Era um dia comum na grande capital do reino de Thais, ou pelo menos era para ser. Na avenida principal da cidade, pavimentada em mármore branco, dois homens de armadura dourada idênticas caminhavam, escoltando um garoto ao meio.
Quem não soubesse da ocasião, estaria imaginando o por quê de dois cruzados, de elevadas posições dentro da organização chamada Inquisição, uma das unidades governamentais de Thais, estariam escoltando tal figura em direção ao Templo Central da cidade. O garoto estava vestindo trajes simples, não usando nada menos do que uma simples camisa e uma simples calça, ambos marrons, e estava a caminhar descalço.
Embora fosse um apenas um garoto de catorze anos, era maior do que a grande maioria dos garotos na cidade. Com olhos castanhos e cabelos tão castanhos quantos, tinha a pele levemente bronzeada, e tinha uma um corpo tão definido e musculoso quanto o de vários adultos, além de ombros largos, e uma resistência equivalente a de várias crianças que trabalhavam o dia inteiro aos campos ao redor de Thais, embora fosse da cidade.
“Sem demonstrar nenhum sinal de dor. Apenas siga em frente, afinal você se tornará oficialmente um servo do Iluminado”, o garoto repetiu consigo mesmo em seu pensamento, já que caminhar naquele chão o qual retinha o calor dos raios solares de todo dia faziam a sola de seus pés queimarem um pouco. Mesmo assim, mantivera a compostura em todo trajeto.
Conforme o grupo ia se aproximando do templo, o sol ia se pondo. Diferente de muitos templos, o grande templo de Thais não tinha exatamente uma porta de entrada, era apenas um grande e pesado arco, sustentado por dois pilares, tendo no máximo um grande portão de ferro que poderia ser abaixado, caso houvesse uma invasão.. Tal como a avenida, as paredes e os pilares do templo eram feitos de mármore branco.
Após entrarem no templo, o garoto reparou nas estátuas das divindades. Um grande guerreiro, brandindo a sua espada e escudo, estava a sua esquerda, com uma grande cruz de ferro aos seus pés, e um fiel prostrado ao chão, com sua grande espada estendida perto da cruz. Estava a rezar pelo deus da Guerra, Ares.
A sua esquerda, estava a estátua de um homem segurando um livro, e apontando a sua frente, como se estivesse prestes a desintegrar a pessoa ou coisa a qual apontava. Aos seus pés, estava um grande espelho azul, com vários símbolos ao qual ninguém além dos seguidores de Vehumet, o deus da Magia Destrutiva, poderiam ler.
“Fedhas Madash, o deus das Plantas. Sif Muna, deusa de todas as magias. Qazlal, o deus das Tempestades”, o garoto ia repetindo consigo o nome dos deuses, conforme andava pelo hall principal do templo, ainda espantado pela engenharia do local, por tamanha beleza e simetria, sustentados pelos maciços pilares.
No final do Hall, havia uma pequena plataforma, e um lance de escadas dando acesso a essa plataforma, onde o haviam três altares, e mais três grandes estaturas paralelas aos altares. Nessa plataforma, estava um homem trajando um robe simples, usado por muitos monges e sacerdotes, e carregando consigo um colar de prata e um grande livro de recitações. Ao seu lado, estava um com uma armadura dourada, mas suas braceiras eram de um metal diferente, parecido com a prata, mas mais valioso e resistente do que o próprio ouro. A bainha da espada era de prata, com um rubi no meio.
Este homem era nada mais, nada menos do que o próprio Henricus, chefe da Inquisição de Thais. Como era costume, normalmente quando uma pessoa se tornava um servo oficial de um dos deuses da Divina Trindade, como Zin, o deus da Lei e da Ordem; Elyvilon, deusa da Cura e da Misericórdia; ou o Iluminado, deus da Justiça e da Honra, um ritual seria feito em frente ao altar de um dos deuses da Divina Trindade, e um juramento seria feito, testemunhado por um sacerdote servente a qualquer um dos deuses da Trindade, além de, se possível, servos de um dos deuses, e pela família.
