CAPÍTULO 3 - O INÍCIO DA JORNADA


As fronteiras de Midfallow se abriram para mim mais uma vez, quando cheguei às portas do quartel general. Joshua, Edward e Mellanie aguardavam sentados na mesma posição na qual estavam quando deixei o recinto.

- Novidades? - perguntou o velho, sem desviar os olhos de seu chá que fumegava intocado sobre a mesa.
- Larissa nos deu a missão - informei, e os outros se remexeram, mais atentos. - Convenci-a de que a armada não era a melhor opção.

Um silêncio sepulcral se seguiu.

- Excelente. Estamos confiando em suas pistas, Jason. Espero que estejam corretas.
- E estão, Joshua. As energias nas fronteiras do arquipélago gelado estão crescendo constantemente. Não há dúvidas.
- E a teoria sobre Metalon?

Senti a temperatura na sala baixar dez graus. Chegávamos ao que Joshua de fato queria conversar.

- Continua a mesma.

Joshua assentiu lentamente, porém Edward soltou um silvo de impaciência. Ao seu lado, a espetacular Mellanie seguia impassível, como se assistisse a uma peça de teatro levemente interessante. Senti minha alegria se esvair, como um balão murchando diante de um rombo em sua superfície. O grão-mestre de nossa academia continuou analisando friamente o tapete corroído pelas traças na entrada da mesma, sem, no entanto, se manifestar.

- Não podemos enfrentar Metalon - disse a voz de Mellanie, com tanta energia que me sobressaltei.
- E por quê? - perguntei, tentando parecer impassível. - Exércitos são dizimados todo dia, Mel. Nós...
- Não somos páreos para Metalon - repetiu ela, fitando-me longamente nos olhos. Perdi o fio dos pensamentos. - Eles sobrevivem com uma força demoníaca, que bomba energia para seus interiores. Não sobreviveremos.

Tentei aparentar indiferença, mas foi muito difícil. Mellanie era uma espécie de bruxa de primeira categoria, aquela de quem ninguém duvida. Sobretudo com o talento especial que tinha, sobre o qual todos éramos proibidos de comentar, quer fosse em sua presença ou longe dela.

- Vamos sair hoje à noite - disse Joshua, ao que Edward desviou os olhos, aparentemente incomodado. - Mellanie fica e faz a defesa mágica da cidade. Sim, ficará - porque ela abriu a boca para protestar. - Precisamos de um bruxo aqui.

Mellanie calou-se, porém visivelmente a contragosto.

- Jason, quero que recrute o jovem Josh - disse ele. - O garoto tem um certo talento, devemos dar a ele uma chance.
- Senhor, não temos tempo para ensiná-lo. Seria um suicídio.

Pela primeira vez, aprovei as palavras de Edward.

- Não precisa ser treinado - disse Joshua com firmeza. - É inteligente e talentoso. Apenas o recrute e grave Midfallow em seu braço, Jason.

Assenti.

- Depois disso, quando voltar, estaremos prontos para sair. Quanto tempo, daqui ao cais?

Senti um arrepio percorrer minha espinha. Se as lendas estivessem certas - o que estaríamos prestes a descobrir -, o barqueiro que levava ao arquipélago gelado havia sido vítima de um acidente fatal e, portanto, sua alma era responsável pela travessia do continente às ilhas. Dizia-se que os viajantes conduzidos pelo barqueiro nunca voltavam, e os que tentavam partir em navios e barcos próprios, sem a ajuda do mesmo, eram igualmente dizimados sem explicação.

- Três dias de caminhada, isso se não houver neve nos arredores do cais - respondi, inquieto. - O tempo pode se protelar ao dobro.
- Certo. Vá buscar o garoto enquanto organizamos as defesas e a viagem.

Assenti, deixando o hall pela porta de entrada.

Os comerciantes da manhã já haviam, naquela altura, se assentado, e agora a balbúrdia era referente aos gritos extremos de um lado a outro durante as negociações. Embora a multidão se acotovelasse, não havia nem comparação com relação à confusão matinal com a confusão atual. Aqui e ali, identifiquei vários objetos das trevas em barracas escuras nos becos mais distantes da avenida principal, o que poderia acarretar punições severas ao portador ou vendedor, mas, naquele momento, não poderia me distrair com isso.

