Capítulo 9 - O campo Santo


Arieswar novamente saiu de sua casa trajando a capa vermelho-vinho que há muito recebera das mãos do rei Yorik I em pessoa. Aquele, aliás, era um dos momentos que jamais sairiam da sua memória; o momento de maior glória do pobre menino nascido no Porto Norte, que com muita garra e determinação estava sendo admitido para fazer parte da elite da elite dos soldados: os guerreiros da corte, guarda-costas particulares de Sua Majestade.

“Leve esta capa vermelha consigo em todas as ocasiões” – falou Yorik na cerimônia de admissão – “Ela servirá, em última instância, para que jamais um lutador comum veja o sangue de um guerreiro da corte”.

Agora, porém, Arieswar não tinha mais o mesmo orgulho de ostentá-la. O rei a quem devia proteger estava tiranizando o seu próprio povo, já que os bárbaros haviam sido demasiado responsáveis para a soberania de Thais.

Nos últimos meses a vida de todos, mas principalmente a dos quatro guerreiros da corte, havia mudado radicalmente. Agora sempre havia missões extraordinárias a se realizar, protegendo o rei ou altos membros do Senado, como o conselheiro Nantes, nas visitas a locais taxados de “inóspitos à presença real”. Em tais visitas Arieswar, Acanthurus, Dragonslayer e Hesperides viam a real situação que os governantes tentavam esconder através de documentos efêmeros.

As condições de vida nos lugares menos fiéis a Thais, principalmente vilas na área de influência de Carlin, eram subumanas. As visões de miséria e desalento deixavam Arieswar enojado e o estopim de sua angústia acontecia sempre que era enviado a Svargrond, onde, ao fim de cada dia, a neve sempre estava tingida de sangue e o ar parecia mais pesado, carregado de doenças e morte.

Como diria seu velho pai, caso cobradores de impostos thaienses não o tivessem matado, “o sangue é algo muito forte, meu filho”, e agora era o sangue do antigo menino marginalizado, que ele nem sabia que ainda existia, que pulsava tão forte em suas veias que fazia sua cabeça latejar.

O impiedoso Arieswar, temido por seus adversários e acostumado com a morte, não resistia mais ao ver serem massacrados velhos amigos, conhecidos ou até estranhos. Ficava inconformado só de pensar que a maioria das pessoas que agora sofriam havia trabalhado firme para sustentar famílias que já não existiam, sonhos agora intangíveis ou apenas a liberdade, e, indubitavelmente, durante esse processo, contribuíram para a riqueza dos cofres thaienses.

A válvula de escape para o guerreiro, que ao longo de sua vida sempre fora passar ao fio da espada os inimigos carlinianos que cruzassem seu caminho, se chamava Lynda, e, até pouco tempo podia ser encontrada num pequeno aposento sob a Igreja da Criação, cravada, e aparentemente esquecida, entre dois monumentos em homenagem a grandes reis passados na praça principal da cidade de Thais.

Todas as vezes que havia tempo vago para ambos, Arieswar selava seu cavalo e rumava a igreja. Ele já sabia todos os horários de Lynda e sempre aparecia antes ou ao término dos cultos por ela realizados, quando era recebido com carícias e abraços. O sentimento entre os dois, meio às escondidas, era tão jovial que fazia florescer no peito de Arieswar um adolescente livre e desempedido. Não que ele não tivesse se divertido com as relações de apenas uma noite com as raparigas que sempre se ofereciam a ele, mas nunca seu peito parecera arder em chamas como quando estava com Lynda. Já para a moça, as visitas de Arieswar representavam um motivo para continuar ali, naquela velha igreja, onde seu passado aterrorizante nunca desapareceria.

Esse assunto, aliás, já havia sido banido das conversas entre os dois. Lynda convencera o cavaleiro de que não era ainda o momento de abrir-se e revelar alguns dos suas confidências mais íntimas e ele respeitava sua opção. O que ele não podia era deixar de preocupar-se com a aparente vigilância que a sacerdotisa parecia receber.

