Novamente o castelo de Thais estava lotado. Todos estavam lá para ver, pela última vez, o corpo de Tibianus. Blásio estava com uma roupa preta dessa vez, sinal de luto máximo pelo pai.
Jonny havia combinado de ir com Valdir e David nos Trolls novamente, assim que Tibianus fosse enterrado. Por incrível que pareça, aquilo causou um desconforto a Jonny, e ele queria ver a pessoa pelo qual seus pais morreram, ser enterrada.
O corpo havia começado a se mover, dentro de uma carroça puxada por dois cavalos brancos, que quase brilhavam no sol. Algumas rosas caiam de vez em quando, mas ninguém as notavam, apenas viam o corpo do seu rei. Alguns choravam baixinho, outros encaravam o corpo com medo, como se Thais tivesse perdido a guerra dos orcs. Mas Blásio estava com o olhar firme, mas seus olhos revelavam que ele chorou a noite toda e não conseguiu dormir. Josef estava ao seu lado, dando palmadas no seu ombro.
Aiko estava ao lado de Roberta, junto com um grupinho de crianças barulhentas. Ela encarava de longe, Gabriela, com desprezo, enquanto ela dava em cima de alguns nobres que vieram para ver Tibianus. Roberta espiava, na ponta dos pés, para ver se enxergava Blásio mais facilmente. Estava quase pulando, quando Aiko lhe deu um beliscão, e ela parou com isso.
Luis olhava para o público, ao lado de Eloise e Kruzark. Era o último membro da Irmandade que estava na cidade. Geo havia ido para Venore, e avisado Matheus sobre o envenenamento do rei. Medidas haviam sido tomadas por ele, e em pouco tempo Luis sairia da cidade também.
O corpo de Tibianus estava saindo da cidade, rumo ao cemitério do norte dela, enquanto o clima ameaçava chover de novo.
-Aquela maldita... ela não perde por esperar! – Aiko disse olhando ainda Gabriela, que olhou para Aiko e sorriu maldosamente.
-Não se preocupe com isso, Aiko! Você é melhor que ela – Roberta disse para ela.
Jonny olhou rapidamente para as montanhas ao norte do cemitério.
-Ah, qual é, vamos para os Trolls... isso vai demorar. – Disse por fim, para os amigos.
-Decida logo o que quer, caramba! – David disse se irritando. – Uma hora fala que quer ficar, outra hora fala que quer ir!
-Eu não me importo de ir caçar Trolls. Esse enterro realmente está uma chatice. – Valdir disse.
Entretanto nenhum deles se moveram. A multidão caminhou até o cemitério, e em seguida, até o espaço reservado para o corpo real.
Todos se calaram quando o corpo foi posicionado, pronto para ser enterrado.
Josef se adiantou para perto do corpo, erguendo a mão para o público, que calou completamente.
-Estamos aqui hoje para nos despedirmos de Robert Tibianus Terceiro, protetor de todo o continente, rei de Thais desde a queda de seu pai, líder dos...
-Envenenado... – Eloise sussurrava baixinho para Luis enquanto ambos estavam falando, não prestando atenção nas palavras de Josef. – Quem faria isso?
-Quem mais? Os orcs, claro. – Luis disse observando a multidão. – Não eles pessoalmente. Mas espiões, é claro. Algum dentro do castelo, provavelmente.
-Mas pode ser qualquer um aqui. – Eloise olhou nervosa para a população – Quem será?
-Josef mencionou que Blásio pediu uma lista de empregados e guardas – Luis disse olhando para o garoto. – Ele realmente quer vingança.
-Alguém que nunca amava o pai, agora que ele se foi, se acaba em remorsos... – Eloise disse olhando para ele, não com raiva, mas com uma certa pena. – Afinal de contas, ele ainda é um garoto.
-... seu corpo agora se desfazer, mas sua alma e memória ficará presente em todos os Thaianos! – Josef terminou, e em seguida gritou: - Viva Tibianus!
-Viva Tibianus! – Todos gritaram, e enquanto o corpo descia até o fundo da cova, todos aplaudiam enquanto gritavam ‘Viva Tibianus!’
Quando o corpo chegou ao fundo, três guardas pegaram as pás e começaram a cobrir o buraco. No final, dez guardas trouxeram uma estátua do rei esculpida em mármore, depositando cuidadosamente no túmulo, enquanto o mesmo era selado por magia, por dois magos reais.
Novamente todos aplaudiram, e Blásio se aproximou de Josef, para falar com o público.
