The Journey Begins (Part I)
Em um quarto escuro, um garoto jazia em sua cama. Tentara dormir a noite a toda, por horas e horas, mas quando viu que não conseguiria, devido a ansiedade, desistiu e resolveu folhear o livro que havia furtado no dia anterior, “Comunicação Telepática”.
“Aparentemente, se há um elo forte entre duas pessoas, e elas tem plena confiança sobre as outras, acessar a mente umas das outras e, com isso, se comunicar através do pensamento será uma coisa fácil”. Enquanto folheava o livro, Eric percebeu uma leve perturbação em sua cabeça. Pensou que era uma dor de cabeça no começo, mas não demorou a sacar, e acabou por abrir a sua mente... Mas a sensação continuou, como se alguém quisesse falar com ele.
O garoto tentou novamente abrir a sua mente. Ficou tão concentrado que não percebeu que a porta de quarto tinha aberto, e quem estava a entrar nele era sua mãe.
– Não se pode forçar o contato. – Disse Jannet, surpreendendo e despertando o garoto de seu transe colocando uma mão em sua testa.
Estava escuro, mas Eric sabia que sua mãe estava em sua camisola, já que não ouviu o típico barulho do clicar das placas de sua armadura. Ia se levantar, mas ela o conteve. Sentou-se na cama junto de Eric, e filho e mãe abraçaram uns aos outros, e nada disseram. Após um tempo, Jannet se levantou, e após a despedida silenciosa entre os dois, o garoto se pôs a dormir. Amanhã seria um longo dia...
***
Enfim, chegara o dia. Embora tenha dormido bem menos do que o normal, sua mãe como sempre deu um jeito de contornar a situação, e as poucas horas de sono que teve foram suficientes. Após se preparar e vestir roupas adequadas para alguém que vai suar, se aventurar, caçar... e suar um pouco mais, sem se trocar por dias, deu uma última olhadela em seu quarto, e saiu pela porta de madeira.
Quando Eric saiu de casa, sentiu os primeiros raios solares do dia. Olhou para trás, e contemplou a casa em que morou por anos. Embora estivesse sentindo um leve sentimento de tristeza por abandonar todas as pessoas com quem convivera todos estes anos, e abandonar os domínios de sua pátria... Iria ver o mundo.
Como combinado, iria caminhar para fora das muralhas da cidade, em encontro a sua mãe, que estaria em um dos vários estábulos ao redor da cidade. Conforme caminhava, começou a prestar mais atenção nos sons, nas cores e na vivacidade que estavam a lhe rodear. Não soube se era pelas experiências com meu pai, um druida, que lhe ensinara a prestar atenção e a sentir a natureza ao redor de si, ou o sentimento de quem estava a deixar tudo para trás, ou ambos; mesmo sendo começo da manhã, e pouquíssimas pessoas pudesse ver na rua, sentia a vivacidade dentro das casas, ouvia as risadas de crianças, sentia os ágeis movimentos dos gatos pulando de telhado em telhado. “Se essa é uma das sensações que pai sente diariamente sendo um druida, hei de ser um druida tão prestigioso quanto ele”, pensou o garoto consigo mesmo.
Em dado momento, enquanto caminhava pela cidade, se aproximando mais dos centro, onde as construções começavam a ser feitas pelas grandiosas pedras únicas de Shandora, reparou que havia uma grande comoção no mercado do centro. Talvez uma grande discussão sobre uma mercadoria... Mas era uma comoção causada por uma notícia:
– EXTRA EXTRA! A expedição mandada ao próprio Inferno, pela Inquisição, feita em pedaços!- Disse um menino, anunciando os jornais matinais.
Os pelos em sua nuca se eriçaram. Se houve notícias da Tropa Dourada, como fora apelidada tal expedição, é por quê o grupo composto pelos melhores guerreiros que o reino Thaiano tinha a oferecer tinha retornado de sua jornada. Embora não tivesse muito tempo, abriu caminho em meio a multidão, e dedicou uma rápida leitura a manchete do ocorrido:
“Há dois dias atrás, o druida Izan, de Venore, estava em sua patrulha matinal aos arredores da cidade. Quando se distanciou um pouco da cidade, e estava a adentrar as Planícies da Destruição, encontrou uma grande pilha de corpos mutilados. Após uma rápida inspeção da cena, Izan concluiu que se tratava da antiga cruzada contra o Inferno, mandada pela Inquisição tempos atrás.
