Desculpem pela demora, depois darei mais satisfações a vocês
Capítulo 5 - O homem da igreja

O silêncio profundo imediatamente transformou-se em histeria coletiva. Uma grande besta demoníaca estava no centro da festa de Fechar de Estações e no seu primeiro ataque o estrago já fora enorme.

Dezenas de barracas agora ardiam em chamas e as pessoas, assustadas, corriam e pisotevam-se. Pepelu não conseguia se mover de tanto espanto. Perto dele alguns corpos incinerados o chamavam à realidade. Foi então que ele despertou e num estalo de consciência atirou-se na água da fonte bem em tempo de livrar-se de um novo sopro de fogo do animal.

Ainda submerso, Pepelu foi até a outra extremidade da fonte para sair com um pouco mais de segurança. Viu que ao seu lado já haviam corpos boiando na água e não conseguia parar de pensar em Kala.

Atirou-se no chão da praça e olhou por cima do ombro para localizar o monstro; ele estava de costas, indo em direção ao castelo real. Pepelu aproveitou para correr o mais rápido que pôde até onde virar sua esposa sumir de vista, que era mais ou menos o mesmo caminho percorrido pelo demônio.

Em meio à correria desenfreada ele tentava localizar Kala gritando pelo seu nome. Pulava barracas já destruídas e constantemente olhava o monstro para certificar-se de que estava à uma distância razoável. Tropeçando entre pedaços de madeira, bancos ou lixeiras, ele se esbarrava com as outras pessoas e por uma ou duas vezes ele achou tratar-se de sua esposa.

O monstro então virou-se novamente para o lugar em que o arqueiro estava. Com uma de suas mãos, patas, garras ou seja lá o que fosse aquilo, arrastou meia dúzia de pessoas do seu lado. Pepelu escapou, mas logo em seguida foi a vez da cauda do demônio chicoteá-lo para cima. Ao cair Pepelu bateu as costelas na rua de paralelepípedos e sentiu que várias delas haviam se partido.

Desesperado, ele arrastou-se pelo chão às cegas esperando o momento em que levaria o golpe derradeiro. Quando a fera já estava tão próxima que ele podia sentir seu calor, porém, sua mão tateara algo estranhamente macio.

Levantando um pouco a cabeça Pepelu viu botas de couro perfeitamente costuradas. Com um pouco mais de esforço, vislumbrou uma armadura negra reluzir. Ao erguer-se o máximo que pôde, reconheceu o rosto inflexível que pairava sobre si.

Como um fantasma, Arieswar encarava o arqueiro que agora se encontrava suplicante aos seus pés.

- Não...não me mate.

Arieswar estendeu-lhe uma mão e Pepelu, por reflexo, levou as suas ao rosto, protegendo-se. No entanto não aquele gesto não se tratava de um ataque, mas sim de uma oferta de ajuda.

- Quer sair vivo ou não? – perguntou Arieswar, sentindo a hesitação do arqueiro.

Ao ver que não havia nada mais a perder, ele resolveu arriscar. Com a ajuda do cavaleiro, pôs-se de pé. Ao olhar para trás vira que o monstro se distanciava, como se Arieswar o tivesse afugentado.

- Minha esposa... – grunhiu Pepelu, com dificuldade para falar – Sabe onde está minha esposa?

- Natarde a levou. Mas você não conseguirá chegar em casa. Há uma igreja que fica logo aqui ao lado; entre lá e protega-se.

Pepelu sentiu-se mais aliviado, mas ainda tremia de alfição. Por continuar parado foi novamente repreendido por Arieswar, que mandou ele se apressar. Pepelu, cambaleante, pegou no chão qualquer coisa que pudesse lhe servir de bengala e rumou em direção à basílica. Antes, porém, perguntou ao cavaleiro:

- Por que está fazendo isso por mim?

- Porque acabar com você é um trabalho meu e não quero que ninguém se intrometa nisso.

Aquela foi de fato uma resposta inesperada, mas que as circunstâncias o fariam aceitar de bom grado.

O arqueiro então rumou para a Igreja da Criação, cravada, e aparentemente esquecida, entre dois monumentos em homenagem a grandes reis passados. Pequena, se comparada aos outros prédios do Fórum, aquela era, contudo, uma das mais velhas igrejas do mundo, remetendo-se a data de criação da própria cidade de Thais por Banor, e tradicionalmente era regida por uma linhagem de sacerdotes da mesma família, que moravam no seu subsolo, onde também se encontrava o cemitério familiar. Pepelu largou a lança que utilizava como bengala do lado de fora, entrou e fechou suas grandes portas de madeira.

