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Tópico: Ferumbras

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    Capítulo 9 - O campo Santo


    Arieswar novamente saiu de sua casa trajando a capa vermelho-vinho que há muito recebera das mãos do rei Yorik I em pessoa. Aquele, aliás, era um dos momentos que jamais sairiam da sua memória; o momento de maior glória do pobre menino nascido no Porto Norte, que com muita garra e determinação estava sendo admitido para fazer parte da elite da elite dos soldados: os guerreiros da corte, guarda-costas particulares de Sua Majestade.

    “Leve esta capa vermelha consigo em todas as ocasiões” – falou Yorik na cerimônia de admissão – “Ela servirá, em última instância, para que jamais um lutador comum veja o sangue de um guerreiro da corte”.

    Agora, porém, Arieswar não tinha mais o mesmo orgulho de ostentá-la. O rei a quem devia proteger estava tiranizando o seu próprio povo, já que os bárbaros haviam sido demasiado responsáveis para a soberania de Thais.

    Nos últimos meses a vida de todos, mas principalmente a dos quatro guerreiros da corte, havia mudado radicalmente. Agora sempre havia missões extraordinárias a se realizar, protegendo o rei ou altos membros do Senado, como o conselheiro Nantes, nas visitas a locais taxados de “inóspitos à presença real”. Em tais visitas Arieswar, Acanthurus, Dragonslayer e Hesperides viam a real situação que os governantes tentavam esconder através de documentos efêmeros.

    As condições de vida nos lugares menos fiéis a Thais, principalmente vilas na área de influência de Carlin, eram subumanas. As visões de miséria e desalento deixavam Arieswar enojado e o estopim de sua angústia acontecia sempre que era enviado a Svargrond, onde, ao fim de cada dia, a neve sempre estava tingida de sangue e o ar parecia mais pesado, carregado de doenças e morte.

    Como diria seu velho pai, caso cobradores de impostos thaienses não o tivessem matado, “o sangue é algo muito forte, meu filho”, e agora era o sangue do antigo menino marginalizado, que ele nem sabia que ainda existia, que pulsava tão forte em suas veias que fazia sua cabeça latejar.

    O impiedoso Arieswar, temido por seus adversários e acostumado com a morte, não resistia mais ao ver serem massacrados velhos amigos, conhecidos ou até estranhos. Ficava inconformado só de pensar que a maioria das pessoas que agora sofriam havia trabalhado firme para sustentar famílias que já não existiam, sonhos agora intangíveis ou apenas a liberdade, e, indubitavelmente, durante esse processo, contribuíram para a riqueza dos cofres thaienses.

    A válvula de escape para o guerreiro, que ao longo de sua vida sempre fora passar ao fio da espada os inimigos carlinianos que cruzassem seu caminho, se chamava Lynda, e, até pouco tempo podia ser encontrada num pequeno aposento sob a Igreja da Criação, cravada, e aparentemente esquecida, entre dois monumentos em homenagem a grandes reis passados na praça principal da cidade de Thais.

    Todas as vezes que havia tempo vago para ambos, Arieswar selava seu cavalo e rumava a igreja. Ele já sabia todos os horários de Lynda e sempre aparecia antes ou ao término dos cultos por ela realizados, quando era recebido com carícias e abraços. O sentimento entre os dois, meio às escondidas, era tão jovial que fazia florescer no peito de Arieswar um adolescente livre e desempedido. Não que ele não tivesse se divertido com as relações de apenas uma noite com as raparigas que sempre se ofereciam a ele, mas nunca seu peito parecera arder em chamas como quando estava com Lynda. Já para a moça, as visitas de Arieswar representavam um motivo para continuar ali, naquela velha igreja, onde seu passado aterrorizante nunca desapareceria.

    Esse assunto, aliás, já havia sido banido das conversas entre os dois. Lynda convencera o cavaleiro de que não era ainda o momento de abrir-se e revelar alguns dos suas confidências mais íntimas e ele respeitava sua opção. O que ele não podia era deixar de preocupar-se com a aparente vigilância que a sacerdotisa parecia receber.

    - Eu temo o que possa acontecer quando não estou por perto, Lynda.

    - Não se preocupe, Arieswar. – dizia ela – Nós dois somos sobreviventes. Estamos nesse mundo contra tudo e todos e apenas por nossa teimosia em continuarmos vivos e felizes. Aconteça o que acontecer iremos, no fim, ficar bem; e juntos!

    Aquela certeza de Lynda era algo inquietante. Ela aliviava o cavaleiro, mas o dava a impressão de que talvez ele não estivesse pronto para viver a vida caso as melhores profecias não se concretizassem.

    Agora, andando por aquelas ruas com sua capa vermelha a zunir detrás de si, ele viu que a verdade era mesmo aquela. O pior havia acontecido com a prisão de Lynda e ele não mais conseguia imaginar sua vida sem a moça. Os dois se completavam tão perfeitamente que parecia estranho a Arieswar como há apenas alguns meses ele se gabava por ser sozinho, poder experimentar um pouco de todas as mulheres e não ser responsável por nenhuma enquanto que, naquele momento, a única mulher que lhe dava prazer estava sob custódia do rei.

    Então era com o rei que ele deveria falar antes de tomar a medida final.

    Arieswar marcou um encontro com Tibiano na Sala de Reuniões II, onde Tibiano encerraria um tópico qualquer com alguns membros do Senado e depois ficaria à disposição do seu cavaleiro particular. Este, por sua vez, chegou no castelo bem cedo afim de não haverem imprevistos e notou que, como sempre, as pessoas abriam espaço para que ele passase pelos corredores mais estreitos; secretamente ele se perguntou se aquilo duraria muito mais tempo.

    Parando a frente da sala combinada, ele encostou-se no parapeito de uma janela e pôs-se a esperar. Se aguçasse os ouvidos conseguiria pegar detalhes da reunião de Tibiano, mas preferiu usar seu tempo para pensar nas palavras certas a serem ditas. Precisava ser firme e direto.

