Obrigado mais uma vez pelos elogios!
Aqui vai mais um capítulo, um pouco maior. Acho que tedioso também...
Para ajudar, desenhei um mapa da ilha de Frolar. http://i.imgur.com/cjCSO.png
Primeiro Livro
III - Nascidos para Correr
Todos que foram interrogados estavam novamente na sala de espera. Loran Lewis, Taylor Sroll, João Pilgar, Bianca Colar, Luckas Riann e Kator Slougart. Fineas ainda estava na sala de Takeo. Já haviam se passado meia hora. João estava nervoso. Um guarda estava ao seu lado, ereto e olhando sempre para o corredor escuro. Só se via o brilho dourado da placa da sala de Takeo no fim dele.
O rádio do guarda guinchou ao lado de João. Todos se viraram para ouvir o que seria falado, e o resulto deixou todos mais apreensivos:
- Saia da sala.
O guarda desligou o rádio e saiu pela porta, sem olhar para o rosto das pessoas que estavam ali. Um ar frio entrou rapidamente pela brecha que se abriu antes da porta fechar e fez todos terem um calafrio.
- O que será que aconteceu? – perguntou Luckas.
- Coisa boa não é... – disse Kator.
- Claro que não é coisa boa! – rosnou João – Meu irmão está lá dentro há muito mais tempo do que qualquer um de nós. E mesmo que estivesse aqui, não seria coisa boa para nenhum de nós...
Não mais que um minuto depois, o guarda entrou com mais seis companheiros. Eles abriram um corredor entre os presentes ficando três guardas, de braços dados, contendo os suspeitos. Um deles foi até o fim do corredor e abriu a porta do delegado Lyoto.
Então saiu da sala um vulto encapuzado com as mãos algemadas nas costas sendo empurrado pelo delegado e o guarda vinha atrás escoltando.
- NÃO! – gritou João tentando empurrar os guardas que prendiam as pessoas – FINEAS! FINEAS!
Fineas passou com um saco negro na cabeça e virou a cabeça na direção dos gritos. O saco tremia devido aos risos misturados com choro dele. Lyoto continuava a empurrar ele em direção a porta. Quando Fineas passou para a rua fria, acompanhado pelo guarda, Takeo virou-se e anunciou gravemente:
- Fineas Pilgar está preso de acordo com as Leis do Interrogatório de Frolar, que permite à justiça prender o interrogado que menos apresentar informações relevantes na investigação em caso de não acharmos o culpado. – parou um instante olhando para o rosto enfurecido de João e continuou – Enquanto Jean Nylls não aparecer para interrogatório, o senhor Pilgar ficará preso em um calabouço da Pedra Negra e não há nada que possam fazer. – então virou-se rapidamente, agitando o casaco negro que usava, fechou a porta deixando todos na sala de espera, que aos poucos foi esvaziada pelos seis guardas que ficaram.
Naquela noite, Loran saiu de casa vestido com um terno preto.
Andou pela rua iluminada pelas lamparinas à óleo com uma mão no bolso e na outra, uma rosa vermelha e um guarda-chuva. Atravessou a rua no momento em que um cavalo puxando uma diligencia vinha passando. Olhou para a janela e viu Bianca Colar com um véu negro no rosto.
Virou a esquina em direção ao Parque das Árvores Pontudas, onde Taylor morava em uma barraca no meio de várias outras barracas iluminadas. O Parque das Árvores Pontudas era um grande acampamento de pessoas que acabaram de chegar à Frolar de barco ou de hippies que simplesmente gostavam de morar ali no meio das árvores e sob o céu estrelado, embora nessa noite houvesse uma grande nuvem negra cobrindo a ilha.
Vai chover. – pensou Loran enquanto caminhava entre as barracas.
Alguns dos moradores do parque estavam do lado de fora de suas tendas, sentados em volta de fogueiras acesas que iluminavam o parque todo como o chão de uma mina cheia de pedras preciosas.
Loran então parou em frente à tenda iluminada de Taylor, que ficava ao lado de uma grande estátua de bronze do primeiro governador de Frolar, Temoror, e chamou o amigo. Ele pôs a cabeça mascarada para fora, seguido pelo corpo gigantesco. Ele estava vestindo um casaco negro com calça jeans preta e sua bota.
- Pronto? – perguntou Loran.
- Pronto... acho... não tinha um terno, então botei isso, serve? - agitando os braços para a roupa.
- Serve, claro.
Loran e Taylor atravessaram então o parque todo, até bem longe das tendas, uma parte escura onde as árvores eram maiores e tinham menos folhagens. Eles viraram para a direita, saindo do gramado do parque e voltando a seguir em frente pela calçada. O caminho pelo parque era um atalho até os grandes portões de ferro enferrujado do cemitério da cidade.
As grades subiam até o céu, mais alto do que as árvores medianas do parque, e eram grudadas a um muro de pedra que subia mais alto ainda.
Os dois passaram pelo portão aberto e seguiram pela estrada de paralelepípedos em direção ao único ponto de luz do cemitério escuro. A cada dez metros tinha uma encruzilhada marcando os blocos. Eles entraram na quarta entrada para a direita e andaram por entre as lápides de mármore.
Quando chegaram ao lugar onde havia onze pessoas - de acordo com a contagem de Loran - ele tirou o chapéu da cabeça em sinal de respeito. Nataniel não cativou tanta gente para ter muitas em seu enterro. Haviam quatro pessoas do interrogatório: Bianca, João, Taylor e o próprio Loran.
A fonte de luz era uma lanterna presa em cima da lápide de Nataniel. A lápide era cinza e sem nenhum tipo de fratura, apenas as inscrições:
Nataniel D. Straits
* 28-03-89 / † 28-03-10
E mais nada. Nenhuma inscrição de parentes ou da própria namorada.
Aos pés do túmulo, havia um grande buraco retangular, recém escavado, com seis pés de profundidade. O caixão de madeira envernizada estava ao lado do buraco, pronto para ser abaixado pelo coveiro, que estava parado apoiado em uma pá, com um pé sobre o caixão e um olhar sonolento. Atrás dele havia um monte de terra.
