Aqui está, depois de um atraso, a segunda parte do primeiro capítulo.
Boa leitura, espero que gostem e critiquem bastante.
Capítulo Primeiro - A Grande Fogueira (Parte 2)
Dentro da grande sala de reunião as paredes eram de granito branco, com grandes tábuas entalhadas de madeira de cedros e mogno como rodapés. Mesas e cadeiras rudes espalhavam-se pelo recinto, que era circular, e no centro de tudo estava uma única mesinha de pedra branca polida, que reluzia à luz das velas assim como uma cadeira adjacente feita de algum metal sem muito valor. Naquele salão que agora servia de abrigo, todos ouviam em silêncio ao barulho que vinha de fora, abafado, mas ainda sim ameaçador. Quase trezentos homens de várias idades e tipos se amontoavam no lugar, atônitos. A maioria dos que estavam ali, porém, ainda nem havia saído da puberdade.
Ao contrário do que seria esperado em um lugar religioso, poucos recorriam a orações ou a preces a alguma divindade. Estavam ocupados demais concentrados na ameaça iminente e nos seus próprios medos, e portanto se limitavam a chorar e ceder, um após o outro, ao desespero que tomava conta do lugar.
O mais velho entre os que estavam ali, também o mais experiente, se apoiava na mesinha central. Era um senhor grisalho vestido em trajes bordados com fios de prata que, falando com tristeza em sua voz grave, quebrou o silêncio:
- É como se uma besta gigante estivesse a martelar a nossa casa... Que a nossa vida de virtudes e resignação sirva para nos fazer merecedores de uma morte digna.
A atenção de todos se desviou da rua pela primeira vez desde o início do cerco, e voltou-se para aquelas palavras recém ditas. O estresse tornou-se tão forte no lugar que parecia que todos estavam em seus limites, ao passo que o som de uma simples agulha de metal caindo no chão seria suficiente para desencadear o caos.
Um dos monges adultos retrucou, gaguejando pela adrenalina e gesticulando com os braços:
- M...mestre, façamos alguma coisa! Não tem nada que possa nos livrar? Nenhuma escapatória?
Vendo que acabara de ser rude com o seu superior ao esquecer da formalidade no falar e os gestos de submissão necessários, calou-se, visivelmente arrependido de ter se manifestado. Ele voltou a se misturar aos outros rapidamente, como que tentando esconder a sua fraqueza do olhar do ancião.
Respondendo após um breve período, o outro disse, segurando levemente a sua curta barba branca e olhando para o nada, imerso em suas próprias palavras:
- Não para todos.
Houve mais um breve período de silêncio, e ele continuou:
-Seria impossível tomar uma decisão justa para decidir quem se salva e quem morre. Não serei o executor dessa sentença, que não cabe a mim.
Ao terminar de falar essas palavras, que ecoaram levemente pelo salão chegando aos ouvidos dos que se encontravam no local, subitamente um estrondo abafado vem do lado de fora – era como se uma grande tora de madeira tivesse caído no chão.
Porém, antes mesmo que qualquer suspiro pudesse ser dado, houve mais um estrondo, tão forte e poderoso que fez com que o chão tremesse sob os pés de todos. Algumas paredes trincaram, mesmo sendo feitas de pedra maciça. Dessa vez, uma parte inteira da muralha parecia ter caído, não havia dúvidas. Logo o silêncio que outrora enchia o lugar foi substituído por berros e correria.
No meio da desordem, os mais jovens, também os mais vulneráveis, eram pisoteados pela massa que tentava fugir. Alguns monges escalavam desesperadamente as paredes usando a decoração como suporte, tentando alcançar as janelas mais altas. Outros corriam em direção às portas e aos corredores que levavam às outras instalações do mosteiro.
Enquanto isso, o mestre continuava parado de pé, imóvel no centro. Ele suspira e chora um choro reprimido, silencioso e discreto, fechando os olhos e mantendo a seriedade nas feições duras e marcadas de rugas pelo tempo. Ele sabia desde o início que isso iria acontecer e não poderia ser impedido – Era uma prova de força de espírito para a qual nem uma multidão de mil monges dos mais serenos estaria preparada, e aqueles eram apenas alguns garotos e jovens medíocres na fé.
Foi quando, retirando uma pequena bolsa de couro das vestes, o velho desamarra lentamente e com pesar o nó da corda trançada que a mantinha fechada, e joga com força a mesma no meio da multidão. Muitos estavam tão ocupados que nem perceberam os pequenos objetos vítreos redondos do tamanho de uvas que saíram rolando quando a sacola atingiu o piso de madeira. Alguns, porém, viram o acontecido e atiraram-se sobre as esferas, pois esperavam que elas fossem mágicas. Mesmo sem saberem do que se tratavam aqueles objetos, os religiosos agiam como se naquele momento as pequenas bolinhas fossem para eles a única chance que restava de sobrevivência.
Quando o primeiro que conseguiu pegar uma das esferas usou-a, ao apertá-la em sua mão, um flash de luz tomou a sala, chamando a atenção de todos. Alguns até chegaram a cair do lugar nas paredes onde estavam escalando, tal foi a força da luz, que era tão intensa que cegava por alguns segundos. Um a um, os que pegaram os artefatos foram desaparecendo em pequenos portais espirais luminosos, lançando mais flashes e aumentando ainda mais o frenesi do lugar.
