Opa Neal, obrigado pelo comentário e pelos elogios.
Não esqueci de Aveyard, como eu tinha dito, tô sem capital pra comprar o livro dela que você me indicou, então terei que usar da internet para ver como ela escreve.
Sinto em dizer que essa parte dos demônios não será tão desenvolvida em Bloodtrip. Eles são bem mais desenvolvidos na minha outra história, O Mundo Perdido, com um personagem que sabe derrotá-los perfeitamente. Aqui, os demônios são nada mais do que anti-heróis observando o que tá rolando e vez ou outra intervindo.
Achei que tinha disfarçado o fato de que essa arma será bem importante pro Dartaulnão vai chegar a ser algo como a faca ancestral ou a Colt de Supernatural, mas vai ter uma utilidade tão grande quanto. Mas a parte do rapaz já acabou por aqui, então terá que esperar pra ver como ela será útil e como ela será usada. E Dartaul talvez ganhe mais do seu respeito futuramente, como apontou. Ele tem potencial grande.
No mais, agradeço pela presença constante e espero que goste deste capítulo!
Fiquei um tempo sem publicar devido a alguns problemas pessoais, mas finalmente darei início ao arco final. Preparem-se e vamos lá!
No capítulo anterior:
Nightcrawler livra-se de sua conexão com Varmuda e abandona o time. Mas antes de ir para Chaur cumprir sua última missão, Dartaul aborda-o para conversar e tentar entender porque ele está agindo daquela maneira. Agora, ele é o único que entende perfeitamente quem é Suzio.
Capítulo 31 – Resmonogatari
Parte 1
Yalahar sempre foi bela. Jamais perdeu sua beleza encantadora e seu poder invejoso.
De lá, apenas os melhores saiam para desbravar o mundo e mostrar seus conhecimentos. Após muito estudo, noites de sono perdidas, certificados e diplomas conseguidos, para um estudioso ou profissional yalahari, é o mesmo que dizer “O mundo é meu”.
Este é o sonho daquele rapaz de quinze anos a frente de um prédio no norte de Yalahar, próximo de uma das universidades da grandiosa cidade. Seu objetivo lá dentro é tornar-se o melhor alquimista que o mundo já viu. E o Centro das Almas de Ferro é o melhor para tal. Supera até mesmo a Academia Noodles de Magia de Edron em seus estudos da alquimia e assuntos relacionados. Um alquimista saído de lá sempre tem mais confiança que os outros e tem uma carreira mais duradoura, pois pensa-se que, não importa o que aquele alquimista está fazendo, ele sabe o que está fazendo.
Ele entra no prédio, passando pelos portões de ferro abertos e belas colunas escuras que sustentam sua entrada; hoje é dia de palestras, então o local estará aberto para o público. Sua entrevista foi marcada para aquele dia, mas ele duvida que o entrevistador esteja em sua sala.
O grandioso interior difere-se das estruturas comuns de Yalahar. Suas paredes são cinzentas e possuem vários parafusos expostos, contrastando com painéis de alumínio de vários tons espalhados pelas paredes, dando um aspecto diferente e incomum para o lugar. Há corredores indo para ambos os lados, e escadarias em forma de arco rumando para o topo. Tanto em cima quanto abaixo delas há portas escuras com guardas.
O rapaz se aproxima deles e, curiosamente, eles o deixam passar. Ao entrar, ele está de frente para um grande auditório, com centenas de cadeiras vermelhas organizadas com escadarias para cada doze cadeiras para chegar até as fileiras. Naquele dia em especifico, há um público realmente grande assistindo outro rapaz discursando com um quadro verde próximo dele. Ele senta-se na última fileira e presta atenção na palestra.
Sente-se maravilhado, com uma sensação incrível arrepiando-o. Um calafrio corre pelo seu corpo, assistindo aquele rapaz discursar com tamanha naturalidade e conhecimento. Tudo isso porque havia escutado há pouco que ele tem apenas 14 anos, mas está abordando sobre os temas mais complexos da alquimia. Um gênio está a sua frente, enquanto o sentimento de superá-lo está consumindo-o por dentro.
Não demorou muito para a palestra terminar, já estava no fim. Ele sai junto dos restantes e ruma até a sala onde deve ocorrer a entrevista, onde encontra mais dois rapazes. Assim como ele, estão em trajes sociais, usando casacos brancos de botões e calças negras de couro, além de sapatos marrons bem encerados. Ele está com uma pasta debaixo do braço direito, aguardando ansiosamente para ser chamado.