Atravessando a multidão aos empurrões, até alguém notar quem eu era e que queria passar, consegui alcançar a avenida principal de Jarrah, que cortava a cidade de leste a oeste e onde, no exato centro, havia um hotel dos maiores e mais luxuosos da cidade, disponível apenas aos ricos viajantes longínquos. Ali, na frente, um senhor de idade, com cabelos ruivos e desgrenhados, observava a multidão passar com olhos desfocados e desinteressados.

- Senhor Wayne - cumprimentou ele, a voz monótona e ocasional.
- Jared - cumprimentei. - Seu filho. Onde está?

Os olhos verdes do velho estreitaram-se perspicazes.

- Josh?
- O único filho que tem - respondi, buscando encurtar a conversa.

Ele assentiu, achando graça de alguma piada particular.

- Rua Três, à esquerda.

Assenti, caminhando pela avenida principal e abrindo caminho novamente. As transversais passavam; Rua Um, Rua Dois, Rua Três, à esquerda. E ali estava o rapaz, agachado, sozinho, tentando esconder alguma coisa, de costas para mim.

- O que está fazendo, garoto?

A voz o sobressaltou. Assustado, Josh saltou para trás, de costas para o beco sombrio, escondendo alguma coisa às costas.

- Entregue essa varinha - disse a ele, certo do que o garoto estava manipulando. - Agora.
- Mas que droga - murmurou ele, devolvendo-me um comprido e fino cilindro de madeira. - Eu estava conseguindo.
- Estou certo de que estava - remexi nos bolsos internos e saquei minha própria varinha. - Mostre seu braço.

Os olhos do rapaz se arregalaram e ele olhou para mim com evidente curiosidade.

- Como assim? - perguntou, a voz trêmula.
- Vamos, rapaz - respondi, impaciente. - Não há ninguém que conheça mais Midfallow por dentro que você, afobado. Você sabe o que estou fazendo.

Josh fechou os olhos e ergueu o braço direito, deliciando-se com o momento. Por um instante, me lembrei de alguém, embora não puxasse na memória exatamente quem. Displiscentemente, fiz um rápido aceno de varinha e Josh ganhou, sobre as juntas dos dedos da mão direita, uma porção de cicatrizes negras formando letras e símbolos antigos, cujo conhecimento era limitado apenas aos bruxos. O garoto fez uma careta de dor, mas não protestou, e logo a iniciação estava efetivada.

- E que as cicatrizes em seu punho sejam uma lembrança de que a fatalidade é o que aguarda a quem trair nossos segredos - sentenciei, conforme protocolo, sentindo uma pontada de desaprovação.
- E serão - completou ele, sem nem necessitar de uma informação sobre o protocolo. Josh fechou os dedos e abaixou o braço, a mão esquerda estendida para mim, como quem aguardasse alguma coisa.

Fiz um aceno rápido com a varinha e uma outra, exatamente adequada às medidas do rapaz, surgiu no ar, pousando sobre sua canhota. Era comprida e fina, negra como a noite e seu cerne parecia ser constituído de vivo fogo. Sua varinha reconheceu imediatamente a mão de seu mestre, quando o mesmo tocou-a com a ponta dos dedos. Um fulgor avermelhado subiu ao rosto de Josh e a iniciação estava realizada.

- Seja bem vindo, Midfallow - disse, guardando minha varinha.
- Espero que seja realmente útil - disse ele, uma expressão em que se misturavam desafio e obstinação tingindo-lhe o rosto.

Juntos, deixamos o beco escuro, não sem antes atirar sobre ele, com um aceno de varinha, a manta azul-escura singular aos Midfallows iniciantes. Ela lhe caiu bem.

Quando chegamos ao portão leste da cidade, os outros Midfallows já nos aguardavam em silêncio.
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Opinião do leitor é sempre importante ao escritor. Aguardo mais comentários e espero que tenham gostado deste terceiro capítulo. Por ora, notifico-vos que as aulas já retornaram na Unicuritiba e, como bolsista do ProUni, meu tempo é ainda mais escasso.

Conto com vocês!

Att,