Bianca estava chorando e limpando as lágrimas com um lenço branco perto de um idoso enrugado e gordo com um cabelo branco ralo e um olhar impaciente. A coitada era a única que parecia sentir verdadeira pena do falecido e Loran sorriu com a pureza dela.
- Já posso enterrar o corpo? - perguntou baixo o coveiro sem realmente querer uma resposta.
O velho rapidamente balançou a cabeça dizendo que sim.
O coveiro então encostou a pá na lápide e segurou firmemente uma corda que estava amarrada no centro do caixão. Com a sua bota, empurrou de leve o caixão para a beira do buraco e deixou cair, controlando com a corda.
Quando o caixão tocou o chão, o coveiro largou a corda, pegou a pá e disse:
- Alguém quer dizer as últimas palavras ao falecido? – Silêncio. Bianca chegou a abrir a boca e hesitar, mas desatou a chorar novamente. - Alguma prece ou...?
Como ninguém se pronunciou, começou a pegar a terra atrás dele com a pá e tapar o buraco.
Enquanto ele jogava terra no buraco, o chão de paralelepípedos começou a ser pintado por bolinhas de uma cor cinza mais escura. Loran sentiu pingos de chuva caírem em sua cabeça e o cheiro de terra molhada. Ele botou o chapéu na cabeça e abriu o guarda-chuva, segurando ele no alto para cobrir ele e Taylor, que não trouxe um. Todas as pessoas abriram seus guarda-chuvas ao mesmo tempo enchendo o ar de cliques metálicos.
A chuva foi se intensificando conforme o buraco ia terminando de ser coberto. Quando o coveiro terminou, deu três tapas na terra com a parte redonda da pá e fungou, voltando a se apoiar na pá.
Todas as pessoas pegaram suas rosas e, uma a uma, iam jogando elas na terra e murmurando um “adeus”, “bom te conhecer” ou “já vai tarde”.
Loran e Taylor viraram-se para ir embora. Bianca foi logo que pôs a rosa, chorando. Quando estava a alguns metros do túmulo, Loran virou para trás e viu João parado na chuva perto do coveiro.
- Vem. – para Taylor e os dois foram para perto dele – Ei, como você tá? - perguntou para João.
João balançou a cabeça negativamente e murmurou:
- Eu vou tirar ele de lá, Loran...
- João, não! Cara – começou a protestar Loran.
- Cala boca, Lewis! Você não sabe o que é isso!
- Você não pode invadir a prisão e tirar ele de lá! Vão te pren...
- Eu não vou invadir aquela maldita prisão! Não quero por os pés naquele lugar sujo!
- E o que você pretende fazer? – perguntou Taylor
Jonh ergueu os olhos, com determinação, e disse:
- Eu vou atrás do Jean. Eu vou procurar ele dentro de cada casa, embaixo de cada pedra, dentro de qualquer buraco e em cima de qualquer montanha, mas eu vou encontrar ele e levar o covarde à “justiça” – disse debochando da palavra justiça. Ele virou para o coveiro e continuou – Tomas, o que você estava dizendo?
- Hm? – resmungou o coveiro Tomas erguendo o olhar. O olhar dele era vago e aqueles olhos cinzas e baços pareciam ter visto muito sofrimento. Seu braço tinha uma cicatriz feia cortando o seu músculo, agora atrofiado, desde o seu ombro até o cotovelo. Tinha o cabelo grisalho ralo e oleoso e a barba por fazer. – Ah, sim... então, eu estava preparando o defunto e achei alguns fios de cabelo loiro na roupa e o morto não era loiro.
- Viram? – rosnou João virando-se para os amigos – Nem para procurar as evidências melhor! Não fazem um trabalho direito!
- O Jean é loiro. – deduziu Taylor sozinho olhando para o céu quando este se iluminou com um raio seguido por um trovão baixo.
- Por isso eu vou atrás dele.
- Como você vai? – perguntou Loran. A chuva estava tão forte que o guarda chuva só protegia sua cabeça. Sua calça toda estava molhada e seu sapato também.
- Não sei... – respondeu João. Ele estava completamente molhado, mas não parecia se importar – Algumas pessoas, perto da saída da cidade, disseram que viram ele sair correndo...
- Então ele saiu da cidade?
- Provavelmente. É um lugar aonde ele sabe que a polícia não vai procurar ele, principalmente se ele entrar na floresta.
- Então ele foi para lá. É o lugar aonde a maioria das atividades fora-da-lei acontecem.
- Não acho uma boa idéia irmos atrás dele lá... – disse Taylor - a floresta é perigosa. Dizem que os Trolls ainda andam por lá, no coração dela.
- Irmos? – perguntou João rindo – Eu vou. Sozinho. Amanhã cedo.
- Não, você não vai sozinho! – disse Loran
- É uma coisa minha, Loran! É o meu irmão que está preso!
- É o nosso amigo que está preso! Nós vamos com você! Fim.
- Vocês não vão querer andar comigo pela ilha toda! Eu já disse que só volto com o Jean vivo ou morto.
- Não precisamos andar. – disse Loran.
- E como você pretende ir?
- Eu vou dar meu jeito. Esteja na porta da minha casa amanhã.
- Eu vou sem vocês dois se não estiverem prontos na hora que eu sair.
- Até amanhã, João. – disse Loran e ele e Taylor foram embora, deixando João rindo consigo mesmo na chuva.
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Encostados na cerca de madeira da casa de Loran, estavam o dono da casa e Taylor. Eles estavam esperando o companheiro de viagem João que disse que estaria ali de manhã e ainda não havia chegado.
- Se ele não aparecer – disse Loran – Eu caço ele como ele está caçando o Jean!
- Eu ainda acho que devíamos abandonar essa idéia... – murmurou Taylor, e o murmúrio de Taylor era muito baixo e abafado devido à máscara.
- Então vá embora, oras! Você que decidiu vir também...