Ao verem isso, uns homens adultos que já estavam subindo quase ao teto se jogaram de volta ao chão, quebrando ossos e indo desesperadamente tentar alcançar as bolinhas que ainda estavam rolando no piso, retorcendo-se de dor mas ainda sim avançando como animais. Os outros fizeram o mesmo, o que resultou em uma briga violenta pela posse dos artefatos restantes, que eram poucos. Ao mesmo tempo em que o caos assumia o controle da situação e os monges matavam-se entre si usando cadeiras, estátuas de deuses e castiçais como porretes, os invasores arrombaram de uma só vez a porta e entraram na sala de modo bárbaro com suas armas, engajando numa luta que se consumia em sangue e flashes de luz onde, entre um homem que caía expirando e outro, uns poucos sujeitos sumiam na luz.
Uma das esferas foi chutada acidentalmente no meio da briga, rolando pelo chão de pedra negra para perto de um dos cantos do salão, onde um garoto estava encolhido ao lado de uma criança pequena, os dois tapavam as suas orelhas com as mãos e mantinham seus olhos lacrimejantes fechados. Era Letur, que ainda tinha ao seu lado o seu jovem amigo que outrora havia se agarrado às suas pernas em desespero. Quando o objeto tocou um dos pés descalços do menino, ele se encolheu ainda mais pelo toque gelado e inesperado e olhou para aquilo sem saber o que era. Sem se levantar, pegou aquela coisa que parecia ser de vidro maciço e olhou para dentro, onde podia ser vista a imagem do que parecia ser o interior de uma caverna. O objeto era frio como metal em uma manhã de inverno, e parecia roubar o calor de tudo em que encostava.
Dois monges jovens, vendo a esfera nas mãos do garoto, correram em sua direção como cães famintos que acabam de receber comida. Um deles tropeçou numa cadeira quebrada, caindo no meio do caminho gritando blasfêmias e dando murros no chão em pura ira, ao passo que o outro, quando estava a poucos passos de Letur, foi atingido por trás por um homem que portava um machado. O golpe lhe acertou as costas com força para jogá-lo longe e a lâmina da arma entrou fundo. O infeliz caiu cuspindo sangue aos pés de Letur e morreu com uma expressão agonizante no rosto, e os meninos gritaram de horror ao presenciarem a cena. O guerreiro que desferiu o golpe então parou de pé perto do adolescente, que estava paralisado de pavor, olhando fixamente em seus olhos. Era um homem de ombros muito largos, que usava um pano verde enrolado em seu rosto e estava coberto com vestes de couro rasgado. Parecia um selvagem maltrapilho e sujo.
Inesperadamente, o estranho então pegou o jovem monge e colocou-o em cima de um dos seus ombros. O menino estava em um estado de medo tal que, em choque, não reagiu, limitando-se a esboçar algumas palavras de protesto diluídas em lágrimas que se perderam no ardor do momento. Logo depois, o guerreiro pôs-se a correr em direção à rua, segurando as pernas daquele que ele carregava com uma das mãos e abrindo caminho entre as pessoas com a outra, usando seu machado.
O pequeno infante amigo de Letur, vendo a cena, estendia os dois braços na direção do amigo que distanciava-se, como que tentando agarrar alguma entidade invisível ao alcance das suas mãos, e gritava a plenos-pulmões com sua voz aguda e falha:
-Solta ele! Solta! Letur!
A pequena bolinha caiu das mãos de Letur, que ainda permanecia perplexo em cima de um dos ombros do guerreiro. Ele olhava atônito e apavorado para baixo e para todos os lados, observando com os olhos arregalados a matança que ocorria ao seu redor, tão perto que às vezes ele quase podia sentir o bafo quente que emanava daqueles homens e o cheiro de sangue.
Ao cair no chão, o singular objeto fez um som que chamou a atenção dos que estavam brigando nas proximidades, sendo que logo após um monge mais velho pegou a esfera e o último flash tomou a sala.
Letur, que agora começava a voltar à realidade e recuperar-se da grande dose de adrenalina que corria pelo seu corpo, viu o mosteiro ficando para trás enquanto o homem do machado ia em direção á floresta em largas e rápidas passadas.
Na grande sala, alguns poucos monges ainda lutavam ou tentavam fugir em vão. Enquanto isso, as toras de madeira da grande muralha caída estalavam com o calor e brilhavam, incandescentes. Estavam destruídas como todo o resto da cidade, onde agora as labaredas da gigantesca fogueira começavam a se extinguir em alguns pontos, ou a passar para a floresta em outros.
O homem que carregava Letur não percebeu, pois estava concentrado na fuga, mas um único tronco de árvore restava de pé no lugar onde antes estava a muralha. Era provavelmente uma tora de pinho amarelo, retorcida e imóvel, numa posição fantasmagórica que lembrava um homem de braços levantados ao céu.
A nuvem de fumaça atingia centenas de metros de altura, subindo e misturando-se às nuvens pesadas de chuva. Pedaços de cinzas pareciam cair do céu como um chuvisco leve, carregados pelo vento.
O aprendiz de monge debateu-se e tentou se jogar das costas daquele homem que o carregava várias vezes, sem sucesso - aquele, que agora o segurava com os dois braços, era forte demais para que ele pudesse resistir.
E assim foi, até que chegou a hora em que o cansaço e o trauma da situação o venceram, seus braços e pernas foram cedendo, suas costas relaxando, e ele dormiu. Sua cabeça permaneceu recostada nas costas em movimento constante daquele guerreiro que, ainda concentrado, embrenhava-se por entre as árvores escurecidas pela noite.
A.E. Melgraon I