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Tópico: Ferumbras

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  1. #1
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    Desculpem pela demora, depois darei mais satisfações a vocês
    Capítulo 5 - O homem da igreja

    O silêncio profundo imediatamente transformou-se em histeria coletiva. Uma grande besta demoníaca estava no centro da festa de Fechar de Estações e no seu primeiro ataque o estrago já fora enorme.

    Dezenas de barracas agora ardiam em chamas e as pessoas, assustadas, corriam e pisotevam-se. Pepelu não conseguia se mover de tanto espanto. Perto dele alguns corpos incinerados o chamavam à realidade. Foi então que ele despertou e num estalo de consciência atirou-se na água da fonte bem em tempo de livrar-se de um novo sopro de fogo do animal.

    Ainda submerso, Pepelu foi até a outra extremidade da fonte para sair com um pouco mais de segurança. Viu que ao seu lado já haviam corpos boiando na água e não conseguia parar de pensar em Kala.

    Atirou-se no chão da praça e olhou por cima do ombro para localizar o monstro; ele estava de costas, indo em direção ao castelo real. Pepelu aproveitou para correr o mais rápido que pôde até onde virar sua esposa sumir de vista, que era mais ou menos o mesmo caminho percorrido pelo demônio.

    Em meio à correria desenfreada ele tentava localizar Kala gritando pelo seu nome. Pulava barracas já destruídas e constantemente olhava o monstro para certificar-se de que estava à uma distância razoável. Tropeçando entre pedaços de madeira, bancos ou lixeiras, ele se esbarrava com as outras pessoas e por uma ou duas vezes ele achou tratar-se de sua esposa.

    O monstro então virou-se novamente para o lugar em que o arqueiro estava. Com uma de suas mãos, patas, garras ou seja lá o que fosse aquilo, arrastou meia dúzia de pessoas do seu lado. Pepelu escapou, mas logo em seguida foi a vez da cauda do demônio chicoteá-lo para cima. Ao cair Pepelu bateu as costelas na rua de paralelepípedos e sentiu que várias delas haviam se partido.

    Desesperado, ele arrastou-se pelo chão às cegas esperando o momento em que levaria o golpe derradeiro. Quando a fera já estava tão próxima que ele podia sentir seu calor, porém, sua mão tateara algo estranhamente macio.

    Levantando um pouco a cabeça Pepelu viu botas de couro perfeitamente costuradas. Com um pouco mais de esforço, vislumbrou uma armadura negra reluzir. Ao erguer-se o máximo que pôde, reconheceu o rosto inflexível que pairava sobre si.

    Como um fantasma, Arieswar encarava o arqueiro que agora se encontrava suplicante aos seus pés.

    - Não...não me mate.

    Arieswar estendeu-lhe uma mão e Pepelu, por reflexo, levou as suas ao rosto, protegendo-se. No entanto não aquele gesto não se tratava de um ataque, mas sim de uma oferta de ajuda.

    - Quer sair vivo ou não? – perguntou Arieswar, sentindo a hesitação do arqueiro.

    Ao ver que não havia nada mais a perder, ele resolveu arriscar. Com a ajuda do cavaleiro, pôs-se de pé. Ao olhar para trás vira que o monstro se distanciava, como se Arieswar o tivesse afugentado.

    - Minha esposa... – grunhiu Pepelu, com dificuldade para falar – Sabe onde está minha esposa?

    - Natarde a levou. Mas você não conseguirá chegar em casa. Há uma igreja que fica logo aqui ao lado; entre lá e protega-se.

    Pepelu sentiu-se mais aliviado, mas ainda tremia de alfição. Por continuar parado foi novamente repreendido por Arieswar, que mandou ele se apressar. Pepelu, cambaleante, pegou no chão qualquer coisa que pudesse lhe servir de bengala e rumou em direção à basílica. Antes, porém, perguntou ao cavaleiro:

    - Por que está fazendo isso por mim?

    - Porque acabar com você é um trabalho meu e não quero que ninguém se intrometa nisso.

    Aquela foi de fato uma resposta inesperada, mas que as circunstâncias o fariam aceitar de bom grado.

    O arqueiro então rumou para a Igreja da Criação, cravada, e aparentemente esquecida, entre dois monumentos em homenagem a grandes reis passados. Pequena, se comparada aos outros prédios do Fórum, aquela era, contudo, uma das mais velhas igrejas do mundo, remetendo-se a data de criação da própria cidade de Thais por Banor, e tradicionalmente era regida por uma linhagem de sacerdotes da mesma família, que moravam no seu subsolo, onde também se encontrava o cemitério familiar. Pepelu largou a lança que utilizava como bengala do lado de fora, entrou e fechou suas grandes portas de madeira.

    Após seu enorme esforço para prestar uma reverência ao local, ele começou a notar que pareciam haver lembranças daquela igreja em sua memória, embora desconfiasse que jamais estivera ali.

    O santuário tinha forma retangular, sendo mais longo do que estreito, adquirindo a aparência de um grande corredor onde se dispunham dezenas de bancos para os fiéis assistirem às missas. Nas paredes laterais vários pilares de arenito davam sustentação ao teto, formando arcos uniformes. Ao longe, alguns degraus acima do nível do resto da igreja, estava o altar, regido de perto por uma magnífica escultura de Uman Zathroth, o deus da criação e representação do maniqueísmo, possuindo um lado generoso e outro maligno.

