Spoiler: Outras Justas da Rodada
Saudações!
A II Justas Tibianas começa oficialmente! Nesse tópico, estarão dois textos à disposição de vocês, escritos do ponto de vista dos Personagens dos dois Participantes que se enfretam aqui, a fim de que leiam e escolham o melhor por meio de voto. O vencedor passará para a próxima rodada e poderá usar os votos como pontos para a Ficha de Personagem.
O esquema é de anonimato, ou seja, cada texto aqui disposto não terá o nome do Autor em sua respectiva janela, a fim de tornar mais justa e interessante a competição. Por favor, peço que deem um feedback honesto e construtivo sempre na medida do possível. Respeito é palavra de ordem e de lei. Quaisquer dúvidas quanto às regras, favor consultar o Tópico de Inscrições.
As demais disputas estarão disponíveis no Tópico Central e aqui também (e nos demais tópicos), em uma outra janela separada, caso necessário.
BOA SORTE, JUSTADORES! A Votação começa hoje e tem prazo de 08 (oito) dias para ser encerrada. A Votação acabará às 23:59 do dia 21/12, quarta-feira.
Spoiler: Introdução: Odaph e Abgar-nan´udin
Os Justadores chegaram à Ankrahmun, a Cidade Eterna, contando apenas com a triste história de Melchior para poder dar-lhes uma luz sobre a intrigante região desértica. Aqui serão mostrados os relatos de dois deles.
Odaph
Odahp, também conhecido (ou não) como o vendedor menos famoso de Thais, passou anos fingindo que ganhava a vida comercializando comidas e bebidas, porém devido a popularidade inalcançável de seu concorrente Frodo, nem mesmo sua falecida mãe seria capaz de reconhecê-lo por tal atividade, obrigando-o a viver do pão que produz meramente por conta da abundância de trigo nos entornos da cidade.
Quando criança fugiu de sua família composta por bravos guerreiros por jamais demonstrar a mínima capacidade de batalha e ser o eterno saco de pancadas dos seus 5 irmãos. Na fuga foi capaz de atravessar o continente de Carlin a Thais sozinho com apenas 7 anos de idade, mas hoje ninguém se considera tolo o suficiente a ponto de acreditar em tal feito, visto o frágil homem que Odahp se tornou ao longo de seus 25 anos de vida.
Apesar de sua fama como vendedor ser nula, os habitantes da cidade conseguem distingui-lo facilmente por sua sagacidade humorística e seu requintado gosto por variados sapatos de cor vermelha.
Abgar-nan´udin
Filho de uma família de comerciantes em Ankrahmun, Abgar, embora não tivesse a mesma fartura que as outras grandes famílias da cidade tinham, vivia bem. Seu maior prazer sempre foi a leitura, dedicando grande parte de sua leitura sobre os outros povos e outras culturas.
Contrariando os pais, resolveu pegar um caminho diferente de um comerciante, e acabou por se tornar um arqueólogo. Tendo investigando e acabado por achar algumas das grandes tumbas do deserto de Darama, adquiriu muito conhecimento, e com isso poder. Só não continuou em sua busca devido aos seus freios morais e respeito, adquiridos sob a tutela de seu grande mestre e amigo, Kaidivhmar, que lhe ensinou não só como ser um arqueólogo, mas como sobreviver ao ambiente de trabalho, por vezes, hostil, de um arqueólogo.
Desde que foi ferido em uma expedição, Abgar vem dando um tempo de suas expedições. Passando a interagir mais com as pessoas da cidade, o que tem se provado difícil com suas piadas, somado ao fato de que está perto da quase dos quarenta anos, sem ter se casado, embora seja muito respeitado intelectualmente em Ankrahmun.
Spoiler: Texto 1
A espera pela correspondência fora mais longa do que eu esperava. Me fora dada a tarefa de pegar uma simples encomenda que a Associação dos Arqueólogos de Ankrahmun queria, mas, ao chegar no serviço postal, notei a aparente ausência de encomendas e cartas, o que fora confirmado em minha conversa com Jakahr, o carteiro responsável:
— Peço que volte mais tarde, senhor Nan´udin. — Retribuiu o carteiro, em seu tom melancólico.
