CAPÍTULO 2:
ÓDIO
Centenas de pessoas estavam esperando fora da igreja, em um patamar onde duas escadas levavam até a entrada do local sagrado. Gente que tinha chegado mais cedo cumprimentava todos os que chegavam agora, e lágrimas escorriam pelos rostos de alguns poucos. Lentamente, a massa entrou na igreja e foi se acomodando nos assentos, logo aos lados do tapete vermelho estendido. Um murmúrio de excitação percorreu a todos com o começo da música orquestrada; cessou assim que o padre se ergueu da cadeira.
Os casais escolhidos pelos que hoje iriam se unir, no geral, grandes amigos, estavam em suas melhores roupas, todos espalhadas em volta do altar.
Os ouvidos mais atentos escutaram um único carro freando na calada da noite, e logo a noiva pisou no tapete vermelho, o vestido branco deslumbrante em contraste com sua pele negra. Minutos se passaram com as passadas lentas da mulher, acompanhada de seu pai; a música mudou para uma um pouco mais agitada, mas com uma batida ainda suave, e então o noivo entrou com sua mãe.
Quando ambos pisaram no final do tapete, subiram o altar, logo á frente de uma bela escultura de Jesus, que devido à umidade, formara pátina em alguns cantos. O padre fez um discurso breve (muitos estavam ostentando em suas faces o sono devido ao horário do casamento), logo lendo o trecho da Bíblia escolhido pelos noivos. Ao terminar, o noivo e a noiva disseram as palavras finais e se beijaram. Os que ainda não tinham chorado, o faziam agora, com exceção de alguns poucos.
***
A cerimônia já havia acabado e todos já estavam na saída, conversando fervorosamente, alguns já indo embora; porém um homem continuava sentado na primeira fileira de bancos.
O padre se dirigiu a ele, com os óculos minúsculos pendurados sob seu nariz engordurado, o cabelo branco caindo livremente em cima de seu rosto bondoso. Deveria estar beirando os sessenta e cinco.
- Senhor, tenho que trancar a igreja, poderia fazer o favor de se retirar? - falou, tentando não parecer hostil.
- Joe. Não me reconhece? - o homenzarrão falou, os cabelos negros e desgrenhados. Era alto, tinha uma caixa torácica forte e era magro (o que, porém, não o impedia de ser largo e pesado). Sua voz ressoou grossa e rouca.
O padre primeiramente não veio a se lembrar, mas após alguns segundos, arregalou os olhos e soltou uma exclamação, que por pouco não foi um palavrão. Falou, atônito:
- Johnny! Você voltou?
- Não, Joe. Estou de visita.
- E o que está achando da cidade?
Um estranho brilho pareceu perpassar os olhos de Johnny, que involuntariamente fechou a mandíbula. O leve sorriso que estava em sua face mudou rapidamente para um esgar de dor.
- Uma bosta. Uma bosta completa. Desde que você e o resto daqueles filhos-da-puta começaram a meter baboseira na mente dos turistas e dos moradores, a cidade não virou mais a mesma. Não é mais aquele local de gente inocente que era antes. E também virou um local rotulado como sendo a sede dos fanáticos. Antes, tínhamos menos de dez turistas por mês, e agora temos quase mil! - explodiu. Pareceu tomar fôlego, e ao perceber que Joe ainda estava chocado, continuou - Não há mais calma por aqui. Virou um inferno. As ruas estão lotadas e os carros enchem nossas estradas. Quando isso estava iminente, eu dei o fora.
- Não vou aceitar essa tamanha falta de respeito dentro da minha igreja! - Joe falou ríspido, mas ainda com a voz fraca - ainda estava abalado pela rajada de verdades que Johnny parecia saber.
- Sei mais do que você pensa. - E então, completou: - Devon. - como que se sozinha a palavra já tivesse um sentido completo, levantou-se da cadeira e deixou Joe boquiaberto. O coração do padre bombeava mais forte, enquanto ele maldizia quem quer que tivesse convidado o antigo morador para fazer parte do casamento.
***
O antigo galpão, que levava na memória várias festas e eventos, estava abandonado fazia já alguns anos. Empoeirado e desorganizado; conteúdos de caixas estavam esparramados livremente pelo chão; o cheiro fétido de anos sem pegar quase nenhum ar; a única janela, estilhaçada e deixando entrar uma pequena rajada de sol.
O homenzarrão, do lado de fora, deu mais um chute na porta. Ela desemperrou e o sol iluminou, finalmente, o local. Era ótimo, longe de qualquer intruso - no máximo, um turista se aventuraria ali, e sairia quando pedissem (caso contrário, poderia muito bem expulsá-lo à força).
Cautelosamente, abriu o fecho da jaqueta e pegou uma cruz de ouro puro de dentro do bolso interno (deixou o cinto visível, antes escondido pela vestimenta). A cruz não tinha nenhum retrato, porém tinha algo similar a um gancho na ponta. Ele encaixou este gancho com uma corrente, também de ouro, que tirou do mesmo local do objeto anterior.
