Demorou um pouco mais que o esperado porque perdi o
Brainstorm. O capítulo ficou pequenino.
Algoz dos Mortos
Capítulo 03: Ataque à Prisão Gelada
Borbas arrastava os pés para trás, o pavor transformara suas reações em movimentos embriagados. Observando o ambiente gélido e metálico, o doutor tenta de alguma forma se afastar, mas tropeça nos próprios pés e cai sentado, frente a frente com ele.
- O que você fez... Seu... Louco!?
- Não fiz nada... O corpo já estava assim...
Álvaro estava sentado no chão, encostado nas gavetas. Os punhos apoiados nos joelhos sustentavam mãos manchadas de sangue já coagulado. Ele bate a cabeça nas tampas metálicas e cerra os olhos.
- Quem poderia fazer uma coisa dessas?
Jorge Borbas continuava em silêncio, não conseguia acreditar que a tranqüilidade de Álvaro fosse um bom sinal. Ele empurrava o próprio corpo para trás com os pés, queria levantar e correr, pedir ajuda. O doutor Abacílio se levanta aos gemidos e caminha até o outro médico, suas mãos tremiam talvez por frio, talvez contrariando seu aspecto calmo. Então foi até o amedrontado legista e estendeu a mão trêmula para ajudá-lo a levantar.
- Não fui eu... – Sua voz saia aos sussurros, hesitante.
- Então porque está aqui? – Suas palavras ainda ostentavam o medo. Limpava as mãos na roupa.
- Era minha paciente, me contaram que haviam-na autopsiado e por isso vim até aqui...
Os dois olharam novamente para o corpo nu e branco no chão. As fendas dos olhos eram iluminadas pela luz clara e forte que vinha do teto, o corte no abdômen estava aberto e ao lado direito jaziam os restos de intestino e outros órgãos, como se ela tivesse se jogado e caído de ventre para baixo, rompendo os pontos e libertando seu complexo interno no piso frio daquela câmara gelada, virando-se para mirar a escuridão enquanto agonizava. Por sorte estava morta. A respiração ofegante dos médicos se misturava aos demais gases e dançava fantasmagoricamente sobre suas cabeças.
- Quem tem acesso ao local?
- Vamos ligar para a polícia! – O homem de cabelos grisalhos sacou o celular do bolso e saiu da câmara, procurando sinal. – Merda de cova!
- Vamos falar com Leônidas, ele pode ligar para a polícia.
Álvaro lavou as mãos e junto com Jorge Borbas seguiram pelo caminho de volta até o hospital, avisando o guarda para impedir qualquer um de ir até o necrotério. Todo o percurso até o elevador fora acompanhado por um silêncio incomodo, o qual Álvaro não agüentou.
- E então, Jorge, posso te chamar de Jorge, não? Que tal tomarmos um café?
- Você é doente... – Olhava ansiosamente para o indicador do andares.
- Me sinto ofendido. Sua preocupação com aquela mulher não vai mudar o fato de ela estar estraçalhada no chão.
- Não é a minha preocupação com a mulher, mas com quem fez isso com ela. E não duvido que tenha sido você!
- Se eu quisesse te matar já tinha feito isso lá na cova. Ou você acha que eu vou te atacar na cafeteria?
O estalido característico anunciou a pausa do elevador no sexto andar. A porta se abriu para um pequeno corredor encarpetado de branco, logo a frente abria-se para uma sala mais ampla: do lado esquerdo computadores sendo manipulados por pessoas - O centro de informações -, do lado direito, separado por baixos biombos, uma sala de espera rodeada por escritórios fechados. Logo à esquerda, na parede na qual terminava o corredor, havia uma porta com uma placa onde se liam as letras gravadas
"Núcleo de Marketing". Seguindo à direita a dupla se dirigiu à porta marcada com os dizeres
"Leônidas – Diretor de Medicina".
Após duas batidas ouvi-se a voz gritar
"Está aberta, podem entrar", e assim o fizeram. A sala era ladeada por estantes com livros, acima de uma delas havia uma réplica da pintura de Robert Hinckley,
"The first operation with Ether"¹. Em sua frente, atrás de uma mesa de madeira escura com alguns papéis e computador, estava Leônidas em sua poltrona falando ao telefone, de costas para eles, observando a paisagem da janela que dava para o jardim de entrada. Após por o telefone no gancho, Leônidas deu as boas-vindas aos doutores.
- Sentem-se, doutores – Disse apontando as mãos de grossos dedos para as poltronas a sua frente. – Qual o motivo que vos trás aqui, doutor... ?
Leônidas era um homem velho. Seus cabelos brancos eram penteados para trás e faziam par com suas grossas sobrancelhas de mesma cor, os olhos azuis afundavam na face trigueira e parcialmente enrugada, delineando o nariz protuberante.
- Abacílio e Borbas. Estávamos na cova – disse Álvaro enquanto se sentava – e encontramos um corpo jogado no chão, com os pontos abertos.
- Como? Ele não pode ter caído de uma das macas? – Disse em resposta, sua voz apresentava um tom assustado.
- Poderia, se não estivesse com o abdômen virado para cima. – Se adiantou doutor Borbas. – O pior é que ela estava sem os olhos, que não poderiam ter saltado com a queda.
- E ela não poderia ter doado eles?
- Poderia, se não tivesse morrido de infecção. – Acrescentou Álvaro em tom cínico.
- E mais alguma coisa fora arrancada!? – Gotículas de suor surgiam na testa e têmporas de Leônidas, que já colocava a mão sobre o telefone.
- Nada, não pelo que notamos. – Jorge Borbas caminhava inquieto. – É melhor ligar logo para a polícia.
- Já estou fazendo isso, doutor. – Colocou o fone apoiado entre o ombro e o ouvido e começou a escrever algumas anotações no papel – Departamento de polícia? Aqui é Leônidas Aristarco, diretor de medicina do Gedeão-Rio. Solicito a presença de um investigador e policiais no local urgente e discretamente – A última palavra fora falada com mais rigor. E pôs o telefone no gancho – E vocês, bico fechado! Se a imprensa descobre estamos ferrados.
Álvaro já levantava e fazia menção para sair quando foi chamado por Leônidas.
- Onde pensa que vai? Vocês ficarão aqui para explicar às autoridades o que aconteceu enquanto estavam na cova.