    Pepelu sentou-se num dos bancos na fileira mais próxima do altar e ficou a escutar a gritaria do lado de fora. Ainda tremendo de pavor, rezou para todos os deuses pedindo proteção a cidade de Thais e aos seus moradores, em especial sua esposa e seus amigos. Em meio as orações, perdeu a noção do tempo, mas comprovou que realmente havia demorado ao perceber que já não ouvia mais ruídos vindos do exterior da igreja.

    Se por um lado Pepelu ficou mais aliviado, por outro o silêncio era perturbador. Tentou se distrair contemplando a imagem de Uman Zathroth e sua combinação mística, que trouxe a ele a vida eterna, mas o fardo de conviver com duas personalidades distintas. Aquela imagem de pedra, no entanto, o encarava com um olhar tão bestial, até mesmo assustador, que Pepelu não conseguia se concentrar. Será que já seria seguro lá fora? Ele já pensava em se levantar para conferir quando sentiu as maçanetas das portas da igreja se movimentarem.

    Apavorado, o arqueiro se atirou embaixo do altar, onde um grosso pano rendado o esconderia. As portas se abriram e novamente foram fechadas. Mesmo poucos degraus acima do novo visitante da igreja, Pepelu não conseguia vê-lo com perfeição; apenas sabia que era homem e vestia uma espécie de túnica vermelha.

    O arqueiro não sabia o que fazer. Seria aquele homem um thaiense refugiando-se do monstro, como ele próprio fizera, ou seria um inimigo? A pior das hipóteses foi confirmada quando uma voz rouca cortara o silêncio, ecoando pela igreja:

    - Apareça! Sei que alguém está aqui!

    Pepelu se contorceu de medo. A voz do sujeito era intimidante, e ele voltou a orar, desta vez pedindo aos deuses que protegessem a si mesmo, pois além de debilitado, ele estava no pior dos esconderijos.

    - Apareça! – voltou a ordenar – As portas não se fecharam sozinhas!

    Já em desespero, Pepelu ouviu passos atrás de si. Possivelmente vinda do andar inferior, outra pessoa cruzava o altar onde estava o arqueiro e ia de encontro ao homem misterioso.

    - Quem é você? – perguntou uma voz feminina.

    Não houve resposta. Poucos segundos depois o corpo da mulher jazia no chão; sem sangue, sem uma marca de magia, sem nada.

    Pepelu gelou. O homem agora andava em direção ao altar. Seus pés agora estavam a poucos palmos do arqueiro.

    Aquele enigmático sujeito, contudo, não parecia estar interessado em Pepelu. De maneira agitada parecia procurar por alguma coisa. Encolhido embaixo do altar, o arqueiro travou a respiração; a distância entre os dois era tão pouca, porém, que ele chegou a temer que o outro ouvisse as batidas do seu coração.

    Por sorte, o homem não parecia voltar suas atenções para algo além daquilo que procurava. O par de pés agora se movia freneticamente por toda a igreja, do altar aos bancos inferiores, passando por um momento no qual eles sumiram e Pepelu deduziu que o sujeito descera ao aposentos onde morava a sacerdotisa. A irritação do misterioso ocupante da Igreja da Criação parecia se propagar pelo ar.

    - Maldição! – gritava ele – Onde está?

    Profundamente aborrecido, o homem se aproximou do corpo da sacerdotisa, estendido no chão. Aparentemente ele a olhava fixamente enquanto a cabeça estava tomada por pensamentos.

    - Vou ter que levá-la comigo. – sibilou ele.

    Foi então que Pepelu viu seu rosto. Foi apenas por alguns segundos, enquanto ele se abaixou para colocar a mulher sobre seu ombro, mas o arqueiro contemplou a imagem do sujeito como se o tempo tivesse parado. Ele tinha cabelos curtos, barba feita e algumas rugas na pele, indicando que era vários anos mais velho que o arqueiro. Todo aquele semblante parecia ser recoberto por uma aura de poder que emanava de maneira incomensurável. Inconscientemente, Pepelu soltou um gemido de medo.

    O homem percebeu sua presença. Bastou um leve ruído para que o par de olhos negros mais penetrantes que Pepelu já vira na vida o encararem fixamente. O arqueiro parecia estar paralisado pelo efeito daquele olhar. A sacerdotisa fora esquecida no chão enquanto que o dono dos olhos negros avançava ferozmente em direção a Pepelu, ainda tentando identificá-lo por debaixo do pano rendado que recobria o altar.

    Eis que as portas da igreja foram forçadas. Alguém tentava arrombá-las. Bastaram três tentativas para que a madeira finalmente cedesse e uma grande quantidade de guardas thaienses tombassem para dentro, seguidos de perto por Arieswar. Pepelu tentou gritar, mas a voz não saiu. Contudo Pepelu notou em apenas poucos segundos que o dono dos olhos penetrantes havia simplesmente evaporado; como fumaça.

    ****

    - Peraí. – perguntou Diogo mais uma vez – Você ACHA isso? Ou você tem CERTEZA?

    - Tenho certeza. – respondeu Pepelu, já irritado – Vai perguntar de novo, merda?

    O arqueiro, sua esposa e o capitão já estavam novamente em casa. Os sóis já iam timidamente anunciando um novo dia, mas nenhum deles havia dormido.

    Pepelu estava na cama, recostado, tentando curar sua dor de cabeça com um chá. Diogo estava parado à porta, e agora tentava organizar tudo que ouvira do amigo. Kala estava sentada ao seu lado, olhando a cidade através de uma janela.

    Thais estava irreconhecível. Primeiramente o clima de alegria de horas atrás fora trocado por tristeza e tensão. Mas além do dano psicológico, parte da cidade também estava materialmente destruída.