— Ora vamos, sei que tem previsão da chegada do barco.
— Já lhe disse, arqueólogo... — Disse, em um tom um pouco mais respeitoso. — Era suposto o barco ter chegado esta manhã, assim como todas as outras vindas antes. Porém, imprevistos acontecem, e não só você, como todos que vieram pegar suas encomendas e cartas terão que esperar.
— E onde estariam essas pessoas?
Eu ouvi uma gargalhada alta, vinda da escada atrás de mim que levava ao andar superior. Pelo visto minha pergunta estava respondida.
— Junte-se a eles, Nan´udin.
Nunca vou entender esta cidade. Provavelmente era a única no mundo em que um serviço sério e muito importante para a sociedade, o dos Correios, andava ao lado de um serviço, embora não menos importante, não continha a mesma seriedade de um Correio. Sim, naquele pequeno espaço, havia um bar no segundo andar, e logo embaixo um serviço postal, o que criava situações deveras constrangedoras, já que muitas vezes, se a elite não podia mandar alguém de confiança, tinha de vir pessoalmente, e acabava por encontrar pessoas do povo, como eu, zombando, bebendo e vomitando na cara delas.
Ao subir as escadas, encontrei alguns rostos “similares”. Similares eu digo por encontrar e cumprimentar vez ou outra nas ruas, o que foi o que fiz. Não queria beber muito, pois podia correr o risco de perder a encomenda que estava esperando... Porém, acabei sendo desafiado pelo dono do bar, Arito:
— Oras oras, temos um novato aqui... Recebi uma encomenda de hidromel dia desses, Abgar. Não gostaria de provar?
Os vários olhos que viraram para me encarar mostraram que eu não podia recusar tal desafio. Há muito eu não bebia, e eu precisava. Precisava abrir um sorriso no rosto, precisava jogar conversa fora... Precisava esquecer do passado.
Não muito se passou quando senti uma mão em meu ombro. Era Jakahr.
— O navio chegou, assim com sua encomenda. Se possível, pague-me o valor, senhor Nan´udin.
— Deixa disso camarada; me paga um caneco.
— Entenderei que devo cobrar a Associação dos Arqueólogos... Enfim, descerei para os meus deveres. Sua encomenda está lá embaixo — E com um aceno, o carteiro se despediu.
Por incrível que pareça, quando eu fui pegar a minha encomenda, no andar abaixo, a noite já estava caindo, com o vento de Tibiasula soprando suavemente em meu rosto.
— Gostaria que eu mandasse alguém entregar a encomenda, senhor Nan´udin? — Perguntou Jakahr, tentando parecer amistoso. Apenas tentando.
— Muito obrigado, Jakahr, mas estou em boas condições.
Na última hora, eu só havia tomado três canecos daquele hidromel, logo estava sóbrio. A encomenda que a Associação queria era nada mais que uma pedra preciosa, negra como a noite, embrulhada e lacrada dentro de uma pequena caixinha. Não daria muito trabalho levar de volta.
O caminho da agência postal até onde a pirâmide da Associação não era muito longo. Eu apenas teria de continuar andando em linha reta até a Parte Leste da cidade, e lá encontraria meu lar e local de trabalho( pelo menos parte dele). Foi no meio do caminho que comecei a ouvi-los novamente.
Sussurros, chamando-me, mas não eram sussurros quaisquer. Eram os sussurros de meus antigos colegas de trabalho, meus amigos, tudo que eu tinha, mortos e tragados pela escuridão das tumbas de Ankrahmun. Todos abandonados por mim, que em vez de ajuda-los ou ao menos lutar até o último segundo, sempre fugira, abandonando-os.
O tormento e a elegia dos sussurros aumentava, que já não eram mais sussurros, mas vozes. Gritos. Prantos. A brisa suave de Tibiasula deu lugar à ventania de Zathroth, sombria, que em vez de levar os tormentos para longe, mais os aproximava. Em dado momento, a lua fora totalmente pelas nuvens, e sozinho nas ruas de Ankrahmun fiquei, com apenas a luz dos archotes para iluminar o meu caminho. Foi quando uma mão pálida tocou o meu ombro.
