Capítulo 1: Cidadela Sangrenta
O ano, cara amiga, em que minha história se inicia é 500 a.C. , na cidade de Esparta.Sim, a cidade de Esparta, aquela que vocês chamam de “cidade-estado da guerra”.Fique você sabendo que nós que fomos os reais criadores da democracia que vocês tanto prezam.Pois saiba que em VII a.C. éramos nós, cidadãos de Esparta que escolhíamos a Gerúsia.O que?!Você não faz a mínima idéia do que seja a Gerúsia, criança? Era como chamávamos nosso conselho de anciões.Eram 28 no total, todos eles eleitos e escolhidos pelos homens da cidade, sendo que eles que decidiam as coisas na realidade, sendo os reis um pretexto.Cansada da história de Esparta por hora?É melhor não estar, querida, já que é no ano 500 que nasço, e lá que irei ficar até meus 30 anos de idade, quando tudo nesta minha história será jogado para o alto e revirada como eu nunca imaginei que seria possível.
Então recomecemos, e espero que veja bem a cidade de Esparta, no trovejar de uma tempestade enquanto os poucos relâmpagos conseguem iluminar o mármore que jaz apagado devido às torrenciais águas.Esse é o cenário em que eu nasci, numa grande e espaçosa casa na cidade alta.Não tenho vergonha de dizer que eu era filho de um “senador” influente, e que naquele momento tempestuoso minha mãe estava tento todo o auxílio que uma mulher poderia querer nesta hora.E, depois de duas ou três horas de parto, estava eu lá, com os meus primeiros berros no mundo.
Mas o nascimento não é importante, assim como não o são os seis próximos anos.Basta saber que, como bebê fui examinado pelos anciãos do meu clã, que atestaram que eu passara pela primeira prova da minha vida e sobrevivera, atestaram que eu era saudável e forte.Caso contrario, seria atirado do penhasco mais alto, e deixado para morrer, caso eu pudesse realmente sobreviver a uma queda daquelas.Os outros anos, eu passei como uma criança qualquer, aos cuidados da minha mãe e sem as preocupações que mais tarde viriam.E aos seis anos minha vida realmente começou.
Fui entregue à Agogué e logo fui assimilado pelo grupo.Vejo em seus olhos que pouco entendeu desta frase, e haverei de lhe explicar.Esse era o nome dado à nossa “escola”, criança, onde aprendíamos a ser verdadeiros soldados.Era relativamente fácil na infância, enquanto nós, pequenos rebentos aprendíamos a ler, escrever, cantar e dançar, junto á um supervisor.Era um aprendizado de táticas para guerra e alfabetização, um verdadeiro paraíso para o que se seguiria.
Se havia o paraíso, havia o inferno, e eu o vivi.Aos meus 12 anos, fui integrado á segunda fase de nosso treinamento, e aqui começaria aquilo que me tornar um homem pleno.Fui despido, e meu cabelo cortado.Para vestir, me entregaram uma túnica leve e era só.Eu achei que aquilo era o pior que me podia acontecer, mas eu estava enganado.Dormi, naquele dia, muito mal no barracão que eu me acostumara a chamar de lar, e na manhã seguinte, fui despertado com um banho de água fria e um café da manha ralo.Um pão e água era tudo que eu conseguiria.Eu, durante aquela época, era um garoto mimado e acostumado ao que a vida podia me dar de melhor.Ao cometer a idiotice de pedir por mais, fui calado com um belo soco no maxilar e advertência que eu só teria mais duas refeições no dia, muito parecidas com aquela.Interroguei aquele louco como eu deveria conseguir sobreviver com aquilo e o que ele me respondeu foi “Não é problema meu. Se quiser mais alguma coisa, roube”.Foi a única coisa que escutei com um pouco de sabedoria naquele dia.Não sabia que aquilo, ao invés de uma benção, seria a maior de minhas maldições.
Fui basicamente arrastado, seminu e descalço para o campo de treinamento e me disseram que me ensinariam a lutar.Nisso eles tinham razão, eu nunca me esqueceria do que foi dito, ou dos diversos golpes que levei.Os hematomas rapidamente apareceram, e na hora de aprender a manejar a espada, os cortes e escoriações rapidamente se multiplicavam de forma impressionante e eu ouso dizer que aquele primeiro dia foi um dos mais duros da minha curta vida.