- É... – disse Taylor, prolongando o som e parando um tempo – Acho que vocês vão precisar da minha ajuda...
- Ah, é mesmo? – riu Loran cruzando os braços.
- Sim... e acho que eu devo estar nessa viagem.
- Você não parece estar tão preparado... – disse Loran olhando para a roupa do amigo gigante.
Ele vestia sua camisa preta de manga comprida de sempre, uma calça branca brega, um par de coturnos negros e curtos, e sua máscara que só mostrava seus olhos.
Loran usava seu tênis preto de cano longo, mas sua calça jeans preta ocultava, então parecia um de cano curto, uma camisa de seda branca e, por cima da camisa, uma cota de malha bege e seu chapéu negro. Presa no bolso lateral da calça, Loran havia posto uma adaga longa de lâmina curva e afiada. A guarda da adaga era dourada e ficava para fora da calça, mas ocultada pela cota de malha. Por dentro da calça, Loran havia posto uma placa de metal que protegia sua canela de qualquer tipo de ataque que pudessem sofrer.
- Você que se prepara até demais... você parece que vai encontrar um exército a qualquer momento!
- Não, amigo. Isso – e bateu no bolso lateral onde estava a adaga e na caneleira de metal – se chama prevenção. Estamos entrando em uma floresta onde vivem criminosos e podem haver Trolls perambulando e eu não quero ser pego de surpresa.
- Você quem sabe, mas os Trolls não andam pela superfície há quase trinta anos.
- Bem, eu não quero arriscar. – finalizou a conversa
Após alguns minutos parados, João apareceu despenteado como sempre, e com uma mochila nas costas. Não parecia estar muito pesada, mas ele andava um pouco curvado, talvez por vício.
- Então, vocês ainda vão? – perguntou desapontado.
- Claro... – disse Loran.
- Você não acha que exagerou um pouco, amigo? – riu João.
- Eu disse o mesmo para ele... – disse Taylor.
- Ei, ei! – protestou Loran – Vamos parar ou vamos todos a pé, certo?
- Ok, mas o que você pretende?
- Eu tenho esse meu amigo. – disse Loran – Venham.
Ele virou para a esquerda e começou a andar até o fim da sua rua, com Taylor e João atrás dele, perguntando-se onde ele estava indo.
Chegando a esquina da rua, Loran parou e olhou para um edifício de um andar cinza escuro. Labaredas gafitadas eram exibidas acima da porta de ferro e escritas com letras diferentes:
Dan & Roger
150cc – Somente motos
Um barulho muito alto saía de dentro da loja. Som de batidas metálicas e um como se tivesse uma grande colméia perto de você e todas as abelhas estivessem agitadas. Loran bateu na porta de ferro, mas ou não ouviu uma resposta ou as pessoas lá dentro não escutaram, então empurrou a porta com o ombro.
Dentro da loja estava escuro e a cada segundo uma luz azul era acesa em um canto e sombras bruxuleavam e dançavam pelas paredes revestidas de metal. Quando a luz acendia, o grupo podia ver um homem curvado sobre um balcão com uma máscara de ferro cobrindo seu rosto com uma viseira de vidro. Em cima do balcão havia um aparelho de som tocando alguma música da banda Wolfmother nas alturas.
Quando o homem percebeu a presença dos três, apertou o interruptor ao seu lado, acendendo a luz. Agora podiam ver melhor... havia algumas peças de metal em cima do balcão e na mão dele uma solda. O homem, ao ver quem eram as pessoas, abriu os braços e falou qualquer coisa e abaixou o volume da música, levantou a máscara, mostrando o rosto sujo e os olhos dourados, e gritou:
- LORAN!
- E aí, Dan! – respondeu Loran sorrindo para o amigo e indo até ele. Os dois trocaram um forte aperto de mão rindo.
- Veio pegar sua Vespar? – perguntou Dan tirando um lenço branco do bolso e limpando o rosto. Pôs a máscara no balcão e passou a mão rápido no cabelo negro. – Ela está pronta.
- Vim sim... – respondeu Loran enquanto Dan se encaminhava para alguma coisa coberta com um grande pano bege sujo – Preciso de um favor também.
- E o que é? – perguntou virando-se, segurando a ponta do pano.
- Vou lhe contar, mas você precisa jurar que não vai contar a ninguém.
- Espera... – disse soltando o pano e indo para perto de Loran e abaixando a voz disse apontando para um sofá virado de costas para eles e de frente para uma televisão ligada passando Pica-Pau no mudo – E o Roger?
- Ele pode saber... – disse Loran olhando para o sofá
Dan foi até o sofá e deu um grande chute, que o empurrou alguns centímetros para frente chegando mais perto da televisão, gritando:
- ACORDA, ROG!
Um homem magro com um grande cabelo vermelho, cor de fogo, que descia até o meio das costas, levantou do sofá com os olhos verdes esbugalhados entre o nariz longo e fino.
- O que vocês querem? – gritou nervoso por ter sido acordado.
- É o Loran, Rog! - respondeu Dan por cima dos ombros voltando para perto para a figura coberta
- Ah, olá Loran! – resmungou Roger coçando os olhos com os punhos fechados – Quem são esses?
- Esses são João Pilgar e Taylor Sroll. – apresentou Loran indicando cada um com a mão aberta – Precisamos de um favor.
- Que tipo de favor? – perguntou Roger levantando do sofá e limpando sua roupa suja.
- Meu irmão foi preso. – tomou a frente João quando Loran abriu a boca – Estão levando-o para ser preso na Pedra Negra.
- Só lamento, amigo! – respondeu Roger nervoso – Não leu a placa? Por acaso está escrito “Somente Serviços de Invasão e Resgate”? Não... apenas consertamos motos! Nem vendemos elas!
- Não, não! – protestou Loran balançando as mãos – Você entendeu errado. O favor que precisamos são três motos. A minha, que eu vim buscar, e mais duas. Podemos pagar o “aluguel”.
- Pô, cara... – lamentou Dan com a expressão triste – Não temos nenhuma sobrando... Mas se você quiser, eu posso dar uma carona até onde você quiser.