Após seu enorme esforço para prestar uma reverência ao local, ele começou a notar que pareciam haver lembranças daquela igreja em sua memória, embora desconfiasse que jamais estivera ali.

O santuário tinha forma retangular, sendo mais longo do que estreito, adquirindo a aparência de um grande corredor onde se dispunham dezenas de bancos para os fiéis assistirem às missas. Nas paredes laterais vários pilares de arenito davam sustentação ao teto, formando arcos uniformes. Ao longe, alguns degraus acima do nível do resto da igreja, estava o altar, regido de perto por uma magnífica escultura de Uman Zathroth, o deus da criação e representação do maniqueísmo, possuindo um lado generoso e outro maligno.

Pepelu sentou-se num dos bancos na fileira mais próxima do altar e ficou a escutar a gritaria do lado de fora. Ainda tremendo de pavor, rezou para todos os deuses pedindo proteção a cidade de Thais e aos seus moradores, em especial sua esposa e seus amigos. Em meio as orações, perdeu a noção do tempo, mas comprovou que realmente havia demorado ao perceber que já não ouvia mais ruídos vindos do exterior da igreja.

Se por um lado Pepelu ficou mais aliviado, por outro o silêncio era perturbador. Tentou se distrair contemplando a imagem de Uman Zathroth e sua combinação mística, que trouxe a ele a vida eterna, mas o fardo de conviver com duas personalidades distintas. Aquela imagem de pedra, no entanto, o encarava com um olhar tão bestial, até mesmo assustador, que Pepelu não conseguia se concentrar. Será que já seria seguro lá fora? Ele já pensava em se levantar para conferir quando sentiu as maçanetas das portas da igreja se movimentarem.

Apavorado, o arqueiro se atirou embaixo do altar, onde um grosso pano rendado o esconderia. As portas se abriram e novamente foram fechadas. Mesmo poucos degraus acima do novo visitante da igreja, Pepelu não conseguia vê-lo com perfeição; apenas sabia que era homem e vestia uma espécie de túnica vermelha.

O arqueiro não sabia o que fazer. Seria aquele homem um thaiense refugiando-se do monstro, como ele próprio fizera, ou seria um inimigo? A pior das hipóteses foi confirmada quando uma voz rouca cortara o silêncio, ecoando pela igreja:

- Apareça! Sei que alguém está aqui!

Pepelu se contorceu de medo. A voz do sujeito era intimidante, e ele voltou a orar, desta vez pedindo aos deuses que protegessem a si mesmo, pois além de debilitado, ele estava no pior dos esconderijos.

- Apareça! – voltou a ordenar – As portas não se fecharam sozinhas!

Já em desespero, Pepelu ouviu passos atrás de si. Possivelmente vinda do andar inferior, outra pessoa cruzava o altar onde estava o arqueiro e ia de encontro ao homem misterioso.

- Quem é você? – perguntou uma voz feminina.

Não houve resposta. Poucos segundos depois o corpo da mulher jazia no chão; sem sangue, sem uma marca de magia, sem nada.

Pepelu gelou. O homem agora andava em direção ao altar. Seus pés agora estavam a poucos palmos do arqueiro.

Aquele enigmático sujeito, contudo, não parecia estar interessado em Pepelu. De maneira agitada parecia procurar por alguma coisa. Encolhido embaixo do altar, o arqueiro travou a respiração; a distância entre os dois era tão pouca, porém, que ele chegou a temer que o outro ouvisse as batidas do seu coração.

Por sorte, o homem não parecia voltar suas atenções para algo além daquilo que procurava. O par de pés agora se movia freneticamente por toda a igreja, do altar aos bancos inferiores, passando por um momento no qual eles sumiram e Pepelu deduziu que o sujeito descera ao aposentos onde morava a sacerdotisa. A irritação do misterioso ocupante da Igreja da Criação parecia se propagar pelo ar.

- Maldição! – gritava ele – Onde está?

Profundamente aborrecido, o homem se aproximou do corpo da sacerdotisa, estendido no chão. Aparentemente ele a olhava fixamente enquanto a cabeça estava tomada por pensamentos.

- Vou ter que levá-la comigo. – sibilou ele.

