o Carlos disse tudo, eu até fico sem saber o que comentar :hmm:
então passo mesmo para agradecer por vc estar escrevendo A Voz do Vento, sempre com ótimos capítulos e um "continua..." que deixa aquela vontade de ler mais... bom, é isso aê :)
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o Carlos disse tudo, eu até fico sem saber o que comentar :hmm:
então passo mesmo para agradecer por vc estar escrevendo A Voz do Vento, sempre com ótimos capítulos e um "continua..." que deixa aquela vontade de ler mais... bom, é isso aê :)
Saudações, pessoal!
Pois é, acho q dei uma empolgada esses dias... Tanto que estou postando capítulo novo hoje!
O Segundo pergaminho já tomando seus rumos, Ireas e seus amigos achando seus caminhos... Muitas surpresas, mas ainda há muito a se percorrer!
Mas antes, vamos responder aos Comentários! E a Janela ataca novamente...!
Spoiler: Respostas aos Leitores
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Capítulo 12 - Dois Oásis no Deserto: Por Ashta' Daramai, a Casa de Darama! (Parte 1)
O lado foi escolhido...
(Narrado por Ireas Keras)
Aceitamos a missão que Bo' Ques nos havia confiado, e chegamos à Darashia ao cair da noite. O motivo de não termos ido por Ankrahmun deu-se pelo fato do desaparecimento do barco e de seu "capitão".
— Ainda não consigo crer... — Resmunguei, raivoso.
— Em quê? — Indagou Emulov.
— Em Yami! — Respondi. — Não consigo crer que ele seja um Djinn, e que esteja à serviço de minha mãe!
— As aparências enganam... — Respondeu-me o Zaoano serenamente — Agora, ao menos sabemos que sua mãe pode exercer influência em criaturas tão poderosas quanto Djinns.
— E quanto antes conseguirmos as peças desse louco quebra-cabeças... — Continuei, reflexivo. — Mais rápido terei respostas... E um pouco de paz.
Emulov assentiu afirmativamente, e seguimos para o palácio de Kazzan, onde encontramos Chemar Ibn Kalith, o responsável por transportar indivíduos de Darashia a outras localidades via...
— Carpete voador?! — Indaguei, incrédulo.
O homem riu para mim — e eu posso jurar que Emulov fizera o mesmo.
— Sim, sim! — Respondeu Chemar — Sou um dos pilotos de carpete licenciados de nosso mundo! — Ele fez uma reverência para mim e Emulov — Por algumas peças de ouro, posso levá-los a determinadas localidades. Infelizmente, nem todas as cidades contam com nossos prestigiados serviços...
— Entendo... — Repliquei cordialmente — E de quanto precisa para nos levar a Kazordoon?
— Serão 80 peças de ouro para cada um! — Disse Chemar com um sorriso — E então, têm o dinheiro ou não?
Com um sorriso ladino, joguei duas pequenas bolsas de couro para o sujeito, contendo a quantia certa para levar a mim e meu amigo Emulov até a cidade dos Anões.
— Pois bem! — Concluiu Chemar ao terminar de contar as moedas. — Sentem-se e aguentem firme! A viagem será mais rápida do que poderão imaginar!
Assentimos e nos sentamos atrás de Chemar. O homem sentou-se em uma postura meditativa e sussurrou o que eu pensei ser os nomes de Daraman*. Após uns minutos, o tapete começou a tremular levemente e levitou cerca de dez palmos do chão. O objeto recuou para trás e logo obteve rápido impulso para frente, e saímos pela janela mar afora.
Os ventos sopravam ruidosamente em nossos rostos e cabelos; de cima do tapete, eu podia ver o mar em toda sua glória, com o sol a refletir nas ondas da mais bela forma possível. Eu deixei um sorriso vir às minhas faces — por momentos como aqueles valia a pena sorrir. Valia a pena lutar.
Logo vimos Tibia, ou o Continente Principal; o tapete acelerou ainda mais, e passamos pelos verdejantes pântanos perto de Venore e além, até chegarmos à montanha conhecida como O Grande Velho, lar de Kazordoon, a terra dos Anões.
Tão logo quanto a montanha apareceu no horizonte, o tapete atingiu sua máxima velocidade e fomos montanha acima, ladeando as paredes de rocha maciça. Logo chegamos ao topo, onde havia um lindo lago. Assim que chegamos, fomos recepcionados por uma mulher branca, de ruivos cabelos e olhos negros como o ébano. O tapete desacelerou completamente, pairando no ar para então aterrisar suavemente.
— Sejam bem vindos à Kazordoon! — Disse a moça com uma voz aveludada — Chamo-me Gewen, e sou a senhora dos Carpetes por essas bandas! — Essa última frase fora direcionada a Chemar, para quem ela piscou com um semblante malandro.
— Só você mesmo... — Disse Chemar, revirando os olhos e sorrindo enquanto ajudava a mim e Emulov com nossos pertences — Bem, estão entregues! Obrigado pela preferência, e espero servi-los em breve! Gewen, cuide bem deles!
Quando vi, senti apenas um vento em minhas costas — Chemar havia saído de cena. Logo Gewen atraiu nossa atenção, e mostrou-nos o caminho em direção à Kazordoon...
***
Dos campos de trigo que haviam em um parte da montanha abaixo de onde estávamos, entramos em uma pequena torre, a qual nos guiou para dentro de Kazordoon. Havia estátuas de anões com belas armas por todas as partes; as paredes eram feitas de largos tijolos de basalto, os quais ostentavam lindas gemas azuis e vermelhas neles incrustados.
Tubos metálicos com lava e metal derretido circulavam pelos corredores de basalto e marfim, deixando o interior da cidade relativamente quente. Naquele dia, Kazordoon estava com um pouco mais de movimento, contando com humanos e anões andando de um lado para o outro de forma frenética. Decerto era um dia especial naquela cidade.
A taverna estava lotada; exploradores de todas as localidades se reuniram ali para beber, cantar, dançar até cair. Emulov recuou uns dois passos e fitou-me com um semblante preocupado e receoso.
— O que há? — Indaguei.
— Não gosto de multidões... — Falou o rapaz, encabulado. — De onde venho... Não há muitos... como nós.
— Entendo... — Repliquei, compreensivo — Ainda assim, temos uma missão a cumprir. E não se preocupe, estou aqui...
Ele assentiu, ainda envergonhado e me seguiu, de cabeça baixa. O caminho para o balcão estava estranhamente desempedido — os demais presentes estavam muito ocupados com seus momentos de alegria.
Aproximei-me do balcão, certo de que estava no local correto. Havia um atendende de costas, loiro, limpando uns copos de estanho, enquanto um outro, de cabelos castanhos-claros, atendia os demais clientes.
— Com licença, onde posso encontrar a Anã que atende por Maryza?
O primeiro atendente virou-se em minha dieção, e logo constatei que era uma mulher. Uma linda anã de olhos azuis como o dia e cabelos louros como o trigo.
— Na falta de outra melhor, eu atendo por esse nome. — sua voz era bem feminina para um ser do porte que ela apresentava. — Em que posso ajudá-los?
— Viemos aqui a pedido de um ser... — Comecei, sério — Você deve estar familiarizada com o nome... — Aproximei-me dela para sussurrar — Bo' Ques.
A anã arregalou os olhos, surpresa.
— Há muito não ouvia notícias dele... — Falou Maryza, surpresa — De que precisam?
— De seu livro de Receitas mais bem conceituado. — Disse Emulov, com um sorriso gentil — Digamos que ele esteja sofrendo de um... Bloqueio culinário.
— Bloqueio... — Falou Maryza, reflexiva — Sei... — Ela soltou um largo suspiro, e logo nos fitou com um sorriso — Pois bem, eu tenho a cura para esse bloqueio. Contudo, ela não virá de graça: me deem 500 peças de ouro pelo livro, e ele será de vocês para dá-lo a Bo' Ques.
— Quinhentas peças... — Refleti — Bem, parece ser um preço justo...
Abri minha mochila dourada, e dela tirei mais uma sacolinha de couro — dessa vez, era maior que a que atirei a Chemar. A moça simplesmente colocou a sacola em uma de suas mãos e aferiu a massa manualmente. Ao término do rápido processo, entregou-nos um grande livro de capa verde desbotada, com um garfo e uma faca bordados nele.
— Façam bom uso! — Disse Maryza com um sorriso — E eu espero que Bo' Ques goste. Mandem a ele minhas lembranças!
Assentimos afirmativamente e saímos da taverna.
— E agora, que faremos? — Perguntou Emulov — Deve estar um pouco tarde... Sei que vai soar abusivo, mas gostaria de repousar...
Ele começa a tossir de leve; decerto não tinha saúde boa. Eu nem pensei duas vezes, e fui procurar um local para repousarmos. De repente, o meu Broche Ornamentado começa a brilhar — e minha desconfiança logo vem à tona.
— Mas o que diabos...?!
No centro do amuleto, bem na grande ametista, aparece a imagem... De Jack! Como aquilo era possível Que feitiçaria era aquela
— Ireas! — Gritou Jack — Graças a Banor consegui te contatar! Tentei falar com você a uns dias atrás, mas não obtive resposta! Como está?!
— Estou bem — Repliquei — E Emulov também. Infelizmente, não tenho notícias de Brand... Ou Wind... Há dias. E você, onde está Espero que Yami não lhe tenha feito algum mal...
— Bem, digamos que ele aprontou uma! — Disse Jack, um pouco ofegante — Ele me jogou para fora de minha rota. Agora, estou em Nargor, onde vou ajudar uma pessoa...
— Com o quê?! — Indaguei, preocupado, sabendo que ele estava em terras perigosas.
— Sírio Snow precisará de toda a ajuda do mundo nesse momento. — Replicou o paladino com seu típico sorriso — Infelizmente, não posso entrar em detalhes agora, ele pediu para que eu mantivesse tudo em sigilo.
— Ah, por Crunor! — Bradei. — Somos amigos, caramba! Você pode falar!
— Ainda não é o momento. — Falou Jack, estranhamente sério. — Mas logo você saberá... Agora, tem algo que eu preciso te dizer, Ireas...
— Que seria...?
— Bom, eu encontrei Liive por essas bandas — Falou o paladino, abrindo um sorriso. —, e ele é inocente da questão das cartas. Não foi ele quem as escreveu.
— As cartas... — Balbuciei, lembrando-me daqueles momentos funestos, em que acusei erroneamente o homem que tanto amava.
— Bem, essa é a má notícia que tenho pra hoje... — Falou Jack em um suspiro. — Quem escreveu essas cartas... Chama-se Esquecimento Eterno. Esse nome lhe é familiar?
Meus olhos se arregalaram, meu coração disparou... E meu sangue ferveu. Cerrei meu punho livre com força, e rangi meus dentes.
— Vadia miserável... — Falei por entre os dentes — Se conheço?! Infelizmente, essa maldita é... Minha mãe.
— Ah, por Uman... — Disse Jack, surpreso — Parece que os problemas não param de aumentar... Infelizmente, tenho que ir, Keras. Mas não se preocupe! Em breve estarei de volta para ajudá-lo a encontrar Esquecimento Eterno! Deseje-me sorte!
Antes que eu pudesse responder, a imagem de Jack some em meio a uma neblina que se formou dentro da ametista. Eu estava com ódio e raiva crescendo dentro de mim.
— Então, é isso o que quer?! — Rugi — Então, Esquecimento Eterno, é isso que terá! Se estamos em guerra, que seja! Não terei piedade de você, e jamais descansarei enquanto não te encontrar... Viva ou morta!
Continua...
Saudações, povão!
Pois é, minha empolgação tem crescido em proporção direta ao meu tempo livre! Enquanto o Torneio não começa, usarei minha história como aquecimento, bem como a Disputa que travarei com meu caro colega Gabriellk~!
Bem, os comentários referentes ao Capítulo anterior serão adicionados a esse Capítulo mais tarde (assim que vierem rsrsrs).
Sem mais delongas...
Já sabem — Ao Capítulo de Hoje!
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Capítulo 13 - Os Renegados: O Chamado do Mar (Parte 2)
... Contra os grilhões da Escravidão...
(Narrado por Rei Jack Spider)
Finalmente consegui contatar Ireas e contar tudo o que estava acontecendo (ou quase)! Foi um alívio enorme para mim ouvir a voz do rapaz e saber que estava tudo bem. Agora, eu e Liive poderemos nos concentrar no que está ocorrendo aqui em Vandura. Nos últimos dias, o número de foras-da-lei aumentou bastante por aqui, e logo tive que arranjar formas de me misturar à multidão. Troquei os brocados e seda de Thais por vestes mais rudes e pesadas, típicas de piratas. o caso de Liive, a troca jamais se fez necessária, visto que bárbaros são bem-aceitos por aqui.
Começamos a ser treinados na arte da espada, da garrucha e da navegação. Aprendi a atender a cada comando específico dos velhos lobos-do-mar que ali estavam; desde a subir as velas até comandar os lemes, aprendi tudo — e Liive também. Com o tempo, começamos a nos enturmar com aquele pessoal, e percebi que eles não eram de todo má gente, como sempre nos era dito em Thais — em sua maioria, eram pessoas de origem humilde e sofrida, que tiveram que recorrer à pirataria como forma de se libertar dos grilhões da escravidão que lhes fora imposta no dia em que o colonizador pisara ali. Eu agora compreendia seus motivos e angústias, e de uma coisa eu tinha total certeza:
Eu queria fazer parte daquilo. Queria ser parte daquela revolução, e dizer um basta a todo o abuso, toda discriminação, todo sofrimento que havia na Baía da Liberdade. Queria fazer de Vandura um lugar livre.
***
Estávamos todos reunidos no centro de Nargor, com Sírio de pé em um barril, ao centro da roda que formamos de antemão. O rapaz estava se preparando
para falar, e juro que nunca ouvi um discurso tão bom em minha vida.
— Senhores! — Começou o Feiticeiro — Por anos, a nossa terra vive presa a grilhões tão antigos quanto os casebres em que fomos forçados a viver. Por
anos, fomos condenados a trocar nossas almas e nosso corpo por ninharias! Há séculos nossa existência foi desvalorizada, e nosso sangue e suor tornaram-se coisas de pouco valor. Em verdade, meus companheiros, vos digo...
Ele desembainhou um sabre de cor rubra e fincou em um globo terrestre à frente dele, com a face mais decidida do mundo.
— A partir do dia de hoje, não viveremos mais à sombra! Não seremos mais o alcatrão desses riquinhos degenerados e corrompidos! Não estaremos mais jogados à nossa própria sorte, feridos e acuados! Não! A partir de hoj, senhores, provaremos que somos maiores e mais fortes do que eles pensam que somos! Se somos o alcatrão, então queimaremos à força de nossa combustão, destruindo tudo o que esses degenerados construíram, manchando nossa terra com o sangue, o caos e a corrupção. A partir de hoje, o que se verá nos navios que saírem de Nargor não serão mais pessoas maltrapilhas e desamparadas! Serão homens, mulheres e crianças livres, que lutam para defender a liberdade! Quando o Chamado for finalizado, a Revolução há de acontecer, e nós nos vingaremos por todos esses anos de abuso e escravidão! As marcas do chicote serão apenas uma mera lembrança... Se morrermos, morreremos com honra, morreremos por nossa liberdade!
Vi o rosto de Liive se iluminar; ele entendia perfeitamente aquele sentimento. Senti algo mudar dentro de mim. Mais do que nunca, queria ser parte de tudo
aquilo, queria lutar contra aquele sistema com o qual não concordava. E os urros, cada vez mais crescentes, atrás de mim aumentavam o meu nível de certeza. Eu estava mais determinado do que nunca — acredito que esse evento me empolgou mais que minha luta contra Morgaroth. O tom de voz de Sírio ficou ainda mais firme, majestoso, grave e incisivo.
— Lembrem-se desse dia, senhores, pois a Revolução, o Levante, o nosso tão esperado Verão, começa hoje! Hoje, senhores, a era Thaiana há de acabar... E a era dos Vanduranos há de começar! Comam e descansem como reis hoje, senhores, pois amanhã não haverá descanso! Para a nossa luta, deveremos estar o mais bem preparados possível!
O som era ensurdecedor, e logo me vi gritando junto com a multidão; Liive já estava delirando, bebendo e brigando como um lunático, e rindo, rindo na medida em que desafiava vários à quedras-de-braço e brigas sem armas. Eu não estava no pique de lutar — queria conversar com Sírio.
— Fico feliz que tenha escolhido o lado certo. — Disse-me o pirata Feiticeiro — Está pronto? As consequências poderão se piores para você... — Ele se referia à minha origem.
— Não me preocupo com títulos ou posses... — Respondi sorridente — Preocupo-me com a justiça; eu nasci com um vida boa e, infelizmente, às custas das vidas de vocês. Para mim, é justo que eu lute por essa causa. Todos nascemos livres, e não pode ser o dinheiro o mediador da liberdade.
— Só ouvi verdades! — Replicou Sírio com um sorriso — Agora, me conte, meu amigo. Como vai Ireas? Ainda busca pela mãe dele?
— Ele está relativamente bem... — Respondi, com um sorriso de canto — Passou por muitos altos e baixos desde sua saída, mas agora está bem. E sim... Ele está atrás da mãe dele ainda, e parece ter obtido mais pistas.
— Excelente! — Sírio respondeu de forma exultante. — Espero que Yami esteja sendo capaz de ajudar!
Nessa hora, eu travei. Como dizer a ele que Yami, um rapaz que ele conhecia a anos, não era quem ele pensava ser? Como dizer a ele o que havia ocorrido nesse meio tempo? Como falar das coisas que Yami havia feito?
— Bem, de certo modo, ele está... — Menti. — Bom, vou descansar...
— Espere! — Deteve-me o Feiticeiro. — Tenho algo para você. Siga-me, por favor.
Fitei-o por alguns instantes, surpreso. O que Sírio teria para mim?
***
— Oh, por Banor! Que belezura!
Era o navio mais lindo que já havia visto. Seu casco era todo feito em bétume, o que dava a ele uma cor bem clara, a despeito do alcatrão e outros materiais envernizantes nele colocado. As velas eram alvas e limpas, e o navio contava com três mastros. Era uma obra de arte, com convés duplo e uma ampla sala para o capitão.
— Esse é o Oásis de Darama! — Apresentou-me Sírio à embarcação. — Tendo em vista a sua habilidade e a de Liive ao mar, quero que cada um de vocês lidere um barco. Esse é o seu, e o de Liive, logo o apresentarei. Você contará com uma excelente tripulação, bem como os melhores canhões de que disponho. Só o que eu peço em troca é uma coisa pequena...
— Que seria...? — Comecei a indagação, curioso.
— Sua garantia de que voltará vivo dessa. — Falou o rapaz solenemente — Sua garantia de que estrá conosco quando formos reconstruir a Baía da Liberdade... Quero sua ajuda, Jack, e a de Liive também, para reerguer Vandura, para fazê-la ressurgir das cinzas. Que me diz? Temos um acordo?
— Você nem precisava me perguntar — Meus níveis de certeza e decisão eram máximos — Pode contar comigo para tudo, Capitão!
— Seja então bem-vindo ao mundo da pirataria... Capitão Rei Jack Spider, senhor do Oásis de Darama!
Eu comecei a rir alegre e orgulhosamente. Agora sim, eu estava pronto para dar o meu melhor no que dizia respeito à defender os direitos de quaisquer homens, fossem eles de Thais, Vandura ou quaisquer outras localidades. Eu estava pronto para defender a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade!
Continua...
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Nota da Autora: Alguns trechos do discurso do Sírio foram baseados em um poema que eu li no 1o Ano do Ensino Médio, intitulado "Eu sou Carvão, Patrão" ("Eu sou teu alcatrão, patrão/ Hei de arder no fogo de minha combustão/ Eu sou carvão, patrão!") e um pouco de Revolução Francesa pra apimentar o caldeirão!
Comentem, divulguem, opinem!
Saudações, e até a próxima,
Iridium
Fiquei uns dias sem visitar o fórum e hoje vi que tinha mais 2 capítulos de A Voz do Vento. Kazordoon é uma das cidades que eu mais gosto do tibia, talvez por ser baseada no universo de tolkien, e é sempre bom ler algo sobre ela, agora que o Ireas sabe quem é o verdadeiro autor das cartas ele tem mais um motivo para não gostar da mãe, e já pode considerar o Liive como um amigo denovo.
Mas o capítulo 13 que chamou minha atenção, bem legal o discurso e a maneira com que você adaptou uns trechos do poema, essa revolução de vandura promete ser empolgante, mais uma vez ótimos capítulos, obrigado por escrever e até mais.
Well, estou no capítulo 4 (quando o pessoal tá de luto pelas mortes na missão no mino) e estou gostando bastante...
Uma única coisa que me incomodou é o fato do texto ser tão corrido, os fatos acontecerem tão rápido, que alguns personagens ficam com um carisma muito forçado, as características não muito definidas (vide o vilão que esqueci o nome)...
De resto está bem legal, as falas e as descrições estão bacanas, de pouco em pouco vou tocando seu texto que é gigante.
Abraços!
Iridium, você recompensa cada minuto de leitura com a graciosidade do seu texto, incrível.
Além de você fazer todo um esquema especial para a história, você mistura a linguagem coloquial e costumes de cada personagem e a escrita culta, palavras refinadas e aquele ar de livro de verdade. O resultado dessa misturança toda é uma história muito leve e gostosa de ler.
Outro ponto que eu gosto bastante quando leio sua história são as alusões e referências a outros fatos que, geralmente, passam em branco para outros escritores. No último capítulo por exemplo, quando bati o olho em Liberdade, Igualdade e a Fraternidade já me veio à mente o lema francês, o que foi confirmado no final. Muito bom!
Enfim... se eu continuar a elogiar (o que deveria) vou passar a impressão de paga-pau, então, vamos às críticas, rsrs. Acredito que com o seu atual ritmo de escrita você deixa passar alguns erros bobos... por exemplo terminações de palavras, falta de pontuação ou espaçamento. Nada que uma corrida de olhos pelos capítulos não resolva.
Então, acredito que é isso. Até mais!
Saudações a todos!
Éééé, tem Torneio Roleplay na área! Finalmente! Mal posso esperar para começar a escrever. Bom, e nesse clima todo de disputa, estou postando novo Capítulo e terminando de preparar o texto para minha disputa com o caríssimo Gabriellk~. Já estamos um pouco... Atrasados, mas acho que conseguiremos vir com algo bem bacana =D
E aos participantes do Torneio, desejo muita boa sorte, e que tragam à arena seus melhores textos — eu farei meu melhor para trazer minhas mais belas joias literárias (assim espero).
Mas antes, vamos responder à galera que sempre comenta:
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Sem mais delongas, ao Capítulo de hoje!
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Capítulo 14 - Dois Oásis no Deserto: Por Ashta' Daramai! (Parte 2)
... Pela honra Marid, em nome de Gabel e de Daraman, o Homem Santo...
(Narrado por Emulov Suv)
Como são estranhos, esses seres a quem chama de anões! Como são barulhentos, peludos e tão desengonçados! Que bom que Ireas decidiu interceder, pois não estava nem um pouco confortável com tudo isso. De onde vim, o silêncio, a disciplina e a ordem são lei. Não falamos mais (alto) do que precisamos, nem ficamos em redundância por termos nada a dizer.
Não sei se Ireas algum dia já foi uma pessoa mais alegre, mas espero que tenha sido, pois vi que mais uma parte feliz dele se perdeu. Não sei se é mera brincadeira do Destino, mas parece que Uman às vezes escolhe quem merece ou não ser feliz... E parece que tanto eu quanto Ireas não entramos na parcela dos bem-afortunados...
O ar estava um pouco pesado para mim em Kazordoon — o calor das fornalhas e o cheiro entorpecente do álcool faziam daquilo um suplício para mim. A minha garganta arranhava, e meus pulmoes pareciam querer ceder aquele ambiente tóxico e nocivo; por causa disso, tive que atrasar Keras em algumas horas... As quais seriam o bastante para garantir minha recuperação.
— Desculpe por isso... — Falei a Keras, um pouco sem jeito.
— Não faz mal. — Respondeu-me o Norsir, ajeitando os catres dos quais o quarto dispunha. — De qualquer maneira, eu não estava disposto a viajar hoje. O caminho até os Carpetes é longo, e também estou exausto. Tenho certeza de que Bo' Ques aguentará esperar mais uma noite...
Assenti e me deitei no catre que se encontrava junto à parede à minha esquerda, enquanto Ireas deitou no outro, que estava na direção oposta ao meu. O rapaz logo deu-me as costas e pôs-se a dormir. Quando repousava, a respiração de Ireas parecia tão leve que era como se ele estivesse... Morto. Era peculiar e... Assustador.
Esquecimento Eterno... Aquele nome ecoou em minha mente por um bom tempo... A minha curiosidade acabou crescendo, bem como a minha não compreensão dos sentimentos de Ireas. Era fato que eu não era íntimo dele o bastante para saber, mas aquela fúria não fazia sentido para mim — Esquecimento Eterno, sendo mãe de Ireas, deveria ser alguém venerada, amada por ele... Ao menos, assim vejo a relação com nossos pais. Eles nos trazem ao mundo, e devemos tudo a eles. Posso não ter conhecido meus geradores, mas tive dois seres escamados a quem chamo de 'pais' com muito orgulho — e a quem devo tudo.
Procurei afastar esse pensamento de minha mente, e me vi em um tranquilo sono.
Mal sabia eu o que me aguardaria no despertar da manhã seguinte...
***
(Narrado por Ireas Keras)
Nunca houve uma noite mais mal dormida em toda minha vida; todo meu ódio e minha frustração haviam se somado ali. Como alguém conseguia ser tão desprezível, ainda mais com a carne de sua carne, o sangue de seu sangue? Como podia alguém ser tão pérfido e cruel? Como podia Esquecimento Eterno existir... E conseguir lidar bem com sua existência? Quanto ódio, quanta repulsa, quanto nojo senti — e ainda sinto — daquela mulher!
Ajeitei o quarto alugado de modo que a saúde de Emulov não seria ainda mais debilitada. O Zaoano parecia ter uma constituição muito frágil — mais até do que a minha, quando ainda era novo nas terras do Grande Continente, quando o deserto de Darama quase me ceifara a vida... Quando conheci Brand, Rei Jack... E Wind. Quando vi aquele Yalahari, já deveria ter suspeitado que algo ocorreria entre nós, mas nunca suspeitei que seria um romance, tampouco tão complicado quanto o que temos atualmente...
Deixei minhas pálpebras cerrarem-se lentamente, deixado o sono tomar conta de mim. Não ouvi um barulho sequer vindo de Emulov — ele dormia como um réptil, silencioso e discreto. Concentrei-me em meu sono, buscando descansar. Tinha que estar em meu melhor para poder iniciar a caçada aos Nove Tomos Pessoais de minha... Mãe. Dormi.
Comecei a sonhar. Sonhei que estava em um local do Grande Continente, em uma região que eu desconhecia; ela era uma larga planície com árvores podres e negras no chão, e com o solo úmido e fedido como o de um pântano. Esqueletos estavam em todas as partes, bem como restos de metais retorcidos e armas quebradas. A morte tomava conta daquele local. Novamente, eu estava no meio do local, com o semblante mais melancólico do mundo. Eu estava tão absorto em meus pensamentos que por muito pouco não me desvencilhei de um par de gigantescas quelíceras, as quais vinham com tudo em minha direção.
Olhei com certo pavor para a criatura — trata-va de uma mostruosa aranha! Com certeza portava mais de três metros, e suas patas eram fortes e afiadas. A despeito de seu enorme porte, mantinha a agilidade de suas menores (e normais) irmãs. Eu havia conseguido me esquivar, mas a infeliz dera uma cusparada de veneno que queimou minha perna esquerda, fazendo surgir bolhas no local, as quais estouravam rapidamente, fazendo-me ter a sensação de que meu corpo estava entrando em combustão.
— Maldição! — Urrei ao virar-me com fúria para o aracnídeo — Por que eu?!
A aranha avançava, usando suas patas como armas, tentando ferir meu corpo com a parte mais pontiaguda delas. Eu desviava e arremessava enormes estacas de gelo contra ela, buscando estraçalhar seu exoesqueleto. A cada vez que ela fincava uma de suas patas monstruosas no chão maculado pela pestilência e praga, uma de minhas estacas a atravessava, até ouvir dela mais nada senão um estridente e agonizante urro, seguido de sua queda no chão, com as patas para cima e se encolhendo sob o exoesqueleto inerte.
— Exura Vita... — Sussurrei, ofegante, curando minhas feridas.
Minhas pernas ainda doíam; minha garganta estava seca, e minha respiração estava pesada, graças ao ar fétido e podre daquele local. Restava a grande pergunta: com mil diabos, onde eu estava?
— Bem vindo às Planícies do Pavor... — Uma voz feminina soava no vento, e eu a conhecia bem.
— Por que não mostra seu rosto de uma vez?! — Indaguei, urrando como o Norsir que eu era — Por que força criaturas com menos poder que você a fazer seu trabalho sujo?!
Por acaso é covarde?!
— Se você não ficasse metendo o nariz onde não é chamado... — Retrucou a voz com escárnio — ...Não estaria passando por nada disso.
— E se você não ficasse revirando meu subconsciente, não estaríamos tendo essa conversa! — Urrei, retrucando em igual valor — Para onde me arrastou dessa vez?! O que pretende?!
— Eu quero saber o que você pretende... — Respondeu-me com escárnio, a despeito da voz melodiosa que encantaria a qualquer homem — Já falei para você ficar longe... Bem, parece que Djema não soube ficar quieta... Achei que os Djinns ajudariam a manter meu segredo, mas me enganei...
Olhei para os céus com espanto; o que antes era um céu claro e sem nuvens converteu-se em uma abóbada celeste cinzenta com nuvens negras, cujos relâmpagos açoitavam as massas de ar assustadoramente, seguidas de trovões tão fortes quanto o rugido de cem leões em coro. Ela apreceu, mas não em forma humana — Esquecimento Eterno parecia uma massa sombria, da qual eu podia distinguir apenas os olhos, de cor magenta e bem brilhantes. A fúria e a cólera pareciam transbordar do olhar da Feiticeira, que pairava no ar, com as mãos estendidas para o céu em fúria.
— Exevo... Gran...
Meus olhos se arregalaram; as nuvens pareciam ainda mais negras, e mais relâmpagos singravam os céus! Eu estava em péssimos lençóis, e só havia uma coisa que eu poderia fazer.
— Utamo Vita! — Eu tinha que me defender contra o que quer que fosse aquilo que Esquecimento conjuraria contra mim.
— Mas... VIS!
A luz era tão intensa quanto a infernal sinfonia de trovões; eu cerrei meus olhos e esperei pelo pior. Eu gritava em agonia, debatendo-me contra a luz que se apoderara de mim. Senti um par de mãos sobre meus ombros, sacudindo-os; em seguida, ouço uma voz familiar: a de Emulov.
— Acorde, Norsir! — Falava o Zaoano, desesperado — Acorde! Você está em Kazordoon! Você está seguro!
Abri meus olhos rapidamente; a luz vinha do candelabro que outrora compramos, horas antes de irmos dormir. Eu estava ofegante, suando frio enquanto a cicatriz em meu peito brilhava fortemente — aquele tom de azul nunca fora tão claro e brilhante. Cerrei meus olhos e sentei-me no catre, apoiando meus cotovelos em meus joelhos, e enterrando minha cabeça entre minhas mãos. Queria que aquela sensação horrível fosse embora.
— Qua horas são? — Indaguei, um pouco mais calmo, mas ainda ofegante.
— São... Três da manhã... — Replicou Emulov, visivelmente cansado.
— Certo... — Repliquei, respirando fundo. — Queira me perdoar, meu amigo, mas estamos de saída...
— Tem certeza? — Indagou-me o Feiticeiro, preocupado — Você não parece nada bem...