“Sua carta deve vir em breve. Até lá, pode considerar-se parte deste colégio.”
É uma das frases mais marcantes que o rapaz já ouviu na sua vida. Ele pensa sobre enquanto está sentado nas escadas que levam até o prédio, no meio de uma tarde ensolarada e bonita. Mas ela não o impressiona, uma vez que ele já viu muitas vezes aquelas tardes lindas de Yalahar.
Alguém senta do seu lado. Está com um pirulito de limão na boca, retirando-o para dizer alguma coisa peculiar.
— Você está tentando entrar na gaiola dos sábios?
Ele olha para o lado e vê o mesmo rapaz da palestra. Ele possui uma pele um pouco morena, além de cabelos que vão até os seus ombros, cujos são negros e sedosos, parecendo ser bem cuidados. Seus olhos são vivos e cheios de energia, com uma coloração estranhamente azul. Está com o uniforme do colégio: Um casaco que vai até sua cintura, de cor branca e com bordas negras e amarelas próximas dos botões que o fecham, e calças e sapatos de cor preta.
— Não sei o que quer dizer...
— Se não sabe o que quero dizer, é melhor não entrar aí!
O rapaz não parece gostar muito do comentário. O outro percebe rapidamente.
— Não que eu não queira rivais, pois não passa de um conselho. Esse colégio não é a maravilha que todos dizem. Alguém como eu não tem a liberdade de ir além do que foi estabelecido para estudarmos.
— Alguém como... Um sábio?
— Talvez. — Disse, rindo um pouco em seguida — Eu não gosto muito desse colégio, mas eu gosto de descobrir as coisas novas que podemos estudar lá. Acredita que nosso mundo como conhecemos surgiu há só três séculos e ainda assim conhecemos tanta coisa? Pra falar a verdade, o conhecimento de Yalahar deve ser algo restrito de Yalahar, então pode ser o conhecimento reunido de milênios de vida dos yalahari.
— O quanto você sabe sobre esse mundo?
— Sei lá! Que pergunta besta. — Disse, novamente rindo — Nunca há como sabermos o suficiente desse mundo com o pouco tempo de vida que cada ser humano tem. Mas seria legal conseguirmos passar por essa barreira e aprendermos o quanto quisermos, né?
— Seria... Nem precisaríamos ser imortais.
— Uns 500 anos pra mim já tá bom.
Ambos riem, descontraídos. A presença daquele jovem gênio realmente o alegra. Era fabuloso falar com alguém num nível superior e que sabe ser humilde ao mesmo tempo.
— Meu nome é Nuito. E o seu? — Disse o rapaz de cabelos longos, sorrindo.
— Ah... Senzo é o meu nome.
— É um nome raro por aqui! Significa que você é legal e diferente.
— Não... Só estranho.
Senzo provavelmente diz isso por ser pálido, magro e esguio, apesar dos seus cabelos negros e rosto comum.
— Ah, qual é! Você não é estranho. Na verdade, você parece ser bem legal. Deve ser famoso com as garotas.
— Está brincando comigo... Você deve ter beijado garotas que eu nem consigo imaginar. Tampouco em pensar nelas notando a minha existência.
— Pior que não. Minha amiga Ember costuma se meter na frente e assustá-las o tempo todo pra ficarem longe de mim. É um saco! Ela diz que é para eu não me distrair e que elas são falsas, só querem ficar perto de mim por eu ser inteligente e importante. Ela vê coisas onde não existe, sinceramente.
— Ela quer te ver bem... Eu acho.
— Eu duvido!
Nuito levanta-se e olha para os lados.
— Senzo, né? Preciso voltar pra casa, então te vejo por aí!
— Tudo bem... — Disse o rapaz, apesar de sua voz não ter saído alto como deveria. Agora, parece que ele nem mesmo foi ouvido.
Senzo levanta-se também. Ele sorri disfarçadamente, sentindo-se feliz por ter conseguido a atenção de alguém importante. Apesar de ter sempre toda a ajuda de seus familiares, ele nunca sentiu que eles eram realmente superiores a ele. Nuito é apenas um ano mais novo do que ele, mas inspira conhecimento para todos.
Em sua cabeça, tudo que resta é que ele deve superá-lo. E irá lutar muito para que isso aconteça.