Naquela noite, atirado e dolorido á minha cama, quase adormecendo, senti uma mão pousar sobre o meu peito, acompanhada de uma mão para me calar.Uma voz doce, extremamente doce até para um rapaz declarou que aquilo era meu ritual de iniciação.Devo dizer que transamos de todas as maneiras possíveis e imagináveis, e só não era um estupro por que eu gostava, ele era carinhoso, até demais, e um pouco de carinho era tudo que eu precisava.Quão patético nos sentimos, a olhar para trás e ver tamanha gama de emoções idiotas, não?Você, querida, já deve ter experimentado sensação igual à olhar para sua infância, e devo dizer que não é nem um pouco reconfortante me sentir tão palerma desta forma.Mas não importa, não?O que realmente está em questão é que ele cuidou de mim e eu cuidei dele, e fomos amantes àquela noite.
Ele não falava muito, mas me ajudou muito com a sua cumplicidade silenciosa.Os dias seguintes foram menos duros, excetuando a fome, que cada dia mais me atacava.Era pão e água para que tomássemos o desjejum, sopa rala e alguma coisa de carne para que almoçássemos, e mais sopa rala e pão para o jantar.Então, resolvi que acabaria com aquilo, e contei tudo a ele, que me indicou um bom lugar para onde eu conseguisse carne e cereais, para que compartilhássemos a ceia.Mas parece que os meus companheiros já haviam ido com sede demais ao pote e ele agora estava quase vazio e fortemente guardado.Entrei, penando no armazém escuro, e consegui retirar quase tudo que eu precisava antes de um mercador abrir as portas e me pegar chafurdando em seus cereais e alimentos.
Fui brutalmente arrebatado até o templo de Ártemis e lá fui atado ás colunas, esperando pelo castigo que agora eu sabia que viria.Então, durante a noite só fiz esperar ver a aurora e o que me esperava, seja lá o que fosse.Os primeiros raios solares a aquecer a minha pele foram acompanhados por uma melancolia incrível e um sacerdote, que trazia um pedaço e queijo e uma chibata.Aquela fatia fora posicionado no altar e eu fui liberto, e me disseram que eu deveria conseguir ou morrer tentando.
Ao dar o primeiro passo, eu senti o chicote queimar o meu lombo e o sangue jorrar forte das minhas costas acompanhado do cheiro ocre do sangue banhava o ar, marcando o ritmo e da mesma forma ditando quanto tempo eu tinha antes de desfalecer e perder para sempre os sentidos, a chibata servindo como um sádico metrônomo, conforme zunia no ar, preparando-se para o próximo golpe.Comecei uma desabalada carreira através da distância que me separava da escada, que por sua vez me separavam do altar.Os meus músculos doíam e o cheiro azedo do suor, que já permeava o ar junto ao aroma do sangue me fazia acreditar que eu dava meu melhor e que eu realmente atingiria o altar sem maiores inconvenientes.Entretanto a próxima chibata atingiu a panturrilha, me derrubando e fazendo com que eu fosse beijar as escadas.Meu mundo rodou, e antes que eu pudesse me levantar, mais três pesados golpes atingiram minhas costas, derramando o sangue no sagrado altar.A visão turvava e o corpo cambaleava perigosamente conforme o sangue saía e eu me aproximava do queijo.Subir aquelas escadas quase me matou, tamanha a quantidade de vezes que a minha cabeça se chocou contra os mármores brancos, que rapidamente criaram no seu meio uma trilha rubra.
Mas eu consegui alcançar o queijo, e a chibata cessou seu canto sádico.Eu estava vivo, mas incapacitado e à beira da morte.Fui conduzido novamente à minha escola, e lá recebi um cuidado decente por tempo o suficiente para me restabelecer.Entretanto, assim que eu pude ficar de pé fui colocado para marchar e treinar, e a fome sempre presente a moldar meu corpo e minha mente.
Voltei a roubar alimentos, mas dessa vez não fui pego.Não podia me permitir tamanho luxo de piedade para com os delatores ou mercadores e por diversas vezes cheguei a desacordar aqueles que protegiam os suprimentos, para ter uma maneira limpa e segura de fazer o meu “trabalho” e eu já começara a mudar, mesmo sem perceber.Eu, nessa época na flor dos meus quinze anos, já começara a criar mais músculos e crescer cada dia mais e meus treinamentos em grupo começaram acontecer e eu fui me destacando.Não demorou muito para me verem como um dos prováveis sucessores dos guardiões dos reis, de formar a guarda real.Já construíam um futuro glorioso ao meu redor prevendo que eu venceria batalhas inimagináveis, e eu nem tinha dezessete anos.