-Meu pai foi muitas coisas durante seu comando. Um rei bondoso, que se preocupava com todos, ajudava todos. Um guerreiro poderoso, seu nome tremia na boca dos inimigos! E um bom pai. – Blásio disse, Josef olhou para ele com certa pena, pois sabia que isso era mentira – Ele se preocupava com todos aqui. Ele deixou seu legado dentro de cada Thaiano que existe! Ele deixou seu trono para quem realmente merece! Eu serei seu novo rei! – Blásio disse enquanto as pessoas começaram a aplaudir, e ele sorriu – Thais não desistirá da guerra! Os orcs perderão e novamente teremos a paz que merecemos! Viva Tibianus! Viva Thais! Viva seu novo rei! – Ele terminou gritando com um sorriso no rosto, enquanto todos aplaudiam e gritavam ‘Vida longa ao novo rei! Viva Tibianus Quarto!’
-Ele sabe como falar com o público, não? – Luis disse erguendo uma sobrancelha ao ver a multidão comemorando.
-Eu não acredito que aceitaram ele como o novo rei. – Eloise disse cuspindo no chão. – Eu não pretendo chama-lo de tal título.
-Você precisará, Eloise – Kruzark disse com a voz grossa, junto aos dois, calado até agora, mas que estava prestando atenção na conversa. – Ele será o novo rei, a partir da coroação.
Blásio gritou em triunfo, enquanto todos aplaudiram e gritaram também. Josef soltou cinco pombas brancas para finalizar o enterro, sinalizando paz para Tibianus Terceiro, e todos aplaudiam com força.
Blásio sorria, quando alguém surgiu no meio da multidão. Um guarda, ferido, com um corte profundo no estômago, montado em um cavalo que mancava, devido a um corte na pata.
Todos se calaram quando viram o cavaleiro, se viraram e afastaram para deixa-lo passar.
Luis e os outros o encararam rapidamente, Luis viu o símbolo real, e notou que ele era um dos exploradores do rei.
Blásio o encarou e seu sorriso desapareceu do rosto. Rapidamente guardas ajudaram ele a desmontar do cavalo, enquanto ele gemia de dor.
-Ganeius! O que aconteceu?! – Blásio disse para o cavaleiro enquanto Josef se aproximava.
Ganeius gemeu, enquanto tentava sussurrar algo. Josef pediu para alguém trazer água para ele, e rapidamente um copo surgiu com água. Eles ajudaram Ganeius beber, meio tossindo e se afogando.
-Eles vieram... – Ganeius disse tremendo. Mostrou o corte feito por um machado bastante afiado. Todos olharam assustados. – Os orcs... poucos minutos... estão vindo atacar a cidade... – Ganeius tossiu, tremeu, e em seguida seu corpo ficou mole, e ele deixou esse mundo.
Todos começaram a gritar em pânico. Houve correria, alguns se empurravam, todos querendo voltar a cidade.
Jonny foi empurrado por alguém, e acabou se perdendo de Valdir, mas localizou David na multidão.
-David! David! – Jonny gritou para ele, no meio do empurra-empurra. David se virou e eles rapidamente correram em encontro.
-Onde está Valdir?! – David gritou, as pessoas corriam pela ponte de madeira maciça, para entrar na cidade. Alguns se atiraram ao lago para chegar do outro lado mais rapidamente.
-Não sei! – Jonny gritou em resposta. De repente, eles ouviram, longe, mas perfeitamente. Os sons das trombetas dos orcs, sinalizando guerra. Jonny tremeu. Foi o mesmo som que ouviu quando seus pais foram para a última luta da vida deles. Uma onda de fúria surgiu nele, e ele tirou seu rapier do meio das roupas.
-Você não está pensando em lutar, está?! – David gritou para ele . Jonny o encarou com raiva, e em seguida se preparou para correr em direção aos primeiros soldados que iam defender a cidade.
David puxou a mão de Jonny.
-Não faça isso! – David disse o encarando. Jonny apenas deu um puxão, e David o soltou.
-Eu preciso vingar meus pais. Sinto muito. – Jonny disse para David, enquanto corria em direção aos guardas.
David o encarou, sumindo na multidão. Em seguida ele sacudiu a cabeça e sussurrou ‘devo estar ficando louco’, enquanto corria em direção a Jonny.
Blásio encarou o público, sem saber o que fazer. A população corria desesperada.
-Faça alguma coisa, você é o rei agora! – Josef disse o encarando, enquanto suava muito.