— Acalme-se, Abgar.
Um homem, careca, vestindo trajes rasgados, com uma grande e volumosa barca branca contrastando com seu corpo esquelético e sua pele queimada pelo som. Era Melchior, o mendigo cego da cidade, mas ele estava estranhamente calmo. Estranhamente calmo para alguém que estava a sangrar, resultado de meu reflexo com a cimitarra em minha cintura.
— Oh deuses... Melchior, você precisa se...
— Estou bem Abgar. — O homem fez uma pausa. — Tem uma amiga sua querendo ajuda, no portão norte.
— Mas eu não tenho nenhuma amiga, Melc...
— Serana... Ela mandou dizer que se chamava Serana.
Era impossível. Serana morrera há dois meses atrás, quando a abandonei em nossa última expedição juntos, quando estávamos a desbravar uma das tumbas ao nordeste da cidade, a famosa Tumba do Petróleo como batizei mais tarde.
— Cuidado, Abgar... Um forte cheiro de açafrão exalava de sua amiga, e embora eu não possa mais enxergar, eu posso ver o mundo... E sua amiga Serana está morta.
Só podia ser uma armadilha. Algo ou alguém queria alguma coisa comigo.
— Os gênios tem algo a ver com isso, Abgar Nan´udin, embora eles poderiam ter lhe matado há muito se quisessem.
— MAS O QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO? — Eu estava perdendo a calma. Mal conseguira ouvir as últimas palavras de Melchior, com as vozes cada vez mais presente em minha cabeça, além de Melchior não demonstrar nenhuma reação com um enorme corte na lateral de seu corpo. Nenhuma.
— Sou apenas um mensageiro, e me conformo com minha função. Há dois meses atrás, você se tornou outra coisa, Abgar Nan´udin Nannishibara Mahrdis... — E com um leve sorriso, se despediu. — Boa sorte, Sentinela.
Mal falara isso, eu inconscientemente pisquei, e subitamente, Melchior não estava mais a minha frente. Mais perguntas do que respostas foram criadas naquele encontro. Como ele sabia o meu nome completo, nome este que eu demorei anos para realmente descobir? Por que me chamara de Sentinela? Seria tudo uma armadilha? Ou uma alucinação por causa da bebida?
Equipei um anel branco que sempre carregava comigo, que os anões gostavam de carregar sempre consigo em suas bebedeiras; nada. As vozes continuavam, e as sensações continuavam tão reais quanto antes. Se eu realmente queria respostas, teria de ir encontrar Serana no portão norte.
A caminhada até o portão norte fora relativamente mais tranquila, com as vozes se tornando menos audíveis ao longo do caminho. No alto da escadaria do portão norte, iluminada pela lua, estava Serana. Do mesmo jeito que sempre fora, com sua armadura dourada, suas lanças encantadas sempre empunhadas, seu escudo de aço preso a seu braço esquerdo.
Conforme eu me aproximava de Serana, notei que seus detalhes não mudaram nada desde a última vez que a vira. Os mesmos olhos cor de âmbar, os mesmos longos cabelos morenos, porém a pele estava pálida. A princípio pensei que era por causa da iluminação da lua, mas realmente, conforme eu me aproximava, notei cada vez mais nitidamente a palidez de sua pele.
— Serana... Não há palavras para definir a atrocidade que cometi naquele dia.— Disse, já no final da escadaria, há uma distância segura da paladina a minha frente.
— Não foi sua culpa. Sei que sempre lutou e prezou pelo nosso bem, Abgar. — Disse, com um sorriso no rosto.
— Serana, sei que possa parecer inadequado, mas tenho que lhe perguntar... — Não pude conter as lágrimas. — Mas você está morta?
— Sim.
A simplicidade da resposta me chocou. Embora muitos mortos vivos caminhassem no reino dos vivos em Ankrahmun, rituais muito elaborados eram feitos, e esse não parecia ser o caso de Serana.
— Não quero me mantar no reino dos vivos, muito pelo contrário. Quero que minha alma deixe este corpo e atravesse o Portal das Almas em Rookgaard, Abgar.