- Eu temo o que possa acontecer quando não estou por perto, Lynda.

- Não se preocupe, Arieswar. – dizia ela – Nós dois somos sobreviventes. Estamos nesse mundo contra tudo e todos e apenas por nossa teimosia em continuarmos vivos e felizes. Aconteça o que acontecer iremos, no fim, ficar bem; e juntos!

Aquela certeza de Lynda era algo inquietante. Ela aliviava o cavaleiro, mas o dava a impressão de que talvez ele não estivesse pronto para viver a vida caso as melhores profecias não se concretizassem.

Agora, andando por aquelas ruas com sua capa vermelha a zunir detrás de si, ele viu que a verdade era mesmo aquela. O pior havia acontecido com a prisão de Lynda e ele não mais conseguia imaginar sua vida sem a moça. Os dois se completavam tão perfeitamente que parecia estranho a Arieswar como há apenas alguns meses ele se gabava por ser sozinho, poder experimentar um pouco de todas as mulheres e não ser responsável por nenhuma enquanto que, naquele momento, a única mulher que lhe dava prazer estava sob custódia do rei.

Então era com o rei que ele deveria falar antes de tomar a medida final.

Arieswar marcou um encontro com Tibiano na Sala de Reuniões II, onde Tibiano encerraria um tópico qualquer com alguns membros do Senado e depois ficaria à disposição do seu cavaleiro particular. Este, por sua vez, chegou no castelo bem cedo afim de não haverem imprevistos e notou que, como sempre, as pessoas abriam espaço para que ele passase pelos corredores mais estreitos; secretamente ele se perguntou se aquilo duraria muito mais tempo.

Parando a frente da sala combinada, ele encostou-se no parapeito de uma janela e pôs-se a esperar. Se aguçasse os ouvidos conseguiria pegar detalhes da reunião de Tibiano, mas preferiu usar seu tempo para pensar nas palavras certas a serem ditas. Precisava ser firme e direto.

Terminada a reunião, a ansiedade do cavaleiro aumentou ao ver saírem vagarosamente cada um daqueles convidados. Contudo, sabendo como as coisas se procediam quando se tratava do rei de Thais, continuou a esperar para ter a certeza de que a sala estava realmente vazia. Sempre havia, afinal, alguém que ficava mesmo depois de todos os outros irem embora, fosse para fazer algum pedido particular ao rei ou simplesmente bajulando-o um pouco mais. Quando finalmente os retardatários abandonaram a sala, Arieswar entrou, respirando fundo.

- Feche a porta, por favor, Arieswar. – pediu o rei sem nem levantar a cabeça.

Tibiano estava sentado à cabeceira, como de costume, e brincava com uma pena longa enfiada num tinteiro. Sua expressão era de quem havia envelhecido bastante em pouco tempo. As rugas estavam muito mais aparentes e os cabelos brancos se aglomeravam em generosos tufos tanto na cabeça quanto na barba. Seu olhar opaco poderia enganar qualquer um que não o visse brilhando de glória toda vez que o assunto Svargrond era tratado.

Arieswar prestou-lhe uma reverência e contemplou seu semblante. Parecia desinteressado com o que quer que o cavaleiro tivesse para falar.

- Só peço que se for para falar daquela mulher, poupe seu tempo. Nosso tempo, aliás.

Arieswar hesitou. Foi uma ducha de água fria.

- Me desculpe, Majestade, mas ela não é “aquela mulher” para mim e para isso peço a sua compreensão.

O rei nada falou, apenas ficou em silêncio indicando que ele podia prosseguir.

- Vim pedir-lhe pela última vez que a liberte. Não imagino quais sejam as histórias que se escondam sob o teto daquela igreja, mas creio que elas possam ser reversíveis. Como guerreiro da corte e prestador leal de serviços a Thais durante tantos anos, queria fazer-lhe esse pedido.

