no capitulo anterior..

Postado originalmente por
felipe567
Não perdeu os sentidos, mas não conseguia mover-se. Tudo sentia, porém, Parece até que sentia mais do que nunca. Sentia a grama picar-lhe o rosto e sentia os braços fortes que começavam a levantá-la.
-Cristiano... Você veio...
CAPITULO TRÊS - O começo das aulas.
Abraçou-se fortemente contra o peito que a amparava. O calor daquele corpo deu-lhe febre e seus lábios espremeram-se loucamente contra aquela pele quente, com cheiro de colônia. Uma correntinha roçou-lhe o rosto e ela ergueu a cabeça, oferecendo os lábios úmidos, ávidos, desesperados.
Uma boca maravilhosa colou-se a dela, enquanto a força daqueles braços a apertavam com loucura. Sentiu-se estourando em sua cabeça como um coro de anjos.
* * *
-Como eu fui idiota! Como eu sou idiota!,Fiquei escondida naquele jardim, como uma idiota, imaginando, como uma idiota, que Cristiano estava dançando com a Rosana a festa inteira. Pobrezinho, vai ver ficou o tempo todo me procurando...Até me encontrar no jardim, bêbada como uma idiota!
-Idiota... -xingou o inimigo rachado.- E se ele ficou mesmo com Rosana a festa inteira?
-Cale-se! E por que ele foi me procurar no jardim? Por que me beijou? Ah, eu posso morrer agora,mas aquele beijo ninguém vai tirar de mim!
Aquele beijo... Isabel ainda sentia os lábios queimando e as narinas embriagadas com aquele cheiro de sonho.
Tia Adelaide tinha se incumbido de levá-la para casa e Isabel acordara, naquele domingo, com enjôo de ressaca e gosto de Cristiano na boca.
A manhã começou mal, naturalmente, com a mãe piorando da enxaqueca e lamentando-se pelo que diriam os vizinhos ao ver sua filha – uma fedelha! – chegar em casa bêbada como uma porca.
-Ah, se seu pai fosse vivo você ia ver o que ia lhe acontecer!
-Mas papai está vivo!
-Não. Para mim, ele está morto. Com aquela sujeitinha, para mim ele está morto!
-Mortos não mandam cheques, mamãe...
Tudo, afinal, tinha passado menos a lembrança daquele beijo. Menos a lembrança de Cristiano. Pensou em telefonar para ele, mas, se telefonasse o que iria dizer? Na certa acabaria nervosa, fazendo algumas de suas gozações, e estragaria tudo. Não, tudo não. Não havia o que pudesse estragar o que tinha começado com aquele beijo. Aquele beijo fora um compromisso. Não por ter sido um beijo. Mas por ter sido um beijo como aquele. Isabel tinha pressa. É claro que tinha pressa. Era preciso reencontrar Cristiano para não o largar nunca mais. Mas era domingo, dia-de-sair-com-o-papai. Esta era outra razão para era outra razão para esperar mais um dia, o dia que separava a descoberta do seu sonho e o reinício das aulas. O início de uma nova vida. Uma vida com Cristiano. Pensou em escrever. Ou mais. Um texto onde ela poria de tudo, desde versos nascidos da paixão até pequenas confissões, como se ela quisesse pôr-se a limpo,exibir sua alma nua,preencher um passaporte que Cristiano a tomasse,levasse embora e nunca mais a deixasse partir.
Escrever, ela sabia. No colégio, ninguém podia disputar com ela na hora de falar e escrever. Ah, se pudesse ela usaria aquele domingo apenas para pensar, para repassar cada momento daquele encontro estonteante, daquela felicidade imensa.
Os domingos, porém, não eram de Isabel, nem para escrever, nem para pensar. Os domingos eram de papai.
Quando a buzina soou, Isabel deu uma última olhada para o inimigo, mostrou-lhe a língua e foi ao encontro do pai de todos os domingos.
* * *
-Papai, você me acha linda?
O restaurante estava lotado, como acontece com os restaurantes aos domingos. Há quantos domingos em quantos restaurantes Isabel já almoçara com o pai, desde que a “sujeitinha” o havia arrancado de casa? Talvez esse número não tivesse tanta importância, agora que a menina observava que, a cada domingo, caía à qualidade do restaurante.
Mas ainda era em dinheiro que o pai lhe falava todos os domingos, e era em dinheiro que ele estava falando quando foi surpreendido pela pergunta da filha.
-Hein? É claro que eu acho. Você é a princesa do papai. A garotinha mais linda do mundo!
-Ah, não. Como garotinha não, pai. Quero saber se você me acha uma mulher linda!
