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O Capítulo de hoje é, sem dúvidas, de muita importância para mim, pois corresponde ao capítulo de número 75 da história como um todo. É um número bem grandinho, o qual não esperava atingir nessa história. Posso apenas dizer que tem sido maravilhosa essa jornada a cada linha, e espero que estejam comigo até o final, seja ele qual for.
Spoiler: Respostas aos Comentários
Spoiler: A Voz do Vento 2016, Extra #8 (23/03/2016)
Sem mais delongas, o Capítulo de Hoje!
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Spoiler: Bônus Musical
Capítulo 44 — Sombras de Yalahar
E se reúnem as Sombras...
(Narrado por Ireas Keras)
Foi um dia muito estranho. Muito estranho.
Demorou um tempo até eu me acostumar àquele ser tomando conta de Wind; demorou bastante até que sua voz metálica e etérea se tornasse mais tolerável e compreensível. Foi com muita frustração que tive que lidar com o fato dos demais tomos estarem escritos em uma língua que eu não podia ler, e que Variphor parecia estar mais familiarizado.
— É a linguagem dos Lagartos, não tenho dúvidas quanto a isso. — Dizia o ser através das cordas vocais de Wind. — Parece misturada com Élfico também, mas... Não acho que deveria dizer o que está aqui para vocês. Não ainda.
— Como assim? — Indaguei, cruzando os braços e franzindo o cenho — Com que direito você diz isso?
Acho que eu havia perdido a noção. Eu não sabia com quem estava tratando; já havia escutado lendas sobre a entidade que preenchia a área cinza entre a existência e a não-existência, e assutava-me o fato de que algo que não havia sido visto antes pudesse ter causado tamanha discórdia dentro de uma civilização antes tão gloriosa. Achava que ele se tratava apenas de uma lenda, e nunca me ocorrera que um dia a lenda estaria ali, à minha frente.
Usando o corpo de um de meus maiores amigos como receptáculo.
— Huh... Menino arrogante. — Falou o Yalahari, olhando-me de cima com os olhos naquele tom mórbido e arrepiante. — Acha mesmo que darei a você o conhecimento de alguém de graça?
Yami e os demais olharam para mim e para Variphor com os olhos arregalados; eles estavam começando a sentir a minha raiva emanar de novo.
— Não se trata apenas de conhecimento! — Vociferei, ameaçando chegar perigosamente perto do Yalahari possuído. — Trata-se do destino de muitas pessoas além de mim!
— Ah...! — O Yalahari cruzou os braços, sorrindo um meio sorriso de escárnio que arrepiou-me por inteiro — Finalmente... Você tem peito, moleque. E parece que finalmente ele é maior que a sua arrogância. Já estava começando achar que a doença de Rookgaard não tinha surtido efeito algum em você, projetinho de psicopata.
Eu fiquei olhando para aquele ser de queixo caído; como ele sabia de meu histórico em Rookgaard?
— Ei! Você não tem direito de falar assim do Ireas! — Sírio levantou a voz, com raiva. — Por que você não sai do corpo do Wind e vem ter uma conversa cara a cara conosco?!
— Mas eu já estou tendo uma conversa “cara a cara” com vocês. — Replicou Variphor, colocando os braços atrás das costas e encarando Sírio com um meio sorriso.
— Eu não sou um projeto de psicopata, nunca fui! — Protestei, ainda mais furioso com a atitude condescendente de Variphor.
— É mesmo? — Replicou o ser de voz etérea, sorrindo com escárnio para mim e uma forma que Yami costumava fazer. — Então por que você nunca chorou a morte dele? Ou a de Annika?
Eu fiquei ainda mais pálido do que normalmente era; todos olhavam para mim sem entender do que o assunto se tratava. Senti como se estivesse voltando àquele tempo, vendo aquele Ireas de quase dois anos antes ali, naquela sala.
— Como você sabe? — Falei quase que em um sussurro, com a voz batendo surda em meus ouvidos.
— Ireas, do que ele está falando? — Indagou Sírio, confuso.
— Há alguma verdade no que ele diz? — Indagou Morzan, por fim.
— Quem eram essas pessoas? — Emulov falou novamente, preocupado.
Eu respirei fundo; estava na hora de contar a eles uma parte da minha vida que eu achava ter superado e que nunca voltaria para me assombrar. Olhei para as minhas mãos; minhas unhas continuavam tingidas daquele tom de azul que, apesar de belo, lembrava-me sempre a morte. Meu semblante foi tomado por minhas lembranças tristes daquele dia funesto em Rookgaard, e eu precisava falar sobre aquilo.