    Escombros de barracas e casas se espalhavam pela praça principal do Fórum. Corpos jogados por todos os cantos exalavam um cheiro insuportável de carne queimada e mostravam as dimensões da tragédia. O chão assumira a cor do sangue misturado às bebidas que vazavam dos barris quebrados. Todo esse cenário era recoberto por cinzas e principalmente pela fumaça de prédios ainda incendiados.

    Da casa de Pepelu era visível que o céu nos arredores da praça ainda estava sendo impestiado por fumaça, mas os outros elementos só eram sensíveis a quem estivesse no local da fatalidade, como estava agora Arieswar.

    O cavaleiro trabalhava junto a Dragnslayer, o caçula dos guerreiros da corte, na identificação e retirada dos mortos. A fuligem irritava seus olhos e o cheiro de podridão o afligia. Quantas daquelas vítimas estariam agora carbonizadas? Seus passos eram cuidadosos, de modo que não pudesse tropeçar nos escombros ou, mais dificilmente, em algum sobrevivente.

    - Olhe, Arieswar! – chamou Dragonslayer.

    Caído em cima de um arbusto, completamente ensangüentado, achava-se o corpo de Grof, o guarda do portão norte.

    - Mande alguém levá-lo. – disse Arieswar, sem nem olhar para seu companheiro.

    O cavaleiro agora compreendia o mal pressentimento de Hesperides. Antes do ataque realizado pelo demônio ele achava que teria algo a ver com o projeto anunciado pelo rei, mas agora tinha noção do quão irrisório aquilo era perto do que aconteceu.

    Então ele pensou em Pepelu. O arqueiro e a sacerdotisa foram achados na Igreja do Criador, onde acreditava-se que alguém desconhecido havia entrado. Pepelu de fato contou uma versão muito estranha em que um homem aparecera e sumira do local misteriosamente, mas muitos encararam a história como um delírio. Restava ao cavaleiro confirmá-la quando a sacerdotisa acordasse do grave atentado à vida que sofrera, segundo Pepelu causado pelo sujeito anônimo.

    Foi quando Arieswar soltou um suspiro. Em sua casa, Pepelu fazia o mesmo. Cada um pensava de seu modo que o dia que ficou para trás fora simplesmente o mais longo das suas vidas.

    ··Hail the prince of Saiyans··

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  2. #2
    Avatar de Ldm
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    Excelente! Não é necessário ficar elogiando aqui...pularei essa parte. Acredito que você já saiba todas as qualidades de sua história.

    Os primeiros parágrafos ficaram bem confusos...era difícil distinguir o que cada um estava fazendo. Talvez a ausência de vírgulas tenha gerado tal confusão.


    correria desenfreada ele tentava localizar Kala gritando pelo seu nome.
    A ausência de uma vírgula ali gerou uma ambiguidade...é claro que todos sabemos que Pepelu estava gritando por Kala mas seria mais prudente evitar esse tipo de erro.


    rápido que pôde até onde virar sua
    Não sei...ficou mais próximo de "viu".


    mais aliviado, mas ainda tremia de alfição.
    Aflição, creio eu.


    junto a Dragnslayer, o caçula
    O nome do sujeito seria Dragonslayer, não?



    É isso. Bom domingo à todos e até qualquer hora.

  3. #3
    Avatar de Emanoel
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    O capítulo fluiu tranquilamente e a descrição da basílica é louvável: bem escrita, porém circunspecta, sem extensões desnecessárias. Só achei estranho Pepelu ter ido duas vezes para o mesmo lugar ("rumou em direção à basílica"; "rumou para a Igreja da Criação"); acredito que o segundo trecho é desnecessário.

    Apesar dos longos capítulos e constante mudança de focos, o enredo mantém meu interesse, pois o misto de competência no escrever com a imprevisibilidade dos acontecimentos apresenta ótimo resultado. Na minha opinião, o ponto fraco é a afetação de algumas passagens; as várias costelas partidas de Pepelu acaba sendo exemplo de exagero esquecido pelo escritor ― o arqueiro ficou cambaleante, mas não demonstrou sentir grande dor ou desconforto.

    Personagens como Arieswar me desagradam. É difícil não lembrar de Vegeta, Hiei, Sasuke Uchiha, Ikki de Fênix, Scar, Ryou Mashiba, Seto Kaiba, Kai Hiwatari, Matt Ishida, Koji Karakushi, Hajime Saitou e vários outros bad boys de shounens. É uma personalidade controversa e geralmente pouco substancial; espero estar diante de uma exceção. Por outro lado, Pepelu é um protagonista interessante; apaixonado, invejoso, saco de pancadas, mas decididamente sortudo (mais uma vez, acabou sendo salvo pelo gongo).


    Alguns outros erros:

    Citação Postado originalmente por Kamus re Ver Post
    Dezenas de barracas agora ardiam em chamas e as pessoas, assustadas, corriam e pisotevam-se.

    pisoteavam-se
    Citação Postado originalmente por Kamus re Ver Post
    No entanto não aquele gesto não se tratava de um ataque, mas sim de uma oferta de ajuda.

    Trecho confuso.
    Citação Postado originalmente por Kamus re Ver Post
    Há uma igreja que fica logo aqui ao lado; entre lá e protega-se.

    proteja-se

    Até o próximo.
    Última edição por Emanoel; 22-09-2009 às 23:35.