Não se sabe quem ou o quê fez tal barbaridade. Descarta-se a possibilidade de que demônios tenham seguido os bravos guerreiros. Porém, pela barbaridade de tal ato, desconfiamos que se trata da Shichinintai, mais uma vez causando o caos.”
Como não tinha muito tempo restante, Eric largou o jornal e apertou o passo em direção ao portão da saída Leste. Após um tempo andando, chegou ao grande arco da cidade, que separava o organizado amontoado de construções dos perigos foras das grandes muralhas de pedra Shandora.
Não andou muito pelos campos ao redor da cidade quando chegou em um estábulo, localizado ao lado de uma estrada. Ao entrar, Eric se deparou com sua mãe segurando dois cavalos pelas rédeas. Um era o seu grande cavalo negro, tão negro e tão maciço quanto a noite. Jannet estava com uma armadura diferente desta vez, uma armadura feita inteiramente das escamas de dragões. “Pelo visto mamãe não economiza em seu equipamento. Quem sabe se ela guardasse um pouco mais...”
– Eric. – Disse sua mãe, prevendo seus pensamentos – Sabe muito bem que cacei e batalhei com todos os dragões que fazem parte dessa armadura. – Disse, batendo orgulhosa no peito da armadura.
Eric montou em seu cavalo. Não era sua primeira vez, já que havia caçado junto de seu pai no passado. Deu uma última olhada para os muros de pedra, e observou as casas e os edifícios ao fundo, como a biblioteca central, que se erguiam acima das paredes. “Até daqui um tempo, Shandora”.
Mãe e filho cavalgaram dia e noite afora pelos campos e florestas, sempre em direção ao sol nascente, para alcançar a cidade de Carlin. Não era muito distante de Shandora, considerando que um único dia de cavalgada se poderia alcançar a cidade dos druidas e das mulheres. Cavalgar de Carlin para Ab’dendriel tomaria quase o dobro de tempo por exemplo.
Chegaram ao anoitecer aos portões de Carlin. Após se identificarem no portão oeste da cidade, Jannet fez uma reverência a guarda que o guardava, e Eric fez o mesmo. Admirava a sociedade de Carlin, tão diferente das outras, na qual as mulheres faziam a maioria, se não todos os deveres. Se uma coisa temera no passado, era ser descoberto que tinha feito uma travessura pela sua mãe primeiro, ao invés de seu pai, já que as consequências eram mais doloridas com ela.
Após se acomodarem numa estalagem, e descansarem um pouco da longa cavalgada, Eric e sua mãe se dirigiram ao quarto da mesma. Diferente das construções em Shandora, as construções em Carlin sempre tinham um quê de natureza dentro. Raramente se via uma construção totalmente “limpa” em Carlin, já que sempre havia uma vinha saindo de alguma parede, uma planta em algum pote com várias folhas caindo e se juntando ao chão de madeira... Isso quando não se havia uma árvore plantada dentro de um próprio edifício.
Eric estava exausto de sua viagem. Se jogou na cama, sem ao menos arrumar a mesma. Sua mãe achou engraçado:
– Se um dia de cavalgada já o deixa exausto, terá que passar a juventude lendo livros e praticando magia sozinho. Mal consegue se manter em pé aqui, imagine depois de um dia inteiro carregando uma espada e a balançando.
– Acho que muito tempo sem caçar com o papai me tirou um pouco da forma. – Respondeu, se acomodando na cama.
– Por falar no seu pai, recebi uma carta dele ainda ontem. – Disse Jannet, tirando um envelope de uma das bolsas que sempre carregava consigo.
