esse caso deu vazão a uma enxurrada de argumentos merda para tudo quanto é lado
e o mais engraçado é que agora todo mundo se tornou exímio conhecedor de arte da noite para o dia, a ponto de falar que isso ou aquilo "é" ou "não" é arte.
bom, quem falou que a exposição é uma apologia à pedofilia e zoofilia em primeiro lugar não viu a exposição e, em segundo lugar, obviamente está equivocado, já que ninguém vai sair chupando a rola de um cachorro depois de ver um quadro
diferentemente dos demais, eu admito que não sou um grande especialista em arte, mas o pouco que sei é suficiente para me fazer perceber que o seu papel está justamente no "fazer pensar", no refletir, em abalar/mexer com os nossos sentimentos e emoções, donde que dá para concluir que, ao que parece, esta exposição conseguiu o seu objetivo, ainda que aflorando a ignorância latente no peito do brasileiro (o mesmo que impediu a visita de Sartre e Simone de Bouvoir em 1960 - e na mesma cidade, por sinal - e o mesmo que, 5 anos antes, impediu a publicação dos textos de nelson rodrigues nos jornais)
mas é claro que não podemos exigir muito de uma nação artisticamente analfabeta, consumidora contumaz do que há de pior culturalmente, acostumada a assistir novela das 9 e filmes da xuxa, e que ainda defende a ideia de que o Estado não deve investir em arte, já que o dinheiro indo para uma exposição artística "poderia ir para a construção de hospitais e escolas"
só que esse argumento não é de todo coerente, já que as coisas não se anulam, muito pelo contrário, se complementam... o grande problema é que só uma sociedade saudável e educada tem competência para compreender o verdadeiro valor da arte (e quem já viajou pela Europa sabe o que estou falando), ao passo que uma sociedade doente e analfabeta, que se esconde por detrás de bandeiras como o "politicamente correto", bradando pela conservação dos "bons costumes" (logo em um dos países mais corruptos do mundo: corrupção endêmica, manifestada no famoso "jeitinho brasileiro" de levar as coisas) e taxando quadros e esculturas de "apologias ao crime" sem sequer apreciá-las ou buscar ter um mínimo de compreensão acerca do artista e da exposição na qual ela está inserida é inexoravelmente incapaz de construir um juízo crítico eficiente e autônomo, razão pela qual vomitam a opinião dos outros
mas é claro que o brasileiro não está acostumado a pensar, a refletir, preferindo fechar uma exposição de arte enquanto, on-line, acessa todo tipo de conteúdo "imoral" ou "politicamente incorreto" que se possa pensar, que na vida profissional emprega cotidianamente atos de corrupção, que sonega impostos a torto e a direito, que fura filas, que trai a esposa/marido, que enche a cara no bar e sai dirigindo, etc.
mas, quando o que vale é a sua opiniãozinha exposta no facebook, aí é muito fácil vestir a máscara do cidadão correto e exemplar, escondendo toda a hipocrisia nesse discurso barato
concluindo, eu sou porto-alegrense, sei (ou pensava saber) o valor do Santander Cultural, um dos únicos espaços no estado do Rio Grande do Sul destinado à exposição de obras de arte, e prefiro que o dinheiro da lei rouanet vá para financiar projetos como estes do que para filmes da kefera, sendo contra toda forma de censura de arte por parte de pessoas que sequer valorizam a arte (e que se duvidar nunca na vida se prestaram a conhecer um único museu) mas que acham que a sua opinião é mais importante/relevante/correta do que o meu direito de ir na exposição para formar a minha própria opinião - nem que seja para não gostar da exposição