— Mas... Por quê simplesmente não deixou este corpo, Serana?
— Você deve ter sentido o cheiro de açafrão há quilômetros. Sabe do que se trata... E há mais pessoas nessa condição
Logo eu compreendi. Os gênios, mais especificamente os verdes, embora não mexessem tanto com a necromancia, tinham conhecimentos tão profundos no campo quanto a humanidade tinha. Malor, com sua crueldade, provavelmente usaria de quaisquer meios para ganhar a sua eterna guerra contra Gabel e seus djinn benignos.
— Sei onde fica a fortaleza deles. Há camelos aqui perto... Peço que use a jóia que está com você, Abgar.
— Mas com... Como sabia que essa jóia chegaria? Você a enviou?— Perguntei, surpreso de Serana saber que eu possuía uma jóia que a Associação cobiçava... Ou até mesmo ter mandado.
— Cobrança de favores... Nunca é bom dever. Nem mesmo para os mortos.
Eu tinha muitas perguntas a fazer, mas intendia a urgência da situação. Tão logo que achamos os camelos, saímos cavalgando noite adentro, na obscuridade e na friagem do deserto; a cavalgada fora silenciosa, sem nenhuma palavra trocada, e em nenhum momento ouvi as vozes dentro de minha cabeça. Não muito se passou quando alcançamos a montanha ao oeste da cidade.
— Apenas me siga... Sei de uma entrada secreta na fortaleza destes malditos.
O caminho nas montanhas adentro fora tortuoso. Encontrei muitos escorpiões, largatos venenosos, cobras e outras criaturas peçonhentas. Se no deserto já era frio, dentro da montanha onde a luz do sol jamais alcançara o clima era ainda mais gelado e tenobroso. As vozes estavam voltando, e dessa vez pareciam mais claras.
— Abgar... Essas vozes... São das pessoas controladas pelos gênios. Elas estão pedindo ajuda.
Então era isso. Todo esse tempo, as vozes eram dos membros de minhas antigas expedições, pedindo socorro. Dizia-se que se você morria dentro de uma tumba, sua alma seria para sempre emprisionada lá dentro. Mas neste caso, não era nas tumbas do grande deserto de Darama, mas sim na fortaleza dos gênios e efreets, Mal'ouquah.
Nos aproximamos da fortaleza, pelo que parecia ser a porta do fundo. Serana explicou brevemente que os gênios estavam aprisionando as almas em uma bola cristal, no “porão” da fortaleza. Entramos cautelosamente, e passamos sem alertar nenhum gênio de nossa presença. Serana andava decidida por aqueles corredores frios de mármore e arenito, logo chegando a uma escada que levava ao andar inferior da fortaleza, o porão.
Infelizmente, logo fomos descobertos ao descermos. Um gênio gritou algo em sua língua, palavras que eu desconhecia, mas sabia muito bem o significado, e sabia que com isso logo muitos viriam. Teríamos de ser rápidos.
Serana parou de andar furtivamente e disparou a frente. Todas as criaturas que víamos logo eram trucidadas, sejam elas gênios, ou as criaturas que habitavam o porão, sendo elas algumas gárgolas, mortos vivos e renegados da sociedade humana que trabalhavam para os gênios. Após uma correria, Serana pegou um súbito desvio a esquerda, chegando numa sala com uma piscina de lava ao centro, e um altar logo atrás, com a bola de cristal que Serana mencionara.
— VOU SEGURÁ-LOS, EDGAR. APENAS COLOQUE A PEDRA DO ALTAR.
A ação fora rápida. Tão logo suas palavras foram ditas, minhas mãos se adiantaram para cumprir sua vontade. Ao me aproximar do altar, despejei a pedra dentro do líquido viscoso do altar. Seria só isso?
— CORRA, ABGAR! VAMOS FUGIR!
Não esperei por um segundo chamado. Juntos, Serana e eu saímos correndo, abrindo caminho a força através daquela fortaleza. Ao chegarmos no andar térreo, reparamos no grande número de gênios.
— POR CIMA! NÃO DEVE HAVER NINGUÉM.