- Tá, certo, obriga... – começou a agradecer Loran.
- Pois é, é uma pena que uma pessoa fica de fora, não é? – disse Roger – Vocês são três e tem somente a sua moto e do Dan...
- Você pode dar uma carona na sua também, Rog. – disse Dan olhando para Roger.
- Eu não quero! – exclamou Roger – Eu nem sei o que vocês pretendem! É resgatar o amiguinho da Pedra Negra, matar os guardas que estão transportando ele... o que é?
- O irmão dele foi preso injustamente. – explicou Loran – E ele só ficará preso até o homem que fugiu aparecer.
- Ok, eu não quero saber desse “mimimi” todo! Para quê vocês precisam da carona?
- Para perseguir Jean Nylls, levá-lo à justiça e libertar meu irmão da Pedra Negra! – disse fortemente João.
Quando João disse isso, Roger teve um grande calafrio, sua pressão caiu e ele desmaiou no sofá.
Roger viu o cenário a sua volta perder toda a sua cor. As paredes de sua oficina começaram a encolher e apertar todos. Quando elas se chocaram, um grande clarão irrompeu dentre as duas, então elas começaram novamente a se abrir em um novo cenário.
Roger olhou para as suas mãos sem cor.
Estava em cima de uma ponte, sobre um rio seco. Ele atravessou a ponte e entrou em uma cidade destruída. Fogo saía das casas destruídas. Alguns corpos estavam jogados pelas calçadas. Dois Trolls vermelhos, vestindo armaduras verde-escuras, estavam de guarda sobre cada lado da ponte. Quando Roger passou, eles pareceram não vê-lo.
Ele continuou andando pela rua destruída. Chegou então no fim da rua e viu, no centro da cidade, onde antes era a prefeitura, várias pessoas nuas carregando grandes tijolos e depositando um sobre o outro, construindo uma torre. Espalhados em volta do terreno, e em outras partes da cidade, havia blocos de pedra negra.
Com as mãos na cintura, olhando as pessoas trabalhando, havia um grande Troll de pêlo verde, maior do que os outros perto da ponte. Ele rugia para cada pessoa que passava obrigatoriamente perto dele após deixar os tijolos:
- Humano nojento! – ou também rosnava – Cumpra o acordo! Por que foram atrás do Nylls? POR QUÊ?
Então tudo perdeu a cor novamente. A cena aos poucos e Roger começava a ver um teto de metal plano e uma voz o chamado de longe.
Rog!
- Roger!
Roger abriu os olhos lentamente, olhando para o rosto de Dan em preto e branco sobre ele, enquanto a cor voltava aos poucos para o mundo.
- O que... – murmurou ele quando tudo voltou ao normal. Ele estava deitado no sofá e Dan estava ajoelhado ao seu lado. Quando sentou sentiu uma leve dor de cabeça. Viu Loran, João e Taylor olhando para ele preocupados – Essa foi intensa...
- O que ele teve? – perguntou Taylor
- O Rog tem... – começou a explicar Dan – Como eu posso dizer...?
- Umas visões... – disse Roger ainda fraco
- Visões? – perguntou João – Visões do que?
- Do futuro. – disse Dan – As vezes algumas palavras chaves fazem com que ele entre em um transe e veja coisas que vão aconte...
- Podem acontecer! – corrigiu Roger
- É... podem acontecer! – disse Dan – Mas geralmente elas acontecem se a pessoa não mudar de idéia... é bem conveniente, na verdade.
- O que posso dizer? Sou diferente! – riu Roger
- Mas o que você viu, então? – perguntou Taylor
- Trolls! – exclamou Roger – Muitos Trolls! Governando a cidade! Os humanos são... escravos, acho... – então ele abriu os olhos, olhando fixamente para os três. Apontou um dedo e disse – E isso vai se vocês forem atrás desse Jean Nylls!
Todos ficaram em silêncio. Dan olhava surpreso de Roger para os três. Roger olhava Loran fixamente nos olhos. Loran então olhou para João que tinha uma expressão pensativa. Então depois de pensar ele disse:
- Já que tem uma leve chance de sua visão não se concretizar, eu ainda vou atrás do Jean. Desculpe Roger, mas é o meu irmão. Eu não me importo com o que acontecerá no futuro. Isso poderá ser mudado, mas por enquanto esse é meu único objetivo e a única coisa que consigo pensar. Depois, quem sabe, poderemos pensar na sua visão.
- Talvez, – disse Roger abaixando os olhos – quando você for pensar nisso mais tarde, já seja tarde demais.
- Eu entendo. – ele olhou para Loran e Taylor continuou – Eu entendo também se vocês dois não quiserem mais continuar.
- Nada disso! – respondeu Loran – Isso é só mais uma desculpa para você ir sozinho! Sem essa, nós vamos!
- Certamente vocês ainda vão precisar da minha ajuda. – disse Taylor
João sorriu para os dois então se dirigindo a Dan:
- Nós podemos ir a pé se você não puder, ou não quiser nos levar.
- Podem contar comigo. – disse Dan levantando-se – Você pode vir na garupa da minha moto e o grandão vai na do Loran.
- Não, não, não! – gritou Roger levantando também do sofá – Sua garupa é pequena demais para levar esse gigante! E a sua também, Loran!
- Então o que faremos? – perguntou Taylor
- A minha moto é maior. – respondeu finalmente Roger – Eu levo o grandalhão!
- Perfeito! – gritou Dan de alegria. Dan adorava sair da oficina e dar uma volta na cidade, ou fora dela, então foi novamente para perto da figura coberta pelos panos e antes de puxar falou – Bem, Loran você pediu para consertarmos aquela Vespar que você achou no terreno ali de trás... então eu fiz isso!
Ele puxou o pano de cima rapidamente. Poeira foi espalhada no ar enquanto o pano ondulava mostrando a moto vermelha com detalhes em forma de labaredas azuis. Ela tinha pelo menos 2 metros de comprimento e tinha uma distância de 15 centímetros do chão de metal da oficina. O banco era pequeno e rebaixado, então só Loran podia ficar nela. As rodas eram grossas e negras com aros brilhando.
