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Vamos para o próximo capítulo?
CAPÍTULO 4 – A efetividade do plano
Jack colocou os amigos para dentro, fechando a porta e lacrando-a com uma barra de madeira, na posição horizontal. Tenso, encarou os pais, que estavam sentados à mesa, sem saber o que fazer. Os pais dos dois garotos cumprimentaram-se rapidamente e todos foram para a parte de trás da casa, onde Josh já os aguardava, de armadura completa e espada embainhada, mas sem capacete.
- Rápido, todos para dentro – disse, arrastando o criado-mudo.
- Como vai sair daqui?
- Ora, Jake, não se preocupe com isso. Vamos, todos para dentro, ainda tenho que fugir deste lugar para não parecer suspeito.
Um a um, os pais de Jacob e Jack começaram a escorregar para dentro do calabouço, e, quando Josh encaixou o criado-mudo novamente sobre o alçapão, sobre o qual, agora, havia um grosso tapete que forrava todo o chão da sala, mais assemelhado a um carpete, como se fosse fixo ao chão, os soldados de Dreader estouraram a porta.
- Todos quietos – gritou Travers, contrafeito, o rosto contorcido de fúria. – Doze homens lá para cima, agora! Vocês quatro, me acompanhem!
A balbúrdia e a correria começaram dentro da casa. Travers enfiou a espada na porta que levava ao cômodo traseiro da residência, espatifando suas dobradiças. De olho em todos os cantos da casa, ordenou que a cortina fosse rasgada e arrancada dos trilhos, que o criado mudo fosse destruído e que o alçapão do forro de madeira fosse aberto.
- Mas que cheiro de rum – observou o comandante, dilatando as narinas.
Com a ajuda dos comparsas, um dos soldados alçou-se para cima, mas o forro era composto por apenas dois metros quadrados – insuficiente para esconder qualquer coisa que seja.
- Mas que droga! Algum sucesso aí em cima?
- Nada – respondeu, distante, a voz curiosa de um dos soldados. – Mas talvez queira ver isto aqui, comandante.
Travers praguejou, embainhou a espada e subiu ruidosamente os degraus. O segundo andar era composto por apenas dois cômodos e, aparentemente, nada havia sido levado – nem roupas, nem roupas de cama, travesseiros, cobertas; tudo estava intacto, tudo no mesmo lugar.
- Não é possível que os desgraçados achem que podem continuar morando aqui – observou ele, incrédulo. – O que você achou, Johannes?
- Olhe – ele lhe passou um pedaço de pergaminho.
- Onde está o idiota que sabe ler, pelos deuses? Ei, você, cujo nome eu não sei! Leia isto!
Ele sacudiu o papiro na cara do soldado que, assustado, como se nunca tivesse recebido uma ordem direta do comandante, o recebeu.
- Leia o que diz, ande logo!
- Diz... “Prezado Jeq”... digo... “Prezado Jack” – ele disse, a voz anasalada, o nariz um pouco trancado. Tinha renite alérgica, e o pó da destruição o fazia mal. – “Creio que... precisemos... tomar cudedo”... digo... “tomar cuidado... com a figura de Josh. Ele não compartilhou conosco o plano de fugir, disse que não podíamos trair a Resh Kyre”... digo... “Red Sky.” Mas que letra horrorosa!
- Leia o restante e pare de reclamar!
- Sim, senhor, comandante – o soldado voltou a prestar atenção nas letras garranchosas escritas em preto no pergaminho. – “Temos que sair logo daqui. Eu espero uma visita do sacana do Dreader junto com o fedorento do Travers”... desculpe, comandante, é o que diz aqui.
Travers fechou a cara, irritado, ordenando-o para que prosseguisse, com um gesto com as mãos.
- “... a qualquer momento. O traidor ouviu nossos planos e vai nos delatar. Há um problema grave, ele tem muitas informações sobre nós! Temo que queira, inclusive, usar sua casa como abrigo. Se isso acontecer, perderemos o esconderijo secreto dos nossos planos, no forro do seu quarto. Não podemos deixar com que isso aconteça. Atenciosamente, Jacob.”
O comandante pensou um pouco e tomou o pergaminho das mãos do soldado, enrolando-o e o embolsando, na sequência.
- Senhores, montem guarita nesta casa, até o cerimonial terminar. Josh é o garoto negro, cujas boas atribuições foram recomendadas por aquele patife do Louis, ex-comandante do exército desta cidade, estou certo?
- Certo, comandante – respondeu o tenente.
- Excelente. Ele tem boas informações, mostrou-se leal a nós. Assim que o cerimonial terminar, faremos exatamente o que o imbecil temia: barricaremos sua família nesta residência. Quando tudo acabar, vamos estourar o forro do quarto do delinquente.
Os soldados iniciaram a movimentação, descendo as escadas e armando-se nas entradas e janelas, do lado de fora. Indignado com a audácia de seus desafiantes, Travers ordenou para que metade dos soldados também revistasse a casa de Jacob, de forma que tivessem o maior número de informações possíveis.
- Senhor – questionou um dos soldados, dirigindo-se a Travers.
- O que você quer? – respondeu, com maus modos.
- Mil perdões, é só que... não estamos dando muita importância para dois meros soldados?
Travers aproximou-se de seu comandado, os olhos injetados de ódio, as narinas dilatadas, o cheiro mais podre do que nunca. Fitou o soldado bem nos olhos, de forma a apresentá-lo a morte em pessoa.