    Terminada a reunião, a ansiedade do cavaleiro aumentou ao ver saírem vagarosamente cada um daqueles convidados. Contudo, sabendo como as coisas se procediam quando se tratava do rei de Thais, continuou a esperar para ter a certeza de que a sala estava realmente vazia. Sempre havia, afinal, alguém que ficava mesmo depois de todos os outros irem embora, fosse para fazer algum pedido particular ao rei ou simplesmente bajulando-o um pouco mais. Quando finalmente os retardatários abandonaram a sala, Arieswar entrou, respirando fundo.

    - Feche a porta, por favor, Arieswar. – pediu o rei sem nem levantar a cabeça.

    Tibiano estava sentado à cabeceira, como de costume, e brincava com uma pena longa enfiada num tinteiro. Sua expressão era de quem havia envelhecido bastante em pouco tempo. As rugas estavam muito mais aparentes e os cabelos brancos se aglomeravam em generosos tufos tanto na cabeça quanto na barba. Seu olhar opaco poderia enganar qualquer um que não o visse brilhando de glória toda vez que o assunto Svargrond era tratado.

    Arieswar prestou-lhe uma reverência e contemplou seu semblante. Parecia desinteressado com o que quer que o cavaleiro tivesse para falar.

    - Só peço que se for para falar daquela mulher, poupe seu tempo. Nosso tempo, aliás.

    Arieswar hesitou. Foi uma ducha de água fria.

    - Me desculpe, Majestade, mas ela não é “aquela mulher” para mim e para isso peço a sua compreensão.

    O rei nada falou, apenas ficou em silêncio indicando que ele podia prosseguir.

    - Vim pedir-lhe pela última vez que a liberte. Não imagino quais sejam as histórias que se escondam sob o teto daquela igreja, mas creio que elas possam ser reversíveis. Como guerreiro da corte e prestador leal de serviços a Thais durante tantos anos, queria fazer-lhe esse pedido.

    - Eu reconheço sua importância para a nossa cidade, Arieswar, mesmo você não tendo sempre feito parte dela. – falou ele essa frase em tom paternal, porém duvidoso – Acontece que infelizmente não poderei realizar seu pedido, meu caro. Há muita coisa envolvida. Você nem faz idéia.

    - Então por que ninguém me faz ter idéia? Por Banor, sinto-me sendo tratado como um garoto.

    - Para não envolvê-lo ainda mais. Precisamos integralmente de seus serviços, e é melhor que não se exponha além do necessário. Afinal, você é...como Yorik falava mesmo? Ah, sim! Nossa “jóia” da coroa.

    Arieswar sentiu a falsidade de cada uma daquelas palavras. Estralou os dedos para conter a tensão.

    - Desculpe, Majestade, mas eu já estou envolvido. – falou ele, repetindo exatamente o que tinha dito para Lynda certa vez - Eu não posso apenas sair por aquela porta e fingir que nada disso aconteceu.

    O rei parecia cansado. Levantou-se da sua cadeira acolchoada e passou a mão pelo ombro de Arieswar.

    - Ouça bem, meu caro. – falava ele enquanto andava a esmo pela sala abraçado com o cavaleiro – Você deve realmente estar sentido com a falta dessa moça, mas não se esqueça de que não lhe conheci ontem, Arieswar. Você sempre foi um pássaro livre para voar! Devo reconhecer que você é bonito, jovem, cheio de prestígio e com todas as mulheres à sua disposição; não me venha com essa paixão sem causa.

    Ele não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Paixão sem causa? Era mesmo uma batalha perdida.

    - Então – falou ele, saindo do seu abraço -, se tenho mesmo tantas qualidades, talvez vossa Majestade pudesse gastar alguns preciosos minutos ouvindo o que tenho para falar. Estamos perdendo o controle de Thais! Pela primeira vez na história, ou pelo menos na minha história, estou vendo essa cidade não comandar as rédeas da situação. A prisão de Lynda me parece uma atitude tola de quem está desesperado a mostrar aos outros que está fazendo alguma coisa. Vossa Majestade quer passar a todos e a si mesmo a impressão de que está tudo bem, e não está!

    “Sei que vossa Majestade não é rei desse império por acaso e já deve ter percebido o que falei, mas vejo que peca ao deixar levar-se por essa onda de soberba thaiense. Svargrond é um erro! Há, como acabei de ouvir, ‘algo muito maior’ por detrás daquele ataque no dia da festa, e é algo que nem eu nem vosa Majestade conhecemos.”

    Tibiano ouviu tudo calado, como se engolisse um sapo a cada frase. Arieswar sabia que tinha ido longe demais, mas não se importava, pois sabia que mesmo que aquela conversa não fosse o suficiente para mudar a cabeça do rei, jamais teria o peso na consciência de que não fizera nada.

    Agora o mais poderoso dos homens thaienses o encarava, fuzilando-o com o olhar.

    - Você continua o menino desobediente do Porto Norte. É mesmo muita sorte que Banor ainda lhe dê essa habilidade fora do comum para as guerras, pois não fosse isso e seu lugarzinho aqui na minha cidade teria se perdido. Está dispensado!

    Ele prestou mais uma reverência e saiu da sala sem emitir mais um único som. Agora não haviam mais opções a não ser lutar. Seu sangue fervilhou de excitação.



    ****



    Certamente Nornur, o deus do destino, e Crunor, o deus da natureza, haviam compactuado para agirem juntos naquela noite. Chovia e relampejava constantemente, como numa advertência divina para que todos permanecessem na segurança de suas casas e não se arriscassem na escuridão, onde as entidades malignas se manifestavam com muito mais poder. Alheio a tudo aquilo, porém, estava Arieswar. O cavaleiro, sentado em sua poltrona, diante da lareira, fumava um charuto e tomava uma generosa taça de cognac em tom de despedida da casa que por tantos anos fora o seu lar e que, talvez, nunca mais fosse rever.

    Não só aquela casa, na aristocrata Avenida dos Magos, mas toda a Thais havia deixado de ser um lar para Arieswar. O cidadão thaiense, que por tanto tempo ele fingira – e acreditara – ser, agora saía de cena para entrar o velho garoto bárbaro do Porto Norte, que não compactuava com as atitudes imperialistas tomadas pela realeza. Nem mesmo os esforços de seus companheiros mais próximos o impediram de tomar a decisão derradeira de abandonar todo aquele teatro infernal no qual havia feito parte.

    - Por favor, Lynda, seja forte! – sussurou ele para si mesmo.