- Eu reconheço sua importância para a nossa cidade, Arieswar, mesmo você não tendo sempre feito parte dela. – falou ele essa frase em tom paternal, porém duvidoso – Acontece que infelizmente não poderei realizar seu pedido, meu caro. Há muita coisa envolvida. Você nem faz idéia.

- Então por que ninguém me faz ter idéia? Por Banor, sinto-me sendo tratado como um garoto.

- Para não envolvê-lo ainda mais. Precisamos integralmente de seus serviços, e é melhor que não se exponha além do necessário. Afinal, você é...como Yorik falava mesmo? Ah, sim! Nossa “jóia” da coroa.

Arieswar sentiu a falsidade de cada uma daquelas palavras. Estralou os dedos para conter a tensão.

- Desculpe, Majestade, mas eu já estou envolvido. – falou ele, repetindo exatamente o que tinha dito para Lynda certa vez - Eu não posso apenas sair por aquela porta e fingir que nada disso aconteceu.

O rei parecia cansado. Levantou-se da sua cadeira acolchoada e passou a mão pelo ombro de Arieswar.

- Ouça bem, meu caro. – falava ele enquanto andava a esmo pela sala abraçado com o cavaleiro – Você deve realmente estar sentido com a falta dessa moça, mas não se esqueça de que não lhe conheci ontem, Arieswar. Você sempre foi um pássaro livre para voar! Devo reconhecer que você é bonito, jovem, cheio de prestígio e com todas as mulheres à sua disposição; não me venha com essa paixão sem causa.

Ele não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Paixão sem causa? Era mesmo uma batalha perdida.

- Então – falou ele, saindo do seu abraço -, se tenho mesmo tantas qualidades, talvez vossa Majestade pudesse gastar alguns preciosos minutos ouvindo o que tenho para falar. Estamos perdendo o controle de Thais! Pela primeira vez na história, ou pelo menos na minha história, estou vendo essa cidade não comandar as rédeas da situação. A prisão de Lynda me parece uma atitude tola de quem está desesperado a mostrar aos outros que está fazendo alguma coisa. Vossa Majestade quer passar a todos e a si mesmo a impressão de que está tudo bem, e não está!

“Sei que vossa Majestade não é rei desse império por acaso e já deve ter percebido o que falei, mas vejo que peca ao deixar levar-se por essa onda de soberba thaiense. Svargrond é um erro! Há, como acabei de ouvir, ‘algo muito maior’ por detrás daquele ataque no dia da festa, e é algo que nem eu nem vosa Majestade conhecemos.”

Tibiano ouviu tudo calado, como se engolisse um sapo a cada frase. Arieswar sabia que tinha ido longe demais, mas não se importava, pois sabia que mesmo que aquela conversa não fosse o suficiente para mudar a cabeça do rei, jamais teria o peso na consciência de que não fizera nada.

Agora o mais poderoso dos homens thaienses o encarava, fuzilando-o com o olhar.

- Você continua o menino desobediente do Porto Norte. É mesmo muita sorte que Banor ainda lhe dê essa habilidade fora do comum para as guerras, pois não fosse isso e seu lugarzinho aqui na minha cidade teria se perdido. Está dispensado!

Ele prestou mais uma reverência e saiu da sala sem emitir mais um único som. Agora não haviam mais opções a não ser lutar. Seu sangue fervilhou de excitação.



****



Certamente Nornur, o deus do destino, e Crunor, o deus da natureza, haviam compactuado para agirem juntos naquela noite. Chovia e relampejava constantemente, como numa advertência divina para que todos permanecessem na segurança de suas casas e não se arriscassem na escuridão, onde as entidades malignas se manifestavam com muito mais poder. Alheio a tudo aquilo, porém, estava Arieswar. O cavaleiro, sentado em sua poltrona, diante da lareira, fumava um charuto e tomava uma generosa taça de cognac em tom de despedida da casa que por tantos anos fora o seu lar e que, talvez, nunca mais fosse rever.