- É uma V-rocker B! O motor original estava perfeito, mas como eu tinha que encomendar uma da Ilha Vânia, pedi dois. É o Dragonyt 5.0.
- Perfeito, Dan! – disse Loran feliz
- Então, Loran – disse Roger sentado no braço do sofá – Quando vão partir?
- Agora. – disse João
- “Agora” agora, ou “agora” daqui à algumas horas? – exclamou Roger
- “Agora” agora.
- Bom – disse Roger olhando para Dan – Então vamos preparar as motos né?
Roger levantou-se e foi abrir a porta da oficina. Ela levantou e abriu uma grande passagem para as motos. Depois entrou e foi para um canto da oficina, sumindo da vista dos outros. Dan foi até uma outra moto coberta e tirou o pano. A moto dele era igual a de Loran, só que tinha o banco maior e era dourada. Ele subiu nela e indicou para que João se sentasse.
- Quando sairmos segure-se em mim.
- Pode deixar. – respondeu João assustado
Loran também sentou na moto. Taylor ficou parado em pé esperando Roger. Então todos ouviram um grande som de motor, muito potente, e Roger veio montado em sua moto. Ela era roxa escura, quase preta. Era um pouco maior que a de Loran e Dan e a distancia do chão era maior, só que as rodas eram mais finas. O banco era bem maior que a de Loran e Dan. Ele chegou perto de Taylor e disse para ele subir. Quando Taylor subiu a moto abaixou um pouco.
- Ok, grandão, - disse Roger – segure-se em mim e não deixe as mãos soltas ou vão arrastar no chão, e você não quer isso.
- Ok, todo mundo! – gritou Dan – Preparados?
- Anda logo! – disse Roger dando a partida e arrancando com a moto, passando pela porta da garagem. Loran e Dan fizeram o mesmo, enquanto João abraçou Dan pelas costas.
Juntos foram atrás de Roger que já estava bem na frente. A moto era rápida e fazia um barulho alto e elegante enquanto corria. As casas e as pessoas na rua passavam com se elas estivessem em movimento e Loran é quem estivesse parado. Elas olhavam eles passarem como um grande raio roxo, dourado, azul e vermelho.
Loran lembrou-se de fazer uma coisa, então acelerou a moto e passou Dan, correndo atrás de Roger. A moto deu uma leve empinada e correu muito mais rápido atrás de Roger. Loran o ultrapassou e correu pela rua até o fim da cidade. Ele freou e parou em frente ao seu bar. Era uma construção de madeira com dois andares, sendo que osegundo era metade do térreo. Uma placa de madeira estava acima da porta escrito:
O Tillos
Loran desceu da moto e encostou-a na parede do bar. Roger e Dan passaram como dois raios na rua e frearam, derrapando.
- O que você está fazendo? – perguntou João ainda agarrado a Dan.
- Não posso deixar o bar assim... – disse Loran – Tenho que falar com o Kator!
Ele abriu a porta e entrou no bar. O piso de madeira antigo rangia enquanto ele andava. Kator estava no centro do bar, com algumas mesas e cadeiras fora do lugar, limpando o chão com um esfregão.
- Ah, oi, chefe! – disse Kator quando viu Loran entrando
- Olá Kator! Escute, preciso de um favor seu e você me deve um depois do interrogatório.
- É só dizer.
- Eu vou ficar fora da cidade por uns dias. – explicou Loran – Preciso que tome conta do lugar nesse tempo. Quando eu voltar te pago o dobro da sua diária pelos dias que eu fiquei fora, feito?
- Feito! – disse Kator – Mas para onde você vai?
- Para fora da cidade... não sei ao certo ainda, mas talvez até A Floresta.
- Fazer o que? – perguntou Kator mostrando-se interessado
- Eu e uns amigos vamos atrás do Jean. – respondeu – A polícia provavelmente vai perceber que ultrapassamos os limites, mas se perguntarem, você não sabe de nada, entendeu?
- Entendi sim.
- Ok... tome conta disso direito! – disse Loran saindo do bar
- Boa sorte, chefe! – gritou Kator atrás de Loran – Cuidado com os Trolls!
Loran fechou a porta do bar e subiu na moto.
- Tudo certo? – perguntou Roger – Podemos ir?
- Podemos. – disse Loran
Loran acelerou a moto e desceu a rua até a ponte norte. A cidade Frolar era cortada por um grande rio e havia duas pontes, uma ao norte, perto d’O Tillos e outra ao sul perto do Parque das Árvores Pontudas. Loran cruzou a ponte de madeira com bordas de metal, seguido pelas motos de Roger e Dan. Quando chegaram ao fim da ponte, viram o horizonte.
Uma grande planície verde se estendia por quilômetros. Mais a frente via-se um grande vale entre duas colinas verdes. Loran via grandes árvores soltas na paisagem. Muito, muito à frente, depois da colina, via-se uma grande linha horizontal gigante, que impedia uma visão mais adiante: A Muralha Temoror. A muralha que se estendia de norte à sul da ilha, demarcando o limite que os cidadãos podem ir, pois era proibido viajar para o lado leste da ilha.
Loran continuou avançando pela planície por um tempo, sentindo o ar fresco que vinha do leste. Olhando melhor para frente, viu uma diligência negra descendo o vale Lío em direção à muralha.
- Não podemos continuar em frente. – disse Loran freando
- Porque não? – perguntando Dan parando ao lado dele e Roger parou mais atrás
- A diligência da polícia acabou de passar pelo vale... – disse Loran apontando para entre as colinas – Estão levando os presos para a Pedra Negra.
- O Fineas deve estar ali! – exclamou João – Vamos atrás deles!
- Não, João! – disse Loran – Nossa missão não é resgatar o Fineas, é ir atrás do Jean.
- Então acho bom não passarmos pelo vale. – disse Roger – Nossas motos são mais rápidas que a diligência. Passaríamos por eles e não queremos isso.