— Acredite, eu já estive em dias piores... — Repliquei, frustrado — A maioria dos humanos deve estar repousando. Vamos aproveitar esse momento para usarmos os "Vagões".
— Vagões? — Emulov indagou, confuso. — O que são?
Sorri para o rapaz, semicerrando os olhos. Decerto não havia transporte como aquele de onde Emulov vinha. Sinalizei com a mão esquerda para que me seguisse; pegamos nossos pertences, tranquei a porta e fomos até o Depósito e Banco da cidade, onde fui falar com Lokur, o anão de cabelos e olhos negros que me havia cedido as chaves.
— Mais alguma coisa, senhor? — Indagou o anão, gentil.
— Gostaria de dois passes para os Vagões de Minério. — Falei, apontando para mim e Emulov — Ele nunca ouviu falar no sistema, e gostaria de mostrar a ele.
O anão arregalou os olhos, rindo levemente logo em seguida.
— Está aí uma novidade! — Exclamou, alegre — Um humano que não conhece nosso sistema! Isso é formidável, mais propaganda positiva! Vamos, vamos! Estendam para mim seus braços e cem moedas de ouro cada*!
Joguei duas sacolas com a quantia para o anão, e estendi meu punho esquerdo para ele, e instruí Emulov a fazer o mesmo. O anão sacou um carimbo com a face do Imperador Kruzak e o nome da cidade, e prensou a tinta de encontro às nossas alvas peles, deixando-nos com a estampa nas costas de nossas mãos.
— Bem, o passe tem validade de uma semana — Disse Lokur com um sorriso —, e ele lhes dará acesso ao sistema completo de vagões e trilhos de nossa cidade. Peço apenas que não brinquem com os vagões: alguns anões causaram... problemas nesses "rachas" corriqueiros.
Sorri para o anão, concordando com seus termos. Em seguida, guiei Emulov pelos corredores de basalto e mármore até onde estavam os vagões.
— Bom... — Comecei, relativamente sorridene a despeito de meu cansaço — É só você sentar neles, puxar a alavanca e pronto: chegaremos ao nosso destino bem rapidamente...
O Zaoano estava hesitante, mas logo entrou no vagão, esperando-me acionar a alavanca. Baixei-a com um pouco de esforço e, com um som rouco, ela desceu, e impulsionou as rodas do vagão, fazendo-nos disparar trilhos afora. Emulov agarrou-se na beirada do vagão, apavorado. Eu, por um outro lado, sorria que nem uma criança.
A cada curva, descida e subida daquele veículo, partes de minha infância voltavam; lembrava-me de quando era bem moleque, uma criança franzina, a quem muitos tomavam por menina, que corria pelos corredores de pedra da pequena abadia de Rookgaard.
Uma descida, e lembrei-me de quando galguei todo o caminho até o topo da pequena abadia, e acabei por escorregar na dobradiça do telhado — nunca havia visto tantas telhas de pedra voando. Cipfried ficara furioso! Naquele dia, deixou-me de castigo, rezando inúmeros Uman-Nossos, ajoelhado no milho...
Outra alavanca; dessa vez, ela nos levaria ao topo da montanha. Com um sorriso malicioso, daqueles que eu costumava ostentar quando criança, baixei rapidamente a alavanca, e o solavanco fora mais bruto que o anterior, e soltei uma risada gostosa.
Lembrava-me das noites que o padre me punha para dormir; lembrei-me das histórias, dos contos e canções... Seu rosto, com aquele sorriso doce, ainda que os anos não lhe tivessem sido piedosos — Cipfried já era um pouco ancião quando me acolheu em seus braços... Quando Esquecimento Eterno abandonou-me em Rookgaard, privando-me de uma família, de uma história... De uma identidade.
Ao chegarmos no topo, no mesmo local onde Chemar nos havia deixado, eu estava com lágrimas em meus olhos — e me recusava a limpá-las.
— Tudo bem? — Indagou Emulov em seu semblante sereno e um pouco melancólico.
— Sim... — Respondi, saindo de meu transe, enquanto uma tímida lágrima saía de meu olho direito— Está tudo bem. Apenas... Lembranças. Gostou da viagem
Emulov fizera que sim com a cabeça, ainda que estivesse visivelmente tonto. Eu abafei um riso e fui falar com Gewen, cujo sorriso maroto já mostrava saber o que queríamos.
***
Enquanto voávamos, consegui barganhar com Gewen uma viagem um pouco maior — fi-la levar-nos até a entrada de Ashta' Daramai, a fim de poupar Emulov de mais desgaste. Afinal, dormíramos tão pouco que não seria nenhuma surpresa se desmaiássemos em pleno deserto.
Cumprimentamos Uman rapidamente e logo disparamos escadaria acima — queria falar com Bo' Ques o quanto antes, a fim de conseguir cair nas graças de Fah' rahdin.
Logo encontramos o cozinheiro, que estava esbaforido e desesperado. Ao ver-nos com o livro em mãos, começou a gritar de alegria, abraçando-nos fortemente, o que fez com que Emulov tossisse de leve.
— Oh, desculpe, pequenino! — Disse Bo' Ques, eufórico — Ótimo, ótimo, vocês conseguiram o livro! Estou muito, muito satisfeito! Ah, falei de vocês para Fah' rahdin, e ele quer vê-los! Ele está naquela sacada, basta falarem com ele.
Assentimos com a cabeça como forma de agradecimento e seguimos adiane. Fah' rahdin parecia mais guerreiro que Uman ou Bo' Ques, ostentando uma linda cimitarra, que cintilava sob a luz do Sol. Seu olhar parecia perdido, voltado para o mar ao longe.
— São vocês... — Ele disse antes que pudéssemos nos pronunciar — Sejam bem-vindos ao meu local de meditação. Sou Fah' rahdin, comandante das forças Marid, antigo braço direito do infame traidor Malor... — Essa última frase parecia doer-lhe muito.
— Djanni' hah. Sou Ireas Keras... — Falei em tom firme, mas controlado — E esse é Emulov Suv.
— Bo' Ques falou-me de vocês ontem, no jantar. — Replicou o Djinn friamente, sem sequer nos olhar — Vocês conquistaram minha curiosidade, mas ainda não tem meu respeito. Para consegui-lo, e assim caírem, por consequência, nas graças de Gabel, nosso verdadeiro senhor e rei, preciso que façam algo potencialmente fatal para mim... Estão... Aptos?
Emulov trocou um olhar e um sorriso maroto comigo.
— Sim. — Respondemos em uníssono — O que quer de nós?
— PIEDPIPER. — Falou o general Marid, austero e sério — Lembrem-se bem dessa palavra, pois é o que dirão a Rata' Mari, um de nossos melhores espiões. Ele se encontra em Mal' Ouquah, nos porões daquela pocilga. Encontrem-no e peçam a ele o relatório, pois há muito ele não nos manda nada, e isso já está começando a me preocupar. Agora, vão; se bem-sucedidos, tenham certeza de que falarei de vocês a Gabel. Djanni' hah!
Fizemos uma reverência e saímos do local; somente quando chegamos à porta, que percebemos a complexidade da tarefa diante de nós.
— Invadir... Mal' Ouquah? — Indagou Emulov retoricamente, com certo medo em seu semblante.
— Já passamos por coisa pior, Emulov... — Repliquei, melancólico. Referia-me à Drefia. — Garanto-lhe que conseguiremos passar por isso tranquilamente.
— Tomara... — Suspirou o Zaoano de olhos bicolores — Bem, temos que regressar à cidade. Precisaremos de suprimentos e uma boa noite de descanso.
— Sim... — Repliquei, olhando para as estrelas acima de nós — E torço para que encontremos Brand e Wind em Ankrahmun...
O vento soprava em meu rosto, e me fazia lembrar de tudo que eu havia vivido até aquele dia. Custasse o que custasse, eu encontraria Esquecimento Eterno, e acabaria com aquela onda de sofrimentos e angústias de uma vez por todas.
Continua...
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Notas da Autora:
*Cem moedas de ouro cada: Não tenho certeza do preço dos Ore Wagon Tickets de Kazordoon. Quem lembrar de cor, me fale, por favor!
É isso aí, gente! Meu aquecimento pro Torneio, haahaha XD
Espero que tenham gostado do Capítulo. Comentem! Digam o que acharam! Adorarei receber feedbacks de todos!
Saudações,
Iridium.
Mais um capítulo, e mais demonstrações de poder da mãe do Ireas, a batalha contra a mãe dele promete ser melhor do que a luta do pessoal contra o morgaroth, afinal essa Esquecimento causa uma tempestade de raios onde aparece, e agora ela resolve "sequestrar" o filho durante o sono... no mais, a quest dos djinns (agora está chegando na parte mais interessante) contada por você me faz prestar mais atenção ao rpg, que muitas vezes por pressa em conseguir a recompensa eu não presto tanta atenção durante o jogo, então é isso, valeu.
São 250 gp cada viagem.
Capitulo massa, curti principalmente a fúria de Ireas com a pobre Aranha! kkkkkk
Bom, sua escrita continua impecável, porém não entendi o porque que a mãe do Ireas iria atacá-lo, já que durante toda a história ela enviava a ele pistas, sobre sua verdadeira face e como a encontrar, ao restante vai ser no minimo curioso a invasão de Ireas na fortaleza dos Green Djinn!
Saudações, senhores!
Pois é, acabou a primeira fase do Torneio... E eu caí. Uma pena, não consegui fazer um texto tão bom quanto achei que faria. Entretanto, nada de lamentos! Bem, agora que não tenho que me preocupar com prazos, eis que lhes presenteio com a volta de Ireas ao cenário da Seção!
Mas, antes, umas respostas caem muito bem...
Spoiler: Respostas aos Comentários
Sem mais delongas, ao Capítulo de Hoje...
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Capítulo 15 - Os Renegados: O Chamado do Mar (Parte 3)
... Pela Igualdade... Liberdade... Fraternidade...
(Narrado por Liive, o Bárbaro do Inferno)
Jack estava exultante; há poucos dias atrás, recebera a honra de ser o capitão de um dos navios da armada de Sírio. Eu estava muito feliz por ele, não só por ser um Thaiano que buscava justiça para um povo escravo, mas também pelo fato de ser uma chance de eu me redimir.
Nesses dias, escrevi a Sven, a Silfind e a Ireas, pois o Paladino me havia contado de sua última conversa com o Druida Norsir. É claro que eu estava preocupado — afinal, minhas últimas ações só trouxeram desgosto ao rapaz. Ainda assim, Ireas é um rapaz cuja amizade eu estimo, e não posso deixar de me preocupar com ele.
Eu, contudo, mantinha-me quieto, soturno, reflexivo... Frustrado. Como pude ser manipulado por meses a fio?! Como pude ser enganado dessa forma?! Aquela mulher... Seja lá o que for, seus poderes são grandes demais para serem conferidos a um mero mortal. Não... Ela não é humana. Esquecimento Eterno é qualquer outra coisa, menos humana...
Passos; ouvia o bater de solas de couro no chão duro de pedra no qual me sentava. A fogueira estava quase se apagando; ao me virar, deparo-me com Sírio Snow — ele parecia ter algo para mim.
— Saudações. — Falei, um pouco ríspido.
— Norsir... — Começou Sírio, sério — Confesso que, assim como Wind, eu tenho minhas desavenças com você, e pelo mesmo motivo: Ireas. Sabe, ele foi a primeira pessoa com quem falei depois de ter saído de Rookgaard, e muito eu ouvi a respeito dele por Cipfried e Asralius, que criaram o Druida como se fosse familiar deles. — Ele se recostou na parede de pedra, com seu olhar sério sobre mim — Não sei ao certo se confio em você, mas sei que sua ajuda é necessária. Assim como eu, você também foi vítima dos governantes do Grande Continente, com o diferencial de estar sob o governo de um jarl que é títere de uma Rainha...
Títere, marionete, juguete, peão... Não importava o nome, pois Sírio estava certo — Sven estava longe de ser autônomo. Eloise o comandava, e nós concordávamos com isso! A que ponto havíamos chegado?! Estávamos mansos, dóceis... Carlianos. Aquele manifesto me fazia enxergar isso cada vez mais.
— Está me ouvindo, Liive? — A voz do Sotero-libertino trouxe-me de volta àquele local, fazendo-me sair de meu transe.
— Estou... — Menti, meneando lentamente a cabeça.
— Como eu dizia... — Pigarreou o Vandurano, com um meio-sorriso — Eu te darei não só uma incumbência, mas duas: a você, Liive, será dado não apenas o Rei-Feiticeiro de Calassa, um dos mais velozes navios de minha frota, como também o posto de Segundo em Comando da Resistência! Então... Aceita?
Eu estava surpreso; logo eu, uma pessoa em quem Sírio certamente não confiaria? Realmente, o mundo dá voltas... Eu sorri um sorriso malandro para ele.
— Jamais recusaria. — Repliquei, levantando-me do chão de pedra. — Algo mais?
— Amanhã começaremos a operação. — Disse Sírio; arregalei meus olhos naquele momento — Você, como Segundo em comando, deverá avisar a todos e certificar-se de que estarão todos em posição. Sugiro que já tome o leme de seu navio, Capitão Liive, pois amanhã será um longo dia.
— Ótimo! — Rugi alegremente, pois a batalha estava próxima. — Avisá-los-ei imediatamente!
O navio era lindo: sete côvados de altura por vinte de comprimento. A madeira era escura (supunha ser de mogno ou ébano), e o formato do navio era esguio, que logo o fazia se destacar dos demais. Seu casco não era muito fundo, mas era amplo, e o convés duplo e as velas triplas eram de tirar o fôlego de tão majestosos. O navio era lindo — e estava novo em folha. Lambi meus beiços, pois mal podia esperar para lavar aquele deque duplo com o sangue dos Thaianos opressores.
Subi no barco sob os olhares de Sírio, desancorei-o e logo pus-me a realizar minha tarefa; a noite era escura e sem estrelas, e tudo estava a nosso favor. Fiz soar a sineta no parapeito da proa, fazendo despertar aqueles rufiões sedentos por batalha... E por sua liberdade.
O dia logo amanheceria, e não tínhamos tempo a perder. A Revolução tinha que começar...
***
(Narrado por Ireas Keras)
Enfim, chegáramos à cidade. Não aguentava mais aquela caminhada extenuante sob o sol do deserto; ainda que o clima estivesse seco e quente ( como de costume), ao menos ele ficava mais ameno na cidade de Ankrahmun.
— Aleluia! — Falei, deixando-me apoiar nas paredes de uma pirâmide, deslizando até sentar no chão de mármore — Nunca estive tão cansado... — Soltei um triste suspiro — Espero que Wind esteja bem...
— Eu também... — Replicou Emulov, sentando-se na base da pirâmide oposta — Por muito pouco, não saímos vivos daquele local...
Cerrei meus olhos, buscando um descanso. O que ocorreu em seguida foi rápido demais para acompanhar — de repente, senti um par de braços fortes levantar-me do chão, deixando-me no ar por muito tempo; em seguida, um beijo me fora roubado. E eu conhecia bem aqueles lábios.
— Wind! — Exclamei, abrindo meus olhos de imediato — Você está vivo! — Olhei para os aldos, certificando-me que não havia testemunhas além de Emulov. Enganei-me: Brand também estava lá.
— Olha só quem achamos! — Disse Brand em um tom alegre — É bom ver que os dois voltaram sãos e salvos! — Ele então se vira para mim e Wind, com um semblante mais sério — Sejam mais discretos... Nem todos aceitam tão bem a relação de vocês.
— Bem, serei direto... — Falou Emulov, tímido e gaguejando levemente — A tempestade nos levou à Drefia, a qual atravessamos a muito custo, lutando contra hordas e hordas de mortos-vivos; depois, fomos até Ashta' Daramai... Para a qual estamos cumprindo missões.
— Entendo... — Disse Wind, um pouco decepcionado, soltando-me e se afastando um pouco de mim — Então, vão ajudar Gabel... Certo. Vou mostrar a entrada dos fundos para vocês, mas que fique bem claro: vocês não souberam por mim da entrada. — Ele então sorri, e pisca para mim.
— Ah, encontramos algo em Ashta' Daramai! — Exclamou Brand, entregando-me um tomo de capa rubra — Era de sua mãe, Ireas, e contém informações valiosas sobre ela. Ao todo, são Nove, e estão espalhados por Tibia; esse é o primeiro do acervo, e acho bom que leia: a pista para o próximo Tomo deve estar contida nessas páginas.
Peguei o livro com surpresa, ódio e curiosidade simultaneamente. Que segredos aquele Tomo guardava? Quem era Esquecimento Eterno realmente?
Continua...
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Meio pequeno, um pouco parado, mas tá valendo!
Vamos que vamos, que as brigas vão começar, e com tudo!
Comentem! Adoro o feedback de vcs!
Até o próximo!
Não foi desta vez que Ireas invadiu a fortaleza, mas tenho certeza que no próximo capítulo iremos conferir, e posso apostar que Ireas irá encontrar a pista do segundo tomo nesta missão.
Outro ponto é a guerra que irá ocorrer, provavelmente na minha história irá ter uma, e poderei ter certa noção de como narrar certos fatos.
Ps: Também senti falta de comentários seus, principalmente sobre meu "ótimo" português.
Vish tava olhando as histórias que acompanhava e vou vendo uma por uma das que deixei para trás e vi a sua Iridim, bom como estou de férias e baixando uns episódios de South Park para ver, to aproveitando para ler os capítulo que não li, claro que depois que votei nas histórias do torneio, vou comentar capítulo por capítulo para mostrar que li tudinho;)
Capítulo 28: Nossa o poder dela é espantoso, a forma que seu poder de manipular água permite que transcenda uma cadencia destas, podendo reestruturar a cidade e dar paz aos antigos oponentes. É admirável a forma com que a múmia dá os conselhos, eles são importantes, algumas vezes vivemos os anseios do futuro ou os temores do passado e esquecemos do hoje, ótimo capítulo.
Capítulo 29: Nossa a forma com que é tratado os sentimentos fica de uma forma bem sensível, Achei um errinho (Oculto pelas Sombrar - era sombras), compreensível pela quantidade de frases desse capítulo, nossa esse final deixou um clima tenso e ansioso para o próximo capítulo.
Capítulo 30: Eita que esse início mostra algo surpreendentemente avassalador, imagina a situação vista, pode lembrar aquela parte do filme constantine que os bois (eu acho:hmm:) morrem e viram carniça, é esses sentimentos podem tanto ajudar quanto destruir e por final fica uma difícil decisão, um verdadeiro turbilhão de sentimentos.
Capítulo 31: Hehe, ver uma cidade mercadora é algo animador e de notícias que os ataques dos nômades se tornaram mais raros é uma coisa boa, mas é surpreendente alguém nessa situação querer se redimir, mas todos merecem uma segunda chance não é verdade? ou não?
Acho que vou terminar de comentar mais para frente, tem muuuiiitooo material para ler ainda, haja inspiração para tanto, parabéns, quem sabe amanhã eu termine de comentar, ai edito aqui.
Saudações, povão!
O Torneio continua, a Comunidade Roleplay inunda... E A Voz do Vento ficou só no vento, sem voz alguma... Até hoje!
Depois de mais de um mês, Ireas e seus amigos hão de fazer sua volta triunfal ao jogo! Espero terminar esse Pergaminho ainda nesse ano, rs...
Mas, tenham calma! O Ireas ainda vai passar por muitas coisas... Vocês vão ver.
Por falar nisso, quem está acompanhando meu Life Thread? Criei-o recentemente para mostrar o progresso de meus três personagens - Kallisto, Soraya e o Ireas (lógico) - e tem tudo dado certo até agora. Bom, para quem não está acompanhando ainda, eis o link.
Life Thread: Ireas, Kallisto e Soraya
Agora, vamos aos Comentários (só dois, mas tão valendo e estão de bom tamanho!):
Spoiler: Respondendo aos Comentários
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Sem mais delongas, ao Capítulo de Hoje!
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Capítulo 16 - Dois Oásis no Deserto - Por Ashta' Daramai! (Parte 3)
...Agora e Para Sempre...
(Narrado por Ireas Keras)
Era uma sensação estranha estar junto a Wind de novo; por um lado, estava feliz por vê-lo são e salvo. Por outro lado, não acho que ele tenha gostado do fato de eu ter escolhido o outro lado da guerra Djinn. Além disso, o livro, o Tomo que Brand me dera, me intrigava, e muito - que segredos de minha mãe haveriam ali? Quem seria aquela mulher de fato?
O caminho, com Wind ao nosso lado, não mostrou-se lá muito difícil, pois o Cavaleiro Yalahari, com muita destreza e força, eliminava de seu caminho quaisquer adversários. Najas, escorpiões e até ferozes leões pereceram ao fio de sua espada.
Em um dado momento, quando havíamos subido bastante montanha adentro, ele sinalizou para que parássemos.
— Aqui mora um Wyvern... — Disse-nos o Yalahari, com um sorriso melindroso — Vamos derrotá-lo...
Engoli em seco. Wyverns eram como dragões em miniatura! E eu nunca havia enfrentado sequer um filhote de dragão! Como eu lidaria com um animal daquele porte? Emulov me fitava com receio — não gostara da ideia de matar um Wyvern. Decerto a criatura teria parentesco com algum ser que ele conhecesse, talvez por isso ele estivaria relutante.
Pé ante pé, seguimos Wind escadaria acima, através de uma pequena entrada. Quando nós dois chegamos, ouvimos um chiado estridente e forte. Em seguida, vi o Yalahari combatendo um estranho e franzino dragão de escamas marrons, olhos verdes e garras afiadíssimas. Ele tinha cerca de cinco metros de envergadura por sete metros de comprimento da cabeça à cauda espinhosa.
As chamas chegaram perigosamente perto de mim e Emulov, e eu fiz o jovem Feiticeiro recuar. Observamos Wind enfrentar a criatura de peito aberto, desviando das chamas por ela atiçadas ou curando-se rapidamente de suas investidas, mordidas ou garradas. O veneno que ela jorrava parecia não ter afetado em nada a performance do ruivo que, em poucos golpes de espada, desfigurou por completo a criatura.
— Quanto poder... — Sussurrou Emulov, visivelmente lívido ante a morte do Wyvern.
Wind pegou uma garrafa de água e derramou o líquido sobre seus cabelos e ombros, lavando o sangue e o limo venenoso de sua pele. Quase que desmaiei ao ver essa cena... Não fosse Emulov para tirar-me daquele transe... Bem, teria sido uma cena um tanto quanto constrangedora...
— Vamos adiante! — Falei, recompondo-me — Temos uma longa invasão pela frente...
Emulov e Wind assentiram, e o Yalahari tomou a dianteira. O restante do caminho fora tranquilo, e Wind conseguiu distrair os Djinns verdes de modo que eu e Emulov pudéssemos ficar invisíveis* e, assim, descer até o porão, onde falamos com Rata' Mari.
— Djanni' hah! — disse ao ver, para minha surpresa, um ratinho no chão.
— Saudações! — Respondeu-me o ratinho, animado. — Ei! Espere um segundinho aí! — Ele logo assumiu uma postura desconfiada, ficando sob as patas traseiras e cruzando as patinhas dianteiras — Onde foi que você aprendeu...?
— PIEDPIPER. — Falei sem rodeios — Fa' hrahdin nos mandou. — Falei por fim, apontando para mim e Emulov enquanto dizia nossos nomes. — Sou Ireas Keras, e esse é Emulov Suv.
— Oh! Ótimo, ótimo! — Aplaudiu o ratinho — Achei que tivessem se esquecido de mim. Oh... Vocês devem querer os relatórios...
O ratinho estava para nos estender os pergaminhos quando, com um sorriso melindroso, se deteve.
— Nã, nã, nã! — Protestou com um tom sacana — Antes, meu pagamento.
Eu e Emulov nos entreolhamos.
— Que pagamento? — Desconfiado, indaguei.
— Ora essa! — Esbravejou o ratinho em um meio sorriso — Estou com fome! Ouve isso? — Ele apontou para seu pequeno ventre de roedor — Há tempos ele ronca sem parar... Uma roda de queijo fresco é tudo o que peço...
Eu me controlei muito para abafar o riso. Com um sorriso ladino, estendi minha mão esquerda para o ratinho e pronunciei a fórmula da solução de seu problema:
— "Exevo Pan" — Ao dizer isso, uma roda de queijo fresco apareceu, e o ratinho atracou-se a ela com fome singular.
Com uma de suas patas, entregou-nos os documentos, e pudemos seguir em frente. No andar de cima, Wind nos esperava, curioso para saber do que se tratava o papelzinho.
— Nã, nã, nã! — Disse-lhe com um risinho melindroso, afastando-lhe com uma de minhas mãos — O conteúdo desse Pergaminho é confidencial... Lamento.
Creio ter conseguido arrancar um leve riso de Emulov, pois ele parecia tentar abafá-lo quando viu minha interação com Wind. A verdade é que, a despeito de tudo que estava acontecendo ao meu redor, estava feliz por ver Wind de novo, por ele estar bem... Por tê-lo perdoado, e por ele estar ao meu lado ainda...
***
Novamente, Wind esperou por mim do lado de fora de Ashta' Daramai, sereno em seu repouso, com os olhos cerrados, braços cruzados e cabelos balançando suavemente ao vento. Eu e Emulov tratamos de falar logo a Fa' hradin, o qual mostrou-se surpreso em nos ver.
— Sinceramente, não achei que sobreviveriam. — Disse o Djinn em um tom bem austero, recebendo os pergaminhos — Bem, Rata' Mari está bem e ativo, e é isso o que importa. Bem, vocês já estão conhecidos aqui, e acho que já podem ter a honra de falar com nosso senhor Gabel em entidade...
Eu olhei para Emulov. Enfim, a chance que tanto esperávamos! Reverenciamos Fa' hrahdin e seguimos escadarias acima, onde Gabel, o senhor dos Marid (e antes senhor de todos os Djinns) nos esperava. Seu semblante era doce e altivo ao mesmo tempo. Seus belos olhos negros ostentavam um brilho arroxeado. Seu corpo era forte e de um azul brilhante como safiras.
— Entrem, crianças... — Disse-nos Gabel, com a voz mais gentil que já havia ouvido. Talvez mais gentil até que a de Cipfried. — Entrem, por favor...
Aproximamo-nos respeitosamente do rei, que parecia ter um semblante melancólico, a despeito do sorriso que nos oferecia.
— Ah, fizeram tanto por nós... — Suspirou — Eu sinceramente não queria ter que lhes pedir mais esse favor... Eu não queria que tivessem que lutar a nossa luta. Contudo, se Malor percebesse o quão louca e errada é sua concepção, não teríamos que pedir a humanos que nos ajudassem. Daraman está com vocês, crianças, e eis que lhes peço esse último favor.
Ele respirou fundo. Havia muito pesar em sua voz.
— Eu nunca quis que nada disso chegasse a esse ponto... — Disse-nos com melancolia — Contudo, Malor passou dos limites, e já desrespeitou demais os ensinamentos de Daraman. Não posso mais dar a ele o benefício da liberdade... — Sua voz tornou-se mais grave e decidida — Vocês marcharão até a Rocha de Ulderek! Lá, falarão com o Rei Ogro, que há muito guarda o único artefato que poderá selar Malor para todo o sempre: sua Lâmpada Encantada, a qual ele tentou usar para me prender. Peguem a lâmpada e invadam Mal' Ouquah para nunca mais! — Ele apontou seu enorme dedo indicador azul para nós — A batalha é inevitável, e vocês derramarão muito sangue. Ao chegarem aos aposentos de lâmpadas de Malor, troquem as lâmpadas, e o malfeito terá sido desfeito. Eu espero vê-los vivos para contar essa história... Tenham cuidado... Daraman os protegerá, crianças...
Seu semblante voltou a ser melancólico e, lentamente, ele se sentou em seu trono, fitando-nos com um sorriso triste.
— Tão jovens... — Sussurrava em um triste mantra — Gabel... Daraman não aprovaria isso... A guerra não é deles, Gabel...
Respirei fundo e, ao lado de Emulov, desci silenciosa e solenemente as escadas, até chegar à entrada, onde Wind, já desperto, nos esperava com um semblante sério.
— Meu bem — Começou ele, estranhamente sisudo, olhando-me de soslaio —, já sei o que quer. Já sei o que me veio pedir... — Ele suspirou profundamente — Agora deves saber o porquê de eu não ter querido que você se aliasse a eles: sua aliança implica em uma traição a eles por minha parte.
Ele me olhava no fundo de meus azuis olhos. O brilho do pôr do sol em suas orbes castanhas dava a elas um brilho avermelhado estonteante e um pouco sinistro.
— Esse caminho, meu bem, você escolheu. — Disse-me sério — E eu entendo o porquê; por isso, se eu tiver que ser esfolado vivo e degolado por Malor, eu não me importo.
Arregalei meus olhos. Estava Wind certo disso? Ele encontraria a morte certa se decidisse me ajudar!
— Ireas... — Ele agora semicerrara seus olhos e sorria para mim — Eu escolhi você. Isso não é novidade; depois de tudo o que passei com e por você, não temo inimigo algum. Portanto, Ireas Keras e Emulov Suv... Eu os ajudarei do início ao fim. Desde a invasão do castelo Orc na Rocha de Ulderek até a invasão a Mal' Ouquah, pelos fundos da mesma. Brand há de nos ajudar, e encontraremos mais pessoas interessadas nessa missão. Ireas, se os Marid podem lhe mostrar o caminho até sua mãe, então eu não serei um empecilho. Farei de tudo para ver-te feliz, meu amor.
Continua...
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Nota da Autora:
(*): A Invisibilidade pode ser detectada por Djinns. Contudo, para fins de Roleplay (e pra diminuir um pouco o perigo dessa parte), fiz os Djinns cegos para a Invisibilidade. Contudo, isso não é realidade no jogo. Portanto, não repitam isso.
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Aee, revivi essa bagaça!
Comentários please!
Tá chegando o capítulo MAIS ESPERADO desse Pergaminho!
Se preparem!
Até o próximo!
E aí, Iri.
Bem, meu comentário será pequeno por eu estar com um pouco de pressa.
Não comentei mais, mas estive comentando um pouco contigo sobre a história, e talvez seja suficiente - só não sei se é pra você.
Eu gostei do capítulo, mesmo não sendo tão longo, tendo poucas coisas. Gabel pareceu gentil da mesma forma que no jogo, pois me uni a ele e estou nessa parte da lâmpada, que vai ser muito complicada, devido a quantidade de criaturas em Ashta'Daramai(Acho que errei o nome).
To aguardando o próximo capítulo, e fico feliz por estar voltando(de novo hu3), logo mais estarei retornando também. Fiquem atentos, antigos leitores. ;)
~Carlos
Nossa to rindo até agora, já pensou o caboclo lê aqui que eles não vêem o buneco invisível, dai ele vai lá todo bobo caçar uns djins com anel de invisibilidade e puff morre, dai o que ele vai pensar, humm:hmm: vou arrumar um advogado fodastico e processar a autora, vê se pode kkkk, ótimo capítulo hein, ta muito massa.
Salve, salve, povo!
CHEGOU! ELE CHEGOU!
O CAPÍTULO MAIS ESPERADO DO SEGUNDO PERGAMINHO, NO QUAL A TRETA REALMENTE ACONTECE!
Mas antes... Respondendo aos fiéis leitores:
Spoiler: Respostas aos Comentários
Sem mais delongas, ao Capítulo de Hoje, esse grande divisor de águas!
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Capítulo 17 - Os Renegados: REVOLUÇÃO VANDURANA! (Parte 1)
... Liberdade ou Morte!
(Narrado por Liive, o Bárbaro do Inferno)
Nunca antes, em toda a minha existência, presenciei um evento desse porte. Não, nem mesmo a guerra contrar Morgaroth se compara a isso. Éramos uma frota de, no mínimo, dez navios, sendo quatro deles galeões thaianos, comandados por mim, Jack, Sírio e Raymond Striker.
