Capítulo 4
Já fazia uma semana que Ian não via Ana, é claro que ele podia simplesmente ir até o apartamento cento e dois e entrar, mas ele não queria fazer aquilo, o apartamento da menina o perturbava, tão escuro e tão morto, ele sempre pensava que era uma casa digna dos vampiros dos filmes.
- Não é hora de pensar nisso – E suspirando ele levantou da cama.
Era um apartamento bem simples, cinco cômodos, uma cozinha, dois quartos, um banheiro e a sala, todos bem pintados de amarelo e branco, todos tinham poucos móveis, a única coisa em excesso na casa seriam as plantas, Ian gostava de manter elas por toda a casa, achava que elas davam o toque de vida na casa.
- Estou deprimido.
E tentando abrir um sorriso ele colocou água nas plantas e foi para o banheiro.
Seguindo o padrão da casa o banheiro era coberto de azulejos brancos com pequenos desenhos amarelos que não faziam sentido. Ele jogou a calça preta que vestia em uma pilha de toalhas e entrou no box, deu outro suspiro e abriu a água, no começo ela estava quente, depois ele foi abrindo cada vez mais até que a temperatura baixou tanto que seria insuportável tomar banho daquele jeito. Mas ele suportava, fazia pouco mais de dez anos que suportava aquela temperatura.
Seu banho durou vinte minutos, saiu com um sorriso do box e foi para o quarto que era de seus pais, as quatro paredes amarelas davam tontura para qualquer um que entrasse desprevenido lá, pela grande janela entrava a luminosidade do Sol que batia direto na cama de casal arrumada com algumas cobertas brancas e dois grandes travesseiros.
- Mas que belo dia, acho que vou para o parque.
Ele abriu as portas do closet, passou os olhos pelas pilhas de roupas e pegou qualquer coisa. Depois de um tempo notou que não tinha paciência para escolher roupas que combinassem, então deixava roupas que combinavam separadas em pilhas, assim não perdia tempo fazendo combinações.
Terminou de se vestir, passou a mão pelo cabelo que continuava despenteado e pegando alguns objetos na mesa da sala saiu pela porta.
Enquanto passava pelo pátio do prédio pensou em chamar Ana, mas afastou isso da cabeça ao lembrar da reação da menina. ‘’É claro que não! Você viu como está Sol lá fora?’’, ele sabia bem que não era o Sol que a incomodava, afinal por mais que as historias contem o Sol não é fatal para os vampiros, na verdade não causava mais do que uma leve dor de cabeça.
- É só não ficar muito tempo – ele abriu um sorriso e suspirou – ando falando sozinho demais ultimamente.
Estava fazendo muito calor naquele dia, a maior parte dos garotos do parque estavam sem camisa, Ian era um deles, o calor o estava incomodando mais que o normal, sua camiseta branca balançava acompanhando o movimento dos braços. Do bolso da bermuda preta ele tirou uma pequena garrafinha de metal prateada, ele tirou a tampa calmamente e levou a garrafa à boca, deu um longo gole e afastou a garrafa, passou a mão pela boca calmamente e tirou uma pequena quantidade de sangue do canto da boca. Suspirou duas vezes e guardou a garrafa no bolso.
Ele então se sentou em um banco azul e ficou olhando um grupo de crianças brincando no playground, ficou ali parado por alguns minutos olhando.
- Posso me sentar aqui?
Ian tomou um susto quando ouviu alguém falar com ele, olhou para o lado e viu uma garotinha de óculos e vestido azul, nas mãos ela carregava um grande livro azul. Ela sorriu quando Ian se virou, ele também.
- Pode sentar – Ian ficou olhando para ela enquanto ela se sentava.
A menina então abriu o livro e começou a ler, por alguns minutos ela ficou lendo e Ian olhando ao redor na procura de uma mãe procurando pela filha.
- O que está lendo? – Ian finalmente perguntou depois da busca inútil pela mãe da menina.
- Um livro sobre vampiros – respondeu a menina marcando a pagina e fechando o livro – peguei na biblioteca.
- Que coincidência.
- O que?
- Nada, nada. Então, gosta de vampiros?
A menina fixou os olhos castanhos em Ian.
- São os únicos monstros de historia que não me assustam.
- Por quê?
- São fáceis de combater, eles têm medo do Sol, não gostam de alho e tem medo da cruz.
Ian achou graça de tudo aquilo, gostava da inocência das crianças, era incrível como todas as pessoas pensavam que essas coisas mantinham vampiros afastados.
- Você tem uma cruz.
- Eu? Ah, tenho sim – Ian colocou a mão no pescoço e tirou um pequeno crucifixo dourado do pescoço – Fique com ele.
A menina abriu a boca para falar algo e ficou em silencio, Ian colocou o objeto no pescoço da menina e com um sorriso disse:
- Agora você está protegida.
Eles ficaram por algum tempo conversando, a menina contou tudo que sabia sobre vampiros, Ian ouviu tudo atentamente e foi contando mentalmente quantas coisas que ela dizia estavam erradas.