  4. #4
    Avatar de ESTRANHOSO
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    Cara eu acompanho a sua historia ja faiz um bom tempo e tb ja li os
    22 capitulos da historia antiga!!!
    queria saber se vc naoi pode me mandar a historia completa!!!
    pq tipo pra mim é meio ruim espera um tempao pra ler o proximo capitulo!!
    e atarde eu tenhu cerca de 1 hora livre entaum eu gosto de ler esse tempo!!
    se for possivel entra em contato!!!!:yelrotflm

  5. #5
    Avatar de Wu Cheng
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    Citação Postado originalmente por ESTRANHOSO Ver Post
    Cara eu acompanho a sua historia ja faiz um bom tempo e tb ja li os
    22 capitulos da historia antiga!!!
    queria saber se vc naoi pode me mandar a historia completa!!!
    pq tipo pra mim é meio ruim espera um tempao pra ler o proximo capitulo!!
    e atarde eu tenhu cerca de 1 hora livre entaum eu gosto de ler esse tempo!!
    se for possivel entra em contato!!!!:yelrotflm
    Você pode acessar todos os capítulos da história antiga e salvar no seu PC, selecionando o texto e copiando no Word.




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  6. #6
    Banido Avatar de Hovelst
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    Superando a preguiça, tirei tempo pra ler o resto dos capítulos. Senão me engano li do segundo ao último postado e bem, gostei do que li.

    A narrativa fluiu bem, apesar de alguns errinhos de ortografia. Sua competência ao escrever realmente me agrada, tanto porque tu descreve muito bem, quanto o enredo, que apresenta um grau mais do que fodástico e de imprevisibilidade.

    Mas, apesar de tudo, ao meu ver, existem alguns deslizes ao longo da narrativa. Primeiramente, a batalha entre Pepelu e Arieswar me soou bem forçada. Era mais fácil ao cavaleiro ter engolido o orgulho e não se demonstrar tão arrogante. Foi bastante exaltação pra quase nada e não gostei do decorrer da batalha. Sem contar é claro aqueles diálogos forçados de "Eu te odeio e vou te matar".

    Pareceu misturar muitas coisas daqueles filmes do Jackie Chan com giros no ar e afins, sendo que você destruiu um dos lados que eu mais apreciava em tua história: a inexplicabilidade da magia. Feitiços e outras coisas não me agradam e me lembra muito o jogo. Foi uma coisa que não gostei.

    Pra mim, apesar da incrível descrição o motivo da batalha e a batalha em si ficaram superficiais.

    No quarto capítulo, uma das partes que mais gostei foi o desfecho, com o tremor na água da fonte. Simplesmente fodástico.

    Outra coisa que não aprecio é a personalidade forte de Arieswar que em nenhum momento se contém. Soa realmente como vilania.

    Está bem diferente da versão original apesar de alguns pontos em comum. O enredo continua a me agradar mas essas partes citadas ficaram bem forçadas.


    Até qualquer dia.

  7. #7
    Avatar de ESTRANHOSO
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    Cara vc nao intendeu
    ele falo q tem toda a historia completa
    e tipo eu queria a historia nova
    e nao a antiga pq a antiga ja li
    e essa ta me parecendo mais detalhada apesar q eu gostava
    muito da antiga!!!

  8. #8
    Avatar de ESTRANHOSO
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    cara eu sei q passou 13 dias!!
    mais nao é flood e nem pra reviver o topico
    so to esperando mais capitulos!! por favor nao pare
    de postar!!!

  9. #9
    Avatar de Emanoel
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    Kamus nunca mais deu sinal de vida através do MSN ou e-mail, apesar de ter entrado no fórum hoje mesmo. Eu não esqueci disso aqui, mas ficarei no aguardo de mais informações...

    Por enquanto, leiam, comentem, etc.
    Última edição por Emanoel; 26-12-2009 às 20:39.

  10. #10
    Avatar de Kamus re
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    Capítulo 8 - O pedido de Arieswar.


    A vida que Pepelu imaginou numa longínqua noite logo após o fatídico dia de Fechar de Estações nunca existiu. Muitos meses se passaram desde que a cidade de Thais fora atacada por um misterioso monstro na noite da festa e desde então o modo do mundo fluir havia mudado drasticamente; e para pior. Muito pior.

    O rei Tibiano III pôs em prática uma ditadura severa contra os não-thaienses, alegando parasitismo por parte daqueles que, ao estabelecerem-se na metrópole, ocupavam os empregos, a riqueza e o lugar social que por direito pertenceriam aos thaienses, verdadeiros donos de Thais. As medidas foram evoluindo gradativamente, desde uma maior taxação em cobrança de impostos até a expulsão da cidade e de todas as colônias por ela dominadas. Na prática, porém, a maior parte dos bárbaros foi enviada como mão-de-obra semi-escrava para províncias em ascensão, como as da Baía da Liberdade ou nas ilhas geladas, onde estava o novo projeto da corte: Svargrond.

    Esse último destino era mais temido pelos não-thaienses do que a morte, já que seria inevitavelmente um caminho árduo e tortuoso para ela. O “inferno gelado”, como ficou conhecido, tornou-se sentença para os mais rebeldes bárbaros. Pepelu por uma ou duas vezes chegou a se perguntar por que trabalhar na construção da cidade de Svargrond seria tão pavoroso, mas certamente nunca mais faria isso ao ouvir os relatos de conhecidos que estiveram por lá.

    Para começar, o governo bancava apenas uma refeição, uma sopa de verduras, por dia e um mísero abrigo comunitário para passarem as noites. Por mais humilhante que fosse o tratamento nesses abrigos, reunir-se em grupos no frio congelante acabava por ser algo razoavelmente bom, mas a escassez de comida era enlouquecedor. O corpo consumia toda a energia possível para manter-se aquecido e não contar com alimento para reabastecê-lo era o caminho da morte. Lógico que sempre havia o caminho da pesca e das caçadas, mas o risco de ser devorado por alguma criatura selvagem ou dar de cara com um nativo hostil (geralmente comungado com os carlinianos) eram imensas. Fora isso as más-condições de trabalho e a falta de perspectiva de futuro seguida da uma forte depressão que parecia se espalhar pela ilha como uma doença contagiosa faziam jus ao tal apelido “inferno gelado”.

