Spoiler: Respostas
CAPÍTULO 16 – WHAT IS AND WHAT SHOULD NEVER BE
Jason estava em uma antessala muito semelhante à do trono de Infernatil. Porém, uma substância verde, leitosa e pegajosa recobria todo o calabouço, onde, no outro trono, havia lava.
O cavaleiro avançou devagar, empunhando a Espada, novamente estranhando a falta de oposição. Ao fim, o mesmíssimo trono negro acolchoado de vermelho o aguardava, e havia outra mulher ali. Jason achou, a princípio, que ela era bonita: cabelos louros e espetados, curtos, e corpo esbelto. Utilizava as mesmas armaduras infernais de Infernatil e Zathroth.
Verminor.
— Sua insolência é… arrebatadora – disse ela, a voz muito estridente ressoando pelo espaço vazio. – Jason Walker. O menino de Crunor.
Ele não respondeu, mas não foi necessário. Verminor desapareceu repentinamente e algo começou a se arrastar pela imensidão.
Próximo ao trono, algo muito semelhante a uma gosma gigante se esgueirou para fora dos poços de veneno, deixando um rastro esverdeado atrás de si. Não demorou para que aquela criatura nojenta tomasse forma; era um homem de meia idade, de cabeça raspada e… aquilo era batom?
Ele segurava uma maça na mão direita e uma adaga na mão esquerda. Parecia ameaçador; era magro, mas vigoroso.
— Quem é você? Um verme?
Ele olhou para Jason, muitíssimo ofendido, e respondeu com uma voz surpreendentemente feminina.
— Um verme? Sou uma mulher!
Jason arregalou os olhos, embasbacado.
— Caraca – disse, soltando o ar com um assobio baixinho. – Se isso é verdade, você é feia que só a porra, minha filha.
Ela deixou aquela passar.
— Sou Plasmother, a Mãe das Pragas de Verminor. E tenho uma missão.
— Assim como eu – Jason assentiu, achando vagamente familiar aquele nome. – O que nos resta saber é qual de nós será bem sucedido.
— Que não seja por isso.
Plasmother saltou do chão com uma velocidade impressionante. Jason saltou para o lado no instante exato; a maça dela se cravou no chão onde ele estivera milésimos de segundos antes. O cavaleiro tentou chutá-la na altura da cabeça, mas ela não estava mais ali.
Quando Jason se deu conta, Plasmother já estava sobre ele, brandindo sua maça e sua adaga verticalmente muito depressa. O cavaleiro deu um passo calculado para trás, mas não conseguiu evitar que a adaga lhe cortasse na altura do ombro esquerdo; o sangue verteu livremente mas, possuído pela adrenalina do combate, o garoto não se deu conta.
Jason e Plasmother batalharam longamente Espada contra adaga, sem que qualquer um deles conseguisse ferir o outro. O espadachim considerou que a garota era habilidosa, porém, aquele tempo somente lhe serviu para que ele identificasse certas falhas em seu modo de combate.
Toda vez que Plasmother atacava com a maça, baixava a mão esquerda; quando atacava com a adaga, baixava a mão direita. Isto é, na oportunidade em que decidia qual das armas utilizaria, o cérebro da mulher não parecia se importar com o fato de que deixava o outro flanco absolutamente descoberto e suscetível a sofrer um golpe profundo.
Logo, Jason estava de costas para o poço de veneno, gingando com cuidado e evitando ser atirado para trás. Ela pareceu ler seus pensamentos e acertou-lhe um chute na altura do plexo; o garoto se desequilibrou e conseguiu encontrar seu ponto de equilíbrio no instante exato, rolando pelo chão de volta para a segurança do centro da plataforma, por assim dizer.
Por algum motivo, aquela luz esverdeada que tremeluzia no ar e iluminava o ambiente, diretamente saída dos poços, trazia a Jason uma sensação de conhecimento, como se já tivesse passado por ali antes. Quando encontrou a exata medida, o garoto simplesmente fintou um direto curto e encaixou um bom chute rodado no estômago de Plasmother.
A mulher descreveu uma curva graciosa no ar e caiu no poço de veneno.
Jason respirou fundo, muito cansado, mas absolutamente inteiro. Não houve, contudo, tempo para descanso.
Plasmother simplesmente esgueirou-se para fora do calabouço novamente, pingando veneno da cabeça aos pés. Simultaneamente, Verminor surgiu no ar, de espada em punho, e logo o combate se tornou um injusto dois contra um.
Se era muito difícil de combater a guerreira de Verminor, imagine agora, que sua gerente batalhava junto dela. Jason somente fazia se defender, em algumas das vezes escapando de ter uma orelha decepada por muito pouco; inobstante, logo identificou também a ausência de uma constante entre as duas, como se nunca tivessem combatido em dupla antes, ao menos não cooperativamente. Numa luta, Verminor e Plasmother eram totalmente estranhas uma à outra.
Jason decidiu-se, finalmente. Verminor baixou sua espada verticalmente e o garoto fintou de lado, escapando pela direita; Plasmother atacou com sua maça e o garoto a desviou com o cabo da Espada. Finalmente, tinha a Senhora das Maldições à sua frente e sua primeira-general às suas costas. Era a hora de testar sua teoria.
As duas atacaram ao mesmo tempo, oportunidade em que Jason simplesmente rolou para fora.
A espada de Verminor rompeu Plasmother da cabeça aos pés, e a maça desta atingiu a cabeça daquela com força. O corpo inerte e dividido de Plasmother tocou o chão depressa, morto e totalmente impassível de regeneração; Verminor, por sua vez, girava devagar no mesmo lugar, os olhos fora de foco.
