Não estou lendo, mas sim terminei de.
Li ontem mais Monteiro Lobato; as histórias “Memórias da Emília” e “Peter Pan”. É o quarto livro das aventuras do Sítio do Pica Pau Amarelo que leio, e até agora de longe o melhor. Eu me fascino com o modo como saem tantas preciosidades e reflexões com palavras e frases simples, sem afetação. Principalmente quando quem fala é uma tal bonequinha de pano...
Nesse livro tem uma das partes mais memoráveis da série, que vi pela primeira vez numa exposição no Museu da Língua Portuguesa;
“[...]A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?"
...
É curioso também como esse livro – e todos os outros que li – tem uma linguagem e conteúdo às vezes forte e um tanto impróprias, pelo menos na aparência. Ver Emília a todo instante desprezar a pobre Tia Nastácia dizendo coisas como
“Está claro que nunca poderia ter visto fada porque elas não aparecem para gente preta.” causa estranheza. Chega a ser compreensível o que um político tentou fazer ano passado, ao querer que a obra de Monteiro Lobato fosse “revisada” por ter “conteúdo racista”.
E se for ainda levar em conta outras partes com violência excessiva e temas anti-cristãos, entende-se o porque de tais livros terem sido tão criticados quando ele ainda era vivo.
Ah, mas ele escreve muito bem.
Dard*