    Os bons tempos de Thais ficaram então no passado, ou na imaginação de otimistas como Pepelu. Lógico que seria muito fácil acusar o rei Tibiano por tudo que estava acontecendo, mas ele tinha o total respaldo do Senado e de uma parte da população constituída majoritariamente de thaienses nobres ou que haviam perdido pessoas queridas no ataque da festa de Fechar das Estações. Isso desfavorecia ainda mais o povo que sofria com as atitudes xenofóbicas de Tibiano. A atitude mais sensata para esse tipo de gente seria sair da cidade por espontânea vontade, apesar de isso, logicamente, não ser possível para todos.

    Pepelu e Kala eram um desses casos. A vida deles era Thais e apenas Thais. E o mundo além dos muros da capital havia se tornado um lugar hostil para thaienses, ainda mais para os que haviam acabado de chegar a ele.

    Há poucos meses nascera a filha de Pepelu e Kala. Seu nome era Eurídice, como planejado. A opinião dos pais, é claro, era suspeita, mas havia um consenso entre todos os amigos do casal de que aquela era uma adorável garotinha que tinha tudo para se tornar uma linda mulher.

    Uma grande festa foi formada no dia do nascimento da menina, e, ao ver todos seus amigos reunidos novamente, Pepelu enxergou-se numa ilha de alegria em meio a um mar de problemas. Aquela, por sinal, foi a última vez que vira Diogo. Pepelu chegou até a pensar em pedir ao capitão para zarpar com ele a bordo do Esperança, levando sua família para longe do mundo cruel que a rodeava. Como seria bom se a vida fosse simples assim.

    Enquanto não tinham como fugir da realidade maçante na qual viviam, Pepelu e Kala buscavam ao menos fantasiar um pouco a situação para a pequena Eurídice. Sempre que podiam, saíam de cavalo procurando por um ambiente natural e, principalmente, com paz a tranqüilidade. Isso fez Pepelu conhecer diversos “paraísos” perdidos espalhados pelo grande mundo criado por Uman.

    Naquele exato momento, o casal e sua filha estavam em um dos seus paraísos preferidos: uma pequena praia na ilha de Fíbula, habitada quase que totalmente por thaienses.

    A pequena Eurídice adorava engatinhar na areia, brincar com pedaços de conchas que achasse pelo caminho e eventualmente correr de siris que a ameaçavam com suas pequenas pinças, sempre com Kala em seu encalço protegendo-a da luz dos sóis e de todo o resto que achasse perigoso.

    Para Pepelu, aqueles eram momentos de ouro, onde ele podia curtir sua família e um banho de mar sem quaisquer empecilhos. Ou quase. Naquele dia, durante a volta para casa, o arqueiro reparou em três sujeitos de aparência duvidosa cercando um casal a cavalo. Sua surpresa maior, porém, foi ver que o casal questão era ninguém menos que Octavian, um amigo quase tão antigo quanto Diogo, e Sara Lionheart, prima de Kala. Mudando seu rumo até onde o grupo estava ele assustou os homens desconhecidos, que, vagarosamente, se retiraram.

    - Obrigado, Pepelu. – falou Octavian – Acho que aqueles caras queriam mesmo nos roubar.

    - Pelo amor de Uman, nem nos arredores de Thais temos mais segurança. – bradou Sara – Não me surpreendo se Tibiano mandar todos os guardas para constuir sua cidadezinha de gelo!

    Agora os dois casais tinham descido dos cavalos para conversarem melhor.

    - Sinceramente, estou com um pouco de medo até de sair da cidade. Só vim mesmo porque Sara me pediu companhia para voltar para casa, em Fíbula. Mal sabe ela que o máximo que teria ao meu lado seria um cavalo a mais pra correr. Eu sou um mero escritor, afinal.

    - Ah, é mesmo. – lembrou Kala – Como anda o clima lá no Diário Oficial?

    - Tenso. Muita gente é contra o atual governo, mas não posso expor isso no jornal da coroa, sabe? E o pior é que há pessoas que, de verdade, concordam com Tibiano. E muito mais do que você imagina.

    Todos ficaram em silêncio, exceto por Sara que agora pegava Eurídice no colo e a divertia com caretas. Aquilo bastou para Octavian mudar de assunto.

    - E a menina, como vai?

    - Ótima! – vangloriou-se Kala – Estamos começando a levá-la pra praia e ela está adorando.

    - Fico muito feliz. Meus três já começaram a brincar de subir em árvores. Do meu quintal, lógico, pois não deixo mais eles na rua. – e ele voltou-se para Pepelu – E Diogo, manda notícias?

    - Não ultimamente. – Pepelu já estava cansado de responder àquela pergunta. Sempre viam buscar dele informações sobre seu “irmão mais velho” – Mas, rapaz, você nem imagina o que ele deixou comigo. Tá certo que foi sob mil recomendações, mas...

    - Não acredito! – exclamou Octavian contemplando uma chave partida no meio que era ostentada com orgulho pelo arqueiro – A chave-mestra?! Talvez eu vá querer ela para prender Sara em algum canto caso ela comece a me botar nessas roubadas de novo.