Ouvi um burburinho detrás de mim. Os homens pareciam lembrar-se de alguma música antiga, sufocada pela tirania. Vi Sírio à estibordo (direita), e ele parecia instigar os homens a cantar. Aos poucos, os meus, enquanto preparavam suas munições, afiavam espadas e calibravam canhões, começaram a cantar, em alto e bom som, a mesma melodia. O hino nacional de Vandura, há muito esquecido, e agora honrado e lembrado:
Despertai, Vandurano, de teu sono de morte
No qual estiveste afundando, graças aos Bárbaros tiranos
Aos Bárbaros Tiranos!
Agora ou nunca
Façamo-nos novo destino
Para o qual teus inimigos se curvarão
Teus inimigos se curvarão!
Agora ou nunca
Daremos a prova ao mundo
Que em estas veias ainda correm
O sangue de Vandura!
O sangue de Vandura!
Em nosso peito, um nome seguramos com orgulho
Nome vitorioso em combate, o nome de Raymond!
O nome de Raymond!
Olhai, sombras imperiais,
Morgan, Sumeis , Cordelius*
A Nação Vandurana,
para teus netos!
A teus netos!
Com os braços armados,
Com fogo em nossas veias,
"Vida em liberdade!"
"Ou a morte!", gritamos todos!
"Ou a Morte!", gritamos todos!
Xamãs, com seus cultos!
Nossa armada é pagã
O lema é liberdade,
e o objetivo é sagrado!
O objetivo é sagrado!
Antes morrer em batalha, com toda glória
Do que escravos novamente, em nossa
Terra antiga!
Em nossa terra antiga!
Antes morrer em batalha, com toda glória
Do que escravos novamente, em nossa
Terra antiga!
Em nossa terra antiga!**
Na medida em que nos aproximávamos dos mares da Baía da Liberdade, o canto ficava mais grave e forte e, assim que vimos as galeras brancas e rubras de Thais se aproximando, os homens foram tomados de fúria e coragem que nosso mundo jamais vira — nem mesmo eu, sendo Norsir, vi homens tão inflamados e apaixonados.
Das galeras, vi, infelizmente, um rosto familiar. E eu não pude acreditar em meus ohos.
— Não pode ser...
Jack, que estava a bombordo, também viu. E, pela primeira vez, vi o sorriso do rapaz esmorecer enquanto um semblante triste, como de quem teve seu coração partido, surgiu em sua face. Ele cerrava fortemente seus olhos enquanto lágrimas de ódio caíam de seu rosto. Súbito, com as faces desfiguradas pelo ódio, ainda com as lágrimas a descer-lhe pelas faces alvas, ouvi-o rugir.
— Maldito seja! — Urrava Jack — Maldito seja, seu astardo inglório! Como pôde?! A causa deles é justa e você sabe disso! Por que está fazendo isso?!
Vocês querem saber quem é o patife, não? Sim... O patife não era apenas um, senão dois. O que estava mais atrás, calado, tinha cabelos lisos até os ombros com um brilho azul escuro. Seus olhos eram escuros como a noite e sua pele, branca como a neve de Svargrond. Ireas já o viu antes, quando ele havia completado seu... Centésimo Grande Feito. Esse homem era ninguém menos que...
— Icel! — Berrou Jack, já com sua besta calibrada e com o virote posicionado — Seu bastardo! Calhorda! Filho de um cão leproso! Traidor!
O outro... E esse, confesso-lhes, até doía vê-lo ali, dado o que passamos, dados os anos de amizade e até mesmo o que passamos pelo jovem Ireas, pensei, realmente, que sua mente tivesse expandido, e que ele compreendera o sofrimento pelo qual passam os Vanduranos... Pelo qual passa o povo de Sírio. Pelo visto, nem mesmo a escravidão diplomática imposta a meu povo foi capaz de comover... Seus olhos eram rubros como sangue e, a despeito de sua juventude, apresentava a cabeleira lisa, à altura da nuca e sempre bem-arrumada completamente grisalha. Ele lutara ao meu lado, e recebera, por sua inteligência e bravura, toda as honrarias. Era ele...
— Jovem Brand Terceiro... — Pronunciei seu nome em alto, solene som e lentamente, enquanto caminhava até a proa. — Patife desgraçado, filho de mil vagabundas desterradas! Vai pagar caro por isso! Virou comandante-em-chefe e isso subiu-lhe a cabeça! Aquele rei gordo está te usando, seu imbecil!
Icel parecia ter-se assustado com minha voz e com os urros de Jack, mas Brand manteve-se inflexível. Vi-o andar até a proa de sua galera alva, com o olhar apático e frio.
— Não esperava que entendessem. — Disse-nos friamente, com uma voz um pouco mais grave que de costume, mantendo-se sublime em sua hipócrita postura — Mas Jack, logo você, traindo Thais? Desculpe...Esse crime não será perdoado, ainda mais vindo de alguém que defendeu nosso mundo de Morgaroth! Todos vocês estão sendo acusados de pirataria! Se não morrerem em seus navios, morrerão nas forcas de Thais e Venore! Rendam-se enquanto ainda podem!
Brand ouviu de nós vários urros, vaias e tiros de garrucha como resposta. Raymond e Sírio, furiosos, comandaram seus navios à frente; eu e Jack, naturalmente, fizemos o mesmo.
— Icem as velas! — Ordenei — Vamos ao ataque! Esses latifundiários verão como se empunha uma arma de fato! — empunhei meu machado, pronto para a luta
Do outro lado da batalha, com um sorriso de canto arrogante, os olhos de Brand brilhavam diante do amanhecer, deixando-o com um aspecto mais sinistro. Ele empunhava seu Arco Micológico e suas Flechas Cristalinas, pronto para o embate também.
— Que seja. — Ele falou, ríspido — Às armas, povo de Thais! Vamos mostrar a esses escravos que o lugar deles é na senzala! A Casa-Grande será nossa para sempre!
Ele disparou sua flecha em minha direção, e esse foi o início da batalha. Nossos navios passaram pelos deles, disparando inúmeras bolas de fogo contra seus cascos imaculados. Os homens de Thais, todos de armaduras brancas, desceram aos nossos navios por meio de cordas. O que os otários não se deram conta fora do número de espadas, garruchas, lanças e machados que os aguardavam. Os conveses faiscaram em meio à dança de lâminas e jorrar de sangue de ambos os lados.
Icel veio em minha direção, e eu apenas dei-lhe um sorriso debochado. Aquele esguio Paladino não teria a menor chance contra um Norsir de meu porte. Jack e Brand certamente se enfrentariam, e eu vi um estranho vulto indo em direção ao navio de Sírio — quem seria?
Continua...
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Notas da Autora:
(*): Como não há registros de grandes líderes ou imperadores em Vandura antes do domínio Thaiano, deixo esses nomes como possíveis antigos líderes do povo Vandurano.
(**): Esse Hino foi todo baseado no hino nacional da Romênia. O original está abaixo:
Deșteaptă-te, române, din somnul cel de moarte,
În care te-adânciră barbarii de tirani
Acum ori niciodată croiește-ți altă soarte,
La care să se-nchine și cruzii tăi dușmani.
Acum ori niciodată să dăm dovezi la lume
Că-n aste mâni mai curge un sânge de roman
Și că-n a noastre piepturi păstrăm cu fală-un nume
Triumfător în lupte, un nume de Traian
Priviți, mărețe umbre, Mihai, Ștefan, Corvine,
Româna națiune, ai voştri strănepoți,
Cu brațele armate, cu focul vostru-n vine,
"Viața-n libertate ori moarte" strigă toți.
Preoți, cu crucea-n frunte căci oastea e creştină,
Deviza-i libertate și scopul ei preasfânt.
Murim mai bine-n luptă, cu glorie deplină,
Decât să fim sclavi iarăși în vechiul nost' pământ.
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Começou, galera! Começou a Revolução Vandurana, a que sempre quis escrever!
E aí, quem ganha, a Casa-Grande (Thais) ou a Senzala (Liberty Bay)? Escolham um lado, senhores, e se preparem, que esse Pergaminho é fúria, guerra e detonação geral!
Até a próxima, galera! Divulguem, comentem! Mostrem A Voz do Vento a seus amigos!
Saudações,
Iridium.
Saudações!
Um double post bem rápido - enfim, chegaram os desenhos de quatro personagens marcantes: Icel Emonebrin, First Yami, Yumi Yami e Emulov Suv! Fazia tempo que eu os havia prometido! Seus perfis estão na página principal, junto às suas imagens!
Os novos desenhos:
http://imageshack.us/a/img4/2643/5rw3.th.jpg
http://imageshack.us/a/img812/3451/ppi9.th.jpg
http://imageshack.us/a/img707/8668/11mp.th.jpg
http://imageshack.us/a/img21/4502/d0zh.th.jpg
Os antigos (já disponíveis na página principal):
http://imageshack.us/a/img231/7821/vozdovento001.th.jpg
http://imageshack.us/a/img825/3331/vozdovento003.th.jpg
http://imageshack.us/a/img19/8379/vozdovento002.th.jpg
http://imageshack.us/a/img51/5691/vozdovento004.th.jpg
http://imageshack.us/a/img687/1680/vozdovento005.th.jpg
http://imageshack.us/a/img26/8966/vozdovento006.th.jpg
http://imageshack.us/a/img560/7112/vozdovento007.th.jpg
http://imageshack.us/a/img338/1150/vozdovento008.th.jpg
Para batalha e afrente homens, muito massa a canção e até que enfim postou os desenhos, eles foram muito bem feitos, eu não conseguiria nem traçar a reta deles pelo menos faria a sombra >:]
Engraçado que tava lendo rápido e quase li que morreriam para as focas, focas sanguinárias.
Saudações, pessoal!
Faz mais de meses que fiquei sem postar um Capítulo sequer... O Fórum que me perdoe, mas hoje,
COM TODA A CERTEZA, irei floodar levemente esse tópico, postando TODOS os Capítulos atrasados
dessa Saga!
A revolução continua, enquanto Ireas, Wind e Emulov marcham em direção à Rocha de Ulderek!
O Segundo Pergaminho é só sangue, gelo e aço!
Divulguem, comentem, falem comigo! Adorarei ouvir suas opiniões. Para quem ainda não acompanha a LT
do Ireas e meus outros chares, basta clicar no link em minha assinatura! Estarei voltando a atualizar o LT
também!
Primeiramente, respondendo (com MUITO ATRASO) ao Sombra:
Spoiler: Respostas aos Comentários
Sem mais delongas, o retorno triunfal de Ireas e seu comboio!
Vamos... AO CAPÍTULO DE HOJE!
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Capítulo 18 - Os Renegados: REVOLUÇÃO VANDURANA! (Parte 2)
Quando os caminhos se bifurcam...
(Narrado por Jovem Brand Terceiro)
Eu não esperava deles nenhuma compreensão. Nenhuma mesmo. Aceitei aquela missão, aquele fardo, de peito aberto e semblante altivo; eu era, sou e sempre serei um Thaiano e, portanto, estarei sempre pronto para cumprir os desígnios de nosso Rei até o dia de sua morte. Não espero, jamais, que me entendam.
Fui criado assim. Nasci para chegar aonde cheguei. Servir a Thais e ao mundo de Tibia - eis minha razão para viver. Se a vida dos vanduranos tiver que ser sacrificada para que o desígnio de minha vida se cumpra...
Que assim seja.
Sendo assim, disparei aquela flecha em direção a Liive, que entendera o recado — e que dificilmente recuaria ante às minhas investidas. Os meus navios, alvos como a luz das estrelas na noite mais densa, avançaram mar escuro a dentro, indo de encontro às escuras e talvez pútridas barcas piratas.
Foi como se um caminho se abrisse para mim; meus homens iam de encontro aos piratas, os quais sequer me atingiam. Contudo, em meio àquela balbúrdia, vi outro homem caminhar quase tão tranquilo quanto eu. Um rapaz de pele branca, olhos verdes como olivas, cabelos curtos, negros e lisos, com uma franja que tocava gentilmente suas espessas sobrancelhas. Era um Paladino, assim como eu. Era aquele que pude, por muitos anos, tomar como amigo e irmão. Era Rei Jack Spider — e estava furioso comigo.
Por que?
A arena estava pronta — tínhamos o convés só para nós. Ele estava com suas Lanças Encantadas prontas, e seu olhar denotava suas intenções.
— Sei que não vai dar meia-volta, mas eu insisto. — Disse a ele. — Não quero feri-lo, sabe disso. Venha comigo, e deixe para lá essa grande tolice!
— De jeito nenhum! — Vociferou Jack — E você não ouse dizer o que penso ou sinto! Como pode ser tão hipócrita?! Defendemos a liberdade juntos, não se lembra?!
— Não estou gostando do rumo que essa conversa está tomando... — Repliquei calmamente, retesando meu arco, já com uma Flecha Cristalina posicionada. — Bem... Visto que você não quer dar ouvidos à razão, vejo-me sem escolhas.
— Não me venha falar de razão! — Urrou Jack — Você não tem esse direito! Exori Gran Con!
Jack posicionou as mãos à frente do rosto, com as palmas viradas em minha direção e os dedos indicadores e médios de ambas mãos encostando levemente em sua testa. Ao urrar o feitiço, seus olhos brilharam em um tom azulado, e vi uma Lança Etérea voar rapidamente em minha direção.
Não tive tempo de reagir — a lança atingiu-me em minha perna, fazendo-me urrar de dor. A arma desaparecera pouco depois, deixando uma enorme e profunda ferida exposta para trás. Olhei Jack com ódio.
— Muito bem. — Falei no tom mais controlado que consegui. — Você pediu. Exori San!
Apontei minha mão esquerda para ele, e dela saiu uma linda, porém mortífera cruz dourada, que atingiu-o rapidamente. O míssil divino abriu-lhe pequenas chagas em sua carne*, fazendo-o recuar três passos de sua posição original.
— Utori san! — Gritamos em únissono, curando nossas feridas.
Retesei meu arco e comecei a atirar; juro por Banor que perdi a conta do número de flechas que comecei a disparar. Começamos nossa dança mortal — Jack atirava suas lanças e ora ganhava, ora perdia distância, e o mesmo acontecia comigo e minha saraivada de Flechas Cristalinas. Eu atirava, mas, por algum motivo... Eu errava.
Minha mira, sempre tão precisa e ferina, estava falhando. E justo na pior hora! Pelos deuses, o que era aquilo?! Como poderia vencê-lo se sequer conseguia acertá-lo?!
— Utito Tempo San! — Gritei, usando o feitiço que faria de mim o melhor dos atiradores.
Novamente, atirei contra ele três Setas Cristalinas de uma só vez, e todas acertaram seu alvo — feri-o em suas pernas e em seu ombro, fazendo-o ajoelhar-se a cinco metros de distância de mim. Contudo, não saí ileso, pois ele pôde me acertar em meu abdome com uma de suas Lanças Encantadas. Com dificuldade notável, levantei-me. Meu sangue — e o de Jack também — lavava uma parte do convés.
Parte de mim queria ferir Jack, e ferir de morte — ele traiu Thais, traiu o rei, traiu... A mim. Sim, traiu minha confiança, traiu os ideais de nossos familiares, traiu toda uma sociedade sob a qual nascemos e nos moldamos. Jack traíra a tudo e a todos, e para quê? A troco de quê?! Nada! Absolutamente nada!
Contudo, a outra parte de mim hesitava. Essa outra parte fazia minhas mãos falharem a cada tiro por mim dado, e apertava meu coração a cada acerto em Jack. Eu estava ferindo meu melhor amigo e meu irmão de alma! Essa parte de minha mente sabia o quão severo era o crime que eu estava cometendo... E queria frear-me a todo custo.
Estava em transe: senti meu arco cair de minha mão. Meu olhar era vazio e translúcido — era como se minha alma não estivesse mais atada ao meu corpo.
— Lute! — Urrou Jack — Exevo Mas San!
Saí do transe no momento exato em que ele conjurou o mais mortal feitiço em área do qual um Paladino dispõe — eu vi as várias cruzes subindo em minha direção, e só tive tempo de gritar:
— Utamo Vita!
A defesa absoluta fora um sucesso — nenhuma das cruzes fora capaz de me ferir, para minha sorte. Decidi revidar na mesma moeda.
— Exevo Mas San! — Urrei em retorno.
Agora, o símbolos sagrados voltaram-se contra meu amigo, que sequer tivera tempo de se defender diante de tanta luz. Vi seu corpo receber rasgos divinos, chagas de cor dourada, que o faziam urrar de dor pelas queimaduras, fossem as externas... Ou as internas.
Ele gemia de dor, mas não estava perto de se render. Pelo contrário — sua fúria alimentava sua vontade de me ver no chão, humilhado, ferido e derrotado. Apanhei meu arco sem desviar minhas orbes vermelhas dele. Vi-o ficar de joelhos, tentando endireitar seu corpo. Lágrimas rolavam em meio ao sangue que escorria de seu corpo ferido.
Retesei meu arco, com outra Flecha Cristalina pronta para ser atirada. Como estava sendo covarde... Atacar um inimigo enquanto este está vulnerável?! Que tipo de homem eu me tornei?
— Atire! — Urrava Jack em meio à dor, já apoiado sobre um de seus joelhos — Atire se for capaz, brand! Atire se for homem! — Suas orbes verdes me olhavam no fundo de minha alma, e eu sentia a fúria dele passar por todo meu corpo, ferindo-me por dentro, corroendo meu espírito e destruindo o que restava de minha alma.
Entrei em transe, e as imagens de minha infância regressaram à minha mente. Isso aconteceu quando eu tinha oito anos...
(Dezessete Anos Antes...)
Várias crianças corriam pelas ruas de pedra de Thais. Uma delas, branca como a lua, com os cabelos da cor da pelagem dos lobos e olhos vermelhos como rubis, estava sempre para trás.
— Ele é estranho — Diziam alguns.
— Parece um demônio! — Gritavam algumas mães — Vejam seus olhos! A vilania transborda deles!
As mães chamavam por seus filhos, que corriam para seus braços, deixando Brand sozinho. Ser filho de um Paladino rico e de alta patente parecia servir de nada — ninguém queria ser seu amigo. Ninguém queria tê-lo por perto. Ele era temido... Simplesmente por existir.
Então, já que ninguém o queria por perto... Por que não recorrer à morte? Por que não encerrar aquele fatídico evento de uma vez por todas em vez de amargar sua sorte?
Seus olhinhos viram o parapeito de pedra a alguns metros acima de sua cabeça — a altura certamente seria suficiente para causar sua morte. Portanto, por que não aproveitar aquela chance? Seu pai estava longe, trabalhando em uma missão de patrulhamento perto da cidade élfica de Negroespinho, e sua mãe... Bem...
Ela há muito não caminhava no mundo dos vivos.
Brand era como sua mãe — olhos vermelhos, cabelos brancos. Ele se lembrava pouco dela, pois falecera de uma doença estranha quando ele tinha seus quatro anos de idade. Fora privado do amor de mãe, e certamente não podia contar com a presença paterna em sua vida.
Estava sozinho. Sempre sozinho. Essas afirmações ecoavam em sua mente enquanto seus pezinhos ágeis galgavam as escadarias de pedra até chegar em seu destino. Suas mãozinhas o levantaram acima do parapeito de pedra, sobre o qual se sentou, vendo a cidade de cima.
O vento soprava gentil em suas melenas, convidando-o a uma passagem só de ida para o mesmo local onde sua mãe descansava, e esperava por ele.
Seus olhinhos se encheram de lágrimas. Suas perninas o levantaram, deixando-o pronto para saltar. Ele já sentia o corpo leve, pronto para ir de encontro às pedras da estrada abaixo dele. Ele cerrou seus olhos, esperando o vento guiá-lo para longe dali... Para perto de sua mãe, onde as pessoas jamais falariam mal dele outra vez.
— Pare!
A voz aguda de uma criança um pouco mais nova o trouxe de volta à realidade. Ela era menor que ele, e estava segurando seus tornozelos, impedindo que Brand se atirasse.
— Você vai se machucar muito! — Disse a criança, em tom choroso — Seu papai e sua mamãe não vão gostar se você se machucar! Não faça isso não!
Brand olhou para ele — um menino de pele um pouco mais bronzeada, com cabelos negros, lisos e de longa franja e os olhos verdes mais vivos que ele até então vira. Os olhinhos do menino estavam cheios de lágrimas, e ele olhava no fundo dos olhos da criança mais velha e sem esperança. Brand sentia a compaixão que eles transmitiam.
— Não ligue para o Dorian — Dizia o rapazinho dos olhos verdes — Ele e Alexei** são malvados assim. Eles não gostam de gente diferente, e acham que é legal machucar essas pessoas, sendo que não é. Eles me tratam mal também, me fazem chorar, me batem e eu não gosto deles. Mas sou mais legal que eles, sei disso. E você também deve ser...
— Você não sabe disso! — Retrucou Brand às lágrimas — Como sabe que sou bom, sendo que nem me conhece?!
— Ele me disse. — Replicou a criancinha de olhos verdes com um sorriso terno em meio às lágrimas. — Ele me trouxe aqui. Ele me disse que você estava triste, que sentia falta de sua mãe... E que queria ir até ela.
Brand arregalou seus olhos, surpreso e assustado.
— Quem... Quem te disse isso? — Indagou, em meio a sussurros.
— Ele... — Replicou o menininho, limpando as lágrimas — ... O Vento. Quem mais poderia ser, tolinho?
— O Vento... Fala? — Indagou Brand, sentindo o menino tirar as mãos de seus tornozelos.
— Sim. — Replicou o garoto, com um sorriso — Foi ele que me trouxe até aqui... — Em seguida, estendeu a mão direita a Brand — Meu nome é Jack. Jack Spider. E o seu, qual é?
Antes de falar, Brand sentou-se no parapeito, um pouco desconfiado. Apertou gentilmente a mão do menino, o qual finalmente sabia o nome.
— Sou Brand... Terceiro. — Disse o rapaz de melenas prateadas — Seu nome... É engraçado! — Completou com um riso discreto, com as faces ainda úmidas das lágrimas.
— O seu também! — Riu Jack — Você é legal, Brand. Vamos ser amigos?
Brand arregalou seus olhos, estático. Uma pessoa queria sua amizade? Sinceramente, sem pretensões ruins, sem descaso, sem piadas de mal gosto?
— Até quando? — Brand indagou, surpreso — Até quando vai querer ser meu amigo?
Jack sorriu docemente para ele.
— Para sempre. Quero ser seu amigo para sempre. O que o Vento me traz, eu não vou me desfazer, pois é importante, é bom, é especial. Quero ser seu amigo até o fim dos dias, Brand. Ou até o dia em que não pudermos mais ser amigos.
Jack tirou Brand do poço, livrou-o de sua pior mazela e fez de sua alma menos miserável. Fez de sua vida, ainda que cercada de riqueza e fortuna, menos miserável e mais suportável. Até o dia de suas mortes, suas vidas estavam atreladas. Cada alegria e tristeza seria compartilhada, dividida. O mundo seria deles e apenas deles. Tudo graças... Ao Vento.
(Tempo Atual)
(Narrado por Jovem Brand Terceiro)
Jack ofegava; seu corpo estava coberto de chagas, e ele sangrava, sangrava muito, mais do que qualquer outro homem poderia aguentar. Eu também estava ferido — meu escudo mágico não resistiria por muito mais tempo, e eu ainda estava em transe.
— Pois bem! — Urrou Jack, trazendo-me de volta à realidade — Se você não vai atirar, então eu o farei! Utori San!
Sua cura trouxe-me de volta ao campo de batalha. Respirei fundo — o combate continuaria, então.
— Exevo Mas San! — Urrou Jack.
— Utamo Vit...
Tentei conjurar o escudo novamente, mas não houve tempo — as cruzes me atingiram, me rasgaram e me arremessaram longe, muito ferido. Eu não queria lutar contra Jack, mas também não queria perder.
Não assim. Não desse jeito.
Cerrei meus olhos e esperei — não tinha forças nem para pegar minhas poções. Estava cansado demais. Tudo girava; meus olhos pesavam, mas não se fecharam. E eu ouvia tudo.
Tiros de canhão.
Balas disparadas de garruchas mal calibradas.
O tintilar de espadas dançando e se acertando.
Runas que singravam os céus com suas magias elementais poderosas.
E passos.
Passos conhecidos.
Jack estava vindo.
Era meu fim.
(Narrado Por Rei Jack Spider)
Eu não queria nada disso. Eu nunca quis nada disso. Por que, Brand, por que?
Por que insistir nisso?
Ele estava no chão, inerte e com chagas em seu corpo. Sua pele, sempre tão branca, havi sido castigada pela minha fúria. Castigada pela traição — e pelo pesar em seu coração. Sim... eu podia ouvi-lo.
Batia fraco, pesaroso — seu coração ressoava em meus ouvidos, e apenas nos meus, fraco como a respiração de uma criança pequena. Soava igual ao dia em que nos conhecemos. Se eu acabasse com ele ali e naquele momento, ele se lembraria?
Teria Brand se esquecido da promessa, da jura de amizade eterna?
— Não... — Murmurava Brand, cheio de dor — Não... Posso...
Aproximei-me lentamente de meu agonizante amigo. Em meu olhar, toda a tristeza que sentia em assim vê-lo começou a converter-se em lágrimas, as quais busquei não deixar sair de meus olhos.
— A que ponto chegamos, Brand? — indaguei com a voz embargada — A que ponto sua necessidade de se provar a tudo e a todos chegou? É isso que define como lealdade?
Seus olhos se abriram. Em meio ao sangue, ao suor e às lascas de madeira, seus olhos brilhavam como faísca em meio à noite sombria. Nunca havia visto o rubro de seus olhos tão vivo.
— Eu tenho... Minha missão... — Replicou-me com voz rouca — Manter... A Baía... Como... Terreno... Thaiano...
— Isso é errado, Brand. Você sabe disso. — Repliquei no tom mais gentil que minha alma me permitia. — Esse não é o Brand justo e íntegro que conheço.
— Então... Você... Não... Me conhece. Ou... Conhecia. — Retrucou Brand, ofegante, sentindo sua vida se esvair.
— Nada disso trará seus pais de volta do além-túmulo, meu irmão.
Naquele momento, Brand, que estava estatelado no chão, começou a se levantar.
— Não ouse. — Replicou-me com ferocidade. — Você não tem o direito de falar dela! Não você!
— E quem mais poderia falar dela, senão eu, que entendo sua dor? — Indaguei, elevando a voz — Brand, pelo amor de Banor, pare! Eles se foram, e nada do que você fizer aqui os reviverá! Não temos esse poder! Ninguém nesse mundo tem!
Brand tossia sangue, gemia de dor e permitia lágrimas rolarem de seu rosto em meio à sua tentativa de ficar de pé. O máximo que conseguira foi ficar sobre um dos joelhos, fitando meu rosto com fúria. Suas lágrimas mesclavam-se ao sangue que escorria de suas feridas expostas e que manchava a madeira clara em um tom rubro.
— Lembra-se de quando nos conhecemos? — Indaguei-lhe.
— Jamais esquecerei desse dia. — Replicou-me, sem tirar os olhos dos meus. — Se vivo, foi por sua causa. Se ainda respiro, é por sua amizade.
— Então... Como pode lutar contra mim? Como pode ferir a mim e a si mesmo? Como pode ignorar a Voz do Vento?
Brand arregalou seus olhos, fitando-me com surpresa; em seguida, vi-o abaixar a cabeça e colocar as mãos à frente dela, com os dedos entrelaçados, como quem reza.
— Quantos homens mais deverão morrer por uma causa estúpida? — Continuei a dizer-lhe — Quantos oficiais de Thais terão de perecer por causa de um Rei que sequer preza por eles? Seu pai morreu por causa desse homem a troco de nada! Seu pai morreu em Negroespinho e o que o Rei Tibianus fez em sua memória? Nada!
— Não é verdade... — Replicou-me Brand em meio tom, balançando a cabeça negativamente.
— Nada, Brand! Nada! — Continuei a dizer, completamente entristecido — Ele te deixou a ver navios em Rookgaard! Mesmo com toda a riqueza dos seus familiares, jamais o Rei poderia comprar-lhe lealdade! Não depois de tanto desprezo com o melhor Marechal que ele já teve!
Parei de falar, olhando para o lado. Algumas das barcas de Thais já haviam sido destruídas. Eu ouvia a voz de homens em seu último fôlego de vida, afundando em meio aos destroços reais. Ouvia a voz contente dos piratas a vada homem morto, a cada barco destruido e cada mastro Thaiano destruído. Eu ouvia a morte. Pura, simples e terrível.
Então, o vento me trouxe outro som. O som de um choro. O choro baixo e sincero, como o de uma criança confusa e perdida. O som estava a alguns passos de mim; era Brand quem chorava. Brand meneava lentamente a cabeça para os lados, chorando o choro mais triste que eu já ouvi. O lamento que há dezessete anos ele encerrara em seu coração estava em fim livre, e fluía por ele, transbordando por seus olhos.
— Eu não vou atirar em você, Brand. — Disse-lhe, por fim — Ainda somos amigos... Se você quiser que eu seja.
Eu me ajoelhei a um pé de distância dele, e seu abraço veio, rápido e forte. Sua cabeça estava enterrada entre meu pescoço e meu ombro esquerdo, e ele chorava. Chorava sem parar, mas sem soluçar.
— Você é meu amigo! — Ele dizia, choroso — Você é meu irmão! Minha família! O que tenho de mais precioso em minha vida miserável! Eu sinto muito por causar-lhe tanto mal! Eu nunca quis...
— Eu também não, Brand... — Repliquei, retribuindo o abraço — Eu também não...
De repente, ouvimos uma explosão, sentimos um forte solavanco e fomos atirados ao chão impiedosamente. O navio onde estávamos —o comandante da frota Thaiana — havia sido atingido pelos canhões de dois navios piratas. Para completar, havíamos atingido uma das partes mais hostis da ilha — o navio encalhara em meio as pontiagudas rochas do litoral de Nargor.
Estávamos eu e Brand em meio aos mortos daquele navio. Eu ouvia os passos dos piratas, mas nada podia fazer.
Estava inconsciente. E Brand também desmaiara, e ao meu lado.
Continua...
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Notas da Autora:
(*): Chagas - provavelmente, seriam as consequências da Divine Caldera quando utilizadas contra quaisquer adversários, sendo mais agressivas, obviamente, quando usadas contra Mortos-Vivos.
(**): Alexei - Nome fictício do NPC Black Bert
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Tô voltando! \o/
Hoje choverão Capítulos - o Desfecho da Guerra dos Djinns e da Revolução em breve serão postados! Fiquem ligados para mais novidades!
- - - Atualizado - - -
Saudações, Galera!
Vou continuar com a chuva de Capítulos!
\o/
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Capítulo 19 - Dois Oásis no Deserto: Por Ashta' Daramai, INVADIREMOS! (Parte 1)
...Pela Facção Marid!
(Narrado por Ireas Keras)
Wind estava determinado a me reconquistar. Meu coração ainda estava balançado — ainda não conseguia crer completamente nele; contudo, havia verdade em suas inteções. Eu sentia isso atravéz do vento que soprava seus lindos, curtos e ruivos cabelos.
Saímos de Ankrahmun o mais depressa que pudemos; Wind havia mandado cartas a Jack, Brand e Liive para que pudéssemos contar com sua ajuda, mas de nada adiantou — não obtivemos respostas de nenhuma sorte.
— Começo a me preocupar. — Disse Wind, sério — Liive até que costuma demorar com suas respostas, mas Brand não é de deixar de retornar. Não é de seu feitio... Não mesmo.
