Pessoal, vamos de Capítulo 2, então! Apreciem. Aguardo comentários!
CAPÍTULO 2 – A convocação
A manhã de sexta-feira foi ainda mais cinzenta do que o fim de tarde do dia anterior, se é que isso era possível. Artesãos não colocaram a cara para fora de suas portas, preferindo o – por enquanto – sossego de seus lares, e comerciantes – os que tiveram coragem – armaram suas poucas barracas ao longo da avenida principal da cidade, que a cortava de leste a oeste.
A situação deprimiu ainda mais – se é que era possível – o jovem Jacob. O rapaz de dezessete anos estava acostumado a, às seis da manhã, ouvir a marcha dos soldados de verde-esmeralda do lado de fora, os gritos dos comerciantes, a balbúrdia causada pela presença de mais pessoas do que o local poderia suportar. Hoje, às oito, a cidade parecia um cemitério. Nem mesmo o sol deu o ar de sua graça; nuvens negras pairavam sobre a cidade e, às nove, uma chuva torrencial começou, sendo substituída pelo chapinhar suave do chuvisco meia hora depois.
Claude, o pai de Jacob, havia criado coragem e ido trabalhar na agência de correios, onde mantinha emprego há mais de quinze anos. Lassale compunha suas canções na flauta de madeira suave, como fazia em todas as manhãs, e Mary cuidava da casa. Jacob, entretanto, a quem era comum, todos os dias, levantar-se às cinco, aquecer-se e apresentar-se ao exército às sete e meia, vivia o dia mais infeliz de sua vida.
Apenas com as roupas de seda e fio de algodão do corpo, despediu-se da mãe e da irmã e abriu a porta para sair, tentar buscar alguma inspiração. Quando girou a maçaneta, entretanto, viu o próprio diabo parado à sua frente – ou o seu enviado, das profundas do inferno: Travers, o comandante do exército da Red Sky, braço direito de Dreader, estava parado a porta, seu cheiro fétido de suor e colônia nojenta pairando no ar sobre o sorriso desdentado.
- Senhor Kniss – disse ele, sorrindo de forma suave. Seu hálito era pior do que qualquer coisa que Jacob já houvesse sentido na vida. – Bom encontrá-lo.
Jacob assentiu uma vez, sério, evitando os olhos sem vida de seu interlocutor.
- Tome – ele remexeu na bolsa e retirou um pergaminho enrolado, lacrado com cera vermelha e um sinete no centro, cujo símbolo o rapaz nem se deu o trabalho de averiguar; já sabia que pertencia à Red Sky. – Não falte. Caso isso aconteça, garantirei pessoalmente que meus homens venham buscá-lo. Bom dia.
Travers virou-se e caminhou, vencendo o jardim com a horta da família com facilidade e abatendo uma das lebres com uma espadada desnecessária e maldosa.
Curioso, Jacob fechou a porta enquanto sua irmã e sua mãe o observavam. O rapaz sentou-se à mesa e abriu o pergaminho, espatifando a cera da Red Sky da forma mais impiedosa que pode.
Em letras rebuscadas, havia um aviso grande, e o pergaminho trazia, no fundo das letras, o sinete da Red Sky estampado em tinta negra – uma serpente naja, de duas cabeças e apenas um corpo, erguendo-se, pronta para o bote, no centro de um círculo tosco e prateado.
Jacob Kniss,
Chegou ao conhecimento do Ministério Essencial da Red Sky, hoje, que o senhor era componente do Exército Esmeralda da cidade de Jarrah. Vale lembrar que, no presente momento, somos proprietários da cidade e seremos eternamente, ou até que assim ordene a consciência de nosso Imperador, O Arrebatador.
Julgamos que, sobretudo, o senhor deve se recolher à sua insignificância, sem, contudo, deixar de achar-se valoroso. Significa: nada de rebeliões, seu pescoço é o preço.
Nossa convocação, portanto, é para que o senhor se apresente ao Exército Vermelho da Red Sky às três da tarde de hoje e faça seu alistamento. Caso o Imperador ache por bem, sua obrigação é de compôr o exército da forma que lhe for solicitada, sem titubear, obedecendo às ordens de seu(s) superior(es).
Não se atrase. Não falte.
Qualquer descumprimento às ordens presentes neste pergaminho será considerado como traição ao Império e, por consequência, sua pena será a decapitação.
Fazemos votos para que esteja bem.
Ministério Essencial da Red Sky
Relator: Jansen Klingenfus
Ministério de Defesa do Exército Vermelho
Jarrah
Jacob releu o pergaminho, várias vezes, até apreender o conteúdo daquilo. Imediatamente, um ódio incontrolável começou a crescer dentro de si, atingindo proporções que mesmo ele não acreditava.
- Quer dizer, então, que os filhos do demônio vão invadir a cidade e eu serei obrigado a servir seu exército?
Mary e Lassale nada disseram, apenas observaram, os rostos aparentando muita preocupação.
- Vou sair – disse ele, atirando o pergaminho ao longo do tampão da mesa de madeira e saindo da casa, pisando duro, com muito ódio.
* * *
Jacob chegou a uma residência pequena, de dois andares, como todas as demais da cidade, e bateu à porta. Uma portinhola se abriu um pouco acima de seu centro, revelando um olho vivamente verde. Ela se fechou e a porta se abriu na sequência, revelando um rapaz jovem, de olhos muito verdes e cabelos compridos até os ombros, muito louros. Um rosto muito bonito de todo, um rapaz muito vigoroso fisicamente, como Jacob.
