Bem, já que parece que não vai adiantar esperar mais para conseguir alguns comentários extras, vou postar o primeiro capítulo.
Mas ja vou adiantando: Preciso saber se vocês estão lendo. Eu digo isso porque, vendo só o número de visitas, não tenho como saber se o pessoal está se animando a ler a minha história, ou apenas entra no tópico e desiste. Então, se você está acompanhando o tópico, por favor colabore e deixe aqui um comentário, nem que seja para dizer que está lendo, se gostou ou não.
Eu preciso saber se o tópico está sendo lido ou não para avaliar se devo fazer modificações no texto, como dividir o capítulo em dois, por exemplo.
Aliás, esse capítulo está dividido em dois. Deu pra fazer isso porque o capítulo tinha duas cenas, uma interna e outra externa. No máximo, o leitor vai perder um pouco o clima de tensão que passaria da cena externa pra interna, mas eu posso corrigir isso deixando a cena dois mais "pesada".
Boa leitura a todos, espero que gostem.
Capítulo Primeiro – A Grande Fogueira (Parte 1)
Uma após a outra, as casas de madeira e barro que se espalhavam sem ordem pelo lugarejo, uma grande clareira no meio da mata, tornaram-se sucata caída em cima de corpos inertes. Os guerreiros vinham de todos os lados atacando. Correndo cegamente, não faziam diferença entre homens, mulheres ou crianças, passando-os no fio de suas lâminas. Naquele momento, haviam se tornado animais sem alma. Nem os pequenos currais onde os moradores guardavam porcos e galinhas escaparam da violência, de modo que muitos animais assustados fugiam em direção à floresta para escapar das armas dos atacantes, aproveitando a confusão e o banho de sangue. O ar estava cheio de uma mistura dos sons de gritos e urros desesperados de animais e de homens. Aquele ambiente e o som eram como que um vinho amargo que embriagava os homens armados, levando-os a um êxtase sem paixão nem emoções.
Cadáveres caídos pelo chão enlameado e frio tingiam o solo de vermelho-escuro em alguns lugares e algumas cabanas já pegavam fogo ao serem atingidas por tochas, soltando muita fumaça e escurecendo rapidamente com as chamas que as reduziam a carvão e brasas. O fogo avançava rápido, e passava de uma casa para outra por capricho do vento, e uma neblina de fumaça dava àquela noite um ar ainda mais soturno. Aos que se retorciam, caídos, segurando desesperadamente os seus ferimentos para tentar postergar a morte, logo vinham os lanceiros para dar o golpe final, e o esforço se tornava em vão. O barulho e a gritaria teriam chamado a atenção de povoados vizinhos, mas a vegetação da floresta era densa demais e o local habitado mais próximo ficava a quilômetros de distância ao sul, uma cidade portuária localizada na costa sul do continente.
Muitos tentavam fugir dos golpes dos invasores, mas um pequeno grupo armado vigiava as fronteiras, cercando boa parte da vila como um muro humano feito de uma fileira contínua de homens colocados de pé lado a lado com mais ou menos quatro ou cinco metros de distância entre um e outro. Eles cuidavam para que ninguém escapasse com vida, ou pelo menos quase isso. Era estranho ver esse tipo de ação militar voltada para uma aldeia pequena sem valor estratégico como aquela. Afinal de contas, Utol, como era chamada, era uma vila, e nada mais. Aquele lugar estava alojado numa clareira na beira de um dos rios que cortavam a floresta de Utala, vindo desde suas nascentes nas Montanhas Baixas, que ficavam longe dali. Não havia sequer uma guerra em andamento que justificasse a mobilização de tantos homens, nem o cerco de um lugar sem importância aparente nenhuma como aquele.
Porém, a matança continuava. Quem ainda não havia sido atacado, nas partes mais afastadas, podia ao menos ouvir a gritaria e sentia como se o clima de morte iminente estivesse entrando pelas suas orelhas, martelando as têmporas no ritmo acelerado e frenético do coração. Alguns subiram em árvores, outros entraram nos buracos cavados no chão onde se guardava as reservas de alimento, junto com as ânforas. Grande parte foi em direção à floresta, pegando o que conseguiam carregar e deixando todo o resto para trás – Estes últimos descobriram que já estavam cercados, tarde demais. O certo era que, ao passo que algumas pessoas conseguiam se esconder, muitas outras eram encontradas logo depois e sucumbiam.
Por fim, após algumas poucas horas desde o início do ataque, restou intacta apenas a grande construção onde ficavam os monges da vila – A única fortificação, que desde início parecia ser um estranho contraste àquele local pacato, mas que agora havia provado a serventia das suas grossas paredes externas. Ainda sim, aquele local não havia sido feito com objetivos defensivos, e portanto nem mesmo aquelas muralhas poderiam resistir a um cerco.
Centenas de homens sujos de sangue e terra, pingando suor, batiam furiosamente com as mãos, armas e o peso de seus próprios corpos contra as muralhas.