Foi então que Pepelu viu seu rosto. Foi apenas por alguns segundos, enquanto ele se abaixou para colocar a mulher sobre seu ombro, mas o arqueiro contemplou a imagem do sujeito como se o tempo tivesse parado. Ele tinha cabelos curtos, barba feita e algumas rugas na pele, indicando que era vários anos mais velho que o arqueiro. Todo aquele semblante parecia ser recoberto por uma aura de poder que emanava de maneira incomensurável. Inconscientemente, Pepelu soltou um gemido de medo.

O homem percebeu sua presença. Bastou um leve ruído para que o par de olhos negros mais penetrantes que Pepelu já vira na vida o encararem fixamente. O arqueiro parecia estar paralisado pelo efeito daquele olhar. A sacerdotisa fora esquecida no chão enquanto que o dono dos olhos negros avançava ferozmente em direção a Pepelu, ainda tentando identificá-lo por debaixo do pano rendado que recobria o altar.

Eis que as portas da igreja foram forçadas. Alguém tentava arrombá-las. Bastaram três tentativas para que a madeira finalmente cedesse e uma grande quantidade de guardas thaienses tombassem para dentro, seguidos de perto por Arieswar. Pepelu tentou gritar, mas a voz não saiu. Contudo Pepelu notou em apenas poucos segundos que o dono dos olhos penetrantes havia simplesmente evaporado; como fumaça.

****

- Peraí. – perguntou Diogo mais uma vez – Você ACHA isso? Ou você tem CERTEZA?

- Tenho certeza. – respondeu Pepelu, já irritado – Vai perguntar de novo, merda?

O arqueiro, sua esposa e o capitão já estavam novamente em casa. Os sóis já iam timidamente anunciando um novo dia, mas nenhum deles havia dormido.

Pepelu estava na cama, recostado, tentando curar sua dor de cabeça com um chá. Diogo estava parado à porta, e agora tentava organizar tudo que ouvira do amigo. Kala estava sentada ao seu lado, olhando a cidade através de uma janela.

Thais estava irreconhecível. Primeiramente o clima de alegria de horas atrás fora trocado por tristeza e tensão. Mas além do dano psicológico, parte da cidade também estava materialmente destruída.

Escombros de barracas e casas se espalhavam pela praça principal do Fórum. Corpos jogados por todos os cantos exalavam um cheiro insuportável de carne queimada e mostravam as dimensões da tragédia. O chão assumira a cor do sangue misturado às bebidas que vazavam dos barris quebrados. Todo esse cenário era recoberto por cinzas e principalmente pela fumaça de prédios ainda incendiados.

Da casa de Pepelu era visível que o céu nos arredores da praça ainda estava sendo impestiado por fumaça, mas os outros elementos só eram sensíveis a quem estivesse no local da fatalidade, como estava agora Arieswar.

O cavaleiro trabalhava junto a Dragnslayer, o caçula dos guerreiros da corte, na identificação e retirada dos mortos. A fuligem irritava seus olhos e o cheiro de podridão o afligia. Quantas daquelas vítimas estariam agora carbonizadas? Seus passos eram cuidadosos, de modo que não pudesse tropeçar nos escombros ou, mais dificilmente, em algum sobrevivente.

- Olhe, Arieswar! – chamou Dragonslayer.

Caído em cima de um arbusto, completamente ensangüentado, achava-se o corpo de Grof, o guarda do portão norte.

- Mande alguém levá-lo. – disse Arieswar, sem nem olhar para seu companheiro.

O cavaleiro agora compreendia o mal pressentimento de Hesperides. Antes do ataque realizado pelo demônio ele achava que teria algo a ver com o projeto anunciado pelo rei, mas agora tinha noção do quão irrisório aquilo era perto do que aconteceu.

Então ele pensou em Pepelu. O arqueiro e a sacerdotisa foram achados na Igreja do Criador, onde acreditava-se que alguém desconhecido havia entrado. Pepelu de fato contou uma versão muito estranha em que um homem aparecera e sumira do local misteriosamente, mas muitos encararam a história como um delírio. Restava ao cavaleiro confirmá-la quando a sacerdotisa acordasse do grave atentado à vida que sofrera, segundo Pepelu causado pelo sujeito anônimo.

Foi quando Arieswar soltou um suspiro. Em sua casa, Pepelu fazia o mesmo. Cada um pensava de seu modo que o dia que ficou para trás fora simplesmente o mais longo das suas vidas.

··Hail the prince of Saiyans··