De fato, uma observação inteligente. Ao chegarmos ao andar superior, nos vemos cercados. Em uma tentativa desesperada, ambos pulados de uma janela aberta, e com a grande queda, apenas me lembrei de fechar os olhos, e uma escuridão tomou a minha mente.
Abri os olhos, acredito que horas depois. Estava encostado em uma palmeira, provavelmente de um oásis, e Serana estava a minha frente. Tentei me levantar, mas a pontade de dor em minhas costas me impediu.
— Muito obrigado... Abgar.
— Serana, eu...
— Há mais pessoas, como, precisando de ajuda, Abgar...
Conforme ela falava, o sol ia nascendo no horizonte. Os raios solares se refletiram em sua pele, e Serana ficou tão dourada quanto o ouro da montanha dos Anões, tão dourada quanto a sua armadura, tão dourada e esplêndida... Quanto um anjo. Eu tinha muitas perguntas a se fazer, muitas mesmo.
— Adeus... Abgar. — Disse Serana, com uma lágrima saindo de seus olhos. Pelo visto, espíritos podiam choras.
— Adeus... Serana.
— E Abgar... Sempre lhe admirei. Sempre quis lhe dizer palavras que nunca fui capaz de dizer enquanto viva...
Fiquei em silêncio. Não sabia o que responder, e sabia quais palavras eram essas. Palavras que eu sempre quis dizer em vida também. Palavras que expressavam o único sentimento que a humanidade tinha para lhe proteger, para se livrar das trevas, o que deve ter permitido Serana se livrar do domínio dos gênios e caminhar até mim. Era o amor, e palavras não eram necessárias para expressa-lo.
Com um último aceno, me despedi silenciosamente de Serana; quando o sol se irrompeu, me cegando temporariamente, Serana não estava mais a minha frente. Sua alma se fora, em direção a peregrinação ao outro mundo.
Spoiler: Texto 2
Comércio Com Estranhos
Este é com certeza um dos piores locais que já tive o desprazer de acordar. Se já não bastasse ser despertado pelo rugido de leões, notei que meu corpo todo suava como se eu tivesse adormecido dentro de um forno, provavelmente devido ao grotesco poço de lava feito sob medida para a cela que agora, aparentemente, devo chamar de lar.
Minha roupa esta imunda, a camisa azul que uso possui um largo rasgo nas costas e meus curtos cabelos escuros estão completamente bagunçados e cheios de pó. Ainda bem que minha calça marrom manteve sua integridade quanto aos rasgos, mas não posso dizer o mesmo dos meus belos sapatos vermelhos que agora estão com arranhões e um dos pés esta com a sola completamente destruída.
As paredes daqui onde estou são feitas de um material amarelo similar as areias de um deserto e possuem uma vasta coleção de marcas de sangue a qual não pretendo ampliar. Julgando pelas grossas barras de metal que compõem a porta do meu aposento e o balde para necessidades (ou quem sabe para vomitar de tantas náuseas devido ao calor), tenho grande convicção de que meus anfitriões não querem me ver longe daqui tão cedo.
Não tenho a mínima ideia de quanto tempo se passou desde que acordei e minha cabeça já parece pregar peças em mim, posso jurar que ouvi a lava falar comigo e me chamar de idiota em um tom um tanto quanto agudo. Seria talvez um sonho e eu esteja desacordado no deserto? Preciso voltar ao mundo real urgente antes que...
— Você deve ser o humano mais sem noção que já passou por aqui depois do velho Melchior.
Essas bolhas escaldantes de magma que saltam a cada minuto da poça estão cada vez mais claras em suas duras palavras, meu fim é certo.
— Espero não me arrepender por isso, humano imundo.
— Ai! Maldito rato! Que pelo menos espere a morte me alcançar para depois me roer!
— Não sou um rato qualquer e estou colocando minha cabeça em risco pelo que farei, então me escute!
— Pelo Rei Tibianus! Antes era a lava e agora escuto até um rato falante, que essa tortura mental seja breve.
— Você não alucinou em nenhum momento, idiota! Eu vivo infiltrado nesta fortaleza comandada pelos Efreet, meu trabalho é ver, escutar e anotar tudo. Posso te ajudar, caso você esteja disposto a colaborar também.
