CAPÍTULO 2 – O INÍCIO DO FIM
A
EAI – Empresa Analítica de Inteligência – era vista na Europa como a
CIA é vista nos EUA. O que todos imaginavam é que a Analítica era apenas mais uma empresa de inteligência. Mas poucos – realmente,
muito poucos – sabiam que a Analítica construía bases nucleares de lançamentos de mísseis. O último míssil altamente destrutivo que a Analítica se empenhou em plantar, foi quando Cuba e URSS politicamente se associaram, e os mísseis ameaçaram os EUA, quando foi decretado o bloqueio econômico à pequena ilha da América Central.
A empresa ocupa 150 mil metros quadrados de extensão, escondida entre algumas altas colinas nos arredores de Frankfurt, na Alemanha. São quatro grandes salas de montagem, ocupando dois quartos do território. Um quarto é ocupado por outra grande sala, chamada Processo de Radiação, enquanto o restante do território é ocupado por pequenos prédios que abrigam os cientistas. Existe uma base militar em Budapeste, na Hungria, onde fazem os testes de lançamento. Cada míssil produzido pela Analítica tem alcance superior a dois mil quilômetros.
Dentro da sala da presidência da empresa, Jack Nicholas, o diretor, estava perplexo ao assistir as imagens da
Cable News Network – a CNN, empresa de televisão norte-americana -, que falava sobre um campo de concentração nazista na Alemanha. E, para ele, o pior: Michael Jeric, o filho do vice-presidente, estava
envolvido. O repórter William Charlie era muito claro em sua matéria.
- Um fotógrafo contratado pela CNN encontrou o corpo logo após ele ser marcado a fogo. Michael claramente estrangulava o próprio pai. As fotos são claras. Não há nenhuma dúvida ou questionamento sobre o que aconteceu naquele cubículo.
As fotos passaram uma a uma, numa série de quase quarenta fotos. Jack estava estupefato. A série de fotos mostrou Michael rasgando as roupas de George, pousando-lhe a mão no pescoço e levantando-se, correndo, em direção à porta.
* * *
- Parabéns, Will. A matéria foi muito boa. Foram trinta e cinco pontos de ibope!
- Só faço o meu trabalho, Mark – disse William, caminhando vagarosamente, com a câmera na mão, até a saída do furgão, enquanto todos os companheiros de imprensa saíam juntos em disparada em outros carros avulsos. – Povo apressado...
Como sempre, nos finais das matérias, Will saiu do furgão e trancou a porta traseira. Em seguida, encaminhou-se para a esquerda do veículo, dirigindo-se para a entrada do motorista. Quando abriu a porta, viu alguém sentado em seu lugar. Não sabia quem era. Mas conjecturou uma idéia.
- Parabéns, Will – disse o homem, entregando-lhe um gordo maço de notas de cem dólares -, tem certeza de que foi transmitido em rede internacional?
- Sim senhor, Führer. A Analítica está acabada.
- Ótimo – o homem sorria de modo bizarro. – O nosso trabalho ainda não chegou ao fim – disse, saltando da van. Caminhou alguns passos. Era alto, usava um sobretudo vermelho, marcado com um círculo branco vazio nas costas. O chapéu branco na cabeça dava-lhe boa impressão. Eram quase onze da noite em Frankfurt, e fazia um frio considerável. – Em breve entrarei em contato. O nosso campo de concentração não deverá ficar escondido por muito tempo. Em breve, William Charlie, o mundo inteiro irá conhecer a força nazista.
- É claro, Führer – disse Will, dando-lhe um sorriso presunçoso. – Estou às ordens.
- Precisarei de você – e desapareceu no cruzamento da rua.
* * *
O vigilante do sistema de câmeras do campo de concentração estava quase cochilando em sua cadeira quando notou algo curioso. Havia um soldado fardado correndo no meio do campo, em plena noite, ao invés de estar de serviço. No mesmo instante, acionou o Führer.
- Capitão – disse, temeroso pela palavra “capitão” ter saído tão sem querer. O Führer gostava mesmo era de ser chamado de Führer! – Perdão, Führer, há um soldado correndo em velocidade considerável pelo setor 3. O que devo fazer?
- Descreva-o, por favor, meu assistente – a voz metálica do comandante chegava radiante pelo walkie-talkie, numa freqüência tão alta quanto foi possível.
- Ah – o vigilante sentiu-se pressionado. Nunca tinha conversado com o Führer tão diretamente -, é alto, senhor. Ruivo, ao que me parece. Não deve ter mais que 30 anos.