Mas assim não o era com todo garoto espartano?De fato, mas eu me apegava aos ensinos da guerra como fossem mais importante que os próprios deuses.Eu os temia, mas nem de longe eram as figuras mis importantes da minha jovem vida.Retraía-me e treinava, e era só o que importava naqueles dias de isolamento que passávamos.Esquecera-me das faces dos meus pais, tamanho o tempo que não pisava em casa e a minha família agora era minha companhia, assim como meu coração já pertencia aquele mesmo garoto.Não me entende e nem pretende tentar, e para você os nomes são mais importante para a compreensão do que o contexto.Você não precisa saber do nome dele, assim como não precisa saber o meu.Não achará nenhum dos nomes, seja o meu, seja o dos meus companheiros, caso os procure pelos livros de história.Vencemos os persas á custo da nossa vida e não fomos lembrados, assim como ele, uma das poucas pessoas que eu realmente amei na minha curta vida.
A verdade é que ele não sobreviveu ao rito de passagem.Sim, um rito de passagem, criança.Para eles, não era o suficiente desistir das nossas famílias e nos fazer treinar por 12 anos a fio.Havia o grande batismo de fogo, e para isso tínhamos uma cidade inteira esvaziada e também escravos libertos.Os “formandos” deviam sobreviver durante três noites armados apenas de uma adaga, para poderem integrar-se ao exército.O único problema é que os escravos eram jogados nesta mesma cidade e a eles era concedida a liberdade, caso matassem algum soldado e vivessem.
Neste dia é que o meu amado entrou em seu ritual de passagem, e saiu de lá como apenas mais um corpo.Não posso culpá-los por querer apenas os melhores em seus exércitos, mas foi duro ver aquele que primeiro tocou seu coração sair com o pescoço cortado, seguido do escravo liberto e altivo naquele pôr do sol sangrento.Vira aquilo com assombro e um pequeno terror que brotava em meu coração.Eu era um dos melhores, e eu sabia disso, eu seria parte da guarda real e tinha certeza que eu poderia sair vivo dali.Mas aquele comichão no meu peito me dizia exatamente o contrário.
E assim, temendo e treinando vivi a minha dura vida por quase mais u mano, vendo aquela data fatídica se aproximar cada vez mais.Era visível na face de todos, embora poucos admitissem, que havia o medo latente de se perder a vida .O refeitório se tornava silencioso e pesado, e os barulhos do barracão sumiram, pouco a pouco.O clima de tensão era palpável e, quando finalmente nos lançamos naquela cidade que fedia à morte, temendo mais as próprias sombras do que os homens, foi que eu e aqueles garotos que eu conhecia desde os sete anos de idade, nos tornamos uma equipe no sentido mais fundamental da palavra.Ficamos juntos, como uma falange, e um por um os escravos caíram.
Companhia bem sucedida, vieram as congratulações, de meus pais, que agora eram completos estranhos, dos próprios reis, magistrados e éforos.Não houve campanha de formandos mais bem-sucedida do que a nossa durante muito tempo e, com muito orgulho é que fomos incorporados à elite do exército espartano, sendo designados para proteger o Rei, e somente o Rei.Foi nesta oportunidade que conheci Leônidas, que traria a minha morte sem ao menos saber disso, e a pequena Helena, nesta época com quinze anos, e que me seria dada em casamento.
Cabe bem aqui especificar, cara criança, que o casamento que praticávamos de nada lembra os costumes judaico-cristãos modernos, onde deve haver pureza antes do relacionamento, e depois do matrimônio, havia a procriação.Um homem só era um homem aos trinta anos de idade e, embora eu desposasse a bela helena naquele verão, não podia a tocar sob nenhuma circunstância antes de atingir minha maioridade, algo que nunca aconteceria.
Os dias se arrastavam, comuns e tediosos, onde havia as responsabilidades do lar que eu construíra junto à minha esposa, havia os exercícios com as tropas, por fim, a rotina.Longos e malditos dez anos que passei vivendo uma mentira, desejando minha companheira e lembrando de um rapaz enquanto treinávamos, até que os persas surgiram, e eu vi o episódio do poço.
O mensageiro viera pedindo pela rendição de Esparta, e chegara numa enorme comitiva, desejando arrogantemente falar com o Rei, como se o grane Leônidas ou os outros éforos nada mais tivessem a fazer do que assistir ao seu cansativo monólogo.Enxotei-o com força, e impedi que tais pés profanos pisassem no solo da assembléia, e foi quando eles sacaram as espadas.Pobre coitados, selaram o próprio destino ao deixarem o cargo intocável de embaixador para se tornar um agressor, e com agressores, não há piedade.No final daquela pequena e extremada luta, onde até meu protegido, que saiu a sua assembléia para verificar o que ocorria, participou, o vi zombar dos persas que pediam “Água e Terra”.Ele respondeu, ao atirá-los no poço, “Aí tendes água e terra”.