— Uma doença chegou a Rookgaard uns anos atrás. — Falei, triste. — Annika e Khaftos eram duas pessoas que cresceram comigo na abadia de Rookgaard... Assim como eu, haviam sido deixados à deriva pelos pais e... Eram os únicos amigos que eu tinha.
— Eles morreram lá? — Yami indagou, estranhamente compadecido, ou algo do gênero.
— Não. Eles não apenas morreram lá. — Variphor continuou a falar, com um sorriso mau no rosto. — Não é verdade, moleque de sorte?
— Não apenas isso... Foram emboscados em um labirinto nas profundezas da ilha. — Falei de cabeça baixa, tristíssimo. — Havia um outro menino, Shambler... Ele era estranho, para dizer o mínimo. Era um pouco mais velho que nós e sugeriu que fôssemos explorar aquele local... Ele fez o que fizera para nos levar à morte. Fomos até esse labirinto e ele atraiu muitos Minotauros para perto de nós... Annika acabou morrendo e Khaftos e eu ficamos muito feridos... Eu impedi Shambler de subir e ele morreu lá... Khaftos e eu ficamos muito doentes e ele veio a morrer depois. E eu sobrevivi.
Mostrei minhas unhas a todos — incluindo Variphor.
— Era um fungo, algo assim... Ficou debaixo das minhas unhas para sempre e eu uso um medicamento para impedir que ela se alastre pelo meu corpo.
— Como eu disse... Moleque de sorte. — Variphor tornou a falar. — Aquela “doença” que veio com o rapaz era um mal que havia afligido alguns Yalahari... Foi pouco antes deles encontrarem mais coisas do que deveriam. Shambler era um Yalahari e estava muito doente. Não era para você tê-lo deixado para trás.
— Como? — Indaguei, confuso.
— Você deveria tê-lo salvado.
Arregalei meus olhos e fiquei com o rosto muito pálido. Como assim “deveria tê-lo salvado”? Shambler nos estava atraindo para as garras da morte! Não havia motivo para ter salvado sua vida. O que Variphor queria com aquilo? Provocar-me mais? Deixar minha consciência pesada como chumbo?
— Shambler poderia ter sido salvo pela Rosa Azul. — Falou Variphor, com o sorriso sinistro. — Mas não foi. Você só não morreu para a Praga de Yalahar porque estava na posse dessa proteção, dessa... Feitiçaria. Mas... Não importa. Você ainda vai precisar dessa dádiva mais de uma vez e, uma vez que você a perca, bem... Vamos ver para onde sua sorte vai, hehehe...
O ser que possuía Wind aproximou-se de mim a passos lentos com um dos Tomos na mão e um sorriso que, aos poucos, sumia de seu rosto pálido.
— Ela ainda está em Zao. A Praga que afligiu os Yalahari tem também origem do mal que agora aflige a terra dos Lagartos Altos. Procurem por ela nos locais mais escuros... E seja sábio quanto à sua dádiva, Ireas Keras; você só tem mais uma, talvez duas chances de usá-la.
Com isso, ele parou de falar; os olhos de Wind voltaram ao normal e sua palidez sumiu; antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o Yalahari perdeu a consciência e corri para impedi-lo de ir ao chão. Sua pele estava fria e um pouco pegajosa, mas parecia que era só Wind ali, e não mais Variphor. Em minha cabeça, algumas palavras de Variphor continuavam a martelar em minha cabeça.
“Você deveria tê-lo salvado.”
“Shambler poderia ter sido salvo pela Rosa Azul.”
“E seja sábio quanto à sua dádiva... Você só tem mais uma, talvez duas chances de usá-la.”
Comecei a temer por meu futuro — como usaria a Rosa Azul? Quando? Com quem? Para quem?
****
(Narrado por Yami, o Primeiro)
Depois de todos aqueles momentos de tensão, afastei-me dos demais; estava arrasado comigo mesmo. Havia magoado minha irmã de uma forma que nunca imaginei fazer, e não sabia mais se poderia ser perdoado ou redimido.
Fui até a entrada da casa de Silfind; sentei-me no chão nevado e pus-me a observar a leve nevasca que caía do lado de fora; ouvi uns burburinhos ao longe e virei minha cabeça em direção às minhas costas, e vi Silfind dando sua criança a Keras, tentando ensiná-lo a carregá-la. Comecei a imaginar a vida de minha irmã depois de casada, e voltei a olhar para a nevasca.
