Lacerdinha e Sombra de Izan salvando minha história! A presença dos senhores é extremamente satisfatória e suficiente. Obrigado por caminharem comigo.
Vamos de Capítulo 6, pra ver se a galera se anima!
CAPÍTULO 6 – Lendas do leste
Travers e Dreader estavam sentados à mesa do banquete real, no palácio, junto de oito ou nove pessoas importantes do governo. Como de costume, o comandante comeu fartamente, de forma até pouco clássica, envergonhando a maioria dos chefes do Estado. Entretanto, Dreader, também como de costume, mal tocou na comida. Em vez disso, sua taça de prata era constantemente preenchida por um líquido âmbar, servido por um de seus criados. Ele bebia de forma solene, saboreando o gosto de o que quer que fosse aquilo.
Ao fim do jantar, os homens cumprimentaram-se, embora, ao Imperador, todos tenham se dirigido com várias reverências, sem tocá-lo, e foram embora. Travers, por último, terminou de lavar os braços no córrego ao lado e entrou novamente, limpo e satisfeito.
- Estou preocupado – dividiu Dreader, os olhos fixos, a expressão monótona.
- Com o que, Sua Alteza? – Travers estava distraído, abatendo as migalhas das roupas.
- Rangel – disse, os olhos fora de foco, desinteressados. – É muito sanguinário. Não sei se isso não foi precipitado demais da minha parte.
O comandante parou, fitando o Imperador nos olhos.
- O Leviatã rastreia muito bem, Imperador. E ele sabe seguir ordens, o senhor o domestica como ninguém. Sabe que pode ser caçado, que seu poder é maior que o dele.
- Se estiver errado, vou matar você – disse Dreader, dando-lhe um meio sorriso.
- A piada é boa – aprovou Travers, sorrindo também.
- Vá descansar, Travers. Espero que esteja em forma amanhã. A família do soldado Josh já está instalada na casa de um dos traidores?
- Sim, senhor. Josh foi posto na vigia, como o senhor pediu. Maldita seja a confiança, não?
Maldita seja, concordou Dreader, a mente divagando.
* * *
Jacob e Jack já haviam percorrido uma distância extremamente extensa. Era impossível, já, divisar a cidade de Jarrah, ainda mais por causa dos morros baixos e das dunas entre suas posições. Ao chegarém ao pé da montanha, Jack já sugeria um descanso potencial.
- Acho que é válido – aprovou Jacob, respirando profundamente. Não se sentia cansado, mas sabia que a estabilidade de sua forma física podia ser determinante.
- Só não quero fazê-lo sozinho – disse Jack, os olhos varrendo o sopé do morro. – Meu pai conhece alguns arborígenes que desceram das árvores há algum tempo e habitam o primeiro dos seis planaltos. Podemos solicitar a eles um canto.
- Talvez. Quanto tempo para o primeiro planalto da montanha?
- Cinco minutos, a pé – Jack sorriu. – Sinto cheiro da carne assando na fogueira.
* * *
Mary, Claude, Lassale, Yuri e Rosa estavam sentados à mesa, conversando de forma tensa com Drake e Lilly, pais de Josh. Os dois, evidentemente, também temiam pelo filho, que passava informações aos amigos de acordo com o que ouvia.
O jantar já se havia ido, e agora eles apenas trocavam algumas palavras temerosas.
- Jacob estava muito animado com isso – disse Mary, aflita. – A hiperatividade dele um dia vai me matar.
- Ou matar a ele mesmo – observou Lassale, despreocupada.
- Cale a boca – respondeu a mãe, à beira das lágrimas.
Cinco minutos mais tarde, Josh entrou, a mão sobre o peito, extremamente ofegante.
- Josh – observou Drake, um homem alto, negro e forte, de feições firmes e pele macia. – O que houve?
- O Leviatã – disse Josh, batendo a porta. – Mandaram o Leviatã atrás dos dois!
Mary ajoelhou-se, fitando a imagem de Zeus em formato de estátua no alto do armário.
Zeus, por favor, proteja-os.
* * *
- Mas que surpresa maravilhosa!
Jack sorriu para o senhor, velho, cacique da tribo onde haviam acabado de chegar.
- Você é a cara de Yuri, digno rapaz! E você, quem é?
- Ah, desculpe, senhor – Jacob pigarreou. – Jake. Jacob Kniss. É um prazer.
- E muito educado, veja bem – aprovou o velho franzino, de feições asiáticas e delicadas rugas intensas no rosto. – Vamos, vamos, aproximem-se! Vamos comer!
A tribo era uma coisa extremamente contagiante. Escondia-se numa fissura de pedra que levava a uma vasta campina, com muitas árvores e ocas. O pessoal fazia muita festa, cantando com instrumentos toscos de madeira e cordas, flautas e atabaques, batuques. Era uma noite festiva, pelo que conseguiram identificar. Jacob não conseguiu refrear sua vergonha ao vislumbrar tanta nudez, mas Jack parecia absolutamente à vontade.
- Javali assado – disse o cacique, feliz. – Espero que possam ficar!
- Sim, Pajé – disse ele, satisfeito. – Precisamos pernoitar. Estamos entrando em expedição para a Planície Fantasma.