O garoto pegou o envelope. Viu que o selo não tinha sido quebrado, logo sua mãe não o havia aberto também, esperando por esse momento para ler a mesma. Sem muitas delongas, o garoto quebrou o selo e leu o conteúdo da carta:
“Querido filho,
Sei que muito provavelmente está para partir de Shandora. Embora muitas pessoas achem tolice abandonar a família, o conforto de casa, e a segurança, penso muito diferente, já que o mundo é um lugar grande, e precisamos de mais pessoas para explorá-lo, e para semear o bem.
Embora seja filho único, não pense que fiquei mais sentimental quanto a sua `partida’, já que é algo que você quer fazer. Lembre-se de nossas caçadas, de que a paciência e sabedoria de recuar sempre o salvarão. Lembre-se de sentir a natureza ao seu redor, e sempre, mas sempre ajude os seus amigos de coração, não importa o quê os outros digam, afinal opiniões e conceitos mudam e são efêmeros, já que você sempre vai achar outros, diferente de bons amigos.
Nós nunca queremos botar pressão em você, já que eventualmente você amadurecerá com a experiência em campo, que seria melhor do que muitas e muitas horas de conversa atoa que jogaríamos fora por nada.
Enfim, mais uma vez, boa sorte Eric. E sobre o motivo de minha ausência, é confidencial, logo não posso dizê-lo onde estou no momento, embora possa lhe informar meu estado: em boa forma, vivo, e pronto para contar mais algumas boas e velhas histórias da onde estive.
PS: Você deve se lembrar do Ireas, aquele capitão careca que SEMPRE andava com a mesma armadura, roupa, e jóias? Pois bem, o filho dele está em Rookgaard há cerca de quase 1 mês. Talvez seria um bom começo ir para lá, já que pode ajudar a ilha com problemas locais, e seu nome poderá começar a ser ouvido dependendo de seus Grandes Feitos conquistados lá. O nome do filho de Ireas seria Altair se não me engano.
Apenas tome cuidado com os lugares que ele pode querer te levar. Nem toda ilha foi mapeada e descoberta, e embora ser o primeiro a por os pés em novo território possa lhe trazer boas surpresas, coisas tão ruins quanto podem vir... E escolha bem os seus amigos.
Um grande abraço de urso (e não, não posso me transformar em um para cumprir isso literalmente).
Seu grande, de forma literal segundo as lendas, pai.
Hassam.”
Após terminar a leitura, Eric ficou tentado a perguntar a sua mãe o por quê de mais uma vez ele não poder revelar onde estava, mas sabia que seria respondido de forma evasiva. “Enfim, descobrirei isso mais a fundo no futuro”.
Após um beijo de boa noite no rosto de sua mãe, se acomodou na cama, afinal pegaria o barco de Carlin para ilha Thaiana, Rookgaard, logo de manhã. Estava pensando em trocar para roupas mais leves, mas ao ver que sua mãe se deitou com a pesada armadura, entendeu o recado, e resolveu dormir com a leve armadura de couro que tinha sobre.
***
No dia seguinte, pouco antes do amanhecer, uma garota estava caminhando em direção a Carlin, chegando pelo portão leste. Era razoavelmente alta, chegando a competir com várias pessoas na idade adulta; tinha um semblante um pouco melancólico, a julgar pelos olhos verdes profundos, e pelo jeito que caminhava em direção a cidade, quase como se hesitasse. Embora tivesse a pele clara, e parecesse lisa a quem a olhava e a tocava, a pele de suas mãos e de seus pés eram ásperos ao toque, criando uma contraposição ao restante da pele lisa do corpo; seus longos cabelos não eram muito visíveis a noite, mas sob a luz do sol, eram ruivos, mas de um vermelho escuro, sendo cuidados por um eventual banho ou outro, tendo sofrido o impacto do clima e de quem dormira por noites a fio sem uma cama, tendo a grama e a luz da lua como conforto.
Conforme se aproximava do portão, a garota resolveu pegar e examinar a adaga que sempre carrega consigo. Nela estava inscrito o nome da pessoa a quem estava esperando por muitos anos. “Se ela não vem até mim, até ela eu irei”, pensou, decidida. Estava tão concentrada em seus pensamentos que tomou um leve susto pela guarda que a abordou, na ponte de entrada:
– Alto lá! Quem se aproxima? – Perguntou a guarda asperamente.