Imaginei a cerimônia na qual eu provavelmente não estaria presente; vi a felicidade no rosto de minha irmã ao dizer seus votos e aceitar os de seu marido. Imaginei onde viveriam, se seria em Ankrahmun ou Thais. Provavelmente, minha irmã escolheria a maior distância dos desertos, para não ter que lidar com as cicatrizes dos conflitos entre os Djinns; criei a imagem hipotética das crianças que eles teriam e da vida cotidiana deles até o fim dos dias de Brand.
Meus sentimentos quanto a isso eram um misto de tédio e tristeza; tédio por não ser capaz de me imaginar no lugar de minha irmã e tristeza por imaginar que, pela primeira vez em toda nossa existência, eu não seria parte de suas alegrias. Eu talvez não fosse passar de uma distante lembrança de um irmão gêmeo que traíra sua confiança. Suspirei e meneei a cabeça em uma tentativa de afastar de mim aqueles pensamentos.
Estava tão absorto e distraido que não notei alguém se aproximar; quando olhei para o lado, vi um par de pés brancos e femininos descalços; olhei para cima e vi que Silfind estava ali diante de mim.
— Seu espírito está inquieto, jovem. — Falou a moça com um semblante preocupado. — O que te aflige?
— O fato de minha alma ser o mesmo que nada, talvez? — Repliquei triste e com um tom de sarcasmo.
— Sua alma tem valor, jovem Yami. — Falou a moça Norsir, sentando-se vagarosamente ao meu lado. — Eu ouvi sua história; sei do seu passado, sórdido ou não. Você é uma boa entidade.
— Engana-se, cara Silfind. — Falei, soltando um riso desacreditado. — Estou longe de ser um bom modelo, uma boa pessoa; fiz muitas coisas erradas na vida...
— Mas, você está disposto a consertá-las, certo? — Silfind falou com um sorriso. — Não dá para desfazermos o passado, mas sempre podemos fazer do nosso presente algo melhor para o futuro.
— Como assim? — Indaguei, não dando muito crédito às palavras dela.
— Você viu Ireas tentando carregar Skadi? — Falou a mulher, olhando para o horizonte nevado. — Ele não tem muita ideia de como carregar uma criança; ele ainda é desajeitado e teme ferir a sobrinha. No entanto, ele me pediu para carregá-la porque quer ser um bom tio. Ele quer me ajudar, já que Hjaern não está mais nesse mundo.
— Seu marido? — Perguntei, tentando ser um pouco mais simpático.
Ela respondeu de forma afirmativa com a cabeça, estampando a tristeza e o luto em seus olhos. Entendi, então, que Hjaern morrera antes de seu tempo e que, dada a situação de Silfind, ele havia morrido antes do nascimento de sua filha.
— O que quero dizer com tudo isso, Yami, é que Ireas está tentando ser melhor a cada dia; ele não está sendo apenas parte de minha vida por uma promessa que fez ao cadáver do irmão. Ele está sendo parte de minha vida porque quer e, enquanto ele quiser, e for uma pessoa cada dia melhor, eu não o impedirei. Eu apenas rezarei para que ele fique em minha vida pelo máximo de tempo possível.
Ela tentou se levantar novamente e, dessa vez, eu a amparei a fim de que ela fizesse menos esforço. Ela retribuiu olhando-me com ternura com aqueles olhos carinhosos que eu nunca pensei que veria em minha vida.
— Eu ouvi as coisas que sua irmã disse a você. Eu entendo a dor dela, e tenho apenas um conselho para você: se quiser o perdão de sua irmã, batalhe por isso. Se quiser ser parte da vida dela, faça-se presente. Mas faça ambos da maneira correta. Nunca é tarde demais para você ser o heroi da sua história. Lembre-se disso.
Ela me deu um abraço, e eu retribuí; ela se afastou de mim e eu acenei com a cabeça, entendendo a mensagem. Eu a vi indo em direção a Keras e ajudando-o a colocar a menina na posição certa; eu dei uma leve risada ao ver aquela cena. Humanos... São seres tão pequeninos e desajeitados quando nascem que ser algum poderia acreditar que, algum dia, essa mesma raça influenciaria na vida de tantas outras... Adentrei novamente na casa e, em um canto mais isolado, vi Emulov abrindo sua mochila e tirando algumas coisas exóticas de dentro dela.