Um comandante jovem e bem vestido com roupas limpas se aproximou calmamente do muro, mantendo a face consternada e visivelmente de mau humor. Ele olhou com desdém para aquela massa descontrolada de homens que ignorava a sua presença. Observando-os, viu que aquelas pessoas mostravam no rosto uma intensa raiva, mas que era uma raiva vazia. Longe de estarem em perfeito juízo, babavam e grunhiam como animais selvagens, atacando o muro irracionalmente, de modo que alguns, de tanto baterem a cabeça e outras partes do corpo no muro, desmaiavam e caíam ao pé da paliçada, apenas para acordar logo depois e continuar com o ataque. Uma hora a madeira iria ceder mesmo que aqueles homens fossem o único recurso disponível de investida contra o muro, mas esse não era o plano. Ainda sim, os homens batiam continuamente, machucando suas mãos e corpos, que começavam a ficar esfolados e sangrar, fazendo um som de tambor sem nenhum ritmo.
Olhando para trás, o militar viu que todo o vilarejo agora estava se tornando uma grande pira, iluminando o a noite e esquentando o local como se fosse verão em pleno inverno.
Do outro lado dos troncos que vibravam com os golpes, assustados, estavam alguns garotos com pouca idade, crianças e adolescentes, usando como vestimenta longas túnicas em cor oliva, mas de um corte rude sem muitos detalhes. Eram aprendizes de monge. Dois deles, os mais velhos, que ainda nem tinham barba em seus rostos e tinham suas cabeças raspadas, ao contrário dos mais jovens, colocavam as mãos e orelhas na superfície do muro, sentindo as investidas e urros violentos.
Ficaram assim por um momento, em total silêncio e concentração. De repente, a madeira parou de tremer - Eles se olharam então interrogativamente. A tensão tornava o ar denso, e o calor parecia sufocar-lhes lentamente.
Logo depois veio uma batida poderosa, que com um forte barulho estremeceu a parede e os fez cair sentados no chão, apavorados. O mais novo deu um curto e apavorado grito agudo com o susto, e eles encaravam uns aos outros de olhos bem abertos. Seus corações batiam forte como se fossem maiores que o peito, ficando difícil de respirar. Nos seus semblantes se via dúvida e pavor.
Um dos garotos então levantou-se rapidamente e fugiu sem dizer palavra alguma, como se qualquer segundo perdido naquele momento pudesse ser mortal. Ele correu o mais rápido que pôde, aos tropeços, em direção às construções centrais do mosteiro. E não olhou para trás.
Foi quando o menor dos aprendizes começou a chorar compulsivamente e alto, entre soluços: Largas lágrimas corriam pela sua face de criança. Correndo, foi em direção a um dos garotos carecas, gritando apavorado:
- Letur! Letur!
Agarrou-se nas pernas do outro, que era mais velho e olhava apreensivo para os lados com a boca semi-aberta, apertando um dos braços com a mão tentando disfarçar o próprio desespero e parecer mais seguro – Em vão.
A criança balbuciava com sua voz infantil, falando pausadamente em meio à falta de ar causada pelo choro:
- Eu não quero morrer! Não quero!
Ao falar isso, a criança chorou mais e mais, e seu choro misturou-se com um clamor angustiante que só o desespero mais profundo e sem esperanças poderia causar.
Com uma pena que lhe fazia doer o peito, e agora também chorando, Letur pegou o outro no colo, trêmulo, e secou suas próprias lágrimas com os braços e ombros.
Foi quando o grupo ouviu uma voz grave de adulto que gritava atrás deles:
- Saiam já daí! É perigoso demais!
Eles pularam de susto com o grito, olharam para trás e viram se tratar de um dos monges supervisores que cuidava dos mais jovens e tratava de discipliná-los. Ele parecia menos desesperado, mas olhava constantemente para todos os lados onde havia escuridão, como que temendo que alguma coisa pulasse das sombras a qualquer momento.
- Eu estava procurando por vocês! Todo mundo está no grão-salão junto com o mestre, e as portas principais já vão ser fechadas!
Arrastando um dos meninos mais jovens pelo braço, o supervisor foi correndo apressado em direção ao grande templo de pedra localizado no meio do mosteiro, onde ficava a torre. Os aprendizes de monge o seguiram. Um deles, que ficou para trás, ainda olhando para os muros, viu boquiaberto uma cena que seus olhos não conseguiram acreditar: Um dos troncos começava a se retorcer e transfigurar-se tomando formas que lembravam os braços ondulantes de uma dançarina, estalando e soltando um uivo melancólico, longo e grave como se estivesse ganhando vida própria e tentasse retirar a si mesmo do buraco onde estava preso.
Um forte cheiro de pinho encheu as narinas da criança. Agora correndo desesperadamente depois de ver tal inacreditável cena, que parecia tirada de um sonho distorcido, o menino foi em direção ao salão principal e suas grandes portas negras, cheias de baixos-relevos entalhados e imagens de deuses. Juntando-se aos outros e entrando no abrigo, chegou bem a tempo de ver os ferrolhos e grilhões de ferro maciço do portão fecharem-se atrás de suas costas. Tivesse entrado um minuto depois, estaria preso do lado de fora.
O som das batidas que vinha do exterior continuou. Desta vez, além de tremer, os troncos começavam a balançar. Não era difícil ver que a estrutura logo iria ceder.