“É chegada a hora de finalmente combater o mal. Não estarei sozinho jamais, com os deuses aos meu lado”, o garoto pensou consigo mesmo. Reparou nas três grandes estátuas rodeando a plataforma. Na sua esquerda, estava a grande e majestosa estátua de Zin, um homem usando uma armadura e um capacete com visor de seu capacete levantado, um bastão na sua mão direita, com lâminas em formato de meia lua em cada ponta, e um livro aberto em sua mão esquerda, o que seria a representação da Lei.
Na sua direita, reparou na estátua de Elyvilon, uma mulher usando uma tiara em sua cabeça e um vestido, e estava com a mão estendida, como se oferecendo ajuda e conforto. Paralelo a estátua, na plataforma, estava o seu altar, uma grande taça de prata, contendo água sagrada, capaz de purifica e curar grandes feridas da alma e do corpo, tão poderosa quanto o poder de um grande druida.
E finalmente, ao fundo do templo, estava a última estátua da Divina Trindade, o deus apenas conhecido como O Iluminado. Sua estátua era de um guerreiro com a espada embainhada, um escudo em seu braço esquerda, e a outra mão vazia, com a palma aberta e estendida, não como uma ajuda que nem Elyvilon, mas como um aviso. Dizia-se que o primeiro e mais grandioso templário, como eram chamados os seguidores e fiéis do Iluminado, Banor, foi o homem que através de sua bravura, coragem, e espiritualidade, conseguiu batalhar contra os demônios e monstros de seu templo, e estendeu uma luz de esperança para a humanidade, além de ascender e até mesmo ser cultuado por muitos como um deus. Seu altar era o de uma águia dourada, ao centro da plataforma.
– É chegada a hora. – Disse um dos cavaleiros em armadura dourada, sinalizando para as janelas.
– Sim. Aproxime-se mais, Castiel. – Concordou o sacerdote.
Castiel se aproximou do altar ao centro da plataforma, a águia dourada. Os poucos murmurinhos de conversa que haviam no templo cessaram. Embora nem todos rezassem para a Divina Trindade, respeitar um ritual de iniciação era crucial, já que atrapalhá-lo ou, na pior das hipóteses, profaná-lo de qualquer jeito acabaria por trazer a ira divina dos deuses.
O grande templo fora construído de tal forma que as janelas refletissem as luzes solares em pontos específicos do templo, em determinadas horas do dia. Naquela hora, ao final da tarde, a luz de um sol estava a atravessar somente uma das janelas, e a luz estava direcionada ao dourado altar do Iluminado, tornando-o mais destacado em relação aos demais altares, já que o restante do templo estava um pouco escuro e o brilho do mesmo se destacava. Castiel se aproximou do altar, e joelhou-se. O monge abriu em uma página qualquer do livro e começou a recitar:
— O que habita na sombra do Altíssimo, habitará na sombra do onipotente. O lugar secreto é a própria mente, onde caminhas e falas com teu potencial infinito. O seu eu, superior ao espírito vivo... – O monge fez uma pausa. – E que seja sabido que tu, Castiel, serás um soldado do Iluminado, e que isso jamais será esquecido perante a todos os presentes, incluindo seu patriarca, eu, e dois soldados do nosso Senhor da Luz.
Castiel levantou a cabeça. Não muito, apenas para olhar o monge, e fez um leve aceno com a cabeça para indicar que o ritual poderia continuar.
— Jamais deve atacar toda e qualquer criatura viva que tenha consciência e que seja neutra. Jamais deve profanar os restos sagrados de qualquer servente da Santa Trindade. Jamais deve usar de toda e qualquer tática profana, que envolva energia negativa. Jamais deve usar veneno contra qualquer ser. Jamais deve atacar covardemente toda e qualquer criatura consciente. Jamais deve atacar toda e qualquer pessoa que deposita sua confiança em ti. E ai de ti que desrespeitar qualquer uma dessas Leis Sagradas, pois saibas que punições virão.
Castiel sentiu alguma coisa dentro de ti. “Parece que os deuses estão a me olhar e a me avaliar agora”. Neste exato momento, o monge se aproximou do pai de Castiel, Henricus, e desembainhou sua espada. Era uma espada longa, designada para ser usada por uma mão. Seu cabo era de um ferro negro, contrastando com o restante da espada, que tinha as cruzetas feitas de ouro, com um rubi no meio, e a lâmina feita com um metal tão resistente e duro quanto o diamante, e tão brilhante quanto a prata, o raro Mithril.
