Algoz dos Mortos
Capítulo 01: Primeiro Caso
8h02
Álvaro joga sobre a mesa o portifólio que mantinha no colo, permitindo que sua nova equipe leia a ficha de sua paciente. Cândido a toma com seus finos dedos e se põe entre Juliana e Yoshihiro para analisar as informações.
- Mulher de trinta e nove anos, negra, com dores na coluna cervical e pescoço, torcicolo e náuseas.
O trio olha para Álvaro, que no momento acariciava a barba aparentemente esquecida a espera de alguma citação. Aquele homem era dotado de um aspecto sistemático, sua face se mantinha séria e compreendia um sarcasmo ardiloso. Geralmente sua comunicação, principalmente em momentos que exacerbava seu escárnio, acompanhava caretas e distorções labiais que acentuavam algumas jovens rugas; presente entre os cabelos e olhos castanho-escuro as têmporas eram preenchidas por poucas e palpáveis veias. Sua face era comprida e fina, combinando com sua aparência imponente.
- Eu já li a ficha dela. Continuem...
- Meningite? – Opinou insegura – Explica náuseas e as dores no pescoço.
- Os leucócitos estão normais...
- A ficha não apresenta cefaléia, delírio ou convulsões. – O japonês comentava enquanto afastava os lisos cabelos negros dos olhos – Nem mesmo hemorragias nos vasos – acertava agora os finos óculos na face triangular -, pra mim isso é um granuloma na coluna, explicaria todos os sintomas, menos náuseas que podem ser causadas pelo ambiente externo ou medicamentos.
- Alguém tem alguma idéia melhor? – Silêncio. – Pois bem, tragam a minha tomografia.
- G.E. é identificada, em 99% dos casos, em crianças.
- Ainda sobra um por cento – por alguns instantes ela acreditou que aquilo fosse uma brincadeira. – A não ser que vocês queiram continuar sem informações façam a tomografia.
O trio sai do escritório e se dirige à sala da paciente. No andar clínico o ambiente era mais calmo e com menos pessoas, naquele momento alguns entes aguardavam informações, além das conversas entre os que esperavam, os ruídos dos tamancos de Juliana ecoavam no chão sintético. Yoshihiro desliza a porta de vidro e se adianta.
- Senhora Pâmela? – Sibilou a voz dele ao olhar o portifólio – Bom dia, somos a equipe que está cuidando do seu caso.
- Ah, bom dia, meninos. Já chegaram a alguma conclusão?
- Bem... – Adiantou Cândido
- Sim - interrompeu Yoshihiro -, achamos que você tem um granuloma na coluna, precisamos fazer alguns exames para nos certificarmos.
- É grave? Que tipo de exames?
- São exames simples que não apresentam risco. Uma tomografia para identificar lesões.
A paciente sentou-se e, com ajuda de uma pequena escada metálica, deixou a maca e se dirigiu à saída. A lentidão e o coxear da mulher lhe garantiram um deslocamento via cadeira de rodas até uma das salas de tomografias. Embora beirasse os quarenta anos, a pele negra era saudável e possuía mínimas marcas do tempo.
***
- Nada. – Indicou Cândido enquanto colocava a lâmina no painel luminoso – Limpinho, limpinho.
- Então está em outro lugar.
- Ou não é granuloma... – Balbuciou Juliana.
- Ou está em outro lugar... Sua vez... – A ironia de Álvaro foi acompanhada de uma expressão infantil.
No momento seguinte o som sincronizado dos bipes traz a notícia de que algo estava acontecendo à paciente –
“Quero uma resposta!”, gritou Álvaro enquanto sua equipe saia da sala. O trio se desloca agilmente até o quarto de Pâmela, ao chegar se deparam com as enfermeiras aplicando-lhe analgésicos. Pâmela acabara de quebrar o pulso.
***
- Ninguém quebra o pulso por se apoiar neles. A não ser que pese uns novecentos quilos, o que eu duvido. Pelo menos descartamos granuloma. O problema é em outro osso.
Álvaro passa então a listar os sintomas em seu quadro branco. O grupo se mantém em silêncio tentando ligar alguma enfermidade com os sintomas então escritos. Passado alguns minutos ele para de morder a caneta e se vira para os subordinados, que se encontravam sentados nas cadeiras de uma mesa retangular.
- Quero uma hemocultura para fungos e bactérias.
- Nenhum deles quebra ossos de repente. – Disse indignada.
- Mas causam problemas de irrigação sanguínea, conhecido como osteomielite.
- Osteomielite causa infecção que causa febre, nenhuma alteração de temperatura ou no nível dos leucócitos.
- E se o caso for agudo? Façam a hemocultura.
***
A hemocultura, após 36 horas, estava pronta para ser avaliada. Álvaro lançava uma pequena bola de fibras na parede e tentava pegá-la com a mão contrária, alternando-as a cada novo lançamento, quando sua equipe empurrou a porta de vidro com o resultado da hemocultura em mãos.
- Negativo. – Disse Cândido em tom desanimado.
Álvaro continuou lançando a bola na parede.
- Você ouviu? O resultado da hemocultura foi...
- Negativo. E agora, precisamos de outra idéia. – Ele segurara a bola e girara a cadeira de frente aos subordinados. – E a paciente? Durante esse período, apresentou alguma instabilidade?
- Não, só algumas dores no joelho. – Contou Juliana. – Administramos analgésicos por via oral, mas as dores não passaram.
Álvaro deu um longo suspiro e, embora tenha feito menção para se levantar não o fez e, com os cotovelos apoiados na mesa, debruçou a testa sobre as mãos. Após dar outro longo suspiro falou.
- Ela tem sarcoma de Ewing. Isso fragilizou o pulso e está corroendo o joelho. Porque maldição vocês não me avisaram que ela mancava!? O problema era nos ossos e ela é coxa! Façam a porra da radiografia da tíbia.... Vão...
- Sarcoma atinge crianças brancas e do sexo masculino. Ela é o contrário!
- Você tem alguma idéia melhor? – Juliana tentara pensar numa solução, mas o diagnóstico era perfeito. - Agora vão... Esperem. Porque as enfermeiras não me mandaram a lâmina do pulso?
- Disseram que estava tudo normal. – Falou Yoshihiro, embora sua aparência se mantivesse altruísta, logo percebeu que sua voz saíra cheia de emoções.
- Façam do pulso também.
Leucócitos: Glóbulos Brancos.
Cefaléia: Dor de cabeça.
Sarcoma de Ewing aqui e no Wikipedia (Bloqueado pelo TBR).
Hemocultura: Hemocultura é o nome dado à cultura realizada a partir de uma amostra proveniente da corrente circulatória de um paciente. Cultura esta que tem características especiais por auxiliar no diagnóstico de uma síndrome infecciosa relacionada com altas taxas de morbidade e mortalidade.
Osteomielite: aqui e no Wikipedia (Bloqueado pelo TBR).
Granuloma: é um tumor formado no tecido granuloso; massa supérflua de tecido de granulação formada no local de uma infecção localizada demorada.
Peço desculpas por usar termos médicos. Tentei simplificá-los o máximo que pude e, exatamente por esse motivo, que não descrevi os processos de tomografia e hemocultura, já que para nós leigos ficaria difícil de entender. Não acredito que tenha ficado complexo a ponto de não se entender, mas adicionei os termos no "quote" acima.