Não só aquela casa, na aristocrata Avenida dos Magos, mas toda a Thais havia deixado de ser um lar para Arieswar. O cidadão thaiense, que por tanto tempo ele fingira – e acreditara – ser, agora saía de cena para entrar o velho garoto bárbaro do Porto Norte, que não compactuava com as atitudes imperialistas tomadas pela realeza. Nem mesmo os esforços de seus companheiros mais próximos o impediram de tomar a decisão derradeira de abandonar todo aquele teatro infernal no qual havia feito parte.

- Por favor, Lynda, seja forte! – sussurou ele para si mesmo.

À medida que o tabaco transformava-se quase que inteiramente em cinzas e a taça ficava cada vez mais vazia, a ansiedade crescia no peito de Arieswar. Olhando as grossas gotas de chuva escorrerem pela sua janela, ele ficou a pensar como faria o resgate da sua amada.

Lynda fora levada à uma prisão especial localizada no subterrâneo do cemitério thaiense, chamado de Cemitério do Campo Santo, do lado de fora dos portões da cidade, a leste; uma informação obtida com muita dificuldade pelo cavaleiro. Certamente convinha muito mais ao rei prendê-la em outro lugar, talvez um local mais discreto, contudo certamente a soberba e o sentimento de invulnerabilidade dos membros da corte fossem tamanhos que eles ignoravam qualquer coisa que os desse demasiado trabalho de ser pensado em troca do seu bel prazer.

Arieswar imaginava que os guardas de plantão no local não seriam fortes o suficiente para impedí-lo de chegar à cela de Lynda, porém premeditava que caso tropas extras fossem chamadas, ele estaria em sérios problemas. Obviamete que ele já dava como certo o fato de que pegaria a chave-mestra na mão de Pepelu e poderia com ela abrir as portas de segurança do local.

Não era um plano brilhante. Mas era o único que tinha e, portanto, o melhor.

Deu então uma última tragada no seu charuto e esvaziou a taça de cognac em um só gole. Sem nem se dar ao trabalho de apagar a lareira, vestiu uma grossa capa e pôs a mão na maçaneta para ir embora; não sem antes, contudo, dar uma última olhada para o resto da casa. Enfim, abriu a porta e saiu.

Foi então que a surpresa o atingiu em cheio. Parado bem em frente à sua casa estava Pepelu.

O arqueiro estava encharcado, porém parecia indiferente à chuva que caía. Sua expressão facial era de uma determinação além dos limites. Arieswar não soube bem o que pensar.

- Pepelu – disse ele -, eu estava indo na sua casa agora. O que...o que está fazendo aqui?

- Eu vou com você. – respondeu ele na mesma hora.

Arieswar deu uma risada de incredulidade.

- Você o que? Ouça, rapaz, eu não estou indo dar um passeio nem caçar javalis. Eu estou – e ele titubeou – indo fazer algo muito sério.

- Não interessa. Eu vou com você.

- Olhe, não quero perder meu tempo aqui nessa chuva. Não se meta em confusões, você tem uma família para sustentar.

- Eu prometi a Diogo que tomaria conta da chave, por isso preciso pelo menos acompanhar de perto o que você fará. Ela vale muito para nós e acho que ele me mataria se eu a perdesse.

Pepelu, no entanto, sabia que isso não era de todo verdade. Qualquer outra pessoa poderia sim querer matá-lo por ter perdido um objeto de tamanha importância, mas não Diogo. O capitão certamente passaria a mão sobre sua cabeça e o perdoaria pela sua falha, o que, para o orgulho de Pepelu, doeria muito mais que qualquer surra que podesse tomar. Ele estava cansado de não corresponder às expectativas.

Arieswar não conseguia aceitar a idéia, mas como não tinha o tempo necessário para fazer aquele homem obstinado recuar, decidiu que seguiria sua vontade. Foi andando na frente e deixou que Pepelu o seguisse.

- Então, onde está Lynda? – perguntou o arqueiro.

- Atrás do Campo Santo.

- Atrás do Campo Santo?! O cemitério?!