-Mulheres, crianças e aqueles que não puderem, voltem para Thais! – Blásio gritou para a população. – Guardas e homens, se preparem para defender minha cidade! Protejam Thais! Protejam a população! Lutem em nome do antigo e do novo rei! – Blásio gritou enquanto todos gritaram em resposta, vários homens ficando para lutar, e os guardas rapidamente trouxeram espadas, machados, clavas e lanças para todos.
Aiko corria sem direção, enquanto Roberta havia sumido de vista. Havia tantas pessoas correndo de um lado para outro, que ela não sabia o que fazer.
-Roberta! – Ela gritou para a multidão.
Alguém a empurrou e ela caiu no chão, rapidamente tentando se levantar para não ser pisoteada. Os sons das trombetas estavam mais fortes, enquanto tambores começaram a tocar. Ela viu a população se trancando em suas casas, mas ela não tinha para onde ir. Não tinha pais, e Roberta havia desaparecido. Lágrimas começaram a sair de seu rosto, enquanto ela corria, sem saber para onde, lutando para se livrar da multidão que esmagava uns aos outros querendo entrar em Thais. Ela tropeçou novamente na terra, e acabou sendo levada por um mar de homens que estavam preparados para lutar.
-Por Thais! – Todos os homens e guardas gritaram.
Blásio ergueu a espada que fora trazida por um dos guardas, a mesma espada de Tibianus, Excalibug. Erguendo-a, gritou e todos respoderam.
Luis se preparava. Virou para Eloise.
-Vá para o castelo e espere lá. Leve seus guardas.
As duas mulheres armadas ao lado de Eloise acenaram, ela se virou para Luis.
-Você ficará bem?
-Preciso proteger o rei, agora vá! Falaremos depois! – Luis disse, se virando e encarando Kruzark, que estava com seu enorme Great Axe trazido por um dos seus soldados, preparado para a luta.
-Temos que cobrir a área. Os orcs matarão todos esses homens não preparados para a luta! – Kruzark disse com a voz forte para Luis.
-Sim! – Luis disse tomando a espada de uma criança que tentava ir escondida para a luta, ele virou para ela – Retorne para sua mãe se quiser viver! – A criança saiu chorando, e Luis e Kruzark correram para os guardas.
Havia cerca de cem homens se aproximando e empurrando uns aos outros, juntamente com Blásio e Josef. Luis e Kruzark se aproximaram.
-Precisamos de uma estratégia de luta. Temos que começar fazendo uma barricada para não deixar eles passarem.. – Blásio começou quando Luis o cortou:
-É tarde demais para isso. Josef, quero que vá para o castelo e se proteja. Blásio, divida os homens em dois grupos, um contornando a montanha, os outros fiquem aqui e defendam as paredes de Thais! O grupo de Blásio armará um ataque surpresa enquanto seguramos os Orcs aqui.
Blásio concordou, e apontou para uma quantidade de homens.
-Vocês ai! – Ele disse – Venham comigo para as montanhas!
Vários homens gritaram em resposta, e correram juntamente com Blásio.
Kruzark e Luis ficaram com o restante, enquanto Josef corria para a cidade com o peito arfando.
-Todos aqui tem uma tarefa importantíssima! Cada vida que eu estou olhando carrega o desejo de proteger os muros de Thais! Onde mulheres, crianças e idosos os aguardam. Rezam. Torcem para que vocês voltem vitoriosos para seus braços. Lutem agora, e se for o destino, morram protegendo Thais! – Luis gritou para os homens, que gritaram em resposta.
As trombetas de repente pararam. Todos calaram.
De repente, das planícies do leste de Thais, começaram a aparecer. Um. Dois. Cem. Trezentos orcs. Os primeiros, montados nos seus lobos de guerra, vestindo uma malha de aço, seus capacetes refletindo o sol, e suas lanças mortais preparadas para matar, os Orc Riders. Eles gritaram para os outros orcs e correram em direção aos humanos.
-Como tantos orcs chegaram até aqui tão rápido? – Kruzark disse enquanto via a multidão de orcs chegando.
-Fizeram o que aconteceu com o pobre Ganeius. Mataram os patrulheiros. – Luis sorriu em resposta. Ergueu a espada que havia roubado de um dos garotos e gritou. Os homens o acompanharam, e começaram a correr em direção aos orcs.
Luis se virou para Kruzark enquanto a multidão avançava de encontro ao inimigo.
-Não morra, anão. – Ele disse sorrindo.
-Você também não, humano. – Kruzark disse, e ambos apertaram as mãos enquanto gritavam e corriam para acompanhar os homens.