Colocou-a ao redor do pescoço longo. Com a jaqueta aberta, cruz pendendo sob o peito, entrou no recinto. Um guincho fantasmagórico explodiu detrás de uma pilha de caixotes de cerveja.
- Como eu tinha pensado. - Johnny sorriu, falando mais para confirmar a si próprio do que qualquer outra coisa. Sentiu ondas de prazer percorrem seu corpo, enquanto a adrenalina era largada e ele colocava a mão atrás do cinto de couro, sentindo a superfície fria do revólver em contato com sua mão quente.
As cervejas foram empurradas, caindo da pilha organizada com um barulho desengonçado de estouro e formando uma espuma branca no chão. A espuma estava produzindo um barulho que lembrava vagamente um ovo fritando. Quem que tivesse empurrado, não estava mais á vista. Johnny levantou o revólver aos olhos, mirando cuidadosamente. Um vulto se mexeu, escondido nas parciais sombras que o lugar ainda conservava. O homem apertou o gatilho, acertando em cheio no peito; fez sem medo, mas suas mãos tremiam. O sangue jorrou da pessoa que agora caía, formando uma poça; o sangue mudando de vermelho para quase um laranja ao se misturar com a cerveja.
O homem andou cuidadosamente até o corpo, tentando ao máximo não sujar os tênis (caros, por sinal) para caminhadas, mas não conseguiu pelos líquidos no chão. A calça jeans ficou respingada e as meias, encharcadas. Sem cerimônia, colocou a mão sobre as axilas do cadáver e o levantou, sentindo bastante pressão sob os músculos. Carregou-o até a parede do lado oposto de onde tinha entrado e o deixou escorado, o sangue vertendo da boca. Os olhos fora de foco, a saliva escorrendo e a magreza sugeriam que ele tivera passado um tempo terrível.
Johnny pegou um pequeno celular preto do cinto e clicou em um botão vermelho. A tela foi preenchida com a mensagem ‘’ ENVIADO PARA TODOS OS CONTATOS ‘’ e então começou a produzir um bipe contínuo e irritante.
***
- Senhores, a maioria de vocês já me conhece. Grande parte morava comigo aqui, em Lake Dallas. Foram chamados neste galpão antigo, pois todos aqui têm, de alguma forma, ódio pelo que a cidade se tornou ou quem tornou a cidade assim. Creio que poucos sabem o que acontece por trás dos panos...
- Senhor Clander, aonde quer chegar? - interrompendo bruscamente Johnny, o homem falou - Não posso perder tempo aqui!
- Não sou senhor nenhum. Apenas Johnny. Então, voltando onde eu estava... Joe não é o velinho piegas que aparenta ser. - algumas risadas começaram tímidas, e logo irromperam em gargalhadas - É, é, velhos tempos. Bom, antes eu disse que estávamos em Lake Dallas. Alguns devem ter percebido que não estamos. Se bem me lembro, estamos em Oak Point ou algum outro local aqui do Texas. O lugar em que quero chegar é que há uma seita que Joe participa. Eles idolatram uma pessoa, ou um demônio, o que seja. O que eu fiz nesses dez anos que eu saí daqui foi reunir informações sobre essa seita, apesar de ter muitas pausas e vários meses em que não fiz nada. Muitos devem achar que é perda de tempo. Mas eu tenho uma pessoa que quer isso muito, e me paga os objetos que facilitam isso e me dá moradia e comida. - continuou: - Eu não sei direito porque, nem ao menos como acontece, mas algumas pessoas ficam com apenas uma parte de sua vida, como se fossem monstros. - muitos começaram a rir descontroladamente. Johnny, porém, franziu o cenho - Acham isso engraçado?
Johnny se virou e foi para trás de algumas caixas, deixando aquelas dezenas de pessoas esperando ansiosamente; voltou com algo tapado com um cobertor. O homem colocou-o no chão e puxou o cobertor. Um cadáver em decomposição, muitos presumiram. Mas logo notaram a podridão do ser e o buraco no peito, com sangue ainda manchando; a respiração ofegante.
- Ah! Isso ainda está vivo! - uma voz de mulher, fina e esganiçada, quebrou o clima.
- Descobri que estas coisinhas têm uma ligação muito forte com Joe. Encontrei dois desses zumbis dando voltas no quintal do padre. E ainda são resistentes pra caralho. Às vezes, três tiros não os abatem. São raros,
muito raros os que saem de locais fechados. Tenho indícios de que a polícia está os caçando secretamente... Mas eu os chamei porque preciso de vocês. Quem não tem coragem o suficiente para segurar uma pistola e explodir os miolos de qualquer um que os atrapalhe, pode pegar se carro e voltar para suas casas.f