— Estou disposto a fazer qualquer coisa, até mesmo vindo de um pequeno roedor com os quais convivi por tantos anos em Thais.
— Primeiro de tudo, me conte a sua história, temos tempo, já que os Efreet te deixarão aqui para sofrer no calor por mais algumas horas e estou curioso em saber como alguém tão tolo chegou até este local.
Minha situação acaba de ir de desesperadora para ridiculamente estranha, mas este pequeno ser é minha única chance de sair daqui sem me tornar uma obra abstrata nas paredes cor de areia.
— Eu sou um simples comerciante de pães em Thais, embora não seja muito conhecido, possuo a mais bonita coleção de sapatos vermelhos de toda...
— Ok, não temos tanto tempo assim, seja breve.
— Num dos meus rotineiros roubos de trigo tive que me esconder em um barril que foi, ao que a duração da viagem indicou, levado até Venore e seguiu de barco até uma cidade com grandes pirâmides que eu acredito ser Ankrahmun, de acordo com alguns livros que li. Fiquei completamente perdido e vaguei até um velho cego chamar minha atenção, lembro que ele mencionou esses seres chamados Djinns e que eram bons comerciantes, disse também uma palavra de saudação para poder falar com estas criaturas. Como sou um ótimo comerciante, resolvi vir até os Djinns verdes e saudá-los, tudo que lembro depois disso é de acordar neste belo e aconchegante local, perfeito para um rápido suicídio.
— Você precisa me contar o que disse ao Djinn na porta de entrada, por favor.
Esse maldito rato começou a falar com um extremo tom de deboche na voz.
— Bem... Eu falei em alto e bom som exatamente o que o velho me ensinou: “DJANGO HUE”.
— (Risada incontrolável) POR FAVOR, REPITA!
— O que há de errado nisso que falei?!
— Tudo! Sua burrice é engraçada, porém trágica. Agora posso te revelar que eles pretendem cortar a sua língua e te libertar em meio aos leões que ficam do lado de fora da entrada secreta da fortaleza.
— Mas isso não é justo!
— Você tem razão, e por isso vou te dizer o que deve fazer: assim que um Efreet vier para te levar para a sua punição, sua única chance será lutar, seja tentando sacar a própria arma de seu inimigo ou até com seus punhos, não há alternativa.
— Parece fácil, devo fazer sem usar as mãos ou posso só fechar meus olhos?
— Eu nunca mencionei que seria fácil, ainda mais para um humano que parece que não se alimenta bem há anos.
— E agora você me diz o que quer em troca caso eu saia dessa com todos os membros do corpo.
— Preciso que jamais fale sobre mim a ninguém e que me traga queijo. É muito difícil conseguir roubar qualquer pedaço dos andares superiores, são Efreets demais de guarda e um rato seria facilmente transformado em cinzas caso fosse pego roubando queijo.
— Mas afinal, o que é você?!
— Se eu te contar, serei eu quem vai ter que arrancar a sua língua.
— Entendi o recado! Então além de derrotar um Djinn, terei que passar por mais um exército deles por um pedaço de queijo?!
— Sim, ou morrerá em minhas mãos.
— Vou me preparar psicologicamente o máximo que puder para poder... Pelos deuses lá vem um Efreet!
— Cale a boca ou me descobrirão!
Vejo uma figura verde, mas não qualquer verde, isso parece uma muralha pintada no tom mais forte das folhas da maior árvore plantada na floresta de Tiquanda. Seus olhos vermelhos me encaram com tanta frieza que imediatamente esqueço de minha companheira de cela feita de lava. Seu turbante roxo combina com seu cinturão, ambos decorados com os mais diversos adornos, mas ainda o que mais chama atenção é sua afiada lâmina que parece cortar o ar ao mero movimento de seus braços. A simples ideia de que tenho que vencer algo tão poderoso me dá calafrios, isso será impossível.
— Você vem comigo, humano.
A voz grave e cheia de maldade do Djinn me congela, preciso de um plano urgente.
— Abra minha cela e quem sabe assim poderei ir com você.
