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CAPÍTULO 7 – AUXÍLIO PROVIDENCIAL


— Atenção, senhores — gritou a rainha Heloise, o palanque fixado exatamente em frente ao depósito. — Temos uma missão, e não teremos Jason Walker para ela.

Os cavaleiros trocaram olhares tensos, mas os magos e arqueiros fizeram que sim com a cabeça em perfeita sincronia. Ao lado da rainha estavam ninguém menos do que Hansel e Gretel, dois dos maiores caçadores de bruxas e que tinham sido muito bem apresentados por John e Leonard a todos. Embora o olho esquerdo do homem parecesse um pouco fora de foco, seu trabuco de calibre .12 era suficientemente ameaçador.

— Atacaremos as linhas inimigas de surpresa — continuou a rainha. — Três quartos do grupo é a quantidade de combatentes que seguirá Leonard Saint e John Walker por dentro da campina principal, e o restante acompanhará Rafael, Miguel e Gabriel pelas montanhas de Kazordoon. O mapa encontra-se à disposição para ser consultado pelos líderes dos maiores grupos; Svan, Gretel, Hansel e Rafael permanecerão também disponíveis para explicar qual será o escorço tático a ser adotado. Quaisquer dúvidas remanescentes deverão ser tiradas exatamente comigo. Dispensados.

Heloise desceu do palanque e analisou a balbúrdia que se instaurou, sentindo-se mais ansiosa do que nunca. O plano era inteiro de Jason e, por motivos que escapavam à compreensão de todos, ele encontrava-se fora de combate. Precisariam deduzir o que o dono da Espada de Crunor tinha planejado e, mais do que isso, necessitariam executar com perfeição. Naquele instante, as chances eram menores do que já haviam sido em outrora mas, oportunamente ou não, também eram as únicas.

Hansel aproximou-se da rainha devagar, acompanhado da irmão, que trazia uma maleta prateada fechada. Heloise imediatamente registrou seu olho esquerdo um pouco deslocado.

— Chama-se diabetes — adiantou-se ele, a voz um pouco anasalada e uma gota de suor escorrendo-lhe pela testa. — Fui atacado por uma bruxa quando era criança e, desde então, desenvolvi essa doença. A falta de controle dela poderá me cegar e necrosar algumas partes do meu corpo. É por isso que dependo necessariamente de consumir este medicamento, chamado insulina. Nada de mais, caso a dose seja ministrada religiosamente a cada oito horas.
— Sinto muito — e a rainha sentia mesmo.

Ele sacudiu a cabeça em tom negativo.

— Não sinta. O que não te mata, te fortalece.

Heloise estava prestes a responder a declaração surpreendente quando foi interrompida por Ed Warren.

— Encontramos a casca de Randal — disse, em voz baixa. — Ele trocou de receptáculo. A não ser que submetamos cada um dos cidadãos a uma minuciosa análise, não sabemos onde ele está.
— Não tenho tempo, tampouco disposição, para fazer com que cada um tome um gole de água benta — ela bufou. — Faça o que achar que deve, mas não coloque mais este fardo em minhas mãos.
— Confia para que aja em seu lugar neste caso?

A rainha respirou fundo.

— Confio que saiba o que o aguarda se tentar me driblar.

Ed Warren assentiu uma vez, disparando no sentido do castelo.

*

A bem da verdade, neste momento, estou farto de dançar com Lúcifer.

Ele imita todos os meus movimentos e não tem qualquer pudor em atirar fatos exatamente sob o meu nariz. Inobstante, pela primeira vez em muito tempo, sou capaz de sentir uma terceira presença naquele ambiente desolado.

Não parece ser uma presença ruim. Giro a cabeça para todos os lados, procurando-a, mas nada parece diferente. Lúcifer espelha meus movimentos, divertindo-se. Bufo uma vez, cansado.

— Sente isso? — ele me pergunta, a linguagem corporal igual à minha. — É uma terceira pessoa.
— Já senti — respondo.

Ele respira fundo, isso porque eu também respiro fundo. Ele olha para o céu, porque eu também olhei.

— Tem jeito de ser um ceifeiro — diz ele, especulativo. — Talvez ele tenha vindo buscar sua alma.

Saco a Espada, e ele também saca a sua. Meu coração descompassa, mas por somente meio segundo. Se for um ceifeiro, não me levará sem que me submeta ao bom combate antes disso.

Repentinamente, Lúcifer desaparece. Pela primeira vez, encontro-me sozinho, mas a impressão de que há mais alguém ali não se vai. E, então, ele surgiu.

Negro, cabelos arrumados em cuidadosas tranças até a altura dos ombros, colar de contas pendurado no pescoço, olhos muito escuros curiosos, até um pouco temerosos. Seu peito musculoso encontra-se nu, e ele não se aproxima de mim mais do que o necessário para se fazer ouvir.

Randal.

— O que faz aqui? — pergunto, sem baixar a Espada.

Ele suspira, aparentemente aliviado.

— Não acredito que o encontrei — sua voz é exatamente como me lembro. — Jason Walker. Nunca pensei que sentiria tamanha felicidade ao encontrar um ser humano. Exceto quando estava sem casca porque, em verdade, precisava de um de vocês.

Nada respondo, analisando seus movimentos. Ele parece desarmado e, sinceramente, ninguém é capaz de esconder tanta coisa sob tão pouca roupa. Sua aproximação parece gentil, mas mantenho-me alerta a qualquer movimento.