    À medida que o tabaco transformava-se quase que inteiramente em cinzas e a taça ficava cada vez mais vazia, a ansiedade crescia no peito de Arieswar. Olhando as grossas gotas de chuva escorrerem pela sua janela, ele ficou a pensar como faria o resgate da sua amada.

    Lynda fora levada à uma prisão especial localizada no subterrâneo do cemitério thaiense, chamado de Cemitério do Campo Santo, do lado de fora dos portões da cidade, a leste; uma informação obtida com muita dificuldade pelo cavaleiro. Certamente convinha muito mais ao rei prendê-la em outro lugar, talvez um local mais discreto, contudo certamente a soberba e o sentimento de invulnerabilidade dos membros da corte fossem tamanhos que eles ignoravam qualquer coisa que os desse demasiado trabalho de ser pensado em troca do seu bel prazer.

    Arieswar imaginava que os guardas de plantão no local não seriam fortes o suficiente para impedí-lo de chegar à cela de Lynda, porém premeditava que caso tropas extras fossem chamadas, ele estaria em sérios problemas. Obviamete que ele já dava como certo o fato de que pegaria a chave-mestra na mão de Pepelu e poderia com ela abrir as portas de segurança do local.

    Não era um plano brilhante. Mas era o único que tinha e, portanto, o melhor.

    Deu então uma última tragada no seu charuto e esvaziou a taça de cognac em um só gole. Sem nem se dar ao trabalho de apagar a lareira, vestiu uma grossa capa e pôs a mão na maçaneta para ir embora; não sem antes, contudo, dar uma última olhada para o resto da casa. Enfim, abriu a porta e saiu.

    Foi então que a surpresa o atingiu em cheio. Parado bem em frente à sua casa estava Pepelu.

    O arqueiro estava encharcado, porém parecia indiferente à chuva que caía. Sua expressão facial era de uma determinação além dos limites. Arieswar não soube bem o que pensar.

    - Pepelu – disse ele -, eu estava indo na sua casa agora. O que...o que está fazendo aqui?

    - Eu vou com você. – respondeu ele na mesma hora.

    Arieswar deu uma risada de incredulidade.

    - Você o que? Ouça, rapaz, eu não estou indo dar um passeio nem caçar javalis. Eu estou – e ele titubeou – indo fazer algo muito sério.

    - Não interessa. Eu vou com você.

    - Olhe, não quero perder meu tempo aqui nessa chuva. Não se meta em confusões, você tem uma família para sustentar.

    - Eu prometi a Diogo que tomaria conta da chave, por isso preciso pelo menos acompanhar de perto o que você fará. Ela vale muito para nós e acho que ele me mataria se eu a perdesse.

    Pepelu, no entanto, sabia que isso não era de todo verdade. Qualquer outra pessoa poderia sim querer matá-lo por ter perdido um objeto de tamanha importância, mas não Diogo. O capitão certamente passaria a mão sobre sua cabeça e o perdoaria pela sua falha, o que, para o orgulho de Pepelu, doeria muito mais que qualquer surra que podesse tomar. Ele estava cansado de não corresponder às expectativas.

    Arieswar não conseguia aceitar a idéia, mas como não tinha o tempo necessário para fazer aquele homem obstinado recuar, decidiu que seguiria sua vontade. Foi andando na frente e deixou que Pepelu o seguisse.

    - Então, onde está Lynda? – perguntou o arqueiro.

    - Atrás do Campo Santo.

    - Atrás do Campo Santo?! O cemitério?!

    - Sim, lá existe uma prisão para criminosos de baixa periculosidade. Acabou virando uma espécie de castigo para as briguinhas pessoais do rei.

    - Mas ela fica do lado de fora de cidade!

    - Eu sei, por isso já tenho um plano.

    E Arieswar contou a Pepelu, mesmo a contragosto, que durante a tarde havia usado da sua amizade com um dos guardas notrunos para que o deixasse sair por um portão lateral e que já deixara um cavalo pronto para o caso de precisar bater em retirada. Ao fim dessa rápida conversa, permaneceram em silêncio.

    Andando pela cidade, Pepelu notou como ela parecia estar vazia e sem vida. Claro que eles estavam perambulando pela madrugada de uma noite chuvosa, mas ainda assim há alguns tempos atrás haveriam homens bebendo nas tavernas ou comadres incansáveis fofocando à beira de suas casas. O ataque do monstro no dia de Fechar das Estações e suas posteriores consequências transformaram Thais numa cidade triste. Contudo, enquanto a população remoía a tragédia, o que não saía da cabeça de Pepelu era a imagem daqueles olhos profundos do homem na Igreja da Criação.

    Foi então que eles finalmente chegaram ao portão combinado entre Arieswar e o seu amigo guarda. Os dois nem se cumprimentaram, apenas entreolharam-se com cumplicidade enquanto o guarda abria espaço para a passagem.

    - Tem certeza de que quer fazer isso? – perguntou o cavaleiro a Pepelu pela última vez.

    - Agora não dá mais pra voltar, não é?

    E de fato não dava. O portão detrás de si fechou-se com um baque surdo e a realidade veio à tona para Pepelu juntamente com o cheiro de terra molhada. Estava do lado de fora da cidade, sem qualquer garantia que voltaria em segurança para ela.

    Deram uma pequena volta até chegar a entrada do Campo Santo, que, bem como qualquer outro cemitério, emanava uma espécie de medo inconsciente do desconhecido. Mesmo Arieswar, acostumado com a morte, se incomodava com a presença de algo imaterial e sombrio que parecia se propagar pelo ar e congelar os pulmões. Andaram mais um pouco, até que o cavaleiro fez sinal para que se escondessem atrás de uma lápide.

    - Ouça, Pepelu – sussurou ele –, estamos bem perto! Dá para ver aquela entrada ali? Uma que parece uma tumba?

    Pepelu esticou o pescoço e viu uma estrutura de pedra bruta sendo protegida por cerca de nove soldados que arrodeavam uma pequena fogueira. Gente demais para uma vigia notruna, pensou Arieswar. Os homens, porém, pareciam desinteressados e sonolentos; certamente não os soava como grande coisa guardar aquele lugar.