A julgar pelo semblante abatido do rapaz, ele parecia estar sentindo falta de algo naquele momento. Entretanto, não achei prudente me intrometer; em vez disso, fui para perto de Ireas atrás de minha Lâmpada a fim de repousar um pouco.
*****
(Narrado por Emulov Suv)
— Sigh...
A saudade de casa enfim começara a apertar mais que o usual. Abri minha Mochila de Explorador na esperança de reaver alguns itens que sempre carregava comigo; os pedaços da Bandeira de Legionário que havia ganhado quando bem pequeno... Sonhava em remontar aquela peça quando houvesse tempo hábil. Era o sonho de minha mãe que eu tivesse me tornado Legionário... Na realidade, ela tinha muitos sonhos para mim, talvez mais do que eu pudesse corresponder.
Estava com medo da frustração deles; não queria sentir que falhei com todo mundo que conheci. Não queria voltar com eles sabendo que eu optei por um outro caminho que não o da Drakinata; tinha receio de que me rejeitariam se soubessem o que eu virei. Ou, ao menos, o que minha vocação representa perante nossa sociedade...
— Emulov?
— Huh!
Olhei para cima e me deparei com Icel e Morzan me observando; de todos nós, o Thaiano era o que parecia ter sofrido mais com os últimos dias... Estava olhando para eles com meu semblante de sempre. Buscando ocultar as emoções que sentia. Pigarrei um pouco, aguardando pelas falas deles.
— Está tudo bem aí, parceiro? — Indagou Morzan.
— Você está ainda mais quieto que o usual... — Falou Icel. — Essas coisas aí no chão... O que são?
Meu rosto enrubesceu; Emulov, seu tolo! Havia deixado minhas recordações livres para que todos pudessem ver!
— N-nada! — Silvei, envergonhado, guardando tudo rapidamente. — São só... Coisas da minha terra, só isso...
— Anda sempre com um pedaço da casa contigo, né? — Morzan falou, agachando-se perto de mim e colocando uma das mãos em meu ombro — É normal! Todo mundo aqui sente falta de casa, independentemente das aventuras que vivemos...
— Não é falta... — Falei, de cabeça baixa e um pouco chateado. — Trata-se de um dever antigo. — Levantei, afastando-me de Morzan. — Bom... Avisem a Ireas que podemos ir assim que ele desejar... Vai ser melhor se terminarmos logo isso...
— Se você diz... — Falou Icel, afastando-se de mim e indo em direção a Ireas.
Soltei um suspiro e percebi que Morzan ainda estava por perto; dessa vez, com os braços cruzados e um meio sorriso.
— Que medo todo é esse, Lagartinho? — Sua pergunta era quase que um convite à provocação.
— N-não é medo...! — Falei, tentando desconversar. — Já disse!
— Seja lá o que for, Lagartinho, você precisa lidar logo com isso. — Falou o mais velho dos Snow. — Olha, você me parece ser o cara mais responsável daqui. Qualquer que seja o problema, tenho certeza que você estará mais que preparado para lidar com ele. Então... Medita e fica tranquilo, que vai dar tudo certo.
— Obrigado pelo voto de confiança... — Falei, inclinando levemente meu tronco em direção a Morzan. — Espero lidar com isso da melhor forma possível.
Morzan se afastou de mim com um sorriso e um aceno de cabeça, indo em direção aos demais. Brand e Yumi voltaram um tempo depois, e eu aproveitei a quietude do meu canto para acender uma vela vermelha em um prato de porcelana, jogando pétalas rosadas de uma flor comum à minha terra nas chamas, que assumiram um tom rosado. Em seguida, sentei-me de frente para a vela, cruzei as pernas e juntei minhas mãos, palma com palma, e as aproximei de meu peito. Fechei os olhos e comecei a respirar lentamente.
Era hora de fazer minhas preces ao Imperador.
***
No dia seguinte, comuniquei a Ireas que a melhor hora de viajarmos seria em três dias a contar daquela manhã; o Norsir apresentou a sugestão a todos do grupo, que concordaram com ele quase que de imediato. Ireas guardou todos os outros Tomos em sua mochila, e chamou por Yami na data que eu falei. O Efreet, com ajuda da irmã, criou um portal para nós, que atravessamos rumo ao Nordeste.
Marchamos rumo à minha terra, à Fronteira Final.
Continua...
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É isso aí, pessoas! Reta final! Por favor, deixem seus comentários, seus likes... Tudo!
E quem quiser seinscrever no Torneio, corra que há duas vagas livres! Aguardo por vocês! Até a próxima!
Abraço,
Iridium.
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