CAPÍTULO 1:
MORTE
Kurt saiu do seu Ford Fusion, de cor preta, com um ar mais sério do que o normal. Os óculos escuros escondiam os olhos vermelhos e desatentos, e a cabeleira preta caía, hoje sem nenhum gel. O relógio do estacionamento marcava cinco horas da manhã, e pela camisa ao avesso, estava evidente que o homem tivera que chegar ao local às pressas.
Qualquer um que já tivesse convivido com Kurt saberia dizer que ele não estava em um bom dia; o gel era um componente característico de sua aparência, e quando não o usava, a ausência do topete o fazia parecer quase dez anos mais velho.
A construção de mais de dez andares à sua frente irradiava um verde-vivo, parecido com um neon. O hospital fora construído em um morro, e o desnível estava claramente perceptível; a estrada de acesso era cheia de curvas e lombas.
Kurt caminhou com velocidade até a escadaria. Muitos carros estavam pernoitando ali no estacionamento, que era coberto por árvores e arbustos naturais. Após subir os degraus, viu um segurança de terno com o walk-talk, falando apressadamente com seus superiores; continuou, e a porta de vidro se abriu à sua frente. Lá, tinha uma quantidade enorme de elevadores: Para os quartos, para enfermos, acesso privado, etc. Pegou o primeiro e se espantou com a suavidade do movimento.
Geralmente hospitais tendem a economizar nesses aspectos, pensou.
Assim que saiu do elevador, o local era lindo: O piso de azulejos, um candelabro no teto, pinturas de cores vivas, o balcão de informações logo adiante, várias poltronas para esperar. Seguiu à direita e quase abriu um sorriso; o lugar estava com uma fraca iluminação, com vários buracos no teto. Ali, as paredes eram mais sujas e não aparentavam pertencer ao mesmo local do que o aposento anterior. (A
qui, o público geralmente não tem acesso, pressupôs). Várias portas tinham tecidos bordados e pendurados com o nome dos enfermos.
Ele parou no quarto setecentos e quinze. Hesitante, abriu a porta. Seu coração batia forte, e viu, com imenso alívio, que a mulher deitada ainda estava viva. Com um olhar de súplica, ela parecia lhe avisar que estava morrendo. Reclinada em uma poltrona, ela tinha removido o tumor do estômago fazia alguns dias, mas os médicos disseram que ela não viveria mais que alguns meses mesmo que a operação tivesse êxito.
Ela estava com um pano envolvendo o cabelo, com o braço estendido, onde um cano pequeno entrava em sua veia. Por algum motivo desconhecido pelos médicos, ela estava em estado de choque e não conseguia falar nada.
- Mãe, você ficará bem. Eu prometo - falou Kurt, enquanto uma lágrima solitária vertia sob sua face. ''
Ou melhor, gostaria de prometer '', pensou novamente o homem.
- Pois, talvez, tu possas. - um sibilo agudo fez ouvir-se. Por alguns momentos, o homem achou que tivesse imaginado, até ver a cara de espanto de sua mãe. O som parecia vir de todas as direções e ao mesmo tempo de lugar nenhum - Queres tentar?
- Quem é que está falando? - Kurt falou, subitamente estremecendo de medo.
- Todas as tuas perguntas serão respondidas se você ganhar. Tudo o que tu desejas será cumprido, conforme o que eu possa oferecer. - A voz, apesar de amedrontante, estava carregada de sensualidade. A cada palavra proferida, Kurt se sentia tentado a escutar mais uma. - Encararei teu silêncio como confirmação. Escutará três estalos, e se até o terceiro não tiveres falado algo, começaremos a jogar.
O homem não sabia o que fazer. Confrontado, permaneceu quieto enquanto pensava. Um estalo soou, seguido logo após do segundo. Antes mesmo de cogitar se falaria, o terceiro ocorreu.
