Capítulo 2
Olhei para o relógio. Já eram nove e trinta e dois, percorria a estrada com o pé firme no acelerador. Algumas vezes era preciso desviar de alguns carros parados no meio da estrada, igualmente abandonados àqueles que eu vi na cidade, de portas abertas. No momento, apenas pensava em visitar uma antiga amiga minha, a qual tivemos uma relação amorosa de não muito sucesso. Por culpa minha, claro...
Parei algumas dezenas de metros de sua casa. Um aglomerado de carros impedia minha passagem à rua. Apesar da aparente confusão, não notava nenhum sinal de destruição. Alguma batida, casas destruídas, manchas suspeitas, nada que evidenciasse violência.
Bati a porta. Talvez uma esperança tola de que ela abrisse a porta, igualmente assustada, me abraçace e perguntasse o que havia acontecido. Abri a porta lentamente. Diferente da primeira casa que “invadi”, essa parecia bastante arrumada. Modesta, pequena, mas espaçosa, vários móveis de madeira antiga.
Jhersyka... Seu retrato na escrivaninha, ela de casaco, em algum lugar europeu talvez. Sorriso bonito, olhos levemente puxados. Adorava seu cabelo castanho-avermelhado.
- Podemos ser felizes longe daqui, conheço um lugar ótimo para morarmos.
- Você não entende. E meus amigos, meus pais, meu trabalho? Eu gosto deste lugar, gosto de ficar perto das pessoas que amo!
- Podemos visitar seus pais, nossos amigos. Conheço uma pessoa que vai me ajudar a ter um emprego melhor, salário justo...
- Você não entende. Eu não quero sair daqui!
- Jhersyka! JHERSYKA! Espere! Podemos ser felizes só!
- Qual seu problema? O que tem de errado com aqui? Aqui tem tudo que precisamos!
- Você ama mais seus amigos do que eu, não é isso?! Você ama mais essa droga de lugar! Esse barulho miserável, essa porcaria de cidade, esse...
- CHEGA!
- (...)
- Olha, me desculpe. Me desculpe... É melhor darmos um tempo, preciso relaxar. Acho que aqui isso não vai ser possível.
- Espere, Jhersyka, não precisa disso. Podemos conversar.
- Isso é o que mais fazemos, Daniel. Estou cansada de tudo isso... Tchau!
- Isso não é justo! Ouviu?! Não é justo!
Soquei o retrato com força, de tal maneira que alguns cacos de vidro contaram meu punho. Enrolei o ferimento com o lençol da cama ao lado, sentando-me. Aos prantos, não vi o tempo passar.
<continua...>