- Entre, rápido – disse, a voz gutural, empurrando Jacob para dentro e olhando para todos os lados enquanto fechava a porta.
- Você recebeu? – perguntou Jacob, indignado, olhando para o pergaminho sobre a mesa.
O rapaz fez que sim, e os dois se encaminharam para um aposento nos fundos, empurrando a porta.
- É muito difícil resistir à dominação, não?
- Muito mais do que imaginamos, Jack. O que faremos?
- O de sempre.
Jack abaixou-se e empurrou um criado-mudo para o lado, revelando um alçapão no chão. Puxou-o pela argola e saltou para dentro, seguido pelo amigo, que fechou o tampão por argola interna.
O aposento era semelhante a uma adega, exceto pelo fato de que as caixilhas eram preenchidas por garrafas de rum. O pé-direito tinha uma altura de algo em torno de dois metros, dois metros e meio, e tinha um pequeno bar instalado ao canto leste, duas mesas circulares de madeira gasta, com quatro cadeiras díspares em torno de cada uma. Havia, ainda, um terceiro homem no aposento – cabelos curtos e ralos, sem barba, olhos cinzentos e queixo firme. Negro. Mesmo vigor físico dos outros dois. Jovem, como ambos.
- Josh – cumprimentou-o Jacob, vigorosamente, abraçando-o e sendo bem recebido da mesma forma.
- Você está fora de forma, Jacob – disse ele, sorrindo e revelando dentes muito brancos por cima da voz firme e marcante.
- Como você.
- Sente-se, Jake – disse Jack. – Precisamos saber o que faremos. Josh recebeu, também, a convocação.
Jack foi até a adega e selecionou uma das garrafas de rum, de fundo quadrado. Serviu três copos e sentou-se junto dos amigos, os olhos focados, determinados.
- O que você sugere, Jack?
- O que eu sugiro é a coisa mais simples possível, Jake. Não vamos nos apresentar.
- Não vamos nos apresentar? – Jacob torceu o nariz, virando todo o copo de rum e servindo-se de mais. – Como você acha que podemos fazer isso? Vão revirar nossa casa e nos degolar!
Josh riu, o som saiu anasalado, debochado.
- Muito limitado – observou.
Jacob olhou para ele, carrancudo.
- Supondo que possamos fugir – calculou Jake. – Há uma dúzia de soldados da Red Sky postados em cada uma das três saídas, e outros vinte no cais, ao sul, como vi quando saí de casa.
- A fuga é interessante, mas temos várias boas opções – observou Jack. – O que não podemos é aquiescer. Se nos alistarmos à Red Sky, precisaremos, de certeza, oprimir, também, o povo de Jarrah. Não tenho qualquer intenção de fazê-lo.
- Eu também não – observou Josh.
Jacob assentiu, sentindo uma determinação que era toda sua crescendo dentro de si. Seus olhos encontraram os de Jack e ele sentiu firmeza no olhar do melhor amigo, e sua determinação cresceu ainda mais.
- O que você supõe, Jack?
Jack bebeu seu rum, olhando para o amigo. Pousou o copo sobre a mesa e cruzou os braços, apoiando os cotovelos na mesa.
- Josh tem muito a perder – argumentou. – Seus pais fazem parte da organização do castelo, mantêm o ambiente limpo e organizado. Meu pai, Jake, é comerciante, e o seu trabalha na agência dos correios. É muito mais fácil para nós dois escondermos nossa família, e muito difícil, proporcionalmente, para Jones, proteger a família dele.
Jake assentiu, enchendo, mais uma vez, seu copo.
- Então, Josh precisa se apresentar. Não há outra hipótese para ele. E, por consequência, todos sabem que somos amigos, nós três. Josh vai ser pressionado, vão forçá-lo a falar onde estamos ou o que fizemos e o que estamos fazendo – enfim, tudo sobre nossa fuga.
- E então?
- Ele vai entregar. Vai dizer que desertamos e vai supor lugares prováveis para nosso esconderijo, sem, entretanto, nos comprometer. Vamos, nós três, nos corresponder via pombo-correio; é a maneira mais segura, eles não sabem que somente nós três nos utilizamos desse sistema e confiam apenas nos correios.
- E meus pais? E os seus?
- Josh entrará como um neutro. Sugeriremos para que seus pais utilizem nossa casa. Por consequência, portanto, teremos esta adega – ele bateu com o pé direito no chão duas vezes, causando estrondo, balançando as mesas e os castiçais presos às paredes – para esconder meus pais e os seus sempre que houver vistoria ou invasão. Assim, protegemos a identidade deles e sua presença vai ser bem escondida. Fugiremos na sequência, disfarçados, se precisar.
- Mas Josh...
- Ficarei bem, bebê – disse ele, sorrindo de forma condescendente para Jacob. – Fique tranquilo.
Atrás do bar, entretanto, os rapazes não perceberam que algo se movia. Jacob esvaziou seu copo novamente, sentindo-se tenso.
* * *
Dreader recebeu o estranho encapuzado, que não quis revelar seu rosto, em seus aposentos, sentado ao trono do antigo Rei.
- O que você quer? – disse, impassível.
- Desertores – respondeu, a voz estranhamente anasalada. – Serão dois deles. Você perderá dois grandes combatentes, Dreader.







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