Eu ouvia as palavras de Wind soarem surdas em meus ouvidos, pois havia algo que me preocupava também — Jack. Eu tentei entrar em contato com ele novamente, mas não obtive sucesso. Estava preocupado com meus amigos. Há muito não via Sírio, e Liive sumira do mapa novamente. O que estava acontecendo?
— Ireas! Ireas!
Arregalei meus olhos e voltei à realidade. Wind estava me chamando, e estalara os dedos em frente ao meu rosto, buscando trazer-me de volta do mundo das ideias. Pisquei os olhos rapidamente, recompondo-me.
— De fato, é estranho. — Repliquei.
Emulov acenou afirmativamente com a cabeça — parecia-me ainda mais tímido do que antes. Talvez isso se devesse ao fato de estarmos eu e Wind juntos ali. Pouco sabia a respeito de Emulov — teria ele família, outros amigos... Uma amante, talvez? Um amante? Alguém? Ninguém?
— De todo modo, não temos tempo a perder. — Disse o Yalahari — Precisaremos de um time para entrar na Rocha de Ulderek e sair dela com vida. Nós três não seremos páreo para os desafios daquele local.
— Conhece alguém que pode nos ajudar? — Indaguei, preocupado.
— Não sei... — Replicou Wind, cordial — Tenho poucos amigos. Não é comum gente de Yalahar ter muitas amizades...
— Talvez...
Nos viramos; era a voz de Emulov.
— Talvez eu... Eu tenha a... Solução. — Disse-nos. — Conhecem... Solstícia Solarii?
Balançamos nossas cabeças de forma negativa.
— Não... — Repliquei, um pouco envergonhado.
— Nunca ouvi esse nome... — Disse Wind. — É sua amiga?
— Sim... — Disse Emulov, tímido — Ela tem amigos... Poderosos... Que podem... Ajudar.
— Excelente! — Disse Wind com um sorriso maroto nos lábios — Onde estão ela e seus poderosos amigos?
— Bom... — Começou Emulov, com as faces bem avermelhadas. — Da última vez que nos falamos, ela estava em Carlin, mas disse que logo iria a Ab' Dendriel, que é onde ela reside.
— Ótimo, ótimo! — Disse o Yalahari — Estaremos bem perto da Rocha, então! Vamos a Ab' Dendriel! — Ele se virou para mim, sussurrando — Você vai conhecer os Elfos, meu bem.
Elfos... Elfos! Eu só havia escutado esse nome em histórias que Asralius e Cipfried me contavam na hora de dormir. Seres altos, belíssimos, donos de imenso poder. Só conheci, até hoje, dois pertencentes a essa mítica raça: Solaria e Dario de Ankrahmun. Naquele dia, estaria prestes a conhecer outros...
***
(Narrado por Andarilho do Vento)
Acho que Emulov me foi mandado por algum motivo — ele vai acabar me ajudando a reconquistar Ireas! Assim que ele falou de seus amigos, animei-me: terei ação, ajudarei o Norsir o qual amo e... Talvez... Talvez eu tenha uma chance de reconquistar seu amor por completo.
— Bem, se iremos a Ab' Dendriel, que caminho sugere, Emulov? — Indaguei-o cordialmente.
— Bom... Conheço pouco os sistemas de transporte dessa região... — Respondeu-me humildemente — Mas parece-me adequado irmos... De navio... Não?
— Bom... Será caro... E demorado, não? — Repliquei. — De todo modo...
Olhei para o cais de Ankrahmun. Ireas já estava pronto para partir, e o navio estava lá. Sentado perto do timão, estava...
— Yami... — Rugiu Ireas, e eu não entendia o porquê.
— Ainda que o senhor seja meu superior, Keras, não é educado rugir para as pessoas... — O rapaz de Darashia exibia um sorriso estranho em seus lábios. — Para onde os levarei hoje?
— Ab' Dendriel. — Replicou Ireas, com um sorriso triunfante. Certamente, ele sabia que Yami não o poderia levar até lá.
Yami vacilou um pouco, arregalando suas orbes douradas enquanto fitava o sorriso de Ireas. Rapidamente, ele semicerrou os olhos e sorriu para ele. Naquele momeno, senti o ciúme surgir em minha alma.
— O que vossa senhoria desejar... — Replicou cordialmente, em um tom que julguei um pouco sedutor. — Estou disposto a levá-los lá por duzentas e dez peças de ouro... Cada. Aceitam meu preço?
Antes que eu e Emulov pudéssemos protestar, Ireas ergueu a mão direita, pedindo silêncio. Em seguida, jogou a Yami uma enorme bolsa de couro, cheia de peças de ouro e seis peças de platina. O Darashiano sorriu, pegou a bolsa e pôs-se a contar as peças de ouro.
— Vejo que está pagando por eles... Pois bem, entrem. — Disse-nos Yami, muito cordial — Aproveitem a viagem. Creio que não demoraremos a chegar...
Eu entrei no navio primeiro, e Emulov me seguiu. Ireas entrou por último, e não me parecia satisfeito. Ele chegou perto de Yami e sussurrou algo em seus ouvidos. A julgar pelas feições de ambos, pareciam não estar se dando tão bem.
Assim que Yami desancorou o barco, senti que esse se movia mais rápido que as demais embarcações. Surpreso, fui até o parapeito a estibordo* para ver o quão rápido a barcaça se movia. Para a minha surpresa, não estávamos nos movendo nas águas, mas acima delas!
Estávamos... Voando.
Ouvi uma risada discreta e grave vir do timão. Era Yami.
— Sabe por que sou chamado de 'Senhor das Marés', Andarilho? — Ele me indagou em alto e bom som — Porque não preciso controlá-las: não estamos acima delas, se é o que está pensando, mas sou tão bom em meu manejo de embarcações que sei aproveitar a força de Bastesh por completo! Até as feras em Calassa sentiriam inveja de meu dom!
Ele olhou para mim de soslaio; eu estava longe demais para ver seus olhos, mas senti o brilho deles invadir minhas pupilas e penetrar em minha alma. Um calafrio subiu por minha espinha.
O que Yami tinha de tão terrível em sua essência?
***
(Narrado por Ireas Keras)
Sem truques. Foi o que eu disse a Yami em particular, e eu duvidava que ele cumpriria com sua parte. Wind ainda não sabe, e não pretendo contar a ele, pois eu, somente eu, resolverei minhas desavenças com Yami.
Esse Djinn, ou seja lá o que ele for, há de me pagar...
Nossa viagem nos custou cerca de doze dias. Nesse meio tempo, eu estava alheio a tudo o que ocorria no mundo. Estava concentrado em minha missão, e apenas nela.
Durante a viagem, vi outra pintura de Silfind — logo seu filho, ou filha, estaria no mundo. Sua gravidez avançava depressa, e eu logo teria que regressar a Svargrond. Queria estar presente no parto dela, ajudá-la a cuidar da criança que estava por vir. Eu devia isso a ela... E a Hjaern. Era meu dever.
Yami nos deixou em Ab' Dendriel, e estávamos prontos para encontrar os amigos de Emulov. Crunor, como Ab' Dendriel era linda! As casas, em sua maioria, eram suspensas, tendo sido construídas sob os largos galhos das frondosas e milenares árvores. As folhas que delas caíam faziam um majestoso tapete sob suas raízes, e as flores e folhas cresciam tão belas e bem-cuidadas como jamais havia visto. Nem mesmo o jardim que fiz em Ankrahmun pareceria tão belo...
Emulov nos guiou em silêncio à casa de Solstícia, que estava acompanhada por outros sete guerreiros, todos com armaduras e armas caras e muito poderosas. Emulov certamente tinha contatos de muito poder.
Ele e Solstícia falavam em uma língua que eu não compreendia de modo algum. Pouco depois, eles vieram até nós, e Emulov tinha um sorriso no rosto.
— Solstícia concordou em nos ajudar! — Disse o Zaoano — Ela e seus amigos nos auxiliarão em nossa missão de invadir a Fortaleza dos Orcs!
Assim que Emulov disse isso, Solstícia se aproximou de mim — ela tinha exatamente minha altura, pele branca como a neve, orelhas pontudas e um pouco maiores que as minhas, olhos azuis como safiras e cabelos negros como a noite, os quais estavam amarrados em uma longa e enfeitada trança. Suas vestes eram roxas e pareciam exibir um grande poder. Ela sorriu para mim e me fez uma reverência.
— Será um prazer para nós ajudá-los, Keras. — Disse- me com uma voz aveludada. — Sugiro que vocês descansem hoje, pois a jornada exigirá o máximo de suas mentes e corpos.
— Muitíssimo obrigado por sua gentileza, Solstícia. — Repliquei com cordialidade. — Se puder nos indicar quartos...
Ela sorriu e nos mostrou os quartos vazios dos quais dispunha. Pela primeira vez desde que o conheci, Emulov manteve-se de pé por mais tempo, conversando animadamente com os demais amigos de Solstícia.
Estávamos eu e Wind, sozinhos, no corredor dos quartos, no segundo andar da casa de Solstícia, a qual se localizava dentro do tronco de uma milenar árvore na parte nordeste da cidade. Ficamos de frente para as portas de nossos quartos, em silêncio. Não sei por quanto tempo aquilo durou, mas pareceu-me uma eternidade. Eu cerrei meus olhos e respirei fundo, buscando controlar meu ímpeto Norsir.
— Eu só quero uma chance, Ireas. — Disse Wind por fim, rompendo com o silêncio. — Eu sou inocente de suas acusações, e quero a chance de provar isso para você. Só espero conseguir provar logo; do contrário, se eu não te convencer... Serei forçado a te abandonar.
Sua última sentença fez-me abrir os olhos e virar meu rosto em sua direção lentamente. Estava surpreso e triste em ouvir aquilo. Meus olhos encontraram os dele e eu vi, em sua melancolia, a certeza de que ele faria cumprir sua promessa se fosse necessário. Ele virou seu rosto em direção à porta e pôs sua mão esquerda sobre a maçaneta.
— Homem algum suporta essa provação por tanto tempo, Keras... — Ele respirou fundo e abriu a porta. — Tenha uma boa noite de descanso.
Antes que eu pudesse dizer algo, ele entrou pela porta e fechou-a rapidamente. Fiquei mais alguns minutos fora do quarto antes de tomar a mesma decisão. Eu não queria ser mau, não queria ser o vilão, mas não conseguia evitar.
Eu não conseguia acreditar completamente em Wind.
Entrei em meu quarto, depositei lentamente meus pertences nos armários ali presentes e sentei-me em minha cama. Os raios de luz da lua entravam pela janela, e o vento acariciava meus cabelos gentilmente, que já estavam na metade de minhas costas. Olhei através da janela, lembrando-me de quando Jack tentara me contatar. Sentei-me sob o parapeito da janela, olhando para Lua.
— Vento, ó vento... — Sussurrei para os céus, triste — Estou só e desolado; meus amigos sumiram, minha mãe agora quer me matar e mandou um de seus capangas para fazer esse serviço. Tothdral não me dá respostas, e o homem que me ama, bem... — Fechei meus olhos, deixando uma lágrima tímida escorrer deles — Talvez ele já não me ame mais, e por culpa minha. Vento, nunca lhe pedi nada, creio estar em descrédito com você por nunca ter-lhe ouvido, mas tenho certeza de uma coisa: você é o único que me entende, que pode me ouvir e me ajudar...
Sequei gentilmente a lágrima que percorria meu rosto, convertendo-a em um floco de gelo, o qual deixei em minha mão.
— Tome esse floco como símbolo de minha súplica. Escute-me e tente me ajudar. Se você puder... Me dar respostas... Eu as ouvirei e seguirei, eu juro. Preciso de tua Voz, mais do que nunca. Preciso... Ouvi-lo, meu amigo...
Dito isso, soprei o floco de neve em meio à corrente de vento gentil, e assisti-o voar em meio às folhas de carvalho e aos vagalumes. Desci do parapeito, deitei em meu catre e pus-me a dormir.
***
(Narrado por Yami, o Primeiro)
" ...Tome esse floco como símbolo de minha súplica. Escute-me e tente me ajudar. Se você puder... Me dar respostas... Eu as ouvirei e seguirei, eu juro. Preciso de tua Voz, mais do que nunca. Preciso... Ouvi-lo, meu amigo..."
Um floco de neve chegou até minhas mãos enquanto eu ouvia a doce voz de Ireas ecoar pelo vento; semicerrei meus olhos, encantado com a perícia do rapaz — a julgar o quão gentil era o ardor em minha mão, certamente o floco teria sido originado a partir de uma lágrima**. Sorri enquanto admirava aquele pequeno cristal temporário, que já começara a derreter em minha mão.
Estava sentado sobre o parapeito na proa do navio. O capitão Gaivota se encontrava em seu repouso, e deixou-me ficar por aquela noite antes de regressar a Ankrahmun. Olhei para os vagalumes com um sorriso no rosto — como eram belos! Sendo o que sou, não estava acostumado a tanta beleza.
— Eu vou te ganhar, Keras...
Declarando isso em meio a um sussurro, o floco começou a se derreter, e o vento tomou para si as gotículas salgadas, varrendo-as para longe de mim.
— Eu não faço isso por Esquecimento Eterno... — Sussurrei com um sorriso cheio de majestade e a voz cheia de maldade — Faço isso por mim mesmo... por mim mesmo.
Levantei-me, deixando brilhar as marcas esverdeadas em meu corpo. As gotículas flutuavam ao meu redor, circundando-me gentilmente. Pus minhas mãos à frente de meu corpo e comecei a recitar um feitiço que apenas os de minha raça seriam capazes de entender.
Em instantes, um clone meu surgiu ao meu lado, olhando para mim com um olhar vazio.
— Escute-me, e escute bem. — Disse a ele — Você voltará a Ankrahmun e exercerá suas funções de barqueiro normalmente. Se for indagado acerca de Ireas, Wind, Brand, Jack ou Emulov, diga apenas 'não sei'. Não entre em detalhes e se enteire de todos os fatos. Fui claro?
O clone respondeu afirmativamente com a cabeça e subiu em minha barcaça. Eu olhei uma última vez para o luar e para as gotículas, que voaram alto em direção à Lua, antes de ir para dentro do convés do barco para dormir.
Continua...
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Notas da Autora:
(*): Estibordo ou boreste é, em termos náuticos, o lado direito da pessoa que se encontra em uma embarcação, voltada para sua proa.
(**) A lágrima: Referência a uma das missões da Djinn Wars - Efreet Faction. Ainda que nada tenha a ver com as Lágrimas de Daraman, creio que lágrimas possam fazer um mal verdadeiro a um Djinn verde, visto que esses desprezam boas ações e compaixão, quaisquer sentimentos que levem à "fraqueza militar".
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Hoje ainda tem mais! Aguardem!
Capítulo 20 - Os Renegados: REVOLUÇÃO VANDURANA! (Parte 3)
A guerra continua...
(11 Dias antes de Ireas chegar a Ab' Dendriel)
(Narrado por Liive, O Bárbaro do Inferno)
Minha cabeça girava em meio a tanto sangue — perdi a conta de quantos da Guarda Thaiana pereceram graças ao meu machado, mas tinha certeza de uma coisa: Icel seria o próximo. Vi o Paladino Real lutar ao longe, ceifando a vida de vários dos meus. Mas ele estava em desvantagem, pois aquele era o meu navio.
— Melhor voltar ao seu navio, garoto! — Bradei em alto som, fazendo os homens que me restavam ir ao navio de Icel e me abrir caminho — Você não precisa me combater, sabe disso. Vai acabar perecendo ao fio de meu machado!
Icel respondeu-me com um sorriso debochado e três virotes atirados de uma só vez. Sem escudo, tive que usar meu machado para me desvencilhar. Dois virotes me acertaram, e eu comecei a sangrar; contudo, nada disso me iria parar. Nada.
— Que tal uma luta sem frescuras, como homens de verdade? — Propus a ele, com um sorriso selvagem.
— O que quer dizer? — Ele indagou, surpreso.
Em resposta, coloquei meu machado em minhas costas, embainhando seu cabo, e cerrei meus punhos.
— Falo de um mano-a-mano, garoto. — Repliquei — Desse modo, amacio meus punhos em seu rosto, te faço perder uns dentes e você pode viver. Sem falar que é um combate bem mais divertido. O que acha?
Icel sorriu para mim de forma debochada, e guardou sua besta em suas costas, fazendo o mesmo que eu. Ele arregaçou as mangas de seu largo sobretudo, pronto para o combate.
— Vamos ver quem vai apanhar de quem aqui, Liive. — Replicou o Paladino com um sorriso maroto.
Antes que ele pudesse dizer algo mais, corri até ele e desferi um poderoso soco em se abdome; o rapaz recuou, com dor, e eu aproveitei para acertar uma cotovelada fortíssima em suas costas, que o fez dobrar ainda mais seus joelhos, mas não foi o suficiente para fazê-lo cair.
Em represália, ele começou a desferir uma série de ágeis socos, muitos dos quais desviei. Os poucos que me acertaram não me feriram muito, mas eram fortes, tive que reconhecer isso. Aquele combate seria muito, muito interessante.
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(Narrado por Sírio Snow)
Estou atordoado. Estou em choque. Fui atingido em minha coxa.
Meus amigos parecem estar ganhando a briga, pois vejo navios Thaianos afundarem facilmente. Vejo a madeira cara e branca voar alto em meio a tiros de canhões, e marinheiros parecem chover nos mares, caindo pesadamente em meio às negras águas da costa. Levei uma cotovelada em meu abdome.
Minha vista está embaçada — um soco causou isso.
Quem me soca, quem me fere, quem tenta me matar quase sem resistência de minha parte... é uma pessoa de que gosto muito. É uma pessoa que tomei por morta há tempos, e que jamais pensei ver novamente.
— U... Utamo... Vita! — Gritei. Era tudo o que pude fazer.
Evitei levar o pior corte de espada com aquele feitiço. Minha mana me salvou, mas os ataques continuaram. Era um homem um pouco mais alto que eu, mas tão moreno quanto. Seus cabelos eram mais compridos e com mais dreadlocks que os meus. Seus olhos, por outro lado, eram muito, muito verdes, e ele trajava uma armadura muito forte.
— Lute! — Ele urrava — Lute contra mim!
— Não posso... — Sussurrava, exausto — Não posso... Morzan.
Snow. Morzan Snow. Mais conhecido como... Morzan Rider. Meu irmão mais velho.
— Muito bem. Então, não terei piedade de você! — Rugiu Morzan, com sua Espada Relíquia em mãos.
Ele estava pronto para desferir-me mais golpes. Mas eu não estava pronto para morrer. Não ainda. Não agora. Meus olhos, que outrora estavam fechados, abriram-se bruscamente
— Exevo Gran Mas Flam! — Urrei.
Tudo o que estava ao meu redor explodiu, e eu ouvi os gritos graves de meu irmão em meio às chamas. Elas diminuiram rapidamente, e pude ver que, a despeito de toda a proteção de meu irmão, partes de seu corpo haviam se queimado, ainda que levemente.
— Utura. — Rugiu meu irmão, apoiando-se em sua espada.
Ele rapidamente recuperou seus ferimentos, mas não se levantara por completo.
— Exori... HUR! — Ele berrou por fim, levantando de uma só vez.
No que ele se levantou, arremessou sua espada em minha direção, e o impacto fora tão forte que, ainda que estivesse com o escudo para me defender, acabei recuando, quase perdendo o equilíbrio.
— Utani Tempo Hur! — Ele gritou, aproximando-se rapidamente de mim, como um touro furioso — Exori Ico!
Assim que ele se acelerou, Morzan estocou meu escudo com sua espada, trincando-o. Eu não tive muito tempo para poder reagir, e meu irmão aproveitou-se disso.
— Exori Mas! — Urrou meu irmão, fincando sua espada no chão e fazendo a embarcação tremer tão forte que vi muitos de meus compatriotas caírem no mar.
O chão do convés cedeu em alguns pontos, fazendo outros sucumbirem aos escombros. Eu caí, ferido, tentando me levantar, com a raiva me corroendo por dentro.
— Por quê, irmão? — indaguei, rugindo — Por que? A troco de quê nos trai dessa forma?! Por que traiu seu povo?!
— Esse homens nada fizeram por mim! — Replicou Morzan, furioso — Lembra-se dos primeiros Assaltos* contra o regime Thaiano?! Lembra-se que eu caí em desgraça, graças à denúncia feita por um de meus homens?! Por um Vandurano como nós?! Lembra-se que o filho de Charlotte me traiu?! Por que eu confiaria nessa gente?!
— Por que confiaria em Thais?! — Explodi de raiva — Por que confiaria nessa gente?! Eles sim matam, roubam, estupram e queimam sem piedade?! Qual será sua recompensa depois, irmão?! Voltar aos canaviais e cortar cana e destilar rum indefinidademente?!
— Eles me deram um lar. Um treinamento apropriado. Um motivo para lutar. — Replicou Morzan, para o meu horror. — Eu os apoiarei até o fim.
— Então... Você escolheu a morte! Traidor! — Rugi, furioso, em meio às lágrimas — Meu maior ídolo, o único familiar que tenho, escolheu a morte! Exevo Gran Mas Flam!
Novamente, fiz arder em chamas o convés já avariado; aproveitei para me reerguer, mas vi meu irmão sair das chamas como uma besta selvagem, pronto para partir-me ao meio com sua espada muito afiada.
— Exori Vis! — Gritei, eletrocutando-o.
Ele recuou, berrando de dor. Vi-o beber três Poções Fortes de Cura, e aproveitei para fazer o mesmo com minhas Poções Fortes de Mana. Jogamos os potes vazios para longe e voltamos ao combate.
— Utito Tempo! — Ele gritou — Utori Kor!
Foram duas ações muito rápidas: na primeira, senti seu poder militar aumentar e, na segunda, ele me acertou tão forte com a lâmina de sua espada que vi-me sangrando sem parar.
— Exura Gran! — Berrei, desesperado — Exevo Vis Hur!
Assim que me curei, criei um cone poderoso de energia, que foi com tudo em direção ao meu irmão traidor. Vi a eletricidade percorrer sua carne e marcar sua pele com rigor, deixando-o muito atordoado. Ele chacoalhou a cabeça e pôs-se a se curar de novo. Eu, contudo, não dar-lhe-ia chances de me ferir novamente. Meu corpo ainda sangrava, mas não tinha tempo de me recuperar por completo.
— Utani Gran Hur! — Gritei, aumentando minha velocidade.
Desloquei-me rapidamente para trás dele.
— Exevo Gran Vis Lux! — Urrei novamente, acertando-lhe com um feixe poderosíssimo de energia, fazendo-o gritar de dor.
Morzan ajoelhou-se, mas não se dava por vencido.
— Irmão, pare! — Gritei, desesperado — Não quero matá-lo! Pare!
Ele consumiu quatro Poções Fortes, e fincou sua espada no chão.
— Eu... Também não... — Replicou-me, ofegante — Mas tenho... Uma dívida... Com Thais.
— Não! — Protestei, com lágrimas nos olhos. — Não, irmão, não! Não vê que está tudo errado?! Queremos ser livres, irmão! Livres para liderarmos nosso povo, sob as nossas regras, como sempre deveria ter sido!
Morzan levantou seu rosto em minha direção, com a espada ainda fincada no assoalho de madeira chamuscada.
— Não vê, querido irmãozinho, que esse radicalismo todo só trará mortes, e não liberdade? — Replicou meu irmão, estranhamente calmo — Não vê que essa destruição, essa guerra, não liberta ninguém? Vocês estão combatendo violência com violência. Isso não libertará vocês.
Arregalei meus olhos e vacilei, surpreso. Por mais absurdas que fossem as afirmações de Morzan, havia nelas um fundo de verdade. Senti meu coração mais pesado do que já estava,pois não queria, em momento algum, concordar com a "sabedoria" de meu irmão mais velho.
— O que libertará, então?! — Indaguei, furioso — O que poderemos fazer?! Não vê que não nos restou nenhuma outra opção?! Irmão... Junte-se a nós nessa briga, por favor.
Morzan sorria melindrosamente para mim; eu ofegava, sentindo meu coração bater forte devido à adrenalina, mas pesado, apertado, por ferir meu irmão daquele modo.
— Bom, se você quiser vencer essa batalha, irmãozinho... — Começou Morzan em tom malandro — Vai precisar do melhor mercenário de que poderá dispor. Para sua sorte... Ele está na sua frente.
Comecei a sorrir como uma criança diante de seu brinquedo favorito, ou diante de uma guloseima a ela oferecida após ter-se comportado tão bem. Ajudei meu irmão a se reerguer e, juntos, fomos enfrentar a guarda Thaiana, que estava em choque por ver Morzan virando a casaca (novamente).
— Não se preocupe, irmãozinho... — Disse-me Morzan — Vamos vencer esse embate e fazer de Vandura uma terra livre!
Dito isso, ele foi à frente, bloqueando vários guardas a fim de que os derrotasse à distância. Morzan seria meu escudo, enquanto eu seria sua garantia de sobrevivência — seu suporte e seu melhor atirador.
Havia ainda alguns piratas em meu barco, e eles se juntaram a nós em nossa empreitada contra os guardas. A pólvora e o sangue banhavam meu corpo e molhavam meus cabelos, deixando-me impregnado com a essência da guerra.
Meu irmão lutava como um bárbaro desenfreado, e eu fazia de tudo para mantê-lo de pé. O dia estava quase no fim, e as tropas de Thais haviam sido massacradas — grande parte da frota havia sido arrasada, e vimos muitos navios darem meia volta. Os poucos soldados que escaparam de nossas armas recuaram com os rabos entre as pernas.
Eu ouvia as vozes dos rufiões compatriotas comemorando de alegria. Eu sentia o sangue e suor meus escorrerem e pingarem a granel sobre o piso de madeira de lei. Senti minha vista se embaçar; meus calcanhares giraram.
Eu vi o rosto de meu irmão antes de tudo se apagar. Senti a madeira acertando meu rosto.
Depois, não senti mais nada. Não ouvi mais nada. Tudo ficou escuro.
***
Horas depois, acordo em uma das cavernas de Nargor, deitado em um catre improvisado. Meu corpo está completamente enfaixado. Quando abro meus olhos e viro meu rosto para a direita, vejo meu irmão Morzan adormecido em uma cadeira, com várias ataduras em seu corpo.
Olho ao redor, e não vejo mais ninguém - nem Liive, tampouco Jack. Nem sinal de Raymond e os outros piratas.
Onde estavam todos?
Continua...
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(*) Assaltos: Referência às Raids de Piratas que ocorrem em Liberty Bay.
Caralho fefê, mandando vários capítulos, quanta força de vontade... Eu não to conseguindo escrever nenhum. :/
Acho que já comentei contigo no Facebook sobre esses capítulos, tipo: Liive brutão, Ireas bi, Brand fdp cara de chibata e Morvan irmão inútil. :P
Se eu não falei do Morvan, então ai vai: Ele é aquele tipo de irmão inútil que nunca te ajuda e no fim das contas fica contra você. Foda isso. Sorte que logo ele enxergou a verdade e voltou a lutar com o Sirio. Representou uma boa luta, Iri! Principalmente a do Jack e do Brand, bem carismática e emocionante.
Continue assim, aguardo os próximos capítulos, e avante, Vandurianos! o/
Senhores, um milagre!
Um ano e quase dois (ou três) meses depois do último capítulo postado aqui, eis que volto com mais Capítulos de A Voz do Vento!
Quero pedir desculpas a todos pela demora - andei muito desanimada e ocupada com muitas coisas dentro e fora do Tibia, motivos os quais não me permitiram sequer escrever a continuação dessa história. Agora, não tem mais problema.
Estou de volta. E pra terminar o que comecei.
Sem mais delongas, o Capítulo de hoje!
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Capítulo 21 – Os Renegados: REVOLUÇÃO VANDURANA! (Parte 4)
E não importa quem, ou o quê...
(10 Dias antes de Ireas chegar a Ab' Dendriel)
(Narrado por Liive, o Bárbaro)
— Levanta! — Urrei para Icel.
Detonei o cara. Detonei mesmo. Uma lição de vida para o Paladino – nunca brigue com alguém maior, mais forte e mais bárbaro que você. Foi um combate digno, durou até mais do que imaginei que fosse durar – foram horas de troca de socos e pontapés. Sven adoraria ver isso aqui! E eu certamente adoraria repetir essa cena para todo e qualquer bárbaro que quisesse ver.
Caminhei até Icel; ele estava de joelhos, tentando encontrar forças para ao menos seguir respirando. Já havia perdido a graça tudo aquilo. Eu estava estalando meus punhos, esperando uma resposta vinda do franzino Paladino.
— Levanta, cara! — Urrei de novo, sério — Você não queria um combate?! Levanta!
Em resposta, ele simplesmente cuspiu sangue; muito sangue. Ele cambaleava de forma extrema, sequer conseguindo se manter de pé. Aquele adversário já era. E outros também, pois podia ouvir de meu barco os gritos de Thaianos caídos. Já era, galera – a liberdade era nossa. Estávamos ganhando aquela briga, e ganhando por muito.
— Filho da... — Resmungou Icel, cuspindo sangue.
— Não adianta me xingar agora. — Zombei um pouco, oferecendo minha mão — Você luta bem no mano-a-mano para um paladino, Icel. Mas não o suficiente pra me derrubar.
Assim que ajudei-o a se reerguer, senti um solavanco forte abalar a embarcação e arremessar a mim e Icel longe; senti meu corpo bater contra um local rochoso e, depois disso, não senti mais nada.
Apaguei.
***
(Narrado por Sirio Snow)
De repente, ouvi um barulho alto de algo se chocando contra as pedras que protegem a ilha. Senti um frio tomar conta de minha espinha e meu corpo. Assim como eu, Morzan também ouviu o som – e começou a despertar.
— Mais um trouxa! — Ouvi um conjunto de vozes gritar ao longe, mas dentro da caverna.
— Dessa vez, são dois! — Um conjunto falou em coro.
— São quatro, bando de otários! — A discussão começou a ficar acirrada — Os pertences são meus!
Ouvi um conjunto de risadas esganiçadas e comandadas pelo rum, junto a uma salva de tiros e revirar de mesas e cadeiras. Piratas – mas não os que nos ajudaram a se rebelar. Esses de fato não ligavam se os seus compatriotas sofriam ou não nos canaviais da Baía da Liberdade. Esse piratas eram criminosos e renegados – até mesmo para nós.
Tentei examinar o local onde eu e meu irmão estávamos presos – uma cavidade em meio à rocha fria e sólida, com nada além de mim, Morzan e nossas amarras. Nossos equipamentos não estavam mais conosco, e o frio daquele local somado à umidade de nossas roupas casuais já começava a dar os seus primeiros sinais de castigo.
O gemido de desconforto e despertar de meu irmão atraiu meu olhar; suas feridas, diferentemente das minhas, já estavam mais cicatrizadas, porém mostravam claros sinais de infecção. Para nosso infortúnio, não tornei-me versado na arte de curar – contudo, poderia estar em posse de alguma runa que o fizesse. Bastava apenas achar minha mochila.
— Aguenta firme, irmão. —Sussurrei para Morzan — Passamos por coisas piores que essas. Vamos sair dessa inteiros e juntos novamente, como uma família.
Dito isso, tentei me levantar; graças à umidade e péssima conservação das cordas, as fibras que mantinham meus pés presos se rasgaram assim que fiz um esforço maior para separar meus tornozelos; senti um misto de dor e calafrios quando o fiz. As cordas estavam muito apertadas, esfolando com prazer meus tornozelos, os quais estavam em carne viva quando os libertei.
Meu próximo passo foi me desfazer das amarras de meus punhos; dessa vez, eu escolhi recorrer a um meio alternativo – e mais rápido.
— Exori Flam. — Sussurrei.
Senti o calor do fogo mágico percorrer meus dedos e atingir a corda, que começou a crepitar tímida, mas constantemente; ela queimou o suficiente para tornar minha libertação possível. Assim como meus tornozelos, a carne de meus pulsos estava exposta, e isso era um perigo.