Naquele dia, eu simplesmente não dormi, pensando nas possibilidades da diplomacia, que se desfazia com rapidez e levava à guerra.Me peguei pensando o quão ruim seria se eu tivesse realmente que partir para guerra antes de meu aniversário, antes de poder ao menos me deita com ela.Suspirei e fui ver as estrelas, observar Escorpião em ascensão no céu, um péssimo sinal para o que viria.
Realmente, nos dias e semanas que se seguiriam, Leônidas buscou reunir o exército, buscando emboscar os persas em um lugar onde a sua superioridade numérica de nada valeria, e mobilizar tropas.Infelizmente, Esparta vivia o grande festival da Carnália, e a guerra estava proibida, o exército, preparado e capaz, presos dentro de sue próprio campo de treinamento.Eu, como o instrutor da Agogué que eu havia me tornado, fui buscar dialogar com o rei, buscando a melhor forma de reunirmos tropas.Lançamos mensageiros pela Grécia inteira, esperando a ajuda de soldados, e o que recebemos foram sete mil artesões, camponeses, burocratas.Tudo, menos um exército decente.Só havia uma alternativa e nós, os trezentos, sabíamos bem qual era.Quando ele anunciou que levaria uma guarda pessoal de trezentos homens para um “pequeno passeio”, aprontamos nossas armas, e partimos.O que mais poderíamos fazer, sendo que a única alternativa à isso era a morte e a dominação.Eis sua primeira lição, garota: entre duas mortes, escolha sempre a mais bela, esse é o caminho para o Olimpo.
Foi uma jornada árdua até o desfiladeiro das termópilas, e uma tarefa ainda mais dura ficar parado, observando os exércitos persas, com seus duzentos e vinte mil homens se aglutinarem feito moscas sobre a carne pobre, buscando se abater pela Grécia, ou o que vocês chama de Grécia atualmente.Naquela época, apesar de compartilhávamos os mesmos deuses, a mesma língua, a mesma cultura, não éramos um país inteiro.Eu, ao lustrar minha espada, pensava em Esparta, e como eu defenderia a terra que me criou, e creio que cada grego ali presente tratava de fazer o mesmo.
Finalmente, naquele dia dezenove de agosto do ano que vocês hoje chama de quatrocentos e oitenta antes de Cristo, os persas avançaram, sedentos por sangue e conquista.Quanto à mim?Penteei meus cabelos, esperando pelas traidoras flechas que eu sabia que viriam, como elas realmente vieram, perfurando os orgulhosos escudos marcados com o lambda, um dois símbolos da nossa cidade-estado.Não digo que foi uma luta fácil, por que eles nos superavam em trinta para um, mas eu realmente acredito que só havia soldados do nosso lado o campo.Aliás, o que diabos eu estou falando?Só havia homens do nosso lado da guerra, e isso é uma certeza.Mas acho que Xerxes não percebeu isso a tempo.
Não vou lhe contar os detalhes, pois estou realmente farto dessa história toda passada nos portões de fogo, que nada mais do que foram do que isso.Os passos para o paraíso, o portão de fogo que levaria ao Hades, o último sofrimento.Mas cada onda que a falange empurrava para trás, cada ataque frustrado dos Persas nos dava mais um pouco de esperanças de vencer.Mas não havíamos visto nada.No começo do segundo dia, perdemos Leônidas, vítima de uma flecha.Quão irônico, uma seta traiçoeira matar o comandante dos comandantes.Não me lembro o que aconteceu depois disso, minha próxima recordação foi de ter o capacete arrancado da cabeça e o rosto flagelado por um soco direto no maxilar.
Levantei-me do braço de meus companheiros para ver os persas fugindo, enfrentando os chicotes dos comandantes persas, paralisado diante dos verdadeiros guerreiros em fúria.me disseram depois que eu havia despedaçado mais de quinze homens sem ao menos me dar conta que havia deixado a formação e me embrenhado no meio das tropas inimigas.E então foi a vez do Rei-Deus se enfurecer e lançar a elite de seus exércitos, Os Imortais.