A multidão corria para os orcs erguendo as espadas. Juntamente com os Orc Riders, os Orc Berserkers começaram a aparecer erguendo os machados, justamente quando as duas multidões se encontraram.
Os orcs atacavam cada homem que aparecia em sua frente, cortando vários, da mesma forma que os humanos também atacavam com fúria. Os primeiros soldados dos dois exércitos já começavam a tombar, quando Kruzark e Luis chegaram nos orcs. Kruzark, mesmo com a estatura baixa e encurvada de anão, movimentou seu Great Axe rapidamente, fatiando não um, mas cinco orcs de uma vez, enquanto Luis desviou do primeiro machado que veio em sua direção, abaixou e tocou o solo, na mesma hora que cerca de dez orcs perto dele foram sugados para o chão por raízes que surgiram. Ele aproveitou essa oportunidade e retirou uma pedrinha azul do seu manto, e a encaixou na espada. Rapidamente a mesma começou a congelar e ficar com um tom azul forte, e Luis não perdeu tempo ao cortar o orc que estava chegando ao seu lado. Quando a lâmina passou, o sangue do orc jorrou no chão, mas ao mesmo tempo, ele começou a solidificar e congelar, e não só o sangue, mas o orc em si petrificou, se transformando em uma estátua de gelo. Ao que parece, Luis encantou a arma para desferir golpes mágicos.
E assim a luta continuava, pessoas morrendo dos dois lados. Os humanos ouviram mais uma trombeta, essa mais aguda, e várias lanças começaram a ser jogadas na multidão, pelos Orcs Spearman, que estavam mais atrás.
Os Orc Riders atacavam e furavam com fúria, os que caiam no chão eram devorados pelos seus lobos. Sangue e corpos por todos os lados.
Jonny tentava ultrapassar os humanos que tentavam chegar perto dos orcs, até que do nada, várias cobras começaram a surgir no chão. Ele olhou para os lados e viu os humanos tombando diante de um Orc Shaman que havia conseguido romper a barreira de pessoas. Agitando seu cajado, ele desferia chamas mortais contra as pessoas, que tombavam pegando fogo e gritando. As serpentes picavam e envenenavam vários. Jonny rapidamente correu até o Shaman, que teve a cabeça decapitada antes de perceber quem o havia atacado. Ele caiu no chão molemente. Jonny olhou para os lados. Então isso era a guerra. Havia corpos e mais corpos. Seus pais provavelmente morreram assim.. no anonimato. Mortos pelas costas, que nem esse shaman? Ele parou um tempo pensando nisso, que não viu o Orc Leader que se aproximava, com a adaga erguida, pronto para perfurar Jonny pelas costas.
Jonny notou isso tarde demais. Ao virar para fazer alguma coisa, o Orc já estava na sua frente, mas uma flecha acertou a cabeça do orc, e ele caiu no chão morto. Jonny olhou para os lados e viu David se aproximando.
- Ficou maluco? – David gritou para ele - Não é hora de ficar parado esperando ser atacado!
- Te devo uma! – Jonny gritou para David enquanto eles corriam para matar mais orcs.
Aiko estava correndo de um lado para o outro no meio da poeira. Havia sido empurrada até onde a luta estava acontecendo. Ela viu dois homens morrendo na sua frente, enquanto ela gritava para tentar correr. De repente dois Orcs normais correram em direção dela. Um homem pulou na frente e desferiu um golpe mortal em um dos orcs, mas o outro o atacou com os punhos e desferiu dois golpes que o nocauteou. Antes que o orc matasse o homem, Aiko conseguiu lançar uma pequena chama das mãos, que acertou o rosto do orc, que gritou de dor. Ela aproveitou esse momento e pegou a espada do homem desmaiado, e furou a barriga do orc, que gritou e morreu em seguida.
Ela tentou tirar a espada da barriga, mas era muito difícil. Nesse tempo, um Orc Berserker jogou duas pessoas para cima, fatiadas no meio, e viu Aiko. Ela olhou assustada para aqueles olhos vermelho-vivo, enquanto o orc rugia e corria atrás dela, erguendo o machado.
Ela correu, mas tropeçou e caiu. O Orc a alcançou com uma velocidade surpreendente, ergueu o machado, mas uma bola de gelo o acertou, sua cabeça congelou, no exato momento em que uma lâmina a perfurou, fazendo o gelo ficar vermelho de sangue, e ele caiu no chão.
Aiko, tossindo e tentando se erguer, encarou quem a havia salvado naquele momento, e mesmo diante de tudo que ela presenciou até agora, seus olhos arregalaram: Sua salvadora era nada mais nada menos que... Gabriela.