Antes que ela pudesse se recuperar, Jason venceu a distância até ela e a desarmou com uma boa cotovelada. A mulher balançou no mesmo lugar, seminocauteada, e Jason entendeu que o momento chegara.
Levantando a Espada, ele decapitou também aquele demônio de Zathroth, dando a ele o mesmo fim que dera a Infernatil.
O corpo sem vida de Verminor rolou pela bancada, esguichando líquido perolado e leitoso por todos os lados. Jason cobriu a distância devagar e, com o máximo de estômago que tinha, empurrou todas as quatro partes das mulheres mortas poço abaixo. Ele olhou para o trono de Verminor, prestes a destruí-lo também.
Duas já se foram; com Bazir, são três.
*
John, Heloise, Melany, Leonard e Svan pareciam ter sido surrados até a morte, pelo menos a julgar pelo estado de compressão dos próprios cérebros. Todos se levantaram muito devagar e demoraram para acostumar os olhos ao excesso de claridade da antessala principal dos Poços do Inferno.
O incandescente girou a cabeça devagar, analisando cada detalhe. Sabia que as estátuas representavam, cada qual, o demônio de Zathroth que era responsável por aquele trono especificamente. Porém, não deixou de notar que alguns dos portais que levavam aos tronos simplesmente não estavam mais ali.
Faltam o de Bazir, o de Infernatil, o de Verminor, o de Tafariel e o de Pumin, raciocinou, conhecedor que era da aparência física de cada demônio.
— Faltam portais – disse Leonard, perspicaz. – Jason já matou todos eles?
John avaliou a cena longamente, sacudindo a cabeça em tom negativo devagar.
— Zathroth mandou que batessem em retirada – disse, finalmente.
— John – disse Heloise. – Quem é que Jason já matou?
Ele fechou os olhos, tentando sentir a energia vital de cada um dos demônios. Faltavam-lhe vários deles.
— Bazir morreu em Carlin – comentou. – Verminor e Infernatil morreram aqui, com certeza. Tafariel e Pumin ainda estão vivos. Quanto a Ashfalor, não sei, porque ele não tem um trono nos Poços do Inferno.
Os olhos de John recaíram sobre o único portal remanescente: o de Apocalypse. Ele se voltou para o grupo.
— Se Jason ainda não conseguiu acesso à sala da recompensa, então ele foi enfrentar Apocalypse. Gente, isso é muito importante: Jason não pode destruir o trono de Apocalypse.
Heloise olhou para ele, prestes a perguntar por quê.
— O trono de Apocalypse é um dos Seis Trabalhos do Anjo Caído – disse, compreendendo a urgência.
*
Gabriel, Miguel e Rafael, segurando lanças que brilhavam como as estrelas do céu, conversavam entre si, uma fogueira acesa no centro da roda. Protegidos pelas rochas da montanha, eles conseguiram encontrar um abrigo razoável antes de prosseguir com o levantamento das defesas contra as hordas de Lúcifer.
— Quem vocês acham que luta com ele? – perguntou Gabriel, em tom de descontração.
Rafael o censurou com o olhar, mas Miguel levantou os olhos, reflexivo.
— Cain, sem dúvida – disse, sem pestanejar. – Babel, Baal, Belial, vocês sabem quantos desses desgraçados já tentaram foder a vida dos outros.
Gabriel fez que sim, também pensativo.
— Você acha que Cain é forte?
— Provavelmente, o segundo na cadeia de comando – disse Rafael, participando da conversa de má vontade. – Ainda existe Aleister, que é muito competente na arte da tortura.
Miguel olhou para o outro.
— Aleister Crowley? Pensei que ele fosse depois deste tempo.
Rafael assentiu, concordando.
— Deveria ser. Mas Crowley é, na verdade, atemporal. Ele sempre esteve aqui; calculo que tenha caído com Lúcifer.
— É mesmo? – Miguel parecia sinceramente surpreso.
Por um longo momento, nenhum dos três disse nada, somente contemplaram as chamas da fogueira no centro. Finalmente, Miguel levantou a cabeça.
— Que tal é Jason Walker?
Rafael deu de ombros.
— Será útil – limitou-se a dizer.
— Ele é realmente o descendente de Crunor?
O arcanjo Rafael, finalmente, compreendeu onde é que os outros dois queriam chegar. Ele era o primeiro-general de Crunor, e possivelmente tinha informações que os outros talvez não conhecessem. Tudo que queriam era sair da ignorância, ainda que ligeiramente.
— Quanta audácia.
Miguel murmurou algo como “não foi o que eu quis dizer”, mas Rafael não estava mais pensando no questionamento.
Por um longo momento, lembrou-se das palavras de Crunor. Lutei contra Lúcifer em diversas frentes, em todas elas ele possuía os mesmos poderes, e todas as vezes venci. Talvez estivessem superestimando o problema, no final das contas.
Mas Jason Walker, com certeza, era um homem de fibra. Rafael não dizia, mas achava que ele se parecia muito com Abel, no início, antes de ser novamente morto por Cain, no plano espiritual. Impetuoso, impulsivo, mas ao mesmo tempo calculista, altruísta. Poderiam extrair boas coisas dele, ainda que suas atitudes sistematicamente tirassem o Anjo Caído de sua jaula.
Por um momento, Rafael fez uma prece, pedindo a Crunor que, ainda que estivesse seguro com relação às mortes, não as possibilitasse em tamanha monta.
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