    - Apesar de estarem fazendo a proteção da entrada, estes são soldados inferiores, basicamente os responsáveis por chamar reforços em caso de incidentes. Por isso é essencial que acabemos com todos rapidamente. Eu vou em dois de uma vez e você atira nos outros, certo?

    Pepelu assentiu com a cabeça. Não estava nos seus planos matar ninguém, apenas atingir locais específicos para que eles ficassem impossibilitados de pedir ajuda. Preparou então seu arco e esperou o sinal de Arieswar.

    Tudo aconteceu muito rápido. O cavaleiro correu em disparada pegando os homens de surpresa, e enquanto seus cérebros ainda digeriam a informação de que havia alguém os atacando, as flechas de Pepelu cortavam o ar e os atingiam nas coxas e nos tornozelos. Coube a ele então apenas assistir o show de Arieswar, que com uma rara habilidade deixava-os inconsicentes como quem martelava pregos inanimados. Pepelu chegou a tremer pensando que um dia cometeu a loucura de lutar com aquele guerreiro.

    Feito o trabalho pesado, os dois se encontraram na porta da prisão.

    - Muto bem. – falou Arieswar, ofegante – Agora eu tenho que descer. Por favor me dê a chave.

    Pepelu tirou do bolso a chave mágica que aparentemente estava quebrada ao meio e entregou-a ao cavaleiro. Antes de o perder de vista descendo os degraus da prisão, contudo, ele murmurrou:

    - Boa sorte, Arieswar.

    A partir daí começou a angustiante espera de Pepelu. De onde estava ele não podia nem ver nem ouvir nada que se passava nos andares inferiores e apenas torcia para que Arieswar saísse de lá com Lynda - e sua chave - o mais rápido possível. Porém a medida que o tempo fora passando e isso não acontecia ele começou a ficar impaciente. Empilhou os soldados num canto por duas vezes até lembrar que eles estavam inconscientes e não mortos. Ficou observando a chuva que parecia finalmente diminuir e até jogou o arco em um canto para ficar brincando com suas flechas, amolando-as e cravando-as no chão. Foi enquanto fazia essa idiotice que aconteceu algo inesperado.

    Um guarda retardatário apareceu meio que cambaleante pela noite, talvez do encontro secreto com alguma mulher. Seus olhos correram de Pepelu para os os seus companheiros abatidos e imediatamente ele começou a correr em direção a Thais disparando rajadas de energia para o céu.

    Pepelu ficou nervoso. Esqueceu-se onde tinha deixado o arco e ao encontrá-lo não conseguia mirar direito. Respirou fundo umas duas vezes para focar-se no que estava fazendo. Ao finalmente montar sua arma, o homem já estava tão longe que seria difícil mesmo para um arqueiro de elite acertá-lo. Só que não havia outra escolha. Pepelu atirou.

    A flecha voou silenciosamente pelo céu negro. O guarda nem sequer notou que estava sendo atacado. Pepelu ficou a torcer.

    O resultado, porém, fora mais desastroso do que o imaginado. A distância e a força dos ventos, desviaram a seta da trajetória planejada e, ao invés de atingir uma das articulações do guarda, o que jogaria-o no chão, ela o atingiu direto na cabeça.

    Agora todo o corpo de Pepelu tremia. Matara um guarda da sua própria cidade. E talvez sem sentido algum, pois o homem havia feito um barulho dos infernos.

    As gotas de chuva batiam como pedras na cabeça do arqueiro, que procurava agir da maneira mais racional possível. Haveria dado tempo dos temidos reforços serem alertados? Talvez não, afinal ele estava ainda bem distante dos muros thaienses; mas talvez as rajadas para cima fossem um sinal previamente combinado. O mais certo seria fugir dali imediatamente, mas não podia fazê-lo sem avisar a Arieswar, ou mesmo sem pegar a chave. “Eu tenho que recuperar essa maldita chave”, pensou ele, afinal ela era o motivo da sua presença ali, e não podia deixar que tudo isso fosse absolutamente em vão. Então ele tomou coragem e pôs-se a descer os degraus que o levariam ao andar subterrâneo.

    Soldados caídos no chão e placas com números apagados foi tudo que Pepelu viu por entre os primeiros corredores mal-iluminados que passou. Chegou a pensar se não teria pego algum caminho errado até que identificou as primeiras celas. Correu por todas elas procurando por sinais de alguma que tivesse sido aberta, tombando no caminho em mais e mais soldados carcereiros e causando o maior rebuliço nos presos.

    - Alguém viu o homem que passou por aqui? – perguntava ele, aos berros – Alguém viu?

    Entre o tumulto generalizado ele ouviu respostas mandando-o descer ainda mais e com isso ele rumou novamente às escadas e chegou no que parecia ser, enfim, o último andar. Um corredor tão estreito quanto os outros o levava a uma grande porta branca, vizinha a uma cela que estava – para a excitação de Pepelu – escancarada.

    - Arieswar, até que enfim te achei, vamos sa...

    Mas ele nunca chegou a terminar a frase. Desta vez ele ficou tão apavorado que seu corpo não tinha forças nem mesmo para se tremer. O ar pareceu congelar e não havia como respirar, enquanto que as pernas ameaçavam desabar a qualquer instante. De fato até mesmo sua alma parecera esvair-se ao ver que naquela cela encontrava-se, além de Arieswar e Lynda, o homem da igreja.
    ...

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  2. #2
    Avatar de ConanBrutus
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    Eu não tenho muito conhecimento do assunto para julgar a história, mas eu li todos os capitulos e achei realmente interessante, então tive que postar aqui pra deixar os meus parabéns ao escritor

    Esperando anciosamente o próximo capítulo^^
    E se você cair eu posso até não conseguir te segurar, mas com certeza te ajudo a levantar!

  3. #3
    Avatar de Dex~
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    Uma história visivelmente bem escrita, ainda mais pra quem já que era fã do outro Ferumbras.

    Também só vim dar os parabéns, tá favoritado, esperando próximos capítulos. Espero ver bastante ação!



    There's a place where the sun shines brighter
    There's a mountain that climbs to the stars...