- Eles não poderiam nos prender antes de passar pela muralha. – disse Dan
- É, mas levantaria suspeitas se ficássemos parados perto da muralha antes deles passarem. Provavelmente ficariam prestando atenção.
- Certo, então vamos seguir pela antiga terra dos Trolls, contornar a mata dos Lobos-ruivos e chegar a Muralha. – disse Dan apontando para a direita, o lado sudoeste da ilha.
- Quando chegarmos lá, como faremos para passar? – perguntou Taylor
- Eu tenho um amigo, Goya, que é guarda da Muralha. – disse Loran – Ele vive no bar ao cair da noite, bebendo e falando como as pessoas passam pela Muralha para se aventurar na Floresta.
- Bem, ao chegar à Muralha nós vemos isso com calma! – disse Roger, impaciente, dando a partida na sua moto – Nunca vamos passar dela se não chegarmos a ela antes.
Loran e Dan deram a partida nas motos e correram pelo campo aberto. Um pouco mais a frente viraram em direção à cidade e então viraram para a esquerda, em direção à antiga terra dos Trolls.
A grama ainda tinha um cheiro molhado e correram por cima dela por muitos metros. Então a grama começou a falhar e o terreno se mostrava cada vez mais acidentado conforme avançavam em direção ao sul.
Em algumas partes, na grama amarelada, havia vários blocos jogados no chão. Em outros pontos, sempre solto na paisagem, haviam paredes quebradas cobertas de trepadeiras ou chamuscadas por um incêndio muito antigo. Chegaram perto da ruína de uma casa feita de pedra. As paredes estavam desgastadas pelo tempo.
- Elas têm quase quarenta anos... – disse Taylor quando Roger parou perto de uma das ruínas para examinar em volta.
- Eram dos Trolls, não é? - perguntou Dan.
- Sim... acho essa estória uma barbaridade. Atacar toda uma vila de Trolls só para ocupar o espaço deles... uma ilha toda e escolheram esse lugar.
- É melhor para a saída das embarcações para viajar para encontrar o porto de Tir’Rafer ou Enoria. - disse João - Imagina ter que dar a volta na ilha para pegar a viagem para o Oeste.
- De qualquer jeito, foi uma brutalidade.
- Sorte de nós, humanos, os Trolls terem recuado para as montanhas.
- Sorte mesmo.
- Certo, gente! - disse Roger - Agora nós vamos fazer o que? Viajar para Nordeste e contornar a mata?
- Acho que sim.
- Bem, então vamos. O sol já está caindo e não acho uma boa idéia viajar à noite. Essa mata pode não ter Trolls, mas é perigosa do mesmo jeito. Pararemos de viajar assim que escurecer.
Então, ligaram as motos e partiram.
Foram desviando de pedras grandes, pedaços de madeira e ruínas maiores. Mais a frente apareceu uma grande cadeia de paredes de tijolos sem uma seqüência de espaçamento entre eles. Ao passarem correndo por eles, perceberam que estavam quebrados. A vegetação entre cada ruína do muro abrigava pequenas flores rosa e pequenos arbustos. Os fragmentos do muro que caiu no passado já não eram mais visíveis no chão, já cobertos pela vegetação, assim como a parte de cima do muro onde crescia uma vegetação rasteira. Parecia como se o muro houvesse se erguido de dentro do chão levando-o com ele.
O sol já se encontrava bem atrás deles, sumindo no oeste. As sombras das motos já estavam gigantes e bem à sua frente. Quando chegaram à beira da Mata dos Lobos-ruivos, continuaram correndo até que toda a ilha fosse tão escura quanto o interior da mata. Roger, que sempre ia mais à frente que Dan e Loran, parou a moto aos poucos e saiu dela, seguido por Taylor, ajeitando a máscara. Loran, Dan e João saíram logo que chegaram perto de Roger. João saiu da moto cambaleante e caiu de joelhos na grama.
- Certo, vamos dormir aqui essa noite. - anunciou Roger - Amanhã de manhã vamos chegar à muralha e, ainda amanhã, quase ao anoitecer, chegaremos à floresta. Algum de vocês trouxe algo pra fazer fogueira?
- Eu trouxe. - disse João ainda ajoelhado apontando para a mochila dele que estava no chão ao seu lado - Mas precisamos de lenha.
- Certo. - disse Roger - Eu e o Dan vamos entrar na mata para catar alguma. Vocês montem a fogueira e apóiem as motos em alguma árvore.
João abriu a mochila e tirou algumas coisas de dentro enquanto Dan e Roger entravam na mata. Ele deu uma garrafa de água para Loran e Taylor que beberam rapidamente. Não bebiam nada desde que saíram de casa naquela manhã. Loran estava fazendo algum tipo de alongamento, pois estava retesado de ter ficado sentado. Após isso sentou-se ao lado de Taylor, apoiando-se em um tronco de uma grande árvore. João tinha se encaminhado para um dos muros quebrados ali por perto para catar algumas pedras para a fogueira. Quando voltou fez um pequeno círculo com elas e esperou Dan e Roger voltarem com a lenha.
Quando eles voltaram trazendo alguns gravetos e pedaços um pouco maiores de madeira, depositaram no círculo, junto com algumas folhas secas. João tirou um isqueiro do bolso lateral da mochila e começou a tentar acender a fogueira. Quando ela finalmente acendeu, todos ficaram sentados em volta dela. Começaram a discutir qual caminho deveriam tomar após cruzar a muralha.
- Logo que atravessarmos, estaremos nas terras inférteis. - explicou Roger - É puro deserto lá por alguns quilômetros.
- Devemos escolher um lugar para começar a procurar. - disse Dan - Perto das Montanhas Mítralos ou perto das Montanhas Stromer.
- E se ele não estiver perto da que escolhermos? - perguntou Taylor.
- Aí vocês deverão se aventurar pela floresta procurando ele.
- Mas isso é meio idiota! - disse Loran - E se ele não estiver na floresta?