Foi naquele dia que conheci o demônio.
Senzo voltou para a sua casa naquele dia, e no dia seguinte, recebera a carta. Começa semana que vem. Foi bem na entrevista, orgulhou seus pais. Sua irmã agiu com indiferença, como de costume. Seus amigos próximos ficaram bem felizes, mas tristes por não poderem mais vê-lo com frequência. Estar lá significa estudar muito e ocupar seu tempo apenas com as matérias e lições passadas. Apesar de tudo, Senzo está preparado para o que está por vir. É o seu sonho, afinal de contas.
Sua frequência no colégio era impecável. Notas boas, mas não máximas como as de seu companheiro Nuito. Sua pesquisa sobre armamentos novos e armaduras parecia ir bem. Seu amigo entendia sua fixação em armamentos e em como pareciam combinar com os animais certos. Dessa forma, ele sentiu-se incentivado a criar algo grande.
Após um ano no colégio, ele iniciou seu projeto do qual nomeou de Yoru.
— Hm... Yoru? — Disse Nuito, observando os vários papéis com desenhos complexos na parede do quarto de seu amigo. Eles dormem em dormitórios próximos.
— É hanrajiinês. Mas eu não consegui descobrir com exatidão o que significa essa palavra.
— Ué... Vai dar um nome pro seu primeiro grande projeto que nem sabe o que significa?
— Quero deixar os outros adivinharem. — Disse Senzo, confiante.
Os desenhos implicam em um tipo de armadura para animais especial. Que se move sozinha.
— Olha, Senzo... Não quero te desmotivar nem nada, mas ninguém garante que isso vá dar certo. É um inseto gigante que vai andar e agir sozinho, tô certo?
— Sim, mas ele será mais limitado em sua primeira versão. Não será para combate. Ele vai no máximo saber alguns truques ou simplesmente andar para que o pessoal se interesse mais, daí posso fazer uma nova versão com mais coisas, e...
— Calma lá, cara! Foque no primeiro. Você quer que ele faça truques?
— Algo pra impressionar o pessoal da próxima feira. Sabe? Pular pra trás, bater palmas, dançar ou algo assim...
— Bom, isso poderia mostrar que ele funciona.
— E será um louva-a-deus. Ele é bonito e suficiente para esse projeto.
Nuito não consegue deixar de notar a empolgação do amigo. É realmente um bom projeto para alguém que chegou há pouco tempo. Mas ele teme que não vá dar muito certo. Tanto o projeto quanto a apresentação.
Ele causou tudo aquilo pra mim.
A tal feira mencionada por ele, conhecida como Feira Internacional das Maravilhas, é um evento anual de Yalahar, que costuma acontecer dentro do próprio Centro das Almas de Ferro. Naquele ano, mais pessoas estão prometidas para aparecer nesse evento, com isso, os projetos serão mais acirrados e disputados. Apesar de tudo, dificilmente alguém previu que algo como o que Senzo planejava fazer ia aparecer.
Nuito o acompanhou com curiosidade e dúvida. Sabe que Senzo só é respeitado e não sofre perseguição de ninguém, pois vive do lado dele. Além disso, ele é um rapaz de renome, um gênio de Yalahar, prodígio reconhecido pelos alquimistas. Se o jovem pálido consegue chamar a atenção desse gênio, significa que ele é realmente inteligente e importante. Mas a verdade é que Senzo não o vê apenas como um gênio, mas como um bom amigo, dando prioridade ao seu lado sentimental e entendendo suas dificuldades. Mas naquele momento, ele não sentia que o seu amigo seria capaz de se virar sozinho num evento desses.
Foram seis árduos meses de trabalho. Criar um autômato já foi a ousadia de muitos alquimistas, antes considerados geniais, mas Senzo não era nem de perto considerado assim. Isso porque seus projetos não eram mostrados a ninguém. Ele é restrito, e seu projeto não estava nem mesmo sendo construído no colégio, e sim no largo quintal de sua casa, com a ajuda de três amigos, que são Nuito, Ember e Norbron, um mago mais velho e experiente que há muito aconselha o jovem pálido. Este tem cabelos negros, de corte social, e usa um longo robe vermelho com um cinto branco contendo um grimório* e várias runas de tamanho pequeno dentro de bolsinhas.
— As baterias devem estar bem conectadas ao resto do autômato, sabe bem disso, não é?