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  4. #4
    Avatar de Kamus re
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    Galera, sumi por uns tempos por que estou novamente revendo a história, mas enquanto isso vou postar a que já estava escrita.
    Capítulo 10 - Ferumbras



    Não podia ser. Alguma coisa tinha de estar errada. Como estariam, naquela cela da prisão thaiense do Campo Santo, reunidos Lynda, Arieswar e o homem misterioso que a atacara na igreja na noite de Fechar de Estações? Não podia ser verdade!

    Mas era.

    O olhar desde aquela noite causara insônia a Pepelu estava novamente cravado em si. Olhos profundos, penetrantes, capazes de furar até uma rocha, faziam o mundo do arqueiro girar, enquanto que algo gritava em sua cabeça. Por um momento ele achou que fosse desmaiar, mas Arieswar segurou-o firmemente pelo pulso e evitou que Pepelu caísse para trás.

    - Se acalme, Pepelu. – falou ele sendo a própria voz incapaz de passar segurança – Está tudo certo.

    Está tudo certo? Como ele podia falar isso? Se havia algum lugar em toda a terra de Tibia e em todos os mares de Sula em que nada estava certo era ali.
    O que é que estava acontecendo afinal? Essa era a pergunta que Pepelu mais queria fazer caso a voz conseguisse sair de sua garganta. Enquanto isso o sujeito da igreja ia tirando seus olhos penetrantes de cima de Pepelu, aclamando um pouco o arqueiro, mas deixando claro que o havia reconhecido. Agora seus olhos repousaram em Arieswar, e ao cavaleiro perguntou, na mesma voz rouca que o arqueiro já ouvira:

    - O que este garoto está fazendo aqui?

    - Está comigo. Veio me acompanhar.

    Pepelu agradeceu a todos os deuses que o homem não voltou a encará-lo. Desde que ele se virou para Arieswar parecia que o ar havia voltado a ser respirável.

    - Há alguma coisa que eu possa fazer por você, Pepelu? – perguntou o cavaleiro.

    - Ignore-o, Arieswar. – falou o homem dos olhos profundos. Pepelu gelou – Dou um estalar de dedos para que esse infeliz suma daqui imediatamente ou sua alma vagará pelo Grande Vazio ainda hoje.

    Pepelu sentiu os cabelos da nuca arrepiarem-se. Precisava da chave. Por Banor, só isso que ele precisava.

    - Vi que ele prefere morrer. – sibilou o homem.

    Sem opção, Pepelu decidiu não contrariá-lo e subiu as escadas o mais rápido que pôde, tropeçando em metade dos degraus. Lamentava-se demais pela chave, por Diogo e até mesmo por Arieswar, embora, no seu íntimo, o arqueiro não reclamaria se o cavaleiro fosse pro inferno naquela noite. Apenas agradecia por ter saído vivo.

    Arieswar, o homem e Lynda ficaram observando aquela cena até o barulho dos passos de Pepelu e dos novos gritos dos prisioneiros cessarem por completo.

    - Então, onde estávamos? – perguntou Arieswar.

    O homem cruzou os braços e se endireitou para retomar com o guerreiro da corte a conversa interrompida pela chegada de Pepelu. Muito além dum olhar atormentante, ele evocava um poder inexplicável, que parecia emanar de todo o seu esguio corpo; começando das cicatrizes no seu rosto até as botas de couro brilhante.

    - Eu estava respondendo a você quem sou e o que estou fazendo aqui. Como já disse, meu nome é Ferumbras, mas antes de terminar devo parabenizá-lo pela sua atuação com aquele garoto. Você chegou mesmo a dar a impressão de que não estava com medo.

    Arieswar engoliu a provocação quieto, mesmo com Lynda apertando sua mão com mais força. Não havia muito o que fazer, afinal.

    - Mas, voltando ao assunto, o que acontece é que eu e sua namoradinha temos um certo...hã, assunto pendente. Tentei resolver isso no dia da festa de vocês, thaienses, porém admito que não aproveitei a oportunidade. Só não esperava que seu sábio rei, meses depois, fosse trazê-la a um local tão solitário e desolante, onde teríamos todo o tempo do mundo para conversar sem sermos interrompidos.

    - Você invadiu a cidade?! Você é o homem da igreja?

    - Foi uma exibição de gala, não foi? Me desculpe a falta de modéstia, mas, sim, fui eu.

    - Por quê?

    - Ora, Arieswar, todos nós temos nossos probleminhas com Thais. Você é um bárbaro também, deve entender isso.

    Mas Arieswar estava aflito demais para se concentrar nisso. Apenas olhava para Ferumbras enquanto se perguntava se seria esse homem realmente tudo o que parecia ser.

    - E Lynda? O que você tem a ver com ela?

    - Ah – falou ele com uma cara de desapontamento -, então ela não te contou? Bom, pode ser que tenha sido uma surpresa para ela também, mas já devia ter aberto o jogo. Ora, Lynda, é assim que você quer começar um relacionamento?

    A única reação da moça foi apertar a mão do companheiro com tanta força que as extremidades dos dedos de Arieswar quase estouraram de tanto sangue acumulado. Um grande pesadelo do seu passado estava vindo a tona, e ela não desejava que Arieswar –seu querido Arieswar – sofresse por isso.

    Eis que de repente um barulho corta a atenção dos três. Os gritos dos prisioneiros nos andares superiores recomeçaram e algo marchava apressadamente pelos corredores.

    - Os reforços chegaram. – informou Arieswar.

    Ferumbras tomou a notícia como se informado de que iria chover no dia seguinte. Descruzou os braços e foi se encaminhando vagarosamente para fora da cela.

    - Como sou um sujeito muito generoso vou deixar que o casalzinho tenha a oportunidade de discutir a relação. Estão vendo aquela porta ali? – e apontou para a única do corredor, grande e branca – Ela é uma saída de emergência. Vocês podem ir embora e refletir sobre a vida. A menos, é claro – e ele fez uma pausa para que ouvissem o marchar dos soldados -, que queiram assistir ao espetáculo.

    Aos gritos desesperados de Lynda, Ferumbras ergueu a mão direita para a grande porta branca e essa imediatamente ruiu como uma grande bolacha que se esfarela nas mãos de uma criança desastrada. Os poucos prisioneiros daquele andar corriam feito loucos por sua celas, batendo-se contra as paredes e rogando pelos deuses.