— Exura Gran. — Sussurrei novamente.
Minhas feridas se fecharam em um instante, deixando nada senão a lembrança. Agora, poderia continuar minha missão. Respirei fundo, e caminhei, pé ante pé, em direção à porta. Era um portão de madeira velha, podre e que fedia à umidade, pólvora e bolor, com o trinco e maçaneta completamente cobertos por ferrugem. Sem nada que pudesse emular uma chave, tentei a coisa mais óbvia – virar a maçaneta e torcer para que a porta abrisse. Ao fazê-lo encontrei pouca resistência por parte dela e, por fim, abri um pouco a porta, a fim de observar o que havia à seguir.
Estávamos no centro de Nargor, a capital da pirataria. As paredes de rocha sólida estavam decoradas com caveiras, ossos, espadas, escudos e trapos – "troféus" dos bandidos sobre os vencidos e saqueados; o ar estava impregnado com o cheiro de sangue, suor, pólvora, cerveja e restos de alimentos. Havia relances de armas no chão, e nenhuma alma viva no salão.
E e era tudo de que eu precisava.
Da porta, corri até meu irmão, o qual estava febril e muito fraco, piscando os olhos lenta e dolorosamente.
— Onde estamos? — Balbuciou Morzan.
— Nargor. — Respondi, colocando seu braço em volta de meus ombros — Fomos capturados pelos outros. E parece que mais navios se chocaram contra a baía...
— Os navios de Thais... — Meu irmão sussurrou, bem debilitado. — Os navios... Dos rebeldes...
— Que?! — Exclamei — Espera, se todos estavam nessa rota...
E foi aí que me toquei; meu rosto empalideceu, e todos os fatos ocorridos até então voltaram à minha mente em uma profusão de imagens e sons. Os novos prisioneiros não eram pessoas quaisquer.
Eram os amigos de Ireas Keras. E meus amigos também.
E eu tinha que tirá-los dali.
Balancei minha cabeça, e voltei àquele local.
— Morzan, temos que sair daqui. E depressa. — Falei, determinado — Aguenta um pouco mais; eu vou achar algo para te ajudar.
Com o braço de meu irmão em volta de meus ombros, e um de meus braços livres em volta de sua cintura, usei de toda a força em meu fraco corpo para manter meu irmão erguido e desperto. Voltei-me à porta semi-aberta e passei por ela, ciente que daquele passo em diante não haveria mais volta. Agora, rezava para que minha intuição estivesse errada, para que os navios dos demais não houvessem chegado à costa mortal. Estava cansado daquela luta toda.
Queria apenas a liberdade. Era pedir muito dos habitantes desse mundo?
***
(Narrado por Rei Jack Spider)
Minha cabeça dói. E muito.
Acordei aos solavancos, sendo sacolejado constantemente; meus olhos aos poucos foram se abrindo, e vi que não estávamos mais em uma embarcação; consegui ver Brand desacordado, com uma ferida aberta e sangrando em seu rosto, e suas mãos e pés estavam atados. Ao meu lado, vi o que parecia ser Icel. Então, era isso.
Havíamos sido todos capturados pelo lado que traiu ambas facções. Fechei meus olhos, tomado pela frustração; tal cena era a mais simples prova de que trair seu povo e romper com seus contratos estava certo e que traria a vitória e sobrevivência, e isso era completamente errado! E continua sendo errado!
Ainda com meus olhos cerrados, comecei a sentir algo diferente ali; não estava no cheiro do local ou nos piratas em si, mas havia algo no ar... Algo no vento.
Eu conseguia sentir. Eu podia ouvir. Um lamento; um pedido de ajuda. Uma voz muito familiar. Ireas? Não, não podia ser...
Ele estava longe demais dali para poder ajudar. Para poder ao menos pensar em fazer algo.
"Mas você pode, criança."
Abri meus olhos, espantado; eu estava ouvindo coisas? Senti algo se mexer em meu ombro, e voltei meus olhares discretamente para ele. Havia uma pequena aranha prateada, quase transparente, cujo corpo parecia se mover de forma fluida, junto com o vento.
"Sshh... Não diga nada, criança." A voz da aranhazinha ecoava em minha cabeça, similar à voz de um rei bondoso e afável. "A outra está longe... E não poderá chegar. Mas você pode fazer algo por você e seus amigos. Lembre-se: o vento separa, o vento reorganiza e o vento une. Tudo o que é soprado um dia volta."
Antes que eu pudesse indagar qualquer coisa àquela aranhazinha, ela se desfêz no vento, como se sua existência nunca ocorrera. Ainda que estivesse intrigado com aquele bichinho, sabia o que tinha que fazer. A luta não acabara ali.
Ela estava apenas começando.
Não pensei muito, e cabeceei o pirata que me carregava o mais rápido e forte que consegui, e foi o suficiente para ele urrar de dor e me soltar no chão. Os outros, estarrecidos, procuraram por suas garruchas, e fiz um grande esforço para arrebentar as cordas que atavam minhas mãos.
— Exori San! — Gritei.
De minhas mãos, saiu o feixe divino, que acertou o pirata em cheio; os demais ficaram atônitos, parados por um tempo, o suficiente para que eu conseguisse enxergar o pirata que havia surrupiado minhas lanças, escudo e mochila.
— Exori San! — Gritei novamente, apontando minha mão esquerda para o ladrão.
O tiro foi certeiro – outro pirata já era; ouvi um tiro de garrucha, e senti a bala passar raspando por meu ombro; prendi minha respiração e corri o mais rápido que pude em direção às minhas coisas.
— Exori!
A voz de Liive soou alta e forte como um trovão; com minha lança em punho e escudo no outro braço, pude ver o bárbaro ruivo lidando com os outros piratas simultaneamente; naquele momento, Brand e Icel começaram a recobrar a consciência, e corri para ajudá-los.
— Exori Gran Con! — Gritei, com os olhos fixos nos piratas.
O tiro etéreo por mim criado simplesmente serviu para finalizar o serviço de Liive, que havia trucidado todos os demais piratas sem nenhum esforço. Assim que terminou seu trabalho, cortou as amarras que prendiam tanto Brand quanto Icel. Corri até o trio, ainda pasmo com tudo o que acontecera.
— Eles pegaram vocês também, né?! — Rosnou Liive a contento — Pelo jeito esses gordões aí nunca lutaram com alguém realmente do tamanho deles! Enfim... Vamos ajudar o pessoal aqui.
Concordei com Liive e ajudei Brand a se levantar, enquanto o Norsir amparou Icel. Ambos estavam muito machucados, com farpas e pedaços grandes de madeira fincados em suas feridas abertas e sujas de sangue. Ouvi Brand murmurrar um punhado de coisas sem sentido na medida em que seus olhos vermelhos se abriam com dificuldade e suas forças retornavam ao seu corpo.
— Onde... Onde estamos? —Murmurrou Brand, com a dor tomando conta de sua voz.
— Não sei... — Repliquei, inspecionando as redondezas com meus olhos — Realmente não sei...
— Caras, isso não importa agora! — Liive interveio, solavancando Icel — O importante é sairmos vivos daqui, e rápido!
Comecei a ouvir passos em grande número, vindos de todas as direções; antes que pudéssemos nos locomover, vimos o salão cheio de piratas – e Sírio junto a um outro cara sendo escoltados para baixo também.
A multidão de rufiões maltrapilha e sedenta por sangue tinha suas garruchas e sabres à mão, prontos para o combate.
— O que estão esperando?! — Urrou Liive em tom de provocação — Não querem tentar a sorte?!
Estranhamente, tudo o que os piratas fizeram, em resposta, foi rir; rir um riso de escárnio e desprezo, mesmo que já tivéssemos mostrado ser mais fortes que eles.
— Crianças abusadas! — Um bucaneiro gritou do alto de um dos corredores à nossa frente — Tem sorte de estar aqui, e não no baú de Davy Jones*! O "Mortalheiro" se apiedou de vocês e, em troca, ficam de graça! Muito bonito! — Finalizou o discurso com uma cusparada no chão e a risada similar a de uma hiena.
— "Mortalheiro"? — Indaguei em voz alta — Quem é "Mortalheiro"?
Quando encerrei minha fala, vi uma figura alta e encapuzada vir em nossa direção; imediatamente, os piratas que nos cercavam se curvaram perante a figura, e dois deles vieram até ela. O da esquerda entregou-lhe um sabre com uma lâmina diferente, incomum para o tipo da arma, e o da direita lhe estende um livro velho e pesado, cujos escritos estavam em uma língua tão estranha que sequer compreendia o do que se tratava.
— Sou aquele que você procura, criança. — Falou a figura com uma voz velha e sinistra — Eu já fui pirata; já fui vivo. Hoje sou sombra de meu passado de infame glória – sou aquele que chamam de "Mortalheiro", o guia para este e outros Reinos, não podendo viver tampouco morrer.
O Mortalheiro tirou o capuz, revelando uma face divida – o lado esquerdo tinha traços de um Vandurano em idade avançada, com a pele morena empalidecida e exibindo os sinais da morte; o lado direito era apenas uma caveira com pequenas fendas e manchas de sangue ao longo do crânio. O lado esquerdo continha uma dentição deformada, com a ausência de três ou mais dentes na arcada, enquanto que o lado direito possuia uma dentição perfeita e completa, com alguns dentes manchados com o sangue há muito coagulado de inimigos já caídos. Sua cabeça era recoberta por uma densa cabeleira negra em pavios grossos e adornados com ossadas humanas.
— Essas águas estão amaldiçoadas. — Falou Mortalheiro, solene — Os navios do opressor se chocariam com nossa murada de toda forma... Mas não o dos nativos. Essa frota era para ter sido poupada, e não foi minha vontade que dobrou os mares dessa vez...
— Como assim?! — A voz de Sírio fez-se presente no recinto, confusa e irritada.
O Mortalheiro virou sua cabeça lentamente em direção ao Vandurano; seu olhar frio percorreu tanto Sírio quanto o rapaz que ele segurava.
— Eu sou um dos avatares da Morte, criado por Bastesh para carregar as almas dos que padecem no mar para o outro reino. — A criatura fixou seu olhar no outro sujeito — Contudo, meu trabalho vem sido perturbado e, mesmo com todo meu poder, não tenho encontrado solução para isso... As feridas no corpo desse jovem tem a ver com isso. Até eu encontrar a fonte desse mal... Vocês terão que ficar aqui. Ninguém aqui em Nargor poderá lhes fazer mal, mas vocês não poderão matar mais ninguém. Do contrário, mostrarei suas entranhas ao mar...
O Mortalheiro então sinalizou para um grupo de piratas, que se encarregou de escoltar Sírio e o outro sujeito para outro aposento. Um outro grupo foi designado para fazer o mesmo com Liive, Icel e Brand – e apenas eu permaneci no recinto de origem.
—Você... É diferente daqueles outros... — O Mortalheiro se dirigiu a mim, olhando-me nos olhos — Há algo em você que me intriga... É como se você também fosse movido pela vontade de um outro deus, que não o meu...
— Sou apenas um indivíduo comum... Um Paladino como muitos outros. — Repliquei, tímido.
—Humpf... — O Mortalheiro sorriu para mim — Seja como for... Ficarei de olho em você... E em seus amigos... A corrupção está tomando conta de tudo... A corrupção lançada por ela...
— Quem? — Indaguei.
— A mulher que atende pelo nome de Esquecimento Eterno... — Replicou o Mortalheiro — Ela está causando tudo isso... Está abusando dos poderes que lhe foram concedidos... E está dando passos maiores do que poderia ou deveria... Ela precisa ser detida... Precisa ser... Destruída.
Esquecimento Eterno. A mãe de Ireas. Quisera eu que a resposta fosse diferente, mas nunca seria. Não teria como ser. Que dor de cabeça... Espero que tudo o que aquela aranhazinha me tenha dito sirva para algo de fato... Realmente, qualquer conselho é bem-vindo... Bem como toda ajuda...
Continua...
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(*): Em contos comuns de piratas e marinheiros, a expressão "ir para (o baú de) Davy Jones" ("All the way down to Davy Jones'(chest)) nada mais é que uma referência às profundezas do mar. Ir ao Davy Jones é o mesmo que ir ao fundo do oceano. Davy Jones seria um ser lendário responsável pelo tráfego das almas que fa
Saudações, moçada!
Bom, não recebi nenhum comentário sobre o último capítulo ainda :(
Ficarei à espera de comentários referentes a ele. Contudo, vou dar continuidade ainda assim (e dar uma divulgada no L.T. e ver se ajuda de alguma coisa...) e esperar por respostas... :hmm:
Sem mais delongas, o Capítulo de hoje!
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Capítulo 22 - Os Renegados: REVOLUÇÃO VANDURANA (Final)
...A liberdade será, enfim... Nossa.
(Narrado por Rei Jack Spider)
Ainda estava cara a cara com Mortalheiro; o que ouvi ser pronunciado por ele continuou a ecoar insistentemente em meus ouvidos, mantendo-me ali, inerte e com os ouvidos atentos, querendo ouvir mais. Precisando ouvir mais... E sem entender o porquê.
De vez em quando, conseguia ouvir as vozes dos piratas sendo sopradas pelo vento, ou até mesmo as vozes de meus amigos, e tais eventos me deixavam cada vez mais inseguro.
— Você tem um nome, meu jovem? — Indagou Mortalheiro, inclinando sua cabeça para a direita, curioso.
— J-Jack Spider. — Repliquei, um pouco hesitante — R-Rei Jack Spider. O Rei é um título mais de humildade... Por conta de um Grande Feito que realizei em meus primeiros dias como Paladino...
— É muito honesto, Jack... — Falou-me Mortalheiro lentamente, deixando sua voz mais rouca e sinistra — Aprecio isso em uma pessoa, independentemente de sua origem...
— O-Obrigado... Eu acho. — Respondi, ainda receoso.
— É também muito corajoso... — Continuou Mortalheiro, bambeando sua cabeça na outra direção lentamente — Afinal... Desafiar as tropas de Thais não é tarefa simples. Requer uma motivação muito grande e muito poder ao seu alcance...
— Tudo por uma causa justa. — Respondi, com orgulho. — Afinal, todos nascemos livres, certo? Ninguém tem direito de ter posse sobre outro alguém, não importa se é mais rico do que essa pessoa ou se vê como alguém "mais privilegiado"...
— E, ainda assim... Com seus ideais libertários... Seu melhor amigo... O de olhos vermelhos e cabelos prateados... É escravocrata... — Silvou a criatura, reflexiva. — Vocês, humanos... São muito curiosos...
— Brand só estava seguindo ordens! — Repliquei, chateado com a colocação de Mortalheiro — Eu duvido que ele seja escravocrata de verdade... Bom, ao menos... Não faria o menor sentido ele sê-lo... — Minha voz foi se perdendo conforme minhas dúvidas aumentavam.
— Não é porque algo não parece fazer sentido para você... Que não fará sentido para os outros. — Replicou o sujeito com um semblante sinistro — Eu concordo com você... Escravidão é sem sentido... Mas há quem se beneficie dela... Assim como há aqueles que se beneficiam com o desequilíbrio, o caos e a corrupção... Não é verdade?
— É, mas... — Balbuciei, tentando acompanhar o raciocínio —Onde quer chegar com isso?
— Falo de Esquecimento Eterno... E sua busca por poder... — Respondeu a criatura — Eu posso sentir sua essência, criança... Você não é sangue do mesmo sangue dela... Ainda assim, quando falei seu nome... Pareceu-lhe familiar demais...
— Eu conheço o filho dela, Ireas. — Disse a ele, justificando meu sentimento —Eu e os demais também somos... E volta e meia o ajudamos, sempre que possível. E ele também nos ajuda conforme pode...
— Entendo... — Mortalheiro assentiu, meneando lentamente a cabeça — E, ainda assim... O deixam caminhar direto a... Uma armadilha... Perigosamente... Letal.
Meus olhos se arregalaram, e uma palidez assombrosa tomou conta de minhas faces.
— Como assim?! — Indaguei, pasmo.
— Seu amigo corre grave perigo... — Mortalheiro continuou a falar, com sua voz solene e sinistra ecoando Nargor adentro e preenchendo o ar — Ele foi... Será emboscado... Muito em breve. Se vocês não forem até ele... Esquecimento Eterno... Ou seu servo... Ceifar-lhe-á a vida... E tudo caminhará para a ruína...
— Essa não! Não pode ser! — Sentia o desespero crescer em meu âmago — Precisamos sair daqui o quanto antes, Mortalheiro! Precisamos ir até Ireas, e rápido! Não pode fazer nada quanto ao mar?
— Dê-me mais uns dias... — Replicou o avatar da Morte — O mar está muito ensanguentado e sedento por mais... Sinto a fome de almas vindo desde as enseadas até as profundezas de Calassa... Não... Está perigoso demais... E seus amigos estão muito feridos e infeccionados pelas águas impuras... Fiquem um pouco mais... Cuidaremos de vocês...
Assenti, frustrado, preocupado e abatido. Ireas estava então caminhando para a morte? E não havia nada que pudéssemos fazer? Quantos dias mais ele teria antes de seu derradeiro fim? Quantos dias mais teríamos para chegar até ele?
Ouvi um estalido de ossos; era um dos braços de Mortalheiro, o qual estava em ossadas puras e brancas, indicando-me uma direção para ir.
— Vá... Descanse... — Pediu-me a sobrenatural criatura, em um tom quase afável — Quando o mar estiver purificado... Vocês poderão partir...
Dirigi-me ao cômodo que me fora apontado: um quarto pequeno, com um catre, um criado mudo e um expositor de armadura e de armas. Rapidamente, guardei minhas coisas nos expositores, sentei-me no catre e abri minha mochila – para meu alívio, o Broche ainda estava lá.
— Graças a Banor! — Sussurrei, aliviado — Vamos lá... Funcione que nem da outra vez... Preciso falar com Ireas... E rápido!
Olhei para a enorme gema no centro da peça, buscando por algum sinal de vida; alguma coisa que me indicasse o paradeiro de Ireas; algo que me mostrasse se estava vivo ou se jazia morto. Eu precisava alertá-lo sobre o que estava por vir; precisava que o vento levasse minha mensagem como fizera da última vez.
O vento... Parecia que apenas eu e Ireas podíamos ouvi-lo. Por quê? O que tínhamos de tão diferente dos demais? E por que apenas nós podíamos de fato ouvir e compreender as mensagens do Vento? Pergunto-me se o Druida também viu aquele ser prateado... Aquela pequena aranha que falou dentro de minha mente, como se já me fosse conhecida de longa data. Pergunto-me, também, o que aquele bichinho realmente é, e o porquê de ter vindo até mim.
Segurei firmemente o broche em minhas mãos; a princípio, estava frio; contudo, sua temperatura parecia oscilar junto à pequena movimentação do vento por dentro de Nargor. Respirei fundo, fechei meus olhos e busquei apenas sentir, e mais nada, além disso.
— Vento... Ó Vento, ouça meu apelo... — Sussurrei devagar, tentando me manter calmo — Meu amigo está em perigo... Leve a ele essa mensagem... Faça-o ouvir minha voz... Ele precisa saber que nada é o que parece ser... Que ele está caminhando em direção à morte, e precisa de ajuda... Vento, se não pudermos ir até ele, ao menos dê-lhe nossas forças... Dê-lhe poder para aguentar os desafios que virão, e calma para perceber o que está ao seu redor...
Senti o objeto se aquecer até ficar morno, e ficar com temperatura variável por alguns minutos até enfim esfriar novamente. Coloquei o objeto junto ao meu peito e desfaleci, ouvindo mais nada além do vento soprando em meu rosto, frio e úmido, e o barulho da chuva que começara a cair à noite...
***
(Narrado por Jovem Brand, o Terceiro)
Dor. É tudo o que eu sentia.
Tudo doía.
Todo sangrava.
Minha cabeça girava... E meus olhos se abriam com dificuldade, como se houvesse pedras em cima deles. Quando dei por mim, não estava mais naquela embarcação lutando contra Jack... Lutando uma luta estúpida, por ideais que jamais deveria ter defendido em primeiro lugar. Agora, eu estava em um local estranho, com paredes e teto de pedra, que fedia a sangue, pólvora e rum. Havia uns três homens estranhos, com barbas por fazer e cabelos em pavios, tamanha a sujeira neles impregnada. Seus rostos estavam cobertos de carvão e poeira, e suas roupas eram extremamente maltrapilhas. As únicas coisas em bom estado, até onde pude distinguir, eram suas armas. Sem dúvida, eu estava em um covil de piratas. Maravilha, mais problemas.
— Onde... Onde estou? — Murmurrei, com muita dor.
— Nargor, a única terra livre nesse mundo! — Replicou um dos piratas, aplicando alguma coisa em meu rosto — Me surpreende um capitão Thaiano não conhecer esse lugar! Ê, beleza! Andam treinando bem os riquinhos, viu? He,he,he!
— Engraçadinho você. — Repliquei, com ironia — Se acham que estou destreinado... Exura San!
Assim que pronunciei meu feitiço, fiz minhas feridas se fecharem em um instante, o que causou espanto para os piratas. Em seguida, sentei no catre improvisado onde outrora me deitaram, e lancei aos meus “anfitriões” um olhar desafiador.
— Quero ver tentarem a sorte. — Provoquei, com o semblante sério.
Um dos piratas riu de mim, com desdém.
— Humpf. Todos iguais, esses Thaianos! — Falou o pirata, com a voz rouca cheia de desprezo — Você e seus amigos têm muita sorte... Não fosse a presença de Mortalheiro, estaríamos jogando suas entranhas no mar agora!
Eu congelei; meus olhos se arregalaram. As lendas eram verdadeiras então? O guardião e guia dos mortos existia então?
— M-Mortalheiro? — Repeti, incrédulo — O Mortalheiro?!
— O único. Em esqueleto, sombra e cheiro de mar. — Falou o outro pirata, o qual segurava uma cuia cheia de ervas — Eu também não acreditei quando o vi, garoto, mas meus olhos não me enganaram – era Mortalheiro em entidade. E ele só aparece quando o mar chora de dor...
— Como assim? — Indaguei, confuso.
— O mar está corrompido, rapaz. —O pirata da cuia continuou, com aspecto soturno — Restos mortais dos que caíram pelas mãos da Irmandade dos Ossos foram lançados ao mar, e a doença tem se espalhado rápido. Adicione isso à luta que vocês causaram e eis a receita para o desastre iminente! Mortalheiro emergiu das ondas para curar o mar e aplacar a fúria de Bastesh, mas não poderá fazer isso sozinho.
— Isso mesmo. — O outro pirata falou — Mortalheiro viu algo no grupo de vocês: algo que só ele consegue compreender. Ele precisa da ajuda de vocês. Os mares precisam da ajuda de vocês.
Respirei fundo, fechando meus olhos e fazendo o possível para não rir. Não podia ser verdade. Era óbvio que não era verdade. Mortalheiro não passava de uma lenda; algo criado pela imaginação de marinheiros que ficaram muito tempo expostos ao mar. Ainda assim, era inegável o tom de verdade que havia na voz daqueles piratas.
— O seu amigo ali não está muito bom das pernas não... — O pirata com a cuia na mão apontou para os catres onde repousavam Sírio e outro rapaz muito similar a ele em aparência — ...E a causa disso não está na madeira que os feriu, e sim na água do mar. Vocês terão que ficar aqui alguns dias até que Mortalheiro deixe as águas novamente limpas... E sacie a sede de sangue do mar...
Olhei para Sírio e o outro rapaz. O pirata tinha razão: eles estavam péssimos. Não tínhamos outra escolha senão permanecer ali pelo tempo que fosse preciso. Eu torcia para que Ireas estivesse bem. Com ou sem Wind, o garoto precisaria de toda sorte e poder do mundo para deter Esquecimento Eterno. Precisávamos sair dali o quanto antes...
***
(5 dias antes de Ireas chegar a Ab’ Dendriel)
(Narrado por Morzan Rider)
Caralho... Nunca fiz tanta cagada como essa na vida.
Onde eu estava com a cabeça? Meu irmãozinho tinha razão... Eu abandonei meu povo quando ele mais precisou de mim... Troquei minha pátria por dinheiro sujo, dinheiro escravo. Agora, não mais. Chega de ser corsário. Não quero mais essa vida para mim.
Quando cheguei à Nargor, estava muito doente; senti minhas entranhas sendo tomadas por um mal maior que quaisquer doenças que já tenha enfrentado. Era uma infecção horrorosa, consumindo meu corpo como chama em palha seca. Foram dias horríveis, mas os piratas conseguiram me curar; os conhecimentos de cura de nossos ancestrais sobreviveram com eles e, graças a isso, me mantiveram vivo para mais um dia de combate. Agora, pelas causas certas.
Sírio me apresentou aos seus amigos assim que ficamos recuperados; a princípio, tanto Jack quanto Liive mostraram grande desprezo por mim, mas aos poucos foram me aceitando. Brand, o de cabelos grisalhos, contudo, foi o que me aceitou mais rápido: ele entendia o que era estar em meu lugar, e sabia o quanto eu estava arrependido. Acho que ele também estava igualmente arrependido de seus atos, sei lá...
Quando estávamos totalmente recuperados, Mortalheiro nos chamou até a entrada de Nargor, e pediu que fizéssemos uma roda em frente à enseada.
— Vocês tem algo diferente... Algo que a muito não vejo em outros seres humanos... — Mortalheiro começou seu discurso, estando no centro da roda — A devoção e determinação de vocês são genuínas; vocês lutam bravamente por seus ideais desligados de motivações materiais... No sangue de vocês corre o poder de que preciso para purificar essas águas... Por meio da luta, vocês fortaleceram seus corpos e, por meio da devoção aos deuses, o sangue de vocês foi recompensado... Agora, é hora de usar esse poder para reestabelecer o equilíbrio...
Dito isso, ele se aproximou de nós com uma Faca de Obsidiana e um recipiente de mármore. Um a um, ele cortou as palmas de nossas mãos e forçou-as contra o recipiente, fazendo o sangue ficar ali. Sem seguida, jogou areia e água do mar dentro da tigela de mármore, erguendo-a aos céus nublados.
— Senhora...! Minha Senhora...! — Mortalheiro gritou, com a voz solene e sinistra soando como trovão — Bastesh, mãe do Mar, Soberana das Águas! Eu, seu filho, venho até você com oferendas de calmaria para essa tempestade!
Súbito, o céu se fechou ainda mais, e ouvimos trovões gorgolejando do alto do firmamento. Mortalheiro fixou seu olhar na abóbada celeste, tingida de cinza escuro e forte, determinado a cumprir com sua tarefa.
— Trago a você sangue dos merecedores... Daqueles que não mancharam o mar com a corrupção que aflige os humanos... Trago a você sangue dos devotos, dos tementes aos deuses... Daqueles que não se esqueceram de você, Senhora...
Ao fim dessa segunda sentença, sentimos o chão tremer e ouvimos um som alto e gorgolejante vindo do mar; à frente da baía rochosa, o mar começou a se mover em um padrão distinto das ondas de outrora; diante de nossos olhos, um rodamoinho começou a tomar forma, e Mortalheiro estendeu sua oferenda em direção a ele, sem sair do lugar.
— Toma esse sangue... — Continuou a sinistra criatura em transe — Bebe da cura dos justos... E cura tuas feridas... Faz do mar puro novamente... E permita que esses homens possam regressar em paz para seus lares... Pois a hora deles... Ainda há de vir... Mas não agora...
Mortalheiro se calou, e outro evento extraordinário passou diante de nossos olhos; o conteúdo do recipiente começou a flutuar em direção ao rodamoinho e, junto com ele, a figura do Mortalheiro. A criatura começou a se desfazer em pó e ser sugada pela força do vento e das águas. Ele voltou seu olhar para nós uma última vez antes de partir.
— O caminho está livre... — Sua voz sinistra ecoou forte no ambiente — Os lobos do mar dar-lhe-ão passagem... A Senhora está contente... O caminho está... Limpo...
Com isso, sua figura desapareceu com um sorriso sinistro e um estranho semblante de paz; o rodamoinho aos poucos foi-se fechando, e a chuva começou a cair dos céus. As águas do mar, outrora escuras e cheirando à podridão, começaram a ter suas impurezas retiradas, voltando à cor azul-esverdeada que lhes era natural, e a ferocidade que antes tomava conta de suas ondas desaparecera por completo.
Eis então que surgiu um navio em meio à enseada; um navio feito de água. Os piratas nos reverenciaram e guiaram nossos passos até o navio. O caminho estava limpo, e era hora de partirmos.
— Para onde? — Indaguei.
— Vamos atrás de Ireas. — Brand e Jack falaram em uníssono, e vi meu irmão concordar com a cabeça.
— Ele corre grande perigo! — Exclamou Jack, agitado.
— Tenha calma, meu amigo... — Replicou Brand — Acredito que ele esteja concluindo a missão que os Djinns de Gabel lhe devem ter incumbido, seja ela qual for. De toda forma, teremos que passar em Ankrahmun primeiro e ver se ele já não está por lá.
— Brand, seria melhor tentarmos o caminho em direção a Thais. — Interpelou Jack, ansioso — A rota pode até ser mais longa, mas eu não gostaria de passar por Ankrahmun. Tô com um péssimo pressentimento, pode acreditar...
— Jack, Ankrahmun é a única cidade que vai nos dar asilo agora. — Brand replicou, seco — Entendo sua preocupação e não subestimo sua intuição, mas a Baía da Liberdade deve estar completamente detonada, Port Hope é Thaiana até o fim dos dias e Venore não nos receberá caso tenham sido ameaçados de bloqueio econômico. Ou Ankrahmun, ou Darashia. E temo que Carlin esteja perigosa demais para nós dois, dada nossa origem...
— Então, vamos para Ankrahmun? — Sírio interveio, impaciente — Yami está lá, pode nos ajudar!
Eis então que vi as expressões de Jack e Brand se alterarem; pareciam receosos, como se escondessem algo de Sírio, eles se entreolharam, e vi Jack tomar fôlego para dizer algo.
— Olha, Sírio... — Jack começou triste e timidamente — Yami não é quem parece ser... Ele...
— Ele prendeu Ireas e um amigo, Emulov, em Drefia. — Brand interveio, seco e ríspido — Ele é um Djinn, provavelmente um Efreet, e serve Esquecimento Eterno. Ele não é gente boa não!
— Quê?! — Foi a vez de Liive se pronunciar, incrédulo — É sério isso?!
— Vocês só podem estar de sacanagem com a minha cara! — Sírio retrucou, incrédulo — Eu conheço Yami desde pequeno! O cara é de confiança! Não pode ser verdade, vocês o estão confundindo com outra pessoa!
— Não, Sírio... Não estamos. — Brand replicou, sério — Yami tentou matar a mim, Wind, Emulov e Ireas. Ele nos separou no deserto, arremessando os dois mais fracos de nosso time em Drefia, e por muito pouco eles não escaparam com vida. Yami é mau assim como a mulher a quem serve.
— Não acredito em você! — Teimou meu irmão, com o sangue Vandurano fervendo em suas veias.
— Pois bem. — Brand continuou, sério — Então, se quer a prova, zarparemos para Ankrahmun, e você verá que falo sério.
Dito e feito; zarpamos então para Ankrahmun, contra todas as negativas de Jack e as negações de meu irmão. Eu, por outro lado, mantive-me neutro a tudo aquilo; não me lembrava tão bem assim de Yami, e as declarações de Brand fizeram-no parecer ainda mais questionável. Eu temia por meu irmãozinho; seu temperamento, comum a muitos Feiticeiros, certamente poder-lhe-iam custar caro...
Zarpamos, então, para Ankrahmun, na esperança de chegar lá e Ireas estar são e a salvo. Perguntava-me quem era esse rapaz, e porque ele era tão digno da atenção desses caras. Decerto deveria ser alguém muito querido, ou talvez muito poderoso. Bem, só descobriria quando chegássemos até ele...