Isabel estava feliz como nunca, naquele domingo. Queria fazer algo de bom,,algo grande,para dividir sua felicidade com alguém.
-Papai, quero conhecer a Lúcia.
Lúcia. A sujeitinha. Imagem de bruxa e megera inculcada em sua cabeça pelos lamentos da mãe. A mãe abandonada à sua enxaqueca e a pensão mensal que garantia à menina as refeições de todos os dias, mas que já estava comprometendo a qualidade dos almoços de domingo.
-A Lúcia?Mas você sempre se recusou a...
-Isso foi antes, papai. O antes acaba passando Hoje eu me sinto diferente. Acho que quero fazer todas as pazes que puder. Vamos começar pela Lúcia?
O pai passou o guardanapo pelos lábios e pareceu subitamente interessado no exame do paliteiro.
- Sabe, Isabel... Eu estava esperando o momento certo para te contar... É que... eu não
estou mais com a Lúcia.
“Não está mais com a sujeitinha?”, pensou Isabel. “Então o serviço de informações da mamãe perdeu essa fofoca?”
- Talvez sua mãe tivesse razão. . . A Lúcia era . . . bem . . . Mas eu encontrei alguém realmente fora de série. O nome dela é Helena. Você vai adorar! Hoje, não é possível, porque ela foi visitar os pais, já que eu ia sair com você. Mas, no próximo domingo, eu vou. . .
Isabel pôs a mão sobre a mão do pai e sorriu:
-É melhor não fazer planos, papai. No domingo que vem talvez não seja mais Helena. Pode ser Márcia, ou Cristina,ou...
-Isabel! Você não devia...
* * *
-Como será que o papai encontrou essa Helena? E a Lúcia? E a mamãe? Será que tudo começou com um beijo? Um beijo como o de Cristiano?
À noite, abraçada ao travesseiro, um só nome ocupava todo o ser de Isabel.
-Cristiano...
Não conseguia lembrar-se do primo em meio às pálidas recordações dos garotos de sua infância. Teria sido aquele que se divertia batendo nos menores?Ou aquele que teimava em beijá-la?
-Quer me beijar agora, Cristiano?
* * *
-Oi, Isabel! Nem telefonei ontem por que... -Rosana chegou na classe atrasada,como sempre.
O professor já estava entrando, e Isabel só teve tempo para uma frase:
-Eu tenho uma coisa maravilhosa para te contar, Rosana...
-É? Eu também tenho uma novidade que vai fazer você cair dura, Isabel!
-Depois a gente fala.
Física! Uma matéria nova, como tudo deveria ser novo naquele início de colegial. Tinha jeito de matemática. Naquele momento, porém, o que Isabel pensava era uma boa aula de literatura, com poemas de Fernando Pessoa, ou Vinicius, ou Eduardo Alves da Costa, ou João Cabral...
Cristiano, naquele momento, também estaria assistindo sua primeira aula no segundo ano, e Isabel pensou em fingir que não entendia a tal física para, mais tarde, tomar algumas aulas particulares com ele. Sempre o primeiro da classe, não foi isso que lhe disseram?Mas não era sobre física que a menina gostaria de conversar com Cristiano. Ah, não era não!
A professora procurava sempre conquistar a classe, fazendo-se simpática e engraçada. Simpática até que ela era, mas decididamente não era engraçada.
Distraída, Isabel deixava a caneta deslizar pelo caderno. Devia tomar notas, mas as palavras que lhe entravam pelo ouvido chegavam totalmente transformadas às pontas dos dedos.
-. . . A física estuda a relação que existe. . – esse processo de transformação é o objetivo...
Neste físico de um deus grego,
numa intensa relação,
eu,pálida e bêbada ,tremo
e me afogo e me sufoco
entre loucura e paixão...
-... Entre a matéria e a energia...
Quero fundir meu corpo
No teu corpo junto ao meu.
Nos teus braços serei cega
Para que sejas o meu guia.
Nós seremos a matéria,
Nosso amor será a energia..
-.... a energia afeta a matéria...
Se esse amor me modifica,
Me transforma,me edifica,
Se ele afeta tanto a mim,
Também te transformará.
A energia desse amor
afetou-nos para sempre,
e a matéria que hoje somos
outra matéria será...
-... e a matéria afeta a energia...
Seremos dois novos amantes
Pelo amor energizados,
transformados,
mas em quê?
Quem era antes de mim?
Quem sou depois de você?
– esse processo de transformação é o objetivo...
No meu seio serás meu
Para o uso que eu quiser.
Nos teus braços me abandono.
Ao teu lado sou mulher...