— Óbvio, Norbron. O esqueleto das fiações foi feito com essa prioridade. — Responde Nuito, mexendo em alguns fios de uma das patas do autômato.
Senzo está com sua cintura segurada por fortes cabos. Há quatro postes de aço ao redor do inseto de ferro, que já tem forma. Dali de cima ele trabalha nas baterias e na fiação, juntamente com Nuito logo abaixo e Norbron. Ember está sendo algo como uma vigia, já que foi ela que ergueu os postes, colocou os cabos e levantou os muros improvisados de estanho ao redor do quintal para que o projeto não fosse visto por ninguém.
— Tá quase pronto, hein, Senzo! — Disse Nuito, com empolgação, fechando os painéis que protegem os fios de uma das patas. — Você foi rápido fazendo tanto em poucos meses. O evento é mês que vem.
— Vai dar certo. Eu acredito nisso. — Disse Senzo, concentrado, sem tirar os olhos.
Ember desce dos muros e vai até Nuito. A garota é uma elfa legitima, com orelhas pontudas, nariz fino, olhos grandes, sardas e cabelos ruivos e trançados. Ela é magra e esguia, alguns até a confundiram com um garoto se estivesse bem coberta. Ela está com um capuz verde, usa um casaco élfico de cores verdes e amarelas, possui uma pequena capa amarrada na cintura que cobre o cinto e vai até alguns dedos do joelho, e usa uma calça marrom. Usa sapatos vermelhos e um pouco puídos, mas úteis. E também conta com seu arco e aljava nas costas.
— Ora, Nuito. Tá pronto ou não? — Questiona ela, um pouco incomodada.
— Não, poxa. Falta várias coisas ainda.
— Mas ele já tá pronto, não é? Olha, ele já está de pé e posicionado.
— É por isso que você não está no mesmo colégio que eu. — Comenta ele, rindo. Ember se irrita, fazendo-o parar.
Ela olha pra cima. Mesmo sendo dia, com um sol forte batendo no robô e principalmente em Senzo, ele não parece perder a concentração de jeito algum.
— Senzo sempre foi sozinho?
— Ele é um rapaz isolado, mas é uma boa pessoa.
— Eu sei, mas ele vive nisso... Enfiado nos livros, apenas pesquisando, lendo, fazendo essas coisas. Parece que não vive. Sinto pena dele.
— Não sinta. Ele se sente bem fazendo essas coisas. Senzo não maquia sua personalidade se forçando a fazer parte do que é comum na sociedade, como ficar com garotas, andar bem arrumado e ir para festas. E é uma das coisas que mais gosto nele! Essa sinceridade escancarada, essa falta de medo de mostrar que é um estudioso aficionado, mais fixado em livros do que em bocas femininas. Isso que é algo legal!
Por algum motivo, Ember parece ficar um pouco sem jeito com a menção a “bocas femininas”. Lembra a ela de quando Nuito costumava dizer que ela não tinha nada de feminino em seu rosto e que era muito bruta para isso. Ela ficou magoada, mas Nuito correu atrás de seu perdão elogiando seu corpo ao invés disso. A elfa ficou envergonhada, e mesmo o perdoando, literalmente o chutou da sua casa.
Mas desde então, ela nunca deixou de pensar que o rapaz havia notado muitas coisas a seu respeito. Então, ela começou a se sentir mais a vontade sem o corpo coberto. Mesmo que naquele dia ele ainda estivesse totalmente coberto.
— Acho que o entendo melhor agora...
— Senzo é um bom rapaz. Ainda arrumarei pra ele uma boa boizinha.
— Não use esses termos de fazendeiro!
— Por quê? É bão demais, sô!
Ember soca a lateral do peito de Nuito com raiva, principalmente por ele estar rindo. É como se ele não tivesse sentido nada, fazendo ela o socar mais vezes, mesmo com Norbron pedindo pra que ela pare.
Esses dias pacíficos de trabalho foram a rotina dos três últimos meses antes da feira. Senzo esteve feliz em todos eles, pois estava acompanhado de seus melhores amigos e trabalhando ao lado deles com seus pais o apoiando. Tudo estava perfeito para o rapaz.
~*~
É chegado o dia da feira.