***
(Um dia depois da chegada de Ireas a Ab’ Dendriel)
(Narrado por Jovem Brand, o Terceiro)
— Como assim, você não sabe?!
Que merda, eu deveria ter ouvido Jack de primeira! O desgraçado do Yami está se fazendo de sonso agora! Ele é o barqueiro da cidade, e certamente levou Ireas ao seu objetivo! Agora está se fazendo de retardado mental! Cara, como eu odeio esse sujeito! E ainda está com esse olhar sonso e apagado...
— Yami, tenta se lembrar! — Sírio interveio, chocado — Ireas não é um cara tão difícil de esquecer. Certeza de que não o viu? Nem Wind? E nem o tal do Emulov?
— Não. — Replicou Yami em tom de voz perdido — Não sei de nada. Não os vi.
— Puta merda... — Falei entre meus dentes, muito irritado. — Alguém me segura...
Respirei fundo, tentando me acalmar. Ao meu lado, podia ouvir o som das articulações dos dedos de Liive estalando, e podia jurar que vi o brilho da Espada Mística de Morzan acima de sua bainha. Estávamos a um passo de combater o cara.
Então, foi aí que vi uma ação inesperada por parte de Jack; ele tirou um Broche Ornamentado de sua mochila e o mostrou a Yami, cujos olhos se arregalaram.
— Eu ouço a Voz do Vento — Disse Jack em um tom de voz atípico, sereno demais para ser dele —, e ouço suas mentiras. Você mente; você sabe onde Ireas está. Por favor, diga a verdade e não lhe faremos mal... Ainda.
E eis que percebi outra coisa estranha: o olhar de Yami. Não parecia ser o mesmo olhar do barqueiro, altivo, confiante e arrogante; esse Yami parecia perdido e alheio a tudo, com um olhar sem brilho e vidraçado. Seus lábios começaram a tremer e sua face empalideceu, ao passo que Jack manteve-se firme em sua posição.
— E-Eu... E-est-tou cumprindo a-apenas o-ordens, juro! — Yami falou, assustado — M-meu m-mestre m-me f-falou... P-para d-distrair vo-vocês... A todo custo! Todo custo!
— Seu... Mestre? — Sírio pergunto, confuso — Quem é ele?
— Y-Yami, o-o Pr-Primeiro! — Pronunciou aquele que havíamos tomado por Yami, apavorado — Por favor, me matem! Ele não pode saber de minha falha! Por favor, façam isso!
O rosto de Sírio foi tomado pela tristeza e decepção; a face de Morzan se fechou em uma expressão de conhecimento prévio e eu, cada vez mais furioso, entendi o esquema: Yami criara uma duplicata de si para ocupar seu lugar e não levantar suspeitas sobre suas ações. Graças aos estranhos dizeres de Jack, estávamos próximos de solucionar esse mistério.
— Ô palerma! — Liive urrou, perdendo a paciência — Fala logo pra onde que o verdadeiro Yami levou Keras! Anda logo que estamos com pressa!
— Liive! — Censurou Jack.
— Ab’ Den... — O sósia começou a falar, e parou de súbito.
Eis que vimos o sósia parar de falar, com os olhos arregalados e os lábios tremendo; de repente, ele começou a arfar alto e agonizante, como se alguém o estivesse enforcando. Por fim, desfaleceu, e seu corpo se transformou em uma poeira esverdeada, que foi soprada longe pela brisa marítima. Isso tudo ocorreu em segundos.
— Então, o filho da mãe é onisciente... — Falei, indignado — Ao menos conseguimos a informação de que precisávamos. Rapazes, vão até a cidade e comprem suprimentos! Vamos zarpar para Ab’ Dendriel o mais rápido possível! Ireas está marchando em direção à Rocha de Ulderek, não tenho a menor dúvida quanto a isso! Apressem-se, não temos muito tempo!
Continua...
Champz
Um ponto positivo que achei:
Achei interessante isso de voce mudar a pessoa que esta contando a estoria uma hora é uma pessoa outra hora é outra gostei disso
Um ponto negativo:
Voce conta as lutas muito rapido podia ser mais detalhista assim na hora do combate
Entao esta ai a minha critica construtiva
Ae iri, muito bom esses dois últimos capítulos. Como tinha dito, não to lembrando muito bem dos personagens e do que fizeram, mas lendo os capítulos e fazendo um esforcinho na mente, deu pra lembrar melhor.
Curti o Mortalheiro e o motivo dele aparecer, e acho que estou começando a entender essa Voz do Vento. E to vendo que a história tá ficando muito boa com isso!
Continue.
Saudações pessoal frequentador da Seção Roleplay!
Demorei, mas postei! Antes de mais nada, um agradecimento especial a todos e todas que leram e ainda leem essa história =D
Vcs me dão mais incentivo para escrever, então valeu galera! :y:
Antes de mais nada, umas respostas rápidas aos feedbacks dados:
Spoiler: Respostas aos Comentários
Sem mais delongas, o Capítulo de Hoje!
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Capítulo 23 - Dois Oásis no Deserto: Por Ashta' Daramai, INVADIREMOS! (Parte 2)
E a Invasão à Rocha de Ulderek têm início.
A Rocha de Ulderek... Também conhecida pelo nome de Fortaleza Orc, lar dos Orcs, temidos seres de couro grosso e verde, formas horríveis, força sobre-humana e mentes terríveis, servas de seus desejos obscuros.
O lar dos Orcs é uma grande arena muralhada, onde os mais jovens se submentem a um treinamento rigoroso e selvagem por parte dos veteranos, com o objetivo de aniquilar totalmente suas vítimas e reconquistar o domínio supremo do mundo. Se suas lutas no passado foram todas travadas contra os belos e mágicos Elfos, hoje suas atenções se encontram divididas entre humanos, elfos e as demais criaturas que os ousaram desafiar no passado.
A Rocha era liderada por um Orc extremamente forte e temido, tão poderoso que foi capaz de forjar uma aliança com os Djinns. No entanto, esse mesmo rei se viu vítima de suas maquinações, e os Djinns replicaram alterando drasticamente sua forma, tornando-o nada além de uma massa borbulhante de limo e veneno , que desejar arduamente ter sua vingança...
Para isso, o Rei Orc manteve consigo o único item que poderia fazer os Djinns se dobrarem à sua vontade e retirar-lhe a maldição; valendo-se de sua esperteza, ele aceitou guardar essa preciosidade, a qual lhe fora conferida por um Djinn, e tal peça deveria ser usada apenas no dia em que fosse necessária.
Quisessem os Djinns que o Rei Orc não fosse tão esperto a ponto de virar esse jogo a seu favor...
***
(Narrado por Ireas Keras)
O dia enfim havia chegado. O dia da tomada, da invasão à Fortaleza Orc. Acordei muito cedo, antes mesmo do nascer do sol, e já havia notado algo diferente na cidade – chovia.
Chovia uma chuva estranha, triste eu até diria; as folhas das árvores me pareciam enferrujadas e seus caules, mais empalidecidos. O vento soprava suave e úmido em meu rosto, como se tentasse me despertar. E eis então que ouvi algo.
"Cuidado, criança..."
— Hã? — Indaguei, meneando a cabeça, como que saindo de um transe auto-imposto.
"Cuidado... Ele não é quem diz ser...". A voz retornou, trazida pelo vento. Era gentil, doce e um pouco envelhecida, lembrando-me do jeito de Cipfried de falar. "Você pode estar caminhando em direção à morte...".
— Quê? — Indaguei, ainda mais confuso. — Quem é você?
"Ouça minha voz, criança...". A voz continuou, soando mais forte na medida em que o vento ao meu redor passou a se mover com mais velocidade e força. "Ouça o que eu digo... Graças a Banor!".
A voz de repente se alterou, e meus olhos se arregalaram. Eu reconhecia aquela voz!
— Jack?! — Indaguei para o vento — É você?!
"Meu amigo está em perigo... Leve a ele essa mensagem... Faça-o ouvir minha voz... Ele precisa saber que nada é o que parece ser... Que ele está caminhando em direção à morte, e precisa de ajuda... Vento, se não pudermos ir até ele, ao menos dê-lhe nossas forças... Dê-lhe poder para aguentar os desafios que virão, e calma para perceber o que está ao seu redor..."
Sim, era ele! Pelos deuses, era ele! Mas, como? Como? O vento trazia até mim a voz dele, da mesma forma que fizera através de Broche Ornamentado! O Paladino estava se comunicando comigo de novo... E através do vento... E, de alguma forma, parecia que apenas nós éramos capazes de fazer isso.
Fechei meus olhos e me concentrei.
— Exani Hur, Acima! — Murmurrei.
Meu corpo foi envolvido por minha mana, e a energia me levou à copa da árvore onde outrora dormi uma noite contubada. O vento soprava mais forte, e a mensagem ainda ecoava em meus ouvidos. Ainda de olhos fechados, senti minhas faces se abrirem em um sorriso. De alguma forma, Jack e os demais estavam vindo atrás de mim. Provavelmente, fosse o que os tivesse freado, já havia sido resolvido, e bem-resolvido.
Estendi minhas mãos aos céus e à chuva, e me lembrei de quando escolhi ser Druida; de quando vi Yandur manipular a água e a terra com a graça e destreza que o fizera. Eu foquei meus pensamentos e minha energia mágica em uma coisa apenas – em me comunicar através do vento.
Jack pedira ao vento que me desse suas forças e as dos outros para que eu triunfasse; eu retribuiria esse gesto de alguma forma, e o vento ajudar-me-ia com isso. Talvez eles, no fim das contas, precisassem mais de forças para me alcançar do que eu.
E essa foi minha proposta ao Vento – que levasse a eles parte de minha mana e restaurasse suas feridas onde quer que estivessem...
***
(Narrado por Andarilho do Vento)
Diazinho chuvoso... Não me parecia um bom começo para uma invasão. Quando acordei, me deparei com a visão de Emulov, Solstícia e outros membros da guilda amontoados em frente à porta e do lado de fora da enorme árvore, murmurrando em tom de fascínio e supresa. Todos estavam lá, exceto Ireas. Um misto de curiosidade com preocupação tomou conta de mim, e decidi, pois, me aproximar da porta para ver o que havia de tão diferente naquela cena.
Meus olhos se arregalaram em espanto; eu não pude creer em meus olhos. Era Ireas no topo daquela árvore, e sua mana parecia... Fluir para fora de seu corpo! Sim! Fluía como as luzes da Aurora Boreal das Ilhas de Gelo, só que brilhando em um único tom pálido e gélido de azul. A energia estava sendo levada pelo vento, mas não parecia ser fruto de um dreno de mana, tão doloroso e sofrido. Não... Era como se ele estivesse ofertando parte de sua mana para os céus.
A grande pergunta era: por quê?
Pouco depois de eu testemunhar essa cena, Ireas abaixou os braços e o fluxo cedeu, sumindo no ar.
— Exani Hur, Abaixo! — Ouvi-o pronunciar, com a voz levemente enfraquecida.
Assim que seus pés tocaram o chão, suas pernas bambearam e ele se apoiou no tronco da frondosa árvore, e logo Solstícia correu para lhe amparar. Meu corpo estava travado; limitei-me a observar a cena. Aquele rapaz... Essa habilidade... Nunca vi ninguém fazer o que ele fez. Havia algo a mais nele além do que a filosofia druídica poderia fornecer.
Amparado por Solstícia, vi-o manter a consciência e rapidamente se equilibrar em suas pernas. Ele disse alguma coisa ou outra para ela mas nada que eu pude distinguir. Senti uma melancolia tomar conta de mim. Ireas tem outros amigos. Outros contatos. Outros aliados. Um poder próprio além da compreensão de outros de sua e de outras vocações. É óbvio que ele não precisa de mim.
Já não sou mais tão necessário assim.
— Está tudo bem com você?
Ergui meu olhar triste – era a voz de Ireas. Seu semblante estava sereno, e parecia confiante com o que viria a seguir. Endireitei meu tronco e pus-me mais altivo, meneando positivamente minha cabeça e tentando afastar de minha mente tais pensamentos. Emulov veio até nós pouco depois, com seu semblante tímido de sempre.
Os membros da guilda de Solstícia – um total de outras quinze pessoas bem-armadas e equipadas – se aproximaram de nós, entregando-nos Poções de Mana, Poções de Cura, runas e outros equipamentos em boa quantidade para que entrássemos com vida e saíssemos vivos de lá também.
— Muito bem... — Falou Solstícia, dona de uma voz gentil, porém firme — Senhores, hoje vamos a um local perigoso, onde os fracos não têm vez: Vamos à Rocha de Ulderek, auxiliando Ireas Keras e nosso ilustre amigo Emulov Suv em sua missão em nome dos Marid, os Djinns Azuis da fortaleza Ashta' Daramai de Kha'zeel. Nós já perfizemos um caminho similar dentro daquele terreno antes, e o faremos de novo. Vocês me seguirão novamente?
— Sim! — Os demais membros da guilda gritaram orgulhosamente em uníssono.
— Excelente! — Falou Solstícia, orgulhosa — Que Crunor esteja conosco! Vamos!
O espírito daquela guilda estava animado; eles de fato estavam prontos para comprar briga com os Orcs. Respirei fundo e fui com eles; alguns possuíam montarias, e outros, assim como eu e Ireas, locomoviam-se à pé, mas acelerados, movidos à magia e ânimo sem igual.
Quisera eu estar tão animado; costumava gostar dessas empreitadas, de caçar tudo com gosto com meus companheiros de batalha. Contudo, naqueles últimos dias eu vinha sentindo um... Grande vazio em minha alma. Poderia ser...? Não, não poderia. Ele já estava destruído.
E nós Yalahari também.
***
(Narrado por Ireas Keras)
Andarilho do Vento está mais fechado que de costume. Acho que pisei na bola de vez... Ou então talvez seja mais saudade dos amigos e da terra natal. Afinal de contas, ele é Yalahari, e já ouvi falar de muita coisa sinistra a respeito do passado e do presente dessa cidade-ilha. De toda a forma, eu espero que ao menos a invasão sirva como uma forma de animá-lo. Ainda gosto muito dele, mas não sei se posso confiar no Andarilho de novo.
Enfim, Solstícia nos dera o sinal de partida. Com a bênção e apoio de todos os Elfos pelos quais passamos, atravessamos o portão de entrada de Ab' Dendriel, prontos para o que estivesse diante de nós além das árvores podres que rodeavam a Fortaleza Orc.
Entretanto, um pensamento não deixava a minha mente em paz – aquela mensagem trazida pelo Vento. A voz de Jack. Ele já havia feito isso uma vez antes, me lembro bem. E eu também já havia dirigido minhas preces ao Vento mais vezes do que poderia me lembrar; não só desde que deixei Rookgaard e passei a habitar Ankrahmun, mas também muito antes, quando era apenas uma criança vivendo na abadia de Cipfried. Quando ainda acreditava apenas na bondade das pessoas. E quando achava que algum dia teria respostas para as perguntas que nunca ousei fazer em voz alta.
— Utani Gran Hur! — Pronunciei minha feitiçaria em alto e bom som.
Estava ficando para trás; não podia ficar para trás. Possivelmente, era assim que eu me sentia na maior parte do tempo – perdido no tempo, jogado ao vento. Eu não poderia mais ficar assim. Muitas perguntas que ainda tinha não haviam sido completamente respondidas, e eu precisava dessas respostas mais que tudo. E, principalmente, encontrar quem detinha a maior parte delas.
Esquecimento Eterno, minha mãe.
***
A marcha até o maior covil dos Orcs transcorrera sem grandes problemas; não houve nenhuma resistência à nossa chegada, o que me parecera muito estranho. Nossa recepção fora feita por um pequeno grupo de Orcs de hierarquia menor, despreparados para enfrentar a comitiva de Solstícia. Sequer precisei usar minha mágica – Solstícia estava se encarregando de tudo.
Por fim, chegamos à primeira entrada da Fortaleza – uma pequena cadeia de serras feitas à mão, com pedras grandes, afiadas e lustrosas mantendo o monte de terra seguro. Acima dela, podíamos ver torres cheias de Orcs munidos de lanças afiadas, prontos para nos atingir ao primeiro comando. Naquele ponto, Solstícia sinlizou para que parássemos a marcha.
— Atenção! — Falou a moça com sua voz gentil e que denotava experiência — Nos estamos aqui apenas para abrir caminho até o castelo do Rei Orc e seu trono. Devemos manter Ireas, Emulov e Andarilho a salvo do perigo! Não se esqueçam – nosso objetivo é conseguir uma "audiência" com o Rei! Vamos!
Com isso, Solstícia brandiu suas armas, motivando sua comitiva inteira a seguir com ela; os urros de motivação e ânimo eram ensurdecedores. Aquele pessoal sabia como intimidar alguém.
— Utamo Vita! — Pronunciamos eu e Emulov em uníssono.
E lá fomos nós; Solstícia e seu bando subiram a barricada primeiro, e logo ouvimos o estrondo de pequenos mísseis elemetais sendo arremessados contra os seres esverdeados. Andarilho sinalizou para que esperássemos um pouco; alguns segundos depois, ele nos deu sinal afirmativo para subirmos, e o seguimos.
A comitiva ainda estava lá, esperando por nós. Diante deles, vimos apenas destroços e sangue do que antes eram Orcs. Eles sinalizaram uma vez mais, e seguimos adiante. Eu e Emulov renovamos nosso escudo de mana, pois, dali em diante, não estaríamos mais tão seguros.
E, de fato, eu estava certo; tão logo quanto todos nós saímos da primeira entrada e nos aproximamos do portão principal, fomos recebidos por um batalhão de Orcs Berserkers e Cavaleiros, esse últimos montados em ferozes Lobos de Guerra, que vieram com tudo para cima de nós.
Solstícia fazia seu melhor para comandar as tropas, bradando feitiçarias e reorganizando toda sua estratégia a cada segundo. Eu e Emulov fazíamos o possível para ajudar, ora pronunciando nossas magias de ataque, ora renovando nossas forças mágicas e auxiliando aqueles que estavam mais feridos do que achávamos que ficariam.
Eram Orcs demais para contar. Primeiro, fomos recebidos por trinta; logo, o número aumento para cinquenta e, em pouco tempo, nos vimos cercados por mais Orcs que podíamos rapidamente contar. Eu comecei a entrar em pânico; não queria morrer ali. Ainda não estava pronto; eu queria viver.
Então, tive a brilhante ideia de usar uma das várias runas que me haviam sido fornecidas antes de partir de Ab' Dendriel – uma runa chamada "Chuva de Pedras", a qual nunca havia usado antes. Eu me concentrei e a joguei em direção a um dos maiores grupos de Orcs Berserkers.
Para a minha surpresa, funcionou; em um instante, o céus se fecharam e pedras enormes começaram a descer das nuvens, acertando em cheio cada um dos Orcs portadores de machados de duas lâminas, sepultando seus gritos patrióticos em uma tempestade de pedra.
— KRAAAK OOORRRKKK! — Urraram muitos deles em agonia.
Eu continuei a atirar as runas, e logo vi que outros da comitiva passaram a fazer o mesmo; os Orcs mais fracos bateram em retirada assim que viram as pedras, temendo por suas frágeis vidas. Os mais fortes interpelaram esses desertores, ferindo-os de morte com suas almas e correndo de encontro a nós com fúria em seus olhares e ódio em seus corações. E nós persistimos, revidando com mais pedras e mais poder de fogo.
Notei, então, que a Terra parecia ferir brutalmente esses seres; lembrando-me das palavras de Yandur, ditas há tempos atrás, decidi abandonar as pedras e tentar uma outra abordagem das forças primitivas da Mãe Natureza.
— Exevo Tera Hur! — Urrei.
Concentrei minha mana e fiz nascerem vinhas agressivas do fundo do solo encharcado de sangue, comandando-as a ferir os Orcs em seu caminho; elas envolveram cada um dos horríveis seres verdes em um abraço espinhoso e mortal, arrastando-os para debaixo da terra e soterrando-os violentamente. Eu acabei recuando; não sabia que poderia ser capaz de fazer um feitiço tão violento assim. Mas não havia tempo para recuar. Eu precisava continuar.
— Utamo Vita! — Renovei meu escudo uma vez mais.
Ingeri rapidamente o maior número de Poções de Mana Fortes que pude antes de ficar levemente nauseado; arremessei algumas para Emulov, que parecia estar passando dificuldade. O único que parecia estar em uma situação confortável era Andarilho do Vento, que atingia a tantos Orcs de uma vez com suas lanças que parecia estar enrentando não Orcs Senhores de Guerra, senão pequenos ratos.
Não havia mais nada no ambiente senão o som de lâminas se chocando umas contra as outras, de fogo incendiando vivos os adversários, da própria terra se revirando em desgosto com as vis criaturas, e de seus gritos de agonia enquanto tombavam, uma a uma.
Eu e Emulov estávamos protegidos em meio à comitiva, e raramente víamos algum dos seres se aproximar de nós. Os que conseguiam escapar ao bloqueio dos mais poderosos geralmente estavam fracos demais para nos ferir, e nossas manas garantiam que nossos corpos continuariam intactos.
A cadência da troca de tiros e golpes aumentou; estámos conseguindo ganhar mais terreno, e o palácio parecia cada vez mais próximo. Usei minha mana para aumentar minha velocidade uma vez mais; estava começando a me sentir cansado pela jornada, ainda queeu estivesse apenas finalizando o serviço da comitiva.
O sol já estava se pondo no horizonte, e o castelo parecia cada vez mais perto. O time de solstícia já começava a dar sinais de cansaço, mas não havia outra alternativa para nós senão continuar avançando — se voltássemos, corríamos o risco de sermos emboscados por Orcs sem a menor chance de defesa. Ela nos guiou a um local um pouco menos hostil dentro da Fortaleza para que pudéssemos recobrar nosso fôlego. Despistamos todas as patrulhas e batalhões que pudemos, até encontrarmos um local seguro.
Sentamo-nos dentro de um antigo quartel abandonado, tomando todo o cuidado para não evidenciar ainda mais nossa presença no local. Todos deixamos nossos corpos cair no chão simultaneamente, de tão exaustos que estávamos; Solstícia se recostou na parede de pedra e abriu seu cantil, ingerindo água sofregamente.
— Exevo Pan. — Pronunciei meu encanto, e fiz alguns nacos de carne, pedaços de presunto cru, rodas de queijo e algumas frutas aparecerem à minha frente.
Repeti o encanto mais algumas vezes, gerando mais comida para todos presentes, e fui passando para eles os excedentes por mim criados. Tal ação pareceu consumir mais da minha energia do que eu poderia imaginar, e acabei por recostar-me na parede fria de pedra, sem forças, a poucos palmos de distância de Andarilho do Vento.
— Dia cheio, não? — Falou o Yalahari para mim. — Aposto que poderemos chegar ao castelo em mais algumas horas...
— O difícil será voltar... — Respondi, quebrando o gelo.
— Pois é... — Suspirou o ruivo, visivelmente cansado — A última vez em que estive cercado por tantas criaturas antes foi em... Goroma.
Virei meu rosto em sua direção, sem dizer nada; deixei-o falar como tanto queria.
— Achei que não fosse voltar daquele inferno... — Andarilho continuou, com o olhar vazio voltado para o horizonte — Não era nem para eu estar ali... Eu, um Yalahari, compartilhando o campo de batalha com outros não-Yalahari, que parecerem ainda ter pelo quê lutar? — Um som de leve escárnio escapou de sua boca — Parece no mínimo errado...
Depois desse comentário, ficamos em silêncio por um bom tempo. Fiquei refletindo em cima das palavras do Yalahari, e de tudo o que havíamos passado juntos — e em cima de tudo o que fizemos cada um passar. Não sabia ao certo o que dizer e como dizer, mas Wind me parecia desolado, deprimido; era como se sua vontade de viver estivesse reduzida. Acho que ao menos cabia a mim, como rapaz que já nutrira, e talvez ainda nutrisse sentimentos fortes por ele dissesse algo para reverter esse sentimento ruim.
— Se você foi... — Comecei, meneando devagar a cabeça — É por que tinha um motivo, e ele não tem nada a ver com o lugar de onde você vem e onde vive.
Ele voltou seu olhar para mim, com um semblante interessado. Eu tinha sua atenção agora.
— Eu não sei muito sobre Yalahar, eu confesso. — Continuei, sereno — Assim como não sabia praticamente nada a respeito da minha terra natal, Svargrond. Ainda assim, eu fui até lá para lutar pelo que era meu, porque... Por que eu precisava daquilo. — Um sorriso sereno brotou em meu rosto — Por que eu tinha uma razão muito forte para isso. E certamente sei que você tinha um bom motivo para lutar lá em Goroma também.
Em troca de meu discurso, recebi um sorriso um pouco mais motivado. Bom, ao menos pude dar um incentivo a ele. Talvez pudéssemos ser apenas amigos... Isso facilitaria mais as coisas. De qualquer forma, essa questão poderia esperar. Tínhamos só mais algumas horas de descanso até chegarmos ao castelo. Depois disso... Chegaríamos ao Rei Orc e à Lâmpada.
E tudo estaria resolvido.
Continua...
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Bem, eis aí mais um capítulo xD
Estou voltando, e dessa vez espero terminar logo esse Pergaminho. Vamos, que vamos, pois A Voz do Vento está quase no fim!
Por favor, me deem seu feedback mais honesto! Comentem, se joguem!
Abração!
Ótimo capítulo, Iri. Não me lembrava ainda de quem era o Wind, depois que lembrei, fiquei ainda meio wtf de alguém de Svargrond ser gay. Ele tem espírito bárbaro e sangue de headbanger correndo nas suas veias, até habilidade pra beber ele tem. Mas você deve ter seus motivos.
Gostei do capítulo, por vezes parecia a narração de uma verdadeira guerra! Quinze contra mais de cem é loucura, mas a guilda me pareceu forte o bastante para isso. Mas sinto que vai dar merda. E você narrou bem, parabéns :D
No aguardo do próximo capítulo.
Li esse último capítulo,
você escreve muito bem!
Dá gosto de ler e a história é intrigante e interessante!
Continue assim e eu vou continuar lendo!
Saudações, frequentadores da Seção Roleplay!
Nesse finalzinho de férias estou finalmente retornando. Pretendia ter postado mais Capítulos assim que o semestre da faculdade se encerrou, mas precisava dar atenção in-game para o Ireas até mesmo para me animar a continuar essa história. Ainda pretendo finalizá-la esse ano, então correrei com as postagens, mas farei o possível para não deixar a qualidade cair. Conto com o mais honesto feedback por parte de todos vocês para continuar a escrever. Esse Pergaminho está passando da metade! (spoilers lol)
Mas, antes de passar para o vigésimo quarto capítulo do Segundo Pergaminho, umas respostas aos últimos Comentários se fazem necessárias:
Spoiler: Respostas aos Comentários
Sem mais delongas, o Capítulo de hoje!
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Capítulo 24 – Dois Oásis no Deserto: Por Ashta' Daramai, INVADIREMOS! (Parte 3)
E a busca pela Lâmpada de Cem Gemas continua...
(Narrado por Ireas Keras)
Enfim, era a hora.
Uma ou duas horas depois de minha breve conversa com Wind se dar por encerrada, Solstícia nos deu o sinal para nos levantarmos e darmos continuidade à nossa empreitada. Era noite e, pelo que podíamos ouvir, o campo estava praticamente deserto – Orcs, assim como praticamente todas as criaturas mortais e diurnas, precisavam de um período de repouso, e nós faríamos um bom uso deles.
Pé ante pé, fomos todos andando até a entrada da caverna; com o indicador pousado em seus lábios, Solstícia pediu silêncio; assentimos, sem questionar. Andávamos lenta, mas constantemente. A Fortaleza estava praticamente toda imersa na escuridão, contando com poucos pontos luminosos gerados pelas tochas da Fortaleza; havia ainda algumas pequenas patrulhas rondando determinadas rotas da Fortaleza a fim de garantir que não havia nenhuma alma invasora presente.
— Utana Vid... — Sussurrei.
Senti minha mana me envolver como uma capa, e a segurança tomou conta de mim; vi a maioria dos membros da comitiva desaparecer de minhas vistas depois de colocarem algum anel em seus dedos; todos o fizeram – exceto Solária. Ela nos estava guiando, e, para isso, precisava permanecer visível.
Estranhamente, ela nos guiou rapidamente ao castelo, despistando todas as patrulhas como se elas nem estivessem no local. Comecei a desconfiar – não podia estar sendo assim tão fácil. Ingeri mais algumas Poções de Mana Forte e sussurrei baixo, porém bém-pronunciado:
— Utamo Vita.
Solstícia novamente sinalizou para que ficássemos quietos, e apontou para uma escadaria que levava para o subsolo. Notei, então, que havíamos passado pela entrada do castelo do Rei Orc. Respirei fundo, sentindo um calafrio percorrer minha espinha. Eu não tinha opção – tinha que pegar a Lâmpada a todo custo. Então, vi-a chamar, baixinho, por outros três da comitiva. Juntos, os quatro pularam em direção à escuridão; pouco depois, todos fomos mergulhando.
— VOCÊS QUEIMARÃO!
Assim que meus pés tocaram o solo, senti uma rajada de fogo violenta me atingindo, arrancando minha capa de mana de meu corpo e me inflingido muitas queimaduras – a criatura não só me vira através da invisibilidade como também fora capaz de atravessar meu escudo de mana. Vi Emulov gritar de dor – as queimaduras em sua frágil pele decerto foram mais profundas e fortes que as minhas, e vi-o ingerir uma alta quantidade de poções para se recuperar.
Eu me mantive firme; renovei meu escudo de mana e ingeri mais poções.
— Exori Frigo!
Decidi revidar o ataque da criatura; a escuridão não me permitia vê-la tão bem, então me orientei a partir dos mísseis de gelo lançados pelos demais. Nossa recepção no castelo fora feita por um Lorde dos Dragões, bem como alguns outros Orcs mais fortes. Ainda que a comitiva se utilizasse de runas de gelo para frear a multidão de Orcs e outras criaturas que vieram nos receber, ainda assim o ambiente estava quente e nocivo demais para se suportar.
Senti meus pulmões se apertarem em meio ao ar sufocante; as vozes estavam ficando cada vez mais distantes. Minha visão estava ficando mais turva, e minhas pernas pareciam incapazes de sustentar o peso de meu corpo. O que diabos estava acontecendo?!
Quando estava para desmaiar, senti alguém me amparar e impedir minha queda. Era Wind! Certamente vira que comecei a fraquejar. Eu meneei a cabeça, tentando me recuperar; aceitei a ajuda, mas não quis ser carregado – quis tentar correr junto a ele, a fim de não retardar o time.
— Vá em frente, Wind! — Minha voz soou rouca, como se eu tivesse rosnado para o Yalahari — Eu consigo acompanhar!
Ele simplesmente concordou com a cabeça, ainda que exibisse preocupação em seu semblante; eu respirei fundo e fechei meus olhos, ouvindo apenas a balbúrdia que se instalou aos pés da escadaria.
— Exura Vita! — conjurei a maior de minhas proezas curativas, fazendo minhas queimaduras se fecharem.
Abri meus olhos e vi a guilda de Solária revidar com força avassaladora; alguns dos Druidas cercaram o Lorde Dragão e atiraram suas runas de gelo em sua direção, fazendo-o cair com um urro monstruoso de dor e fúria. Assim que a fera caiu, senti o ar ficar mais leve naquele recinto e retomei o controle de meu corpo. Emulov estava ao meu lado e o ajudei a se levantar; o Zaoano estava mais revigorado, ainda que algumas queimaduras ainda estivessem presentes em sua pele.
Seguimos em frente, acompanhando o rastro de destruição deixado pela guilda; perdi a conta de quantos Orcs mortos vi desfigurados no chão. A fim de poupar minha mana para o que estava por vir, limitei-me a seguir os rastros da guilda, sempre atento à iluminação mágica criada por eles.