    Pepelu deu um leve sorriso enquanto via Sara tentar dar uns tapas em Octavian. Gostava demais dos amigos e não conseguiu esconder a tristeza que foi vê-los, ao fim da conversa, montar seus cavalos e seguir o caminho contrário. Enquanto Octavian e Sara seguiram para Fíbula, ele e Kala voltaram para Thais e sofreram a inspeção que já havia se tornado rotina antes de terem o acesso liberado.

    O cenário da cidade era um desalento total. Por terem precisado vender suas casas devido às novas dívidas e taxações, havia muita gente morando nas ruas. Praças e parques não mais tinham jovens casais de namorados ou crianças brincando. Tropas de guardas encarregavam-se de retirar faixas, cartazes e qualquer tipo de protesto à coroa, punindo severamente os responsáveis. Nem o lixo das casas estava sendo recolhido como outrora, acumulando-se nos cantos e virando um banquete para ratos e outros animais imundos.

    Quando o casal chegou em casa, na número 38 da Travessa do Pântano, os sóis já estavam baixos e Kala e Pepelu intimamente agradeciam por poderem colocar uma exausta Eurídice para dormir em seu berço confortável. Feito isso, eles desceram para o primeiro andar e foram namorar um pouco. Trocaram beijos ardentes e apaixonados enquanto tentavam enxergar um futuro melhor do que o presente caótico.

    - Eu acho – falava Kala entre um beijo e outro– que Tibiano vai durar até acontecer algo que pare Svargrond. Quando essa insanidade acabar, aí sim, Cris, tudo voltará ao normal.

    - E o que vamos fazer quando isso acontecer?

    - Vamos nos mudar pra Costa Verde, como você quer. E sabe qual a primeira coisa que vou comprar para nossa casa nova?

    - Não faço idéia. – dizia ele, beijando-a no pescoço e eventualmente dando-lhe leves mordidas na orelha – O que?

    - Uma casa de bonecas. – falou ela, com um brilho nos olhos – Não dessas pequenas, sabe? Uma bem grande, de preferência maior que Eurídice! Aí eu vou mandar fazer várias bonecas de pano e dar a ela.

    - Sinto que você está realizando também um pouquinho de um sonho seu. Ou estou enganado?

    Ela riu.

    - Pois é. Eu sempre quis ter uma casa de bonecas quando criança. Eu queria fazer meu mundo com elas, entende? Queria dar nome a cada boneca e que elas fossem crescendo junto comigo. Mas infelizmente meu pai nunca pôde comprar uma pra mim. Tentamos fazer juntos uma vez, mas não deu muito certo. Isso foi um pouco antes dele morrer.

    Pepelu sentiu algo estranho crescer dentro de si. Conhecia sua mulher a tanto tempo, julgando-se capaz de entendê-la profundamente por uma mera troca de olhares, mas mesmo assim parecia que ainda faltava descobrir tanta coisa sobre ela; tantas pequenas coisas! Ele amava Kala verdadeiramente e queria apreciar cada mínimo detalhe de sua vida, cada casa de boneca que ela nunca teve ou cada sonho que planejava para Eurídice.

    - Essa é a vantagem dos filhos, não é, Cris? Podemos realizar nossos sonhos através deles.

    Ele respondeu com um sorriso, não precisando falar mais nada. Logo os dois estariam fazendo amor no sofá como dois adolescentes, até Kala não mais agüentar e cair adormecida nos braços do marido. Pepelu então a levou até seu quarto e a pôs na cama. Pensou em também deitar e dormir, mas ele sabia que não conseguiria tão facilmente. Desde o fatídico dia de Fechar de Estações ele haveria de ficar com insônia por todas as noites da sua vida.

    Já se acostumando com aquilo, ele botou uma roupa e desceu as escadas. Acendeu um lampião e sentou-se à mesa para ler alguma coisa. Ignorou completamente o Diário Oficial, com seus textos manipulados, e pegou um livro qualquer, que identificou como sendo as crônicas de um viajante que rodava o mundo em seu navio. Logo ele lembrou-se de Diogo em como ele falava mal de escritores que ousavam sonhar com a aventura sem nunca terem posto o pé para longe da sua terra. Resolveu então pegar um romance que havia tomado emprestado de Octavian.

    A história era muito bonita. Falava sobre a vida de quatro amigos inseparáveis e de como a vida deles mudou após um deles descobrir sua descendência na reealeza. Pepelu embrenhou-se na leitura até a parte em que o príncipe perdido estava sendo caçado por um sujeito misterioso que posteriormente se revelaria um antigo amigo do seu falecido pai, indignado pela coroação do garoto.

    Após isso, já cansado, Pepelu resolveu voltar algumas páginas e ler novamente a parte em que o protagonista ficava sabendo de sua descendência através de uma carta. Mal sabia aquele garoto, coitado, que aquela carta mudaria sua vida para sempre; seria um príncipe, verdade, mas suas verdadeiras amizades se perderiam em um mar de inveja e traição.

    No entanto, naquele exato momento, era a vez de Pepelu ser um coitado que mal sabia das coisas. Isso pois ele nunca esperaria que sua vida inteira fosse mudar numa visita. Aquela visita.

    Batidas na porta. O arqueiro toma um susto. Quase dormindo por cima do livro, ele levanta-se do sofá num pulo e corre para pegar sua balestra e algumas flechas. Feito isso, mansamente ele vai avançando à porta como um leopardo silencioso de olho em uma presa. Ainda mais delicadamente, ele destrava a porta e prepara-se para abrí-la com um chute. Mantém firme uma perna de apoio e usa da outra com força para chutar, quando então vê...

    - Você?