– El... Elendri... ‘Thel. – Respondeu, hesitanto um pouco.
– Elen o QUÊ? Repita seu nome.
– Elendri’Thel. – Disse a garota, mais firme.
A guarda guardando o portão, Blossom, uma das irmãs Quebra-Ossos, nome tão legítimo quanto a fama do mesmo, parou para examinar a visitante. Embora a menina batesse em seus ombros, e fosse razoavelmente grande, Blossom, assim como toda mulher, era bem perceptível, e logo tratou de perguntar:
– O quê uma menina de apenas... Quinze anos de idade? Vestindo velhos trapos... e com apenas uma adaga oculta... O que estaria fazendo aqui?
A garota hesitou em responder. Certamente, se lhe contasse toda a verdade, a guarda não haveria de lhe deixar entrar na cidade, mas depois de todo esse tempo, ela não iria parar no meio do caminho. Levantou a cabeça firmemente e lhe respondeu:
– Apenas vim pegar um barco.
– Qual barco, não tendo uma moeda sequer?
– O barco em direção a Rookgaard, já que ouvi que eles precisam de mais voluntários na ilha.
A guarda gargalhou ante a resposta. Após quase um minuto, resolveu olhar novamente para a menina, que ainda estava a encará-la. “Pelo visto ela deve ter outros motivos...”
– Ora vamos, Blossom! Incomodando crianças, e o dia nem mesmo começou. – Disse uma voz saindo de trás da guarda.
– Vo... Você! – Exclamou a menina, surpresa.
Atrás da guarda, uma mulher havia surgido da escuridão da manhã. Embora fosse menor em estatura que a guarda, a armadura que usava, feita de escamas de vários dragões, combinado a sua postura, ao grande escudo em suas costas, e a espada embainhada já mostravam que não se tratava de qualquer pessoa.
– Oras oras, o Escudo de Shandora, aparecendo em minhas ruas logo cedo. – Comentou a guarda, levantando uma sobrancelha ante a aparição surpresa.
– Enfim, negócios na cidade. – Disse, e fez uma reverência em respeito.
– Como sempre. – Respondeu a guarda, fazendo uma reverência de volta.
– Curiosamente, eu tenho um pequeno negócio com a nova visitante. – Disse, acenando para garota na ponte.
– Com ela?? – Perguntou a guarda, já incrédula que ela estivesse falando sério.
– Sim.
A guarda percebeu que Jannet estava falando sério. Olhou para a garota e sinalizou que ela poderia completar a travessia para ponte. Embora pela aparência soubesse de que se tratava de uma amazona, e não gostasse das mesmas, sabia que poderia confiar em uma antiga amiga.
– Apenas mais uma coisa? – Interrompeu a guarda, se dirigindo para a garota.
– Sim?
– Qual o seu nome novamente?
– Elendri’the... Senhora. – Disse, de forma humilde.
– Muito bem. – Disse, sinalizando para Jannet. – E não cause confusão em minha cidade. Irei atrás de você pessoalmente caso ouça algo de você por essas bandas.
***
– Tudo preparado, Castiel? – Perguntou um homem, com um uniforme azul, e um símbolo oficial da coroa de Thais em seu uniforme. Típico uniforme de alguém da Marinha de Thais.
– Sim senhor, grande Urso Marinho – Respondeu o garoto, ajeitando a espada em sua bainha, e se acomodando na proa do navio, pronto para viagem.
– Oras oras, tem um certo que alguém não me chama assim. – Disse sorrindo, ante a menção de seu antigo nome. Olhou para o horizonte, e ao perceber as primeiras luzes do sol vindo, sinalizou para tripulação, que começou o trabalho.
– Vamos lá homens! – Disse em sua voz grave, capaz de ser ouvida através das piores tempestades. – Temos que chegar a Rookgaard hoje mesmo, antes do navio de Carlin.
O garoto apoiou os braços na beirada do navio, e deu uma longa inspirada. “ Que o Iluminado me mostre o caminho, que Zin transforme todos os males em sal, e que Elyvilon estenda sua misericórdia aos pecadores que hei de encontrar pelo caminho”.