Não demorou muito para chegarmos ao local que mais queríamos: o salão real. Era um aposento enorme, com alguns crânios decorando as paredes de pedra escura e limosa, guardando um trono de madeira escura e almofada roxa, com um par de baús de madeira branca a alguns metros de distância dele. Estranhamente, o recinto parecia vazio.
— E então? — Perguntei, desconfiando daquele cenário — Onde está o Rei?
— Era para estar aqui, Ireas. — Solária falou igualmente desconfiada. — Eu vou inspecionar o local... Preciso que você venha para trás do trono, tanto você quanto Emulov. Se o Rei aparecer...
De repente, começamos a ouvir um barulho diferente de nossas vozes, passos e respirações; era um som gorgolejante que começou baixo e foi aumentando gradativa e lentamente na medida em que parecia vir em nossa direção. As luzes conjuradas estavam começando a se esvair; Solária passou para alguns dos membros de sua comitiva uma Runa de Campo Venenoso.
— É agora, senhores... — Ela falou com a voz firme. — Quero que vocês façam o que tem que ser feito! Ireas e Emulov precisam ficar seguros!
Antes que eu pudesse perguntar, ao menos uns dez membros da guilda jogaram as runas no chão, que se espatifaram libertando uma densa cortina de veneno ao nosso redor, cobrindo uma boa área. Sendo uma nuvem mágica, ela não era capaz de nos intoxicar e era possível enxergar através do véu verde e de aspecto limoso.
Foi através dessa cortina que eu o vi; o Rei dos Orcs. Mas não em carne, osso e armamentos, como imaginei que seria; em vez disso, eu vi uma massa verde, gosmenta e gorgolejante, que fazia meu estômago se revirar a cada movimento em direção ao seu trono.
— Haaarrkk...! — Gorgolejou o Rei Orc. — Estão fortes agora?!
O som parecia emanar de toda aquela massa verde asquerosa, e era uma voz grave e entrecortada, afetada pela própria movimentação do Rei. Respirei fundo e disse:
— Saudações...
Antes que eu pudesse terminar, recebi um ronco grosseiro como resposta.
— Aaarrgh! Um pele-pálida sujo! VENHAM MINHAS CRIANÇAS! GUARDAS, MATE-OS!
O Rei Orc se esparramou no chão e de seus fluidos surgiram pelo menos cinco Orcs dos maiores ranks da Fortaleza, bem como outras três criaturas feitas de puro limo; o grupo logo veio em nossa direção e foram impedidos pela cortina de veneno, que fez o limo vivo recuar e os Orcs caírem desmaiados ante o gás intoxicante.
O Rei gorgolejou raivoso circundando lentamente seu trono; estranhamente, consegui visualizar um brilho incomum no interior de sua massa esverdeada. Poderia ser...?
— Ireas, Emulov, falem com ele. — Sussurrou Solária. — Resolvam essa situação o quanto antes...
Concordei com a cabeça, assim como Emulov.
— Saudações, Rei dos Orcs! — Eu e Emulov falamos ao mesmo tempo.
O Rei dos Orcs virou seu corpo em nossa direção.
— Haaarrkk... — Gorgolejou o Rei. — Se acham fortes agora?! Vocês não vão escapar da minha ira!
— Viemos aqui para uma coisa apenas, Rei Orc. — Falei com a voz mais calma que pude. — Gabel me mandou.
— Gabel? — Gorgolejou o Rei, intrigado e irritado — Eu sei o que quer aquele Djinn... É a Lâmpada...
O Rei se arrastou até nós, continuando seu monólogo.
— Eu achei essa lâmpada um dia e libertei o Djinn que lá havia... Era um Djinn ruim, e ele me amaldiçoou! Perdi minha forma original... Ele me sacaneou!
— Como assim? — Indaguei, curioso.
— Ele ficou preso naquela Lâmpada por eras! Uma raça antiga o havia prendido lá, pelo que entendi de nossa conversa... — O Rei retrucou gorgolejante. — Ele agora está livre para dominar o mundo e, mesmo que tenha me sacaneado, aprecio o que ele e sua raça estão tentando fazer. Pode não ser mais o tempo dos Orcs, mas certamente a Era dos Djinns vai começar!
Arregalei meus olhos e o pavor tomou conta de mim — aquele Djinn não era o bondoso Gabel, de forma alguma! Era Malor! O Rei Orc estava diretamente ligado à ascensão dos Efreet!
— Ele foi verdadeiro em sua palavra em meus primeiros dois desejos — O Rei continuou — O primeiro desejo que me concedeu foi a construção dessa grandiosa fortaleza! Ele a construiu em um dia sob o túmulo de Ulderek. Meu segundo desejo foi ser imortal, e ele assim o fez! Tente me matar, garoto! Har, har!
— E seu último desejo? — Indaguei.
— Haaarrkk... — Gorgolejou o Rei, furioso — Eu havia desejado gerar Orcs mais férteis e fortes para que pudéssemos dominar esse mundo! Mas esse Djinn me sacaneou, transformando-me nesse limo asqueroso! Ele me humilhou em frente as minhas cortesãs e voou para longe, para as Montanhas do Desejo de Morte* e eu nunca mais o vi!
— Fale-me dessas montanhas... — Minha voz saiu assustada de minha garganta, pois eu estava ciente do que aquilo acarretara.
— A fortaleza desse Djinn estava lá, intacta e deserta desde sua partida... — O Rei Orc me respondeu. — Com sua libertação, tenho certeza que os outros Djinns maus retornarão ao seu mestre e ocuparão novamente aquela fortaleza. Entretanto, tenho certeza que essa ação também acordará os bons Djinns...
Eu concordei com a cabeça um pouco mais calmo; o Rei Orc de fato estava certo – Gabel retornara a esse mundo em resposta à liberdade e à crueldade de Malor. Eu abaixei minha cabeça, tentando assimilar todo aquele montante de informação, e foi naquele momento que o Rei gorgolejou em um tom diferente daquele que outrora gorgolejara.
— Ah... Eu consigo sentir as intenções ruins de vocês... — Ele respondeu em um tom sádico, como se sentisse prazer em concluir o que concluíra. — Não parecem tão diferentes dos que aprisionaram aquele Djinn antes...
O discurso do Rei chamou a atenção de Emulov, que deu um passo à frente, chamando a atenção do Rei para ele.
— Vocês querem essa lâmpada, a qual eu ainda possuo... — Continuou o Rei. — Quem vocês querem prender nessa Lâmpada?
— O mesmo Djinn que te fez assim: Malor. — Emulov respondeu sério e com um olhar diferente do que antes exibia. — Dê-nos a Lâmpada e você terá sua vingança contra ele.
O Rei gorgolejou em um tom aberto, como se estivesse rindo. Ainda que o som fosse diferente, soava ameaçador e sinistro como antes.
— Eu estava louco por esse dia! — Comemorou o Rei Orc — Pegue a Lâmpada e faça Malor sentir a minha ira!
Dito isso, ele estendeu parte de sua gosma até nós, revelando uma linda lâmpada ornada com várias esmeraldas e outras gemas de cor esverdeada. Ele recuou a massa verde e deixou a lâmpada cair em nossas mãos. Solária assinalou para que nós entregássemos a Lâmpada para ela e olhássemos o conteúdo dos baús próximos ao trono do Rei Orc. Assentimos com um movimento de cabeça e fomos até ela.
— Quando estiverem prontos, podem sair por onde vieram. — Gorgolejou o Rei — Avisarei às minhas crianças que nenhum mal deverá ser feito contra vocês...Por ora. Boa sorte, peles-pálidas...
Eu e Emulov terminamos de pegar as posses dentro do baú — um machado de fogo e uma espada de fogo — e voltamos para nossos lugares, despedindo-nos do Rei. Como combinado, o Rei nos deu salvo-conduto pela Fortaleza, e saímos dela muito mais rápido do que quando entramos. Eu ainda estava em choque com o fato de que Malor conseguia ser essa entidade ainda pior do que eu imaginara! O que me deixava ainda pior era saber que Wind o servia! A troco de quê?
Eu não conseguia conceber o fato de alguém arriscar a vida pela causa dos Efreet... E menos ainda entender o porquê dessa mesma pessoa se oferecer para me ajudar a prendê-lo! Só sabia que estava cansado de lidar com aquela confusão toda... Eu queria apenas descansar e me preparar para voltar a Ankrahmun e resolver essa questão de uma vez por todas...
Continua...
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(*): Montanhas do Desejo de Morte (Deathwish Mountains) é referência a Kha’ zeel, onde ficam as fortalezas dos Djinns, em especial Mal’ Ouqah, a fortaleza dos Green Djinns e Efreets.
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E é isso aí, pessoal! Essa parte do Segundo Pergaminho está quase no fim! Em breve trago mais um Capítulo! Não se esqueçam de comentar e divulgar por favor! Até o próximo!
Opa, Iri tá de volta.
Ótimo capítulo! Gostei da luta naquela parte próxima da sala do torno do Orc King. Tava pensando justamente nessa parte, sobre como eles iam passar pelo dragon lord, sendo que ele vê invisibilidade. E o clima da luta ficou muito bom, deu uma puta duma sensação de realismo, com o calor no local por causa do DL, o poder do fogo dele e tal. Muito legal isso!
E essa conversa com o Orc King ficou boa. Me lembra do porque a Cip não fez ainda um novo update sobre os djinns, relacionado a esse assunto do Malor e o objetivo de criar uma era de djinns. Ficaria muito bom e daria uma ressuscitada em Ankrahmun, que as vezes anda parada.
Bom trabalho, continue assim.
Champz
Essa luta em Orc Fortress contra o dragon Lord ficou legal
Vc detalhou em relação ao que o protagonista estava sentido os efeitos do calor
Isso ai detalha mais os combates que eles ficam mais emocionantes mais densos
Saudações, galere!
Passando aqui para deixar o 25o Capítulo do Segundo Pergaminho. Antes, vou deixar aqui minhas respostas aos Comentários do Capítulo anterior:
Spoiler: Respostas aos Comentários
Sem mais delongas, o Capítulo de hoje!
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Capítulo 25 – Dois Oásis no Deserto: Por Ashta' Daramai! (Final)
O Começo ou o Fim de uma Era...
(Narrado por Yami, o Primeiro)
Salvo-conduto, né, seu traidor... Malor vai ficar sabendo disso. A incursão de Keras e seus amigos, ao que parece, deu certo; pude ver isso em primeira mão pelas sombras da Rocha de Ulderek. Mal sabe o Rei Orc que Malor fez muito mais do que meramente erguer paliçadas e torres de pedra para sua raça desprezível movida por nada além da raiva que vocês chamam de “fúria de Blorg”*. Argh, Orcs.
Vi sair da entrada da Fortaleza Orc cerca de dezessete pessoas contando com Ireas. Pelo que vi, mesmo com salvo conduto, ao menos metade apresentava algum tipo de ferimento grave ou que estava mal-cicatrizado. E Ireas, a julgar pelo porte, estava até bem. Perfeito. Ele precisa continuar de pé por mais um tempo, só para eu ver a tristeza tomar conta de seu rosto quando eu fizer o que tiver que ser feito.
Mas, antes de mais nada... Preciso lidar com aquela trupe vinda de Vandura. Eles não poderão me impedir se eu os impedir primeiro...
***
(Narrado por Rei Jack Spider)
— Acelera aí, Sírio! A gente tem que chegar a Ab’ Dendriel o mais rápido possível!
Eu tinha que estar errado, por tudo que era mais sagrado. Tínhamos que estar errados. Yami não podia ter feito o que fez. Ireas deveria ter se livrado dele quando teve chance; ele jamais deveria ter ganhado um lugar entre nós. Fomos muito tolos de achar que eles não nos faria nenhum mal.
Estávamos ainda na metade do caminho; de Ankrahmun a Ab’ Dendriel, teríamos de navegar mais alguns dias e não sabíamos se Ireas já havia se encaminhado até a Fortaleza Orc. Sírio e Morzan estavam encarregados de fazer o navio mover-se a todo vapor — eram os mais experientes no assunto e isso se refletia na velocidade em que conseguiam alterar o curso do veículo e o número de velas içadas.
Os céus estavam escuros e a chuva começou a cair em fios finos e constantes; eu sentia o vento gelado açoitar meu corpo e adormecer minhas mãos. Tirei minha mochila de minhas costas e ajoelhei-me sobre o assoalho do convés. Com cuidado, procurei dentro da mochila por meu Broche Ornamentado; estranhamente, estava com dificuldades em achá-lo, mesmo sabendo que ele estava ali.
“Não precisa desses artifícios para me achar, criança...”
Era aquela voz de novo! Olhei para os lados, mas não encontrei sua fonte. Parecia vir de todas as direções e de nenhuma delas ao mesmo tempo. Estranhamente, o que ele me disse parecia fazer sentido... Afinal, essa voz já falara comigo antes e até se materializara na minha frente. E se eu tentasse algo diferente?
— Você tem razão! — Falei, olhando para cima e deixando a chuva respingar em meu rosto — Vou tentar de outra forma, pois preciso de sua ajuda!
Fechei meus olhos, entrelacei minhas mãos e respirei fundo. Desde que me entendo por gente, fui ensinado que um Paladino é movido pela sua fé mais do que por sua mira; fazia um bom tempo que eu não honrava os Deuses. Fazia tempo que eu simplesmente não parava pra rezar. Talvez todos esses acontecimentos e o estranho fato de eu poder ouvir a voz do vento abriram meus olhos para algo que eu já não via mais, apesar de trilhar os caminhos da luz.
Comecei a rezar baixinho ao deus do Vento. Àquele que veio a mim em forma de aranha. Era uma reza antiga, algo de nossa língua misturada à lingua dos anjos – foi como eu aprendi. Senti algo mudar dentro de mim. Era como se eu me tornasse mais leve que tudo e o meu ambiente, mais e mais distante de mim. Eu já não sentia mais a chuva e nem sequer ouvia o som das águas ou dos trovões. E era como se, além desse deus, houvesse mais alguém ali. Era como se Ireas também estivesse presente, mesmo que não fosse de forma física. Continuei de olhos fechados.
— Isso mesmo, criança. — A voz retornou e parecia estar à minha frente. — Sem intermediários; o contato tem que vir da alma, precisa ser sincero...
— Eu estava sendo sincero... Eu acho... — Repliquei sem abrir os olhos e sem desfazer a postura de reza — Eu não sei porque tenho essa habilidade... Acho que é uma bênção, mas não sei ainda... Eu só peço que, nesse momento, faça-nos navegar mais rápido para que a visão de Mortalheiro não se realize! Ajude-nos a ajudar nosso amigo!
— Ajudar a outra criança também... — A voz voltou e soava satisfeita. — Eu ajudarei... Não se preocupe, eu sei que você estava sendo sincero das outras vezes... Sei que sua índole é boa assim como suas intenções. No tempo certo, explicarei tudo... Agora, devo cumprir a minha parte para que você cumpra a sua...
Assim que a voz parou de soar, eu abri meus olhos; tudo ao meu redor estava cinza e enevoado. A névoa era tão densa que eu era incapaz de reconhecer o local — torcia para estar em meu navio. Foi então que vi o que pareciam ser flocos de neve brilhando em um tom azul bem claro. Não era neve – era mana! E eu reconhecia aquele padrão: eu estava certo, Ireas estava perto e estava bem! Certamente o vento entregara minha mensagem e essa foi a forma dele retribuir!
Aos poucos o cinza deu lugar ao marrom, preto e verde-escuro; logo tornei a ver o céu, que ainda estava nublado, mas sem chuva. Eu vi uma pessoa se aproximar de mim, e somente quando estava a uma passada de distância que eu o reconheci: era Brand, e ele estava visivelmente preocupado.
— Jack... Acho que você tinha razão. — Sua voz soava fúnebre e frustrada. — Não deveríamos ter passado em Ankrahmun primeiro.
— Por quê? — Indaguei, já ficando preocupado com o que viria a seguir.
— Lembra que eu havia dito que Venore não nos aceitaria se estivesse sob ameaça de bloqueio?— Ele replicou. — É bem provável que eu esteja certo... Olhe.
Para minha infelicidade, Brand estava certo; de onde estávamos, o cais de Venore já era visível assim como o brilho do uniforme da Guarda Thaiana. Um deles estava à frente dos principais nomes de Venore e parecia estar lendo algo para eles. Isso era péssimo...
***
(Narrado por Yami, o Primeiro)
Eu tinha razão — aquela galera de Vandura não desistiria tão fácil de vir atrás de Ireas. Que bom que fui mais esperto. E que bom que as autoridades de Venore são tão torpes. Torpes ao ponto de não saberem diferenciar quem pertence ou não à Guarda Thaiana de fato.
— Bem, essas são as ordens do Rei. — Falei em um tom austero, com um falso pergaminho em mãos — Se vocês vierem a acolher qualquer um vindo da Baía da Liberdade, vocês terão seus suprimentos alimentícios cortados, bem como serão proibidos de continuar sustentando suas casas de apostas.
— Isso é um ultraje! — Hugo e Irmana reclamaram em uníssono, com as caras avermelhadas — O Rei não pode fazer isso!
— Ele pode... E ele vai. — Repliquei em tom de deboche, enrolando o pergaminho lentamente — Quer vocês gostem ou não, ainda são súditos de sua majestade Tibianus III. E, se isso não os agrada... Bem... Pode-se dizer que seus privilégios logo serão nada mais que doces lembranças...
Os comerciantes se entreolharam preocupados e tristes – ao que parecia, aquela trupe de palhaços bem-vestidos engolira meu blefe. Perfeito. Era disso que eu precisava. Olhei para trás, por cima de meus ombros e percebi que havia uma embarcação à deriva e, a julgar por seu direcionamento, certamente não saberia se embarcaria ou não.
Eu sorri um sorriso sinistro, disse mais alguma coisa irrelevante para “tranquilizar” àquela gente gananciosa e de alma podre antes de dar-lhes as costas e sair de cena. Meu trabalho estava feito – só precisava que aquele certo grupo de palermas se mantivesse longe. Se ao menos eu tivesse optado por manter meu sósia vivo... Acho que as coisas estariam mais fáceis.
Não... Membros fracos não se mantêm – eles se cortam; Malor me ensinou isso para nunca mais esquecer. Se quer um serviço bem-feito, faça você mesmo.
Assim que sumi das vistas dos guardas de Venore, estalei meus dedos e usei minha mana para retornar à minha forma comum – e fiz sumir os guardas que comigo estavam, que nada mais eram que convocações dispensáveis, Djinns verdes em corpo e sem alma. Agora, precisava voar até Ireas a fim de impedi-lo também...
***
(Narrado por Jovem Brand, o Terceiro)
Eu odeio quando estou certo. Bem, nem sempre, mas, hoje, eu odeio ter acertado o que acertei.
Assim que conseguimos avistar o porto de Venore, nos deparamos com uma ingrata surpresa: o porto estava fechado para nós. Assim que viram a bandeira da resistência Vandurana hasteada no mastro de nosso navio, iniciou-se uma agitação nas edificações mais altas na proximidade da doca. Não demorou muito para vermos arqueiros apontando Flechas Incendiárias para nós.
— Merda! — Resmunguei — Sírio, tire-nos daqui! Leve-nos para Carlin!
No momento em que pronunciei o nome dessa cidade, os arqueiros dispararam suas flechas do alto das torres, acertando o casco e o convés do navio; duas delas pegaram em minha coxa justo quando estava começando a me movimentar, e não consegui evitar minha queda no chão.
— Brand! — Ouvi Jack gritar da outra ponta do convés.
— Fica aí! — Rugi, tentando me levantar — Só ice as velas e ajude o Morzan e o Sírio a tirar-nos daqui... Eu derrubo esses filhos da mãe.
Eu levantei com raiva; as flechas ainda estavam em minha coxa, e lá ficariam por mais um tempo. Retesei meu Arco Micológico e as minhas Flechas Cristalinas e disparei contra cada arqueiro que estava nos atacando. Minha intenção, contudo, não era matá-los: simplesmente queria desarmá-los, ferindo suas mãos ou ombros, impedindo-os de continuar a disparar. A dor era insuportável, e fui forçado a parar com os disparos; levei minha mão às flechas e tentei removê-las vagarosamente enquanto via a costa de Venore cada vez mais distante.
Estranhamente, o barco estava se movendo muito mais rápido que de costume; era como se estivéssemos flutuando, como se não houvesse resistência nenhuma dos mares à nossa navegação; eu deixei meu corpo cair na madeira surrada do convés, jogando para longe as flechas chamuscadas.
— Exura... San... — Sussurrei, exaurido.
Eu só sei que senti o barco se mover ainda mais rápido e, depois disso, mais nada. Eu não conseguia entender, contudo, como aquelas duas flechas haviam feito aquilo comigo. Eram só Flechas Flamejantes! Não... Havia algo mais nela.
Tentaram me envenenar.
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(Narrado por Ireas Keras)
Chegamos a Ab’ Dendriel sem grandes dificuldades, depois de um bom tempo de caminhada. Auxiliei os mais feridos como pude, valendo-me de todos os meus conhecimentos para deixá-los novos em folha. A incursão fora um sucesso, e havíamos chegado assim que o sol se pôs. Emulov havia ficado em um estado pior do que imaginei, visto que a fuligem prejudicara ainda mais sua frágil respiração. Solária encarregou-se de cuidar dele, enquanto que a mim restava outro assunto — lidar com Wind.
O Yalahari estava mais quieto que de costume; ele estava sentado perto de uma das árvores maiores da cidade, fora da residência de Solária. Respirei fundo; não havia dúvidas em minha mente quanto ao que havia de ser feito. Aproximei-me devagar, esperando a oportunidade para falar com ele.
— Eu acho que já deveria ter esperado aquela sua reação lá na Fortaleza. — Wind falou em um tom fechado e triste. — Você já não é mais o mesmo sujeito que conheci em Ankrahmun, naquele dia.
Eu concordei com a cabeça, sério.
— Eu tenho essa mania... Eu protejo demais as pessoas de que gosto, e, na realidade, você nunca precisou de proteção alguma. — Ele passou a mão em volta do pescoço — Que nem naquele dia. A sua força foi tamanha que se o Brand não tivesse intervido, você teria me matado.
Eu continuei calado. Ele tinha razão; naquele dia, se Brand não tivesse atirado para me tranquilizar, eu certamente teria congelado o Yalahari de fora para dentro, ou o teria estraçalhado com aquele machado de gelo.
— Você é um Norsir; está em seu sangue lutar. Eu fui um tolo em enxergar em você uma pessoa que você não é. — Ele levantou sua cabeça, fixando seu olhar em mim — Eu sinto muito.
— Isso é passado. — Respondi, sério, e talvez não acreditando no que eu estivesse dizendo — As nossas diferenças... Os problemas que tivemos... Já estão no passado. Eu já te perdoei, e você já me perdoou.
Ele concordou com a cabeça com o mesmo semblante de antes. Havia algo de errado; seu olhar exibia algo diferente – não parecia ser o Wind de sempre. A cor deles parecia mudada, e não havia mais brilho neles. O que estaria acontecendo?
— Eu vou ser breve, Wind. — Falei, mantendo a voz firme e atento às reações do Yalahari — Eu não posso continuar fazendo isso com você. Não é certo. Não é justo que você sofra dessa forma por minha causa...
Eu me ajoelhei, ficando mais próximo dele; seu semblante, apesar de triste, me parecia... Conformado. Era como se ele já soubesse o que viria a seguir.
— Acho melhor voltarmos ao que éramos antes: amigos. — Disse a ele, decidido e apoiado em um de meus joelhos.
— Então... Você não precisa mais de mim? — Ele indagou com a voz triste e o olhar distante, petrificado.
— Preciso da sua amizade, da sua força. — Respondi da forma mais compreensiva que pude. — Preciso que viremos essa página e possamos seguir com as nossas vidas. Essa parte do nosso caminho, a amorosa... Pode seguir em outra direção. Continuo gostando muito de você, Andarilho do Vento, mas acho que é melhor eu te libertar desse fardo antes que isso venha a te consumir e a nos custar muito caro.
Assim que terminei de falar o que falei, percebi uma mudança no semblante de Wind; era como se a vida tivesse voltado ao seu ser. Seus olhos apresentavam o brilho de antes, e seu semblante, ainda que triste, parecia ter um lampejo de esperança. Eu, contudo, sentia algo diferente; eu não estava aliviado. Era como se algo ainda estivesse guardado dentro de mim, me deixando inquieto – e eu não conseguia entender o que era.
— Eu... — O Yalahari balbuciou, olhando para o chão, sem norte — Eu não esperava que fosse acabar assim, heh.
Ele se levantou e olhou para o céu estrelado, triste.
— Esperava até o fim dessa pequena saga tortuosa que você e eu pudéssemos reatar de vez... Bem... Você tem suas razões. Espero que entenda que, para mim, nunca foi um fardo...
Dito isso ele, começou a se afastar com o semblante brincalhão de antes, sua face tradicional.
— ...Foi a mais feliz das minhas experiências. Foi uma bênção.
Antes que eu pudesse responder alguma coisa a mais, ele me deu as costas e se embrenhou em meio à vegetação de Ab’ Dendriel, sumindo como se nunca houvesse feito parte de tudo aquilo. Eu soltei um largo suspiro, girei em meus calcanhares e fui caminhando sem rumo e ainda com a sensação ruim em meu âmago.
Não demorou muito para que eu saísse de Ab’ Dendriel; e foi quando o vento soprou mais forte em meu rosto, em direção ao oeste. Eu virei meu rosto e foi quando eu o vi.
Yami, o Primeiro, com um sorriso sinistro no rosto. E me aplaudindo de forma debochada, lentamente.
— Bravo, Keras, bravo... — O Efreet comentou em tom de deboche e escárnio — Você chegou longe. Muito longe. Olha, eu estou um pouco cansado e não estou muito afim de enrolação, então, se puder me fazer um favor... — Ele estendeu uma das mãos em minha direção, com o triunfo estampado em sua face — ... Passe para cá a Lâmpada.
Eu segurei meu Cajado da Tempestade de Granizo com mais força e me concentrei, querendo reproduzir aquele mesmo machado que levantei contra Wind. Aquela sensação ruim estava tomando conta de mim, e era como se eu estivesse prestes a explodir – e aí então comecei a entender o que era tudo aquilo.
— Não. Venha pegar! — Vociferei a Yami, olhando para ele como um animal feroz.
— Como queira. — Replicou Yami, zombeteiro.
Eu vi uma fumaça verde começar a cercá-lo, modificando parte de seus traços — ele estava assumindo sua verdadeira forma. Eu olhei para meu cajado e o vi modificado em um machado de duas lâminas, o que seria perfeito para revidar.
O que aconteceu a seguir... Bem...
Eu confesso que tive dificuldades em lembrar.
Continua...
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(*) Fúria de Blorg: Os Orcs são tidos como criação de Blorg, um dos primeiros deuses de Tibia. Eles foram criados com o propósito de ser a raça dominante do continente de Tibia, sobrepujando, assim, seus eternos inimigos, os Elfos.
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E é isso aí, povo! É treta pra todo mundo!
Deixo vocês com esse capítulo! Por favor, me deem seu feedback! Comentem, divulgem e votem na enquete acima... Eu já não lembro mais o limite de votos que eu estipulei, mas não deixem de registrar a sua opinião!
Abração e até o próximo Capítulo!
Ótimo capítulo. Yami tá sendo um grandioso filho da puta ultimamente, e não acho que ele perca essa luta com o Ireas. Ah, sobre o carinha, ele deixou o Wind na friendzone... Confesso que nunca tinha visto isso antes. Inclusive falei pra ti lá no FB
Espero que os caras consigam chegar a Ab, tá pertinho. Só não sei o porque da ideia genial de ir pra Carlin se eles estão indo atrás do Ireas...
E não posso deixar de dizer que com tudo isso, a história está tomando um rumo fenomenal, ainda mais com a sua excelente escrita. Vendo ela, penso que ainda preciso melhorar minha escrita, já que a narrativa aparentemente está boa. Continue assim Iri, tá ficando melhor a cada capítulo!
Está proibido esse tipo de final Ok? Deixar apreensivo assim é sacanagem. :(
(brinks)
Excelente como sempre, na verdade, só você mesmo pra me fazer usar o fórum Hehehe.
Aliás, o Brand não está executando a justiça divina de forma impiedosa, vou dar umas aulas pra ele de como usar um arco MWAHAHAH.
Saudações, galera!
Bem, estou passando aqui para agradecer a todos os comentários que recebi e que ainda recebo aqui nessa história. Eu fico feliz que ainda tenham boas almas que tiram um tempinho de suas agendas para ler e comentar em minha história -- e em tantas outras aqui da Seção Roleplay. Devemos a vocês, leitores, a continuação de nossas histórias! Vocês são o nosso combustível! Continuem por aqui :y:
De toda forma, já deixo anunciado que não só essa história está caminhando para o fim, como tamém já tenho alguns projetos novos para a Seção em mente. Em breve, quando o fim de A Voz do Vento estiver próximo, deixarei tudo mais às claras.
Para quem está olhando o tópico por agora, vai notar que eu marquei alguns usuários -- tratam-se de usuários que já deram as caras por aqui, ou que já fiz um convite à leitura dessa História. Não há marcação de todos aqui, mas, em breve, conforme relembro e faço o levantamento, todos estarão devidamente marcados.
Agora, antes de postar o Capítulo novo, vamos ao feedback. O próximo Capítulo deverá sair em alguns dias. Como a faculdade retornou e está bem no comecinho, vou aproveitar para adiantar o que der da história para não ter mais atrasos =)
Spoiler: Respostas aos Comentários
Sem mais delongas, o Capítulo de hoje!
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Capítulo 26 – Sombras ao Vento
Certas coisas não se guardam para si sem haver consequências.
(Narrado por Rei Jack Spider)
Estranhamente, fomos aceitos por Carlin aquele dia; na verdade, não foi tão estranho assim, visto que, tão logo quanto avistaram nossa embarcação detonada e o Brand desmaiado, com a pele cheia de bolhas e queimaduras muito graves, deixaram-nos entrar na cidade sem problemas. Bem, em termos — Liive, por ser Norsir, teve sua parcela de problemas, os quais o forçaram a encontrar a xerife local. A fim de evitar mais confusão, Icel foi com Liive para manter o temperamento dele dentro dos padrões.
Morzan e Sírio logo se prontificaram a escoltar Brand, acompanhando as oficiais da cidade em sua rota até a druida local, que certamente poderia dar conta do recado. No fim das contas, eu sobrei, ficando sozinho no cais de Carlin, com meus pensamentos.
Eu ainda estava aflito, especialmente com todas as artimanhas de Yami; com Brand ferido, novamente estávamos distantes de Ireas, sem poder ajudá-lo. E, principalmente, sem poder contar para ele sobre o que vinha acontecendo comigo nesses últimos tempos. Sobre o vento e sua voz que pareciam estar nos guiando constantemente e que, de alguma forma, nos mantinha ligados, mesmo que estivéssemos a continentes de distância.
Foi aí que senti algo estranho; o vento, que antes estava parado, soprando muito levemente em direção à terra firme, moveu-se com mais força contra meu rosto. Além disso, senti-o mais frio que de costume para aquela época do ano em Carlin; momentos depois, vi uma quantidade considerável de flocos de neve vir em minha direção, açoitando meu rosto e minhas mãos com ferocidade e, junto com eles, um som.
Um grito. Um grito de dor. Um grito estarrecedor de dor e horror.
Meu coração parou; os flocos ficaram no chão, criando uma trilha de brilho azulado. Eu a segui. Estava com um péssimo pressentimento quanto a tudo aquilo...
— Utani Gran Hur! — Conjurei em voz alta para quem quisesse ouvir.