Senzo está atrás de cortinas espessas com o inseto autômato chamado de Yoru. A exposição já está acontecendo, várias maravilhas e genialidades yalahari estão expostas ao longo de um largo pátio no fundo do colégio. Ali é possível encontrar muitas barracas com criações diferentes, como páginas transparentes, um pó que revela qualquer digital com total exatidão, pequenos robôs para diversas utilidades aqui e ali, armas mais resistentes que o normal, até mesmo um projeto de algo semelhante a uma cabine sustentada por hélices acima dela e nas laterais, dentro de discos sem fundo, capaz de voar e se manter no ar.
Mas logo as exposições maiores começariam através de exibições para o público. Falta apenas dez minutos para elas começarem, e o primeiro a ir é uma estudante de pele escura e um cabelo negro tão longo que ia até o fim de suas costas, mesmo preso num rabo de cavalo, enquanto usa uma regata branca. Ela vai apresentar algo semelhante a um elixir que pode fazer coisas destruídas por ácido serem reconstruídas instantaneamente.
Segundo os anfitriões do colégio, aquele era o ano com mais genialidades naquela feira. Nuito, como sempre, não apresentaria nada, apenas irá ajudar o amigo. Ember e Norbron estão na exposição conferindo as novidades.
— Ele já é capaz de correr, não é? Já testamos ele no seu quintal. — Questiona Nuito, observando Yoru.
— Sim, ele é. E é capaz de muito mais. Yoru se mostrou muito mais flexível e compatível com outras coisas do que o normal.
— Então surpreenda-os, amigo. Assim como me surpreendeu ao mostrar que ele estava com a carcaça pronta depois de apenas um mês. Bateu recordes.
Senzo sorri e aperta a mão do amigo num cumprimento. Ele está agradecido pela ajuda prestada pelo seu amigo e gênio do colégio, e agora é só questão de tempo até ele ficar na história do Centro das Almas de Ferro.
Ela começa. Primeiro a garota com o elixir, depois um rapaz com uma espécie de tartaruga que fala, cuja ganhou o público, e pra finalizar, um rapaz que criou uma pílula capaz de guardar objetos pequenos maiores do que ela. Agora, é a vez de Senzo e sua criação, Yoru.
Ele chega no palco, de frente para um mar de pessoas. Os holofotes, cuja iluminação é mágica, está direcionada para o rapaz. Ele fica algum tempo olhando para a plateia, e finalmente ganha coragem suficiente para falar.
— Boa tarde a todos vocês. Irei apresentar um projeto meu de longa data. Dei a ele o nome de Yoru e espero que todos gostem.
Com uma espécie de controle remoto, ele traz Yoru sem sair do lugar. O grande autômato anda sem dificuldades até o palco, já arrancando a surpresa do público, que assiste empolgado a cada movimento do robô.
— Ele é um louva-a-deus. Esses insetos são originários de Porto Esperança e também podem ser encontrados na Baía da Liberdade. Eu o construí usando várias peças de alumínio e reforçando com placas de ferro. Seu interior possui uma fiação completa ligando todos os pontos a um local só.
Yoru anda aleatoriamente pelo palco enquanto Senzo fala para a plateia. Ele então para, e o rapaz começa a mostrar algumas das coisas que ele é capaz de fazer.
Ele começa fazendo ele levantar as patas dianteiras como em sinal de prece. De forma abrupta, Yoru começa a dançar, dando passos rápidos para trás e para os lados enquanto bate palmas. A plateia vai a loucura, e Nuito, que olha próximo das cortinas, observa-o com orgulho. A dedicação de Senzo mostra frutos inesperados.
Agora, ele faz o autômato trotar. Depois, pular. Cada movimento faz todos ficarem mais impressionados. Parece que já estava óbvio quem ia ganhar o prêmio de melhor trabalho da feira. Afinal, os movimentos de Yoru eram perfeitos demais para um autômato. Cada movimento dele gera mais palmas, mais entusiasmo, e mais empolgação de Senzo, que não consegue tirar o sorriso do rosto. Nuito também está aplaudindo ali perto do palco.
Então, chega o clímax. Yoru chuta o ar com uma das patas e volta sem fazer um barulho sequer. Engenharia perfeita. Aquilo ultrapassou o que um alquimista pode fazer. Tudo está ganho para Senzo. O que restar pra ele falar ou fazer será lucro.
Ele vê Norbron na plateia aplaudindo ele com orgulho bem visível em sua face. Empolgado, ele aumenta a força dos movimentos de Yoru para que ele pareça mais bruto, e manda ele dar um soco no ar.