    Do lado de fora da sua casa estava ninguém menos que Arieswar. Pepelu ficou tão surpreso que mesmo que quisesse não teria reflexo para apertar o gatilho da balestra.

    - Por favor, abaixe essa arma. Eu vim para conversar.

    Pepelu não sabia o que fazer. Por um momento ele viu todos os fantasmas de um passado não tão distante voltarem para si e o medo fluiu junto com seu sangue por cada veia do seu corpo. E para piorar, dessa vez não haveria Diogo para ajudá-lo.

    - O que quer comigo? – foi o que saiu da sua boca – O que quer com minha família?

    - Eu não estaria aqui se não tivesse um bom motivo. – falava Arieswar com a voz mansa – Peço, por favor, que abaixe a arma.

    Pepelu ficou indeciso. Pensou em Kala e Eurídice dormindo lá em cima e decidiu que o expulsaria, porém agora ele não podia mentir para si mesmo dizendo que não estava curioso para saber o que o cavaleiro tinha de tão importante para falar. Pensando nisso, e no fato de continuar com a balestra na mão independente de qualquer coisa, ele demonstrou receptividade.

    - Obrigado, Pepelu. Agora será que eu poderia entrar?

    Não, aquilo só podia ser brincadeira. Arieswar?! Na sua casa?! DENTRO dela?! Afinal, teria sido mesmo com aquele homem que ele havia lutado no Fórum?

    - Seria uma honra. – falou Pepelu ironicamente, sabendo que iria se arrepender daquilo mais tarde.

    Somente ao fechar a porta que ele se deu conta de que realmente estava com o inimigo dentro de casa. E um inimigo bem cordial pelo visto, já que procurou uma cabideira para colocar seu casaco e depois se sentou confortavelmente no sofá no qual há pouco o anfitrião e sua esposa haviam feito amor. Apesar de tudo, Pepelu, sempre muito observador, notou que ele parecia intimamente transtornado.

    - Eu vou direto ao assunto, Pepelu. Eu sei que nós não temos uma relação lá muito boa e... – ele deu uma risadinha – bem, na verdade já tentamos nos matar uma vez. Eu assumo isso e peço que você reconheça o quanto eu estou falhando com minha própria honra e dignidade para vir até aqui.

    Pepelu não sabia até onde aquilo iria, por isso continuou apenas ouvindo.

    - Estou precisando de um grande favor seu, Pepelu. Vou entender completamente se você recusar e até mesmo se rir do meu desespero, mas talvez haja um coração piedoso em seu peito e eu não me perdoaria se não arriscasse.

    “Você é um pai de família e tem uma esposa, que ao comentário de todos, é uma mulher invejável, por isso eu creio que você saiba o que é o amor. E é o amor que me fez vir até aqui, humilhar-me diante de você inclusive, se preciso, de joelhos. Você tem algo que pode me ajudar e eu preciso disso mais que tudo.”

    - O que? – perguntou Pepelu, incrédulo.

    - Há algum tempo encontramos dois guardas aprisionados perto da sala que chamamos de “O vácuo”. Aquele é um velho aposento secreto, inspirado numa sala mágica muito longe daqui. Esses guardas falaram que haviam sido nocauteados por você e pelo capitão Natharde, que certamente os abandonaram ali. Acontece que para chegar onde chegaram, vocês precisariam ter passado por uma porta com uma trava reforçada e, como chequei há algum tempo, não havia sinais de arrombamento no local. Isso me fez acreditar que você teria um objeto um tanto quanto especial, capaz de abrir portas, não?

    As coisas começavam a fazer o mínimo sentido.

    - Sim...quero dizer, não. Na verdade a chave-mestra é de Diogo, não minha, mas ela realmente existe. – depois ele ficou se perguntando se não havia falado demais e resolveu mentir um pouco – Mas ela está muito longe daqui. Diogo a levou. E o que você quer com ela? E que papo é esse de amor?

    Ele tomou fôlego para responder, mas um grito ecoou pela sala cortando sua atenção. Descendo as escadas, vinha Kala, que ao vê-lo, apavorou-se. Pepelu correu para tranqüilizá-la, mas ela já estava assustada o suficiente para quase não conseguir ficar de pé. Arieswar então começava a pensar que talvez tivesse sido um erro ter ido ali, incomodar a vida de pessoas que ele nem conhecia e tampouco gostava.

    - Me desculpem. – disse ele, levantando-se – Eu não deveria ter vindo aqui, muito menos a essa hora. É que era...minha última esperança. Estou indo embora.

    Ele então se encaminhou para a porta, pensando o quanto tinha sido idiota em acreditar que sua inimizade com Pepelu seria superada por um pedido desalentado. Já estava com a mão na maçaneta quando ouviu uma voz feminina falar:

    - Espere! – falou Kala – Há algo que errado nessa história. O que você realmente quer, senhor Arieswar? Você certa vez quase mata o meu marido, e só não o fez por que não conseguiu, e agora vem na nossa casa, em plena madrugada, nos pedir um favor. O que deu em você? Ficou maluco ou o quê?

    Ele abaixou a cabeça e pensou. Parecia querer dar uma resposta elaborada para aquela pergunta, mas não conseguia juntar as palavras.

    - É verdade, senhora. Perdoe-me por eu quase tê-la feito viúva e por te acordar a essa hora. Não sei o que dizer, senão pedir desculpas.

    - Então tente dizer o que está sentindo.

    Aquilo parecia mais fácil; bem mais.