Saí correndo na noite que nem um louco, contando com nada mais que minha mana e meu vigor para conseguir alcançar o fim da trilha gélida. Na medida em que seguia para o leste, pela velha estrada de terra surrada do Grande Continente, percebi uma série de detalhes alarmantes.
Plantas congeladas; traços de sangue em alguns arbustos; o vento cada vez mais forte. Mais gritos. E, dessa vez, o som de um trovão.
Eu não conseguia reconhecer a voz, mas talvez estivesse recebendo pistas o suficiente para conhecer ao menos um dos envolvidos na briga. Respirei fundo.
— Utani Gran Hur! — Conjurei com fôlego renovado, seguindo em frente.
Assim que dei cerca de sete passos para frente, uma lufada de vento frio com uma camada de granizo veio em minha direção e o susto me fez perder o equilíbrio e cair no chão. Abri meus olhos e tentei retomar meu equilíbrio apenas para ver uma cortina de neve e vento revolta a vinte, vinte e cinco metros de distância de mim. Parecia um furacão.
Aquela cortina era densa o bastante para não envolver mais nada em sua fúria, mas fina o bastante para que eu pudesse distinguir duas formas, as quais estavam em um combate inimaginável. E eu sabia a quem pertenciam aquelas silhuetas.
E eu sabia, também, que algo precisava ser feito.
****
(Narrado por Ireas Keras)
Aquele Djinn miserável. Agora ele haveria de pagar; o servo mais pérfido de minha mãe estaria prestes a provar de seu veneno. Tão logo quanto ele assumiu sua forma de Efreet, com a pele mudando de morena para verde-esmeralda, os olhos se alterando em um tom sinistro de vermelho e suas pernas se convertendo em fumaça e fuligem, parti para o ataque.
Eu não queria nem saber; seu primeiro movimento foi atirar uma bola de fogo contra mim, e respondi com um movimento rápido de meu machado-cajado; por muito pouco, não o acertei.
— Só isso?! — Zombou Yami ao desviar de minha primeira investida — Vai precisar de mais se quiser me derrubar!
Em resposta, me virei o mais rápido que pude.
— Exori Gran Frigo! — Urrei, conjurando uma estaca de gelo, a qual direcionei a Yami.
Meu segundo ataque o acertou, resvalando em seu ombro. O Efreet urrou de raiva, segurou a estava e quebrou-a ao meio. Em seguida, conjurou uma bola negra, a qual arremessou contra mim com muita força.
Aquela magia negra fez a área atingida — meu tronco — começar a apodrecer de forma rápida e muito dolorosa.
— Exura Gran! — Conjurei, visando aliviar minha dor.
Minha magia de cura conseguiu retardar os efeitos da magia, e revidei com ataques de gelo oriundos de meu cajado e mais golpes de machado. A cada duas bolas de fogo mandadas por Yami, precisei me curar. E isso estava me enfurecendo.
— Vamos, Keras! Me desafie! — Rugia o Efreet com um sorriso sinistro no rosto. — Eu não saí de Kha’zeel para lutar contra um adversário insignificante! Seja melhor que isso!
Ele estava zombando me mim a cada movimento – eu era apenas uma piada para ele, um adversário que representava perigo nenhum. Eu já estava cansado disso. Aos poucos, comecei a diminuir a distância que nos separava; a cada estaca de gelo arremessada em sua direção, eu avançava mais um passo. Estava começando a quebrar sua confiança aos poucos.
— Já chega! — Vociferou o Efreet com o semblante feroz. — Cansei dessa brincadeira!
Yami começou a ficar sério; ele deixou de contar apenas com suas magias para desembainhar sua espada – uma cimitarra de lâmina comprida, resistente e que brilhava em um sinistro tom de vermelho – e decidiu vir para cima de mim, corpo-a-corpo.
Seu primeiro golpe veio rápido, forte e quase certeiro — precisei fazer um esforço maior que o imaginado para conseguir desviar a lâmina de seu percurso; ela quase abrira uma ferida de um lado a outro do meu tronco. O desvio que executei abriu a guarda de Yami: perfeito.
— Exori Gran Frigo! — Conjurei, determinado.
Arremessei a estaca de gelo assim que a conjurei, e Yami recuou, louco de dor; eu havia perfurado perto de suas costelas, e por muito pouco não perfurei seu pulmão. Continuei a investir em minha ofensiva; estava cansado daquilo. De fugir. De me esconder. Das sombras. Da incerteza. Do medo.
Era uma dança tenebrosa aquela que eu e o Efreet dançávamos; aos poucos, ele começou a perder controle de sua forma mais poderosa e seus ataques mágicos pareciam mais fracos que antes, mas continuavam devastadores para a minha constituição. Mas eu não me daria por vencido; não mesmo.
Minha frustração estava alimentando meus golpes. Cada investida era só um lembrete de toda a raiva que eu vinha passando nesses últimos meses. Senti que estava me movendo de forma mais rápida e agressiva que o normal – o vento estava me dando forças.
De repente, quando eu estava para desarmar Yami, ele cuspiu uma baforada de fogo extremamente forte, forçando-me a voltar à defensiva. Se esse Djinn tivesse feito isso comigo e Emulov enquanto estávamos em Drefia, o trauma teria sido grande. Tenho certeza. Mas esse Ireas não representa mais o que sou hoje. Estava na hora de honrar meu juramento feito a Sven, a meses atrás, quando sequer teria chances de ingressar no mundo dos Norsir. Precisava assumir para mim essa fúria que já estava a muito guardada — e que precisava ser gasta.
— Continue recuando! Continue se protegendo! — Yami fincou a espada no solo e estalou os dedos — Continue sendo o ser insignificante que você é diante de um Djinn!
Eu estava furioso, e o vento também. De alguma forma, estava fazendo o vento soprar mais frio e mais forte. Estava com tanta raiva que conjurei sem perceber meu conjúrio, e acertei Yami com violência. Estava na hora de calar aquele sujeito. Ele tinha que provar de seu próprio sangue ali mesmo.
O vento começou a se misturar com a neve e o gelo resultante da batalha, criando uma cortina de contenção. Yami não teria para onde correr senão em direção à avalanche que viria a seguir.
— Exevo Gran Frigo Hur!
O vento rodopiou mais rápido, frio e violento; toda a fúria que eu sentia fora transferida para minha mana, e a resposta veio em uma área maior que pude imaginar, com gelo, vento e neve açoitando o corpo de Yami com violência, atingindo tudo o que estava ao meu redor. E eu estava no olho desse furacão, atônito.
— Utamo Vita! — Ouvi uma voz familiar gritar através da cortina gelada.
O vento assentou tão rápido quanto se enfureceu; aos meus pés, estava Yami, ferido e agonizando, com queimaduras graves causadas pelo granizo em contato com sua pele, e com perfurações e cortes oriundos das estacas de gelo que usei a meu favor. Eu não tive a oportunidade de terminar o serviço, pois ele estalou os dedos e desapareceu no ar tão rápido quanto me encontrara e mudara de forma.
Eu enfim me virei na direção da outra voz, ainda pasmo com o que consegui fazer àquele traste. Era Jack, e ele estava de joelhos; aparentemente, meu ataque lhe custara mais mana que o previsto. Eu estava estático, pois fazia muito tempo que eu não o via, e acabei por feri-lo acidentalmente.
— Sinto muito que você tenha sido pego no meio de tudo isso... — Comecei, ainda confuso.
—Eu já deveria ter suspeitado... É lógico que a trilha de gelo seria sua. Quem mais teria a mesma habilidade de falar através do vento? — Ele falou com o mesmo sorriso de sempre.
— Então... Não era coisa da minha cabeça mesmo. — Concluí, falando devagar e tentando processar tudo o que acontecera e vinha acontecendo. — Aquela vez do broche... A outra vez também, antes de eu ir à Fortaleza dos Orcs...
— E outras tantas que já aconteceram também. — Jack agora estava de pé, e ainda sorrindo — Não. Não é coisa das nossas cabeças, Ireas. É coisa nossa do Vento e com o Vento. Eu também recebi a sua mana daquele dia, e o Vento me trouxe e você enquanto Yami te perseguia.
— Eu não entendo, Jack. — Meneei a cabeça, ainda mais confuso do que já estava — Eu não entendo o que está acontecendo comigo... Conosco! Afinal, o que somos?
— São os meus escolhidos, Crianças.
Uma terceira voz se manifestou; uma voz extremamente familiar. Eu e Jack olhamos para trás e demos de cara com uma enorme aranha de cor branca, quase transparente. Em questão de segundos, a criatura começou a modificar sua forma, assumindo a aparência de um homem alto, magro e de rosto delicado, com os cabelos loiros muito claros e olhos de cor cinza. Ele trajava um manto longo e que exibia o desenho de nuvens se movendo em um céu nublado, com alguns detalhes ou outros em brocado. Ele entrelaçou os dedos das mãos, colocando-as abaixo de seu peitoral e se aproximou de nós vagarosamente.
— Vocês são as minhas Vozes. — Replicou o senhor, de forma serena — Eu sou Nurnor. Está na hora de eu explicar algumas coisas a vocês...
Continua...
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Bom, aí está a continuação! Algumas coisas vão passar a fazer mais sentido... Ou não. Tirem suas conclusões hehehe!
Deixarei vocês com esse capítulo. Vale lembrar, também, que eu tenho um Life Thread do Ireas, o qual reativei tem pouco tempo. O link dele se encontra em minha assinatura. Deem uma passada lá e confiram o progresso do Ireas em Unitera!
Abraços a todos, e fico no aguardo de seus comentários!
Eita carai! Que luta tensa essa!
Gostei bastante desse capítulo, a luta foi muito bem narrada. Achei bem imersivo essa luta, com os sentimentos do Ireas expressados através de seus golpes, fora a demonstração de seu poder. Só acho que um Efreet já teria rodado com o Mas Frigo, mas já que o Yami é praticamente um boss...
E o final já me deixou ansioso pro próximo capítulo. Fucking Nurnor apareceu diante deles, e parece que vai esclarecer muita coisa do que pode acontecer no futuro da história. Quem sabe Jack e Ireas não sejam parentes ou algo assim?
Aguardando o próximo capítulo, Iri :)
Carajo. Se esse Yami voltar pra causar problemas vou ficar brabo.
Muito bem descrita essa treta, curti. Só espero explicações... Por que você sempre faz questão de terminar desse jeito? :(
Fui summonado aqui pela cara @Iridium (que aparentemente tem o poder de ressuscitar os mortos :P).
Estou curioso sobre esses "novos projetos" que virão por aí, e pode ter certeza de que eu vou (no mínimo) dar uma checada neles.
Agora, quanto à A Voz do Vento, infelizmente não tem condições de eu comentá-la hoje, ou num curto prazo. Eu deixei de ler faz muito tempo, e até recuperar tudo isso... Quer dizer, eu provavelmente teria que ler tudo de novo mesmo, pq esqueci a maioria das coisas huahuaha. Enfim, essa é daquelas que vale a pena ler pra quem tiver tempo e disposição, e recomendo a todos ;). Faz muito tempo que não leio um capítulo, mas imagino que vc só tenha melhorado, Iri.
Só passei pra dizer que ainda lurko por aqui de vez em quando, e te desejo sorte nos novos projetos! ;D
Até mais!
Saudações, caros frequentadores da Seção Roleplay!
Estou aproveitando esses primeiros dias de faculdade para poder adiantar o que der da história antes que eu seja forçada a desacelerar o ritmo de minhas postagens. Novamente, gostaria de agradecer o apoio de todos(as) a essa minha humilde história. Não é fácil continuar criar algo e ter alguma aceitação, e é ainda mais difícil dar continuidade mantendo um padrão legal a cada Capítulo. Como sempre digo, os feedbacks de vocês são a razão de eu continuar escrevendo essa História!
E, como retribuição, vamos às Respostas aos Comentários!
Spoiler: Respostas aos Comentários
Agora, sem maiores delongas... O Capítulo de Hoje!
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Capítulo 27 – As Vozes do Vento
Norte e Sul. Barlavento e Sotavento*.
(Narrado por Ireas Keras)
Como assim, as Vozes do deus dos Ventos?! Eu estava alucinando, era a única explicação possível. Eu e Jack estávamos alucinando; podia ser apenas um sonho, e um daqueles bem loucos. Respirei fundo, tentando me acalmar. Se esse ser que se dizia o deus Nurnor teria respostas, acho que deveria ouvi-las.
— Eu lamento por ter deixado vocês no escuro por tanto tempo. — Falou Nurnor, gentil. — Eu, na verdade, nem sabia se vocês haviam vingado de fato.
— Como assim? — Perguntei, confuso.
— Bem... Vocês devem saber um pouco sobre a gênese do nosso mundo, certo? — Nurnor indagou, começando sua explicação. — Vocês devem saber que cada deus foi responsável por alguma parcela da criação, não?
Concordamos com a cabeça, seguindo o raciocínio de Nurnor.
— Pois bem... Cada deus criou aquilo que seria sua identidade, um ser ou conjunto de seres que seriam seus para reger: e através dos quais os outros seres conscientes os identificariam. — Continuou o deu com seu tom afável. — A maioria de nós buscava a harmonia, mas havia outros entre nós que buscaram o caos, a desarmonia e a separação com suas próprias obras.
— A fúria de Blorg... — Sussurrei, lembrando-me do que o Rei Orc havia dito.
— Entre tantos outros exemplos, Vento do Norte. — Replicou Nurnor, chamando-me por um nome que não me fora dado até então. — Eu havia criado as aranhas para manter unidas as demais criações. Sabem, teias contam muitas histórias; não são apenas ferramentas para alimentação. Teias unem seres, compartilham informações... Elas costuram de volta aquilo que foi rasgado à força, e são flexíveis e fortes o suficiente para quaisquer desafios...
— ...Como o vento em si! — Concluiu Jack. — Você não é apenas o Vento, você é a União! É isso?
— Isso mesmo, Vento do Sul! — Nurnor comentou, ligeiramente surpreso. — Não achei que fosse concluir tão rápido...
— Ué, por que não? —Jack indagou em um misto de ingeniudade e indignação.
— Por que não é de sua índole concluir nada se não tiver provas o suficiente para acusar algo. — Nurnor replicou com um sorriso. — Você, Vento do Sul, é alguém que só aponta a culpa de alguém quando o delito vêm à tona. O Vento do Norte é quem costuma ser juiz e jurado em um só, sem dar tempo do outro mostrar sua defesa.
Cruzei os braços e olhei para baixo, contrariado. Nurnor tinha razão – fui bem rápido em acusar Wind e humilhá-lo publicamente, sem nem ao menos ter tentado verificar aquelas malditas cartas.
— Eu criei vocês, minhas Crianças, por que tenho uma triste verdade em minha frente: estou morrendo.
Essa sentença de Nurnor fez com que os semblantes meu e de Jack fossem tomados pela tristeza rapidamente.
— Orcs, Humanos e outras raças sencientes estão matando minhas criações, ou matando o que eu coloquei de minha essência neles. — A voz afável começou a soar triste e cansada. — Minhas crias estão sendo erradicadas desse mundo, e todas as criaturas estão se separando. O mundo está em desequilíbrio, meus filhos, e eu estou ficando muito fraco. Estou, a cada hora que passa, caminhando para o esquecimento e a morte.
Ele respirou fundo e se aproximou de nós, tocando nossos ombros com suas mãos. Nurnor tinha um par de mãos brancas e muito delicadas, praticamente femininas — e um pouco parecidas com as minhas.
— Eu moldei suas almas com a ajuda de Crunor e Uman. — Ele contou, olhando para nós — Naquele tempo, as cidades humanas já estavam começando a ter conflitos entre si, assim como as rivalidades entre Orcs e Elfos já estavam alterando o Continente de forma drástica, dando cada vez mais espaço para a corrupção trazida por Zathroth e seus seguidores... Eu estava sendo afetado por aqueles conflitos com muita força, e senti meus poderes serem arrancados de mim com muita violência. Muitos dos Feiticeiros que me cultuavam tiveram seus corações comprados por cultos das trevas, e meus templos foram convertidos em ruína.
— Feiticeiros? — Indaguei.
— Sim. Os especializados em energia, em manipular raios. — Replicou Nurnor, olhando para mim — Eles também podiam, em tempos antigos, controlar o vento; eu cedia meus favores e vontades para eles em troca de seus ritos, preces e feitos. Eles duraram muito pouco tempo. Até mesmo os Elfos que me veneraram junto a Crunor começaram a cair quando traçaram o caminho arcano mais destrutivo.
Ele respirou fundo e piscou os olhos lentamente. Era visível seu cansaço; era como se Nurnor estivesse fazendo um esforço tremendo para se manter em forma humana e conversando conosco, o que era de partir o coração de qualquer um. Nunca imaginei que veria um deus em condições de sofrimento intensas.
— Eu moldei as almas de vocês e soltei-as no mundo com o objetivo de trazer a harmonia e união ao mundo. — Falou Nurnor — Eu soltei um de vocês em direção ao Norte, às terras gélidas, e o outro deixei voar para o Sul, e torci para que vocês escolhessem alguma raça para encarnar. Vocês acabaram escolhendo os descendentes de Banor como hospedeiros, e confesso que não poderia ter me tranquilizado mais.
Ele voltou seus olhares para mim, e respirou fundo novamente antes de tornar a falar.
— Vocês não são apenas vozes do Vento; vocês são o Vento. — Ele continuou. — Vocês influenciam regiões e continentes. Trazem consigo Verão, Outono, Inverno e Primavera. Vocês constroem, refrescam e renovam com discrição e com fúria, se assim desejarem.
Ele tirou sua mão esquerda de meu ombro e enconstou o dedo indicador em minha testa.
— Você, Vento do Norte, que sopra ao Barlavento, é Outono e Inverno. Outono em seus melhores momentos, amenizando o calor do verão, retirando as folhas velhas dos filhos de Crunor e tocando as criaturas selvagens para o repouso. Entre os filhos e netos de Banor, você aparta brigas, sufoca discussões e é o primeiro a tentar virar a página. É o vento que sopra com uma mensagem de descanso e cautela.
Ele então moveu seu indicador para meu peito, apontando para meu coração.
— Mas, você também é Inverno; você é um vento frio e agressivo quando provocado; um vento que não perdoa, que enrijece, que adormece as crias dos outros deuses e que açoita sem piedade aqueles que subestimam seu frio. Em seus piores momentos, você é um furacão de rancor imparável, cuja fúria só se aplaca quando o objeto de seu ódio é dado como morto ou desaparecido. É o vento que aplica justiça sem medo de ser considerado injusto, e que tem medo dos próprios sentimentos que o alimentam.
Fiquei pensativo; ouvi de Nurnor um resumo de minha vida até então, e percebi como algumas coisas começaram a ficar mais claras em minha vida, desde minhas ações mais automáticas até todas as situações envolvendo o Vento e tudo o que tinha feito até então. Ainda reflexivo, acompanhei Nurnor com meu olhar enquanto ele se dirigia a Jack.
— Você, Vento do Sul, sopra do Sotavento, e opõe-se a seu irmão. — Começou Nurnor, dirigindo-se a Jack da mesma forma que fizera comigo. — Você é Primavera e Verão, e complementa o Vento do Norte. Em seus melhores momentos, você é Primaveira; você é o otimismo encarnado. Suas palavras trazem alento e renovação àqueles cujos caminhos se perderam, e traz pensamentos posivitos para aqueles que te cercam. Seu sorriso é sua maior arma, e desarma a melancolia dos que sofreram e sofrem com o Inverno.
Diferentemente do que fizera comigo, Nurnor colocou suas mãos sobre a cabeça de Jack, que limitou-se a concordar com a cabeça e vigiar as mãos do deus com seus olhos verde-oliva voltados para cima.
— Em seus momentos de fúria, você é Verão. Você é chama que arde sem se ver, mas que queima sensivelmente aqueles que erraram com você. — Ele continuou, afável. — Você abraça o calor e a velocidade, e elimina seus adversários de forma rápida, e só sossega se os vestígios desses adversários tiverem sido reduzidos a pó e nada mais que isso.
Ele então se afastou de Jack, e o Thaiano olhou para mim; pela primeira vez, era como se eu estivesse olhando não para uma pessoa qualquer ou um amigo, mas sim para um igual. Nem mesmo Liive, com quem eu compartilhava uma ascendência e cultura, me despertava sensação semelhante. Nurnor pigarreou de leve e voltamos nossos olhares para ele. Minha mente fervilhava com muitas questões que eu queria ver respondidas, e talvez Nurnor pudesse me dar mais respostas ainda.
— Então... Você nos moldou, nos deu uma função... Mas não sabia se chegaríamos a sobreviver? — Indaguei timidamente.
— Isso mesmo. — Respondeu o deus, piscando os olhos vagarosamente. — Como eu disse, fui ficando mais fraco com o tempo... E meus campos de atuação dimuíram mais e mais com o passar dos anos e séculos. Eu vinha observando as sociedades humanas havia um tempo, pois me chamou a atenção o fato de terem conseguido se desenvolver tanto diante de tantas ameaças diretas às suas frágeis vidas. Eu já tinha Kaisto, seu pai, Vento do Norte, como um possível candidato a ser uma de minhas Vozes. Por um tempo, eu achava que você era Kaisto. Mas a morte prematura dele provou para mim que eu estava errado... E eu não podia prever que você escolheria aquela que chamam de “Esquecimento Eterno” como mãe...
Ele esfregou as mãos como se estivesse com um pouco de frio. A noite estava em seu ápice; fazia um bom tempo que estávamos ali conversando com o deus.
— ... E reconheço que foi uma escolha conveniente. — A declaração de Nurnor me fez arregalar os olhos em um misto de confusão e fúria. — Seu semblante diz que estou errado, mas não estou completamente errado: aquela mulher é uma Dama do Pavor**muito bem conceituada entre a Irmandade dos Ossos...
— Eu sabia! — Rugi, interrompendo o deus. — Sabia que ela estava por trás dos ataques a Svargrond e Ankrahmun! Aquela... Miserável!
— Acalme-se, criança! — Nurnor elevou um pouco o tom de voz, fazendo-me travar. — Controle sua fúria, Vento do Norte! Esquecimento Eterno tem uma razão de ter esse nome: ela o assumiu pouco antes de se tornar uma Dama do Pavor.
Até Jack, que estava quieto e um pouco pasmo com o montante de informações até então recebidas, voltou a si e ficou atento ao que Nurnor ainda tinha a dizer.
— Sua mãe pertencia ao meu culto. Aos Feiticeiros dedicados ao uso da Energia. Aos Feiticeiros que também tentavam desvendar o Caminho dos Sonhos*** sem estarem vinculados aos Cavaleiros do Pesadelo**** e que eram extremamente próximos dos Druidas. Tão próximos que...
— ... Chegavam a ser confundidos com Druidas e aceitos como eles também! — Concluiu Jack que, até então, estava calado.
Lembrei-me então da história que Eirik me contara em Svargrond, quando havia pisado em terras Norsir pela primeira vez. Quando Ishebad ainda vivia, quando meus dias de aventura além de Rookgaard pareciam incríveis e alegres apesar da incessante busca por minha mãe e por respostas. Arregalei os olhos quando me lembrei da descrição do relacionamento de Kaisto com Esquecimento Eterno, em especial do episódio da morte de meu pai e do dia em que eu nasci – e que fui entregue depois aos cuidados de Cipfried.
— É por isso! — Caí de joelhos, horrorizado com o que eu concluíra — Era por isso que os Norsir a viam como uma igual junto ao meu pai! Era por isso que ela foi bem recebida pelos meus semelhantes!
— E também foi por esse motivo que ela te abandonou em Rookgaard também, Vento do Norte. — Completou Nurnor, triste. — Por que ela havia se desviado do caminho. Por que ela tentou obter mais poder com motivos certos, mas através dos meios mais errados possíveis.
— Que... Meios? — Jack indagou, assustado.
— Eles estão descritos nos Tomos, minhas Vozes. — Nurnor falou, com a voz mais fraca. — Esquecimento Eterno descobriu algo que até mesmo nós, deuses, havíamos nos esquecido... Ela foi atrás disso e o resultado foi o esquecimento completo de sua filosofia, de sua moral, de sua identidade...
— ...E de seu nome. — Concluí, falando lentamente. — Por isso a alcunha de Esquecimento Eterno!
— Exatamente. — Nurnor concordou com a cabeça lentamente. — Eu não sei o conteúdo dos Tomos, minhas Vozes, pois, assim que ela rompeu com meu culto, nossa conexão espiritual se perdeu, e eu não pude ter mais acesso às suas orações, pensamentos e confidências. Ainda assim, eu sei a provável localização desses Tomos, minhas Vozes.
— Um deles está com Brand! — Jack falou, agitado. —Ele disse que o achou em meio aos livros da biblioteca dos Marid!
— É sério?! — Exclamei, sem saber o que sentir.
Jack concordou com a cabeça no mesmo momento em que Nurnor tornou a falar. Voltamos nossos olhares para ele e o percebemos mais frágil do que quando aparecera para nós. Sentimos nossos corações se apertar; nosso deus estava ficando muito exausto.
— Os outros Oito... Eu me lembro onde ela deixou. Ao menos, os locais onde ela os deixou... —Ele falou quase em um sussurro, fazendo muito esforço para pronunciar suas sentenças. — Em Carlin, Thais e Edron... Um em cada cidade. O de Ankrahmun vocês já encontraram... Acredito que um tenha sido deixado em uma das ilhas do arquipélago de Vandura... Na ilha dos mortos... Outro está com um membro da Irmandade dos Ossos... E os dois últimos estão na terra tomada pela corrupção...
— Zao?! — Eu e Jack exclamamos em uníssono.
Notamos uma súbita agitação no vento, soprando contra nossas costas; Aos poucos, a figura de Nurnor começou a se misturar com o vento. Jack deu alguns passos rápidos à frente, anseando por respostas também.
— Antes de eu ir, Jack... Você precisa saber... — Sua voz, estranhamente, soava forte naquele momento. — Seus pais, que imagino ainda estarem vivos... São os únicos Paladinos que me cultuam. Pergunte a eles sobre meus cultos, sobre minha filosofia... Tentem unir as raças desse mundo! Façam-nas ouvir a voz do Vento! Façam-nas ouvir a minha voz... A voz de vocês! Boa sorte... Minhas Crianças...
Dito isso, Nurnor desapareceu em uma neblina branca muito fina, espalhando-se Continente afora. Eu e Jack estávamos atônitos. Éramos irmãos de alma; sempre fomos, e estávamos naquele mundo havia algumas eras, e nunca nos havia ocorrido que os Deuses possuíam algo grande planejado para nós.
Ainda assim, me faltavam respostas para algumas outras perguntas; essas, contudo, eu já sabia quem as poderia responder – Esquecimento Eterno. Ou seja lá qual outro nome ela porventura tivesse em vida.
— Ireas... Ou Vento do Norte, se preferir... Eu, Brand, Liive, Icel, Sírio e Morzan, irmão dele, atracamos em Carlin. — Jack falou em um tom baixo, também sentindo dor de cabeça. — Podemos procurar pelo Tomo pela manhã, assim que Brand se recuperar. Ele está muito ferido.
Meneei a cabeça levemente, concordando com a sugestão de Jack. Mantive minha cabeça baixa, mentalmente exaurido, e dei de cara com um objeto metálico aos meus pés, onde antes havia outra pessoa.
— Ei... Isso não é...?! — Abaixei-me para pegar o objeto, e meus olhos se arregalaram de surpresa ao ver o quê era.
Jack começou a andar em direção a Carlin, e eu o segui, guardando o objeto dentro de minha Mochila de Pêlo. Esfreguei minhas mãos umas contras outras visando esquentá-las. Ficamos em silêncio por um tempo, tentando assimilar tudo o que o deus nos havia falado.
— Ireas, cadê o Wind? — Jack perguntou, puxando assunto.
— Err... Longa história. — Tentei desconversar, cansado. E também porque de fato era uma longa história.
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(Narrado por Yumi Yami)
— Você é um animal, Yami!
Eu não podia acreditar no que havia visto! Se eu não tivesse sido rápida o suficiente, Keras teria matado meu irmão! E tudo isso porque ele ainda estava servindo aquela mulher! Ele estava em trapos, com o corpo completamente aberto em feridas profundas e queimaduras graves; sequer conseguia falar alguma coisa. Maravilha. Tudo o que eu precisava. E justo quando estava a caminho de ver outra pessoa...
— Quando é que você vai se tocar que isso vai acabar te matando?! Você não deve nada àquelazinha! Vai me ouvir alguma vez na vida?! — Lágrimas rolavam de meu rosto. Eu estava furiosa com ele.
— Minha... Lâmpada! — Meu irmão balbuciou em meio à dor.
— Agora não! — Censurei, segurando-o por sua cintura. — Você está vulnerável demais para entrar nela! Pode acabar morrendo!
— Minha... Lâmpada... — Ele continuou balbuciando de pura teima.
— Yami, você ao menos prestou atenção em meu sermão?! — Esbravejei.
E foi aí então que percebi algo; meu irmão estava tentando tirar sua pequena veste de couro, a qual cobria seu torso – e me recordava que era em um dos bolsos secretos onde ficava sua lâmpada.
— Minha... Lâmpada...! Ela... Sumiu...! — Meu irmão berrou em meio à dor, desmaiando logo em seguida.
A mim restou apenas ampará-lo, ajoelhar-me no chão enquanto apertava-o contra meu peito e chorar sofregamente. Sem uma Lâmpada para descansar, um Djinn poderia ser dado como morto em questão de dias.
— Exura Sio: Yami, o Primeiro! — Conjurei em meio ao choro e ao desespero. — Exura Sio: Yami, o Primeiro!
Com aquelas feridas, se eu não as fechasse logo, ele morreria em questão de horas. Se ao menos algum daqueles rapazes gentis estivesse aqui para ajudar... Se ao menos Brand estivesse por perto... Ao menos assim meu irmão teria maiores chances. Com o meu poder, eu teria de rezar a Daraman para que Ele me desse um milagre...
Continua...
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(*) Barlavento e Sotavento: são termos da Náutica que designam, respectivamente, o vento que sopra para as velas do barco (o vento por elas recebido; Barlavento) e o vento oposto a esse movimento (Sotavento).
(**) Dama do Pavor: Tradução livre (e adaptada) do Rank "Dread Lord", da Brotherhood of Bones.
(***) Caminho dos Sonhos: Referência ao Dreamwalking, habilidade fantástica descrita em Tibia; designa a habilidade de caminhar conscientemente através dos sonhos e, em níveis avançados de compreensão, manipulá-los conforme sua vontade. O Dreamwalking é abordado em livros dentro de Tibia e na quest A Dreamer's Challenge.
(****) Cavaleiros do Pesadelo: Tradução livre da facção Nightmare Knights da Dreamer's Challenge Quest; os arquiinimigos da Irmandade dos Ossos tinham o propósito de treinar Cavaleiros de elite, mas desapareceram após seu líder, Falnus, ter sido manipulado pelo deus Goshnar em seus Sonhos. São os responsáveis pelo monastério abandonado em Plains of Havoc e pela Knightwatch Tower, que contem os Dreampaths (ou os Magic Forcefields) que te permitem ir ate outras cidades pelo custo de uma Orichalcum Pearl por vez.
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Ótimo capítulo como sempre, Iri.
Deu uma ótima esclarecida sobre esse mistério da mãe do Ireas, mas ainda deixou um pouco pra ser revelado depois. E, lógico, o porque de Ireas e Jack estarem ligados. Bem legal toda a explicação! Pena que Nurnor está morrendo...
Agora é uma aventura atrás dos tomos, creio eu. Tretas grandes parecem estar vindo ai com essa busca...
E você tá no pique, hein? Faz pouco tempo que saiu o último capítulo, agora já tem outro. Parabéns, parece que sua força de vontade voltou. Só espero que a faculdade não te engula, pois a história tá tomando um rumo bem interessante.
Aguardo o próximo capítulo!