareth, fazendo feição para desamarras as cordas de seu corpo.
— Não tão rápido rapaz, aquele trono nunca poderá ser seu, um mercenário não pode administrar um reino, independentemente do seu tamanho. —
Então é isso, você não se importa com o que aconteceu, apenas quer obter vantagem nisso, muito ganancioso, mas não é de se espantar, foi enviado até aqui por desgosto da mãe. — Agora que já foi notificado, volte para seu treinamento.
— E-e-e-e-então é isso? A minha família momomorre, minha cidadade está sem comando algum e você q-q-q-quer que eu volte para o seu maldito treinammmento? Enfie esse maldito treinamento nesse seu maldito c-c-cu, estou indo para a minha cidade e você não irá me imp-p-p-pedir!
O Senhor Comandante deu a carta para Gaar segurar por um momento, deu um soco no nariz do garoto com a mão direita e com a esquerda desembainhou o punhal que trazia preso a cintura, puxou a língua do garoto para fora de sua boca e encostou o punhal na sua língua, fazendo um pequeno corte na sua superfície. — Da próxima vez que se dirigir a mim nesse tom, você perde essa sua língua mal feita. Agora faça como eu ordenei e volte para o seu treinamento. — Uma veia latejava na testa do Comandante, seu rosto estava rígido, encarando o garoto, olho no olho, sem ousar piscar.
O surto de raiva passou e Gareth voltou para o treinamento.
— Nenhuma testemunha, duas pessoas importantes desaparecidas, nenhum bem roubado além de um grande navio que a garota não soube identificar o nome, milhares de civis mortos, e uma das principais cidades do reino desolada, sem comando. E tudo isso logo após aquela vadia da Rainha ordenar a morte do Rei. Só pode ser a maldita profecia. Mantenha-me a par de qualquer notícia nova Gaar, você é um dos únicos nesse mundo que eu ainda tenho confiança. — Mais uma vez quatro ondas estavam pairando a testa do Senhor Comandante.
— Muito obrigado pela consideração, meu Senhor, vou atualizá-lo assim que mais notícias chegarem. — Gaar olhou para o chão por um tempo, o Senhor Comandante percebeu.
— Sei que você olha para o chão quando algo lhe perturba, diga o que é oras!
— A profecia... algo deve ser feito... o garoto, ele...
Gaar não precisou deixar tudo claro em palavras, um tom de esperança tomou o rosto do Senhor Comandante, ele entendera o que o druida queria dizer e tinha encontrado uma soluça. Porém Gaar ficou em dúvida se a solução encontrada era a certa ou não.