    - Parem onde estão! – falou o primeiro dos muitos guardas que enfim chegavam ao corredor.

    Sem querer saber de mais nada, Arieswar correu desenfreadamente segurando Lynda pelas duas mãos até uma grande escada em espiral que era a saída de emergência. Os primeiros degraus até cederam um pouco após serem pisados, devido à força do golpe de Ferumbras, mas isso foi completamente ignorado por eles. Todas as forças dos dois estavam voltadas inteiramente em escapar do lugar no qual agora, como podiam ouvir perfeitamente, estava sendo transformado em um grande matadouro de guardas thaienses.

    Ao fim da escada, eles deram de cara com um alçapão, aberto aos murros por Arieswar. A liberdade os recebeu com grossos pingos de chuva e muita lama. Ainda de mãos dadas, eles correram desenfreadamente até o cavalo que Arieswar havia sabiamente deixado amarrado a uma árvore durante a tarde. O animal, que tentava-se proteger por debaixo dos galhos mais grossos, assustou-se com os dois seres desesperados que agora montavam em seu lombo e o esporavam para que ele galopasse tão rápido quanto fosse possível.

    A medida que a grandiosa cidade de Thais foi se tornando uma pequena casa de bonecas muito iluminada na visão noturna, Lynda agarrou Arieswar firmemente, encostou a cabeça em seu ombro e começou a chorar.

    O cavaleiro, ainda com a cabeça cheia de dúvidas e incertezas, só pôde pensar nas noites em que seu caminho cruzava com o de Ferumbras e de como elas tinham o poder de mudar sua vida.

    ****

    Passariam-se horas e horas até que os sóis-irmãos, Fafnar e Suon, reaparecessem nos céus de Tibia, e por nem um segundo sequer o arqueiro Pepelu cogitou dormir naquela terrível noite. Como os portões da cidade de Thais permanceciam fechado até o amanhecer do dia, ele embrenhou-se em um dos bosques das redondezas e esperou, na copa de uma das árvores, que essa hora enfim chegasse.

    Sua cabeça fervilhava de pensamentos, que mesclavam a decepção por ter perdido a chave-mestra talvez para sempre, a curiosidade quanto ao que acontecera no Campo Santo após a sua saída, mas, acima de tudo, a felicidade por ainda estar vivo, mesmo sem a noite ter acabado.

    Por causa deste último fato, do alto daquela árvore Pepelu rezou, e muito, para todos os deuses e deusas que conseguiu se lembrar. Pedia sempre que o protegessem naquele momento difícil, que não fosse achado por ninguém e que tivesse a oportunidade de viver até o outro dia para que pudesse escapar de tamanho pesadelo junto com sua família.

    Por falar nela, toda vez que Pepelu lembrava-se que havia deixado Kala e Eurídice adormecerem tranquilamente, sem nem desconfiarem que podiam nunca mais vê-lo, ele chorava copiosamente. O que teria acontecido se ele tivesse morrido? Como ele pôde por em risco a vida das pessoas que mais amava em troca de uma maldita chave? Será que o inferno seria punição boa o bastante para um bastardo idiota como ele?

    O nascer do dia, contudo, deu a Pepelu a certeza de que as divindades atenderam suas preces.

    Ao descer até o chão ainda enlameado, e senti-lo sob os seus pés, ele enfim se deu conta de que pela segunda vez encontrara aquele homem misterioso e pela segunda vez escapara ileso. Será que muitas pessoas já teriam repetido esse feito? Será que Arieswar e Lynda entrariam para esse seleto grupo ou não? Concentre-se, pensou Pepelu, deixe Fafnar e Suon levarem, ao menos por agora, as lembranças daquela noite. Você ainda tem que voltar para casa.

    Ao ver um dos portões thaienses sendo abertos preguiçosamente por um guarda cansado da noite sem sono, Pepelu não pôde conter um sorriso. Estava de volta às ruas imundas, aos guardas rudes e ao filho de uma cadela do rei Tibiano. E estava feliz com isso,

    - Opa, opa! Alto lá! – repreendeu um dos guardas do portão ao vê-lo entrando – E você, quem é?

    - Eu sou Crispin Pepelu, filho de Martin, dono do Armazém.

    O homem pareceu pouco convencido. De fato Pepelu estava maltrapilho, parecendo um mendingo. Estava pronto para ser revistado e interrogado de cima a baixo.

    - Esse é o amigo do capitão Natharde, Yurzaf! – falou outro guarda, que vinha chegando por detrás – Minha nossa, meu rapaz, mas o que aconteceu com você? Anda apanhando da sua esposa, é?

    Ele sorriu, cansado. Incrível como Diogo o ajudava mesmo à milhas de distância.

    - Desculpem-me, mas tenho que ir.

    O arqueiro correu o quanto pôde até chegar na Travessa do Pântano, onde dirigiu-se até a famigerada casa de número 38. Na pressa, esqueceu-se até de onde havia guardados as chaves de casa, e enquanto perdia tempo procurando no molho aquela que abriria sua porta, Kala fez isso por ele.

    - Ai, graças aos deuses!

    Suas olheiras indicavam que ela era mais uma das pessoas que não havia dormido aquela noite. Certamente acordara em algum momento e, não sentindo a presença do marido na cama, ficou a esperar-lhe. Com Pepelu finalmente de volta, ela atirou-se em seus braços, primeiro chorando, depois dando-lhe a maior de todas as broncas que o arqueiro já recebera na vida.

    - COMO VOCÊ FAZ ISSO? COMPLETAMENTE IRRESPONSÁVEL! EU E SUA FILHA...

    O arqueiro, no entanto, estava ainda completamente transtornado. Beijou-a com toda a força, quase arrancando-lhe os lábios e depois se atirou dentro de casa, agora ignorando a mulher quase que completamente. Só de tocá-la por aqueles instantes sabia que tudo o que havia de valor ainda estava ali presente.

    - O que você está fazendo, Cris? Fale comigo!

    Mas o arqueiro não lhe dava atenção. Correu para o quarto, no segundo andar, e abriu uma mala onde começou a atirar roupas suas e da sua mulher. Depois abriu uma das gavetas onde guardava o dinheiro do casal e socou-o nos bolsos de qualquer maneira. Kala observava tudo muito assustada.