    - Eu estou confuso. Pela primeira vez conheci uma mulher na qual vale a pena investir e arrancam-na de mim. Tentei recuperá-la das mais diversas formas, mas não consegui e resolvi apelar para o grande trunfo que seu marido, ou o amigo de vocês como fiquei sabendo, possui. Além disso, estou sofrendo demais pelos meus irmãos não-thaienses, já que eu também não sou desse império, e ela me fazia esquecer os problemas da vida. Desde que o rei Yorik morreu as coisas têm sido difíceis.

    O casal se entreolhou. Havia muita sinceridade naquelas palavras.

    - Quem é essa mulher? – perguntou Pepelu, já prevendo a resposta.

    - Uma pessoa que ainda deve fazer parte dos seus sonhos mais íntimos. A sacerdotisa que você viu ser atacada enquanto se escondia embaixo daquele altar, na Igreja da Criação.

    - Então você realmente a seqüestrou, como ouvi falar?

    - Não, eu apenas a transferi da enfermaria para o meu quarto. Acho que isso não caracteriza um seqüestro. Acontece que nos apegamos muito desde então, e inevitavelmente eu fui me apaixonando por ela e ela por mim. – e ele abriu um sorriso tímido - Quem não sabe dessa his´toria deve me achar o guerreiro mais religioso de toda Thais, pois depois dela ter voltado para a igreja, fui visitá-la todos os dias.

    “No entanto, ela tem alguns problemas jurídicos sérios; herança de família se quer saber. E sentia que cada vez mais o governo a pressionava. Por sorte ela é de uma família tradicional thaiense, e Tibiano não teve coragem de pôr as mãos nela deliberadamente, mas uma série de acontecimentos recentes fez a cúpula do Senado mudar de idéia e ela teve que ser levada por medida de segurança.”

    - Levada? – perguntou Pepelu, surpreso – Levada pra onde?

    - Pra um lugar terrível, uma espécie de prisão. Nem eu posso tirá-la de lá por meios legais, e não poderia matar dúzias de antigos colegas meus para tomá-la de volta; talvez nem conseguisse fazer isso.

    - E quais seriam os...hã, problemas jurídicos dela? –perguntou Kala.

    - Já disse, uma herança de família. Algo que ela não deveria ter a infelicidade de carregar.

    E Pepelu imediatamente lembrou-se do velho no Monte Sternum. Aquela igreja guardava um grande segredo: poderia reviver os mortos, mas é claro, tudo tem seu preço e para aquela dádiva havia a maldição de se carregar um segredo assim e talvez Lynda estivesse mesmo sofrendo dela agora.

    - Eu creio que não seja bem isso, Arieswar. – falou Pepelu, surpreendendo a sua esposa e ao cavaleiro – Seja sincero conosco.

    - Como assim? – perguntou ele num sorriso de canto de boca – Eu não estou te entendendo.

    - Tudo bem, Arieswar, sei que ela certamente pediu para manter o segredo. Eu te emprestarei a chave, mas não por você, que fique bem claro, mas por ela.

    O rosto dele se impregnou de alívio, apesar de parecer confuso com o que Pepelu falava.

    - Muito obrigado, Pepelu. Quando eu posso pegá-la?

    O arqueiro pensou um pouco antes de responder.

    - Amanhã...pela noite, acho melhor.

    - Certo, é até melhor pois tenho que resolver algumas coisas antes.

    Pepelu assentiu com a cabeça. Ainda não acreditava no que estava fazendo, mas desde o incidente da noite de Fechar de Estações ele sabia que uma estreita ligação entre ele, a sacerdotisa e o misterioso homem havia se criado. Sentia isso todas as noites, quando ficava se revirando na cama se conseguir dormir.

    Kala, sentindo a aflição do marido, passou-lhe as mãos pelas costas e ficou a observar o cavaleiro, que agora já ia embora definitivamente. Arieswar rodou a maçaneta, abriu a porta e, antes de sair, deu suas últimas palavras:

    - Pepelu, nunca te fale isso, mas você foi uma das minhas melhores lutas. Até amanhã.


    ****


    “Amanhã” chegou mais rápido do que o arqueiro imaginava, pois, estranhamente, ele conseguira dormir o resto da noite inteira. Seria uma parte de sua dívida com a moça da igreja sendo paga?

    Ao acordar, porém, Pepelu ficou todo o tempo a pensar no que acontecera na sala de sua casa há poucas horas. Os pensamentos dele foram longe, até mais ou menos aquela casinha do Monte Sternum e voltaram. Então havia mesmo um segredo; havia alguma coisa a se esconder naquela igreja. Será que fora por isso que o homem misterioso a invadira durante a festa? Certamente. Será que Arieswar, naquele dia, o conduzira até ali de propósito? Não, o cavaleiro nem conhecia Lynda e o segredo. Mas será que as autoridades o conheciam? Com certeza, caso contrário não teriam por que perseguir a sacerdotisa.

    Além dessas perguntas sem resposta certa, durante toda sua rotina diária no Armazém ele só conseguia pensar em mais uma coisa: na chave-mestra e no pedido de Diogo para que ele zelasse por ela. A princípio Pepelu achou aquele pedido até mesmo cretino, pois ele tinha tanto apego à chave quanto seu dono, mas agora tudo mudara. O que pensaria Diogo se soubesse que ele a havia prometido para Arieswar, o homem que quase os matara no Fórum? Foi então que ele tomou uma decisão tão importante quanto a carta que chegara ao jovem garoto do livro que lia à noite.

    - Olá, meu amigo! Já temos aquela remessa que eu encomendei?

    O primeiro cliente do dia o trouxe de volta ao presente, mas nada o impedia desde então em ficar a pensar como seria aquela noite toda vez que a loja estava vazia.


    ··Hail the prince of Saiyans··

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