- Michael Jeric – o Führer se divertia. – Muito bem, senhor vigilante. Deixe-o correr um pouco. A reputação dele já está bem queimada no mundo. Obrigado, meu assistente. Volte ao seu trabalho.
Que coisa mais doentia, pensava o vigilante. Mas era o seu sustento. Seu pão de cada dia. Leonardo Yami era japonês, e curiosamente, quando tinha dez anos, havia fugido de Hiroshima devido à ameaça de uma bomba.
* * *
- Inferno! O que Michael pensa que está fazendo?!
Jack Nicholas balbuciava e andava de um lado para o outro dentro da própria sala. Não sabia como agir. Pela primeira vez na vida. Mas não pensou nisso. Olhou nos arredores procurando um motivo, uma causa, qualquer coisa que justificasse as ações de Michael, mas não encontrou absolutamente nada além do vazio. Aliás, já estava assim há muito tempo. Sete anos atrás, se separou da esposa e perdeu os dois filhos devido a ataques terroristas ao
World Trade Center, nos EUA.
Sentou-se na macia cadeira do seu escritório. Na frente, o computador desligado mostrava que ele precisava trabalhar. O estranho expediente de Jack o fazia trabalhar a partir das duas da matina.
Já está na hora! Retomando o raciocínio pouco a pouco, Jack pôs a mente para funcionar. Mas a mesma logo parou, devido ao toque da campainha do telefone.
- Empresa Analítica de Inteligência, o Presidente.
- Jack Nicholas?
- Com quem deseja falar?
Silêncio. A voz parecia divertir-se com a ocasião.
- Jack, Jack. É um prazer conhecê-lo.
- O prazer é todo seu – Jack parecia visivelmente irritado. – Não se prolongue, por favor, estou com uma bomba relógio nas mãos e...
- Literalmente?
A expressão pegou Jack de surpresa.
Não faço idéia de sobre o que esse lunático está falando!
- Como assim? – Jack tentou não mostrar nervosismo ou irritação.
- Jack, eu tenho uma sugestão para lhe dar. Escute atentamente.
Jack ouviu atentamente. De fora da sala, qualquer funcionário que estivesse no pátio poderia ver o seu olhar perplexo perdido no nada. Colocou o telefone de volta no gancho, e massageou suavemente as têmporas tentando pensar em alguma coisa. Não conseguiu. Abriu a porta da sala, que ficava no nível mais superior da Analítica, e convocou pelos interfones todos os agentes da guarda principal da empresa até o Pátio de Remontagem, que ficava à frente de seu gabinete, e estava vazio, porque o horário já marcava duas da madrugada. Quando todos os guardas de inteligência se postaram de frente ao presidente, ele começou.
- Senhores... – os olhares permaneceram atentos -, temos uma bomba. Literalmente.
* * *
Jack Nicholas tinha quarenta e sete anos. Até chegar à presidência da EAI, foram dias tempestuosos. Quando tinha dez anos, perdeu a mãe, vítima de uma intoxicação alimentar. Na verdade, o próprio pai a matara, para que pudesse viver com a amante tranquilamente. Não foi o que aconteceu. Jack matou o pai dois dias depois, a facadas, enquanto ele dormia. Depois disso, Jack foi para um reformatório, onde viveu quatorze anos de sua vida isolado do mundo. Depois, com vinte e cinco anos, passou a trabalhar no exército militar, como atirador. Atirava muito bem, diga-se de passagem. A sua habilidade na construção de armas era fenomenal, e lhe rendeu um emprego na EAI. Começou nos setores primários, construindo pequenas bombas de porte frágil, que serviam apenas para quebrar pequenos alicerces de prédios que estavam com risco de cair. Aos poucos foi subindo, e conquistou a presidência depois de vinte anos, por bons serviços. Era o braço direito de Maximiliano Drago, o ex-presidente, que sofria de arritmia e morreu num ataque fulminante.
Jack costumava ser calmo. Não chegou a derramar uma sequer lágrima diante de ter perdido seus dois filhos. Acostumara-se com a dor na infância, ao ver a mãe ser agredida todos os dias pelo pai. Sua frieza e capacidade calculista rapidamente lhe renderam elogios. Mas, pela primeira vez em quarenta anos, Jack Nicholas deixou rolar uma lágrima. Ela caiu sobre a mesa de vidro e pinho amarelo, mostrando pelo reflexo a fragilidade daquele exigente homem. Sentado, colocou a cabeça entre os braços e pôs-se a chorar, como uma criança. A Analítica seria destruída, fisicamente, literalmente, por uma instituição nazista inexplicável.