- Ele só pode estar na floresta. - disse João - Só se ele decidiu se entregar e já está em um calabouço na Pedra Negra.
- Então... para onde vamos? - perguntou Roger.
- Acho melhor as Montanhas Mítralos. Elas são maiores e deve ser melhor para ele se esconder lá.
Continuaram conversando perto do fogo durante a noite e comendo biscoitos que João trouxe.
- Acho que só vai dar até amanhã... - disse.
Às vezes um deles entrava na mata para pegar mais lenha para deixar o fogo aceso. Quando ficou mais tarde, apagaram o fogo e deitaram. João tinha trazido alguns cobertores, que deu para Dan e Roger, já que Taylor não sentia frio e Loran ia ficar de guarda.
- Eu fico de guarda. – havia dito Loran tirando a adaga da calça e segurando ela no colo - Depois acordo um de vocês para continuar.
Enquanto todos adormeciam, ele ficou sentado encostado em uma grande pedra, virado para a mata, prestando atenção em qualquer movimento suspeito dos lobos. Os lobos ruivos habitavam mais para o interior da mata, perto de pequenas montanhas.
A noite foi passando e Loran foi ficando cada vez mais sonolento. Ele sentia suas pálpebras fecharem e as abria rapidamente. Certa vez viu lobos saindo da mata e matando todos no acampamento e ele não podia fazer nada, pois não tinha braços e pernas. Foi então acordado por Roger.
- Ei, amigo! - chamou ele - Vá dormir. É mais seguro para todos. Eu assumo daqui.
- Não... - disse Loran esfregando os olhos - Eu tenho uma arma. Traz mais segurança.
- Guarde essa adaga. A única coisa que pode te dar segurança agora é seu cobertor. Agora vá dormir!
Loran levantou e deitou no lugar onde estava o cobertor de Roger e dormiu em cima dele.
Acordaram com o sol iluminando seus rostos. Dan estava acordado encostado na pedra.
- Bom dia. - disse - Tinham que ter visto o sol nascendo hoje!
- Bom dia, Dan! - disse Loran ficando sentado. Roger estava acordado deitado ainda aonde Dan tinha dormido.
João acordou e já foi guardando os cobertores e os biscoitos. Quando terminou jogou a mochila nas costas e começou a chamar todo mundo pra levantar logo e partir.
- Temos que chegar às Montanhas Mítralos ainda hoje! Andem, andem!
Quando todos estavam prontos e menos sonolentos, subiram em suas respectivas motos e deram a partida.
Viajaram contornando a borda da mata a alguns metros de distância. De longe viam a silhueta das montanhas. Quando chegaram a uma curva, viram a estrada que levava à Muralha. Seguiram em direção a ela, abandonando a mata. Quando chegaram à estrada, puderam ver a muralha. Ela tinha uma altura média de dez metros, era de um cinza claro e estendia de norte à sul da ilha. Viam um grande portão de madeira, adornada de um metal com cor de ouro. João olhou para a muralha e sentiu suas energias renovadas.
Estou mais perto de libertar meu irmão. – pensou.
Chegaram ao portão rapidamente, parando as motocicletas na frente da porta. Olharam para cima, na passarela da muralha e viram a silhueta de dois guardas olhando para baixo, com a luz do sol logo acima deles.
- Olá! - gritou Loran - Algum de vocês é Goya?
Os guardas olharam um para o outro e gritaram que não havia nenhum Goya ali.
- Vocês dêem meia volta com essas motos. - disse o da direita - Ninguém pode passar daqui!
- Goya é você? Aqui é Loran Lewis - gritou Loran - Que foi Goya? Você sempre está lá no bar!
O guarda da esquerda virou para o da direita e começaram a discutir alguma coisa inaudível para o grupo na porta da muralha. Eles então saíram da vista deles ainda brigando e gesticulando.
- Acho que eles não vão nos deixar passar. – disse Dan.
- Eles têm que nos deixar passar! – gritou João e começou a bater no portão da muralha com os punhos fechados gritando – Abram! Abram! Deixe-nos passar! Abram!
Enquanto ele esmurrava o portão, ouviram um grande clique metálico e um grande rangido misturado com o som de engrenagens rodando e a porta começou a se abrir para fora, fazendo com que o grupo tivesse que se afastar. Do outro lado viram um guarda baixo e gordo, vestido com toda a armadura azul de Frolar e segurando uma grande lança. Só podiam ver seus olhos amendoados, seu nariz de batata e seu bigode castanho bem feito e cheio de suor. Ele parecia assustado.
- Olá Goya! – saudou Loran abrindo os braços para o guarda. Ele pareceu mais assustado, pois arregalou os olhos olhando para um lado do corredor de dentro da muralha e saindo de lá a passos rápidos em direção a Loran.
- O que faz aqui? – perguntou rápido e baixo.
- Preciso de um favor seu, amigo.
- Favor? Que tipo de favor?
- Acho que você sabe. – disse Loran olhando para a muralha.
- O quê? – gritou Goya olhando para trás por cima dos ombros – Não! Loran, eu não posso deixar você passar! Você sabe! – então apontou para trás deles e gritou – Podem ir embora, viajantes! Da Muralha Temoror vocês não passarão!
- Pode parar com essa sua encenação idiota, não é o que você diz sempre quando vai ao bar. – disse Loran e imitando Goya, pondo as duas mãos na barriga, disse – “Eu sou tão legal que deixo as pessoas passarem pela muralha!”.
- Conversa, Loran! – exclamou o guarda - Conversa! Eu estava alterado! – e gritou – Não vou avisar novamente! Voltem!
- Ok, então se altere agora e nos deixe passar. – disse João.
- Não! – disse Goya ficando ereto e olhando para cima, encarando Loran – Eu sou um guarda da armada de Frolar a serviço do rei! – e gritou – Não vou avisar novamente! Voltem!
-Você é apenas um guarda bêbado que diz asneiras em um bar da cidade! – rosnou João levantando a mão para esbofetear o rosto do gordo. Goya apertou as mãos no cabo da lança e ficou em posição defesa, mas ainda assim assustado.