- Sim, lá existe uma prisão para criminosos de baixa periculosidade. Acabou virando uma espécie de castigo para as briguinhas pessoais do rei.

- Mas ela fica do lado de fora de cidade!

- Eu sei, por isso já tenho um plano.

E Arieswar contou a Pepelu, mesmo a contragosto, que durante a tarde havia usado da sua amizade com um dos guardas notrunos para que o deixasse sair por um portão lateral e que já deixara um cavalo pronto para o caso de precisar bater em retirada. Ao fim dessa rápida conversa, permaneceram em silêncio.

Andando pela cidade, Pepelu notou como ela parecia estar vazia e sem vida. Claro que eles estavam perambulando pela madrugada de uma noite chuvosa, mas ainda assim há alguns tempos atrás haveriam homens bebendo nas tavernas ou comadres incansáveis fofocando à beira de suas casas. O ataque do monstro no dia de Fechar das Estações e suas posteriores consequências transformaram Thais numa cidade triste. Contudo, enquanto a população remoía a tragédia, o que não saía da cabeça de Pepelu era a imagem daqueles olhos profundos do homem na Igreja da Criação.

Foi então que eles finalmente chegaram ao portão combinado entre Arieswar e o seu amigo guarda. Os dois nem se cumprimentaram, apenas entreolharam-se com cumplicidade enquanto o guarda abria espaço para a passagem.

- Tem certeza de que quer fazer isso? – perguntou o cavaleiro a Pepelu pela última vez.

- Agora não dá mais pra voltar, não é?

E de fato não dava. O portão detrás de si fechou-se com um baque surdo e a realidade veio à tona para Pepelu juntamente com o cheiro de terra molhada. Estava do lado de fora da cidade, sem qualquer garantia que voltaria em segurança para ela.

Deram uma pequena volta até chegar a entrada do Campo Santo, que, bem como qualquer outro cemitério, emanava uma espécie de medo inconsciente do desconhecido. Mesmo Arieswar, acostumado com a morte, se incomodava com a presença de algo imaterial e sombrio que parecia se propagar pelo ar e congelar os pulmões. Andaram mais um pouco, até que o cavaleiro fez sinal para que se escondessem atrás de uma lápide.

- Ouça, Pepelu – sussurou ele –, estamos bem perto! Dá para ver aquela entrada ali? Uma que parece uma tumba?

Pepelu esticou o pescoço e viu uma estrutura de pedra bruta sendo protegida por cerca de nove soldados que arrodeavam uma pequena fogueira. Gente demais para uma vigia notruna, pensou Arieswar. Os homens, porém, pareciam desinteressados e sonolentos; certamente não os soava como grande coisa guardar aquele lugar.

- Apesar de estarem fazendo a proteção da entrada, estes são soldados inferiores, basicamente os responsáveis por chamar reforços em caso de incidentes. Por isso é essencial que acabemos com todos rapidamente. Eu vou em dois de uma vez e você atira nos outros, certo?

Pepelu assentiu com a cabeça. Não estava nos seus planos matar ninguém, apenas atingir locais específicos para que eles ficassem impossibilitados de pedir ajuda. Preparou então seu arco e esperou o sinal de Arieswar.

Tudo aconteceu muito rápido. O cavaleiro correu em disparada pegando os homens de surpresa, e enquanto seus cérebros ainda digeriam a informação de que havia alguém os atacando, as flechas de Pepelu cortavam o ar e os atingiam nas coxas e nos tornozelos. Coube a ele então apenas assistir o show de Arieswar, que com uma rara habilidade deixava-os inconsicentes como quem martelava pregos inanimados. Pepelu chegou a tremer pensando que um dia cometeu a loucura de lutar com aquele guerreiro.

Feito o trabalho pesado, os dois se encontraram na porta da prisão.

- Muto bem. – falou Arieswar, ofegante – Agora eu tenho que descer. Por favor me dê a chave.

Pepelu tirou do bolso a chave mágica que aparentemente estava quebrada ao meio e entregou-a ao cavaleiro. Antes de o perder de vista descendo os degraus da prisão, contudo, ele murmurrou:

- Boa sorte, Arieswar.