— Mesmo que ascendas em poder, força, e riquezas materiais. – Pregou o monge, levantando a espada e encostando no ombro direito de Castiel. – Jamais esqueças da pessoa que fostes, da humildade, e de seu lugar como servo de Vossa Senhoria. Lembre-te, e poderás ascender, para espalhar as palavras da Divina Trindade, e lutar contra o mal.
Castiel se levantou, dessa vez completamente. No momento em que fizera a ação, os últimos raios solares tinham parado de entrar pela janela do templo, e o mesmo entrara em uma penumbra. O monge ofereceu a espada de Henricus de volta, e após embainhá-la, os quatro, Henricus, Castiel, e os dois soldados da Inquisição, saíram caminhando para fora do templo.
Conforme foram caminhando, as poucas pessoas que estavam no templo iam fazendo sinais de reverência conforme o grupo passava. Embora não rezassem para a Divina Trindade, respeito aos seus fiéis era advertido desde sempre.
— Meu filho... – Começou Henricus, após se distanciarem um pouco do templo, mas ele cortou a frase. Castiel sabia que ele ia falar que estava orgulhoso, e mesmo não sendo um pecado, seu pai não o diria em frente de dois soldados.
Após caminharem por quase uma hora, o grupo finalmente chegou ao quartel general da Inquisição. Após se alimentar com seu pai, Castiel se dirigiu ao seu próprio quarto, retirou suas roupas simples, guardou-as em um baú, como recordação, pôs uma camisola e se preparou para dormir. Quando já estava quase dormindo, ouviu três batidas na porta, as quais identificaram que eram de seu pai.
— Castiel, como sabe, estou orgulhoso. – Disse Henricus, após entrar e fechar a porta atrás de si. – A sua mãe teria ficado muito orgulhosa.
— Sim. – Respondeu o garoto simplesmente. Há muito que eles não mencionavam a matriarca da família entre si.
— Descanse bem, e se prepare para amanhã. Como sabe, irá para Rookgaard amanhã, para investigar e se livrar daquele orc maléfico que, sabe-se como, está usando magia negra, em uma ilha onde magia é não permitida pelos próprios deuses, e está assassinando as inocentes pessoas que chegam na ilha.
— Quantas vítimas até esse momento? – Perguntou Castiel, preocupado.
—Nenhuma, graças aos esforços do monge Cipfriend. Porém, haverá um barco saindo de Carlin daqui há três dias.
— Por quê não contatou a Rainha, mesmo ela sendo uma “inimiga” nossa? – Perguntou Castiel, um pouco surpreso por seu pai permitir um barco sair nessa situação.
— Temo eu que você não conseguirá realizar essa cruzada sozinho. Precisará de aliados, e o barco de Carlin poderá trazer boas pessoas dispostas a acabar com esse mal. – Henricus fez uma pausa. – Enfim, consiga experiência antes de finalmente encarar o orc, e tenha um plano. Seu barco partirá amanhã, levando somente você.
Castiel ia perguntar o por quê de não mandarem mais thainos, mas resolveu ficar quieto. Sabia que ia arranjar uma discussão desnecessária, já que seu pai estava fazendo um sacrifício ao mandar seu filho único, e Castiel tinha um dever como servo do Iluminado: eliminar o mal presente naquela ilha, e garantir um futuro a todos que visitarem a ilha.
— E antes de nos despedirmos, me responda uma pergunta, filho. Por quê magia não é permitida na ilha?
Haviam várias teorias de o por quê magia não poder ser utilizada na ilha. Alguns diziam por quê havia a reencarnação de um deus naquela ilha, que anulou todo e qualquer fluxo de magia para que não fosse descoberto. Outros diziam que os deuses tinham feito um acordo entre si, para criarem um santuário onde seus servos pudessem refletir. Ou um demônio nas profundezas da ilha que coletava toda energia arcana que tentasse ser usada. Seja lá qual for o caso, Castiel permaneceu em silêncio.
— Para você aprender a ser humilde. Lembre-se disso.
Castiel ia perguntar o que seu pai quis dizer com isso, mas permaneceu em silêncio. Após se despedirem, o garoto tentou cair no sono, mas não conseguiu. Iria finalmente se aventurar para fora de sua cidade, e mesmo tendo obrigações a cumprir sendo um servo, seu dever lhe estimulava a conhecer o mundo.