É tudo culpa dele.
Deu errado.
A mão de Yoru sai do lugar junto com vários fios e cai exatamente em cima de Norbron. Ele sente dificuldade para se levantar, mas tudo se complica mais quando uma das baterias se vê forçada e dá um curto-circuito poderoso, que acerta o mago antes que ele possa ser ajudado pelo público.
Um grito estridente ecoa pelo pátio. 60 segundos.
Nos primeiros 10, os alquimistas começaram a agir para parar a descarga junto de Senzo, que mesmo em choque, corre para salvá-lo.
Em 20 segundos, os fios ainda não foram cortados, a energia das baterias está se desviando para a mão que está esmagando Norbron. Nuito sai de trás das cortinas com peças de ferro de um metro para atrair a energia para outro ponto.
Em 40 segundos, a plateia está correndo para fora, soldados correm para tentar tirar com seus piques a mão de cima de Norbron, mas já não conseguem mais distinguir um rosto humano ali. Os olhos do rapaz estouraram, a pele está derretendo, sangue demais já saiu de seus orifícios.
Em 50 segundos, Norbron ainda está vivo, seu corpo está ardendo em chamas e os fios estão sendo cortados conforme a energia é desviada de volta. O pátio está sendo esvaziado. Os alquimistas conseguem aos poucos empurrar a mão pesada do autômato. As baterias estão sendo desativadas.
Um minuto. Norbron morre. O corpo está carbonizado. Os fios cortados. As baterias desativadas. O autômato parado como o tempo para os presentes ali. E só quando toda aquela eternidade passara que o tempo volta a andar para Senzo, que está sentado no chão, com o controle entre as pernas, arrasado.
Ele foi suspenso pelo resto do ano do colégio. O prêmio de melhor item da feira foi para a garota por trás do elixir. Depois de Yoru, a alquimista quebrou relações com a engenharia. Senzo marcou a história do colégio matando o próprio amigo na frente de todos enquanto trinta pessoas tentam parar o curto sem serem eletrocutados juntos. Aquelas baterias foram construídas usando discos condutores com soluções feitas em água dentro. Quando aquele tipo de bateria foi criado uma década antes, era a prova de que alquimia e engenharia podiam coexistir.
Senzo provou que todos estavam errados.
Ainda assim, ele voltou para o colégio no ano seguinte, mesmo ganhando todo tipo de olhar por onde passava. Protegido por Nuito e Ember, que o visitaram o tempo todo enquanto ele esteve em sua casa, lamentando-se pela morte que causou, ele conseguiu continuar seguindo em frente. Principalmente por causa da dona de um projeto de elixir semelhante ao da vencedora, que visitou-o no meio da suspensão sem ser convidada.
Uma garota magra e relativamente alta, que possui um torso bem definido, com braços levemente musculosos. Seus cabelos são negros como a noite, sua pele branca e livre de impurezas, seus olhos azuis como o céu. Quando Senzo fita-a na entrada de sua casa, ele não entende nada. Ele simplesmente abre a porta do muro da casa e não diz nada, apenas a espera falar.
— Você é Senzo Saisho Damasukas, o criador de Yoru? Tenho certeza que é. Eu queria conversar contigo a respeito dele, pois soube que você está realmente triste com tudo o que aconteceu.
— E você se importa?
— Sim... Pois você me encantou a partir do momento em que apareceu naquele palco, mesmo com toda a pressão sobre as suas costas e o nervosismo o consumindo.
Senzo arregala os olhos e cora. Seu coração bate mais rápido.
— Q-Qual é o seu nome? — Questiona o rapaz, ignorando a frase da garota e tentando se manter firme.
— Eu me chamo Miraya. Estou feliz em conhecê-lo. — Disse ela, abrindo um dos sorrisos mais lindos que Senzo já viu em sua vida.
É por isso que ele está ali, no colégio, naquele instante, esperando para se encontrar com aquela garota de novo. Ele está apaixonado por ela.
E quando ele a vê no corredor, vindo em sua direção com um sorriso parecido com aquele, ele entende. É o começo de uma longa história.
Próximo: Capítulo 31 – Res II
Notas:
*Um grimório é um livro que contém vários feitiços, rituais e encantamentos mágicos medievais. Eles realmente existem, sendo coleções interessantes de serem lidas.
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