    - O que está acontecendo, Cris? Por favor, me responda!

    - Precisamos sair daqui. – falava ele, fazendo várias coisas ao mesmo tempo.

    - Por que? O que significa tudo isso?

    - Precisamos sair daqui, Kala! Onde está Eurídice?

    - Dormindo no berço. C, Cris, o que está havendo? Pelo amor de Banor, me
    responda!

    Mas ele só se preocupava em reunir tudo o que julgava importante o mais rápido que pudesse. Foi quando se encaminhava para o quarto da filha que batidas na porta cortaram seu raciocínio. Quem poderia ser àquela hora da manhã?

    Precavido, Pepelu sacou sua balestra e abriu a porta com um chute, exatamente com fizera quando recebera Arieswar em sua casa. E, exatamente como naquela noite, teve uma surpresa. Era Hesperides, o druida.

    - Abaixe essa arma, Pepelu, por favor. Eu sei de ontem a noite.

    O arqueiro obedeceu no mesmo instante. Seu rosto, suado e lívido de medo contemplava a imponente figura do grande druida. Atrás de si, Kala desatou-se a chorar.

    - O que é isso? – gritava ela – O que está acontecendo aqui?

    Aquilo foi para Pepelu como um tapa na cara, despertando-o para a realidade. Ele abraçou a esposa, tentando passar-lhe toda a segurança que podia e fez sinal para que Hesperides entrasse. Kala não merecia passar por tudo aquilo, muito menos Eurídice, e ele decidiu que a partir daquele momento suas vidas teriam de se tornar mais tranquilas.

    - A senhora me desculpe se estou sendo incoveniente. – falou o druida, apaziguando o ambiente – Pepelu, se pudéssemos conversar a sós.

    - Não. Vamos conversar aqui mesmo. É mais que direito de Kala saber de tudo.

    Hesperides assentiu com a cabeça. Os três sentaram-se.

    - Na verdade, Pepelu, eu preciso saber exatamente o que aconteceu. Assim que os portões foram abertos, recebi um menino em minha casa que havia sido pago por Arieswar para me procurar e contar-me uma história um tanto quanto fantasiosa. Agora eu quero a sua versão.

    Pepelu coçou a cabeça. Mal começara um novo dia e teria de reviver momento a momento daquela noite angustiante que vivera. Entretanto, era melhor que ele se acostumasse, pois a partir daquele dia o homem da igreja seria muito mais presente em sua vida.


    ****


    O canto dos pássaros cortava os céus daquela tímida manhã do período de Saída. Nessa estação do ano, uma das três do calendário thaiense, as terras cultiváveis iam reaparecendo, já que encontravam-se escondidas pelas águas que enchiam durante a época anterior. Agora, muito mais férteis e ricas em nutrientes levados pelos rios, logo essas terras seriam usadas na semeadura, que, embora fosse uma ação humana, tinha resposta imediata da natureza. As aves, por exemplo, sempre desciam ao solo procurando sementes recém-plantadas, na maioria das vezes com muito êxito, empanturrando-se de alimento. Os predadores dessas aves, por sua vez, atentavam-se a esse fato e aproximavam-se das áreas cultiváveis. Isso levava a um aumento considerável no número de pequenos felinos e outros mamíferos, sendo a de semeadura ideal para a caça esportiva.

    Às margens do Rio das Pedras, porém, não haviam aves. Praticamente intocada pelo homem, a região, entre Kazordoon e Ab’Dendriel, era submetida ao domínio élfico. Apenas uns poucos desses seres arrogantes a ponto de se dizerem a criação final do deus Uman podiam transitar por aquelas terras misteriosas com o total consenso dos seus habitantes legítimos. Arieswar era um deles.

    Após diversas missões para o local sob a tutela dos reis thaienses, o guerreiro cativou até mesmo os frios elfos e conquistou deles o respeito e admiração. Agora, em apuros, essas criaturas mágicas o cederam uma pequena casa de pau-a-pique próxima ao Rio das Pedras onde ele “poderia pernoitar com a adorável moça que o acompanhava e descansar o cavalo no qual montavam”. O problema é que, preocupado com a harmonia entre as partes, Arieswar poupou dos elfos o detalhe insignificante de que não mais era um comandado da coroa - muito pelo contrário, estava fugindo dela.

    Contudo agora isso não importava para ele.

    Tudo que o exausto cavaleiro queria era dormir um pouco e esquecer tudo que passara aquela noite, mas isso não foi possível. Mesmo em seus sonhos as terríveis imagens de Lynda encarcerada, de Ferumbras e seu massacre e da sombria cavalgada durante a noite ainda o pertubavam. Sendo assim, o melhor que ele pôde fazer foi sair e caminhar sem rumo pelos grandes bosques cortados pelo Rio das Pedras.

    Observando os primeiros raios dos sóis cintilarem nas águas turvas do rio que se originava nas rochas da cidade de Kazordoon, ele resolveu dar um mergulho revigorante. Tirou a jaqueta, a camisa, o codpiece e ia tirando as calças, quando, para sua surpresa, ouviu o tintilar da chave do capitão Natharde.

    A primeira reação de Arieswar foi cair na gargalhada, se despir por inteiro e dar um bom mergulho no rio. A ida de Pepelu, afinal, havia sido inútil. O bastardo esteve a ponto de ser morto a troca de nada. Era realmente algo engraçado de se pensar, mas no fundo o cavaleiro sentia um pouco de pesar. Não que ele se importasse muito com a vida de Pepelu, mas ficaria triste em saber que Kala e a menina – como é mesmo o nome dela? – estariam desamparadas.

    Após sair do rio, sua companhia até os sóis ficarem altos no céu fora seu cavalo castanho chamado Aslan, um Puro Sangue Thaiense, raça escolhida a dedo para o guerreiro. Era alto, com o lombo quase do tamanho de Arieswar, forte e bom para longas viagens. O cavaleiro ficou a monologar com ele por um bom tempo, já que Lynda havia conseguido dormir, talvez por já ter passado noites piores na prisão, e Arieswar não queria incomodá-la. A moça só reapareceu muito depois, quando o cavaleiro e sua montaria repousavam sob a copa de uma grande amendoeira.

    - Bom dia. – falou ela timidamente.