- Digno de aventuras, com o pai – aprovou Pajé, dando-lhe uma batida carinhosa na cabeça com seu cajado de berimbau de contas. – Vamos, vamos comer.
Foi uma das comidas mais maravilhosas que Jacob já provara. No centro do local, os ex-arborígenes haviam construído uma fogueira gigantesca com pedras e a haviam rodeado com troncos de árvore, muito confortáveis para se sentar. No centro, apoiado em duas forquilhas, uma de cada lado da fogueira, jaziam dois javalis imensos, mais parecidos com porcos de batalha, fritando à potência da fogueira.
A população ia até a fogueira, retirava os pedaços que interessavam e comiam com as mãos mesmo. E o mais impressionante: um riacho raso e límpido, vivo, rasgava a rocha, dividindo a campina ao meio. Para comida, bastava que caçassem. Água, tinham ali.
Jacob sentiu-se contagiado pelo modo de vida dos índios. De certa forma, desejou não ter que ir embora.
- Senhores, senhores, muito bem, meus irmãos – o Pajé levantou-se. Todos os mais de trinta integrantes da tribo silenciaram-se, em volta da fogueira. Ela até pareceu arder mais avidamente, como se em expectativa. – Temos aqui, hoje, dois convidados. Jack é filho de Yuri, nosso patrono!
O grupo aplaudiu com muito entusiasmo, ao que Jack levantou-se e agradeceu de forma desajeitada, sentando-se na sequência.
- Junto dele, temos o jovem Jacob, seu amigo, que o auxiliará em sua empreitada.
A mesma recepção calorosa foi dirigida ao amigo, que se mostrou igualmente encabulado.
- Digam-me, rapazes... do que precisam?
- Informações, Pajé – disse Jack, notando os olhares em si. – O máximo que puder, sobre as planícies.
- Ah... sim, evidentemente – o Pajé sorriu, especulando. – Suponho que procurem... os equipamentos perdidos do Olimpo.
Jack assentiu, inclinando-se para frente.
- Ora, meu rapaz... há muitos anos, recebemos, aqui, a visita de um viajante cujos objetivos eram similares aos seus. Muito educado, como o são os senhores, devo dizer.
A tribo toda inclinou-se. Pelo visto, ouvir as experiências de Pajé era muito revigorante para todos eles.
- Ele procurava apenas por um dos equipamentos. O mais destrutivo, o mais mortal, o mais mordaz, mais ofensivo. Pode supor qual dos três será este?
Jack fez que não com a cabeça, sentindo-se envergonhado. Não estudara especificamente as características de cada um dos armamentos.
- Ora, Jack... o Cajado de Ártemis, evidentemente.
“Reza a lenda que o detentor do Cajado de Ártemis é superior aos irmãos detentores das Relíquias do Olimpo. Suas atribuições são fantásticas. Diga-me, jovem Jacob, o senhor sabe de algo sobre magia?”
- Creio que não, Pajé.
- Pois bem – respondeu o cacique, triunfante. – O detentor do Cajado de Ártemis tem acesso irrestrito à magia e, mesmo não sendo um praticante nato dela, torna-se. Isso foi o que aconteceu com aquele rapaz e, pelo Olimpo, que Zeus o tenha.
- Ele morreu?
- Teve uma das piores vertentes possíveis, jovem Jake. Ele enlouqueceu. A ponto de guardar a caverna mais funda das Planícies Fantasma e impedir a aproximação de qualquer um que queira suas relíquias. Sim, ele esteve de posse
das três Relíquias do Olimpo, senhores.
- Teronus, o feiticeiro – disse Jack, dando um tapa na testa. – Foi ele quem lacrou o baú.
Um terremoto breve sacudiu a planície, ao que Jack e Jacob seguraram-se nos bancos. O Pajé meramente piscou quando um pombo desceu dos céus, carregando um pedaço de pergaminho consigo.
- Não se preocupe. Acontece o tempo todo. É Zeus, manifestando seu sono.
Curioso, Jack recebeu o pássaro e desarrolhou-lhe o pergaminho pequeno, curto e escrito às pressas. Pagou a ele com um pouco de comida direto no bico e ele retornou, as asas farfalhando.
Jack leu o pergaminho e o rosto mudou de cor rapidamente. Do corado para o vermelho, do vermelho para o branco e do branco quase para o translúcido.
- Jack! Jack, o que houve?
- Jacob, precisamos ir embora – disse ele, de forma resoluta. – Pajé, os senhores têm condição de passar um tempo fora desta planície?
- De forma nenhuma, meu rapaz! Por quê?
Um rugido de gelar os ossos, o estômago e o intestino se fez ouvir. Jack desembainhou sua espada, seguido de Jacob, e ambos olharam para a fissura na pedra por onde entraram.
- O que é isso?
- O Leviatã, Jacob – Jack suava em bicas. – O desgraçado do Dreader enviou o Leviatã para nos caçar!
Jake sentiu o estômago despencar.
- Leviatã? Vocês estão fugindo? Dreader está de posse de Jarrah? Pelos céus, o que vocês estão fazendo aqui? E trouxeram o demônio junto de si!
- Sinto muito, Pajé – Jacob aparentava sentir mesmo. – Por favor, escoe sua tribo pela saída logo atrás.
No instante seguinte, a rocha explodiu e uma criatura esgueirava-se por entre seus escombros.