— Hmm, inseto insolente, veremos se falará tantas besteiras sem sua língua.
Ele está abrindo a cela, só terei uma chance.
— Faço questão que tome para si minha língua após cortá-la, quem sabe assim você consiga falar algo decente, gênio de merda.
— PAGARÁ POR TAMANHO DESRESPEITO, HUMANO INÚTIL!
Por incrível que pareça consigo ver seu movimento o suficiente para esquivar para fora da cela com todos meus membros ainda no lugar, mas preciso contra-atacar agora, mesmo que seja apenas com palavras.
— Minha falecida mãe teria dado um uso melhor a sua espada, seu... Arrghh, o que é isso?!
Ótimo. Tudo que precisava. O maldito Efreet me enfeitiçou. Toda a sala gira. Existem agora sete Efreets em minha visão e pelo menos dois deles possuem o dobro de braços que o normal, ou seria normal essas criaturas possuírem quatro braços?
— Morra bêbado!
Por algum milagre eu... desvio de tudo. Estou vendo direito? Tomei a arma do Djinn, mas quando fiz isso? Há muito sangue na sala... O rato falante está com a boca muito aberta, parece impressionado. O Efreet foi embora?
— Não vai me... Hicks!... Matar não!
Realmente, não há mais Djinn, apenas uma gelatina verde espalhada pelo chão, além de novas decorações sangrentas nas paredes, devo continuar.
No andar de cima são pelo menos trinta! Não! Quarenta Efreets! Algo está muito errado, me sinto ainda mais enfeitiçado, estão me deixando ainda mais bêbado? Escuto os mais variados tipos de vozes.
— O que esse humano faz aqui? O que houve lá embaixo?
— Não importa, ele morrerá aqui e agora por tal insolência!
— Ele desvia de todos nossos ataques!
— É impossível acertá-lo, ele é rápido de... AARRHH
— Tenha piedade, humano!
— É impossível que isso esteja... AHH, MEUS BRAÇOS
Um após o outro eles caem. Eu não entendo o que está havendo comigo, muito menos esses pobres Djinns, mas não tenho nada contra esses acontecimentos, apenas deixo minha mente acompanhar a melodia que meu corpo extremamente embriagado canta com a lâmina em meio a tantos Efreets mutilados.
— Ééé! Vocês paga... Hicks!... caro! Eu sou... Hicks!... Muito mais forte! OOHH, o queijo!
Atravesso um mar de corpos verdes, há tanto sangue e pedaços de Djinn espalhados que não consigo parar de tropeçar em meio a essa bagunça, sinto que se passaram longas voltas em uma grande ampulheta até eu alcançar o valioso queijo e cair pelas escadas ao encontro do rato falante, que ainda parece muito surpreso.
— Se você tivesse me contado que era tão habilidoso eu jamais teria duvidado de sua capacidade, rapaz! Jamais vi movimentos tão rápidos e com tanta intenção de matar, você deve ser um dos maiores guerreiros das terras tibianas!
— Sou apenas um... Hicks!... Pobre comercial... ante!
— Você está bêbado demais, mas deve seguir jornada antes que o restante da tropa venha atrás de você, corra! Ah, e muito obrigado pelo queijo, sinto que nossos caminhos se cruzarão novamente.
Ainda não consigo entender o andamento das coisas, tudo passa como flashes, olho para trás agora e vejo apenas cadáveres de leões, todos mortos cortados ao meio, quem seria capaz de matar seres tão fortes com tanta ferocidade? Mais um flash, acho que estou no deserto, minha cabeça parece estar voltando ao lugar, mas minhas forças acabaram. De nada adiantou escapar do inferno se morrerei sendo devorado por criaturas do deserto. Minha aventura acabará aqui, só espero que preservem meus... Sapatos.
(Doze horas depois um homem quase sem vida foi encontrado no deserto próximo a entrada de Ankrahmun, não se sabe se ele sobreviverá. O quadro de coma alcoólico é severo, mas felizmente ele não apresenta um único ferimento.)
@dopha
@Senhor das Botas
Quaisquer dúvidas, entrem em contato comigo.
Abraço,
Iridium.
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Jogue Tibia sem mensalidades!
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