    Arieswar abriu um sorriso. Depois de tanto tempo ele finalmente voltava a ver aqueles cabelos dourados brilhando à luz do dia.

    - Bom dia. Você está bem?

    Ela balançou a cabeça em sinal de positivo e sentou-se ao seu lado num dos grandes rochedos que margeavam e davam nome ao rio.

    - Me desculpe por tudo que eu estou fazendo você passar, Ari.

    Ele respondeu passando o braço por seu ombro, abraçando-a como não fazia a dias. Lynda apoiou a cabeça em seu peito e sentiu, por uns instantes, que todos os problemas do mundo haviam passado. Todos, menos um.

    - Ari...por favor...

    - Me ouça, Lynda. – interrompeu ele – Já falei que estamos juntos nessa. Podemos estar correndo o maior dos riscos, mas vamos fazê-lo juntos. Você me entendeu?

    - Você...não conhece Ferumbras.

    - Mas você conhece! Não sei o quanto, nem o porque, já que você nunca teve coragem de me contar, mas se houvesse algo realmente inevitável de se saber garanto que você já teria me falado. Ou não?

    Ela parou um pouco, fechou os olhos e respirou fundo. Seus cabelos loiros e ondulados dançavam conforme o vento ressaltando os traços do seu rosto.

    - Você nunca se perguntou o porque da Igreja onde eu moro ter pertencido sempre a minha família, desde o começo dos tempos?

    - Já, mas nunca descobri. E olhe que eu procurei nos arquivos do governo, mas eles não constavam muita coisa.

    - Eles foram apagados, segundo disse o meu pai. – respondeu Lynda prontamente – Nossa família vêm mantendo junto aos reis thaienses um segredo desde o surgimento da cidade.

    Arieswar demorou uns segundos para entender aquilo. Surgimento da cidade? Da cidade de Thais?

    - Talvez você já tenho ouvido a fábula dos dois irmãos, Ari. Uma história infantil que os pais thaienses contam aos filhos. Uma sobre uma fonte mágica...você a ouviu quando criança?

    - Fonte mágica? Bem, no Porto Norte eu conheço a da Fonte da Sorte, seria essa? Uma que dois amigos procuram a fonte que daria coragem ao medroso da dupla?

    - Sim! – exclamou ela – Mas a versão original fala de dois irmãos, sendo que um era doente, e não medroso, e a fonte lhe daria saúde. Creio que os finais sejam iguais.

    Arieswar lembrou-se de ter ouvido o conto há muitos anos e Lynda fez questão de contá-lo novamente. A busca, a princípio sem resultado, dos irmãos para encontrarem a fonte acaba gerando muitas desavenças entre eles. Quando a relação entre os dois está pior do que nunca o mais novo resolve fugir e acaba encontrando numa gruta a sonhada fonte. O problema é que dois poderosos magos a guardam, e cabe ao mais velho eliminá-los. Feito isso o irmão mais novo pode banhar-se nas águas que o curariam das enfermidades, mas algo estranho acontece e ele cai morto. O irmão mais velho, desesperado, ouve de um dos magos derrotados que esse é o preço que se paga por usar da fonte sem ser escolhido pelos deuses. Haveria, contudo, um jeito de reverter a situação; bastava o irmão vivo aceitar trocar de lugar com o mais novo.

    - Mas você não morrerá de imediato! – falou o mago, ele mesmo desfalecendo – Seu irmão era muito frágil, mas você, saudável, há de resistir para penar até a morte por ter usado da fonte sem ser merecedor.

    E a escolha do irmão mais velho foi feita. A vida do mais novo, a partir daquele dia, foi longa e venturosa, sem que ele jamais soubesse que apesar de todas as desavenças e brigas o amor fraternal havia feito o seu irmão salvar-lhe a troco da própria felicidade.

    - É uma bonita fábula. – falou Arieswar – Poucos fariam o que ele fez.

    - Pois é, Ari, mas acontece que não é apenas uma fábula. Os irmãos da história são meus ascendentes.

    O cavaleiro tentou prender a risada.

    - Acredite, Ari! Esse é o segredo que guardamos a tempos! Esse caso foi transformado propositadamente em fábula para que as pessoas a olhassem assim. As vezes os maiores segredos são os que colocam bem embaixo do nosso nariz.

    Fazia sentido.

    - Mas...qual o motivo disso estar escondido a sete chaves até hoje? E o que tem a ver com Ferumbras?

    - O grande problema é que a fábula só conta a história até aí. Acontece que o mais velho passou o sangue dele adiante, e desde então seu fardo vem se repetindo em minha família de geração em geração, ora como benção, ora como maldição.

    Arieswar arregalou os olhos.

    - Como...como assim?

    - Não sei. – disse Lynda com os olhos já lacrimejantes – Só sei que algumas pessoas da nossa linhagem nascem com estranhos poderes, entre eles o de...reviver alguém.

    Aquilo não fazia sentido. Como algo podia ser passado adiante daquela forma? Seria Lynda abençoada ou condenada à desgraça?

    - Então, Ari – continuou ela, chorando -, você imagina o quanto nossa família foi perseguida e manipulada por causa disso. Uns crápulas thaienses nos trancafiaram naquela Igreja e nós passamos a ser obejto de observação até hoje. Acho que isso por si só já é uma maldição!

    - E você, Lynda? E quanto a você?

    - Minha vida, Ari, foi salva. Outro sacríficio, mas em condições totalmente diferentes. Eu tinha uma irmã; aliás...não tinha, tenho! Nela se manifestou a magia, então meu pai...- e ela começou a chorar copiosamente – meu pai...ele a deu quando éramos muito pequenas!

    - A deu? – Arieswar sacudiu a cabeça com violência – Como assim a deu? Pra quem?

    - Adivinhe!

    As mãos do cavaleiro gelaram. Não, não, não. Não podia ser!

    - Ferumbras!

    Uma cortina de ferro havia sido arrancada entre Arieswar e Lynda. Mesmo
    nas suas mais pessimistas suposições ele não havia sido capaz de pensar em algo tão profundo e inquietante. Não à toa a sacerdotisa se jogou em seus braços, chorando e apertando-o tão forte como se quisesse unir os dois em um só corpo.


    ··Hail the prince of Saiyans··

  5. #5
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