A partir daí começou a angustiante espera de Pepelu. De onde estava ele não podia nem ver nem ouvir nada que se passava nos andares inferiores e apenas torcia para que Arieswar saísse de lá com Lynda - e sua chave - o mais rápido possível. Porém a medida que o tempo fora passando e isso não acontecia ele começou a ficar impaciente. Empilhou os soldados num canto por duas vezes até lembrar que eles estavam inconscientes e não mortos. Ficou observando a chuva que parecia finalmente diminuir e até jogou o arco em um canto para ficar brincando com suas flechas, amolando-as e cravando-as no chão. Foi enquanto fazia essa idiotice que aconteceu algo inesperado.

Um guarda retardatário apareceu meio que cambaleante pela noite, talvez do encontro secreto com alguma mulher. Seus olhos correram de Pepelu para os os seus companheiros abatidos e imediatamente ele começou a correr em direção a Thais disparando rajadas de energia para o céu.

Pepelu ficou nervoso. Esqueceu-se onde tinha deixado o arco e ao encontrá-lo não conseguia mirar direito. Respirou fundo umas duas vezes para focar-se no que estava fazendo. Ao finalmente montar sua arma, o homem já estava tão longe que seria difícil mesmo para um arqueiro de elite acertá-lo. Só que não havia outra escolha. Pepelu atirou.

A flecha voou silenciosamente pelo céu negro. O guarda nem sequer notou que estava sendo atacado. Pepelu ficou a torcer.

O resultado, porém, fora mais desastroso do que o imaginado. A distância e a força dos ventos, desviaram a seta da trajetória planejada e, ao invés de atingir uma das articulações do guarda, o que jogaria-o no chão, ela o atingiu direto na cabeça.

Agora todo o corpo de Pepelu tremia. Matara um guarda da sua própria cidade. E talvez sem sentido algum, pois o homem havia feito um barulho dos infernos.

As gotas de chuva batiam como pedras na cabeça do arqueiro, que procurava agir da maneira mais racional possível. Haveria dado tempo dos temidos reforços serem alertados? Talvez não, afinal ele estava ainda bem distante dos muros thaienses; mas talvez as rajadas para cima fossem um sinal previamente combinado. O mais certo seria fugir dali imediatamente, mas não podia fazê-lo sem avisar a Arieswar, ou mesmo sem pegar a chave. “Eu tenho que recuperar essa maldita chave”, pensou ele, afinal ela era o motivo da sua presença ali, e não podia deixar que tudo isso fosse absolutamente em vão. Então ele tomou coragem e pôs-se a descer os degraus que o levariam ao andar subterrâneo.

Soldados caídos no chão e placas com números apagados foi tudo que Pepelu viu por entre os primeiros corredores mal-iluminados que passou. Chegou a pensar se não teria pego algum caminho errado até que identificou as primeiras celas. Correu por todas elas procurando por sinais de alguma que tivesse sido aberta, tombando no caminho em mais e mais soldados carcereiros e causando o maior rebuliço nos presos.

- Alguém viu o homem que passou por aqui? – perguntava ele, aos berros – Alguém viu?

Entre o tumulto generalizado ele ouviu respostas mandando-o descer ainda mais e com isso ele rumou novamente às escadas e chegou no que parecia ser, enfim, o último andar. Um corredor tão estreito quanto os outros o levava a uma grande porta branca, vizinha a uma cela que estava – para a excitação de Pepelu – escancarada.

- Arieswar, até que enfim te achei, vamos sa...

Mas ele nunca chegou a terminar a frase. Desta vez ele ficou tão apavorado que seu corpo não tinha forças nem mesmo para se tremer. O ar pareceu congelar e não havia como respirar, enquanto que as pernas ameaçavam desabar a qualquer instante. De fato até mesmo sua alma parecera esvair-se ao ver que naquela cela encontrava-se, além de Arieswar e Lynda, o homem da igreja.
...