- Pois, bem. Há uma folha no criado-mudo ao lado da cama de sua mãe. Pegue-a e a leia. Sem perguntas. - acrescentou, ao perceber que Kurt ia logo indagar o que significava - Um dado de vinte faces irá cair do teto, não te espantes. Pegue-o e o atire; o número que se sobressair será o seu resultado, e o resultado será o que você deve cumprir da folha. - ao terminar de falar, deixara o homem com mais perguntas do que respostas.
Um dado caiu do teto, conforme o combinado. Kurt o segurou sem nenhuma firmeza, e deixou-o cair, esperando o resultado. O dado caiu no carpete e girou por alguns segundos, até parar. O número era claro: vinte; o homem sentia, apesar de não poder vê-lo, que o ser irradiava uma onda de triunfo.
Kurt ficou de joelhos e deixou cair a folha, que ainda estava na sua mão até aquele momento. '' Resultado: 20 - Mate a sua mãe '' eram as únicas palavras escritas. Da sua face escorriam pingos de suor, e o homem viu, aos poucos, uma faca se tornar mais nítida, logo ao seu lado. Associou à sua visão, que estava turva pelas lágrimas; segurou a faca tremulamente.
- Eu... Não posso... Como... O resultado foi... Vinte?... Não pode, não pode ser real... - balbuciou o homem, começando a falar alto, mas baixando a voz ao ponto de virar quase um sussurro no final. - Não... Não irei matá-la.
- Vamos lá... Ela vai morrer logo se tu não fizeres com que eu lhe dê mais tempo de vida... Está tudo em suas mãos, agora...
Kurt agora chorava, com os dentes trincados e a faca em mãos. Cenas de sua mãe, morrendo com uma faca encravada em seu corpo, não paravam de vagar pela mente confusa do homem. Ele sentia que a voz não mentia, e ao mesmo tempo tentava não acreditar.
- Os teus tempos de vício acabaram... Eu
sou real! Precisas de provas?
Como ele sabia? Se estivesse em condições normais, certamente iria arranjar uma desculpa, uma fuga da própria culpa. Mas não estava. Mas mesmo assim, ela surgiu, talvez porque estivesse com medo do que se passava, talvez quisesse por um basta em todo aquele frenesi. Não sabia.
Estava sob efeito das drogas. Apenas tinha se esquecido que usara drogas novamente, apenas isso. Era mais uma das viagens loucas para o mundo da fantasia, estava apenas na corda-bamba que o separava da sanidade e a loucura. Era apenas isso, a voz
(
quando temos medo, uma desculpa serve tão bem quanto uma luva, Kurt re-escutou o pai falar)
era por causa da cocaína. Mas no fundo, ele sabia que não, e estava ciente que tentava evitar procurar as brechas na '' sua luva ''; Estava completamente lúcido, aquilo nem de longe parecia com as alucinações da droga.
- Eu prefiro que minha mãe morra a que eu mate ela, mesmo que eu possa... Fazê-la viver mais. - Usando toda a firmeza restante no seu corpo, ele atirou as palavras para fora.
- Última chance. Três estalos.
Pensou no pai, e o que seu velho acharia disso tudo. Sem dúvida, preferiria que ela morresse por conta própria, mesmo que fosse morta e ressuscitada. Kurt sentiu um latejar na cabeça, enquanto vários conselhos do pai - psicólogo - não paravam de aparecer.
(
por que diabos eu estou acreditando nessa voz?)
Kurt Vertell tomara sua decisão. Aliás, devia ser uma das poucas decisões de que ele tomara de total certeza.
Os três estalos ocorreram (um pouco mais lentos do que a primeira vez) e então a sala ficou em um amargo silêncio, que não foi interrompido por muito tempo.
- Tu ganhaste o desafio. - pela primeira vez naquela madrugada, a voz parecia hesitante.
Vertell ficou confuso com a afirmação. Por um momento, quase não viu as sombras bruxuleando e criando uma forma difusa no meio da escuridão; porém, era impossível não perceber o corpo esquelético usando vestes pretas e longas e segurando uma gadanha, a lâmina reluzente, o cabo de madeira bem-trabalhado, com frases impressas em uma língua antiga.