— Jason, Heloise se prepara para atacar Lúcifer em seu terreno — ele fala muito depressa. — Ela vai executar seu plano independentemente da sua presença, mas este não é o aspecto que mais me preocupa, porque Carlin tem os melhores guerreiros que já vi. No entanto, Heloise recrutou dois demonologistas chamados Edward e Lorraine Warren, que…
— Dois o quê? — baixo a Espada por meio segundo.

Ele respira fundo novamente, objetivando, ao mesmo tempo, ser direto mas não deixar faltar nenhuma informação. Percebo sua urgência.

— Especialistas no trato contra demônios — ele resume, o que me é satisfatório, por ora. — Edward Warren bombeou um feitiço para dentro de mim, achei que Lúcifer estivesse conversando comigo mas, enquanto estive preso, consegui entender o que aconteceu. Neste momento, ele prepara outro feitiço para atrair minha alma e destruí-la. Não temos muito tempo.

Faço que sim uma vez com a cabeça, aceitando parcialmente suas palavras.

— Precisamos que volte, Jason — seu requerimento me pega totalmente de surpresa. — Edward e Lorraine podem implodir a operação, e Lúcifer pode vencer, caso isso aconteça. Carlin necessita do seu retorno imediato.
— Fale-me algo que somente você possa saber — exijo, sem pestanejar.

Ele pisca duas vezes, confuso.

— O que quer dizer?
— Passe pela prova — desafio.

Randal reflete por meio segundo, olhando para o céu. No instante seguinte, volta a fazer contato visual comigo.

— Fui resgatado do purgatório por você, um arcanjo chamado Rafael e um arqueiro chamado Leonard Saint. Na mesma oportunidade, John Walker retornou do inferno. Você foi gravemente ferido por Aleister Crowley, que está morto. Max Holloway aceitou trazer o comboio de volta a Carlin, em vez de realizar um desvio. Neste momento, você luta contra a morte em uma cama de enfermaria.

Penso por um instante, surpreso.

— John Walker e Zathroth firmaram uma aliança, em que este traria àquele um feitiço e uma combinação de ervas para salvá-lo, em troca de paz e das cabeças de Lancaster e Apocalypse. Zathroth cumpriu com sua parte do acordo, mas seu organismo precisa combatê-lo.

Embora aquelas informações sejam novas para mim, um outro aspecto da discussão me chama a atenção. Há poucos minutos, tinha ouvido uma voz chamando pelo meu nome. Surpreendentemente, ela se assemelhava muito com a voz de Randal.

— Chamou-me?
— Mais de uma vez — ele assente enfaticamente. — Podemos voltar?

Embainho a Espada, satisfeito com sua versão.

— Não sei se percebeu, mas não faço a menor ideia de como sair daqui.

Ele remexe nas vestes e tira dali uma esfera prateada minúscula, que brilha como a luz do sol e refulge como prata recém extraída. Não há dúvidas de que se trata de um
soil.

— Não fosse por esse pequeno detalhe, não precisaria de mim aqui.

Faço que sim, esperançoso, mas não deixo de reparar num detalhe interessante.

— Contrabandeou um
soil para fora do purgatório?

Randal torce a cabeça de lado e assovia uma vez, como quem enfatiza o que diz.

— Muito mais do que um, mas estou certo de que, neste momento, não existem restrições às minhas práticas.
— De forma alguma. Tire-me daqui.
— Precisamos ir até o ponto de saída. Prepare-se para lutar.


*

Leonard, Heloise, John, Gretel, Hansel, Arthur, Edward e Lorraine atravessaram a ponte e chegaram ao outro lado, os olhos fixos no exército violento linearmente disposto à frente deles. Foram seis horas de caminhada, mais uma de acampamento e alimentação e, finalmente, três quartos do exército de Carlin preparava-se para o combate.

Crunor não falhara. Mesmo à distância, Hansel e Gretel identificaram as excêntricas figuras de Spectulus e de Latrina, a feiticeira conhecida simplesmente como a “Bruxa Incrivelmente Velha”, embora não tivesse nada de velha. O combate seria peculiar e, pela primeira vez, os irmãos Grimm enfrentariam algo que ia além das bruxas convencionais: enfrentariam um esquadrão de criaturas bem comandadas. Mas havia outra figura notória combatendo do outro lado.

Cain avaliou o campo de batalha desenhado diante de si, mas seus olhos mantinham-se fixos em somente uma figura: Leonard Saint, a reencarnação de Abel, seu irmão e sucessor, a quem fora atribuído o primeiro homicídio da história do homem.

Adiante, as linha de Lúcifer eram organizadas, mas um pouco dispersas. E, embora em número reduzido, os homens do ausente Jason Walker tinham uma estratégia de batalha deveras definida. Era interessante que ele tivesse decidido atacar, ainda mais interessante que o tivesse feito com um contingente pequeno.

Por um instante, Cain lembrou-se da promessa que lhe fora feita por Deus: quem o matasse seria punido sete vezes, o mesmo número de vezes que Cain seria vingado. Ele sorriu, baixando a cabeça por um segundo. A Marca do Senhor pareceu brilhar sobre sua pele, no local onde sabia que ela havia sido inserida. Agora, era uma questão de tempo.

Adiante, John Walker hasteou o brilhante estandarte de Carlin, dividido com o de Thais, carregado por Arthur.

— Eles lutam — disse Lúcifer, achando curioso.
— Todos morrem — respondeu Cain, ainda pensando em Abel.

O outro assentiu uma vez, dando-lhe as costas.

— Confio a missão às suas mãos competentes.

Cain fez que sim, franzindo a testa.

A batalha começaria em breve, e ele iria vencer.

Pela vez derradeira.