Ouvíamos falar desses guerreiros com um ardor magnífico no peito de ansiedade.Nos diziam que era impossível derrotá-los que eles simplesmente se recusavam a cair em batalha e abrir sua formação.Pois bem, que conhecêssemos a elite daqueles que nos assaltavam.Não demorou muito, e o manto de Morpheus nos envolveu e , de longe, pudermos ver as fileiras a marcharem.Passamos a madrugada inteira na defesa das linhas, na falange entre o suor, o sangue e o cansaço e a desmotivação que tomava conta da tropa.Não pense errado de nós, criança, não havíamos ainda desistido.Só estávamos crentes de que, se aquilo era o máximo que eles podiam oferecer, não teríamos a nossa Bela-Morte tão cedo.
Mas o pretenso deus e real ditador, ainda não tinha aberto a mão inteira de cartas, e vimos isso quando descobrimos as tropas Imortais às nossas costas, no anoitecer do terceiro dia, que tinha passado sem maiores incidentes.Alguém entregara a nossa retaguarda, revelando uma trilha de cabras que servia de passagem.Pois bem, estávamos cercados e o crepúsculo caía.Mandaram que nos rendêssemos.Pobre tolos, acreditar que nos renderíamos com a morte tão perto.E então nosso general puxou a sua espada, e eu o segui com u sorriso demente no rosto.
Foi então que tudo passou do prelúdio do paraíso para as profundezas do inferno, em questão de segundos.A figura alta, de manto negros a lhe cobrir, destacou-se da multidão, e apontou para mim, as vestes a lhe cobrirem até a ponta dos dedos.Sua voz conseguiu embrulhar meu estômago como nada antes tinha conseguido.Ele disse : “Aquele, eu quero aquele.Eu vi ele despedaçando os meus melhores homens, e seria um prazer poder sorver de tamanho potencial”.Fui agarrado pelo pescoço, enquanto as últimas luzes do dia sumiam no horizonte.E então ele retirou o manto negro, revelando a face tão negra quanto a escuridão que lentamente nos cercava, e pude jurar que vi filetes de fumaça saírem por sua pele conforme os últimos raios de sol, tímidos, tocavam sua pele.
Ele parecia me analisar, pronto para o abate, como se eu fosse um cordeiro qualquer.E não seria como um cordeiro que eu morreria.A minha mão, que apertava os pulsos dele inutilmente, desceu num rápido soco, um cruzado que poderia quebrar mandíbula de qualquer homem e ele nem se mexeu.Eu socava e me debatia, não com medo mas lutando até o último.Quando ele mordeu meu pescoço, senti bem duas coisas.A primeira delas foi um prazer intenso, que subiu pela minha espinha, fazendo minha cabeça rodar e o meu corpo inteiro latejar de querer, o estupor do gozo.A segunda foi uma melancolia forte.Tinha até mesmo abandonado à vontade de lutar, só queria que aquele estranho continuasse a sugar minha vida.Lembro, inclusive, que pedi por mais.Tudo o que eu pensei foi: ”Nada de bela morte para ti, Cálicles”, seguido de “Mas está tão bom!”.E assim, desonrado, deixei meu corpo amolecer, enquanto todo o combate e massacre de meus companheiros se desenrolava atrás de mim.
Não, eu não ligava para o tinir das espadas, os berros e os últimos supiros daqueles que combatiam pela liberdade, pelo que se valia a pena morrer eu só tinha olhares para a margem do Estige que se aproximava, enquanto o que restava do meu sangue pulsava pra fora da jugular e banhava a areia das Termópilas eu via Caronte e rezava para que ele me levasse embora logo.Eis minha grande surpresa quando sinto o ácido sangue do estranho me entrando pela garganta, e me puxando como um gancho para o cenário da batalha.Foram necessárias apenas três gotas, e me levantei como um ser da noite, faminto e destruidor.Não importava de quem era o sangue.Eu só precisava matar e bebê-lo.
E assim nasceu o monstro que você vê bem aqui na sua frente, de pé.Assim concluímos a primeira parte da história, minha querida pupila.Creio que esse quarto aqui, trancado e sem janelas lhe manterá com a cabeça fria, pensando no que eu te disse.Talvez daqui a algum tempo, não precise de tudo isso.Tudo vai depender de você, de como age para comigo.Mais uma coisa.Lembre-se dessa noite, para sempre.No final das contas, elas vão fazer parte das suas crônicas da noite.Se bem que eu não posso dizer que a suas serão tão boas quanto as minhas.Tenha um bom dia de sono.É melhor se acostumar, pois este é o seu futuro e não pode escapar disso.
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Um capítulo relativamente corrido e mal-elaborado.Sei lá, acho que enferrujei.Espero que julguem e me digam o que acharam, críticas positivas e negativas.Todas contam.Só peço que leiam.
Sapere Audi,
Virgo Shaka