- Olha Goya... – começou Loran tentando acalmar o guarda – Você vai nos deixar passar.
- Ou o que, Lewis? – desafiou o guarda.
- Ou eu vou bani-lo do meu bar, para sempre!
O guarda recuou como se tivesse tomado um soco e deixou a lança cair por um momento no chão. Ele levantou uma sobrancelha como se não acreditasse que Loran faria algo assim. Ele pensou por algum tempo e então disse:
- Certo. Eu deixarei vocês passarem! Mas com uma condição!
- E qual seria ela?
- Quero bebida de graça por uma semana lá n’O Tillos.
- Feito! – disse Loran apertando a mão de Goya e rindo.
- Ok, agora sigam-me. – disse o guarda caminhando em direção à muralha – E tragam essas motos.
Goya conduziu o grupo através da grande porta de madeira, enquanto Dan, Roger e Loran empurravam as motos pela grama e entravam no corredor de pedra que passava por dentro da muralha oca. Quando todos entraram, o guarda virou e puxou uma alavanca na parede, e novamente ouviram o clique metálico seguido do som de engrenagens enquanto as portas se fechavam, deixando todos na escuridão. Uma luz surgiu da lanterna que Goya ligou e os guiou pelo corredor até outra grande porta de madeira.
- Certo, montem nessas motos, porque quando eu abrir esta porta, é bom vocês darem o fora daqui bem rápido. - disse Goya - E se esconderem. Para sempre. Eu vou ter problemas com isso, se vou!
- Obrigado pela ajuda, Goya. - disse João - Não sabe o quanto significa.
- Não me agradeçam ainda! O guarda lá em cima ainda vai dedurar vocês! - alertou o guarda - Uma diligência vinda da cidade passou por aqui ontem indo para a Pedra Negra e ainda não voltou. Quando ela voltar, teremos que dizer que vocês nos renderam e passaram.
- Entendo. – disse João e puxou rapidamente a adaga de dentro da calça de Loran e apontou para o guarda que recuou contra a porta, assustado - Que tal se eu der um corte em você para parecer mais real, hein?
- Ei, ei! - gritou Dan afastando João com a mão e tirando a adaga da mão dele - Já vamos sair daqui! - virou para Goya e disse - Obrigado por nos deixar passar.
O guarda, suando, virou para a alavanca perto da porta e puxou para abri-la.
Loran pegou sua adaga, guardou no bolso e pulou para cima de sua moto, assim como Dan e Roger, seguidos de João e Taylor. Quando a porta estava totalmente aberta, deram a partida e atravessaram o portal, vendo o sol por poucos instantes sobre a grande planície desértica que era as Terras Inférteis.
Antes mesmo que corressem três metros, uma grande sombra cruzou o céu, cobrindo todo o chão e a muralha. Olharam para o céu, em direção ao sol, e viram o que parecia uma grande nuvem negra, mas quando ela abriu as asas para planar pelo céu, viram que não era uma nuvem. Parecia um grande pássaro negro de asas abertas, com uma grande cauda balançando com uma serpente, indo em direção ao sul. Pararam as motos sobre o deserto e ficaram olhando enquanto a criatura ia embora.
- O que é aquilo? – gritou João assustado apontando para a sombra
- Um dragão! - respondeu Goya ainda parado perto da porta - Fricài, o dragão negro ancião que foi banido do Reino dos Dragões.
- Um dragão?! Em Frolar?!
- Sim, ele sempre está em Frolar. Ele vem sempre do Sul, de alguma terra distante da nossa ilha e fica escondido nas Montanhas Mítralos. Nunca vem para esses lados, senão essa manhã, quando voou acima das nuvens sobre a muralha indo à algum lugar. Agora voltou.
- Devemos ter cuidado? - perguntou Roger
- Sempre se deve ter cuidado com dragões - disse Goya - mas esse sempre fica escondido, lá nas montanhas. Se não forem para aqueles lados, estarão seguros.
- E então? - perguntou Dan para o grupo - Íamos para lá, mas não quero me aventurar em uma terra de dragões.
- Não acho que o Jean seja idiota para ir para lá... - disse Taylor.
- Mas e se ele não souber disso e foi do mesmo jeito? - perguntou João.
- Não importa. - disse Roger - Não temos nem certeza se ele está lá. Vamos para as Montanhas Stromer. Estaremos, pelo menos, mais seguros.
Quando todos concordaram, Roger assumiu a dianteira e correu pelo deserto. O sol batia em seus rostos durante a viagem e o vento que soprava não os refrescava, pois era quente. De longe, ao sul, podiam ver o pico mais alto de Frolar nas Montanhas Mítralos, mais à frente, só viam a areia do deserto dourado, produzindo distorções no ar por causa do calor. Em alguns pontos, viam milagres acontecendo, como pequenos tufos de grama amarelada morta e murcha, morta e caída na areia depois de ter brotado do solo. Um milagre, pois todos sabiam que aquela era incultivável. Nada poderia crescer ali por anos.
Enquanto corriam, as rodas jogavam areia para trás e para cima, caindo na pele e chegava a doer. Pararam as motos perto de um enorme cacto para beber água. Ela já estava quente e os biscoitos de João murchos. Roger ficou coçando a perna machucada e com pintas vermelhas.
Após beberem a água, montaram - pelo que seria a última vez - nas motos e partiram. Dez minutos depois, viram o horizonte desértico se transformar na vista de uma grande floresta. A floresta se aproximava rapidamente e podiam ver árvores altas, talvez maiores que a Muralha Temoror. Podiam ver também, no meio delas, uma grande cadeia de montanhas, com picos altos, porém não tão altos como os das Montanhas Mítralos.
Então, finalmente, viram a grama voltar a aparecer solta entre as areias do deserto, então, areia solta entre a planície que se estendia até a borda da Floresta Sem Leis, lar dos trolls e de mais sabe-se lá o que.
Finalmente chegamos. - pensou João suspirando enquanto Dan ia diminuindo a velocidade da moto conforme se aproximavam de seus destinos.
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