- Senhor Gracie – disse, controlando-se da melhor forma que conseguiu. – Temos dois agravantes nesta situação, meu caro. Primeiro: deixamos claro que os desertores seriam decapitados e os perdemos, agora. Significa que fugiram das mãos da Red Sky, e
ninguém foge das mãos da Red Sky. Em segundo lugar, meu caro... não perdemos
dois combatentes... perdemos
os combatentes. Eram os melhores do exército Esmeralda, amigo.
O soldado fez que sim com a cabeça, sem questionar mais nada.
- Não ousem deixar seus postos – disse Travers, por cima do ombro, enquanto atravessava o jardim. – O preço será a vida de cada um.
* * *
No alçapão, as famílias de Jacob e Jack escutavam, apenas isso. Ninguém ousava fazer qualquer ruído que seja. Se eles ouviram toda aquela balbúrdia do lado de fora, certamente quem estivesse do lado de fora seria capaz de ouvir o que diziam ali.
Os archotes estavam acesos; as tochas, por consequência, lançavam uma luz bruxuleante e deprimente pelo aposento. Claude e Mary, pais de Jacob, e Yuri e Rosa, os de Jack, estavam sentados a uma das mesas, os corações aos saltos.
- Vocês são completamente loucos – sussurrou Lassale, a mão sobre o peito, sorrindo de forma animada. – Completamente loucos.
Jacob sorriu, os olhos expressando determinação.
- Precisamos ir – sussurrou Jack. – Esperem aqui. O pergaminho foi um chamariz, logo vão barricar a família de Josh e eles virão buscá-los. Não façam barulho. Não revelem nada, nem sob tortura, certo? Em breve vamos voltar, e vamos tirar Dreader daqui.
- Por que não podemos ir? – sussurrou Rosa, alarmada, uma mulher alta, de rosto pontudo e cabelos amarelos como palha, cacheados. – É muito perigoso!
- Não teríamos onde deixá-los, mamãe. A vida que escolhemos para nós não é a mesma que gostaríamos de impor a vocês. Se Travers nos achar, seremos assassinados. Vocês ainda poderão ter uma chance. A Red Sky recebeu, já, a informação de que somos muito bons. Não vão nos deixar em paz, e Dreader vai nos caçar até no inferno.
- Tenham cuidado – sussurrou Mary, abraçando o filho coletivamente com Lassale e Claude. – Pelo amor de Zeus.
Jacob assentiu. Jack despediu-se da família e os dois afastaram a tapeçaria, giraram, sem som, a maçaneta da porta de ferro e, de posse de uma tocha com duração de, aproximadamente, uma hora, fecharam a porta atrás de si.
- Agora, sim – disse Jack, em voz normal. – Estamos entregues ao destino.
Jacob olhou para o amigo e sorriu. Sua cabeça trabalhava a mil. Uma rebelião. Era tudo que ele precisava.
- Vamos – orientou Jack, e os dois puseram-se a caminhar.
* * *
Dreader andava de um lado para o outro, no quarto do Imperador. Agora, tudo havia sido remodelado. Em vez do verde-vivo habitual, com poltronas de
chintz em branco e verde-esmeralda, o quarto havia sido reconstruído em preto e vermelho, sendo as estampas formadas por uma naja de duas cabeças – o símbolo oficial da Red Sky.
Os acontecimentos da última hora, entretanto, haviam deixado o Imperador maximamente curioso. Seu instinto lhe dizia que havia algo mais do que apenas a fuga dos homens que deveriam se apresentar ao seu exército; segundo seu informante, os rebeldes buscavam alguma coisa mais, algo mais capcioso, algo mais audacioso. Algo que ele próprio vinha buscando há decadas.
O Cajado de Ártemis, a Espada de Ares e a Adaga de Atena. Os três equipamentos haviam sido construídos por Hefesto, há muitos anos, na ilha vulcânica da forja olímpica. Embora, agora, Dreader soubesse que os deuses se haviam silenciado, desde que Roma tomara a Grécia, e que não interviriam em qualquer confronto que fosse, a busca dos viajantes pelos equipamentos o deixava apreensivo.
Infelizmente, seu informante era algo capaz em negociações. Talvez, Dreader pudesse se livrar dele depois da crise terminar. Entretanto, até lá, suas informações eram muito precisas e ele precisava delas, por consequência, precisava
dele.
Três batidas ressoaram na porta. Usando seu habitual manto negro, Dreader virou-se, os cabelos sedosos prateados pouco se movendo.
- Entre – ordenou.
Dois soldados, seguidos por Travers, entraram na sala, junto do estranho encapuzado. Dreader sentiu sua excitação aumentar; talvez houvesse maiores informações.
- Por que este desgraçado não conversa comigo? – ralhou Travers, inconformado.
- Cale-se, Travers – ordenou Dreader, ao que seu comandante retraiu-se, rancoroso. – Saiam, todos. Exceto você.
Ele apontou um dedo branco e esquelético para o estranho. Os soldados e um Travers bastante contrariado deixaram a sala, fechando a porta atrás de si e deixando o estranho a sós com Dreader.
- Vai revelar sua identidade?
- No momento certo – respondeu o visitante, e Dreader sentiu o sorriso em sua voz. – Tenho maiores informações para você.
- Conseguiu descobrir onde estão os armamentos?
- Evidentemente. Já soube de tudo. Tenho acesso irrestrito a informações.
- E onde estão?
Ele sorriu.
- Não seja precipitado, Imperador. Tenho uma sugestão para você, e tenho intenção de que a acate.
Dreader pensou, irritado.
É um negociador nato.